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O Ativo Minerário, a Barragem, o Banqueiro e o Voto

Tem uma pergunta relativamente simples que ajuda a organizar toda essa história envolvendo Nikolas Ferreira, Daniel Vorcaro e um ativo minerário em Ouro Preto: o que seria razoável esperar que um deputado federal soubesse antes de usar suas relações pessoais para ajudar a destravar um negócio privado?

Minha questão aqui é ética, não criminal. Até agora, não há prova de que Nikolas Ferreira tenha recebido alguma vantagem indevida, pago ou intermediado propina ou cometido crime nesse episódio. E presunção de inocência não pode depender de quem está sendo investigado. É um princípio que deve valer para todos — inclusive para quem, muitas vezes, usa uma régua bem menos generosa quando fala dos adversários.

Só que existe um espaço enorme entre “não há crime demonstrado” e “então não há nada para discutir”. É justamente aí que essa história fica interessante.

O pedido

Em 30 de março de 2025, Nikolas enviou um áudio a Daniel Vorcaro, então controlador do Banco Master. O assunto era Thiago Rodrigues de Faria, advogado de Nikolas e, assessor de seu gabinete naquela época, a quem o deputado se referia como amigo e “irmão”. Thiago tinha um problema envolvendo um “ativo minerário”, e Nikolas queria colocá-lo em contato com Vorcaro.

Nikolas Ferreira pede ajuda a Daniel Vorcaro para um ativo minerário ligado a pessoa próxima. (Foto: Pablo Valadares/Câmara dos Deputados)

Talvez o trecho mais revelador do áudio nem seja o pedido, mas uma frase dita pelo próprio Nikolas:

– “Não sei nem do que se trata.”

Mesmo assim, passou o contato e se dispôs a fazer a ponte. O próprio parlamentar reconheceu a autenticidade do áudio. Essa frase pode ser lida de duas formas. Na defesa de Nikolas, ela mostra que ele não dominava o assunto e não participava diretamente do negócio. Mas, do ponto de vista ético, ela leva exatamente à pergunta contrária: se ele não sabia do que se tratava, por que resolveu ajudar antes de descobrir?

Não era só um “ativo de minério”

Alguns meses antes dessa conversa com Vorcaro, o escritório de Thiago Rodrigues de Faria havia assinado um contrato ligado a uma negociação envolvendo a Gmais Ambiental e a Topázio Imperial Mineração. Segundo documentos da investigação da Polícia Federal reproduzidos pelo Estado de Minas, a remuneração dos intermediários dependia basicamente de duas coisas: conseguir autorização para a retomada da atividade minerária e, depois, negociar a lavra.

O negócio era estimado entre US$ 30 milhões e US$ 45 milhões. Ou seja, havia um incentivo econômico muito claro para conseguir “destravar” aquele ativo.

E aí aparece uma informação que muda bastante a história. O contrato firmado pelo escritório de Thiago envolvia a Topázio Imperial, detentora dos direitos minerários de uma área em Rodrigo Silva, distrito de Ouro Preto, onde fica a Barragem Água Fria. O áudio de Nikolas não cita nominalmente a Topázio Imperial nem a barragem. A conexão entre o “ativo minerário” mencionado na conversa e essa operação vem das apurações jornalísticas e dos documentos sobre o contrato de Thiago, não das palavras do próprio áudio.

A barragem

A Agência Nacional de Mineração (ANM) reclassificou a Água Fria como uma barragem que utilizou alteamento a montante e determinou que ela entrasse nas regras de descaracterização aplicáveis a esse tipo de estrutura. Em 2024, a ANM ainda acompanhava a evolução desse processo.

Barragem Água Fria, em Rodrigo Silva – Ouro Preto – MG (Imagem: O Estado de Minas)

Para quem vive em Minas Gerais, “alteamento a montante” não é uma expressão técnica qualquer. Foi o mesmo método construtivo usado nas barragens que romperam em Mariana, em 2015, e Brumadinho, em 2019.

Isso não quer dizer que toda barragem construída dessa maneira tenha o mesmo nível de risco. Não seria correto fazer essa afirmação. O que significa é que, depois daqueles desastres, esse modelo deixou de ser considerado aceitável pela legislação e passou a ser eliminado progressivamente. O próprio poder público relaciona os rompimentos de Mariana e Brumadinho a esse tipo de estrutura e aponta esses desastres como uma das razões para a proibição de novas barragens a montante.

No início de 2026, a Água Fria aparecia oficialmente em Nível de Emergência 1 (o mais baixo dos três níveis de emergência previstos pela ANM) e, em abril, a agência determinou formalmente o embargo da barragem. Isso não significa risco iminente de ruptura: na escala da ANM, a gravidade aumenta do NE1 ao NE3.

Também aqui é preciso tomar cuidado para não simplificar demais. Não dá para dizer que o embargo da barragem ocorreu simplesmente porque a estrutura era a montante. Havia uma sequência de exigências técnicas, processos administrativos e ações judiciais. Mas também não dá para tratar tudo isso como se fosse apenas uma papelada burocrática impedindo um negócio.

O que os documentos mostram é que a operação envolvendo a Topázio tinha grande potencial econômico e estava ligada, entre outras questões, a uma barragem sujeita às exigências legais de segurança, monitoramento e descaracterização aplicáveis a esse tipo de estrutura.

O checklist que deveria vir antes do telefonema

É exatamente nesse ponto que aquela frase – “não sei nem do que se trata” – começa a incomodar. Antes de usar uma relação pessoal para tentar ajudar um interesse econômico privado de alguém muito próximo, não seria razoável que um deputado procurasse responder algumas perguntas básicas?

  • Que ativo é esse?
  • Quem são os proprietários e quem vai ganhar dinheiro com ele?
  • Por que ele precisa ser “liberado”?
  • Qual órgão público ou decisão judicial está impedindo sua exploração?
  • Existem passivos ambientais?
  • Há problemas de segurança?
  • Existe população que pode ser atingida?
  • Quanto vai ganhar a pessoa que está pedindo minha ajuda?
  • E talvez a pergunta mais importante: por que Daniel Vorcaro seria a pessoa certa para resolver esse problema?

Nenhuma dessas perguntas pressupõe corrupção. Vorcaro poderia ajudar de várias maneiras perfeitamente legais: procurar investidores ou compradores, ajudar a financiar estudos e obras, indicar advogados ou consultores especializados, participar de uma estrutura financeira capaz de assumir os passivos do empreendimento, colocar empresários em contato ou abrir portas para reuniões. Também poderia simplesmente usar sua extensa rede de relacionamentos para aproximar as pessoas certas.

Nada disso é crime por si só. Só que Vorcaro não era autoridade ambiental, minerária nem judicial. Por isso, sobra uma pergunta bastante simples: que tipo de influência Nikolas imaginava que o banqueiro tinha para conseguir “ajudar” naquele caso?

O áudio não explica.

A relação com “Dani”

Também não estamos falando de duas pessoas que mal se conheciam. No mesmo conjunto de mensagens, Nikolas pediu desculpas a Vorcaro por ter criticado anteriormente um evento patrocinado pelo Banco Master. Disse que não sabia que aquele era “o banco do Dani” e que, se soubesse, teria conversado com ele antes de publicar a crítica. Também sugeriu que os dois se encontrassem.

Daniel Vorcaro, controlador do Banco Master, foi procurado por Nikolas para ajudar a “destravar” o ativo minerário (Foto: Márcio Gustavo Vasconcelos)

Mais tarde, Nikolas reconheceu ter utilizado uma aeronave ligada a Vorcaro durante a campanha presidencial de 2022. Segundo sua versão, ele não sabia quem era o proprietário do avião quando aceitou o convite e negou ter recebido dinheiro do banqueiro.

Mais uma vez: nada disso, isoladamente, prova qualquer ilegalidade. Mas mostra que houve contatos, pedidos e favores suficientes para merecer atenção pública. E essa cobrança deve ser feita com a mesma régua para qualquer político, de direita, de centro ou de esquerda.

Crime é uma coisa. Ética pública é outra.

Aqui acho importante não cair em dois extremos. O primeiro seria dizer que Nikolas é corrupto porque procurou Vorcaro. As evidências disponíveis ainda são insuficientes para sustentar essa afirmação. O segundo seria dizer que, como não existe crime demonstrado, então não existe nenhum problema. Também não é assim.

A ética na vida pública não começa apenas onde começa o Código Penal. Uma atitude pode não ser corrupção, tráfico de influência ou qualquer outro crime e, ainda assim, ser imprudente, inadequada ou incompatível com o cuidado que esperamos de alguém que exerce um mandato público.

Existe um princípio de prudência que, para mim, é bem simples: se uma atitude, mesmo sendo legal, parece eticamente difícil de explicar em público, talvez seja melhor entender muito bem a situação antes de tomá-la.

Nesse caso, o próprio deputado disse que não entendia.

E então chegamos a Rodrigo Silva

Rodrigo Silva é um distrito pequeno. Tem 1.082 habitantes, segundo os dados do Censo de 2022 consolidados pela Prefeitura de Ouro Preto. Partindo da conexão feita pelas reportagens entre o pedido do áudio e a operação envolvendo a Topázio, surgiu outra pergunta: como votou a comunidade que vive mais perto dessa lavra e da Barragem Água Fria?

Conseguimos os boletins oficiais das três seções eleitorais da sede de Rodrigo Silva – as seções 091, 092 e 143 da 200ª Zona Eleitoral. Somadas, elas tiveram 636 votos válidos para deputado federal. Nikolas Ferreira recebeu 100 votos, ou 15,72% dos votos válidos. É bastante: aproximadamente um em cada seis votos.

Só que esse número precisa ser colocado em perspectiva. No conjunto de Minas Gerais, Nikolas recebeu 3.119.318 votos, correspondentes a 27,19% dos votos válidos para deputado federal. Isso significa que sua votação proporcional em Rodrigo Silva ficou cerca de 42% abaixo de sua média estadual.

Esse dado evita uma leitura simplista. Não dá para dizer que Rodrigo Silva tenha sido especialmente favorável a Nikolas. Pelo contrário: proporcionalmente, ele foi bem menos votado ali do que no estado como um todo.

Mesmo assim, restam aqueles cem votos. E aí aparece outra dimensão interessante dessa história.

O que significam esses cem votos?

Não sabemos, e seria desonesto fingir que sabemos. Alguns desses eleitores podem simplesmente não ter ficado sabendo do caso. Outros talvez tenham ouvido alguma coisa, mas não tenham percebido que aquele “ativo minerário” que apareceu no noticiário nacional estava ligado a uma lavra localizada no próprio distrito.

Outros podem ter entendido perfeitamente a história e, mesmo assim, concluído que havia outros assuntos mais importantes para definir seu voto: religião, segurança, economia, identidade política, oposição à esquerda ou qualquer outra questão.

Mas existe ainda uma quarta possibilidade, cada vez mais importante na política atual: a pessoa pode conhecer o fato e, mesmo assim, recebê-lo já explicado pela sua própria bolha política.

Quando a bolha não esconde a notícia – ela entrega a interpretação pronta

Depois que os áudios apareceram, rapidamente surgiu uma versão defensiva do caso: Nikolas apenas teria apresentado duas pessoas, não participou do negócio, não recebeu dinheiro e não conhecia os detalhes. Logo, tudo não passaria de mais uma tentativa de fabricar um escândalo contra ele.

Essa versão nem precisa negar o áudio. Ela apenas troca a pergunta. Em vez de perguntar “Por que um deputado usou sua relação com um banqueiro influente para ajudar um amigo a destravar um ativo econômico que ele próprio dizia desconhecer?”, passa-se a perguntar: “Onde está o crime?”

Pode até parecer uma diferença pequena, mas não é. Ao mudar a pergunta, praticamente toda a discussão sobre ética desaparece.

E tivemos uma demonstração concreta de como esse mecanismo funciona. Poucos dias depois da divulgação do caso, começou a circular nas redes um suposto relatório da Polícia Federal dizendo que as conversas não continham indícios de crime. O documento era falso, tinha sido produzido com inteligência artificial e a própria Polícia Federal negou sua autoria. Nikolas chegou a compartilhar esse material antes de apagá-lo. Em 6 de outubro, já depois da eleição, o TRE-MG determinou que Meta e X fornecessem dados relacionados às publicações que veicularam o documento falso, no âmbito de uma ação de investigação judicial eleitoral. A medida busca rastrear a circulação do material e investigar a eventual responsabilidade de Nikolas.

Não sabemos se essa postagem ou versões dela chegaram aos eleitores de Rodrigo Silva. Mas sabemos que existia uma narrativa pronta, circulando nas redes, capaz de oferecer aos simpatizantes uma explicação confortável para o caso.

Talvez esse seja um dos mecanismos mais poderosos das bolhas políticas atuais. Elas não precisam impedir que a notícia chegue. Basta que a notícia chegue já mastigada.

O fato vem junto com a explicação do que ele significa, quem são os culpados, quem está sendo perseguido e até com uma indicação do que merece – ou não merece – indignação.

Uma questão de cidadania

Por isso, não acho que os cem votos devam ser tratados como motivo para censurar aqueles eleitores. Eles levantam uma questão sobre cidadania.

Estamos falando de uma comunidade de cerca de mil habitantes, onde existe uma barragem submetida a medidas especiais de segurança e onde havia interesses econômicos importantes ligados à retomada da mineração. Seria razoável imaginar que uma articulação política envolvendo aquela lavra fosse assunto conhecido na própria comunidade.

Se não era, existe um problema. Pode ser uma falha individual, por falta de interesse ou de disposição para procurar informações. Mas também pode ser uma falha coletiva, envolvendo a imprensa local, as instituições públicas, as associações da comunidade, os partidos e os mecanismos de transparência. Todos eles deveriam ajudar a transformar informações espalhadas por documentos, processos e reportagens em algo compreensível para quem efetivamente vive naquele lugar.

Cidadania é mais do que aparecer para votar de quatro em quatro anos. Também significa conseguir ligar aquilo que acontece na grande política com aquilo que acontece no nosso próprio quintal.

A régua que usamos para os outros

E há ainda uma questão de coerência. Nikolas Ferreira construiu boa parte de sua projeção política fazendo acusações muito duras de corrupção contra adversários. Mesmo depois da eleição de 2026, ao responder a Lula, voltou a usar a prisão por corrupção como elemento central do ataque político.

Isso permite uma pergunta bastante direta, independentemente de simpatia ideológica: quanta evidência Nikolas considera suficiente para levantar suspeitas sobre um adversário? E ele aceitaria que exatamente a mesma régua fosse usada para analisar suas próprias relações?

Não precisamos responder a isso chamando Nikolas de corrupto. Aliás, seria incoerente criticar o uso irresponsável dessa palavra e depois fazer exatamente a mesma coisa contra ele.

A questão é outra. É perfeitamente possível defender duas ideias ao mesmo tempo: Nikolas Ferreira deve ser considerado inocente de qualquer crime enquanto não houver prova em contrário. E, ao mesmo tempo, sua atitude nesse episódio é eticamente discutível e merece uma explicação bem melhor do que “não sei nem do que se trata”.

Não existe contradição entre essas duas afirmações. Talvez essa seja justamente a diferença entre fazer uma análise política e simplesmente torcer por um lado.

No fim, a pergunta continua aberta

Não sabemos exatamente o que Nikolas queria que Daniel Vorcaro fizesse, se Vorcaro chegou a fazer alguma coisa ou se aquela intermediação teve qualquer resultado. Também não sabemos quantos moradores de Rodrigo Silva conheciam essa história quando entraram na cabine de votação em 4 de outubro de 2026.

Mas algumas coisas nós sabemos. Havia um ativo minerário apresentado por Nikolas a Vorcaro em nome de alguém muito próximo. Havia, em paralelo, um contrato do escritório de Thiago ligado a uma operação envolvendo a Topázio Imperial, com remuneração condicionada à autorização para retomar a mineração e à venda da lavra. Nessa área havia uma barragem a montante submetida a descaracterização, exigências técnicas e embargo, além de uma pequena comunidade vivendo no distrito.

E havia, nas palavras do próprio deputado, uma informação que talvez resuma toda a história: “ele não sabia nem do que se tratava”.

Talvez seja justamente aí – e não em uma acusação criminal que as evidências disponíveis ainda não permitem fazer – que esteja a questão principal:

Quem exerce poder público pode se dar ao luxo de não saber do que se trata antes de decidir ajudar?

Referências

  1. CNN Brasil — áudio em que Nikolas pede ajuda a Vorcaro para o ativo minerário.
    https://www.cnnbrasil.com.br/blogs/gustavo-uribe/politica/em-audio-nikolas-pede-ajuda-de-vorcaro-para-liberar-ativo-de-minerio/
  2. Estado de Minas — contrato envolvendo Thiago, Gmais e Topázio Imperial.
    https://www.em.com.br/politica/2025/09/7258290-assessor-de-nikolas-tinha-negocios-com-empresa-investigada-pela-pf.html
  3. ANM — relatório sobre a Barragem Água Fria.
    https://www.gov.br/anm/pt-br/assuntos/barragens/dce-e-dco/resumo-campanha-entrega-dce-marco-2026.pdf
  4. ANM — Resolução nº 95/2022.
    https://www.gov.br/anm/pt-br/assuntos/barragens/legislacao/resolucao-no-95-2022.pdf
  5. Diário Oficial da União — embargo da Água Fria, abril de 2026.
    https://abrapch.org.br/wp-content/uploads/2026/04/DOU-Secao-1-n-68-10-04-26.pdf
  6. TSE — boletins de urna/resultados de 2026.
    https://dadosabertos.tse.jus.br/pt_PT/dataset/resultados-2026-boletim-de-urna
  7. CNN Brasil — resultado estadual de Nikolas em Minas Gerais.
    https://www.cnnbrasil.com.br/eleicoes/nikolas-ferreira-e-reeleito-deputado-federal-por-minas-gerais/
  8. Projeto Comprova/UOL + notícia sobre o TRE-MG.
  9. CNN Brasil — áudio em que Nikolas diz a Vorcaro que se arrependeu de criticar evento patrocinado pelo Banco Master.
    https://www.cnnbrasil.com.br/politica/em-audio-nikolas-diz-a-vorcaro-se-arrepender-de-critica-a-evento-do-master/

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Nasce O Sabugosa Desconfia

A gestação foi longa, mas agora meu novo projeto finalmente nasceu. O Sabugosa Desconfia é um podcast para observar política, sociedade, cultura e comportamento com curiosidade, espírito crítico e uma dose moderada de ironia. A proposta é desconfiar das respostas simples demais, dos culpados convenientes e das certezas fast-food que circulam com tanta facilidade em tempos de pressa, indignação e pouca disposição para pensar devagar.

A partir de agora, um novo episódio será lançado semanalmente. O episódio de apresentação já está disponível, e o primeiro episódio da série será publicado na próxima quarta-feira.

No episódio de estreia, explico por que resolvi criar o podcast e o que o ouvinte pode esperar deste espaço. O nome, claro, vem de uma brincadeira com o Visconde de Sabugosa, reforçada pelo meu inseparável cavanhaque branco. Mas o mais importante está no verbo: desconfia.

A ideia não é oferecer certezas definitivas, nem substituir um pacote de respostas prontas por outro. Ao contrário, o podcast nasce da vontade de fazer perguntas melhores, desconfiar dos slogans sedutores, das explicações excessivamente simples e dos discursos que escolhem alvos fáceis para problemas difíceis. Também nasce da percepção de que, em um ambiente dominado por redes sociais, polarização e consumo apressado de opiniões, pensar com alguma demora se tornou quase um gesto de resistência.

Esse episódio de apresentação funciona, portanto, como uma espécie de manifesto de intenção. Nele, falo sobre a necessidade de observar o mundo sem ceder à tentação da simplificação automática, sobre a importância de duvidar inclusive das ideias que nos confortam e sobre o desejo de construir um espaço que trate política e sociedade com seriedade, mas sem perder leveza, humor e prazer intelectual.

Na próxima quarta-feira, será lançado o primeiro episódio temático da série. Ele parte de uma pergunta aparentemente simples: por que respostas fáceis nos seduzem tanto, mesmo quando os problemas são claramente complexos? A reflexão começa no próprio funcionamento do cérebro humano, passa por Daniel Kahneman e seu livro Rápido e Devagar, pelos vieses cognitivos, pela nostalgia de um passado idealizado e pela sensação de que vivemos num mundo em decadência, cercado por violência, corrupção e ameaças permanentes.

O episódio também discute como o medo difuso pode ser transformado em inimigos concretos, como pânicos morais abrem espaço para discursos autoritários, e por que, diante da sensação de impotência, tantas pessoas passam a desejar líderes fortes e soluções brutais. O caso de Nayib Bukele, em El Salvador, aparece como exemplo contemporâneo dessa sedução: uma resposta simples, visualmente poderosa e politicamente eficaz, mas que exige perguntas democráticas difíceis sobre garantias, direitos e limites do Estado.

O Sabugosa Desconfia nasce com esta convicção: problemas complexos raramente são resolvidos por certezas rápidas. Quando alguém oferece uma explicação fácil demais, talvez o melhor começo seja desconfiar.

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O Autoritarismo Cotidiano – Notas a partir de O Agente Secreto

Há filmes que falam de um período histórico específico. Outros se voltam para o mecanismo social e institucional que explica seu funcionamento e permite sua repetição. O Agente Secreto, de Kleber Mendonça Filho, pertence claramente ao segundo grupo. Mais do que retratar um regime autoritário, o filme se dedica a expor como ele funciona por dentro nos pequenos gestos, nas hierarquias intermediárias, nas justificativas morais, nos silêncios convenientes.

É justamente por isso que o filme dialoga de forma tão direta com o Brasil atual. Não porque “repita” a história, mas porque revela padrões recorrentes: econômicos, políticos, institucionais e simbólicos que atravessam diferentes camadas da vida social.

Capitalismo de compadrio – ideologia como acessório

Um dos personagens mais perturbadores do filme é o empresário que orbita o poder. Ele não é movido por convicção ideológica, mas pelo acesso. Seu compromisso não é com projetos de sociedade, mas com contratos, proteção, privilégios e previsibilidade para seus negócios.

Esse tipo de empresário prospera em qualquer governo – esquerda, centro ou direita – desde que o Estado seja capturável. A ideologia entra apenas como verniz retórico. O que importa é a proximidade com o poder decisório.

Não é coincidência que muitos desses agentes prefiram regimes autoritários, especialmente ditaduras de extrema direita. Não por afinidade moral, mas por cálculo econômico. Regimes assim tendem a:

  • restringir greves e organização sindical;
  • reduzir direitos trabalhistas;
  • enfraquecer fiscalização;
  • limitar a liberdade de imprensa;
  • centralizar decisões, facilitando acordos diretos entre elites.

A democracia é custosa para esse tipo de empresário porque trabalhadores têm voz, conflitos são públicos e a regulação é disputada. A ditadura, ao contrário, barateia o conflito distributivo ao suprimir negociação, reprimir demandas sociais e reduzir o custo político de impor perdas a quem tem menos poder.

O poder que escorre – pequenas autoridades e grandes atrocidades

Outro ponto central do filme é o papel das autoridades intermediárias: policiais locais, burocratas, chefes menores. Em regimes autoritários, o poder não se concentra apenas no topo; ele escorre para baixo, criando um ambiente de empoderamento sem responsabilização.

Esses agentes passam a agir com a sensação de autorização permanente. A violência deixa de ser exceção e vira procedimento. Muitas atrocidades não são explicitamente ordenadas, mas incentivadas por clima, por sinais, por recompensas simbólicas.

O filme acerta ao mostrar que o horror não depende apenas de líderes carismáticos ou decisões centrais. Ele se sustenta na banalidade do poder cotidiano, exercido por gente comum investida de autoridade sem freios – aquilo que Hannah Arendt definiu como a “banalidade do mal”.

Preconceito regional como ferramenta política

O preconceito contra nordestinos aparece no filme não como detalhe cultural, mas como dispositivo funcional. Reduzir uma região inteira a estereótipos morais – atraso, dependência, ignorância – é uma forma eficaz de:

  • deslocar conflitos econômicos para o campo identitário;
  • fragmentar solidariedades nacionais;
  • justificar abandono institucional.

Esse discurso não desapareceu. Ele reaparece com força na extrema direita brasileira contemporânea, muitas vezes disfarçado de crítica econômica ou eleitoral. O Nordeste vira “culpado” por escolhas políticas, como se fosse um bloco homogêneo e moralmente inferior.

O filme mostra, com precisão incômoda, que esse tipo de preconceito não é apenas retórico. Ele prepara o terreno para exclusão, para a retirada de direitos e para a naturalização da desigualdade.

Anti-intelectualismo e o ataque às universidades

Outro eixo fundamental é a desvalorização da pesquisa e das universidades públicas. O discurso autoritário costuma atacar essas instituições sob o argumento de ineficiência ou ideologização. Mas o conflito é mais profundo.

Universidades públicas concentram exatamente o que regimes autoritários temem: pensamento crítico, produção autônoma de conhecimento, questionamento do poder.

A defesa da privatização ignora um dado básico da economia da inovação: pesquisa básica quase nunca é financiada pela iniciativa privada, devido ao alto risco, ao retorno incerto e ao longo prazo. Historicamente, as grandes inovações tecnológicas nasceram de universidades e de financiamento estatal.

Nos Estados Unidos, a própria internet surgiu de projetos financiados pelo Departamento de Defesa, por meio da DARPA. O GPS foi desenvolvido para uso militar. Os semicondutores tiveram forte apoio de compras governamentais e pesquisa pública. As vacinas de RNA mensageiro receberam décadas de financiamento dos Institutos Nacionais de Saúde antes de se tornarem viáveis comercialmente. E avanços em computação, satélites e ciência dos materiais foram impulsionados por programas da NASA. O setor privado entrou depois, quando o risco já havia sido socializado.

Enfraquecer essas instituições não é um erro técnico. É uma escolha política que empobrece o debate público, aumenta a dependência tecnológica externa e reduz a capacidade do país de pensar seu próprio futuro.

Violência, silêncio e adaptação

O filme também trata de algo mais desconfortável: a passividade. Não são apenas os agentes violentos que sustentam o sistema, mas também aqueles que se adaptam, se calam ou racionalizam abusos em nome da sobrevivência pessoal.

Autoritarismos modernos não se instalam por ruptura abrupta, mas por erosão gradual. Direitos são relativizados, cortes são normalizados, exceções viram regra. A violência se torna ruído de fundo.

Essa zona cinzenta entre vítimas e algozes é essencial para a manutenção do regime. O filme insiste nesse ponto porque ele é o mais difícil de encarar.

Desprezo pelo futuro

Ao desvalorizar educação, ciência e planejamento de longo prazo, o autoritarismo revela sua lógica mais profunda: a preferência pelo presente imediato. Regimes assim vivem de curto prazo, de manutenção de poder, de controle. O futuro exige instituições fortes, previsibilidade e crítica: tudo o que ameaça estruturas autoritárias.

Nesse sentido, o ataque à pesquisa e à universidade não é colateral. É estrutural.

Um alerta estrutural

Agente Secreto não propõe uma tese fechada, nem oferece respostas simples. Sua força está em mostrar como autoritarismos se constroem no cotidiano, combinando interesses econômicos, preconceitos simbólicos, empoderamento sem freios e anti-intelectualismo.

O anti-intelectualismo que ele expõe – a desconfiança sistemática em relação à ciência, às universidades e ao conhecimento especializado – não é um detalhe periférico, mas parte central da engrenagem autoritária. O movimento anti-VAX é um exemplo emblemático dessa lógica: a substituição de evidência por opinião, de pesquisa por crença, de debate informado por desinformação mobilizada politicamente. Ao corroer a confiança em instituições científicas, abre-se espaço para decisões baseadas em medo, ressentimento ou conveniência ideológica, com custos sociais reais e mensuráveis.

O filme incomoda porque sugere que o horror não depende apenas de grandes líderes, mas de arranjos institucionais, incentivos perversos e acomodações morais. Ele nos lembra que a democracia não se perde apenas em grandes eventos, mas em pequenas concessões sucessivas.

Talvez por isso o filme soe tão atual. Reconhecer esses padrões, no cinema e no mundo ao redor, é apenas o primeiro passo. Interrompê-los exige instituições fortes, ciência valorizada e uma defesa ativa do conhecimento como bem público – condição indispensável para qualquer democracia que pretenda sobreviver.

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Operações Letais, Mercados Bilionários (Parte 3): política criminal, saúde pública e o dia seguinte da legalização

Este texto é a Parte 3 da série “Operações letais, mercados bilionários: por que só bala não resolve o tráfico de drogas”. Na Parte 1, discuti a ordem de grandeza do mercado de drogas no Brasil; na Parte 2, simulei como a legalização da maconha poderia mexer no caixa das facções.

Agora, a pergunta muda: se a maconha for regulada, o que o Estado faz com essa oportunidade? Aqui entro em cenários de política criminal e saúde pública, para além da lógica puramente repressiva.

6. Três caminhos de política criminal depois da legalização

Legalizar a maconha não é, por si só, uma política de segurança pública; é apenas mudar uma peça importante no tabuleiro. O impacto real sobre violência, facções e sistema prisional vai depender de qual política criminal vem na sequência: manter a inércia, focar na macrocriminalidade ou integrar segurança, saúde e finanças leva a resultados muito diferentes usando o mesmo ponto de partida.

Foram construídos três cenários muito simples de política criminal, resumidos na Tabela 6:

  1. Cenário 1 – Inércia reativa
    • A lei muda, mas a prática não.
    • Continua-se gastando muita energia em varejo e “peixe pequeno”, agora menos com maconha e mais com cocaína e crack.
    • Resultado: o P&L cai 26% porque a maconha foi regulada, mas não cai muito além disso. Violência e encarceramento seguem altos.
  2. Cenário 2 – Foco em drogas pesadas e macrocriminalidade
    • Aproveita-se o “alívio” de recursos na maconha para redirecionar os esforços para:
      • rotas de cocaína;
      • laboratórios e depósitos de crack;
      • e, principalmente, lavagem de dinheiro.
    • A lógica deixa de ser “quantos presos” e passa a ser “quanto de prejuízo financeiro para as facções”.
    • Nesse cenário, é razoável imaginar o P&L de drogas caindo perto de 40%, com cocaína e crack perdendo espaço através da ação, principalmente, da Polícia Federal e polícias estaduais.
  3. Cenário 3 – Estratégia integrada Segurança + Saúde + Finanças
    • Mantém o foco duro do Cenário 2,
    • mas inclui dois braços a mais:
      • saúde, usando parte da arrecadação da maconha para tratar dependência, reduzir danos e cuidar de saúde mental em territórios vulneráveis;
      • sistema financeiro, com COAF, Receita Federal, Banco Central e órgãos reguladores atacando lavagem de dinheiro, empresas de fachada e instrumentos financeiros usados para esconder o dinheiro do crime.
    • Aqui não é só cortar receita, é também mexer na demanda (menos gente presa no ciclo crack–prisão–rua) e no “colchão” financeiro das organizações.

Tabela 6 – Três linhas de política criminal pós-legalização (visão comparada)

(Toda esta tabela é análise qualitativa da IA, inspirada em literatura sobre macrocriminalidade e políticas de drogas.)

IndicadorCenário 1 – InérciaCenário 2 – Foco macro (drogas pesadas)Cenário 3 – Integrado (Segurança + Saúde + Finanças)
Queda no P&L de drogas (base hoje)~26% (só maconha)~40%~40 – 45%
Queda no P&L com maconha~70%~70%~70%
Impacto em cocaína/crackPequenoAltoAlto
Redução de homicídiosBaixaMédiaMédia/Alta
Redução de internações / danos sociaisBaixaBaixa/MédiaAlta
Redução da população prisionalBaixaMédiaMédia/Alta
Ganho fiscal líquidoMédioMédio/AltoAlto
Complexidade de implementaçãoBaixaMédiaAlta

Na prática, os três cenários mostram que legalizar maconha é condição necessária, mas não suficiente. Se a política criminal não se recalibra, troca-se um tipo de guerra por outro. Se ela se recalibra bem, abre-se uma janela rara para:

  • tirar dinheiro do crime;
  • aliviar pressão sobre comunidades e sistema prisional;
  • e ainda financeiramente sustentar políticas de saúde e prevenção.

7. E a saúde? Não dá para varrer os riscos para debaixo do tapete

Qualquer conversa honesta sobre legalização precisa encarar o outro lado: quais são os riscos reais do consumo de maconha?

A Tabela 7 resume as principais evidências:

  • Efeitos agudos: vão do relaxamento e da “larica” até crises de ansiedade, paranoia e prejuízo de reflexos. Dirigir ou operar máquina sob efeito é perigoso.
  • Dependência: não é mito nem é igual a heroína. Algo como 1 em 10 usuários pode desenvolver dependência; o risco sobe se o uso começa cedo e é diário.
  • Saúde mental: uso frequente, com produtos de alta potência em THC, aumenta o risco de quadros psicóticos, especialmente em pessoas com vulnerabilidade genética.
  • Adolescentes: aqui o consenso é amplo. Cérebro em desenvolvimento mais uso regular é igual a mais problemas escolares, mais risco de dependência, mais chance de desfechos psiquiátricos adversos.
  • Pulmão e coração: fumar implica exposição à fumaça (bronquite, irritação) e aumenta frequência cardíaca e pressão por um tempo – o que importa em quem já tem doença cardiovascular.

Tabela 7 – Efeitos do consumo de maconha (resumo)

DimensãoEvidência principal
Efeitos agudosRelaxamento, alteração da percepção, aumento de apetite; mas também ansiedade, taquicardia, paranoia e piora de reflexos e coordenação.
DependênciaCerca de 1 em 10 usuários desenvolve algum grau de dependência; risco maior (aproximadamente 1 em 6) se iniciar na adolescência e usar com frequência.
Saúde mentalUso frequente (principalmente diário e com alta potência de THC) está associado a maior risco de psicose; relação dose–resposta documentada em meta-análises.
Ansiedade/depressãoAssociação bidirecional: pessoas com sofrimento psíquico tendem a usar mais, e uso pesado pode piorar sintomas em parte dos casos.
CogniçãoPrejuízos em atenção e memória de curto prazo; uso precoce e intenso pode associar-se a desempenho escolar pior e déficit cognitivo duradouro.
PulmãoFumar implica exposição a fumaça e produtos da combustão → risco de bronquite crônica e irritação de vias aéreas, similar em lógica ao tabaco.
CoraçãoAumento transitório de frequência cardíaca e pressão; cautela em pessoas com cardiopatias.
GravidezUso na gestação associado a possíveis efeitos adversos no desenvolvimento fetal e neurológico → recomendação geral é evitar.
AdolescentesConsenso de maior risco: cérebro em desenvolvimento, maior risco de dependência e de desfechos psiquiátricos adversos.

A Tabela 8 tenta traduzir isso em desenho regulatório:

  • Se adolescentes são mais vulneráveis, então faz sentido ter idade mínima e proibir marketing direcionado a jovens.
  • Se alta potência aumenta risco de psicose, então faz sentido limitar THC em produtos recreativos e exigir rotulagem clara.
  • Se fumar faz mal para o pulmão, então faz sentido permitir formas não combustíveis (óleos, comestíveis), com regulação rígida de dose.
  • Se gestantes e pessoas com histórico de psicose correm mais riscos, então faz sentido ter alertas específicos e protocolos de aconselhamento na rede de saúde.

Tabela 8 – Riscos e regulação (exemplos)

Risco identificadoMedida regulatória coerente
Maior risco em adolescentesIdade mínima (18 ou 21 anos), proibição de marketing para jovens.
Risco de psicose com uso    pesado / alta potênciaLimites de THC, rotulagem clara de concentração, avisos de risco.
Danos respiratórios ao fumarPermitir produtos não combustíveis (óleos, vaporização regulada, comestíveis) e informar riscos de fumar.
Dependência e uso problemáticoDestinar parte da arrecadação para prevenção e tratamento, triagem em atenção primária.
Risco para gestantesAdvertências específicas em rótulos e campanhas públicas direcionadas.

Em outras palavras: legalizar não é liberar geral. É trocar um mercado sem regras por um mercado com regras que incorporam o que a ciência sabe sobre riscos e danos.


8. Fechando a conta

Se você juntar as peças:

  • um mercado bilionário de drogas,
  • um aparato repressivo que mira desproporcionalmente o elo mais fraco,
  • operações letais como a do Rio,
  • e um conjunto de evidências sobre riscos e possibilidades de regulação da maconha,

a pergunta deixa de ser “legalizar é certo ou errado?” e passa a ser:

Que combinação de regulação, política criminal e atenção à saúde minimiza os danos e o poder econômico do crime organizado?

As tabelas e figuras das três partes deste artigo não dão uma resposta definitiva (nem poderiam), mas ajudam a fazer uma coisa que o debate público brasileiro raramente faz: colocar números na conversa, explicitar premissas, separar o que é dado do que é cenário, o que é convicção do que é evidência.

Se a gente continuar respondendo com a mesma lógica que produziu a operação mais letal da história recente, é provável que vejamos outras grandes operações, outras dezenas de mortos, e o varejo do tráfico funcionando como se nada tivesse acontecido.

Se a gente conseguir tirar a discussão apenas do gatilho e trazê-la também para a planilha e para o SUS, talvez não resolvamos o problema das drogas – mas teremos, pelo menos, parado de repetir a mesma guerra com as mesmas vítimas de sempre.


O que é dado e o que é estimativa da IA:

  • As tabelas com valores de 2015 (Tabela 1) são baseadas no estudo de Luciana Teixeira para a Câmara dos Deputados, que estimou um mercado de R$ 14,5 bilhões para maconha, cocaína, crack e ecstasy no Brasil em 2015.
  • O resumo dos efeitos de saúde da maconha (Tabela 7) é baseado em revisões sistemáticas e meta-análises recentes sobre cannabis, psicose, dependência e outros desfechos de saúde, além de relatórios do UNODC.
  • Todas as tabelas com rótulos “2025E”, “Brasil realista” e os cenários de política criminal (Tabelas 2, 3, 4, 5 e 6) são estimativas de IA, construídas a partir:
    • dos números de 2015,
    • da inflação (IPCA) acumulada,
    • de tendências globais descritas no World Drug Report e em estudos sobre mercados legais de cannabis (Canadá, Califórnia etc.).
  • Esses cenários não devem ser lidos como “previsão oficial”, mas como um exercício para ajudar a pensar ordens de grandeza e efeitos relativos.

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Operações Letais, Mercados Bilionários (Parte 2): cenários de legalização da maconha e o caixa das facções

Este texto é a Parte 2 da série “Operações letais, mercados bilionários: por que só bala não resolve o tráfico de drogas”. Na Parte 1, olhei para o tamanho do mercado de drogas no Brasil e para a distribuição de faturamento entre maconha, cocaína, crack e sintéticos.

Aqui, dou o passo seguinte: uso esses números para simular o que aconteceria com o caixa das facções se a maconha saísse (em parte) do mercado ilegal e fosse para um mercado legal e regulado.

3. O que aprendemos com Canadá, Califórnia e outros “laboratórios” de legalização?

Se o objetivo é tirar dinheiro do crime sem simplesmente trocar um tipo de guerra por outro, faz sentido olhar para quem já mexeu na peça “maconha” do tabuleiro. Canadá, alguns estados dos EUA e outros países funcionam como laboratórios avançados: neles, a maconha passou a ser vendida legalmente, com impostos, regras e, mesmo assim (ou por isso), o mercado ilegal não desapareceu por completo.

Aqui entram dois experimentos importantes:

  • Canadá, que legalizou em 2018 e, alguns anos depois, conseguiu que algo em torno de 70–80% do gasto em cannabis fosse para o mercado legal.
  • Califórnia, que também legalizou, mas, por uma combinação de impostos altos, burocracia e restrições locais, ainda vê cerca de 60% do consumo passando por canais ilegais.

A Tabela 3 resume três cenários, inspirados nesses casos:

  • Um Brasil que imita o “modelo Califórnia ineficiente”, no qual o mercado legal só consegue capturar uns 40% do gasto em maconha, mantendo um mercado ilícito gordo.
  • Um “modelo Canadá médio”, em que cerca de 75% do gasto em maconha vai para o legal.
  • E um cenário mais ambicioso, em que o país usa imposto mais baixo e ampla oferta para asfixiar o mercado ilegal da maconha, chegando a 85% de captura.

Tabela 3 – Cenários de legalização da maconha (captura de mercado e impostos)

(Todos os valores abaixo são estimativas de IA baseadas em benchmarks de Canadá e Califórnia.)

O interessante é notar que, mesmo com parâmetros conservadores, aparecem bilhões de reais por ano em vendas legais e algo entre 1 e 2 bilhões de reais em impostos.

Na Figura 3 (barras empilhadas legal x ilegal por cenário), vemos como cada desenho tributário e regulatório distribui o bolo entre Estado e crime.


4. Um “Brasil realista”: nem utopia, nem catástrofe

Em vez de imaginar um Brasil que vira Canadá amanhã, tentei traduzir isso para um trajeto mais plausível: como poderia ser a legalização da maconha ao longo de alguns anos aqui.

A Tabela 4 mostra um cenário em três marcos:

  • Ano 0 – onde estamos hoje: tudo ilícito, R$ 12,5 bi de mercado de maconha, zero imposto, 100% do P&L na mão do crime.
  • Ano 3 – legalização implantada, mas ainda cheia de atritos: redes legais concentradas nas capitais, muita gente ainda comprando nas bocas. Nesse ponto, algo como 45% do mercado já poderia estar no legal.
  • Ano 7 – mercado maduro, com lojas e cooperativas espalhadas, imposto moderado e repressão focada no comércio ilegal: aqui é onde o cenário supõe 70% do gasto em maconha no mercado regulado.

Tabela 4 – Cenário “Brasil realista” (legalização da maconha em 3 marcos)

(Toda esta tabela é estimativa de IA, inspirada em dados de Canadá, Illinois-EUA e relatórios da Califórnia-EUA, adaptados ao contexto brasileiro.)

Reforçando, essa tabela é um exercício; não uma previsão. Mas ela ajuda a enxergar ordens de grandeza:

  • Em sete anos, o faturamento ilegal com maconha cairia de 12,5 bilhões para 3,7 bilhões (uma redução de aproximadamente 70%).
  • O Estado passaria a arrecadar algo como R$ 1,6 bilhão por ano só com impostos específicos sobre a maconha, fora IR, ISS etc.
  • Boa parte da classe média urbana passaria a comprar em canais legais; o varejo ilegal ficaria concentrado em nichos e territórios mais vulneráveis.

A Figura 4 (gráfico de linha) mostra o crescimento do mercado legal e a queda do ilícito ao longo dos anos.


5. E como ficaria o “P&L do crime” com drogas como um todo?

Legalizar só a maconha não zera o tráfico, obviamente. Mas muda quanto e onde ele ganha.

Partindo do cenário 2025E do mercado de todas as drogas e aplicando o cenário “Brasil realista” apenas na maconha, a Tabela 5 mostra como ficaria o P&L das drogas ilícitas:

  • O faturamento ilícito total com drogas cairia de R$ 33,35 bilhões para R$ 24,65 bilhões – uma redução de cerca de 26%.
  • Só na maconha, o baque é muito maior: queda em torno de 70% na receita ilícita.
  • A contrapartida é que o crime fica mais dependente de cocaína e crack: juntos, eles passam a representar quase 70% do mercado de drogas ilícitas.

Tabela 5 – P&L de drogas ilícitas antes e depois da legalização da maconha

(Coluna “Depois” = estimativa de IA com base no cenário Brasil realista.)

A Figura 5, com duas séries de barras (antes e depois), ajuda a enxergar a mudança:

  • no “antes”, a maconha é a maior barra do gráfico;
  • no “depois”, quem domina o ilícito são a cocaína e o crack.

Isso joga uma luz importante para o debate de política criminal: legalizar maconha mexe muito com o caixa, mas não resolve sozinho o problema da violência associada às drogas, que hoje está muito vinculada justamente à cocaína, ao crack e às armas.

Se a maconha regulada pode tirar até um terço do P&L das drogas ilícitas, o que o Estado faz com essa oportunidade? Mantém a lógica de operação letal, ou recalibra a política criminal para mirar no caixa das drogas pesadas, na lavagem de dinheiro e na saúde dos usuários? É isso que analiso na Parte 3.


O que é dado e o que é estimativa da IA:

  • As tabelas com valores de 2015 (Tabela 1) são baseadas no estudo de Luciana Teixeira para a Câmara dos Deputados, que estimou um mercado de R$ 14,5 bilhões para maconha, cocaína, crack e ecstasy no Brasil em 2015.
  • Todas as tabelas com rótulos “2025E” e “Brasil realista (Tabelas 2, 3, 4 e 5) são estimativas de IA, construídas a partir:
    • dos números de 2015,
    • da inflação (IPCA) acumulada,
    • de tendências globais descritas no World Drug Report e em estudos sobre mercados legais de cannabis (Canadá, Califórnia etc.).
  • Esses cenários não devem ser lidos como “previsão oficial”, mas como um exercício para ajudar a pensar ordens de grandeza e efeitos relativos.

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Operações Letais, Mercados Bilionários (Parte 1): quanto vale o tráfico de drogas no Brasil?

Este texto é a Parte 1 da série “Operações letais, mercados bilionários: por que só bala não resolve o tráfico de drogas”. Aqui, eu olho para os números do mercado de drogas no Brasil e tento responder: de que tamanho é esse negócio? Nas Partes 2 e 3, entro em cenários de legalização da maconha, impacto no caixa das facções e opções de política criminal e de saúde pública.

No fim de outubro de 2025, o Rio de Janeiro assistiu à operação policial mais letal da história do país. Em poucas horas, a Operação Contenção, realizada principalmente nos complexos da Penha e do Alemão, deixou 121 mortos, entre eles quatro policiais e mais de uma centena de pessoas classificadas como “suspeitos” pelas autoridades. A ação superou inclusive o massacre do Carandiru, em 1992, e ganhou repercussão internacional, com questionamentos de organizações de direitos humanos sobre proporcionalidade, legalidade e respeito à vida.

Independentemente da leitura política de cada um sobre essa operação específica, um dado salta aos olhos: estamos repetindo a mesma receita há décadas. Entram centenas de agentes, helicópteros, caveirões, dezenas de mortos, apreensões de armas e drogas… E, alguns meses depois, o comércio de drogas segue funcionando, as facções seguem lucrando e a vida cotidiana das comunidades volta ao “normal” de sempre – com medo, tiroteio e precariedade. Moradores relatam que, depois da fumaça, sobram casas destruídas, escolas fechadas, gente traumatizada e nenhuma mudança estrutural.

Quando olhamos para o problema só pela lente da “guerra ao tráfico”, a conta parece simples: é matar ou morrer, polícia contra bandidos. Mas, do ponto de vista econômico, não estamos falando de meia dúzia de “aviõezinhos”: estamos falando de um mercado bilionário, com cadeias de suprimento, logística, finanças, gestão de risco e diversificação de portfólio. Ao focar quase toda a energia em “peixes pequenos” – o varejo da boca, o jovem armado na esquina – o Estado ataca justamente o elo mais substituível da cadeia. O que não é tocado com a mesma força é o P&L do crime (P&L é o relatório financeiro que detalha as receitas, custos e despesas de uma empresa) – a estrutura que permite que o negócio continue lucrando, recrutando e se reinventando.

Esta série de artigos parte dessa constatação incômoda: se tratamos drogas apenas como problema de polícia, a polícia vira, sozinha, a política de drogas. E os resultados estão aí, em operações como a do Rio: muita gente morta, pouca mudança estrutural. Em vez disso, proponho olhar para o tráfico como o que ele também é – um grande negócio – e perguntar: quanto fatura esse mercado no Brasil? Onde está o grosso do dinheiro? O que aconteceria se uma parte importante desse faturamento saísse da ilegalidade?

A partir de dados públicos de 2015 sobre o mercado de drogas ilícitas no Brasil e de experiências de países e estados norte-americanos que legalizaram a maconha, construo, com ajuda de IA, alguns cenários exploratórios:

  • como pode estar hoje a distribuição de faturamento entre maconha, cocaína, crack e sintéticos;
  • o que mudaria se a maconha fosse legalizada em um cenário “Brasil realista”;
  • e como diferentes desenhos de política criminal podem reduzir (ou não) o caixa das facções.

Por fim, não dá para falar de legalização ignorando a saúde pública: a maconha tem riscos reais, especialmente em adolescentes e pessoas vulneráveis a transtornos mentais, ao mesmo tempo em que políticas bem desenhadas podem reduzir danos, regular a potência dos produtos e financiar prevenção e tratamento. A ideia aqui não é fazer apologia nem demonização, mas tirar a discussão apenas do gatilho e levar para a planilha, o ambulatório e o planejamento de longo prazo. A operação no Rio mostra com brutalidade o que acontece quando a resposta é praticamente só bala. A partir daqui, sigo por outro caminho, usando números, cenários de regulação e evidências de saúde pública para imaginar que país teríamos se o alvo fosse menos o gatilho e mais o desenho da política de drogas.


1. Quanto dinheiro gira no mercado de drogas no Brasil?

Antes de discutir legalização, saúde pública ou política criminal, vale encarar a pergunta mais básica (e mais incômoda) de todas: quanto vale o tráfico de drogas no Brasil? A resposta não é trivial, mas os dados de 2015 já nos dão uma boa ordem de grandeza para entender o tamanho desse mercado e quem são seus “campeões de faturamento”.

A Tabela 1 traz a melhor estimativa pública que temos do mercado interno de drogas ilícitas no Brasil, feita a partir de dados de 2015. É um retrato tirado há 10 anos, mas ainda é o único que fecha a conta com metodologia explícita: número de usuários, quantidade média consumida e preço de rua.

Tabela 1 – Mercado interno de drogas ilícitas no Brasil em 2015

Dados de Luciana Teixeira (Consultoria Legislativa da Câmara dos Deputados, 2016) – valores nominais de 2015

O ponto principal não é discutir a segunda casa decimal, mas a ordem de grandeza:

  • Estamos falando de um mercado de cerca de R$ 14,5 bilhões/ano, só considerando maconha, cocaína, crack e ecstasy.
  • A maconha aparece como o maior faturamento, com algo perto de 40% do total.
  • Cocaína e crack, somados, respondem por mais da metade do bolo restante.

Ao transformar a Tabela 1 em um gráfico de pizza (Figura 1), a imagem é simples: um terço maconha, um terço cocaína, um quinto crack, um pedaço menor de ecstasy.

Este é o P&L básico do varejo de drogas no Brasil há dez anos.


2. E hoje, como isso pode estar?

A segunda pergunta óbvia é: “Ok, 2015 passou faz tempo. Como pode estar isso em 2025?”

O problema: ninguém refez essa conta com a mesma qualidade metodológica. Em vez de inventar um “dado novo”, eu preferi construir um cenário exploratório: pegar a base de 2015 e projetar para 2025 usando:

  • a inflação acumulada nesse período,
  • tendências globais e nacionais (mais cannabis, boom de cocaína, sintéticos em alta),
  • e mantendo o padrão de consumo físico médio por pessoa.

O resultado está na Tabela 2. É importante lembrá-la como um modelo de IA, não um relatório do IBGE.

Tabela 2 – Cenário exploratório 2025E do mercado ilícito de drogas no Brasil

(Toda a coluna “2025E” é estimativa de IA, a partir da base 2015 + IPCA + tendências globais.)

Algumas ideias chave para ler essa tabela:

  • Em valores nominais, o “mercado de drogas” pode estar na casa de R$ 33 bilhões/ano, basicamente o dobro de 2015, puxado por inflação e aumento moderado de consumidores.
  • A maconha seguiria relevante, mas perdendo um pouco de participação para cocaína e sintéticos.
  • Drogas sintéticas, praticamente invisíveis na conta de 2015, ganham um pedaço pequeno, mas crescente.

Se você montar a Figura 2 (barras com faturamento 2015 x 2025E para cada droga), a mensagem visual é: as barras de todas as drogas crescem, mas a de cocaína cresce de forma especialmente preocupante.

Na Parte 2, eu parto desses números e os transformo em um cenário de política pública: simulo o que aconteceria com o caixa das facções, a arrecadação do Estado e o sistema de saúde se a maconha saísse (em parte) do mercado ilegal e fosse tratada como um produto regulado.


O que é dado e o que é estimativa da IA:

  • As tabelas com valores de 2015 (Tabela 1) são baseadas no estudo de Luciana Teixeira para a Câmara dos Deputados, que estimou um mercado de R$ 14,5 bilhões para maconha, cocaína, crack e ecstasy no Brasil em 2015.
  • A Tabela 2 com rótulo “2025E”, “é estimativa de IA, construída a partir:
    • dos números de 2015,
    • da inflação (IPCA) acumulada,
    • de tendências globais descritas no World Drug Report.
  • Esse cenário não deve ser lido como “previsão oficial”, mas como um exercício para ajudar a pensar ordens de grandeza.

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“A Culpa foi da Aeromoça!”

Desde que as companhias aéreas brasileiras iniciaram a cobrança para despachar bagagens no check-in dos aeroportos, a quantidade de malas e mochilas levadas para o interior dos aviões aumentou muito. Consequentemente, os bagageiros estão cada vez mais cheios, o que pode acarretar problemas de segurança, atrasos e descontentamento dos passageiros. Relato dois casos que aconteceram comigo nas últimas duas semanas que exemplificam os riscos aos quais estamos expostos a bordo das aeronaves.

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No dia 15/04, embarquei no voo LA3005 da LATAM do Aeroporto de Congonhas para São José do Rio Preto. Retirei um livro da minha mochila, antes de guardá-la no bagageiro sobre minha cabeça. Sentei na poltrona do corredor e comecei a ler o livro. Passado alguns minutos, outros passageiros colocaram suas bagagens de mão no mesmo compartimento. De repente ouvi uma senhora gritando:

– Vai cair!

Fechei o livro e o coloquei sobre minha cabeça. Uma pequena pasta, com alguma coisa pesada dentro, raspou no livro, caiu sobre o braço da poltrona e acabou no meio do corredor. Minha cabeça foi salva pelo esplêndido livro de Eric Hobsbawm, Era dos Extremos…

Era-dos-Extremos_Eric Hobsbawm

O comissário de bordo recolocou a pasta no bagageiro. A porta do compartimento foi fechada e, logo após o pouso, um comissário de bordo disse as tradicionais mensagens através do sistema de som da aeronave:

– Por medida de segurança, permaneçam sentados até que o aviso de “atar cintos” seja desligado.

– Tenham cuidado ao abrir o compartimento de bagagens para a retirada dos seus pertences de mão. Eles podem ter se deslocado durante o pouso e a decolagem.

Como acontece invariavelmente, a maioria das pessoas não dá a mínima para estas orientações. O sinal de apertar cintos de segurança ainda estava acionado e as pessoas já estavam se levantando para apanhar seus objetos. A mesma pasta despencou do bagageiro e bateu na minha coxa esquerda. Ao invés de um pedido de desculpas, ouvi do passageiro que abriu o compartimento a seguinte frase:

– O cara da TAM arrumou mal a bagagem…

E eu só respondi:

– Por que a pressa?

Uma semana depois, eu estava em um voo da mesma companhia aérea, no mesmo horário, para o mesmo destino.

Após o estacionamento do avião, levantei, coloquei minha mochila sobre a poltrona e estava guardando meu livro, quando uma garrafinha de alumínio caiu do bagageiro e atingiu minha cabeça. Uma jovem tinha puxado a mochila dela e empurrou a garrafa. Ela olhou para mim e disse:

– Foi a aeromoça que colocou minha mochila em cima e soltou a garrafa.

Em nenhum dos dois casos consegui dizer “tudo bem”, porque seria muito falso dizer isso. Não estava “tudo bem”, pelo contrário… O que realmente me irritou foi a terceirização da culpa. Nenhum dos dois passageiros teve o cuidado, na situação adversa que se encontram os compartimentos de bagagens dos aviões, de procurar minimizar o risco de queda de objetos na cabeça de outros passageiros.

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Trajetória típica de um objeto caindo do compartimento de bagagens na cabine de passageiros de um avião.

Por outro lado, tenho presenciado o stress a que são submetidos os comissários de bordo das aeronaves para tentar acomodar as bagagens e os passageiros o mais rápido possível para reduzir atrasos nas decolagens. Na verdade, todos somos responsáveis pela segurança própria e das outras pessoas que nos rodeiam. Devemos cuidar uns dos outros.

Por que a pressa de se levantar, abrir o compartimento de bagagens e resgatar seus objetos pessoais? As pessoas atualmente vivem com uma pressa inconsequente e inexplicável. A tampa do bagageiro deveria ser aberta com cuidado e a bagagem (muitas vezes, pesada) só deveria ser retirada quando a pessoa estiver em frente dela e com as duas mãos livres. Assim, o risco de acidentes com ferimentos potencialmente graves poderia ser minimizado.

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A Sérvia e a Eleição Presidencial Brasileira

A primeira ideia, que vem à mente ao ler o título deste artigo, é a existência de uma conspiração do governo sérvio para interferir no resultado das eleições presidenciais brasileiras. Seria algo similar ao feito pelos russos no pleito que elegeu Donald Trump presidente dos Estados Unidos? De acordo com meu conhecimento, não existe atuação da Sérvia nas nossas eleições. Você deve estar pensando sobre o motivo deste título exótico.

No início de agosto, passei uma semana na Sérvia. Na medida que a intimidade e confiança mútuas começam a crescer, assuntos sensíveis como a Guerra dos Balcãs podem ser conversados. Fiquei surpreso quando descobri que a maioria das pessoas que eu conversava tinham suas origens em diferentes países da antiga Iugoslávia. Alguns tinham família na Croácia, outros na Bósnia ou Montenegro. A pergunta é óbvia, se não existem etnias puras sérvias, croatas ou montenegrinas, por que a rivalidade entre as regiões da antiga Iugoslávia cresceu aponto de acontecer uma guerra tão sangrenta?

Por um lado, líderes inescrupulosos almejaram consolidar seus poderes. Por outro lado, sempre existem interesses econômicos por trás de guerras. Um dos meus interlocutores na Sérvia contou-me que, como estava próximo à fronteira com a Croácia, assistia aos noticiários dos dois lados. Nos telejornais croatas, os sérvios eram bandidos assassinos; nos telejornais sérvios, os croatas eram os carniceiros. Assim o ódio foi crescendo nos dois lados, as atrocidades foram se acumulando, bem como o desejo de vingança de um lado em relação ao outro.

Former_Yugoslavia_2006

Antiga Iugoslávia e as atuais repúblicas

Guardadas as devidas proporções, observamos algo parecido no Brasil. O ódio em relação aos políticos tradicionais e, principalmente, ao Partido dos Trabalhadores (Lula em especial) parece ter cegado e ensurdecido boa parcela da população brasileira. Não importam os argumentos racionais ou quaisquer bons e puros sentimentos, só o ódio e a vingança valem.

Como pode alguém que mais de uma vez insultou mulheres em público receber votos de mulheres? Como pode alguém que já minimizou perdas de vidas inocentes, prega o endurecimento da violência policial e fez elogios à tortura e torturadores receber votos de pessoas que vivem em zonas de risco? Como pode o companheiro de chapa de um candidato à presidência falar contra o décimo terceiro salário, entre outros direitos trabalhistas, receber votos de trabalhadores assalariados pobres?

O mesmo acontece em relação ao outro lado. Como pode alguém votar no candidato de um partido que se afundou na corrupção, que tanto criticava, para angariar fundos para se manter no poder? Como pode alguém votar no candidato de um partido que, apesar de todas as evidências, foi incapaz de fazer um mea-culpa e prometer que daqui para frente os procedimentos serão diferentes?

Diferente das últimas eleições presidenciais, não estamos escolhendo entre um projeto mais liberal e outro mais intervencionista, ou entre um projeto mais orientado ao econômico e outro mais voltado ao social. A questão nem está relacionada ao populismo.

Na verdade, temos um candidato que já criticou abertamente minorias (índios, quilombolas e gays) e cuidados na área ambiental, ameaçando os direitos humanos e a proteção ao meio ambiente. Alguém que já disse que vai acabar com o ativismo. Alguém que simpatiza com regimes de exceção, cercado por militares da reserva que também simpatizam. Alguém que já disse que vai propor o aumento do número de ministros do STF de 11 para 21, provavelmente para controlar as decisões desta corte. Alguém que está procurando um ministro da educação que tenha autoridade, expulse a filosofia de Paulo Freire das escolas e mude os currículos escolares. Alguém que defende a fusão do ministério da agricultura com o do meio ambiente. Este é Jair Bolsonaro que, se eleito, deverá ter o apoio do Congresso mais conservador dos últimos 30 anos. Ou seja, ele poderá aprovar suas propostas no Câmara dos Deputados e Senado.

No ano passado, escrevi um artigo, onde comentava o desequilíbrio pelo qual nosso mundo está passando. Abaixo transcrevo um trecho.

O economista britânico Guy Standing, no seu livro “O Precariado – A Nova Classe Perigosa” (The Precariat: The New Dangerous Class), descreve a formação e crescimento de uma nova classe, o “precariado”, com o avanço da globalização neoliberal. Segundo Standing:

“O precariado é definido pela visão de curto prazo e, induzida pela baixa probabilidade de progresso pessoal ou de construção de uma carreira, pode verificar-se uma evolução massificada no sentido da incapacidade de pensar a longo prazo.”

“Aqueles no precariado têm vidas dominadas por inseguranças, incertezas, dúvidas e humilhações.”

“As pessoas inseguras deixam as outras furiosas e as pessoas com raiva são voláteis, propensas a apoiar uma política de ódio e amargura.”

Precariat_Guy Standing

Esta explicação sobre o precariado justifica uma porção expressiva dos votos em Bolsonaro no primeiro turno.

Existe uma palavra em alemão, Weltanschauung, que pode ser livremente traduzida como visão de mundo. Segundo o Wikipédia,

Weltanschauung é um conjunto ordenado de valores, crenças, impressões, sentimentos e concepções de natureza intuitiva, anteriores à reflexão, a respeito da época ou do mundo em que se vive. Em outros termos, é a orientação cognitiva fundamental de um indivíduo, de uma coletividade ou de toda uma sociedade, num dado espaço-tempo e cultura, a respeito de tudo o que existe – sua gênese, sua natureza, suas propriedades. Uma visão de mundo pode incluir a filosofia natural, postulados fundamentais, existenciais e normativos, ou temas, valores, emoções e ética.

Os decepcionados, os enraivecidos e os desesperançados escolheram, sem refletir, Jair Bolsonaro como sua opção para presidente, segundo sua Weltanschauung.

Não votei no primeiro turno em Fernando Haddad, principalmente, devido ao envolvimento de seu partido, PT, em corrupção. Neste segundo turno, não vejo outra opção. Bolsonaro representa um retrocesso social e político perigoso. Só nos resta, nestas duas semanas antes das eleições, conversar com amigos, parentes e demais pessoas do nosso convívio. Devemos refletir sobre o que significa a vitória de projeto ultraconservador como o Bolsonaro. Este processo deve ser realizado na paz, sem ódio, porque o ódio só alimentará mais a certeza que Bolsonaro é a melhor alternativa neste momento do nosso país. Lembremos dos sérvios, croatas e bósnios…

Bolsonaro_Haddad

Bolsonaro e Haddad no domingo da votação. [Fonte: El País]

 

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Sun Tzu e a Intervenção Federal no Rio de Janeiro

O general chinês Sun Tzu escreveu há 2.500 anos o clássico “A Arte da Guerra”. Apesar de seu nome, este livro não é apenas sobre táticas de guerra, ele trata sobre conflitos e como superá-los, tanto que uma mensagem marcante é:

“A suprema arte da guerra é submeter o inimigo sem lutar.”

A intervenção federal na área da segurança pública no Rio de Janeiro completou um mês e a população prossegue na expectativa nos seus resultados.

Ministro_Raul_Jungmann_General_Walter_Braga_Netto

O ministro da Segurança Pública, Raul Jungmann, e o comandante Militar do Leste, General Braga Netto, em entrevista coletiva sobre o decreto de intervenção no Estado do Rio de Janeiro (Marcelo Camargo/Agência Brasil)

Sun Tzu foi enfático em um dos aspectos centrais das discussões sobre a intervenção – o respeito pelas leis e o comporta ético. Leia o trecho a seguir.

“Os que usam bem as armas cultivam o caminho e obedecem às leis. Assim podem governar, prevalecendo sobre os corruptos; usar a harmonia para desvanecer a oposição, não atacar um exército inocente, não fazer prisioneiros ou saquear por onde a tropa passar, não cortar as árvores, nem contaminar os poços; limpar e purificar os templos das cidades e montanhas por onde você passar, não repetir os erros de uma civilização decadente. Tudo isso está inserido na lei moral.”

Sun Tzu

Sun Tzu

Ou seja, violência contra a população das comunidades, onde houver conflitos entre grupos de criminosos com a polícia ou exército, deve ser evitada a qualquer custo. Desde modo, os mandados coletivos de busca e apreensão são inadmissíveis, por permitir que lares de moradores inocentes sejam invadidos sem indícios concretos.

Os líderes da intervenção militar explicam a aparente inatividade das forças policiais-militares por estarem em um período de planejamento e levantamento dos recursos humanos e materiais necessários para as operações. O planejamento é essencial para atingir o sucesso em qualquer atividade. Sun Tzu cita a importância desta etapa em várias passagens do seu livro.

“Informação é crucial. Nunca vá para a batalha sem saber o que pode estar contra você.”

“Compare, prudentemente, o exército inimigo com o seu próprio, de modo que você possa saber onde a força é superabundante e onde é deficiente.”

“Não ataque alguém só por estar magoado. Um general não deve colocar suas tropas em campo apenas para satisfazer seu próprio esplendor.”

“Um general não deve empreender uma guerra num ataque de ira, nem deve enviar suas tropas num momento de indignação. Entenda que um homem que está enfurecido voltará a ser feliz, e aquele que está indignado voltará a ser honrado, mas um Estado que pereceu nunca poderá ser reavivado, nem um homem que morreu poderá ser ressuscitado.”

“Nunca se deve atacar com cólera ou pressa, é aconselhável reservar um tempo para o planejamento e organização do plano. Um verdadeiro mestre das artes marciais vence um inimigo sem batalha, conquista outras cidades sem assaltá-las e destrói outros exércitos sem gastar muito tempo. Desfaz os planos dos inimigos, destrói suas relações e alianças, corta suas provisões ou bloqueia seu caminho.”

“Se não é vantajoso, nunca envie suas tropas; se não lhe rende ganhos, nunca utilize seus homens; se não é uma situação perigosa, nunca lute uma batalha precipitada.”

“A estratégia sem tática é o caminho mais lento para a vitória. Tática sem estratégia é o ruído antes da derrota.”

Em algum momento, o planejamento e a preparação para o conflito deverão ser colocados em prática, porque existe uma premência por resultados positivos neste ano em que temos eleições para os governos federal e estaduais. Em minha opinião, o maior obstáculo para a vitória reside na frase abaixo.

“Aquele que conhece o inimigo e a si mesmo lutará cem batalhas sem perder; para aquele que não conhece o inimigo, mas conhece a si mesmo, as chances para a vitória ou derrota serão iguais; aquele que não conhece nem o inimigo e nem a si próprio será derrotado em todas as batalhas.”

O problema é a relação entre o crime e a polícia. Se a polícia tem criminosos em seus quadros, qual seria a chance de “conhecer a si próprio”? Neste caso, o fracasso está garantido.

Outro ponto é a duração das operações, Sun Tzu recomenda que as operações sejam rápidas. Operações longas ou com várias campanhas também exaurem a energia das tropas e da população em geral, como pode ser confirmado nas seguintes frases.

“Ainda que você esteja vencendo, se a batalha continuar por muito tempo, deixará suas tropas desanimadas e cegará sua espada. Se estiver sitiando uma cidade, esgotarão suas forças.”

“Não há exemplos de uma nação beneficiando-se da guerra prolongada.”

“Deixar que uma operação militar se prolongue por muito tempo, nunca será benéfico para o país. Não se deve mobilizar o povo mais de uma vez por campanha.”

“Uma operação militar significa um grande esforço para o povo e uma guerra pode durar muitos anos até a obtenção da vitória.”

Se pensarmos nos moradores das comunidades atingidas pelos conflitos, o desgaste é desumano, especialmente quando admitimos que as chances de uma vitória militar são reduzidas, por causa das milícias que usam a própria estrutura da polícia para agirem nessas mesmas comunidades e dos espiões do crime organizado infiltrados na polícia e no Judiciário.

A primeira citação de Sun Tzu neste artigo foi a seguinte:

“A suprema arte da guerra é submeter o inimigo sem lutar.”

Como vencer criminosos bem armados sem luta? A principal fonte de receitas destes grupos é o tráfico de drogas ilícitas. Já escrevi um artigo sobre este assunto (Drogas – O Fim da Guerra), onde reproduzo dados apresentados em 2014 por Ethan Nadelmann, diretor e fundador da ONG Drug Policy Alliance. Em 40 anos de guerra, apenas os Estados Unidos gastaram US$ 1 trilhão para obtenção de um grande fracasso. A quem interessa prosseguir com esta longa guerra sem chance de sucesso? Sem dúvida, interessa aos corruptos que recebem propinas para manter o tráfico em atividade.

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Ethan Nadelmann, durante o TEDGlobal 2014 no Rio de Janeiro.

Acredito que a liberação das drogas com menores potenciais de dano físico e dependência como, por exemplo, a maconha, seria um bom início. Outro ponto é o aumento da efetividade do combate à lavagem de dinheiro oriundo de atividades criminosas. Estas medidas reduziriam o poder de fogo dos grupos criminosos sem disparar um único tiro.

 

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O que acontece com nosso mundão?

Por incrível que pareça, Donald Trump começou seu mandato na Casa Branca, fazendo exatamente o que prometeu. Por exemplo, assinou uma ordem executiva para enfraquecer o Obamacare (lei que facilita a obtenção de seguros-saúde para pessoas de baixa renda ou com problemas pré-existentes à contratação do seguro), assinou um decreto para construção do já famoso muro na fronteira com o México, abandonou o TPP (acordo de livre comércio Transpacífico), liberou a construção de um oleoduto que passará sob o rio Missouri (principal fonte de água potável das reservas dos índios Sioux) e decretou também a proibição da entrada nos Estados Unidos de viajantes de sete países muçulmanos (incluindo refugiados da guerra da Síria).

A revista alemã Der Spiegel colocou na sua capa uma ilustração com Donald Trump decapitando a Estátua da Liberdade. A ilustração foi feita pelo artista Edel Rodríguez, refugiado político cubano que vive nos Estados Unidos desde 1980.

U. S. President Donald Trump is depicted beheading the Statue of Liberty in this illustration on the cover of the latest issue of German news magazine Der Spiegel

Talvez a melhor capa fosse Trump, retirando a placa de bronze do pedestal da Estátua da Liberdade, onde está escrito o famoso poema “The New Colossus” (O Novo Colosso) da poetisa americana Emma Lazarus.

Não como o gigante bronzeado de grega fama,
Com pernas abertas e conquistadoras a abarcar a terra
Aqui nos nossos portões banhados pelo mar e dourados pelo sol, se erguerá
Uma mulher poderosa, com uma tocha cuja chama
É o relâmpago aprisionado e seu nome
Mãe dos Exílios. Do farol de sua mão
Brilha um acolhedor abraço universal; os seus suaves olhos
Comandam o porto unido por pontes que enquadram cidades gémeas.
“Mantenham antigas terras sua pompa histórica!” grita ela
Com lábios silenciosos “Dai-me os seus fatigados, os seus pobres,
As suas massas encurraladas ansiosas por respirar liberdade
O miserável refugo das suas costas apinhadas.
Mandai-me os sem abrigo, os arremessados pelas tempestades,
Pois eu ergo o meu farol junto ao portal dourado.”

Parece que Trump tentou fechar as portas do país aos refugiados, “massas encurraladas ansiosas por respirar liberdade”. Só não atingiu completamente seu intento devido à resistência da Justiça americana. Este assunto irrita tanto o novo presidente americano que ele interrompeu uma conversa telefônica com Malcolm Turnbull, primeiro-ministro da Austrália, quando este tentou garantir o cumprimento da promessa americana de acolher 1.250 refugiados que se encontram em um centro de acolhida australiano.

Por outro lado, Trump tolera e, até mesmo, afaga o presidente russo Vladimir Putin. Esta relação pode ser sintetizada em uma das respostas de Trump na entrevista para Bill O’Reilly da Fox News. Após Trump falar que respeita Putin e que a Rússia poderá ser uma importante aliada na luta contra o terrorismo islâmico, O’Reilly contra-argumentou dizendo que Putin era um assassino, Trump defendeu assim o presidente russo:

– Há muitos assassinos. Você acha nosso país tão inocente?

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Para deixar o caso do relacionamento Trump e Putin ainda mais nebuloso, nesta semana, o general reformado Michael Flynn, assessor de Segurança Nacional da presidência, renunciou após o vazamento da informação de um encontro com o embaixador da Rússia em Washington acontecido algumas semanas antes da posse de Trump. Segundo o jornal The Washington Post, a CIA havia compartilhado estas informações com o novo governo americano. Trump, na sua conta oficial do Twitter, reclamou dos vazamentos ilegais seletivos das relações do novo governo com a Rússia.

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Twitter de Trump sobre vazamentos de informações (Fonte: El País)

Neste ambiente de indefinições sobre a real posição do novo governo americano sobre a Rússia, surgem várias especulações sobre futuras ações militares de Vladimir Putin no leste europeu. O semanário The Economist apresenta os Países Bálticos (Letônia, Estônia e Lituânia), repúblicas que faziam parte da extinta União Soviética, como possível novo alvo russo. Assista ao vídeo abaixo.

Assim temos o risco da volta dos conflitos na Europa, potencializados pelo enfraquecimento da Comunidade Europeia e da OTAN (Organização do Tratado do Atlântico Norte). Por outro lado, vemos o crescimento no mundo inteiro de atitudes xenófobas – medidas anti-imigração, recusa ao acolhimento de refugiados de guerras e discriminação contra religiões (especialmente o Islamismo).

Os habitantes da maioria dos países ainda não se deram conta de que os imigrantes exercem as funções que os locais não querem mais fazer ou não conseguem fazer.

Tudo isto traz medo e insegurança às pessoas. Os políticos da maioria dos países democráticos também perderam a credibilidade. Os partidos tradicionais ficaram muito parecidos entre si. Os governos perderam poder. Atualmente as corporações econômico-financeiras se tornaram mais poderosas do que os governos. Neste formato, nenhum país tem força para fazer qualquer reforma radical. Só restam ajustes e ações puntuais. Por outro lado, as pessoas, cada vez mais infantilizadas, querem direitos sem deveres ou contrapartidas. Querem que seus empregos sejam preservados, mas querem também comprar produtos baratos. Como se fosse possível o governo proteger apenas seu ramo de negócio. As pessoas sonham com um passado que nunca existiu. Aí se criam Trump e Brexit, entre outros.

Estamos em frente a uma bifurcação na história da humanidade. Se abraçarmos a ideia do “nós primeiro”, agirmos com preconceito, acreditarmos que o problema está em outro povo, raça ou religião, então escolheremos o caminho do totalitarismo. Vocês não estão assistindo os tristes espetáculos diários de Donald Trump, atacando a imprensa e vendendo aos seguidores os seus “fatos alternativos”? Hitler escolheu os judeus como inimigos da Alemanha durante o Nazismo. Na década de 50, o senador americano Joseph McCarthy elegeu os comunistas como inimigos da nação e patrocinou uma terrível caça às bruxas. Hoje Trump pode escolher os muçulmanos ou os mexicanos como os vilões…

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Senador Joseph McCarthy (Fonte: Wikipedia)

Existe um outro caminho a ser trilhado. Devemos abandonar o consumismo e a especulação financeira. No futuro, teremos crescimento populacional zero e crescimento do PIB zero – mais três ou quatro décadas, chegaremos lá. O sistema deve ser completamente redesenhado. A solidariedade entre as pessoas e povos deverá ser o ingrediente indispensável nas relações sociais e econômicas para construirmos um mundo mais justo e fraterno. Todos devem abraçar este grande desafio, não é trabalho para um punhado de líderes populistas ou salvadores da pátria.

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Para Obter a Paz, não Basta uma Vitória Militar sobre o Estado Islâmico

Há uma semana, as pessoas ficaram chocadas com a série de atentados terroristas acontecidos na noite de sexta-feira em Paris. O Estado Islâmico assumiu a responsabilidade pela operação que causou a morte de dezenas de pessoas, com 89 vítimas fatais apenas na casa de espetáculos Bataclan.

Grávida tenta fugir pela janela do Bataclan

Grávida tenta fugir pela janela do Bataclan

Três grupos islâmicos, considerados por muitos como terroristas, surpreenderam ao condenar veementemente os atentados em Paris. O grupo libanês xiita Hezbollah e os movimentos palestinos Hamas, no poder na Faixa de Gaza, e Jihad Islâmica desaprovaram a ação do Estado Islâmico que vitimou inocentes. Assim norte-americanos e russos, todos os países europeus, todos os países muçulmanos (independente da orientação sunita ou xiita), além de diversos grupos armados islâmicos alinharam-se no objetivo de acabar com a ameaça do Estado Islâmico.

Abaixo está a tradução de uma nota publicada no diário “The Economist Espresso” na terça-feira passada:

Cada um com seu próprio interesse: o Oriente Médio depois de Paris

A região fragmentada está unida na indignação e sobre a necessidade de fazer mais para combater Estado Islâmico. Os líderes políticos concordam com mais ataques aéreos, incluindo um bombardeio francês contra Raqqa, base síria do EI. No entanto, apenas esta unidade é tão profunda. Muitos libaneses estão reclamando que os atentados mortais em Beirute, um dia antes dos ataques em Paris tiveram muito menos atenção. Alguns sírios apontam que Bashar al-Assad matou milhares a mais do que o EI. Todos os lados estão usando os ataques para reforçar suas narrativas: o regime de Assad insiste que está combatendo apenas “terroristas”, em vez de seu próprio povo; no Egito Abdel-Fattah al-Sisi usa a ameaça extremista para justificar a regra da mão de ferro. Uma segunda rodada de conversações de paz sobre a Síria neste fim de semana obteve pouco progresso. Os grandes vencedores até agora são os principais aliados do Ocidente, os curdos. Eles estão propensos a tirar proveito de mais ataques aéreos para expandir seu território.

Para entender (ou compreender menos ainda) as complexas relações entre os diversos agentes que atuam no Oriente Médio, veja a figura abaixo.

Middle Eastern relationships

Não tenho dúvida que os territórios ocupados pelo EI no Iraque e na Síria serão reconquistados e este grupo perderá grande parte do seu poderio bélico. Infelizmente tenho convicção que esta futura vitória militar não trará paz para o mundo e estabilidade para o Oriente Médio em particular.

Não farei uma detalhada análise sobre as causas do agravamento dos conflitos na região ou o aumento da violência dos terroristas mundo afora. Apenas levantarei alguns pontos para reflexão.

Em primeiro lugar e acima de tudo, tão importante quanto neutralizar militarmente o Estado Islâmico é apoiar social e economicamente a enorme população muçulmana pobre. Estas pessoas marginalizadas são a matéria prima para pseudolíderes religiosos radicais. Como apresentei no artigo “A Ignorância, o Atraso e o Oportunismo” de 2012, metade da população de analfabetos do mundo é muçulmana e dois terços deste total são mulheres. Sem empregos, sem educação e saúde, a juventude muçulmana carente vira presa fácil dos aliciadores de grupos terroristas. Isto vale inclusive para os jovens que vivem na periferia de Paris ou outra cidade europeia.

Sem dúvida, uma ação diplomática ampla também deve ser feita. Existe uma janela de oportunidade, na qual os atores principais têm um inimigo em comum – o Estado Islâmico. As diversas linhas do Islã – sunitas, xiitas e alauitas sírios, além dos curdos e dos governos do Irã, Iraque, Arábia Saudita, Turquia, Egito, Síria, Israel, Estados Unidos, Rússia e Comunidade Europeia deveriam buscar um grande acordo em busca da paz e estabilidade na região.

Na Primeira Grande Guerra Mundial, a Alemanha foi derrotada e o acordo de paz, assinado em Versalhes na França, foi terrível para o país. Anos depois, o Nazismo ascendeu na Alemanha com o que parecia ser a única forma para reverter aquela situação. Derrotas humilhantes e acordos de paz parciais e injustos causam revolta entre a população e favorecem o surgimento de lideranças populistas. Durante uma guerra, cada bombardeio que atinge uma escola ou um hospital gera novas vítimas inocentes. Serão os mártires a serem explorados por estes regimes violentos.

Outro ponto é a interpretação literal do Alcorão pelo Estado Islâmico, sem o entendimento que a peregrinação de Maomé (Profeta Muhammad) ocorreu no início do século VII. Também não são consideradas as mensagens de perdão e compaixão contidas nesta escritura. Da mesma forma, a Bíblia tem livros que regulamentam o comportamento dos fiéis – Levítico e Deuteronômio. Por exemplo, se a filha de um sacerdote se prostituir, deve ser queimada viva diante de todos de acordo com o Levítico 21:9. Um filho muito rebelde, que não obedece a seus pais, pode ser condenado à morte por apedrejamento, conforme Deuteronômio 21:18-21.

Os homens e mulheres bombas seguramente não são perdoados pelo Alcorão. Não sei se alguma religião incentiva ou, pelo menos, perdoa o suicídio. Ou seja, esta é mais uma exploração da ignorância e da completa falta de significado da vida de um ser humano usado como um objeto descartável a favor dos interesses de líderes inescrupulosos.

Quando o Xá Reza Pahlevi foi deposto pela revolução islâmica do Irã, no final dos anos 70, o seu líder, Aiatolá Khomeini, virou a representação do Mal no Ocidente.

Aiatolá Khomeini com uma criança (foto bem diferente das publicadas usualmente no Ocidente)

Aiatolá Khomeini com uma criança (foto bem diferente das publicadas usualmente no Ocidente)

Os Estados Unidos armou o Iraque de Saddam Hussein para lutar contra o Irã para impedir que outros países da região se transformassem em Estados islâmicos. Na mesma época, ainda sob a Guerra Fria, os americanos apoiaram a resistência às tropas soviéticas no Afeganistão. Diz-se que o Al-Qaeda de Osama Bin Laden recebeu armas, dinheiro e treinamento dos americanos durante este conflito. O Afeganistão ficou esquecido e em ruínas após a dissolução da União Soviética em 1989. O Al-Qaeda revoltou-se contra os americanos que eram aliados de Israel na região e, em 11 de setembro de 2011, protagonizaram uma série de atentados em solo americano, culminando com a destruição das torres gêmeas do World Trade Center em New York. Em represália, os Estados Unidos invadiu o Afeganistão, atrás de Bin Laden. Depois invadiu pela segunda vez o Iraque, caçou Saddam Hussein e o país se transformou em um barril de pólvora. Acabou surgindo uma dissidência ainda mais radical do que o Al-Qaeda, nascia o Estado Islâmico, cujo objetivo é a criação de um califado no Iraque e Síria.

Ou seja, se apenas a opção militar for considerada, teremos novos e mais terríveis capítulos desta história. Diplomacia e investimentos econômicos e sociais são indispensáveis. Esta crise é uma grande oportunidade!

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A Redução da Maioridade Penal

Segundo pesquisa de opinião pública do Datafolha, 87% população brasileira apoia a redução da maioridade penal de 18 para 16 anos. Dentre as pessoas favoráveis a esta medida, 74% desejam que o novo critério seja aplicado a menores praticantes de qualquer tipo de crime, incluindo furtos simples.

Segundo diagnóstico apresentado pelo Conselho Nacional de Justiça há um ano, o Brasil possui hoje a quarta maior população carcerária do mundo, sem considerar os presos domiciliares. Veja o quadro abaixo:

Ranking população prisional mundial

Você pode ficar surpreso com a liderança folgada dos Estados Unidos neste ranking. Em artigo na edição da semana passada do “The Economist”, fica clara a desigualdade do sistema prisional americano, onde, com menos de 5% da população mundial, o país detém cerca de um quarto dos seus prisioneiros: mais de 2,3 milhões de pessoas. Apesar de um negro ser o seu presidente, o país ainda não conseguiu equacionar bem sua questão racial. Um terço dos homens negros americanos deverá ser preso em algum ponto de suas vidas, e uma em cada nove crianças negras tem seu pai atrás das grades.

Voltando para o Brasil, além de mais de meio milhão de pessoas em prisões e presídios, existem mais 148 mil pessoas em prisões domiciliares, totalizando quase 716 mil pessoas privadas de liberdade no nosso país. O gráfico abaixo mostra a população prisional brasileira, incluindo os presos domiciliares, e o número de vagas disponíveis.

Deficit vagas presidios

De acordo com gráfico acima, dever-se-ia dobrar o número de vagas nos presídios brasileiros, atualmente superlotados. Nas últimas décadas, houve um crescimento do poder de grupos como o PCC, Primeiro Comando da Capital, que supostamente tem como um de seus principais líderes, Marcos Willians Herbas Camacho, conhecido como Marcola. Estes grupos buscam manter uma ordem interna nos presídios, garantindo a segurança e, até mesmo, assistência jurídica para os apenados. Em troca, os ex-detentos trabalharão para a organização criminosa ao ganharem a liberdade, mesmo a condicional.

Hoje os presídios brasileiros fazem um péssimo trabalho de ressocialização dos apenados. A grande maioria não estuda, trabalha ou aprende um ofício honesto enquanto está preso. Em muitos presídios não há separação entre os presos de baixa periculosidade dos presos de alta periculosidade. Tão pouco há separação de acordo com a faixa etária ou reincidência. Para este ambiente terrível, a maioria da população brasileira deseja enviar adolescentes infratores. Estes jovens serão presas fáceis de organizações criminosas como o PCC que passarão a ter a sua disposição, dentro dos presídios, um novo fluxo constante de trainees.

A presidente da Fundação Casa de São Paulo, Berenice Maria Gianella, informou em um artigo que apenas 2,43% dos adolescentes cumpriam medidas socioeducativas de internação em 2012 devido a crimes graves como latrocínio (roubo seguido de morte), estupro e homicídio doloso (quando houve intenção de matar). Assim enviar a totalidade dos adolescentes infratores para os presídios, um grupo quarenta vezes maior do que apenas os praticantes de crimes graves, é um erro gravíssimo. Ao invés de melhorar a segurança pública, a redução irrestrita da maioridade penal poderá ativar uma enorme bomba relógio social. Achar que esta medida resolverá a questão de segurança pública no país é o mesmo que limpar a casa, varrendo a sujeira para debaixo do tapete.

Para ajustar todo o sistema prisional brasileiro seriam necessários alguns bilhões de reais, sem contar o alto custo operacional mensal. Para salvar a juventude pobre e marginalizada, que acaba delinquindo devido a inúmeros motivos como a desestruturação familiar e falta de alternativas culturais e educacionais, poder-se-ia investir maciçamente em educação. Manter crianças e adolescentes no contra-turno escolar seria ótimo para estimular interesse pela leitura, cultura e ciências.

Se você quiser mais informações sobre o assunto, leia o artigo publicado pela Agência Pública (jornalismo independente), onde também são mostrados as humilhações e os maus-tratos sofridos pelos adolescentes internos da Fundação Casa de São Paulo.

Jogados aos Leões – Agência Pública

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Almoços de Negócios e o Ladrão Ético

Almoços com clientes, fornecedores ou parceiros de negócios são comuns no mundo corporativo. Se for possível, prefiro não conversar sobre assuntos ligados ao negócio durante a refeição, mas, algumas vezes, não tem jeito, o tempo disponível é apertado e devemos usá-lo com a maior eficiência possível. Podemos ter uma refeição mais agradável quando o almoço for uma pausa nas discussões, ou o final da reunião, ou o encontro antes da reunião.

business lunch

Nestas situações, podemos aproveitar para conhecer melhor as pessoas através de um bate-papo informal do que tratando um assunto “oficial” da empresa. Às vezes, alguém monopoliza a conversa e se revela um narcisista – tudo que ele faz é mais bem feito ou tudo que ele tem é melhor. Já passei também por situações em que o cara passou todo o tempo se queixando de alguma coisa, inclusive da própria empresa – são as vítimas do mundo. Bom mesmo é quando se almoça com um bom contador de histórias. Já ouvi algumas impossíveis de acreditar, mentiras deslavadas. As melhores são aquelas que tangenciam o improvável.
Lembro-me de uma que ouvi de um engenheiro, dono de uma pequena empresa. Certa vez, ele havia deixado seu automóvel estacionado na rua e, quando voltou, ele não estava mais ali, foi roubado. Pior ainda, seu notebook estava no interior do carro. Pior ainda, ele não fazia um “backup” dos arquivos do computador há meses. O empresário foi a uma delegacia, fez a ocorrência e acionou o seguro. A polícia não localizou o automóvel e ele entrou em desespero, porque dados preciosos de projetos realizados pela sua empresa, que estavam no notebook roubado com o carro, foram perdidos.

No dia seguinte, ele recebeu uma ligação. Um homem perguntou o nome dele e se o seu carro foi roubado. Após as confirmações, o homem disse que estava com o notebook e perguntou se ele o queria de volta. Ele disse que sim e uma negociação foi iniciada. Todos os detalhes foram acertados: o valor a ser pago em dinheiro vivo, data, horário e local.

Claro que a polícia não poderia ser avisada e ele foi sozinho ao local combinado. Após chegar ao endereço indicado, esperou alguns minutos e recebeu uma nova ligação, onde foi acertado um novo local mais afastado da cidade. Ele chegou ao novo ponto de encontro e recebeu uma nova ligação. Desta vez ele deveria seguir a pé por uma trilha no meio do mato.

Enquanto caminhava, com o saco de dinheiro na mão, pensava:

– O que estou fazendo aqui? Eu sou uma besta! Os caras vão pegar o dinheiro e me dar um tiro. Vão me matar…

Apesar do pensamento negativo, seguiu em frente e encontrou os criminosos. Um deles pediu o dinheiro, conferiu e entregou o notebook. Não houve ameaças ou tentativas de extorquir mais dinheiro. Tudo ocorreu conforme o combinado. Ele voltou pela mesma trilha, pegou o automóvel e retornou para a sua empresa.

Concluiu a história da seguinte forma:

– Este ladrão fez a negociação mais correta da minha vida! Ofereceu um produto que eu realmente desejava. Definimos um preço justo pelo produto. Fez a entrega na data combinada e não pediu um centavo além do que foi acertado. Foi um verdadeiro exemplo de ética.

Agora ele faz backup do notebook semanalmente.

Se esta fosse uma história de ficção, eu seguiria a mesma narrativa até o momento em que ele recebeu o notebook. Na sequência, eu poderia inventar um diálogo entre o ladrão e o empresário:

– Tudo certo, doutor?
– Tudo certo!
– Não fazia backup há tempo, hein?
– Acho que faz quase um ano…
– Tem que fazer backup mais frequente, doutor! Imagina se um profissional menos gabaritado rouba seu equipamento… Tava f…
– OK! Eu sei… A primeira coisa que vou fazer, quando sair daqui, vai ser comprar um HD externo e copiar tudo…
– Eu tenho um HD externo novo de 2 Tera. Posso fazer um bom preço. Afinal, o doutor é um cliente VIP…
– Quanto?
– R$ 100.
– Não tenho dinheiro para pagar…
– Tudo bem! Eu aceito cartão…
– Aceita cartão?
– Pra venda de equipamentos, sim…
– OK, vou levar o HD.
– Vai querer CPF na nota?
– Não precisa.

O ladrão digita o valor da venda e pede para o empresário passar o cartão na máquina. Quando ele vai colocar a senha, o ladrão comerciante olha para o outro lado para não ver o número digitado.

credit-card-thief

O empresário recebe a segunda via do comprovante da operação e diz:

– Obrigado! Foi ótimo fazer negócio com você!
– Que isso, doutor? O prazer foi meu! Até a próxima…
– Espero que não tenha próxima!
– Então não vacila, OK?
– Vou tentar! Tchau.

O empresário voltou pela mesma trilha, pegou o automóvel e retornou para a sua empresa.

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Post 200 – Retrospectiva

Este é o ducentésimo (por que não é “duzentésimo”?) post publicado neste blog.

200-posts

Normalmente o centésimo é mais festejado, talvez pela introdução do terceiro dígito na contagem do número de posts, mas não posso perder a chance de fazer uma retrospectiva dos últimos cem posts publicados.

Vários posts foram inspirados por filmes. “Diários de Motocicleta” ajudou a contar a história da formação da consciência social de Che Guevara. “As Aventuras de Pi” tratou de temas como religiosidade e espiritualidade. “Amour” tratou dos sacrifícios extremos assumidos em nome do amor. “Meia-Noite em Paris” inspirou uma discussão sobre “O Passado e o Futuro”. “Ela” (título original Her) trouxe à tona as maravilhas e os perigos da inteligência artificial meio ano antes do físico Stephen Hawking externar seus temores sobre o assunto (fiquei bem acompanhado desta vez…).

Outros posts resgataram fatos históricos, como as descobertas e invenções de Heron de Alexandria ou o ato heroico de Sérgio Macaco que evitou centenas de mortes durante os anos de chumbo no Brasil. O próprio golpe militar foi protagonista de um post, onde reafirmei minha certeza que a democracia é o único caminho. As semelhanças dos casos de Napoleão Bonaparte e Eike Batista também renderam um post. E a guerra, o ato mais estúpido do ser humano, foi meu alvo após uma visita a Les Invalides em Paris,”Pra Não Dizer que Não Falei das Flores“.

O nascimento de nossa caçula, Luiza, recebeu um post superespecial – “A Maior Emoção da Minha Vida”. A Claudia deve futuramente fazer um post mais aprofundado sobre o parto humanizado.

Alguns posts trataram das minhas visões pessoais sobre família, amor pelos filhos (“Quando nos sentimos pais”) e educação dos filhos (“O que Dar e o que Esperar do Futuro de Nossos Filhos”). Afinal minha riqueza não deve ser medida pelos meus bens materiais, mas pela qualidade dos meus relacionamentos e “Eu Sou um Homem Rico”.

As questões do exibicionismo e da privacidade foram discutidas em dois posts, o primeiro sobre o BBB e o segundo que também trata do monitoramento da vida privada das pessoas pelos Estados – “Privacidade, Intromissão e Exibicionismo”. A propósito este post foi publicado quatro meses antes das denúncias de Edward Snowden.

As religiões e a manipulação dos fiéis por líderes inescrupulosos são fontes inesgotáveis de inspiração. Não escaparam deste blog o Islamismo, a igreja católica, representada pelos papas Bento XVI e Francisco, e nem mesmo “Deus, Sempre Ele”.

Dediquei dois posts para uma das piores figuras públicas da atualidade, o russo Vladimir Putin, sobre seu ecomarketing e sobre a Crimeia. Muito, mas muito menos importante, o ex-prefeito de Novo Hamburgo, Tarcísio Zimmermann, também foi “agraciado” com dois posts, enquanto tentava se reeleger antes de ser cassado devido à Lei da Ficha Limpa.

Em outros três posts, procurei comentar como nossos pensamentos podem ser nossos maiores aliados ou inimigos – “Como a Matrix de Neo e a Caverna de Platão nos Mostram a Realidade”, “Memórias e os Fantasmas do Passado” e “Como Assassinamos Nossos Insights”. Na mesma linha, escrevi mais dois posts – “O Medo” e “A Autossabotagem”.

A culinária vegana manteve seu lugar de destaque – moqueca de tofu, ratatouille, torta de sorvete, estrogonofe ou como preparar proteína texturizada de soja.

Aventurei-me em novos territórios – primeiro escrevi uma história infantil sobre bullying (“A Bruxinha Totute”); depois um poema no meio da “Turbulência” de um voo entre a França e o Brasil; mais um conto de ficção científica dividido em cinco partes sobre a expansão da humanidade em outros sistemas planetários e sua incontrolável ambição (“A Fonte da Juventude de Perennial”). Para finalizar escrevi, na semana passada, uma história que mescla ciência e religião (“Projeto Gaia – Experiência Final”).

Vários posts tiveram como inspiração as manifestações de junho do ano passado. Iniciei com “Os Protestos e a Verdadeira Democracia”, na sequência sugeri como próximo alvo a finada PEC 37/2011. Imaginem como ficaria a investigação da “Operação Lava Jato”, se o poder de investigação do Ministério Público Federal fosse tolhido? A melhoria nos serviços públicos de saúde foi um dos principais alvos dos manifestantes e o governo federal reagiu com a criação do “Programa Mais Médicos” que inspirou um artigo. Em breve, voltarei a escrever sobre a política brasileira.

Tentei desvendar os mistérios da satisfação pessoal em ”Não Esqueçam seus Objetivos Pessoais no Avião” e “Salário Motiva os Funcionários?”.

Questões éticas com animais foram tratadas em “Golfinhos de Guerra” e “Sofrer e Amar não são Exclusividades dos Humanos”.

A sustentabilidade ambiental também teve destaque com artigos sobre reciclagem de metais raros de telefones celulares, reciclagem de fósforo e da influência do consumo de carne na degradação do meio ambiente.

Este blog não é mais somente meu. A Claudia estreou em grande estilo com o post que conta como virou vegetariana, “Eu, a carne e a berinjela…”. Sinto que o respeito aos vegetarianos cresce a cada dia como retratei no post “Vitória Vegetariana”. E aqui entre nós, “Por Que Comer Carne?”.

A Copa do Mundo de Futebol realizada no Brasil em 2014 rendeu dois posts, “A Copa do Mundo Envergonhada” e “Como o Futebol Brasileiro foi Massacrado pelo Alemão”. Dentro da esfera futebolística, publiquei mais dois post “De Volta para o Meu Lugar”, sobre a reabertura do Beira-Rio, e “Fernandão, Vida, Morte e Piscadas”, sobre o morte do ídolo colorado Fernandão.

A seca em São Paulo que ameaça o fornecimento de água à população do estado também inspirou dois posts – “o que fazer quando a água acabar?” e “as medidas que evitariam a crise de abastecimento de água”. Apesar das excelentes chuvas dos últimos dias, o risco continua…

Falei sobre os mais variados assuntos, das “Gambiarras” ao “Portuglish ou Portunglês”, do show de Yusuf Islam em São Paulo aos “Múltiplos Papéis da Mulher no Mundo Atual”, dos conflitos entre judeus e palestinos em “O Escudo Humano” aos problemas da economia americana em “Obama e o Dilema Capitalista”, do racismo contra o goleiro Aranha a “Os Psicopatas, os Hiperativos, os Estranhos e os Normais”. Afinal “As Pessoas são Diferentes – Que Bom!!!”.

Agradeço a todos que acompanham nosso blog, espero críticas e sugestões para os assuntos dos próximos cem posts e lembro, mais uma vez que tento não falhar e fazer “Jornalismo Profundo como um Pires“ e “Eu Não me Chamo “Martho Medeiros”.

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Drogas – O Fim da Guerra

Recentemente pessoas de diversos lugares do mundo ficaram chocadas com o desaparecimento e provável assassinato de 43 estudantes no México. Segundo membros do cartel de narcotraficantes, “Guerreros Unidos”, um ônibus com os estudantes foi interceptado pela polícia, quando estava a caminho da cidade de Iguala. Após a prisão, os estudantes foram entregues ao grupo de criminosos que os executou e seus corpos foram queimados. José Luis Abarca Velázquez, o prefeito de Iguala, e sua esposa, María de los Ángeles Pineda Villa, foram apontados como os prováveis autores intelectuais deste crime bárbaro.

Painel com as fotos dos 43 estudantes mexicanos desaparecidos.

Painel com as fotos dos 43 estudantes mexicanos desaparecidos.

O envolvimento de autoridades políticas, policiais e traficantes de drogas infelizmente não é novidade. A corrupção do sistema pode ser explicada pelo tamanho do negócio das drogas ilícitas, um mercado de US$ 300 bilhões por ano.

Por que algumas drogas são lícitas e outras são ilícitas? Álcool, cigarro e açúcar têm consumo permitido; e maconha, cocaína e heroína, não! Você pode ficar surpreso com a inclusão do açúcar no rol das drogas lícitas, mas foi assim que começou minha conversa com Ethan Nadelmann, diretor e fundador da ONG Drug Policy Alliance, durante o TEDGlobal 2014 no Rio de Janeiro. Você pode assistir sua impactante apresentação durante o TED abaixo.

 

Eu estava na mesa do buffet de sobremesas, quando ele chegou. Escolhi alguns doces e disse para ele:

– Dizem que o açúcar vicia mais do que cocaína…

Ele sorriu e concordou. Contou a história de um donut cheio de açúcar e creme que, segundo um comediante americano, dava a sensação que o cérebro iria explodir – efeito semelhante da cocaína. Elogiei a apresentação dele, falamos sobre amenidades e ele disse que estaria em São Paulo na semana seguinte. Comentei sobre o programa da prefeitura paulistana para reintegrar ao convívio social os viciados em crack. Lembrei também da reação da polícia do estado que agiu de forma agressiva, batendo e prendendo usuários de drogas da região da cracolândia de São Paulo. Nadelmann elogiou a iniciativa da prefeitura e disse que, em todo o mundo, a polícia é a maior inimiga da legalização das drogas.

Na sequência, para exemplificar, ele contou a história de um rapaz que criou uma ONG na Colômbia que procurava ajudar dependentes de drogas injetáveis, auxiliando-os a se libertar do vício e, se isto não fosse possível, dando agulhas esterilizadas para evitar a proliferação de doenças, como a AIDS. A atuação desta ONG começou a incomodar os traficantes e os policiais corruptos que faziam parte do esquema. A Justiça Colombiana decidiu proteger a vida do rapaz com policiais honestos e a intimidade entre o protegido e seus protetores começou a crescer. Numa noite, enquanto bebiam cerveja juntos, um dos policiais falou:

– Você é um cara legal! Está fazendo o acredita, é honesto, bem-intencionado, mas eu agiria diferente. Se pudesse, daria um tiro na cabeça de cada um destes viciados e acabava com o problema…

Esta postura lembra o ódio do Capitão Nascimento nutria contra os viciados no primeiro filme da “Tropa de Elite”.

capitao-nascimento_maconheiro

Capitão Nascimento agride um viciado e diz que ele é o responsável por aquela situação.

 

Os Estados Unidos gastaram US$ 1 trilhão no combate às drogas nos últimos 40 anos. O fracasso é evidente, o consumo de drogas ilícitas só cresce e a violência ligada à atividade atinge níveis impressionantes em várias regiões do mundo como no México.

Nadelmann brincou na sua apresentação que muda de opinião muitas vezes em relação à legalização das drogas:

– Estou dividido: três dias por semana eu acho que sim, três dias por semana eu acho que não, e aos domingos, eu sou agnóstico.

Eu também me sinto dividido, mas vejo que alguns argumentos contra a descriminalização são fracos. Se a proteção à saúde fosse realmente o motivo principal, deveríamos proibir o consumo de álcool, cigarro, açúcar, gorduras saturadas…

Se o argumento é a proteção de nossos filhos em relação à violência, também podemos demonstrar que uma boa dose da violência urbana advém desta guerra antidrogas que vitima muitos inocentes. Além disto, proibir alguma coisa para nossos filhos não é, com certeza, tão efetivo quanto amá-los, educá-los, orientá-los e sermos pais presentes.

Hoje não é permitida a venda de álcool e cigarros para menores de 18 anos. O mesmo critério poderia ser adotado em relação a outras drogas. Em minha opinião, a maconha poderia ser a primeira droga atualmente ilícita a ser liberada e vendida com estas restrições de idade, com cobrança de impostos similar às bebidas alcoólicas destiladas ou cigarros. A maioria das demais drogas poderia ser liberada na sequência de acordo com as peculiaridades de cada uma.

Se a proibição das drogas resolvesse a questão, ninguém nos Estados Unidos beberia álcool. A Lei Seca só serviu para capitalizar a Máfia americana e enriquecer seu líder, Al Capone.

Termino este post, reproduzindo o encerramento da apresentação de Ethan Nadelmann no TEDGlobal que foi aplaudido de pé pela plateia presente.

– Então é a isso que eu tenho dedicado a minha vida para a construção de uma organização e um movimento de pessoas que acreditam que precisamos virar as costas a proibições fracassadas do passado e abraçar novas políticas de drogas baseadas em ciência, compaixão, saúde e direitos humanos, onde as pessoas que vêm de todo o espectro político e todos os outros espectros, onde pessoas que amam as nossas drogas, pessoas que odeiam drogas e pessoas que não dão a mínima para as drogas, mas onde cada um de nós acredite que essa guerra às drogas, este atraso, sem coração, esta guerra desastrosa tem que acabar.

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Aranha, os Torcedores Gremistas e o Racismo

Na sexta-feira passada, recebi de um colega de empresa a encomenda de uma postagem no meu blog, tratando do evento recente de racismo no jogo entre Grêmio e Santos. Como já foi amplamente divulgado pela mídia, no jogo contra o Grêmio em Porto Alegre, parte da torcida gremista ofendeu o goleiro Aranha do Santos, chamando-o de macaco.

Goleiro Aranha se revolta com a atitude de parte da torcida do Grêmio

Goleiro Aranha se revolta com a atitude de parte da torcida do Grêmio

Lembro-me de um filme americano de 1970, “Watermelon Man” que assisti com meu pai numa madrugada de sábado no final dos anos 70 ou início dos 80. No Brasil, o título do filme é “A Noite em que o Sol Brilhou”. Neste filme, um americano branco e racista acorda negro. Após tentar voltar ao normal, sem sucesso, ele decide retomar sua vida normalmente, mas percebe que as pessoas passam a tratá-lo de forma diferente. Assista ao trailer do filme.

A cena da corrida para chegar antes à parada do ônibus era uma aposta com o motorista e ele fazia aquilo todos os dias. Para vencer a aposta ele inclusive atravessava quintais de alguns vizinhos. Suas atitudes, incluindo seu humor grosseiro, eram toleradas e ele era considerado um excêntrico. Quando ele tentou fazer a mesma coisa depois de ficar negro, foi preso. Quem se lembra daquela velha piada? Um rico, quando corre, está fazendo um cooper; e um pobre está fugindo da polícia! No filme, a esposa branca do protagonista, apesar de mais liberal e apoiar a luta dos negros americanos, não suportou aquela situação e deixou o marido.

Nos Estados Unidos, a situação foi mais séria, porque houve segregação racial, mas, no Brasil, a coisa não foi muito melhor. Durante muito tempo, atos racistas foram tolerados na nossa sociedade. A Lei Afonso Arinos, que entrou em vigor em 1951, tornou os direitos de todos iguais independente de raça. Ou seja, um negro, por exemplo, não poderia ser impedido de frequentar um estabelecimento comercial apenas por ser negro. Mas o racismo continua vivo ou, pelo menos, adormecido na cabeça de muitas pessoas até hoje. Talvez a jovem torcedora do Grêmio flagrada pelas câmeras de TV não discrimine negros no seu dia a dia, mas, junto com outros torcedores, usou uma forma racista para ofender o goleiro santista. Isto mostra que ela achava aquela atitude normal, senão, no mínimo, ficaria calada.

O fim do racismo claramente é um processo de mudança cultural. Em um post comentei o processo de mudança cultural em relação à segurança. Apresentei o exemplo do uso de cinto de segurança nos automóveis. Vivemos décadas numa sociedade onde o racismo e os atos inseguros eram tolerados. Para mudar a situação devemos ser inflexíveis, senão a “maionese desanda”. Naquele post, apresentei a curva de Bradley da DuPont.

bradleycurve

Existem pessoas com diferentes níveis de maturidade: algumas ainda têm comportamento reativo, outras dependem de supervisão, outros têm comportamento adequado independentemente de orientação e existem os que ajudam os outros a melhorar seus padrões de comportamento.

A punição de exclusão da Copa do Brasil sofrida pelo Grêmio deve servir de exemplo para toda a sociedade brasileira. Quando a Justiça Esportiva passou a punir os clubes, porque algum torcedor lançava algum objeto no campo, muita gente achou que era um exagero, mas os próprios torcedores passaram a se autocontrolar.

Sem dúvida chamar um negro de macaco não está certo, mesmo num estádio de futebol! A maioria da torcida do Grêmio também já entendeu que chamar os torcedores do Internacional de “macacos imundos” é errado e vaiou os que cantaram esta música antes do ultimo jogo em seu estádio.

Todos merecem respeito e igualdade de direitos independente de raça, sexo, patrimônio material, orientação sexual, local de nascimento, religião e profissão. Isto é lógico, parece fácil de fazer, mas, na verdade, é uma luta diária, onde não podemos baixar a guarda ou sermos omissos .

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A Gambiarra

Na engenharia, ou em nossas vidas, muitos problemas são solucionados através de soluções técnicas provisórias, mais conhecidas como gambiarras. O problema é que muitas vezes elas não atendem os mínimos requisitos de segurança e, pior, acabam se tornando definitivas. Geralmente as gambiarras são feitas, porque seu autor não tem recursos, tempo ou disposição para buscar a solução definitiva. Deste modo, o problema é contornado sem pessoal competente, sem as ferramentas corretas, sem o material apropriado. Por outro lado, as gambiarras são também expressões de criatividade do seu autor.

"bela" churrasqueira

“bela” churrasqueira

O artista plástico e cineasta mineiro Cao Guimarães, autor das fotos deste post, já fez um filme sobre esta verdadeira instituição nacional, a gambiarra. Assista ao vídeo abaixo sobre mestres desta prática.

Na sequência, você pode ver outras fotos com gambiarras incríveis. Olhe esta tábua de carne, servindo como suporte nesta janela! Imagine esta tábua despencando do décimo andar de um prédio…

suporte "seguro" para janela

suporte “seguro” para janela

E agora você pode ver uma solução interessante, um CD usado como refletor de uma lâmpada. Ideia bem criativa…

novo uso para CD

novo uso para CD

A gambiarra ainda pode apresentar vários efeitos colaterais. Alguns “gambiarristas” passam a se orgulhar de suas criações e rejeitam as soluções convencionais. Afinal gambiarra vicia, dá prazer! Todos conhecem sucateiros que criam soluções baratas, onde segurança e eficácia são colocadas em segundo plano. No final, o barato sai caro…

Outro problema tem a ver com as restrições causadas pela falta de recursos ou de tempo, por exemplo. As gambiarras são boladas quando existe algum tipo de restrição. A situação pode melhorar, as restrições desaparecerem, mas as pessoas continuam agindo como se elas existissem. E lá vêm novas gambiarras…

Normalmente falta senso crítico para analisar a necessidade de “gambiarrar” e seus impactos sobre a segurança e a implantação de uma solução definitiva do problema.

O pior mesmo é quando a gambiarra vira uma filosofia de vida e passa a ser empregada também nas relações pessoais. Assim ao invés de resolver os problemas, são adotados subterfúgios que só geram sofrimentos futuros. As questões não são solucionadas de modo sustentável, por exemplo no âmbito familiar, e para resolvê-las são escolhidas alternativas como mudar de casa, comprar um automóvel novo, fazer uma viagem ou, muito pior, ter um filho. Gambiarras não são coisas feitas só por pobres. Todos fazem gambiarras quando não sabem como resolver um problema de acordo com as boas técnicas.

Mas, apesar de todos os pontos negativos, nós brasileiros não conseguimos viver sem gambiarra, assim, para finalizar, proponho um brinde em sua homenagem com uma cerveja bem gelada…

gambiarra_cerveja

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O Aracnicídio

Quando mudei para São Paulo, pedi uma vaga no estacionamento do conjunto de prédios onde estão localizados os escritórios da empresa em que trabalho. Passados alguns dias me deram uma vaga no quarto subsolo de um dos edifícios-garagem. Notei que havia algumas teias de aranha no teto e em paredes próximas. Um dia vi uma aranha preta com manchas vermelhas no corpo e nas patas. Depois apareceu uma teia semiesférica com outra aranha dentro. Depois de algumas semanas, a aranha saiu da sua “toca”, ela era parecida com a primeira, mas era maior.

Aranha parecida com minhas vizinhas

Resolvi buscar uma convivência pacífica com minhas colegas de vaga. Inclusive dei nomes, a primeira era a Lucrécia (homenagem à Lucrécia Bórgia) e a maior era a Jacobina (homenagem a Jacobina Mentz Maurer dos Muckers).

As teias foram crescendo, assim como a proximidade das aranhas ao meu automóvel. Comecei a ficar com receio de me enrolar em alguma teia ou de ser atacado por uma das aranhas. Na quinta-feira passada, quando estava descendo a rampa de acesso do estacionamento, encontrei dois funcionários da limpeza. Aproveitei e informei o número da minha vaga e pedi para remover as aranhas. O pessoal imediatamente foi até o local e matou a Lucrécia, a Jacobina e suas crias. Sinceramente senti certo remorso por ter sido o mandante da matança das aranhas, mas tentei racionalizar que a situação representava um risco para mim.

Depois estava trabalhando normalmente, quando a secretária chegou e me avisou que mudou o local do estacionamento do meu carro. Na mesma hora, lembrei-me das aranhas inutilmente mortas. Que coisa mais terrível, parecia script de filme…

No final do dia, me dirigi até meu carro e vi que todas as teias foram removidas exceto uma junto à coluna no lado da minha ex-vaga. Ali durante o dia outra aranha da mesma espécie teceu uma nova teia. Já a batizei como Messalina (a polêmica imperatriz romana casada com Cláudio).

Lucrécia Borgia, Jacobina Maurer e a Imperatriz Messalina

Parecia um sinal que, apesar do massacre a que foram expostas, aquela espécie continuaria lutando e resistiria a todas as violências e adversidades do mundo exterior. Afinal a vida deve triunfar no final, mesmo que um tirano intolerante ache impossível a convivência entre criaturas diferentes. Esta é uma história verídica, mas poderia ser uma fábula sobre xenofobia e genocídios…

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O Meu Pequeno Acidente ou o Meu Quase-Grave-Acidente

Depois de assistir a um seminário na cidade mineira de Sete Lagoas, estava dirigindo um automóvel alugado em direção do Aeroporto de Confins. Já havia passado por trechos que cruzam áreas urbanas de pequenas cidades. A pista da MG-424 é estreita, não tem acostamento, tem inúmeras lombadas nas áreas urbanas. Felizmente existem melhorias em curso no asfalto e na sinalização.

Trecho da Rodovia MG-424

Dirigi em longas filas até passar pela cidade de Pedro Leopoldo, onde a pista, apesar de ondulada e mal sinalizada, é duplicada. O GPS mandou eu dobrar para a esquerda, mas, além de não ser possível naquele ponto, eu me lembrava que deveria acessar a alça de um viaduto no lado direito. Segui mais um pouco em frente, o GPS recalculava a rota e eu procurava alguma placa que indicasse a estrada para Confins. A pista estava vazia e eu me aproximava de um viaduto, procurei alguma placa que indicasse o destino daquele acesso. Finalmente vi que ainda não era o desejado, quando olhei novamente para frente, vi que iria bater no meio-fio de um canteiro, que por sinal já estava bem avariado, não tinha mais tempo para evitar o choque. A roda dianteira direita bateu forte e o automóvel ficou apoiado apenas nas rodas do lado esquerdo. Felizmente voltou a ficar com as quatro rodas na pista, corrigi o traçado e segui em frente.

Meu automóvel ficou em duas rodas como este da foto

Primeiro pensei que se estivesse em velocidade mais alta provavelmente a capotagem seria inevitável. A partir desse momento as consequências seriam imprevisíveis. O pneu também não estourou… Parecia que meu anjo da guarda tinha ajudado!

Quando parei para abastecer alguns quilômetros à frente, desci do carro e vi os estragos. A roda dianteira direita estava profundamente marcada, o pneu estava com um rasgo na lateral; e a calota, completamente destruída.

O acidente, apesar das consequências quase desprezíveis, tinha potencial para ser muito grave, Se houvesse outro automóvel ou caminhão o choque seria provável com risco elevado de ter alguém ferido, incluindo este blogger.

Acidente ocorrido na MG-424 em maio de 2011

Como sempre acontece nestas ocasiões, tirei algumas lições do quase-grave-acidente:

  • Primeira – nunca devemos reduzir a atenção enquanto dirigimos, especialmente em um estrada ou rua em que não estamos familiarizados.
  • Segunda – a vida é imprevisível, assim por melhor que nós planejemos ou tentemos controlá-la, sempre poderão ocorrer fatos que trazem rumos jamais imaginados.
  • Terceira – a vida é frágil e pode terminar a qualquer momento, assim devemos vivê-la com intensidade. Não estou falando em pular de paraquedas ou nadar com tubarões. Se pudermos fazer algo importante hoje, não devemos deixar para o incerto amanhã.

Termino este post da mesma forma que encerrei outro, Em Busca da Felicidade, lembrando as palavras de sábio Hilel, líder religioso judeu. “Se eu não faço por mim, quem fará? E quando eu faço por mim, o que eu sou? Se não for agora, quando será?”

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Audiência Pública de Esclarecimentos Sobre a Rede de Alta Tensão em Novo Hamburgo

A comunidade, com o apoio do vereador Raul Cassel, receberá um técnico da AES Sul que dará explicações sobre a instalação de redes de alta tensão em áreas populosas de Novo Hamburgo, trechos das avenidas Sete de Setembro, Pedro Adams Filho e Guia Lopes.

Compareça e participe! A comunidade precisa ser informada. Sua saúde e seu patrimônio estão em risco.

Local: Câmara de Vereadores de Novo Hamburgo
Endereço: Rua Almirante Barroso, 261
Fone: 3594-0500
Data: 4 de agosto de 2011
Horário: 15 horas

Questionamentos para AES Sul sobre Redes de Alta Tensão

Foi considerado no projeto o relatório “Estabelecendo Um Diálogo Sobre Riscos De Campos Eletromagnéticos” da Organização Mundial da Saúde – OMS?

Linhas de transmissão de energia elétrica geram campos eletro-magnéticos de baixas frequências. Campos elétricos de baixas frequências influenciam a distribuição de cargas elétricas na superfície dos tecidos condutores e causam um fluxo de corrente elétrica no corpo. Campos magnéticos de baixas freqüências induzem correntes circulantes dentro do corpo humano. [páginas 3 e 4 do relatório]

Em 2001, um grupo de trabalho integrado por peritos, constituído pela IARC (International Agency for Research on Cancer) da OMS reviu estudos relacionados com a carcinogenicidade de campos elétricos e magnéticos estáticos e de frequências extremamente baixas (ELF). Usando a classificação padrão da IARC que pondera as evidências humanas, animais e de laboratório, campos magnéticos ELF foram classificados como possivelmente carcinogênicos para humanos com base em estudos epidemiológicos de leucemia infantil. [página 5 do relatório]

Importante lembrar que a rede passará na frente do Colégio Sinodal da Paz, localizado na Avenida Pedro Adams Filho, nº 1974.

Estes fatos foram levados em consideração no projeto desta linha de transmissão? Existe alguma evidência ou fato que rejeite as afirmações acima?

Foi realizada análise de risco no projeto e instalação desta rede?

Por que nenhum programa de comunicação foi adotado? Por que não foi realizada uma audiência pública para discutir o projeto?

Os moradores, comerciantes e o colégio foram comunicados sobre a instalação desta nova linha de transmissão?

Foram consideradas outras opções técnicas (trajeto diferente ou linhas enterradas)?

Foram consideradas medidas mitigatórias (blindagem da linha)?

Foram consideradas medidas compensatórias para moradores e comércio?

Como serão compensados os proprietários de casas, apartamentos, terrenos e pontos comerciais pela imprevista queda no valor de suas propriedades? Existe jurisprudência para indenização de proprietários devido à desvalorização econômica do terreno causada pela passagem rede de transmissão de energia elétrica.

A Avenida Sete de Setembro será alargada? Os comerciantes foram avisados sobre a redução das calçadas que atualmente são utilizadas como estacionamento de seus negócios?

Qual será o impacto paisagístico? Na revitalização da Avenida Comendador Franco em Curitiba, por exemplo, está incluída a retirada das torres de alta tensão.

Existe garantias de resistência dos postes contra o impacto de caminhões? Serão instaladas defensas metálicas para proteção em caso de choques de veículos?

Qual o motivo que levou a transferência da linha do Bairro Santo Afonso para a deste projeto? A rede atual apresenta risco elevado? Qual a vantagem deste projeto sobre a situação atual?

Outras perguntas podem ser entregues por escrito no plenário para um vereador de Novo Hamburgo que questionará o representante da AES Sul.

Para mais informações clique aqui: https://vicentemanera.wordpress.com/2011/06/23/redes-de-alta-tensao-sobre-nossas-cabecas

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