Fernandão, Vida, Morte e Piscadas

O sábado iniciou com uma notícia impactante para os colorados – Fernando Lúcio da Costa, o Fernandão morreu devido a um acidente de helicóptero. Fiquei com uma sensação estranha, senti algo parecido quando Ayrton Senna morreu. Os ídolos têm uma espécie de onipresença em nossas vidas que muitas vezes não nos damos conta que o conhecemos profundamente apenas no âmbito profissional. Não os conhecemos realmente…

Fernandão chegou ao Inter em 2004 e, logo na estreia, marcou o milésimo gol da história dos Gre-Nais. Quando deixou o clube em 2008, havia conquistado vários títulos com destaque para a Copa Libertadores e o Mundial, ambos em 2006. Foi capitão do time, um líder dentro e fora de campo. Ele era um jogador de futebol muito acima da média – educado e bem articulado. Sempre atendia todos os fãs de forma atenciosa e simpática. Nunca vi frases deselegantes contra adversários ou jornalistas. Tudo isto explica a verdadeira comoção dos gaúchos com a sua morte.

Fernandão com meu filho Leonardo

Fernandão com meu filho Leonardo

Uma questão importante é a idade do ex-jogador colorado, 36 anos. Ou seja, ele era um jovem saudável, bem sucedido e, após a aposentadoria como jogador de futebol, tinha mais liberdade para aproveitar a vida com sua família. Além disto, estava iniciando uma nova carreira como comentarista esportivo do canal SporTV. Numa circunstância deste tipo, costumamos questionar:

– Como alguém pode morrer assim com todo um futuro pela frente?

Como diria a grande filósofa contemporânea Julinha, minha filha de 6 anos, “todos têm seu tempo neste mundo, o dele era este”. Felizmente ou infelizmente, dependendo do ponto de vista, não sabemos qual é a nossa hora.

Eu, sinceramente, acho ótimo não saber qual é a minha hora. Sinto que devemos equilibrar entre viver o hoje como se fosse o último dia e como se tivesse mais 50 anos pela frente. Equilíbrio difícil entre desfrutar e plantar… Esta é a beleza de nascer, viver e morrer…

Sobre a vida e o que acontece depois da morte, eu poderia pensar em alguma coisa, mas não chegaria aos pés desta verdadeira preciosidade escrita por Monteiro Lobato nesta passagem de “Memórias de Emília” de 1936.

– A vida, Senhor Visconde, é um pisca-pisca. A gente nasce, isto é, começa a piscar. Quem para de piscar, chegou ao fim, morreu. Piscar é abrir e fechar os olhos – viver é isso. É um dorme-e-acorda, dorme-e-acorda, até que dorme e não acorda mais.

[…] A vida das gentes neste mundo, senhor sabugo, é isso. Um rosário de piscadas. Cada pisco é um dia. Pisca e mama; pisca e anda; pisca e brinca; pisca e estuda; pisca e ama; pisca e cria filhos; pisca e geme os reumatismos, por fim pisca pela última vez e morre.

– E depois que morre? – perguntou o Visconde.

– Depois que morre, vira hipótese. É ou não é?

Visconde de Sabugosa e Emília

Visconde de Sabugosa e Emília

Eu e Visconde de Sabugosa só podemos dizer que isto faz muito sentido, Emília! Aproveite cada dia da vida, carpe diem, não deixe o essencial para amanhã, mas nunca se esqueça de semear para ter algo maravilhoso para colher amanhã, na próxima semana, daqui um ano ou cinquenta anos…

Fernandão, infelizmente, piscou pela última vez no sábado passado, mas, entre uma piscada e outra, fez a felicidade de milhões de pessoas…

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3 Comentários

Arquivado em Esporte, Filosofia, Inter, linkedin, Literatura, Psicologia

3 Respostas para “Fernandão, Vida, Morte e Piscadas

  1. Pingback: Post 200 – Retrospectiva | World Observer by Claudia & Vicente

  2. Vicente, mais uma vez, muito bom o seu texto!!! Parabéns.

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