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O Quadragésimo Quarto e as Meias para Aquecer os Pés

Mais um Gre-Nal decidiu o campeonato gaúcho de futebol no domingo passado. Uma velha rotina… Uma hora antes do início do jogo liguei a televisão e coloquei num destes programas esportivos que debatiam as possibilidades de cada clube nas finais dos principais campeonatos estaduais brasileiros. Quando faltavam uns quinze minutos, localizei o canal do pay-per-view onde o jogo passaria.

Os times entraram no gramado do Beira-Rio e as escalações foram apresentadas. Meus pés estavam desagradavelmente gelados. A temperatura ambiente mais baixa não justificava aquela condição. A expectativa do jogo e a influência do pessimismo do meu filho estavam congelando meus pés. A história era parecida em 2006, primeira final de campeonato que nós dois assistimos juntos no estádio. O primeiro jogo das finais acabou empatado em 0x0 no estádio do Grêmio, da mesma forma que em 2015. Naquela ocasião, no jogo de volta no Beira-Rio, ganhávamos a partida até quase o final quando sofremos o empate e perdemos o campeonato, porque o Grêmio fez um gol fora de casa (chamado saldo qualificado). Isto deve ter gerado um trauma esportivo no meu filho, com dez anos na época.

Decidi ir ao quarto antes do jogo começar e escolher um par de meias. Cuidei para que não houvesse nenhum sinal de azul e, pelo menos, algum detalhe vermelho. Superstição boba, mas por que arriscar? Voltei para a sala e vesti as meias. Olhei para meus pés e lembrei-me do meu pai. Podia ser um dia quente de verão, mas toda vez que nos juntávamos para ouvir os jogos do Inter no rádio, ele botava meias para esquentar os pés gelados. Naquele momento, além dos pés, senti meu coração aquecer, motivado por uma saudade gostosa, alegria, paz…

Meias

Isto não evitou que eu xingasse o juiz durante a partida, gritasse loucamente nos gols do Colorado e ficasse apreensivo com a escassez da vantagem. Afinal o Grêmio novamente estava a um gol do título, como em 2006. Mas o resultado final não poderia ser outro – Inter mais uma vez campeão gaúcho, quadragésima quarta conquista estadual, com mais uma vitória sobre seu maior rival.

Inter Pentacampeão Gaúcho 2015  [Fonte: GloboEsporte.com]

Inter Pentacampeão Gaúcho 2015     [Fonte: GloboEsporte.com]

Mas se me perguntarem qual foi a sensação mais prazerosa da tarde, eu responderei, sem nenhuma dúvida, foi o momento no qual olhei meus pés com as meias e as memórias do meu pai voaram dentro da minha cabeça.

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Aranha, os Torcedores Gremistas e o Racismo

Na sexta-feira passada, recebi de um colega de empresa a encomenda de uma postagem no meu blog, tratando do evento recente de racismo no jogo entre Grêmio e Santos. Como já foi amplamente divulgado pela mídia, no jogo contra o Grêmio em Porto Alegre, parte da torcida gremista ofendeu o goleiro Aranha do Santos, chamando-o de macaco.

Goleiro Aranha se revolta com a atitude de parte da torcida do Grêmio

Goleiro Aranha se revolta com a atitude de parte da torcida do Grêmio

Lembro-me de um filme americano de 1970, “Watermelon Man” que assisti com meu pai numa madrugada de sábado no final dos anos 70 ou início dos 80. No Brasil, o título do filme é “A Noite em que o Sol Brilhou”. Neste filme, um americano branco e racista acorda negro. Após tentar voltar ao normal, sem sucesso, ele decide retomar sua vida normalmente, mas percebe que as pessoas passam a tratá-lo de forma diferente. Assista ao trailer do filme.

A cena da corrida para chegar antes à parada do ônibus era uma aposta com o motorista e ele fazia aquilo todos os dias. Para vencer a aposta ele inclusive atravessava quintais de alguns vizinhos. Suas atitudes, incluindo seu humor grosseiro, eram toleradas e ele era considerado um excêntrico. Quando ele tentou fazer a mesma coisa depois de ficar negro, foi preso. Quem se lembra daquela velha piada? Um rico, quando corre, está fazendo um cooper; e um pobre está fugindo da polícia! No filme, a esposa branca do protagonista, apesar de mais liberal e apoiar a luta dos negros americanos, não suportou aquela situação e deixou o marido.

Nos Estados Unidos, a situação foi mais séria, porque houve segregação racial, mas, no Brasil, a coisa não foi muito melhor. Durante muito tempo, atos racistas foram tolerados na nossa sociedade. A Lei Afonso Arinos, que entrou em vigor em 1951, tornou os direitos de todos iguais independente de raça. Ou seja, um negro, por exemplo, não poderia ser impedido de frequentar um estabelecimento comercial apenas por ser negro. Mas o racismo continua vivo ou, pelo menos, adormecido na cabeça de muitas pessoas até hoje. Talvez a jovem torcedora do Grêmio flagrada pelas câmeras de TV não discrimine negros no seu dia a dia, mas, junto com outros torcedores, usou uma forma racista para ofender o goleiro santista. Isto mostra que ela achava aquela atitude normal, senão, no mínimo, ficaria calada.

O fim do racismo claramente é um processo de mudança cultural. Em um post comentei o processo de mudança cultural em relação à segurança. Apresentei o exemplo do uso de cinto de segurança nos automóveis. Vivemos décadas numa sociedade onde o racismo e os atos inseguros eram tolerados. Para mudar a situação devemos ser inflexíveis, senão a “maionese desanda”. Naquele post, apresentei a curva de Bradley da DuPont.

bradleycurve

Existem pessoas com diferentes níveis de maturidade: algumas ainda têm comportamento reativo, outras dependem de supervisão, outros têm comportamento adequado independentemente de orientação e existem os que ajudam os outros a melhorar seus padrões de comportamento.

A punição de exclusão da Copa do Brasil sofrida pelo Grêmio deve servir de exemplo para toda a sociedade brasileira. Quando a Justiça Esportiva passou a punir os clubes, porque algum torcedor lançava algum objeto no campo, muita gente achou que era um exagero, mas os próprios torcedores passaram a se autocontrolar.

Sem dúvida chamar um negro de macaco não está certo, mesmo num estádio de futebol! A maioria da torcida do Grêmio também já entendeu que chamar os torcedores do Internacional de “macacos imundos” é errado e vaiou os que cantaram esta música antes do ultimo jogo em seu estádio.

Todos merecem respeito e igualdade de direitos independente de raça, sexo, patrimônio material, orientação sexual, local de nascimento, religião e profissão. Isto é lógico, parece fácil de fazer, mas, na verdade, é uma luta diária, onde não podemos baixar a guarda ou sermos omissos .

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Concorrência Fraca e a Acomodação

Este é um ano especial para todos os colorados. O Internacional completou cem anos de existência em 4 de abril de 2009. Dentre as várias ações para comemorar seu centenário, foi lançado um filme que conta a história do clube desde sua fundação até os dias atuais. O aspecto inovador deste filme foi a escolha de torcedores para apresentar esta história. Tive a honra e felicidade de ser um dos escolhidos para dar um depoimento.

Cartaz do filme sobre o centenário do S.C. Internacional

Cartaz do filme sobre o centenário do S.C. Internacional

O diretor do filme, Saturnino Rocha, durante minha entrevista, fez uma pergunta interessante:

– Por que o Inter teve um desempenho tão ruim durante os anos 90?

Eu tenho uma explicação para fato e parece que o pessoal do filme aprovou, pois esta é uma das minhas aparições no filme. Em 1991, o maior rival do Inter, o Grêmio, foi rebaixado para a série B. Parece que a torcida do Inter e a direção do clube se acomodaram com aquela situação. Afinal o maior rival estava condenado a jogar uma divisão inferior, enquanto o Inter permanecia no convívio dos grandes clubes brasileiros. Em 1992, houve uma mudança no regulamento e doze clubes subiram para a primeira divisão, inclusive o Grêmio. Pior ainda, eles montaram um bom time e tiveram a melhor década da sua história. O Inter, por sua vez, tentou desesperadamente reverter a situação e passou a pensar no curto prazo, mudando jogadores e treinadores algumas vezes por ano. Os resultados foram pífios e o clube quase foi rebaixado em duas ocasiões. Somente na virada do século, quando passou a fazer um trabalho mais estruturado, voltou a crescer e atingiu seu momento mais importante com a conquista do campeonato mundial interclubes em 2006.

Nas empresas muitas vezes acontece este tipo de acomodação:

– a concorrência está passando por dificuldades;

– o câmbio está favorável, deixando os produtos importados pouco competitivos;

– barreiras alfandegárias ou não-alfandegárias inviabilizam importações.

Nós também nessas situações nos acomodamos e achamos que nossa bagagem técnico-gerencial já é suficiente, mas o mundo está mudando em velocidade cada vez maior.

Parece que aquela situação vai perdurar até o final dos tempos. De repente tudo muda:

– uma grande multinacional entra no mercado com um marketing agressivo;

– um concorrente lança um produto com tecnologia inovadora;

– o real se valoriza e produtos chineses entram no mercado com preços arrasadores.

O que fizemos na época de “vacas gordas”?

A empresa se modernizou? Buscou novas tecnologias? Investiu em inovação? Cortou suas ineficiências?

Nós estudamos outro idioma? Aprendemos novas técnicas de gerenciamento de pessoas? Fizemos uma especialização ou MBA?

Talvez nós ou nossas empresas não tenhamos a oportunidade que o Internacional teve de dar a volta por cima depois de dez anos de maus resultados. A acomodação é uma palavra que deve ser expurgada de nossas vidas sob pena de criar situações irreversíveis.

Termino este post, falando sobre um atleta que muitos dizem que é extraterrestre, o jamaicano Usain Bolt. Assista ao vídeo da final dos 100 metros do campeonato mundial de atletismo em Berlim. Notem que ele apenas confere com o canto do olho a posição de seu maior rival, o americano Tyson Gay, mas vira a cabeça para a esquerda para ver o tempo de sua prova. Sua luta é para superar o seu recorde mundial, não é para vencer adversários inferiores a ele.

Segundo informações do site GloboEsporte.com, Bolt falou sobre sua reconhecida irreverência após esta prova consagradora:

– Esse é o meu jeito. Eu treino duro o ano inteiro, então posso me divertir o quanto quero e mesmo antes das provas. Mas quando a corrida começa, eu me concentro totalmente. Sei exatamente o que tenho que fazer. Estou me sentindo orgulhoso de mim mesmo. Estava buscando esse título, buscando chegar à faixa dos 9s50. Ser o primeiro é especial.

Ou seja, ele tem metas de desempenho bem definidas e as busca independente de sua concorrência. Além disto, o trabalho lhe traz diversão e satisfação pessoal. Esta deve ser a postura a ser seguida por nós e pelas empresas.

Boa semana a todos!

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