Júlia – 10 Anos – Como Tudo Começou

Hoje nossa filha Júlia completa 10 anos. Pelo significado da data, gostaria de contar o susto e a primeira grande emoção que tivemos ainda antes do seu nascimento.

Eu e a Claudia já estávamos juntos há quase cinco anos, quando decidimos que teríamos um filho. No início de 2007, “encomendamos” o nenê. Ele ou ela nasceria em outubro.

O ano de 2006 foi um período de muito trabalho para mim. Muita coisa deu errado no ano anterior, mas em 2006 tudo deu certo! A empresa deu um prêmio para os profissionais que mais se destacaram no ano e eu ganhei uns dias com a Claudia em um hotel cinco estrelas em Cancun no México. A primeira ecografia estava marcada para a primeira semana após nossa volta ao Brasil.

hotel fiesta americana grand coral beach cancun

Hotel Fiesta Americana Grand Coral Beach em Cancun

 

Como não havia voos diretos a Cancun, voamos de Porto Alegre a São Paulo, onde pegamos o avião para Miami, de onde saiu o voo até nosso destino final. Tudo correu bem até nossa escala em Miami, nos Estados Unidos. O tempo para a conexão era relativamente curto e as filas na imigração americana eram longas. Chegamos no portão de embarque do voo para Cancun poucos minutos antes do embarque.

Entramos no avião, nos acomodamos, quando a Claudia deu uma notícia terrível:

– Estou sangrando…

Ela foi ao banheiro do avião e retornou em seguida, dizendo que realmente havia sangrado bastante, o que seria sinal de aborto. Decidimos viajar mesmo assim para Cancun, porque lá teríamos apoio da empresa onde trabalhava. Ligamos para o Aurélio, um colega que ganhou o mesmo prêmio e já estava no México, e sua esposa, Cristina, que é obstetra. Ela conversou com a Claudia e preparou o atendimento médico para nossa chegada.

A situação manteve-se estável durante a decolagem e o voo. Após pouco mais de uma hora e meia, pousamos em Cancun. No momento do pouso, a Claudia falou para mim que parecia que havia “descido” tudo. Foi novamente ao banheiro do avião e contou na volta que saiu muito sangue e um grande coágulo. Concluímos que perdemos nosso bebê. Ficamos muito tristes, enfrentamos as longas filas da imigração mexicana, pegamos nossa mala e saímos para a área de desembarque.

Cristina estava nos esperando e fomos para um hospital em Cancun. Na chegada, fizemos todos aqueles procedimentos padrões, preencher formulários, responder perguntas, medições de temperatura e pressão arterial. Um médico jovem chegou falando em inglês que o único profissional disponível para a ecografia só falava espanhol. Este é um ponto curioso da história, porque como os mexicanos não entendem bem português, acham que não entendemos espanhol.

Fomos conduzidos até o consultório da ecografia, prepararam a Claudia para o exame e o médico, responsável pelo exame, entrou na sala. A primeira imagem que surgiu na tela foi a silhueta perfeita de um bebê. Foi uma tremenda surpresa! Achávamos que não veríamos mais nada, mas lá estava um bebê imóvel. Não sabíamos se estava vivo. Claudia pediu em um portunhol perfeito:

El corázon?!?

O médico fez apenas um sinal tranquilo com a mão, pedindo um pouco de paciência. Ele parecia fazer uma ecografia de rotina. De repente nosso bebê começou a se mexer. Júlia se mexeu!!! Choramos de alegria… Foi a primeira grande alegria que a Júlia nos deu!

Juju

Júlia

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E se o Príncipe Hamlet Fosse um Ovo, uma Semente ou uma Pedra?

Já imaginou se o príncipe Hamlet da Dinamarca, personagem principal da magistral peça de William Shakespeare, não fosse um ser humano? E se ele fosse o ovo de uma ave, ou a semente de uma árvore ou uma simples pedra?

Para relembrar, há alguns anos escrevi um artigo sobre Hamlet, a versão de Millôr Fernandes para o famoso monólogo “Ser ou Não Ser” está apresentada na sequência.

Hamlet_Delacroix

Hamlet e Horácio no cemitério de Eugène Delacroix

Ser ou não ser – eis a questão
Será mais nobre sofrer na alma
Pedradas e flechadas do destino feroz
Ou pegar em armas contra um mar de angústias –
E, combatendo-o, dar-lhe fim? Morrer; dormir;
Só isso. E com o sono – dizem – extinguir
Dores do coração e mil mazelas naturais
A que a carne é sujeita; eis uma consumação
Ardentemente desejável. Morrer – dormir –
Dormir! Talvez sonhar. Aí está o obstáculo!
Os sonhos que hão de vir no sonho da morte
Quando tivermos escapado ao tumulto vital
Não obrigam a hesitar: e é essa reflexão
Que dá à desventura uma vida tão longa.
Pois quem suportaria o açoite e os insultos do mundo,
A afronta do opressor, o desdém do orgulhoso,
As pontadas do amor humilhado, as delongas da lei,
A prepotência do mundo, e o achincalhe
Que o mérito paciente recebe dos inúteis.
Podendo ele próprio, encontrar seu repouso
Com um simples punhal? Quem aguentaria fardos,
Gemendo e suando numa vida servil,
Senão porque o terror de alguma coisa após a morte –
O pais não descoberto, de cujos confins
Jamais voltou nenhum viajante – nos confunde a vontade,
Nos faz preferir e suportar os males que já temos,
A fugirmos para outro que desconhecemos?
E assim a reflexão faz todos nós covardes.
E assim o matiz natural da decisão
Se transforma no doentio pálido do pensamento,
E empreitadas de vigor e coragem,
Refletidas demais, saem de seu caminho,
Perdem o nome de ação.

Ovo_Sementes_Pedras

Se Hamlet fosse um ovo, poderia ser assim seu famoso monólogo:

Ser ou não ser – eis a questão
Ser mineral ou ovo?
Enquanto sou simples ovo, sou como mineral, meu relógio está parado – sem riscos,
Mas diferente dos minerais, posso me transformar!
Com ar ou sem ar – eis a questão
Sem ar, o tempo não existe,
Com ar, o cronômetro dispara…
Não serei mais ovo,
Serei uma ave!
Toda água que preciso para me transformar em ave já está dentro de mim,
Quando estiver pronta bicarei o invólucro mineral que me protege – a casca,
Colocarei minha cabeça para fora e inspirarei o ar para meus pulmões pela primeira vez.
Depois ao expirar, emitirei o primeiro som da minha vida.
Inspirarei e expirarei de forma rítmica enquanto viver.
Aprenderei a suprir meu próprio alimento.
Caçarei animalzinhos menores e fugirei dos meus predadores.
Alternarei períodos de sono com períodos de vigília.
Crescerei e procriarei.
Colocarei ovos que poderão gerar aves semelhantes a mim.
Seguirei meus instintos todos os dias.
Sentirei o mundo ao meu redor.
Até o dia em que perderei minhas forças, envelhecerei.
Me tornarei presa fácil e, um dia, expirarei pela última vez.
Terei morrido!
Meus restos voltarão para a terra e uma parte voltará a ser mineral.
Mas se alguns dos ovos que botei, ao longo da minha vida, virarem aves,
Todo o ciclo da vida recomeça e esta história poderá ser recontada.

E se fosse uma semente?

Ser ou não ser – eis a questão
Ser mineral ou planta?
Enquanto sou simples semente, sou como mineral, meu relógio está parado – sem riscos,
Mas diferente dos minerais, posso me transformar!
Com água ou sem água – eis a questão
Sem água, o tempo não existe,
Com água, o cronômetro dispara…
Não serei mais semente,
Primeiro virarei broto,
Crescerão raízes, caule e folhas,
Minhas raízes buscarão na terra a água e os minerais que preciso,
Minhas raízes chegarão até a rocha-mãe e a desintegrarei lenta e carinhosamente,
A água e os minerais absorvidos pelas raízes formarão a seiva bruta,
Que subirá, através do xilema, pelo meu caule até minhas folhas.
De dia o sol iluminará minhas folhas,
Absorverei o gás carbônico do ar
E, através do milagre da fotossíntese, liberarei oxigênio e produzirei açúcares.
Através do floema mandarei para baixo esta nova seiva nutritiva.
Crescerei um pouco a cada dia.
No final de cada ciclo, florescerei e frutificarei.
Farei sementes iguais à que eu fui um dia.
E voltarei a crescer até um dia em que pararei de crescer e morrerei.
O tempo, materializado em meu corpo, estará encerrado para mim.
Voltarei a ser mineral, voltarei para a terra…
Mas minhas sementes, se receberem água, contarão de novo esta história.

Mas tudo seria mais simples, se Hamlet fosse uma pedra:

Ser ou não ser – eis a questão,
Simples, apenas ser…
E suportar tudo – eternamente,
Ser pisoteada por homens e animais,
Despencar da encosta de uma montanha,
Ser chibatada pelas águas do mar ou de um rio,
Ou lavada gentilmente pela chuva,
Ser erodida pelos ventos,
Ou partida pela violência de um raio.
Passar os tempos no alto de uma montanha,
No fundo de um rio,
Ou nas profundezas da terra, onde as raízes de plantas roubam meus minerais.
Se eu for totalmente fragmentada, desintegrada,
Continuo a ser a mesma, porque sou apenas a soma de minhas partes.
Tenho a eternidade.

 

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Adeus, Filó! Você Sucateou Minhas Armaduras…

Há mais ou menos um mês, Claudia descobriu uma família de cães abandonada em um terreno baldio de Cotia, no caminho entre nossa casa e as escolas das meninas. Os animais estavam severamente desnutridos como você pode ver no filme abaixo.

Os dois filhotes foram adotados pela Dot, a amiga que publicou este vídeo, enquanto que as duas maiores ficaram mais um tempo por lá até serem resgatas pela Claudia. Após a castração (condição necessária para adoção), elas ficaram na nossa casa para se recuperarem da cirurgia.

Passaram-se algumas semanas e a cachorrinha menor, mais velha, começou a apresentar dificuldades para se locomover. O exame de sangue confirmou nosso maior temor, ela estava com cinomose, uma doença gravíssima que ataca o sistema nervoso dos cães.

A cachorrinha ganhou o nome de Filomena (Filó para os íntimos), recebeu remédios para tentar reverter a situação. Infelizmente seu estado foi agravando-se a cada dia, Filó não conseguia mais ficar de pé sozinha e, na sexta-feira passada, percebemos que estava cega. Como a doença evoluía rapidamente, tomamos uma difícil decisão para acabar com o sofrimento da Filó – providenciar a eutanásia.

Como a Claudia viajou na manhã do sábado para participar de um curso, eu levei a Filó sozinho para a veterinária. Não consegui conter as lágrimas na sala de espera, muito menos quando fiquei no consultório me despedindo dela ou no momento em que a injeção de anestésico foi aplicada. Só não fiquei junto quando foi aplicada a injeção letal.

Saí com o corpo da Filó enrolado num cobertor na mesma caixa em que foi levada para a clínica. Estava triste, muito triste…

Havia uma flor no chão do carro e a coloquei sobre seu corpo no transporte para a outra clínica, onde seria dado o destino final ao seu corpo. Quando deixei a caixa em uma mesa desta outra clínica, novamente não evitei o choro.

Desde a adolescência construímos nossas armaduras para que os outros nos enxerguem da forma que desejamos. Eu forjei duas armaduras – a primeira de racionalidade para encobrir meu sentimentalismo e a segunda brincalhona para disfarçar minha introspecção. Filó mandou as duas para a sucata no sábado.

Vai ser difícil apagar da minha memória o olhar da Filó. Morreu quando estava próxima de uma vida melhor, com mais carinho. Camomila, a companheira da Filó, continua esperando sua volta, e nós continuamos aguardando interessados na adoção…

Camomila e Filomena

Camomila e Filó (na direita)

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Os Veganos e os Orgânicos

O veganismo não é somente um tipo de dieta, é muito mais do que isto. Na verdade, ser vegano é optar por uma filosofia de vida, onde qualquer sofrimento animal é intolerável.

Começo por uma definição sobre veganismo divulgada pela The Vegan Society em 1979:

“Uma filosofia e modo de vida que procura excluir – na medida do possível e praticável – todas as formas de exploração e crueldade de animais para alimentação, vestuário ou qualquer outro propósito e, por extensão, promove o desenvolvimento e uso de alternativas livres de animais em benefício dos seres humanos, dos animais e do meio ambiente. Em termos alimentares, denota a prática de dispensar todos os produtos derivados total ou parcialmente de animais.”

Deste modo, um vegano não se alimenta com produtos de origem animal como carne, leite, ovos, mel e todos os seus derivados. Não usa roupas de couro, seda ou lã. Não usa cosméticos ou produtos de limpeza testados em animais. Também não aprova diversões como zoológicos, aquários, rodeios e shows com animais.

go-veganNo que se refere à alimentação, o vegano só consome plantas e seus derivados, sua dieta é estritamente vegetariana. Como sabemos, atualmente, a agricultura comercial emprega fertilizantes químicos para garantir a fertilidade do solo; herbicidas, para reduzir a concorrência de outras espécies vegetais por água e nutrientes do solo; e pesticidas, para que insetos não se alimentem de partes das plantas, reduzindo a produtividade da lavoura.

A agricultura orgânica supre as necessidades de nutrientes do solo com resíduos de animais e vegetais. Deste modo, não são adicionadas novas quantidades de nitrogênio (extraído do ar e transformado em amônia através da síntese de Haber-Bosch) e fósforo (extraído através de mineração) aos ciclos destes nutrientes. Para obter mais detalhes, leia o artigo Temos Tempo para Discutir o Aquecimento Global?, e você verá que existem outros problemas ambientais tão importantes quanto o aquecimento global – o desequilíbrio dos ciclos de nitrogênio e fósforo é um dos mais graves. Outra motivação para o consumo de produtos orgânicos é o não uso de herbicidas e pesticidas, o que é benéfico para quem se alimenta dos vegetais e para a natureza em geral.

podutos-organicos-certificados

Neste ponto, um vegano chegaria a um dilema – as frutas, grãos e verduras orgânicas não são provavelmente veganas, porque geralmente usam dejetos de criação de animais como fertilizante. Vocês poderão concluir que, pelo menos, os dejetos provêm de animais criados de forma orgânica, sem confinamento, mas esta prática é apenas uma recomendação. De acordo com a norma que rege à agricultura orgânica, os agricultores de locais sem disponibilidade de dejetos oriundos de produção orgânica poderão usar dejetos de produção convencional, sem que seu produto deixe de ser rotulado como orgânico. Estrume de vacas confinadas e camas de frango de aviários são exemplos de fertilizantes permitidos nestas circunstâncias.

As camas de frango são misturas de serragem colocadas no piso de aviários para receber os excrementos das aves. São gerados entre 1,0 e 1,5 kg de cama de frango por ave. Se considerarmos que em 2016 foram abatidos aproximadamente 6 bilhões de frangos no Brasil, houve geração entre 6 e 9 milhões de toneladas de cama de frango.

cama-de-frango

Aviário comercial com cama de frango.

Atualmente cerca de 80% do total dos antibióticos produzidos no mundo são consumidos por animais que servirão como alimento para humanos. Os frangos possuem aparelho digestivo curto e uma quantidade significativa do medicamento não é absorvida por seus intestinos. Deste modo, suas fezes contaminadas com antibióticos são incorporadas às camas de frangos.

O tratamento normalmente empregado para a estabilização deste resíduo é a compostagem em grandes pilhas, onde os microrganismos presentes na cama degradam parte da matéria orgânica, elevando a temperatura acima de 70°C. As pilhas são periodicamente revolvidas e, depois de alguns dias, os microrganismos patogênicos são inativados. As especificações exigidas na regulamentação dos produtos orgânicos com relação ao patógenos são atendidas. Por outro lado, as moléculas dos antibióticos são apenas parcialmente degradadas e não existe restrição, quanto as concentrações máximas permitidas para o uso como fertilizante orgânico.

Quando esta cama de frango estabilizada é utilizada como fertilizante no solo, os efeitos são imprevisíveis, resultando, por exemplo, na degradação parcial das moléculas dos antibióticos com a geração de moléculas mais tóxicas, na absorção parcial pelas plantas, na contaminação de águas superficiais e lençol freático, além da seleção de superbactérias patogênicas.

Então um vegano poderia chegar à conclusão que talvez seja melhor comprar produtos agrícolas oriundos de adubação química. Assista ao vídeo abaixo e depois discutiremos alternativas.

Existe a possibilidade de usar adubação 100% vegetal, estabilizada através de compostagem. A Embrapa Agrobiologia, localizada no estado do Rio de Janeiro, desenvolveu compostos totalmente vegetais a partir da compostagem de mistura de torta-de-mamona com bagaço de cana-de-açúcar ou palhada de capim-elefante com excelente desempenho e isento de contaminantes biológicos ou químicos.

Assim os vegetarianos em geral e especificamente os veganos (além dos onívoros que consomem orgânicos) deveriam buscar informação sobre a forma de fertilização do solo onde seus orgânicos foram produzidos. Alimentos produzidos com resíduos da pecuária comercial não deveriam ser certificados como orgânicos. Admitir o uso de cama de frango na agricultura auxilia na redução dos custos da avicultura comercial que promove exploração e maus-tratos em animais, polui o meio ambiente e compromete a saúde dos humanos.

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Por que Chegamos a Este Ponto? Em Busca de um Novo Equilíbrio

Há quase dois séculos e meio, o escocês Adam Smith publicou um dos livros mais influentes da nossa era, “A Riqueza das Nações”. Neste livro, ele defende que as pessoas devem maximizar seu próprio proveito e existiria uma “mão invisível” que ajudaria a equilibrar as relações econômicas e sociais. Hoje Adam Smith é considerado o pai da moderna economia e do liberalismo.

Adam Smith_The Wealth of Nations

Praticamente um século depois, com a revolução industrial e a falha da “mão invisível” de Adam Smith, Karl Marx publica o primeiro volume de outra obra influente do nosso tempo, “O Capital”. Esta obra combinada com o “Manifesto Comunista”, publicado por Marx e Engels, duas décadas antes são a base do socialismo.

Karl Marx_Das Kapital

Aristóteles, dois mil anos antes de Adam Smith, afirmou que o homem é um animal político – político por viver em uma polis (cidade-estado grega), local em que poderia se desenvolver plenamente nas relações com os outros humanos, onde o bem comum seria traduzido em felicidade, justiça e bem-estar social.

Aristoteles

Aristóteles

Podemos dizer que, no liberalismo, o indivíduo predomina sobre a sociedade, enquanto, no socialismo, a sociedade predomina sobre o indivíduo. Precisa-se buscar o equilíbrio. Este verso de Rudolf Steiner representa este equilíbrio.

Salutar só é, quando
No espelho da alma humana
Forma-se toda a comunidade;
E na comunidade
Vive a força da alma individual.

steiner-1915

Rudolf Steiner

Atualmente estamos atingindo o auge do individualismo na nossa sociedade. Se este estado não for alterado em breve, teremos problemas irreversíveis para a humanidade.

O economista britânico Guy Standing, no seu livro “O Precariado – A Nova Classe Perigosa” (The Precariat: The New Dangerous Class), descreve a formação e crescimento de uma nova classe, o “precariado”, com o avanço da globalização neoliberal. Segundo Standing:

“O precariado é definido pela visão de curto prazo e, induzida pela baixa probabilidade de progresso pessoal ou de construção de uma carreira, pode verificar-se uma evolução massificada no sentido da incapacidade de pensar a longo prazo.”

“Aqueles no precariado têm vidas dominadas por inseguranças, incertezas, dúvidas e humilhações.”

“As pessoas inseguras deixam as outras furiosas e as pessoas com raiva são voláteis, propensas a apoiar uma política de ódio e amargura.”

Se aceitamos que os menos favorecidos sejam pouco protegidos pela legislação ou ameaçados por processos como terceirização ou contratos de trabalho temporários, estaremos também aceitando que os menos favorecidos sejam explorados e marginalizados. O problema é que os interesses econômicos se tornaram tão dominantes que as pessoas são convencidas que não existe outra forma de organizar a sociedade.

Precariat_Guy Standing

Podemos dividir a atividade humana em três setores: político-jurídico, econômico e cultural-social. Estes setores deveriam ser totalmente independentes. O setor econômico deve financiar os dois outros setores através dos impostos transparentemente. O que vemos hoje aqui no Brasil (e na maior parte do planeta) é a compra do setor político pelo setor econômico: leis são alteradas; isenções fiscais acertadas; grandes obras definidas, enquanto que os interesses da sociedade são relegados ao segundo plano. Simultaneamente a ideia de que a economia deve ser desregulamentada é vendida como se isto fosse bom para a sociedade, mas isto só beneficia os muito ricos, porque o setor econômico também compra a mídia e a cultura.

Devemos separar totalmente estes três setores para termos um futuro mais justo e sustentável. O problema é que, para obtermos sucesso, esta ação deve ser global. Seguindo o ideário da Revolução Francesa, queremos ter Liberdade na cultura, Igualdade na política e Fraternidade na economia.

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Autofagia Liberal e o Umbigocentrismo

As reformas trabalhistas e da Previdência em andamento no Brasil são provas evidentes da autofagia liberal e do umbigocentrismo dos nossos dias.

autofagia liberal

Vamos às explicações sobre o significado destas duas expressões. O liberalismo é autofágico, porque, ao buscar a maximização do lucro, pode comprometer seriamente o meio ambiente, a comunidade onde atua e, até mesmo, segmentos significativos da população de diversos país. Em 1962, Milton Friedman escreveu sua principal obra “Capitalismo e Liberdade”. Sobre a atuação do governo na economia, escreveu:

Do que precisamos urgentemente, para a estabilidade e o crescimento econômico, é de uma redução da intervenção do governo não de seu aumento.

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Milton Friedman

Alinha-se a conhecida ideia neoliberal de que tudo anda melhor se o Estado desregulamentar a economia. Sobre a responsabilidade social das empresas, o resumo de sua opinião está apresentado abaixo.

A ideia de que as empresas têm “responsabilidade social” para além de ter lucro é perigosa. Ela mostra uma concepção fundamentalmente errada da natureza de uma economia de livre mercado. Em tal economia, a obrigação social das empresas é aumentar seus lucros dentro da lei. É só isto. A aceitação pelos líderes das empresas da responsabilidade de fazerem mais que aumentar valor para os acionistas pode minar os fundamentos de nosso sistema econômico.

Como a obrigação social das empresas, segundo Friedman, é apenas aumentar seus lucros dentro da lei, se a lei for alterada em benefício da empresa, não há nenhum arrepio ético. Após alguns anos, a aplicação desta lei pode causar queda do poder aquisitivo da população e o que beneficiou a empresa, no curto prazo, através da redução de seus custos com pessoal, se voltará contra a própria empresa devido à queda de suas vendas. Autofagia!

A reforma trabalhista proposta pelo governo Temer em tramitação acelerada no Congresso é um exemplo. Cito três pontos que deveríamos pensar a respeito:

  1. Acordos coletivos prevalecem sobre a legislação.
  2. Ratificação da lei da terceirização, sancionada há pouco por Temer.
  3. Demissão em massa não precisará mais ter a concordância do sindicato.

Assim, durante um período de alto desemprego, como o que estamos vivendo atualmente, a faca e o queijo estarão nas mãos das empresas. A empresa simplesmente pode ameaçar os empregados com o encerramento de suas atividades naquele local, forçando-os a aceitar cláusulas em que abrem mão de alguns benefícios, como as “horas in itinere”, o tempo de deslocamento até o trabalho. Os bancos de horas poderão ser revalidados eternamente, se o acordo coletivo permitir.

A terceirização das atividades-fim das empresas deve gerar também uma redução dos seus gastos com pessoal, porque uma série de benefícios sociais deixam de ser pagos. Além de abrir a possibilidade de colocar outro profissional mais barato na função.

A possibilidade de fazer uma demissão em massa sem concordância do sindicato enfraquece as posições dos trabalhadores e dos próprios sindicatos. Sempre será possível mudar a empresa para uma região onde o “estoque” de mão de obra barata seja maior.

O umbigocentrismo é a certeza que o universo gira em torno do próprio umbigo. Se existe vantagem ou, até mesmo, ausência de prejuízo para o dono do umbigo, nada mais importa. O impacto nos outros de qualquer decisão não é relevante.

Umbigocentrismo

A reforma da Previdência Social brasileira mostra como as pessoas que deveriam ser mais críticas em relação às medidas estão olhando para o próprio umbigo e acatam o discurso oficial. Esta reforma acabará prejudicando sensivelmente as pessoas com escolaridade mais baixa, O ator Wagner Moura liderou uma campanha contra a reforma. Alexandre Schwartsman, ex-diretor de Assuntos Internacionais do Banco Central do Brasil e ex-economista chefe de uma série de grandes bancos privados, na sua coluna semanal na Folha de São Paulo, criticou o ator, dizendo que ele foi intelectualmente desonesto.

Wagner Moura_reforma Previdencia

Wagner Moura

Schwartsman apresentou o gráfico abaixo, baseado em dados do IBGE. O gráfico mostra qual é a expectativa de vida em cada idade para homens e mulheres. Por exemplo, uma mulher brasileira quando nasce tem expectativa de vida de 78,6 anos. Aos 60 anos, ela viveria, em média, mais 23,5 anos. Ou seja, uma mulher de 60 anos viveria, em média, até os 83,5 anos.

Expectativa de vida condicional

Gráfico do artigo de Alexandre Schwartsman, baseado em dados do IBGE [http://www.ibge.gov.br/home/estatistica/populacao/tabuadevida/2013/defaulttab_xls.shtm]

Abaixo está a explicação de Schwartsman no seu atigo, onde tenta provar que Wagner Moura foi desonesto intelectualmente ao dizer que “querem que você morra antes de se aposentar!”.

De fato, a expectativa de vida ao nascer se encontra ao redor de 75 anos, porque (infelizmente) a mortalidade infantil ainda é relativamente elevada e a violência cobra muitas vidas de homens jovens. Quem, porém, se aposenta por tempo de contribuição atinge esta condição em média aos 54,5 anos (homens 55,5 e mulheres 52,3), idade em que, como mostrado no gráfico, a expectativa de vida supera 80 anos (78,4 homens, 82,1 mulheres). Quem não comprova tempo de contribuição, os mais pobres, já se aposenta hoje aos 65 anos, com expectativa de vida de 83 anos.

Parece que você, Alexandre Schwartsman, foi desonesto intelectualmente ao pegar estatísticas que não consideram as diferenças entre regiões e nível educacional. Sua visão é liberal autofágica e umbigocêntrica. Sua visão é baseada em trabalhadores urbanos com formação superior que terão chances de manterem-se ativos até os 65 anos. Imagina pessoas com baixa formação educacional, trabalhadores braçais. Como conseguirão emprego com carteira assinada após os 55 anos?

Esta reforma da Previdência segue o velho script – trabalhadores organizados do serviço público e militares, os maiores responsáveis pelos déficits previdenciários, são deixados de lado, enquanto os trabalhadores de empresas privadas mais uma vez pagarão a conta. Não é uma razão válida colocar idade mínima de 65 anos, porque nos países desenvolvidos é esta a idade. Precisamos ser mais críticos e exercitar a empatia para nos colocarmos no lugar dos outros – os mais pobres, menos protegidos.

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Dia Mundial da Água – Apresentação sobre Poluição Hídrica para Crianças

No dia 22 de março comemora-se o Dia Mundial da Água. Sendo bem redundante, seria “chover no molhado” falar sobre a importância da água para todos os seres vivos.

Em 2015, fiz uma apresentação sobre poluição hídrica para um grupo de crianças do projeto da Associação São Paulo da Cruz, junto à Igreja do Calvário no Bairro Pinheiros em São Paulo.

A apresentação on line está disponível abaixo.

Se você quiser baixar o arquivo original em PowerPoint, basta clicar no link abaixo.

Apresentação_Meio-Ambiente

Guia para apresentação:

Slide 1 – capa.

Slide 2 – explique que os peixes respiram o oxigênio que está dissolvido na água, enquanto nós respiramos o oxigênio que está no ar.

Slide 3 – descobra quais crianças já tiveram aquário em casa. Elas darão depoimentos que comprovam um importante mecanismo da poluição hídrica a ser explicado na sequência da apresentação.

Slide 4 – a grande maioria das pessoas que tem ou já tiveram um aquário matou todos os peixes por colocar mais alimento do que os peixes conseguem consumir. Isto normalmente acontece, durante uma ausência mais prolongada da família, para que os peixes não passem fome.

Slide 5 – gere discussão da causa da morte dos peixes.

Slide 6 – explique que, na água, no ar, no solo, no nosso corpo, existem microrganismos (invisíveis sem o auxílio de um microscópio). As bactérias são um dos principais grupos dos microrganismos.

Slide 7 – explique que as bactérias se alimentam, respiram e se multiplicam em grande velocidade, enquanto houver alimento.

Slide 8 – conclua que os peixes morreram asfixiados, porque não havia mais oxigênio dissolvido na água do aquário. Como havia excesso de alimento, as bactérias começaram a se reproduzir com grande velocidade e consumiram todo o oxigênio dissolvido e os peixes não conseguiram mais respirar e morreram.

Slide 9 – mostrar que a poluição pode ser apenas uma quantidade exagerada de alimento que os peixes não conseguirão consumir.

Slide 10 – explique que a poluição pode ser causada por uma substância tóxica como venenos e metais pesados.

Slide 11 – apresente exemplos de fontes geradoras de poluição. O primeiro exemplo é o esgoto doméstico. Sim, o nosso cocô, quando chega no rio pode servir de alimento para os peixes e as bactérias. Como as bactérias se multiplicam rápido e existe muito alimento (cocô) no rio, elas acabam consumindo todo oxigênio e os peixes morrem.

Slide 12 – o efluente líquido de uma indústria também pode causar poluição nos rios. Dependendo do tipo da indústria, seu efluente pode ser parecido com o esgoto doméstico ou ser um veneno para toda a vida aquática.

Slide 13 – os efluentes agrícolas podem ser água da chuva ou de irrigação contaminada por fertilizantes ou agrotóxicos.

Slide 14 – o esterco de animais segue a mesma lógica da poluição causada pelo esgoto doméstico (slide 11).

Slide 15 – existem muitos lixões localizados próximos a rios que terminam por contaminá-los. Muitas pessoas jogam lixo no chão e, quando chove, este lixo é arrastado para os bueiros das ruas e chegam até os rios, gerando poluição. Neste caso, a poluição é causada pelo excesso de alimento (matéria orgânica) e por venenos (substâncias tóxicas).

Slide 16 – este é um exemplo de tragédia ambiental. No final de 2006, cerca de 100 toneladas de peixes morreram no Rio dos Sinos no Rio Grande do Sul. Houve uma combinação de seca no rio, de altas temperaturas, de esgoto doméstico não tratado e lançamentos clandestinos de algumas indústrias e de um grande aterro de resíduos industriais. Este slide poderia ser substituído pelo do desastre de Mariana, causado pelo rompimento da barragem da mineradora Samarco, que encheu o Rio Doce de lama tóxica.

Slide 17 – pergunte o que devemos fazer para evitar a poluição dos rios.

Slide 18 – explique que é melhor evitar que a poluição seja gerada do que tratar os seus efeitos. Assim o primeiro passo é não gerar resíduos e economizar água.

Slide 19 – se não for possível evitar a geração de resíduos, procure reaproveitá-los ou reciclá-los.

Slide 20 – se depois de todas as medidas para evitar a geração de resíduos, ainda sobrar alguma coisa, devemos tratá-la antes de devolvê-la novamente ao meio ambiente. Esta figura mostra uma estação de tratamento de esgotos da cidade de São Paulo. O esgoto passa inicialmente por um sistema de gradeamento, onde os sólidos maiores são removidos. Depois passa por um tanque de sedimentação, onde os sólidos menores são separados. Na sequência, o líquido é conduzido para um tanque onde microrganismos consomem a matéria orgânica solúvel. Estes microrganismos são separados do líquido antes de retornar o esgoto tratado para o rio.

Slide 21 – Os sólidos retirados nas diversas etapas do tratamento são digeridos por bactérias em tanques fechados, concentrados e secos.

Slide 22 – O tratamento de esterco de vacas e porcos em biodigestores anaeróbios produz biogás que pode ser usado para geração de calor ou energia elétrica. Os sólidos biodigeridos podem ser usados como fertilizantes na agricultura. Assim um resíduo altamente poluente pode ser reaproveitado.

Slide 23 – Agradecimento final.

Espero que esta apresentação seja útil para apresentar a seus filhos e alunos. Estou à disposição para esclarecer quaisquer dúvidas.

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