Jornalismo Profundo como um Pires

Qual é a função do jornalista no mundo de hoje? No passado, era muito mais difícil conseguir informações, o jornalista era a pessoa que disponibilizava notícias para a população em geral. Hoje, com a Internet cada vez mais onipresente, o tamanho do mundo encolheu. O massacre em um shopping center no Quênia é imediatamente divulgado em todos os cantos do planeta.

A divulgação de imagens também deixou de ser exclusividade de agências jornalísticas, qualquer pessoa com um celular com câmera pode filmar uma ocorrência de grande importância ou tirar uma foto digna de um Prêmio Esso ou Pulitzer. Na sequência, pode divulgar no Youtube ou através de outras redes sociais como o Twitter ou Facebook.

Ou seja, o jornalismo descritivo na era da abundância de imagens e informações perdeu terreno e importância. Os telejornais tentaram se reinventar, passaram a ter dois âncoras, normalmente uma mulher e um homem. Começaram a empregar linguagem mais informal. Os apresentadores algumas vezes trocam sorrisinhos e dizem gracinhas. Totalmente dispensável! Passaram também a ter maior participação popular, mas novamente se perderam na obviedade. O que acrescenta perguntar para uma pessoa na rua sua opinião sobre a inflação, a corrupção ou a violência? Tempo precioso perdido!

Vamos analisar dois casos recentes – a greve dos professores municipais no Rio de Janeiro e a libertação dos animais do Instituto Royal em São Paulo.

Os professores do Rio de janeiro ficaram em greve por aproximadamente 80 dias. Os meios de comunicação centraram suas matérias em dois aspectos – o prejuízo dos alunos e o vandalismo dos “black blocs”. Algumas imagens rolaram pela Internet, como a fotografia abaixo, mostrando uma grande manifestação popular no dia 7 de outubro em apoio aos professores. O governo municipal aprovou a toque de caixa um novo plano de carreira que foi rechaçado pelas lideranças da categoria. Não vi nenhum comparativo, mostrando as diferenças entre as propostas dos dois lados. Também não vi um raio X do ensino da cidade do Rio de Janeiro e um comparativo com outras capitais no Brasil e no exterior. Ou seja, ao invés de mostrar e analisar o essencial, a imprensa, de modo geral, preferiu mostrar o acessório – o vandalismo dos “black blocs”.

Manifestação em apoio aos professores cariocas em 07-10-2013.

Manifestação em apoio aos professores cariocas em 07-10-2013.

O caso da libertação de 178 cães da raça beagle do Instituto Royal segue o mesmo roteiro. Foi apresentado um grande número de vídeos com pessoas retirando os animais do local. Todos estavam sem máscaras, sem receio de serem identificados, não parecia uma ação planejada.

A grande discussão nos noticiários foi se a atuação do Instituto Royal era legal. A esta questão eu respondo que sim! A Agência Nacional de Vigilância Sanitária, ANVISA, exige que novos remédios para produtos de limpeza ou alimentícios sejam testados em animais. Ou seja, as empresas têm duas opções – ou fazem os testes em animais ou não lançam os produtos. Muitos destes remédios e ingredientes já foram testados e aprovados nos seus países de origem, por exemplo, Estados Unidos ou Europa, mas a ANVISA não aceita estes resultados e exige novos testes no Brasil. Por quê? Seria um bom início a ANVISA analisar os resultados dos testes realizados o exterior, evitando-se o sacrifício inútil de milhares de vidas.

Outro ponto é o sofrimento dos animais. As declarações dos representantes do Instituto Royal afirmando que os animais não sofrem são surrealistas. São aplicados produtos químicos na pele dos animais, eles são obrigados a comer produtos de limpeza, mas não sentem dor. No caso de rações para cachorro até vivissecção é realizada para ver o efeito no sistema digestivo do animal, mas “todos os procedimentos são realizados sem sofrimento”. No final todos os animais são sacrificados e dissecados.

Cão da raça beagle resgatado no Instituto Royal.

Cão da raça beagle resgatado no Instituto Royal.

Se atualmente não existem outras formas com eficácia comprovada para substituir os testes com animais, deveria ser criado um plano para a substituição para testes in vitro com células humanas. Por exemplo, em 2018 estariam proibidos testes de produtos de limpeza e alimentícios em animais; em 2025, remédios.

Os testes com animais ficaram parcialmente desacreditados após dois casos célebres:

– os testes em animais para verificar a ligação entre tabagismo e câncer;
– a má formação de fetos devido ao consumo de talidomida durante a gravidez.

Inúmeros testes foram realizados com animais para provar a ligação entre tabagismo e câncer. Em um destes testes, camundongos ficavam numa câmara, inalando fumaça de cigarro. Centenas passaram a vida nestas condições, mas não houve aumento nos índices de câncer de pulmão. Os resultados destes testes serviram de álibi para a indústria do fumo por anos. Em 1993, o The New York Times publicou o depoimento de William Campbell, na época presidente da Philip Morris, em um processo de indenização de comissários de bordo que tiveram problemas de saúde devido à inalação de fumaça de cigarro durante voos (naquele tempo era permitido fumar a bordo dos aviões).

– O tabagismo causa câncer?
– Que eu saiba, não está provado que o cigarro provoca câncer.

– No que você se baseia?
– Me baseio no fato de que, tradicionalmente , você sabe, existem em termos científicos dificuldades relacionadas com a determinação das causas e, até este momento, não há nenhuma evidência de que os cientistas tenham conseguido produzir câncer em animais a partir de fumaça de cigarro.

Se você quiser ler a íntegra deste depoimento, basta clicar no link abaixo.

http://www.nytimes.com/1993/12/06/business/on-cigarettes-health-and-lawyers.html

O problema é que o organismo da maioria dos mamíferos, incluindo camundongos e cães, sintetiza sua própria vitamina C, um poderoso antioxidante. Nós humanos somos incapazes de fazer isto e necessitamos de fontes externas. Deste modo, os camundongos tinham uma proteção natural nos seus pulmões, o que tornava os testes inúteis para simularmos o efeito da fumaça dos cigarros nos humanos. A ligação entre câncer e tabagismo foi provada através de estatística, porque a incidência de câncer no pulmão era significativamente maior nos fumantes. A indústria do cigarro fez um acordo bilionário para indenizar as vítimas do tabagismo nos Estados Unidos.

Sessão do senado americano em 1994, onde os presidentes das 7 maiores empresas de tabaco dos EUA afirmaram sob juramento que nicotina não vicia. William Campbell está na direita da foto.

Sessão do senado americano em 1994, onde os presidentes das 7 maiores empresas de tabaco dos EUA afirmaram sob juramento que nicotina não vicia. William Campbell está na direita da foto.

No caso da talidomida, no final dos anos 50 e durante os anos 60, cerca de dez mil bebês, segundo a BBC, nasceram com má-formação após suas mães consumirem este medicamento para combater enjoos durante a gravidez. A característica mais lembrada destas crianças é a focomelia, encurtamento e deformação dos membros superiores e inferiores, como pode ser visto na foto abaixo da artista inglesa Alison Lapper.

Artista inglesa Alison Lapper pintando.

Artista inglesa Alison Lapper pintando.

Foram realizados testes com animais, mas inicialmente não foram usadas fêmeas grávidas. Com o surgimento de casos teratogênicos em humanos, reiniciaram-se os testes com animais, mas em várias espécies a má-formação do feto só aparecia em dosagens significativamente maiores (centenas a milhares de vezes) do que a dose diária ingerida por um humano.

Se você acredita que está seguro com os testes em animais, engana-se, porque muitos medicamentos que causam, por exemplo, má-formação de fetos humanos não geram efeitos em algumas espécies e nenhum animal de teste tem resultados completamente alinhados aos humanos. A prova são as advertências às gestantes que estão impressas nas bulas dos remédios.

Ao invés de mostrar insistentemente “black blocs”, queimando carros de polícia nas proximidades do Instituto Royal na cidade paulista de São Roque, a imprensa poderia estimular a discussão da validade dos testes em animais.

O jornalismo hoje deveria ser mais analítico, mostrar os diversos lados da notícia, ser plural, ao mesmo tempo não deveria ser maniqueísta. Por exemplo, ao invés de simplesmente mostrar a ação dos “black blocs”, os meios de comunicação poderiam traçar perfis sociais e psicológicos dos seus integrantes. Poderiam mostrar as raízes históricas e ideológicas do movimento no mundo. Tenho certeza que haveria discussões mais ricas e toda sociedade sairia ganhando.

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5 Comentários

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5 Respostas para “Jornalismo Profundo como um Pires

  1. Pingback: Post 200 – Retrospectiva | World Observer by Claudia & Vicente

  2. Faz uns dias li sobre como nos falta filosofia nas escolas e como a adição desta matéria criaria cidadãos capazes de resolver essas questões capciosas como a atuação dos black blocs, testes em animais, a própria atuação da mídia e o cenário político desencadeado por todos os anteriores, uma vez que não são assuntos totalmente pragmáticos como tratados diariamente e muito menos apenas dicotômicos.

    Desde a minha adolescência eu nutri uma rebeldia contra o “sistema”, que naquela época era só uma rebeldia sem muita base, mas contra as injustiças que eu via todo dia na minha escola particular, basicamente. Me diziam que quando adulto eu não seria mais daquele jeito, mas, em essência, nada mudou. Continuo com a mesma rebeldia, a diferença é que hoje consigo enxergar com mais clareza e entendo coisas que nem sonhava em entender há 15 anos. Essa rebeldia, portanto, se transforma em uma inconformidade, mas que não é rasa como um dia já foi.

    Entendo que toda a estratégia midiática advém de um objetivo muito claro: idiotizar. Um termo bastante usado pra essa estratégia é “engenharia social”; uma forma de produzir pessoas capazes de comprar, se entreter e manter uma apatia civil para ser facilmente direcionadas conforme o necessário. A manipulação é algo muito direto, a doutrinação também. Já a “engenharia social” não é percebível num curto espaço de tempo e nem a olhos nus, é preciso muito mais do que a média da nossa população conseguiria. No dia que fôssemos todos bem instruídos (ou pelo menos uma boa maioria) nenhuma mídia atual, sistema bancário ou corporação política seria tolerada; pelo menos não da forma como são gerenciadas.

    A atuação midiática é causa e efeito dessa idiotização. É preciso ser raso, rápido e, talvez, um pouco engraçado. As novelas são o que são por que são entretenimento mastigado. Perceba como muitas cenas são de atores falando consigo mesmo: nada pode ser deixado para interpretação do público, tudo é mastigado para deglutir facilmente. A quem interessariam gráficos estatísticos ou aprofundamentos sobre a história dos black blocs se a grande maioria da nossa população é apenas capaz de formular argumentos como “bandido bom é bandido morto” ou “quer salvar os bichinhos mas gosta de churrasco”? A mídia nos entrega aquilo que somos capazes de engolir e, depois de tanta “engenharia”, somos avestruzes vorazes.

    Mais filosofia nas escolas nos faria pensar muito melhor sobre Beagles, assaltos a motos, nossos sistemas de governos e de onde viemos e pra onde vamos. Mas a quem isso interessa?

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    • Nilson,

      Grande comentário! Estudamos no mesmo colégio, apesar dos quase vinte anos de diferença… Naquele tempo, eu tinha aulas de filosofia que no início eu achava que eram chatas, depois fui gostando cada vez mais. As aulas de história eram analíticas, não seguíamos livros com a história oficial e “decorebas” de nomes e datas. Até mesmo as aulas de religião pareciam discussões de sociologia e ciências políticas.

      Pensar por si também exige treino. Fica muito complicado para alguém que teve uma formação escolar pobre (sem filosofia, por exemplo), trabalha o dia inteiro, gasta algumas horas diariamente no transporte público, ainda ter forças para buscar informações de qualidade e treinar o modo analítico de pensar. Acaba, no final, bebendo na fonte rasa dos meios de comunicação…

      As coisas não são simplesmente branco ou preto, mas é mais fácil reduzir todas as situações a esta dicotomia elementar. A quem interessa quebrar este ciclo? Existe muita gente fora deste sistema que gostaria de mudar isto, mas o que estamos fazendo efetivamente para transforma esta situação?

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  3. Simone Palmeiro

    Concordo Vicente, vivemos uma era da superficialidade, pouca reflexão e muita exposição. Temos coisas boas no jornalismo mas em geral nos meios de comunicação de massa a bobagem ganha muito mais espaço. Enfim , somos todos responsáveis por isso enquanto não elevarmos nossos interesses e nossos pensamentos de forma consciente.
    Grande abraço

    Simone

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    • Simone,

      Como eu e o Nilson comentamos acima, falta treino para pensar. A filosofia estimularia as pessoas a questionarem o que veem na TV ou leem nos jornais e revistas. Estimular o senso crítico é essencial! Quem sabe a Nova Acrópole não possa ajudar a reverter este estado de coisas?

      Grande abraço,

      Vicente

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