Arquivo do mês: junho 2013

O Passado e o Futuro

No ótimo filme de Woody Allen, Meia-Noite em Paris, o personagem principal Gil Pender – interpretado por Owen Wilson, cita uma frase do escritor americano William Faulkner:

– “O passado não está morto! Na verdade, nem é mesmo passado.”

A frase cai como uma luva para este filme. Por incrível que pareça, os detentores do patrimônio do escritor processaram a Sony por violação de direitos autorais…

midnight_in_paris

No filme, Gil Pender sonha em morar em Paris nos anos 20, época na qual seus escritores favoritos viveram. Na sua viagem ao passado, conhece e se apaixona por Adriana, interpretada por Marion Cotillard, mas ela também deseja viver no seu passado, a Belle Époque parisiense, caracterizando uma sequência de “Síndrome da Época de Ouro”.

Quem já não disse que no tempo da sua juventude era melhor? Ou ninguém faz mais músicas ou filmes como no seu tempo? Nada representa melhor esta postura do que a extraordinária música de Belchior “Como Nossos Pais”, imortalizada por Elis Regina. Assista ao vídeo abaixo.

Este trecho da música que transcrevi abaixo descreve esta postura de apego ao passado.

Já faz tempo
E eu vi você na rua
Cabelo ao vento
Gente jovem reunida
Na parede da memória
Esta lembrança
É o quadro que dói mais…

Minha dor é perceber
Que apesar de termos
Feito tudo, tudo, tudo
Tudo o que fizemos
Ainda somos os mesmos
E vivemos
Ainda somos os mesmos
E vivemos
Como Os Nossos Pais…

Nossos ídolos
Ainda são os mesmos
E as aparências
As aparências
Não enganam não
Você diz que depois deles
Não apareceu mais ninguém
Você pode até dizer
Que eu estou por fora
Ou então
Que eu estou inventando…

Mas é você
Que ama o passado
E que não vê
É você
Que ama o passado
E que não vê
Que o novo sempre vem…

Considerando que “o novo sempre vem”, a seguir apresento algumas “obviedades” sobre passado e futuro.

Não é possível criar um novo futuro com base apenas no passado. Seria como dirigir um automóvel, olhando apenas para o espelho retrovisor.

Por outro lado, corremos risco de fracassar, se tentarmos criar um futuro sem entender criticamente o passado. Neste caso, poderemos repetir os mesmos erros. Como eu sempre digo, errar faz parte da vida, mas vamos ser originais e errar de forma criativa.

O que funcionou no passado, talvez não funcione no futuro. O resultado final será no máximo igual. Afinal o mundo evoluiu!

O contrário também vale! Não podemos concluir que algo não funcionará no futuro, porque não funcionou no passado. Afinal agora o mundo pode estar preparado para esta novidade…

Finalmente, devemos sempre planejar o futuro, mas o imponderável ou o inesperado pode derrubar nosso planejamento. Nestas horas, devemos manter nossas mentes abertas, porque muitas vezes as oportunidades que aparecem são melhores do que nosso plano original.

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Sofrer e Amar não são Exclusividades dos Humanos

O voo originado em São José do Rio Preto aterrissou no Aeroporto de Congonhas no início da noite do Dia dos Namorados. Fui rápido para o ponto de táxi, mas, quando cheguei lá, senti que a espera não seria breve, a fila era grande e não havia táxis. Quando finalmente estava chegando minha vez, o responsável pela organização dos táxis gritou no lado da fila:

– Deu um nó no trânsito de São Paulo! A cidade inteira está parada e os táxis não estão conseguindo entrar no aeroporto. Como vocês podem ver, a saída do aeroporto já está trancada…

Realmente a coisa não estava fácil, demoraram mais uns dez minutos para eu embarcar num táxi e mais uma meia hora para o táxi entrar na Avenida Washington Luís. Para percorrer os quinze quilômetros entre o aeroporto e minha residência foram necessárias duas horas e meia.

Congestionamento recorde de 279 km no dia 12-06-2013 em São Paulo

Congestionamento recorde de 279 km no dia 12-06-2013 em São Paulo

Com todo este tempo juntos, eu e o motorista conversamos sobre os mais variados assuntos: trânsito, os protestos em São Paulo, impostos, combustíveis alternativos, produção de etanol, histórias de família (especialmente sobre as sogras). Quando estávamos relativamente perto da minha casa, o motorista iniciou o seguinte diálogo:

– O senhor é do Sul?
– Sim, sou gaúcho.
– Então, deve gostar muito de churrasco…
– Gostava, mas agora não como mais.
– Você é vegetariano?
– Quase! Às vezes eu como peixe. Como eu viajo muito, em alguns lugares, é muito difícil achar boas opções vegetarianas.
– Eu sou vegetariano!

Fiquei surpreso e perguntei o motivo que o levou a tomar aquela decisão. Ele me contou que adotou uma cachorrinha e se afeiçoou muito a ela. Depois de um tempo, o animal ficou doente e o veterinário descobriu que estava com câncer. Ela foi operada, mas o câncer apareceu novamente. O veterinário alertou que poderia operar de novo, mas as chances de recuperação seriam baixas e a dedicação ao animal de estimação deveria ser grande, porque ela não teria condições de alimentar-se sozinha. O dono aceitou o desafio e a cadelinha foi novamente operada, mas ela não conseguiu recuperar as forças. O dono dedicou-se ao máximo, preparava e dava a comida para a cachorrinha algumas vezes ao dia, usando uma seringa. A partir de certo momento, percebeu que ela não queria mais se alimentar, mesmo assim ele forçava para que ela não se enfraquecesse ainda mais e morresse. A cada contato, ela sempre abanava o rabinho para ele.

cãozinho

Na hora da ceia de Natal, a cachorrinha se levantou de sua caminha, coisa que não fazia há muito tempo, deu alguns passos na direção dele e caiu morta. O dono não resistiu e chorou. Quando a família iniciou a celebração do Natal, ele tentou comer um pedaço de carne de peru, mas não conseguia engolir. Decidiu naquele momento que não comeria mais carne, porque todos os animais tinham sentimentos, como sua querida cachorrinha, e não era certo continuar se alimentando de carne, porque havia um animal que sofreu por trás daquele ato. Escondeu da família por um tempo, até ser descoberto, porque estava dando a carne para outros cães adotados que passaram “estranhamente” a rodeá-lo durante as refeições.

Finalizou dizendo que isto aconteceu há um ano e meio. Hoje ele se sente melhor e existem ótimas opções além da salada e do feijão com arroz. Chegamos à frente do meu prédio. Paguei a corrida do táxi, peguei minha mala e me despedi dele, parabenizando-o pela sua decisão.

Contei esta história para Cláudia e conversamos sobre o assunto. Hoje as pessoas estão se dando conta que os animais, não só os humanos, têm inteligência e sentimentos. Alguns deles. na idade adulta, têm a inteligência de uma criança humana, por exemplo. O que nos leva a pensar que temos o direito de criá-los para depois serem mortos apenas para nos servir de alimentos, especialmente quando existem boas opções vegetarianas? Lembro-me daqueles filmes em que alienígenas maus e tecnologicamente mais desenvolvidos invadem a Terra e querem usar os humanos como alimento. Quem assiste a um filme deste normalmente pensa:

– Como estes alienígenas podem ser mais evoluídos se não respeitam os direitos dos humanos e querem escravizá-los, matá-los e usar os corpos como alimento?

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Parece que nós humanos agimos como os alienígenas dos filmes frente aos animais terráqueos. E ainda conseguimos abstrair que a picanha era parte de um boi, a linguiça foi feita da carne de um porco e que o coraçãozinho do aperitivo do churrasco era de uma galinha. O dono da cachorrinha, assim como milhares de pessoas que deixaram de comer carne, percebeu não tem lógica amar uns animais e comer outros, causando indiretamente sofrimento a estes animais.

Após escrever este artigo fiquei com mais vontade ainda de poupar os peixes…

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Qual será o Próximo Alvo dos Protestos?

Após uma série de manifestações nas maiores cidades do Brasil, onde o principal objetivo era a redução das tarifas do transporte coletivo, fica uma importante questão no ar:

– Qual será o próximo objetivo deste grande movimento popular?

A força popular do movimento ficou claramente comprovada com a redução das tarifas em várias cidades brasileiras. Faço um paralelo entre os manifestantes brasileiros e o movimento de protesto “Occupy Wall Street” (OWS). Em setembro de 2011, milhares de pessoas ocuparam ruas próximas a Wall Street, acampando no Zuccotti Park (antigo Liberty Park).

Um dos lemas do movimento Occupy Wall Street

Um dos lemas do movimento Occupy Wall Street

As principais questões levantadas pelo OWS foram a desigualdade social e econômica, a ganância, a corrupção e a influência indevida das empresas sobre o governo, particularmente do setor de serviços financeiros. Passados dois anos do início deste movimento, o resultado prático foi insignificante. Entre as causas do fracasso, eu destaco a falta de foco em ações específicas para solucionar as questões justas levantadas pelo movimento.

Na semana passada, a população brasileira mudou rapidamente a percepção sobre movimento local. Como exemplo, vocês podem assistir a este comentário do Arnaldo Jabor no Jornal da Globo do dia 12 de junho.

Como comentei no artigo da última sexta-feira, Os Protestos e a Verdadeira Democracia, muita gente era contra o movimento, influenciada pelas imagens de vandalismo apresentadas na televisão. Após o lamentável confronto em São Paulo entre PM e manifestantes no dia 13 de junho, a maioria da população passou a apoiar as manifestações, desde que não haja vandalismo. Você pode escutar o pedido de desculpas do Arnaldo Jabor na Rádio CBN.

Sem dúvida, se o movimento flanar entre objetivos estratosféricos ou mal definidos, suas conquistas serão tão pífias quanto as obtidas pelo OWS americano. O próximo objetivo escolhido, até pela premência do prazo, deveria ser a PEC 37 que será votada na Câmara dos Deputados na próxima semana.

Para quem não sabe o que é este Projeto de Emenda Constitucional, explicarei sucintamente. Este projeto de lei inclui um parágrafo no Artigo 144 da Constituição. Se for aprovado pelo Congresso Nacional, o Ministério Público não poderá mais apurar infrações penais contra a ordem política e social ou em detrimento de bens, serviços e interesses da União ou de suas entidades autárquicas e empresas públicas, assim como outras infrações cuja prática tenha repercussão interestadual ou internacional e exija repressão uniforme, segundo se dispuser em lei.

Ou seja, apenas a polícia poderá investigar os crimes praticados pelos políticos como corrupção ou prevaricação (retardar ou deixar de praticar indevidamente ato de ofício, ou praticá-lo contra disposição expressa de lei, para satisfazer interesse pessoal). O Ministério Público, que faz um trabalho muito bom em defesa dos direitos do cidadão, ficará de fora da apuração deste tipo de crime. Esta lei tem o objetivo claro de favorecer a impunidade. Se quisermos combater a corrupção no Brasil, não podemos permitir que esta alteração da Constituição seja aprovada. Preparei a tabela abaixo com a distribuição das assinaturas na proposição da lei por partido.

PEC 37 - partidos

É interessante notar que os percentuais de adesão nos principais partidos de oposição (PSDB, DEM e PPS) são parecidos aos dos partidos da base governista. Isto evidencia, em minha opinião, que a preocupação em não ser investigado pelo Ministério Público depende mais do caráter de cada deputado do que de sua posição política. Se você quiser verificar se seu deputado assinou esta proposição, basta clicar no link abaixo.

Proposição PEC 37

Talvez os melhores versos para descrever este momento é o refrão da música de Geraldo Vandré, Pra Não Dizer Que Não Falei Das Flores, verdadeiro hino contra a ditadura militar brasileira do final dos anos 60 e 70:

Vem, vamos embora
Que esperar não é saber
Quem sabe faz a hora
Não espera acontecer

Esta é a hora da população buscar o atendimento das necessidades básicas, como educação e saúde, além do fim da corrupção e da redução  dos impostos, e exigir melhorias no nosso sistema político para criarmos um país mais eficiente e justo. E melhor, tudo poderá ser conquistado na paz desta vez!

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Salário Motiva os Funcionários?

No início da minha carreira profissional, houve um momento em que meu salário não dava para quase nada, o clima na empresa não era bom, meu chefe não me valorizava e, quando surgiu uma oportunidade de transferência para outra unidade da empresa, ele não permitiu minha saída. Estava insatisfeito com esta situação! Por outro lado, durante um ano, trabalhei com entusiasmo e saia feliz de casa todos os dias, porque consegui fazer muitas atividades que trouxeram bons resultados para minha área, além de aprender muito.

Por muito tempo, não entendi aquele meu estado de espírito, porque eu estava satisfeito e insatisfeito simultaneamente com meu trabalho. Além disto, via outros colegas que focavam apenas no dinheiro ou título do cargo, independente das atividades desempenhadas. Há um mês, finalmente consegui a explicação através da “Teoria dos Dois Fatores” de Frederick Herzberg.

Fredrick Herzberg

Fredrick Herzberg

O primeiro grupo é formado pelos “fatores motivadores”, são aqueles que nos levam à satisfação. Esta satisfação no cargo é função das atividades desafiadoras e estimulantes e nos trazem novos conhecimentos, desenvolvimento, crescimento profissional, aumento de responsabilidades e, finalmente, autorrealização.

O segundo grupo são os “fatores higiênicos”, são aqueles que nos levam à insatisfação. Esta insatisfação no cargo é função do ambiente, da segurança, do salário, da supervisão e do relacionamento com colegas. Você pode ver o esquema na figura abaixo.

teoria-herzberg

Ou seja, eu estava satisfeito com meu trabalho, porque estava me desenvolvendo ao mesmo tempo em que fazia atividades desafiadoras e atingia bons resultados. Por outro lado, estava insatisfeito, porque meu salário era baixo, havia muita politicagem interna e meu chefe gerenciava o setor de uma forma que eu não concordava.

O ideal é procurar um trabalho alinhado com a vocação de cada um e que supra os fatores higiênicos. Ou seja, o salário e os benefícios do cargo devem ser a consequência, jamais o objetivo principal do profissional. Deste modo, se os fatores higiênicos estão supridos e você está motivado com seu desenvolvimento profissional, não mude de emprego somente para ganhar um salário melhor.

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Os Protestos e a Verdadeira Democracia

Após o primeiro protesto contra os aumentos das tarifas do transporte público na cidade de São Paulo, fiquei com uma sensação estranha. A Grande Imprensa em todos os jornais e telejornais apresentou os manifestantes como vândalos ou baderneiros, mas em nenhum lugar aparecia a origem do conflito. As barricadas foram montadas antes ou depois dos policias avançarem sobre a multidão? A manifestação era pacífica no momento em que os policiais lançaram as primeiras bombas de gás lacrimogêneo e deram os primeiros tiros com balas de borracha? As imagens só mostraram policias feridos, nenhum manifestante ficou machucado?

Início dos protestos em frente ao Theatro Municipal de São Paulo

Início dos protestos em frente ao Theatro Municipal de São Paulo

Depois disto houve o segundo protesto. A cobertura foi muito parecida com a anterior. Nenhuma das pessoas que comentaram as ocorrências comigo teve alguma palavra de apoio ao movimento. Sinceramente eu achei bom que havia alguém lutando por alguma coisa, porque a acomodação do povo brasileiro é algo incrível. Os políticos prometem o céu a cada eleição e ganhamos, no máximo, o purgatório e nós ainda fazemos piadas… Somos enganados, nos vendem gato por lebre e não reagimos. A classe estudantil e a classe média que lutaram na época da ditadura militar, hoje, na sua maioria, assistem a tudo com total apatia e indiferença. As pessoas são incentivadas a olhar para seu umbigo ao invés de se preocuparem com suas comunidades.

Ontem saí do trabalho pouco depois das 19 horas, estava dirigindo meu automóvel e ouvindo a Band News. Uma repórter entrou no ar para dar o boletim sobre a manifestação do dia. Ela disse basicamente que a passeata era pacífica e que as pessoas pediam por paz e “violência não”. Acho que menos de dez minutos depois ela voltou ao ar para dizer que o Tropa de Choque da PM havia bloqueado a Rua da Consolação para impedir que a passeata chegasse à Avenida Paulista. No meio deste boletim, iniciaram as explosões das bombas de gás lacrimogêneo e os tiros. Depois de um tempo, ela voltou para tentar continuar com o boletim, mas era praticamente impossível ouvir a sua voz.

Ficou claro que a iniciativa deste confronto coube à PM, mas desta vez a Grande Imprensa, ao ter diversos de seus membros feridos ou presos, também apresentou o outro lado da moeda. Abaixo estão as fotos do fotógrafo Sérgio Silva da agência de fotografia Futura Press e da repórter Giuliana Vallone da TV Folha atingidos por balas de borracha da PM.

Sergio Silva e Giuliana Vallone feridos por balas de borracha

Sergio Silva e Giuliana Vallone feridos por balas de borracha

Para que haja uma verdadeira democracia com avanços sociais, é necessária a efetiva participação da sociedade. Isto não significa o simples comparecimento obrigado às urnas a cada dois anos, significa sim lutar pelos direitos como transporte público, saúde ou educação. Só desta forma construiremos uma grande nação, mas para isto acontecer é fundamental respeitar e tentar entender os pontos de vista divergentes. Se o brasileiro discutisse política e economia, como discute futebol ou novelas, provavelmente estaríamos em um estágio muito melhor. Talvez um bom início seja o cartaz que a jovem está segurando na foto abaixo.

desculpe-o-transtorno

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