Arquivo do mês: agosto 2013

Tolerância Zero com os Dogmáticos

No início da minha carreira, eu tive um chefe que tinha uma série de preferências e opiniões opostas às minhas. No futebol, eu sou colorado; ele, gremista. No segundo turno da eleição de 1989, eu apoiava o Lula; ele, o Collor. E pior, eu adorava discutir futebol e política e não gostava de perder debate. Acho que alguns problemas que eu tive com este chefe foram devido a estas inúteis discussões sobre futebol ou política. Com o passar do tempo, me dei conta da bobagem daquela minha atitude, porque um dogmático não muda o pensamento de outro dogmático.

Ultimamente, na política, a direita e a esquerda me cansam. Melhor dizendo, me aborrecem, principalmente quando estão agindo de forma cada vez mais parecida de acordo com minha ótica. Não discuto mais política partidária, mas não resisto à tentação de discutir com aqueles que discutem política com parcialidade. Acho incrível como os fatos são moldados para um lado ou outro de acordo com as conveniências. São criadas as mais engenhosas teorias da conspiração apoiadas por silogismos bem elaborados.

Eterno conflito entre PT e PSDB

Eterno conflito entre PT e PSDB

Talvez a melhor forma de se posicionar diante desta postura seja uma espécie de questionamento socrático, fazer de conta que não se sabe nada sobre o assunto e testar a consistência dos argumentos. Normalmente lembro, na sequência, alguns fatos onde o outro lado agiu da mesma forma antiética. Por exemplo, hoje, quando se fala do mensalão, pergunto sobre o escândalo dos trens e metrôs de São Paulo. Se eu sentir que a opinião é completamente radical, desisto e parto para outro assunto menos polêmico.

Achei excelente a participação do novo ministro do STF, Luís Roberto Barroso, no julgamento dos recursos da Ação Penal 470 (popular Mensalão). Após citar exemplos de escândalos dos últimos 20 anos envolvendo políticos, Barroso disse:

Não existe corrupção do PT, do PSDB ou do PMDB. Existe corrupção. Não há corrupção melhor ou pior, dos “nossos” ou dos “deles”. Não há corrupção do bem. A corrupção é um mal em si e não deve ser politizada.

Novo Ministro do STF Luís Roberto Barroso

Novo Ministro do STF Luís Roberto Barroso

Barroso disse também que a sociedade tem cobrado “um choque de decência” em várias áreas:

Por exemplo, acabar com a cultura de cobrar com nota ou sem nota. Não levar o cachorro para fazer necessidades na praia. Nas licitações, não fazer combinações ilegítimas com outros participantes.

Outro assunto interessante é a religião. Noto o aumento dos evangélicos neopentecostais e de suas “antipartículas”, os ateus. Tenho amigos, colegas e conhecidos ateus, um deles ironicamente se chama Jesus. A máxima de todos os ateus é “não tem como provar a existência de Deus”. Eu normalmente pergunto se eles conseguem provar a não existência de Deus.

Discussões entre ateus e cristãos evangélicos

Discussões entre ateus e cristãos evangélicos

Como já escrevi em vários artigos deste blog, a fé é algo muito pessoal. Ou seja, acreditar ou não em Deus depende da fé, ou da não fé se preferirem. Tolerância é essencial!

Gostaria que todos pensassem de forma aberta e sem preconceitos ou dogmas. Quando nos convencemos que um dos lados sempre tem razão e o outro está sempre errado, mesmo em situações similares, ficamos cegos e esta cegueira limita terrivelmente nossa percepção da realidade. Passamos apenas a assistir programas de TV, ler revistas, acompanhar blogs que reforcem a nossa própria ideologia. Tudo que contraria nossas ideias é desqualificado. Seria o mesmo que pregar apenas para os já convertidos e assim se perde a oportunidade de tentar entender, sem preconceitos, outros pontos de vista.

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Empresário ou Empregado – Contatos Quentes e Frios

Trabalhei vinte anos no mesmo lugar em diferentes funções. Falei “mesmo lugar”, porque a razão social da empresa mudou algumas vezes neste período. Num determinado momento, cheguei à conclusão de que minha perspectiva de crescimento e de automotivação eram pequenas naquela empresa. Então troquei de emprego, mas não deu certo e, depois de um ano, estava no mercado. Apareceram quatro propostas em duas semanas e fiz entrevistas. A economia estava aquecida, queriam desenvolver novos negócios e me ofereceram a gerência destes projetos. Tive receio em fazer uma escolha mal pensada, mas veio a crise financeira de 2008 e as negociações foram abortadas. Como já estava perto do final de ano, vi que até março do ano seguinte nada aconteceria, resolvi por em prática um velho sonho – ser meu chefe.

Aproveitei e me tornei sócio da empresa de engenharia e consultoria técnica da minha esposa. Telefonei para meus conhecidos e surgiram os primeiros contratos. O dinheiro começou a entrar e tentei criar novas opções. Listei empresas no Rio Grande do Sul, onde eu morava naquela época, que poderiam ser potenciais clientes para os serviços de consultoria que eu oferecia. A maioria das empresas não me deu retorno, outras conversavam comigo, mas não havia evolução. Os novos contratos eram firmados apenas através de indicações ou diretamente com os mesmos velhos conhecidos.

Como atrair novos clientes?

Como atrair novos clientes?

Firmei uma parceria com um amigo, colega dos tempos da engenharia química da UFRGS. Demos cursos de gerenciamento de projetos e tocamos alguns contratos juntos. Outro parceiro dele, certa vez, fez uma apresentação para nós sobre prospecção de novos clientes. Ele disse que havia dois tipos de contatos, os quentes e os frios. O grupo dos contatos quentes era formado por clientes que já haviam trabalhado com a empresa, por indicações firmes de algum cliente ou alguém da rede de relacionamento. O grupo dos contatos frios era o resto do mundo, aqueles que não temos relacionamentos pessoais e profissionais. A chance de sucesso em um contato frio é muito mais baixa, eu citaria de acordo com minha experiência alguns motivos:

– muitas vezes não batemos na porta certa na empresa. Quando isto acontece, aquele que nos atende pode não perceber o potencial da consultoria ou pode se sentir ameaçado.
– já existem relacionamentos antigos. Porque trocar alguém que trabalha para a empresa há tempo por um desconhecido? Muitas vezes existem inclusive vínculos de amizade.
– a empresa não está segura que contratar um desconhecido é a melhor opção.

Não é fácil conquistar "contatos frios"

Não é fácil conquistar “contatos frios”

Este último motivo ficou evidente em uma visita para apresentar uma consultoria para melhoria dos processos de manufatura de uma empresa. A reunião com o gerente corporativo de qualidade foi ótima, conversamos sobre diversos pontos a serem atacados e ele ficou visivelmente satisfeito com todas as respostas. Eu conhecia a empresa de consultoria que era referência naquela metodologia e minha proposta era mais flexível e competitiva. Aí veio a pergunta final:

– Vicente, quantas pessoas trabalham na tua empresa?

Minha resposta não teve floreios, mas uma meia-verdade, porque a Claudia, minha esposa e sócia, naquela época trabalhava como funcionária de uma empresa de engenharia:

– Eu e minha esposa que também é engenheira química e trabalha com projetos de engenharia.

Ele perguntou como seria iniciado o trabalho e eu sugeri que fizéssemos um contrato apenas para uma área piloto para teste. Conversamos mais um pouco e ele deu a tradicional resposta que estavam estudando as alternativas, não era certo que a empresa seguiria aquele caminho e entraria em contato se decidissem ir em frente.

Naquele dia, eu entendi claramente várias coisas:

– Eu seria contratado apenas pelos meus contatos quentes e excepcionalmente por algum contato frio.
– Eu seria contratado pelo meu conhecimento passado, não pelo meu potencial de desenvolver novas soluções a partir de aptidões não testadas e comprovadas. Isto reduziria o desafio das minhas atividades e poderia me levar, no futuro, à obsolescência.
– Como minha empresa era o exército de um homem só, havia o risco do contratante não gostar do meu serviço ou ter algum problema de relacionamento comigo. Neste caso, haveria o problema de romper o contrato e iniciar tudo do zero. Se ele contratasse uma grande empresa de consultoria, bastaria telefonar e pedir a substituição do consultor. Havia também o risco de eu ficar doente, morrer, acertar na loteria, receber uma proposta profissional maravilhosa e meu contratante ficaria no pincel…

Após dois anos trabalhando na minha empresa, me dei conta destas limitações. Neste período, desenvolvi uma cara de pau e uma insensibilidade às rejeições dos clientes, especialmente nos contatos frios. Afinal não era o Vicente que era rejeitado e sim a proposta de consultoria da minha empresa.

Por uma coincidência cósmica, pouco tempo depois, no meio de uma consultoria, recebi a ligação de um diretor da empresa onde trabalho atualmente me sondando para uma posição de gerente de projetos com novas tecnologias. Bingo! Após uns meses de conversas e negociações, fechamos o acordo. O tempo para negociação foi bom para eu encerrar os contratos ativos da minha empresa de forma correta sem pendências.

Minhas últimas mensagens valem tanto para aqueles que desejam ser os “donos do próprio nariz”, quanto para a turma da “carteira assinada”. Cultivem sua rede de relacionamentos (networking), porque ela será extremamente útil no desenvolvimento da sua carreira profissional. A propósito, quem me convidou para meu atual emprego era um contato quente.

Importante manter sua rede de relacionamentos

Importante manter sua rede de relacionamentos

Não tenham medo de tentar novas alternativas, mas se estas alternativas não forem promissoras, não hesitem em dar um passo atrás, porque não fazer o que o coração manda, apenas por orgulho pessoal, sempre será a pior alternativa.

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Portuglish ou Portunglês

Certa vez, após uma reunião na sede da empresa em que trabalho, um consultor me vez a seguinte observação:

– Vicente, você não fala inglês como os outros brasileiros. Você tem sotaque russo!

Respondi que ele não era a primeira pessoa a me dizer isto e eu não tinha uma explicação lógica para meu sotaque. Talvez uma vida passada…

Lembro que, num belo sábado de primavera no Canadá, saí do hotel para caminhar na beira do rio e fui interceptado por um jovem missionário mórmon. Após trocarmos duas ou três frases, veio a pergunta clássica:

– Você é russo?

No início eu ficava chateado com esta pergunta, depois comecei a encarar com bom humor. Afinal eu jamais falarei inglês tão bem a ponto de não ser identificado como estrangeiro e não faz muita diferença ter sotaque brasileiro ou russo.

Eça de Queirós foi um dos maiores escritores portugueses do século XIX e, no Brasil, ficou mais conhecido após a apresentação da minissérie “Os Maias” baseada no romance de mesmo nome. Em outro livro, ele criou o personagem Fradique Mendes, considerado pelos críticos como seu próprio alter ego. Leia o que este personagem, ou o próprio Eça, escreve em uma carta:

Um homem só deve falar, com impecável segurança e pureza, a língua da sua terra: todas as outras deve falar mal, orgulhosamente mal, com aquele acento chato e falso que denuncia logo o estrangeiro (…). Na língua verdadeiramente reside a nacionalidade; e quem for possuindo com crescente perfeição os idiomas da Europa vai gradualmente sofrendo uma desnacionalização.

Eça de Queirós

Eça de Queirós

Além desta frase do Eça de Queirós, tem a dificuldade em si de falar bem inglês. Veja este interessante vídeo sobre o “caos” da pronuncia do inglês.

Por outro lado, cada vez está mais difícil manter a pureza do nosso idioma. Um fenômeno atual é o uso de palavras, principalmente em inglês, apesar de existir alternativas consagradas em português. Não estou falando daqueles casos em que não existem equivalentes em português e uma palavra inglesa é substituída por uma frase em português. Por exemplo, não tenho nada contra o uso da palavra bullying.

A informática foi pródiga em criar estes anglicismos. Ninguém exclui um arquivo ou apaga uma palavra nos editores de texto. Todos “deletam”. Um programa de computador não é iniciado e sim “inicializado”. A maioria prefere “escanear” um documento ao invés de digitalizar.

Estrangeirismos

Eu ainda aceito deletar, inicializar e escanear, mas existem outras palavras mais arrepiantes. Alguns prefeririam não “startar” esta lista, mas eu quero iniciar logo. Não entendo porque alguns querem “printar” um relatório, se podem simplesmente imprimi-lo. Por que tem gente que “atacha” um arquivo na mensagem em vez de anexá-lo? Mas se você quiser “chattear” ao invés de conversar, vou ficar chateado com você… Neste caso, para melhorar meu humor, só ouvindo “O Samba do Approach”, esta deliciosa crítica aos estrangeirismos composta por Zeca Baleiro.

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A Gambiarra

Na engenharia, ou em nossas vidas, muitos problemas são solucionados através de soluções técnicas provisórias, mais conhecidas como gambiarras. O problema é que muitas vezes elas não atendem os mínimos requisitos de segurança e, pior, acabam se tornando definitivas. Geralmente as gambiarras são feitas, porque seu autor não tem recursos, tempo ou disposição para buscar a solução definitiva. Deste modo, o problema é contornado sem pessoal competente, sem as ferramentas corretas, sem o material apropriado. Por outro lado, as gambiarras são também expressões de criatividade do seu autor.

"bela" churrasqueira

“bela” churrasqueira

O artista plástico e cineasta mineiro Cao Guimarães, autor das fotos deste post, já fez um filme sobre esta verdadeira instituição nacional, a gambiarra. Assista ao vídeo abaixo sobre mestres desta prática.

Na sequência, você pode ver outras fotos com gambiarras incríveis. Olhe esta tábua de carne, servindo como suporte nesta janela! Imagine esta tábua despencando do décimo andar de um prédio…

suporte "seguro" para janela

suporte “seguro” para janela

E agora você pode ver uma solução interessante, um CD usado como refletor de uma lâmpada. Ideia bem criativa…

novo uso para CD

novo uso para CD

A gambiarra ainda pode apresentar vários efeitos colaterais. Alguns “gambiarristas” passam a se orgulhar de suas criações e rejeitam as soluções convencionais. Afinal gambiarra vicia, dá prazer! Todos conhecem sucateiros que criam soluções baratas, onde segurança e eficácia são colocadas em segundo plano. No final, o barato sai caro…

Outro problema tem a ver com as restrições causadas pela falta de recursos ou de tempo, por exemplo. As gambiarras são boladas quando existe algum tipo de restrição. A situação pode melhorar, as restrições desaparecerem, mas as pessoas continuam agindo como se elas existissem. E lá vêm novas gambiarras…

Normalmente falta senso crítico para analisar a necessidade de “gambiarrar” e seus impactos sobre a segurança e a implantação de uma solução definitiva do problema.

O pior mesmo é quando a gambiarra vira uma filosofia de vida e passa a ser empregada também nas relações pessoais. Assim ao invés de resolver os problemas, são adotados subterfúgios que só geram sofrimentos futuros. As questões não são solucionadas de modo sustentável, por exemplo no âmbito familiar, e para resolvê-las são escolhidas alternativas como mudar de casa, comprar um automóvel novo, fazer uma viagem ou, muito pior, ter um filho. Gambiarras não são coisas feitas só por pobres. Todos fazem gambiarras quando não sabem como resolver um problema de acordo com as boas técnicas.

Mas, apesar de todos os pontos negativos, nós brasileiros não conseguimos viver sem gambiarra, assim, para finalizar, proponho um brinde em sua homenagem com uma cerveja bem gelada…

gambiarra_cerveja

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