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O que acontece com nosso mundão?

Por incrível que pareça, Donald Trump começou seu mandato na Casa Branca, fazendo exatamente o que prometeu. Por exemplo, assinou uma ordem executiva para enfraquecer o Obamacare (lei que facilita a obtenção de seguros-saúde para pessoas de baixa renda ou com problemas pré-existentes à contratação do seguro), assinou um decreto para construção do já famoso muro na fronteira com o México, abandonou o TPP (acordo de livre comércio Transpacífico), liberou a construção de um oleoduto que passará sob o rio Missouri (principal fonte de água potável das reservas dos índios Sioux) e decretou também a proibição da entrada nos Estados Unidos de viajantes de sete países muçulmanos (incluindo refugiados da guerra da Síria).

A revista alemã Der Spiegel colocou na sua capa uma ilustração com Donald Trump decapitando a Estátua da Liberdade. A ilustração foi feita pelo artista Edel Rodríguez, refugiado político cubano que vive nos Estados Unidos desde 1980.

U. S. President Donald Trump is depicted beheading the Statue of Liberty in this illustration on the cover of the latest issue of German news magazine Der Spiegel

Talvez a melhor capa fosse Trump, retirando a placa de bronze do pedestal da Estátua da Liberdade, onde está escrito o famoso poema “The New Colossus” (O Novo Colosso) da poetisa americana Emma Lazarus.

Não como o gigante bronzeado de grega fama,
Com pernas abertas e conquistadoras a abarcar a terra
Aqui nos nossos portões banhados pelo mar e dourados pelo sol, se erguerá
Uma mulher poderosa, com uma tocha cuja chama
É o relâmpago aprisionado e seu nome
Mãe dos Exílios. Do farol de sua mão
Brilha um acolhedor abraço universal; os seus suaves olhos
Comandam o porto unido por pontes que enquadram cidades gémeas.
“Mantenham antigas terras sua pompa histórica!” grita ela
Com lábios silenciosos “Dai-me os seus fatigados, os seus pobres,
As suas massas encurraladas ansiosas por respirar liberdade
O miserável refugo das suas costas apinhadas.
Mandai-me os sem abrigo, os arremessados pelas tempestades,
Pois eu ergo o meu farol junto ao portal dourado.”

Parece que Trump tentou fechar as portas do país aos refugiados, “massas encurraladas ansiosas por respirar liberdade”. Só não atingiu completamente seu intento devido à resistência da Justiça americana. Este assunto irrita tanto o novo presidente americano que ele interrompeu uma conversa telefônica com Malcolm Turnbull, primeiro-ministro da Austrália, quando este tentou garantir o cumprimento da promessa americana de acolher 1.250 refugiados que se encontram em um centro de acolhida australiano.

Por outro lado, Trump tolera e, até mesmo, afaga o presidente russo Vladimir Putin. Esta relação pode ser sintetizada em uma das respostas de Trump na entrevista para Bill O’Reilly da Fox News. Após Trump falar que respeita Putin e que a Rússia poderá ser uma importante aliada na luta contra o terrorismo islâmico, O’Reilly contra-argumentou dizendo que Putin era um assassino, Trump defendeu assim o presidente russo:

– Há muitos assassinos. Você acha nosso país tão inocente?

trump_putin_the-economist

Para deixar o caso do relacionamento Trump e Putin ainda mais nebuloso, nesta semana, o general reformado Michael Flynn, assessor de Segurança Nacional da presidência, renunciou após o vazamento da informação de um encontro com o embaixador da Rússia em Washington acontecido algumas semanas antes da posse de Trump. Segundo o jornal The Washington Post, a CIA havia compartilhado estas informações com o novo governo americano. Trump, na sua conta oficial do Twitter, reclamou dos vazamentos ilegais seletivos das relações do novo governo com a Rússia.

twitter_donald-trump_russia

Twitter de Trump sobre vazamentos de informações (Fonte: El País)

Neste ambiente de indefinições sobre a real posição do novo governo americano sobre a Rússia, surgem várias especulações sobre futuras ações militares de Vladimir Putin no leste europeu. O semanário The Economist apresenta os Países Bálticos (Letônia, Estônia e Lituânia), repúblicas que faziam parte da extinta União Soviética, como possível novo alvo russo. Assista ao vídeo abaixo.

Assim temos o risco da volta dos conflitos na Europa, potencializados pelo enfraquecimento da Comunidade Europeia e da OTAN (Organização do Tratado do Atlântico Norte). Por outro lado, vemos o crescimento no mundo inteiro de atitudes xenófobas – medidas anti-imigração, recusa ao acolhimento de refugiados de guerras e discriminação contra religiões (especialmente o Islamismo).

Os habitantes da maioria dos países ainda não se deram conta de que os imigrantes exercem as funções que os locais não querem mais fazer ou não conseguem fazer.

Tudo isto traz medo e insegurança às pessoas. Os políticos da maioria dos países democráticos também perderam a credibilidade. Os partidos tradicionais ficaram muito parecidos entre si. Os governos perderam poder. Atualmente as corporações econômico-financeiras se tornaram mais poderosas do que os governos. Neste formato, nenhum país tem força para fazer qualquer reforma radical. Só restam ajustes e ações puntuais. Por outro lado, as pessoas, cada vez mais infantilizadas, querem direitos sem deveres ou contrapartidas. Querem que seus empregos sejam preservados, mas querem também comprar produtos baratos. Como se fosse possível o governo proteger apenas seu ramo de negócio. As pessoas sonham com um passado que nunca existiu. Aí se criam Trump e Brexit, entre outros.

Estamos em frente a uma bifurcação na história da humanidade. Se abraçarmos a ideia do “nós primeiro”, agirmos com preconceito, acreditarmos que o problema está em outro povo, raça ou religião, então escolheremos o caminho do totalitarismo. Vocês não estão assistindo os tristes espetáculos diários de Donald Trump, atacando a imprensa e vendendo aos seguidores os seus “fatos alternativos”? Hitler escolheu os judeus como inimigos da Alemanha durante o Nazismo. Na década de 50, o senador americano Joseph McCarthy elegeu os comunistas como inimigos da nação e patrocinou uma terrível caça às bruxas. Hoje Trump pode escolher os muçulmanos ou os mexicanos como os vilões…

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Senador Joseph McCarthy (Fonte: Wikipedia)

Existe um outro caminho a ser trilhado. Devemos abandonar o consumismo e a especulação financeira. No futuro, teremos crescimento populacional zero e crescimento do PIB zero – mais três ou quatro décadas, chegaremos lá. O sistema deve ser completamente redesenhado. A solidariedade entre as pessoas e povos deverá ser o ingrediente indispensável nas relações sociais e econômicas para construirmos um mundo mais justo e fraterno. Todos devem abraçar este grande desafio, não é trabalho para um punhado de líderes populistas ou salvadores da pátria.

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Para Obter a Paz, não Basta uma Vitória Militar sobre o Estado Islâmico

Há uma semana, as pessoas ficaram chocadas com a série de atentados terroristas acontecidos na noite de sexta-feira em Paris. O Estado Islâmico assumiu a responsabilidade pela operação que causou a morte de dezenas de pessoas, com 89 vítimas fatais apenas na casa de espetáculos Bataclan.

Grávida tenta fugir pela janela do Bataclan

Grávida tenta fugir pela janela do Bataclan

Três grupos islâmicos, considerados por muitos como terroristas, surpreenderam ao condenar veementemente os atentados em Paris. O grupo libanês xiita Hezbollah e os movimentos palestinos Hamas, no poder na Faixa de Gaza, e Jihad Islâmica desaprovaram a ação do Estado Islâmico que vitimou inocentes. Assim norte-americanos e russos, todos os países europeus, todos os países muçulmanos (independente da orientação sunita ou xiita), além de diversos grupos armados islâmicos alinharam-se no objetivo de acabar com a ameaça do Estado Islâmico.

Abaixo está a tradução de uma nota publicada no diário “The Economist Espresso” na terça-feira passada:

Cada um com seu próprio interesse: o Oriente Médio depois de Paris

A região fragmentada está unida na indignação e sobre a necessidade de fazer mais para combater Estado Islâmico. Os líderes políticos concordam com mais ataques aéreos, incluindo um bombardeio francês contra Raqqa, base síria do EI. No entanto, apenas esta unidade é tão profunda. Muitos libaneses estão reclamando que os atentados mortais em Beirute, um dia antes dos ataques em Paris tiveram muito menos atenção. Alguns sírios apontam que Bashar al-Assad matou milhares a mais do que o EI. Todos os lados estão usando os ataques para reforçar suas narrativas: o regime de Assad insiste que está combatendo apenas “terroristas”, em vez de seu próprio povo; no Egito Abdel-Fattah al-Sisi usa a ameaça extremista para justificar a regra da mão de ferro. Uma segunda rodada de conversações de paz sobre a Síria neste fim de semana obteve pouco progresso. Os grandes vencedores até agora são os principais aliados do Ocidente, os curdos. Eles estão propensos a tirar proveito de mais ataques aéreos para expandir seu território.

Para entender (ou compreender menos ainda) as complexas relações entre os diversos agentes que atuam no Oriente Médio, veja a figura abaixo.

Middle Eastern relationships

Não tenho dúvida que os territórios ocupados pelo EI no Iraque e na Síria serão reconquistados e este grupo perderá grande parte do seu poderio bélico. Infelizmente tenho convicção que esta futura vitória militar não trará paz para o mundo e estabilidade para o Oriente Médio em particular.

Não farei uma detalhada análise sobre as causas do agravamento dos conflitos na região ou o aumento da violência dos terroristas mundo afora. Apenas levantarei alguns pontos para reflexão.

Em primeiro lugar e acima de tudo, tão importante quanto neutralizar militarmente o Estado Islâmico é apoiar social e economicamente a enorme população muçulmana pobre. Estas pessoas marginalizadas são a matéria prima para pseudolíderes religiosos radicais. Como apresentei no artigo “A Ignorância, o Atraso e o Oportunismo” de 2012, metade da população de analfabetos do mundo é muçulmana e dois terços deste total são mulheres. Sem empregos, sem educação e saúde, a juventude muçulmana carente vira presa fácil dos aliciadores de grupos terroristas. Isto vale inclusive para os jovens que vivem na periferia de Paris ou outra cidade europeia.

Sem dúvida, uma ação diplomática ampla também deve ser feita. Existe uma janela de oportunidade, na qual os atores principais têm um inimigo em comum – o Estado Islâmico. As diversas linhas do Islã – sunitas, xiitas e alauitas sírios, além dos curdos e dos governos do Irã, Iraque, Arábia Saudita, Turquia, Egito, Síria, Israel, Estados Unidos, Rússia e Comunidade Europeia deveriam buscar um grande acordo em busca da paz e estabilidade na região.

Na Primeira Grande Guerra Mundial, a Alemanha foi derrotada e o acordo de paz, assinado em Versalhes na França, foi terrível para o país. Anos depois, o Nazismo ascendeu na Alemanha com o que parecia ser a única forma para reverter aquela situação. Derrotas humilhantes e acordos de paz parciais e injustos causam revolta entre a população e favorecem o surgimento de lideranças populistas. Durante uma guerra, cada bombardeio que atinge uma escola ou um hospital gera novas vítimas inocentes. Serão os mártires a serem explorados por estes regimes violentos.

Outro ponto é a interpretação literal do Alcorão pelo Estado Islâmico, sem o entendimento que a peregrinação de Maomé (Profeta Muhammad) ocorreu no início do século VII. Também não são consideradas as mensagens de perdão e compaixão contidas nesta escritura. Da mesma forma, a Bíblia tem livros que regulamentam o comportamento dos fiéis – Levítico e Deuteronômio. Por exemplo, se a filha de um sacerdote se prostituir, deve ser queimada viva diante de todos de acordo com o Levítico 21:9. Um filho muito rebelde, que não obedece a seus pais, pode ser condenado à morte por apedrejamento, conforme Deuteronômio 21:18-21.

Os homens e mulheres bombas seguramente não são perdoados pelo Alcorão. Não sei se alguma religião incentiva ou, pelo menos, perdoa o suicídio. Ou seja, esta é mais uma exploração da ignorância e da completa falta de significado da vida de um ser humano usado como um objeto descartável a favor dos interesses de líderes inescrupulosos.

Quando o Xá Reza Pahlevi foi deposto pela revolução islâmica do Irã, no final dos anos 70, o seu líder, Aiatolá Khomeini, virou a representação do Mal no Ocidente.

Aiatolá Khomeini com uma criança (foto bem diferente das publicadas usualmente no Ocidente)

Aiatolá Khomeini com uma criança (foto bem diferente das publicadas usualmente no Ocidente)

Os Estados Unidos armou o Iraque de Saddam Hussein para lutar contra o Irã para impedir que outros países da região se transformassem em Estados islâmicos. Na mesma época, ainda sob a Guerra Fria, os americanos apoiaram a resistência às tropas soviéticas no Afeganistão. Diz-se que o Al-Qaeda de Osama Bin Laden recebeu armas, dinheiro e treinamento dos americanos durante este conflito. O Afeganistão ficou esquecido e em ruínas após a dissolução da União Soviética em 1989. O Al-Qaeda revoltou-se contra os americanos que eram aliados de Israel na região e, em 11 de setembro de 2011, protagonizaram uma série de atentados em solo americano, culminando com a destruição das torres gêmeas do World Trade Center em New York. Em represália, os Estados Unidos invadiu o Afeganistão, atrás de Bin Laden. Depois invadiu pela segunda vez o Iraque, caçou Saddam Hussein e o país se transformou em um barril de pólvora. Acabou surgindo uma dissidência ainda mais radical do que o Al-Qaeda, nascia o Estado Islâmico, cujo objetivo é a criação de um califado no Iraque e Síria.

Ou seja, se apenas a opção militar for considerada, teremos novos e mais terríveis capítulos desta história. Diplomacia e investimentos econômicos e sociais são indispensáveis. Esta crise é uma grande oportunidade!

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A Redução da Maioridade Penal

Segundo pesquisa de opinião pública do Datafolha, 87% população brasileira apoia a redução da maioridade penal de 18 para 16 anos. Dentre as pessoas favoráveis a esta medida, 74% desejam que o novo critério seja aplicado a menores praticantes de qualquer tipo de crime, incluindo furtos simples.

Segundo diagnóstico apresentado pelo Conselho Nacional de Justiça há um ano, o Brasil possui hoje a quarta maior população carcerária do mundo, sem considerar os presos domiciliares. Veja o quadro abaixo:

Ranking população prisional mundial

Você pode ficar surpreso com a liderança folgada dos Estados Unidos neste ranking. Em artigo na edição da semana passada do “The Economist”, fica clara a desigualdade do sistema prisional americano, onde, com menos de 5% da população mundial, o país detém cerca de um quarto dos seus prisioneiros: mais de 2,3 milhões de pessoas. Apesar de um negro ser o seu presidente, o país ainda não conseguiu equacionar bem sua questão racial. Um terço dos homens negros americanos deverá ser preso em algum ponto de suas vidas, e uma em cada nove crianças negras tem seu pai atrás das grades.

Voltando para o Brasil, além de mais de meio milhão de pessoas em prisões e presídios, existem mais 148 mil pessoas em prisões domiciliares, totalizando quase 716 mil pessoas privadas de liberdade no nosso país. O gráfico abaixo mostra a população prisional brasileira, incluindo os presos domiciliares, e o número de vagas disponíveis.

Deficit vagas presidios

De acordo com gráfico acima, dever-se-ia dobrar o número de vagas nos presídios brasileiros, atualmente superlotados. Nas últimas décadas, houve um crescimento do poder de grupos como o PCC, Primeiro Comando da Capital, que supostamente tem como um de seus principais líderes, Marcos Willians Herbas Camacho, conhecido como Marcola. Estes grupos buscam manter uma ordem interna nos presídios, garantindo a segurança e, até mesmo, assistência jurídica para os apenados. Em troca, os ex-detentos trabalharão para a organização criminosa ao ganharem a liberdade, mesmo a condicional.

Hoje os presídios brasileiros fazem um péssimo trabalho de ressocialização dos apenados. A grande maioria não estuda, trabalha ou aprende um ofício honesto enquanto está preso. Em muitos presídios não há separação entre os presos de baixa periculosidade dos presos de alta periculosidade. Tão pouco há separação de acordo com a faixa etária ou reincidência. Para este ambiente terrível, a maioria da população brasileira deseja enviar adolescentes infratores. Estes jovens serão presas fáceis de organizações criminosas como o PCC que passarão a ter a sua disposição, dentro dos presídios, um novo fluxo constante de trainees.

A presidente da Fundação Casa de São Paulo, Berenice Maria Gianella, informou em um artigo que apenas 2,43% dos adolescentes cumpriam medidas socioeducativas de internação em 2012 devido a crimes graves como latrocínio (roubo seguido de morte), estupro e homicídio doloso (quando houve intenção de matar). Assim enviar a totalidade dos adolescentes infratores para os presídios, um grupo quarenta vezes maior do que apenas os praticantes de crimes graves, é um erro gravíssimo. Ao invés de melhorar a segurança pública, a redução irrestrita da maioridade penal poderá ativar uma enorme bomba relógio social. Achar que esta medida resolverá a questão de segurança pública no país é o mesmo que limpar a casa, varrendo a sujeira para debaixo do tapete.

Para ajustar todo o sistema prisional brasileiro seriam necessários alguns bilhões de reais, sem contar o alto custo operacional mensal. Para salvar a juventude pobre e marginalizada, que acaba delinquindo devido a inúmeros motivos como a desestruturação familiar e falta de alternativas culturais e educacionais, poder-se-ia investir maciçamente em educação. Manter crianças e adolescentes no contra-turno escolar seria ótimo para estimular interesse pela leitura, cultura e ciências.

Se você quiser mais informações sobre o assunto, leia o artigo publicado pela Agência Pública (jornalismo independente), onde também são mostrados as humilhações e os maus-tratos sofridos pelos adolescentes internos da Fundação Casa de São Paulo.

Jogados aos Leões – Agência Pública

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Almoços de Negócios e o Ladrão Ético

Almoços com clientes, fornecedores ou parceiros de negócios são comuns no mundo corporativo. Se for possível, prefiro não conversar sobre assuntos ligados ao negócio durante a refeição, mas, algumas vezes, não tem jeito, o tempo disponível é apertado e devemos usá-lo com a maior eficiência possível. Podemos ter uma refeição mais agradável quando o almoço for uma pausa nas discussões, ou o final da reunião, ou o encontro antes da reunião.

business lunch

Nestas situações, podemos aproveitar para conhecer melhor as pessoas através de um bate-papo informal do que tratando um assunto “oficial” da empresa. Às vezes, alguém monopoliza a conversa e se revela um narcisista – tudo que ele faz é mais bem feito ou tudo que ele tem é melhor. Já passei também por situações em que o cara passou todo o tempo se queixando de alguma coisa, inclusive da própria empresa – são as vítimas do mundo. Bom mesmo é quando se almoça com um bom contador de histórias. Já ouvi algumas impossíveis de acreditar, mentiras deslavadas. As melhores são aquelas que tangenciam o improvável.
Lembro-me de uma que ouvi de um engenheiro, dono de uma pequena empresa. Certa vez, ele havia deixado seu automóvel estacionado na rua e, quando voltou, ele não estava mais ali, foi roubado. Pior ainda, seu notebook estava no interior do carro. Pior ainda, ele não fazia um “backup” dos arquivos do computador há meses. O empresário foi a uma delegacia, fez a ocorrência e acionou o seguro. A polícia não localizou o automóvel e ele entrou em desespero, porque dados preciosos de projetos realizados pela sua empresa, que estavam no notebook roubado com o carro, foram perdidos.

No dia seguinte, ele recebeu uma ligação. Um homem perguntou o nome dele e se o seu carro foi roubado. Após as confirmações, o homem disse que estava com o notebook e perguntou se ele o queria de volta. Ele disse que sim e uma negociação foi iniciada. Todos os detalhes foram acertados: o valor a ser pago em dinheiro vivo, data, horário e local.

Claro que a polícia não poderia ser avisada e ele foi sozinho ao local combinado. Após chegar ao endereço indicado, esperou alguns minutos e recebeu uma nova ligação, onde foi acertado um novo local mais afastado da cidade. Ele chegou ao novo ponto de encontro e recebeu uma nova ligação. Desta vez ele deveria seguir a pé por uma trilha no meio do mato.

Enquanto caminhava, com o saco de dinheiro na mão, pensava:

– O que estou fazendo aqui? Eu sou uma besta! Os caras vão pegar o dinheiro e me dar um tiro. Vão me matar…

Apesar do pensamento negativo, seguiu em frente e encontrou os criminosos. Um deles pediu o dinheiro, conferiu e entregou o notebook. Não houve ameaças ou tentativas de extorquir mais dinheiro. Tudo ocorreu conforme o combinado. Ele voltou pela mesma trilha, pegou o automóvel e retornou para a sua empresa.

Concluiu a história da seguinte forma:

– Este ladrão fez a negociação mais correta da minha vida! Ofereceu um produto que eu realmente desejava. Definimos um preço justo pelo produto. Fez a entrega na data combinada e não pediu um centavo além do que foi acertado. Foi um verdadeiro exemplo de ética.

Agora ele faz backup do notebook semanalmente.

Se esta fosse uma história de ficção, eu seguiria a mesma narrativa até o momento em que ele recebeu o notebook. Na sequência, eu poderia inventar um diálogo entre o ladrão e o empresário:

– Tudo certo, doutor?
– Tudo certo!
– Não fazia backup há tempo, hein?
– Acho que faz quase um ano…
– Tem que fazer backup mais frequente, doutor! Imagina se um profissional menos gabaritado rouba seu equipamento… Tava f…
– OK! Eu sei… A primeira coisa que vou fazer, quando sair daqui, vai ser comprar um HD externo e copiar tudo…
– Eu tenho um HD externo novo de 2 Tera. Posso fazer um bom preço. Afinal, o doutor é um cliente VIP…
– Quanto?
– R$ 100.
– Não tenho dinheiro para pagar…
– Tudo bem! Eu aceito cartão…
– Aceita cartão?
– Pra venda de equipamentos, sim…
– OK, vou levar o HD.
– Vai querer CPF na nota?
– Não precisa.

O ladrão digita o valor da venda e pede para o empresário passar o cartão na máquina. Quando ele vai colocar a senha, o ladrão comerciante olha para o outro lado para não ver o número digitado.

credit-card-thief

O empresário recebe a segunda via do comprovante da operação e diz:

– Obrigado! Foi ótimo fazer negócio com você!
– Que isso, doutor? O prazer foi meu! Até a próxima…
– Espero que não tenha próxima!
– Então não vacila, OK?
– Vou tentar! Tchau.

O empresário voltou pela mesma trilha, pegou o automóvel e retornou para a sua empresa.

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Post 200 – Retrospectiva

Este é o ducentésimo (por que não é “duzentésimo”?) post publicado neste blog.

200-posts

Normalmente o centésimo é mais festejado, talvez pela introdução do terceiro dígito na contagem do número de posts, mas não posso perder a chance de fazer uma retrospectiva dos últimos cem posts publicados.

Vários posts foram inspirados por filmes. “Diários de Motocicleta” ajudou a contar a história da formação da consciência social de Che Guevara. “As Aventuras de Pi” tratou de temas como religiosidade e espiritualidade. “Amour” tratou dos sacrifícios extremos assumidos em nome do amor. “Meia-Noite em Paris” inspirou uma discussão sobre “O Passado e o Futuro”. “Ela” (título original Her) trouxe à tona as maravilhas e os perigos da inteligência artificial meio ano antes do físico Stephen Hawking externar seus temores sobre o assunto (fiquei bem acompanhado desta vez…).

Outros posts resgataram fatos históricos, como as descobertas e invenções de Heron de Alexandria ou o ato heroico de Sérgio Macaco que evitou centenas de mortes durante os anos de chumbo no Brasil. O próprio golpe militar foi protagonista de um post, onde reafirmei minha certeza que a democracia é o único caminho. As semelhanças dos casos de Napoleão Bonaparte e Eike Batista também renderam um post. E a guerra, o ato mais estúpido do ser humano, foi meu alvo após uma visita a Les Invalides em Paris,”Pra Não Dizer que Não Falei das Flores“.

O nascimento de nossa caçula, Luiza, recebeu um post superespecial – “A Maior Emoção da Minha Vida”. A Claudia deve futuramente fazer um post mais aprofundado sobre o parto humanizado.

Alguns posts trataram das minhas visões pessoais sobre família, amor pelos filhos (“Quando nos sentimos pais”) e educação dos filhos (“O que Dar e o que Esperar do Futuro de Nossos Filhos”). Afinal minha riqueza não deve ser medida pelos meus bens materiais, mas pela qualidade dos meus relacionamentos e “Eu Sou um Homem Rico”.

As questões do exibicionismo e da privacidade foram discutidas em dois posts, o primeiro sobre o BBB e o segundo que também trata do monitoramento da vida privada das pessoas pelos Estados – “Privacidade, Intromissão e Exibicionismo”. A propósito este post foi publicado quatro meses antes das denúncias de Edward Snowden.

As religiões e a manipulação dos fiéis por líderes inescrupulosos são fontes inesgotáveis de inspiração. Não escaparam deste blog o Islamismo, a igreja católica, representada pelos papas Bento XVI e Francisco, e nem mesmo “Deus, Sempre Ele”.

Dediquei dois posts para uma das piores figuras públicas da atualidade, o russo Vladimir Putin, sobre seu ecomarketing e sobre a Crimeia. Muito, mas muito menos importante, o ex-prefeito de Novo Hamburgo, Tarcísio Zimmermann, também foi “agraciado” com dois posts, enquanto tentava se reeleger antes de ser cassado devido à Lei da Ficha Limpa.

Em outros três posts, procurei comentar como nossos pensamentos podem ser nossos maiores aliados ou inimigos – “Como a Matrix de Neo e a Caverna de Platão nos Mostram a Realidade”, “Memórias e os Fantasmas do Passado” e “Como Assassinamos Nossos Insights”. Na mesma linha, escrevi mais dois posts – “O Medo” e “A Autossabotagem”.

A culinária vegana manteve seu lugar de destaque – moqueca de tofu, ratatouille, torta de sorvete, estrogonofe ou como preparar proteína texturizada de soja.

Aventurei-me em novos territórios – primeiro escrevi uma história infantil sobre bullying (“A Bruxinha Totute”); depois um poema no meio da “Turbulência” de um voo entre a França e o Brasil; mais um conto de ficção científica dividido em cinco partes sobre a expansão da humanidade em outros sistemas planetários e sua incontrolável ambição (“A Fonte da Juventude de Perennial”). Para finalizar escrevi, na semana passada, uma história que mescla ciência e religião (“Projeto Gaia – Experiência Final”).

Vários posts tiveram como inspiração as manifestações de junho do ano passado. Iniciei com “Os Protestos e a Verdadeira Democracia”, na sequência sugeri como próximo alvo a finada PEC 37/2011. Imaginem como ficaria a investigação da “Operação Lava Jato”, se o poder de investigação do Ministério Público Federal fosse tolhido? A melhoria nos serviços públicos de saúde foi um dos principais alvos dos manifestantes e o governo federal reagiu com a criação do “Programa Mais Médicos” que inspirou um artigo. Em breve, voltarei a escrever sobre a política brasileira.

Tentei desvendar os mistérios da satisfação pessoal em ”Não Esqueçam seus Objetivos Pessoais no Avião” e “Salário Motiva os Funcionários?”.

Questões éticas com animais foram tratadas em “Golfinhos de Guerra” e “Sofrer e Amar não são Exclusividades dos Humanos”.

A sustentabilidade ambiental também teve destaque com artigos sobre reciclagem de metais raros de telefones celulares, reciclagem de fósforo e da influência do consumo de carne na degradação do meio ambiente.

Este blog não é mais somente meu. A Claudia estreou em grande estilo com o post que conta como virou vegetariana, “Eu, a carne e a berinjela…”. Sinto que o respeito aos vegetarianos cresce a cada dia como retratei no post “Vitória Vegetariana”. E aqui entre nós, “Por Que Comer Carne?”.

A Copa do Mundo de Futebol realizada no Brasil em 2014 rendeu dois posts, “A Copa do Mundo Envergonhada” e “Como o Futebol Brasileiro foi Massacrado pelo Alemão”. Dentro da esfera futebolística, publiquei mais dois post “De Volta para o Meu Lugar”, sobre a reabertura do Beira-Rio, e “Fernandão, Vida, Morte e Piscadas”, sobre o morte do ídolo colorado Fernandão.

A seca em São Paulo que ameaça o fornecimento de água à população do estado também inspirou dois posts – “o que fazer quando a água acabar?” e “as medidas que evitariam a crise de abastecimento de água”. Apesar das excelentes chuvas dos últimos dias, o risco continua…

Falei sobre os mais variados assuntos, das “Gambiarras” ao “Portuglish ou Portunglês”, do show de Yusuf Islam em São Paulo aos “Múltiplos Papéis da Mulher no Mundo Atual”, dos conflitos entre judeus e palestinos em “O Escudo Humano” aos problemas da economia americana em “Obama e o Dilema Capitalista”, do racismo contra o goleiro Aranha a “Os Psicopatas, os Hiperativos, os Estranhos e os Normais”. Afinal “As Pessoas são Diferentes – Que Bom!!!”.

Agradeço a todos que acompanham nosso blog, espero críticas e sugestões para os assuntos dos próximos cem posts e lembro, mais uma vez que tento não falhar e fazer “Jornalismo Profundo como um Pires“ e “Eu Não me Chamo “Martho Medeiros”.

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Drogas – O Fim da Guerra

Recentemente pessoas de diversos lugares do mundo ficaram chocadas com o desaparecimento e provável assassinato de 43 estudantes no México. Segundo membros do cartel de narcotraficantes, “Guerreros Unidos”, um ônibus com os estudantes foi interceptado pela polícia, quando estava a caminho da cidade de Iguala. Após a prisão, os estudantes foram entregues ao grupo de criminosos que os executou e seus corpos foram queimados. José Luis Abarca Velázquez, o prefeito de Iguala, e sua esposa, María de los Ángeles Pineda Villa, foram apontados como os prováveis autores intelectuais deste crime bárbaro.

Painel com as fotos dos 43 estudantes mexicanos desaparecidos.

Painel com as fotos dos 43 estudantes mexicanos desaparecidos.

O envolvimento de autoridades políticas, policiais e traficantes de drogas infelizmente não é novidade. A corrupção do sistema pode ser explicada pelo tamanho do negócio das drogas ilícitas, um mercado de US$ 300 bilhões por ano.

Por que algumas drogas são lícitas e outras são ilícitas? Álcool, cigarro e açúcar têm consumo permitido; e maconha, cocaína e heroína, não! Você pode ficar surpreso com a inclusão do açúcar no rol das drogas lícitas, mas foi assim que começou minha conversa com Ethan Nadelmann, diretor e fundador da ONG Drug Policy Alliance, durante o TEDGlobal 2014 no Rio de Janeiro. Você pode assistir sua impactante apresentação durante o TED abaixo.

 

Eu estava na mesa do buffet de sobremesas, quando ele chegou. Escolhi alguns doces e disse para ele:

– Dizem que o açúcar vicia mais do que cocaína…

Ele sorriu e concordou. Contou a história de um donut cheio de açúcar e creme que, segundo um comediante americano, dava a sensação que o cérebro iria explodir – efeito semelhante da cocaína. Elogiei a apresentação dele, falamos sobre amenidades e ele disse que estaria em São Paulo na semana seguinte. Comentei sobre o programa da prefeitura paulistana para reintegrar ao convívio social os viciados em crack. Lembrei também da reação da polícia do estado que agiu de forma agressiva, batendo e prendendo usuários de drogas da região da cracolândia de São Paulo. Nadelmann elogiou a iniciativa da prefeitura e disse que, em todo o mundo, a polícia é a maior inimiga da legalização das drogas.

Na sequência, para exemplificar, ele contou a história de um rapaz que criou uma ONG na Colômbia que procurava ajudar dependentes de drogas injetáveis, auxiliando-os a se libertar do vício e, se isto não fosse possível, dando agulhas esterilizadas para evitar a proliferação de doenças, como a AIDS. A atuação desta ONG começou a incomodar os traficantes e os policiais corruptos que faziam parte do esquema. A Justiça Colombiana decidiu proteger a vida do rapaz com policiais honestos e a intimidade entre o protegido e seus protetores começou a crescer. Numa noite, enquanto bebiam cerveja juntos, um dos policiais falou:

– Você é um cara legal! Está fazendo o acredita, é honesto, bem-intencionado, mas eu agiria diferente. Se pudesse, daria um tiro na cabeça de cada um destes viciados e acabava com o problema…

Esta postura lembra o ódio do Capitão Nascimento nutria contra os viciados no primeiro filme da “Tropa de Elite”.

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Capitão Nascimento agride um viciado e diz que ele é o responsável por aquela situação.

 

Os Estados Unidos gastaram US$ 1 trilhão no combate às drogas nos últimos 40 anos. O fracasso é evidente, o consumo de drogas ilícitas só cresce e a violência ligada à atividade atinge níveis impressionantes em várias regiões do mundo como no México.

Nadelmann brincou na sua apresentação que muda de opinião muitas vezes em relação à legalização das drogas:

– Estou dividido: três dias por semana eu acho que sim, três dias por semana eu acho que não, e aos domingos, eu sou agnóstico.

Eu também me sinto dividido, mas vejo que alguns argumentos contra a descriminalização são fracos. Se a proteção à saúde fosse realmente o motivo principal, deveríamos proibir o consumo de álcool, cigarro, açúcar, gorduras saturadas…

Se o argumento é a proteção de nossos filhos em relação à violência, também podemos demonstrar que uma boa dose da violência urbana advém desta guerra antidrogas que vitima muitos inocentes. Além disto, proibir alguma coisa para nossos filhos não é, com certeza, tão efetivo quanto amá-los, educá-los, orientá-los e sermos pais presentes.

Hoje não é permitida a venda de álcool e cigarros para menores de 18 anos. O mesmo critério poderia ser adotado em relação a outras drogas. Em minha opinião, a maconha poderia ser a primeira droga atualmente ilícita a ser liberada e vendida com estas restrições de idade, com cobrança de impostos similar às bebidas alcoólicas destiladas ou cigarros. A maioria das demais drogas poderia ser liberada na sequência de acordo com as peculiaridades de cada uma.

Se a proibição das drogas resolvesse a questão, ninguém nos Estados Unidos beberia álcool. A Lei Seca só serviu para capitalizar a Máfia americana e enriquecer seu líder, Al Capone.

Termino este post, reproduzindo o encerramento da apresentação de Ethan Nadelmann no TEDGlobal que foi aplaudido de pé pela plateia presente.

– Então é a isso que eu tenho dedicado a minha vida para a construção de uma organização e um movimento de pessoas que acreditam que precisamos virar as costas a proibições fracassadas do passado e abraçar novas políticas de drogas baseadas em ciência, compaixão, saúde e direitos humanos, onde as pessoas que vêm de todo o espectro político e todos os outros espectros, onde pessoas que amam as nossas drogas, pessoas que odeiam drogas e pessoas que não dão a mínima para as drogas, mas onde cada um de nós acredite que essa guerra às drogas, este atraso, sem coração, esta guerra desastrosa tem que acabar.

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Aranha, os Torcedores Gremistas e o Racismo

Na sexta-feira passada, recebi de um colega de empresa a encomenda de uma postagem no meu blog, tratando do evento recente de racismo no jogo entre Grêmio e Santos. Como já foi amplamente divulgado pela mídia, no jogo contra o Grêmio em Porto Alegre, parte da torcida gremista ofendeu o goleiro Aranha do Santos, chamando-o de macaco.

Goleiro Aranha se revolta com a atitude de parte da torcida do Grêmio

Goleiro Aranha se revolta com a atitude de parte da torcida do Grêmio

Lembro-me de um filme americano de 1970, “Watermelon Man” que assisti com meu pai numa madrugada de sábado no final dos anos 70 ou início dos 80. No Brasil, o título do filme é “A Noite em que o Sol Brilhou”. Neste filme, um americano branco e racista acorda negro. Após tentar voltar ao normal, sem sucesso, ele decide retomar sua vida normalmente, mas percebe que as pessoas passam a tratá-lo de forma diferente. Assista ao trailer do filme.

A cena da corrida para chegar antes à parada do ônibus era uma aposta com o motorista e ele fazia aquilo todos os dias. Para vencer a aposta ele inclusive atravessava quintais de alguns vizinhos. Suas atitudes, incluindo seu humor grosseiro, eram toleradas e ele era considerado um excêntrico. Quando ele tentou fazer a mesma coisa depois de ficar negro, foi preso. Quem se lembra daquela velha piada? Um rico, quando corre, está fazendo um cooper; e um pobre está fugindo da polícia! No filme, a esposa branca do protagonista, apesar de mais liberal e apoiar a luta dos negros americanos, não suportou aquela situação e deixou o marido.

Nos Estados Unidos, a situação foi mais séria, porque houve segregação racial, mas, no Brasil, a coisa não foi muito melhor. Durante muito tempo, atos racistas foram tolerados na nossa sociedade. A Lei Afonso Arinos, que entrou em vigor em 1951, tornou os direitos de todos iguais independente de raça. Ou seja, um negro, por exemplo, não poderia ser impedido de frequentar um estabelecimento comercial apenas por ser negro. Mas o racismo continua vivo ou, pelo menos, adormecido na cabeça de muitas pessoas até hoje. Talvez a jovem torcedora do Grêmio flagrada pelas câmeras de TV não discrimine negros no seu dia a dia, mas, junto com outros torcedores, usou uma forma racista para ofender o goleiro santista. Isto mostra que ela achava aquela atitude normal, senão, no mínimo, ficaria calada.

O fim do racismo claramente é um processo de mudança cultural. Em um post comentei o processo de mudança cultural em relação à segurança. Apresentei o exemplo do uso de cinto de segurança nos automóveis. Vivemos décadas numa sociedade onde o racismo e os atos inseguros eram tolerados. Para mudar a situação devemos ser inflexíveis, senão a “maionese desanda”. Naquele post, apresentei a curva de Bradley da DuPont.

bradleycurve

Existem pessoas com diferentes níveis de maturidade: algumas ainda têm comportamento reativo, outras dependem de supervisão, outros têm comportamento adequado independentemente de orientação e existem os que ajudam os outros a melhorar seus padrões de comportamento.

A punição de exclusão da Copa do Brasil sofrida pelo Grêmio deve servir de exemplo para toda a sociedade brasileira. Quando a Justiça Esportiva passou a punir os clubes, porque algum torcedor lançava algum objeto no campo, muita gente achou que era um exagero, mas os próprios torcedores passaram a se autocontrolar.

Sem dúvida chamar um negro de macaco não está certo, mesmo num estádio de futebol! A maioria da torcida do Grêmio também já entendeu que chamar os torcedores do Internacional de “macacos imundos” é errado e vaiou os que cantaram esta música antes do ultimo jogo em seu estádio.

Todos merecem respeito e igualdade de direitos independente de raça, sexo, patrimônio material, orientação sexual, local de nascimento, religião e profissão. Isto é lógico, parece fácil de fazer, mas, na verdade, é uma luta diária, onde não podemos baixar a guarda ou sermos omissos .

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