Os Psicopatas, os Hiperativos, os Estranhos e os Normais

Na semana passada, no mural do Facebook do Nilson, companheiro de tantas jornadas importantes do nosso Inter no Beira-Rio, havia uma interessante palestra do jornalista e documentarista britânico Jon Ronson sobre psicopatia. Se quiser assisti-la, com legendas em português, basta clicar abaixo.

Com é difícil provar a normalidade! Parece que todos somos anormais, psicopatas ou, pelo menos, temos alguns transtornos de personalidade ou de comportamento. Por incrível que pareça, há mais de um século, nosso maior escritor, Machado de Assis, tratou deste assunto na grande obra “O Alienista” (leia o post sobre este conto ou novela).

No início do mês, li uma reportagem na Folha de São Paulo, originalmente publicada no New York Times, cuja manchete era “Nos Estados Unidos, 11% dos estudantes têm transtorno de deficit de atenção”. Fui atraído pela manchete, li a matéria e fui atrás da fonte (jornal americano) para obter mais informações. Abaixo você pode ver o gráfico com a distribuição deste distúrbio por faixa etária e sexo nos Estados Unidos.

Distribuição das crianças diagnosticadas comTDAH nos Estados Unidos. [Fonte: New York Times]

Distribuição das crianças diagnosticadas com TDAH nos Estados Unidos. [Fonte: New York Times]

O transtorno de déficit de atenção e hiperatividade (TDAH ou ADHD em inglês) caracteriza-se pela desatenção, dificuldade de manter o foco em uma atividade específica, hiperatividade e impulsividade. Esta síndrome pode causar problemas e dificuldades na escola, durante a infância e juventude, e nas atividades profissionais na idade adulta.

O primeiro questionamento que faço a respeito do aumento da ocorrência deste tipo de problema entre os estudantes americanos é a mudança do ambiente atual em comparação com algumas décadas atrás. Hoje existem muito mais estímulos para as crianças e jovens, temos TV a cabo, Internet, videogames, notebooks, celulares, iPods, iPhones, iPads… Por outro lado, as aulas mudaram pouco nos últimos quarenta anos, predominantemente são expositivas. Só houve evolução na tecnologia para apresentar as informações, do quadro negro e giz, passando pelas lâminas de retro-projetor, até chegar às apresentações preparadas em PowerPoint e projetadas através de um data show. A essência continua a mesma, o professor passa o conhecimento, enquanto os alunos deveriam absorvê-lo. A questão básica é como alguém que vive em um ambiente com alta interatividade se interessará por uma aula com este formato?

Não existe um teste laboratorial para medir o TDAH, como acontece, por exemplo, no caso de suspeita de anemia no qual um simples exame de sangue define a questão. O diagnóstico da TDAH é feito através de questionários aplicados ao paciente (ou seria impaciente) e aos que o cercam, pais, professores, irmãos, colegas… Ou seja, tudo é muito subjetivo, porque depende da percepção de cada um.

A Folha de São Paulo, ao resumir a reportagem do New York Times, omitiu uma parte muito importante da reportagem do New Yok Times – o uso de medicamentos e as ações de seus fabricantes. Hoje os pais têm se preocupado cada vez mais com o desempenho escolar dos filhos. Em um ambiente de alta competição, como o americano, a necessidade de ter um alto desempenho na escola para garantir uma vaga em uma universidade de ponta é fundamental para o sucesso na carreira. Percebendo este filão, os laboratórios de medicamentos iniciaram campanhas maciças para estimular os diagnósticos de TDAH e o uso de medicamentos para reduzir a hiperatividade e aumentar o foco das crianças e jovens. Cerca de dois terços dos que receberam diagnóstico positivo passaram a consumir estimulantes como Ritalina, Adderall, Concerta e Vyvanse. Para se ter uma ideia o faturamento com a venda destes remédios passou de US$ 4 bilhões em 2007 para US$ 9 bilhões em 2012.

A reportagem do NYT, por example,cita um panfleto da Shire fabricante do Vyvanse (dimesilato de lisdexanfetamina), vendido no Brasil com a marca Venvanse, que mostra uma mãe olhando para seu filho e dizendo:

– Eu quero fazer tudo que eu posso para ajudá-lo a ter sucesso.

Bela mensagem! Eu poderia escrever diferente:

– Sou uma boa mãe, me preocupo com meu filho e vou dar um estimulante, uma anfetamina, que podem causar vício, mas estarei ajudando-o a melhorar seu desempenho escolar e ter um futuro melhor.

Outro panfleto do Laboratório Shire sobre o Vyvanse

Outro panfleto do Laboratório Shire sobre o Vyvanse

Se você acha que esta é mais uma invenção restrita apenas ao território norte-americano, está enganado. Segundo site do Dr. Drauzio Varella, o Brasil é o segundo mercado do mundo da Ritalina (metilfenidato) produzido pela Novartis. Este remédio tem o apelido de “droga da obediência”, devido ao efeito zumbi que pode causar uma espécie de apatia ou letargia.

A discussão agora é ser mais severo no diagnóstico do TDAH,. Assim cada vez mais crianças, adolescentes e jovens serão tratadas com estas drogas. Meu maior receio é a padronização do comportamento das pessoas que passam a agir como robôs. Como disse Jon Ronson, no final da sua palestra, você não deve rotular as pessoas pelos seus limites mais loucos. O mundo não gosta de áreas cinzas, mas, nestas áreas, encontramos a complexidade, é onde a gente encontra a humanidade e é onde encontramos a verdade. Eu diria mais, encontramos a diversidade, talento, criatividade e a inovação.

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