Arquivo do mês: novembro 2011

Rei Lear – A Velhice e a Sabedoria

Desde comprei e li Hamlet de William Shakespeare, fui arrebatado pelas obras do grande escritor inglês. Parece que não consigo ou quero me afastar de seus livros. Nas últimas semanas, devorei Otelo e Rei Lear e agora começarei Júlio César.

Como já falei nos dois últimos posts sobre Hamlet e Otelo, darei breves pinceladas na tragédia Rei Lear.

Rei Lear

"Rei Lear e o Bobo na Tempestade" de William Dyce (1806-1864)

O Rei Lear resolve repartir seu reino pelas suas três filhas no início da história. As duas mais velhas, Goneril e Regana, fazem juras de amor e recebem seus quinhões, enquanto que a filha mais nova, Cordélia, mais sincera e honesta, não se derrama em elogios ao pai, só afirma seu desejo de cuidá-lo, e mesmo assim é deserdada. Após a renúncia, Goneril e Regana desprezam o pai que passa por uma série de sofrimentos e privações. Ele praticamente enlouquece ao se dar conta de suas escolhas erradas.

Um dos grandes personagens do livro é o Bobo da Corte que segue junto com Lear. De fato, de bobo ele não tinha nada e, dos mais variados modos, diz as verdades, com música ou rimas ou de forma crua, como nesta brilhante frase dita para Lear:

– Tu não devias ter ficado velho antes de ter ficado sábio.

Esta frase é uma verdadeira pedrada. Realmente parece que a sabedoria traz a compreensão ou aceitação do que é diferente. A pergunta definitiva que sempre volta à cabeça não poderia ser outra neste caso. O que é ser sábio? Encontrei esta joia no livro “Trabalhos de Amor Perdidos” de Jorge Furtado da coleção “Devorando Shakespeare” da Editora Objetiva:

“A cada dia eu sei de mais coisas sobre as quais nunca saberei, os livros que me fariam um ser humano melhor, os filmes que mudariam minha vida, a melhor de todas as músicas, que nunca ouvirei. Quanto mais estudo, mais descubro a vastidão da minha ignorância. Minha burrice é uma África, minha ingenuidade é uma Ásia, minha estupidez, três Américas. Já minha sabedoria, esta é uma ilha da Páscoa, um pingo de terra firme batido sem piedade pelas ondas da incerteza e fustigado pelos ventos da amnésia, a milhares de quilômetros de qualquer porto seguro. Nem mesmo sei ao certo se ‘a milhares de quilômetros’ se escreve assim, ou se este tem agá ou crase”.

Jorge Furtado

Jorge Furtado, cineasta, roteirista e escritor

Eu já estou caminhando pela segunda metade da minha vida. Preciso forjar um pensamento nesta linha do texto do Jorge Furtado. Não quero envelhecer preso a paradigmas. Não quero ser aquela pessoa que pensa que sabe tudo e vai construindo muros e fossos ao seu redor. Ninguém chega perto de pessoas assim, porque elas não aceitam nada diferente dos seus espelhos. O resultado final é a solidão! Quero, até o meu derradeiro suspiro, ter a consciência que minha ignorância é um universo, enquanto que minha sabedoria é uma poeira vagando pelo cosmos. Quero trocar experiências e conhecimentos com todos, do mais culto ao mais humildade, do mais experiente ao mais novo…

Continuarei nesta minha trilha shakespeariana. Espero que cada livro me traga novos conhecimentos e a certeza que existe muito mais para aprender.

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Ciúmes – Como Não se Transformar no Shakespeariano Otelo

Eu assumo que já fui um cara muito ciumento. Já tive crises em que este sentimento vil teve contornos doentios. Hoje eu controlo-o da forma mais eficiente que minha capacidade permite. Talvez a Cláudia ache que eu não demonstre mais hoje, mas confesso que, quando ela me conta de caronas para colegas de trabalho, lá no fundo eu não gosto.

Nesta semana, eu li Otelo de Shakespeare, um grande clássico sobre o ciúmes. Óbvio que o ciúmes extremado que Otelo sentia em relação a Desdêmona é um paradigma do limite máximo atingível por este sentimento.

Otelo e Desdêmona de Adolphe Weisz

O que poderia explicar o ciúmes é a sensação de posse. Não somos donos de nossos companheiros. Se o amor for revestido de confiança, respeito, liberdade e transparência, não haveria necessidade de nos sentirmos proprietários de nossas “caras metades”. Assim não seríamos inseguros, não imaginaríamos que alguém melhor do que nós nos substituiria ou não teríamos o medo da perda.

O ciúmes e a posse

Como eu sempre digo, se formos autênticos e sinceros e agirmos da mesma forma com os outros como desejamos ser tratados, não existiria motivos para insegurança e ciúmes.

No caso de Otelo, Iago percebeu a insegurança de seu chefe e minou a confiança que ele tinha pela esposa. Talvez Otelo não sentia-se suficientemente confiante, porque era mouro, negro e bem mais velho do que Desdêmona, enquanto ela era filha de um respeitável senador veneziano, linda, culta, inteligente e articulada.

Resumindo, o importante é amar e ser amado, respeitar e ser respeitado, acreditar e ser acreditado. Assim venenos plantados por outros ou por nossas próprias mentes sempre serão neutralizados por antídotos poderosos. A melhor descrição sobre o amor aparece na primeira carta de São Paulo aos Coríntios. Para encerrar, transcrevo um pequeno trecho.

São Paulo pintado por Valentin de Boulogne ou Nicolas Tournier

O Amor é paciente, é benigno; o Amor não é invejoso, não trata com leviandade, não se ensoberbece, não se porta com indecência, não busca os seus interesses, não se irrita, não suspeita mal, não folga com a injustiça, mas folga com a verdade. Tudo tolera, tudo crê, tudo espera e tudo suporta. O Amor nunca falha.

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Ser ou Não Ser, Viver ou Morrer, Agir ou Parar – Hamlet Tinha Razão

A L&PM relançou uma coleção de livros no formato pocket. Olhando as opções disponíveis na livraria, resolvi comprar Hamlet de William Shakespeare, traduzido para o português por Millôr Fernandes. A tragédia mostra a tentativa Príncipe Hamlet de vingar a morte de seu pai, o Rei Hamlet da Dinamarca. Elementos como depressão, raiva, traição, incesto, vingança, corrupção fazem parte desta história.

“Hamlet e Horácio no Cemitério” de Delacroix

Os diálogos e monólogos do Hamlet são deliciosos. Ao reencontrar dois amigos, Rosencrantz e Guildenstern, o príncipe conversa e num determinado ponto afirma:

– Não há nada de bom ou mau sem o pensamento que o faz assim.

Quem não lembra do famoso “ser ou não ser”. Achava que Hamlet dizia esta frase segurando uma caveira, mas a cena em que ele segura e conversa com a caveira de Yorick , o bobo da corte, acontece bem depois, no Ato V.

Um dos filmes clássicos sobre Hamlet foi protagonizado por Laurence Olivier em 1948. Achei a cena do filme de 1996 dirigido e estrelado por Kenneth Branagh mais fiel ao livro. Clique e assista ao famoso monólogo.

Abaixo está a versão de Millôr Fernandes.

Ser ou não ser – eis a questão
Será mais nobre sofrer na alma
Pedradas e flechadas do destino feroz
Ou pegar em armas contra um mar de angústias –
E, combatendo-o, dar-lhe fim? Morrer; dormir;
Só isso. E com o sono – dizem – extinguir
Dores do coração e mil mazelas naturais
A que a carne é sujeita; eis uma consumação
Ardentemente desejável. Morrer – dormir –
Dormir! Talvez sonhar. Aí está o obstáculo!
Os sonhos que hão de vir no sonho da morte
Quando tivermos escapado ao tumulto vital
Não obrigam a hesitar: e é essa reflexão
Que dá à desventura uma vida tão longa.
Pois quem suportaria o açoite e os insultos do mundo,
A afronta do opressor, o desdém do orgulhoso,
As pontadas do amor humilhado, as delongas da lei,
A prepotência do mundo, e o achincalhe
Que o mérito paciente recebe dos inúteis.
Podendo ele próprio, encontrar seu repouso
Com um simples punhal? Quem aguentaria fardos,
Gemendo e suando numa vida servil,
Senão porque o terror de alguma coisa após a morte –
O pais não descoberto, de cujos confins
Jamais voltou nenhum viajante – nos confunde a vontade,
Nos faz preferir e suportar os males que já temos,
A fugirmos pra outro que desconhecemos?
E assim a reflexão faz todos nós covardes.
E assim o matiz natural da decisão
Se transforma no doentio pálido do pensamento,
E empreitadas de vigor e coragem,
Refletidas demais, saem de seu caminho,
Perdem o nome de ação.

Parece evidente que o “ser” se refere à vida e à ação, enquanto o “não ser” está relacionado à morte e à inação. Será melhor suportar uma situação desfavorável do que lutar para melhorá-la? Será melhor manter a situação atual conhecida do que arriscar algo novo mais de acordo com nossas aspirações? O medo de decidir por algo novo pode nos paralisar? O dormir para buscar o alívio para os problemas diários é uma simples fuga e deve ser conseguido de qualquer forma, até com o uso de remédios?

O melhor mesmo é enfrentar de frente os problemas, mesmo com todos os riscos inerentes desta ação. Ficar parado, não perseguir seus sonhos, se preocupar excessivamente com a opinião dos outros, ter medo de perdas só pode nos conduzir à paralisia e transformar a vida em uma morte cotidiana antecipada.

Nós devemos buscar sempre o que acreditamos ser o melhor. Como disse o personagem Polônio ao aconselhar o filho Laertes:

– E, sobretudo, isto: seja fiel a ti mesmo. Jamais serás falso pra ninguém.

Qual será meu próximo Shakespeare, Rei Lear ou Otelo? Eis a questão…

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