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O Presidente Setarcos, seus Fiéis Fãs e o Efeito Dunning-Kruger

As redes sociais nos induzem a viver em bolhas, onde apenas interagimos com os nossos semelhantes. No final de semana passado, após postar no Facebook um artigo da “The Economist” sobre a postura do Bolsonaro nesta crise do COVID-19, minha bolha encostou na bolha dos apoiadores incondicionais do presidente, devido aos comentários e menções ao meu nome.

Vi postagens desta bolha. Por exemplo, encontrei várias vezes esta figura abaixo que trata do auxílio emergencial de 600 reais.

Aviso_Bozo

Os apoiadores do presidente estão dizendo que se você não está alinhado com este governo, não deveria pegar o auxílio?

A propaganda oficial do governo está apresentada a seguir.

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Bolsonaro acusava o PT de lucrar em cima do Bolsa Família e agora quer tirar vantagem deste auxílio emergencial? Em primeiro lugar, imaginem só, a proposta do governo era 200 reais. O Congresso aumentou para 600 reais. Uma propaganda honesta poderia ser simplesmente assim:

O AUXÍLIO EMERGENCIAL DE 600 REAIS POR PESSOA É FORNECIDO PARA A POPULAÇÃO, GRAÇAS AOS IMPOSTOS PAGOS PELA PRÓPRIA POPULAÇÃO.

É DINHEIRO DOS BRASILEIROS PARA OS BRASILEIROS.

Infelizmente não sei quem foi o autor da figura abaixo, gostaria de lhe dar os créditos, mas é a melhor explicação para a origem do dinheiro deste benefício.

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O efeito Dunning-Kruger atinge especialmente os indivíduos que possuem pouco ou nenhum conhecimento sobre um determinado assunto e acreditam que sabem mais do que outros mais bem informados, fazendo com que tomem decisões erradas. A figura abaixo facilita o entendimento.

Efeito Dunning-Kruger

Ou seja, a falta de conhecimento e experiência (incompetência) é tão grande que não se consegue perceber a própria incompetência. Bolsonaro e seus fiéis seguidores infelizmente estão neste estágio (pico da montanha da estupidez). As fake news que circulam pelas redes sociais reforçam suas convicções. Quem busca conhecimento inicialmente percebe o tamanho da própria ignorância (vale do desespero). Muitos eleitores de Bolsonaro já perceberam o seu total despreparo para exercer as funções de presidente, especialmente em uma crise desta magnitude.

Mas afinal quem é o Presidente Setarcos (título deste post)?

O filósofo grego Sócrates, ao consultar o oráculo, recebeu de volta a seguinte pergunta:
– O que você sabe?
Sócrates teria respondido:
– Só sei que nada sei.
O oráculo, ao ouvir a resposta do filósofo, proclamou:
– Sócrates é o mais sábio de todos os homens, pois é o único que sabe que não sabe.

Filósofo Socrates

Filósofo Sócrates

Se Bolsonaro recebesse a mesma pergunta do oráculo, poderia responder:
– Só não sei que nada sei.
E o oráculo responderia:
– Bolsonaro é o menos sábio dos homens, pois não sabe que nada sabe.

Bolsonaro é o Sócrates ao contrário, ele é o menos sábio dos homens. Bolsonaro é o presidente Setarcos!

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Minha Teoria da Conspiração e Meu Apelo para Bolsonaro

Adoramos teorias da conspiração! Afinal elas mexem com nossa imaginação… Baseado nos fatos das últimas semanas, também criei a minha.

A minha teoria da conspiração começa com a contaminação de Bolsonaro pelo novo coronavírus na sua última viagem aos Estados Unidos no início de março. Dificilmente ele escaparia do vírus, quando mais de vinte pessoas (alguns assessores diretos) receberam resultados positivos. Os seus sintomas provavelmente foram leves e este é o motivo de ele achar que a COVID-19 é uma “gripezinha” ou “resfriadinho”. O desprezo do presidente pela ciência torna sua experiência pessoal mais relevante do que a opinião de todos os infectologistas do planeta.

Agora vamos aos fatos das últimas duas semanas…

No dia 24/03, Bolsonaro fez o lamentável discurso em que minimizou a gravidade da doença. Atacou prefeitos e governadores que proibiram aglomerações e recomendaram o isolamento social. Ele criou a histeria em relação ao desemprego e à fome. No domingo passado, ele circulou pelo Distrito Federal. Visitou uma farmácia, uma padaria; conversou com ambulantes; tirou selfies… Gerou aglomerações, fez tudo o que seu ministro da saúde desaconselha para a população em geral.

Quando Bolsonaro anunciou que faria um novo pronunciamento na noite da terça-feira passada, temi que ele anunciasse a abertura do comércio em todo o país. Poderia se configurar um grande conflito popular sem precedentes na história do Brasil. Para minha surpresa, a fala foi moderada com algumas pequenas alfinetadas e omissão de uma parte importante da fala do diretor-geral da OMS, Tedros Adhanom Ghebreyesus, referente à convocação dos países a desenvolverem políticas que forneçam proteção econômica às pessoas que não possam receber ou trabalhar devido à pandemia da COVID-19. No final do pronunciamento, Bolsonaro arremata com uma frase conciliadora.

“Agradeço e reafirmo a importância da colaboração e a necessária união de todos num grande pacto pela preservação da vida e dos empregos: parlamento, Judiciário, governadores, prefeitos e sociedade”.

Entretanto, nos dias seguintes, fez postagens inadequadas nas redes sociais. E deu uma entrevista na Rádio Jovem Pan, onde criticou abertamente governadores, especialmente João Dória. Pediu mais humildade e afirmou que o ministro da saúde, Luiz Henrique Mandetta, deveria ouvi-lo mais. Para finalizar, disse que tem um decreto pronto para reabrir o comércio.

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Minha teoria da conspiração termina com a tentativa de Bolsonaro de cooptar os militares para radicalizar ou, até mesmo, dar um autogolpe. A maioria dos militares consultados deve ter aconselhado o presidente a “baixar a bola”. Então veio o pronunciamento do dia 31/03, onde fez um recuo em relação ao fim do isolamento social.

O problema é que Bolsonaro não se controla (nem ninguém o controla) e voltou para o ataque. Após 28 anos como deputado federal, fazendo críticas à democracia e elogios à ditadura, ele demonstrou não ter a menor habilidade para a negociação.

Negociação é fundamental na política. Não estou falando do toma lá, dá cá. Estou falando de pensar no bem comum e como é possível ceder para evitar conflitos desnecessários que atrasem a implantação de medidas essenciais.

Bolsonaro, você é o presidente de:

– brasileiros de direita e de esquerda;
– neoliberais e socialistas;
– antipetistas e petistas;
– evangélicos e ateus;
– ignorantes e sábios;
– negadores e seguidores dos conhecimentos científicos;
– brasileiros livres e de presos;
– brasileiros novos e idosos;
– ricos e de pobres;
– heterossexuais e LGBTQIA+;
– pessoas sãs e doentes.

Você não é presidente apenas de seus eleitores ou das pessoas que simpatiza! Você é presidente de todos os brasileiros!

E agora vem meu apelo…

Todos os brasileiros devem se unir para superar esta enorme crise com o menor número de mortes e sofrimento possíveis, independentemente de suas diferenças. Quem deve liderar este esforço é o Presidente da República, coordenado com os governadores estaduais. Deve-se evitar um colapso no sistema de saúde e na economia do país. Só com negociação e bom senso, baseado no melhor conhecimento científico disponível, isto será possível. O Estado deve ajudar os mais carentes, redirecionando suas prioridades imediatamente.

Se você, Jair Bolsonaro, não está à altura desta missão renuncie, se licencie, ou, pelo menos, delegue a autoridade para alguém capaz de assumi-la. Não crie entraves. Não é momento para politização da crise com os governadores João Dória ou Wilson Witzel.

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O Triste Clown e seu All-In

No dia 24 de março, recebi um presente amargo de Jair Bolsonaro, um discurso no qual ele pediu para a vida voltar à normalidade. O racional (se podemos chamar assim no caso do Bolsonaro) é, se a economia do país parar, mais pessoas serão prejudicadas do que as seriam com a COVID-19. A venda desta ideia está claramente baseada na ética utilitarista que busca a maximização do bem-estar.

No poker, chamamos “all-in” quando o jogador aposta todas suas fichas em uma rodada. Bolsonaro, na terça-feira passada, fez um all-in. O problema desta aposta é que ela vai na contramão das recomendações dos cientistas de todo o mundo. Ou seja, a probabilidade de ele estar certo é muito baixa. E pior, mas muito pior mesmo, se ele estiver errado (o que deverá acontecer), a consequência não será apenas sua “eliminação do jogo”, mas a morte de centenas de milhares de pessoas no Brasil.

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Bolsonaro com o Comediante Carioca

Em um artigo no Financial Times, Yuval Harari, o autor de Sapiens, deixou claro qual é a melhor opção nesta crise.

“Nos próximos dias, cada um de nós deve optar por confiar em dados científicos e especialistas em saúde, em detrimento de teorias infundadas da conspiração e de políticos egoístas.”

Acredito que a maioria da população brasileira não concorda com a posição de Bolsonaro, mas isso não é suficiente. Bolsonaro, em seu discurso, abriu a “Caixa de Pandora” e todos seus seguidores (25 a 30% dos brasileiros) passaram a pressionar pela volta à normalidade, encampando suas teorias conspiratórias sobre a Imprensa, a Esquerda e seus adversários políticos. Se o isolamento social for encerrado, a consequência deverá ser desastrosa – centenas de milhares de brasileiros mortos.

A minimização das mortes divulgadas em vídeos de Luciano Hang (dono da Havan), Junior Durski (dono do Madero), Alexandre Guerra (filho do dono do Giraffas) e Roberto Justus é um verdadeiro absurdo. Declarações como estas estimulam a histeria das pessoas em relação às perdas de emprego e renda. Nos últimos dias, carreatas aconteceram em cidades brasileiras pedindo que os prefeitos cancelem as restrições de circulação e abertura do comércio.

O Governo deveria redirecionar suas prioridades. Ninguém comenta que R$ 248,6 bilhões estão previstos no orçamento de 2020 para pagamento de dívidas com títulos públicos, conforme figura abaixo que copiei do Plano Anual de Financiamento / 2020 – Secretaria do Tesouro Nacional.

DPF - financiamento 2020

Necessidade de Financiamento 2020 [Fonte: Secretaria do Tesouro Nacional http://sisweb.tesouro.gov.br/apex/cosis/thot/transparencia/arquivo/31541:1047266:inline:5040891138940]

Para ter ideia da magnitude dos gastos com o serviço da dívida pública federal, os gastos orçados para saúde e educação em 2020 são, respectivamente, R$ 136,5 bilhões e R$ 123,5 bilhões, segundo o Portal Transparência.

Ou seja, baixar a Selic ajuda a reduzir os juros; alongar o prazo de vencimento dos títulos que vencem em 2020 também ajudaria.

Para aqueles que ficaram curiosos para saber quais despesas primárias serão financiadas com novas dívidas, vejam o quadro abaixo.

Despesas-Primarias_2020

Despesas Primárias Cobertas por Emissão de Novos Títulos Públicos em 2020 [Fonte: Secretaria do Tesouro Nacional]

Outros atores neste cenário complexo são os bancos. A soma dos lucros líquidos dos três principais bancos privados do Brasil (Itaú, Bradesco e Santander) foi R$ 63,35 bilhões em 2019. O Banco do Brasil lucrou R$ 18,16 bilhões; e a Caixa Econômica Federal, R$ 21,1 bilhões neste período.

Obviamente os dois bancos estatais poderiam zerar seus lucros através de créditos com juros baixos e carência para pagamento. E os bancos privados poderiam aceitar uma redução nas suas margens para evitar a quebradeira geral que voltaria para cima deles como um bumerangue.

Programas de renda mínima devem efetivados imediatamente para prover condições de sobrevivência aos mais pobres.

Para costurar um grande acordo entre o poder público, iniciativa privada e população, precisaríamos de um estadista, um verdadeiro líder que unisse todas estas forças em prol de bem de todos. Infelizmente Jair Bolsonaro não tem as menores condições de exercer este papel.

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Tua Fé Te Curou

Todo hotel brasileiro tem uma cópia do evangelho no quarto. Às vezes, depois de um dia difícil, abro o exemplar do quarto em uma página aleatória, aponto para uma passagem qualquer e leio.

Há algumas semanas, pela manhã, após alguns dias de cão, fiz isso. Caiu no evangelho de Lucas, capítulo 8, entre os versículos 43 e 48. Já conhecia esta passagem e a acho muito bonita.

Uma mulher vinha sofrendo com sangramentos por doze anos. Neste período, gastou tudo o que tinha com médicos, sem sucesso. Ela decide ir ao encontro de Jesus que estava em sua cidade. As ruas estavam lotadas, mas ela consegue aproximar-se por trás e toca na borda do manto de Jesus. A hemorragia da mulher cessa instantaneamente e Jesus quer saber quem o tocou. A mulher prostra-se aos pés de Jesus e conta para todos o motivo do seu ato, sua doença e a cura. Jesus então despede-se da mulher:

– “A tua fé te curou; vai-te em paz”.

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Jesus curando a mulher com sangramento. Afresco na Catacumba de Marcelino e Pedro, em Roma.

Eu penso que a fala poderia ser um pouco diferente:

– Tua fé, tua coragem e tua atitude te curaram.

A mulher teve . Acreditou que Jesus poderia curá-la. Talvez fosse sua última oportunidade de recuperar a saúde após doze anos de hemorragias.

Havia restrições impostas pela lei judaicas para que ela circulasse pelas ruas. Segundo Levítico 15:25,

A mulher que tiver hemorragia ou que continuar menstruada além do tempo normal será considerada impura como durante o tempo da menstruação.

Ela arriscou sua própria vida por causa da fé que Jesus poderia curá-la. Ela teve coragem.

As ruas estavam lotadas de pessoas que queriam ver Jesus, o que aumentou ainda mais o risco de ser descoberta. Mesmo assim, ela conseguiu aproximar-se dele e tocou suas vestes. Ela agiu, teve atitude.

Foi a mensagem perfeita para mim. Eu devo continuar acreditando no sucesso do projeto, devo continuar tendo coragem para enfrentar os obstáculos e devo agir para atingir todos os objetivos.

 

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O Mundo é uma Grande Diversão e Bolsonaro é Nosso Showman

A palavra diversão veio do latim divertere, que significa desviar ou voltar-se em outra direção. Ou seja, virar a cabeça para outro lado que não olhar para suas preocupações. Os militares, por exemplo, usam a palavra diversão no sentido de mudar o foco de atenção do inimigo.

Em Roma, a expressão pão e circo (panem et circenses em latim) surgiu durante o período da República. O pão representa o suprimento dos bens materiais e o circo a diversão.

Jair Bolsonaro, nos seus tempos de deputado federal, sempre se posicionou de modo polêmico e usou estas polêmicas como forma de promoção pessoal. A maioria dos brasileiros imaginava que, como presidente, ele moderaria o tom das suas declarações, mas não é o estamos presenciando.

Eu poderia escrever uma longa lista de ações e frases do atual presidente do Brasil, mas isto seria exaustivo… Daria um livro infinitamente mais denso do que o satírico “Por Que Bolsonaro Merece Respeito, Confiança e Dignidade?”. Neste artigo, citarei apenas algumas para pontuar meu raciocínio.

Livro_Bolsonaro

 

As alterações propostas nas leis de trânsito foram consideradas absurdas por todos especialistas. Afinal aumentar a pontuação para cassação de CNH de 20 para 40 pontos e acabar com os radares móveis nas estradas só favorecem os maus motoristas. E o que falar sobre o fim da obrigatoriedade das cadeirinhas para condução de crianças em automóveis?

A liberação da posse e porte de armas já era um ponto esperado no governo Bolsonaro. Entre idas e vindas de emissões e revogações de decretos presidenciais, destacaria itens como o incrível aumento da quantidade permitida de munição a ser comprada anualmente, brechas legais para a compra de fuzis e a liberação para adolescentes entre 14 e 18 anos ter aulas de tiro.

E a grande celeuma em relação à Amazônia? O estopim foi a divulgação do aumento no ritmo do desmatamento na região, baseados em dados do Inpe (Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais). Bolsonaro disparou esta declaração, apresentada abaixo, sobre o Inpe.

“A questão do Inpe, eu tenho a convicção que os dados são mentirosos. Até mandei ver quem é o cara que está na frente do Inpe. Ele vai ter que vir se explicar aqui em Brasília esses dados aí que passaram pra imprensa do mundo todo, que pelo nosso sentimento não condiz com a verdade. Até parece que ele está à serviço de alguma ONG, que é muito comum.”

A resposta do ex-diretor do Inpe, Ricardo Galvão, foi contundente.

“A primeira coisa que eu posso dizer é que o sr. Jair Bolsonaro precisa entender que um presidente da República não pode falar em público, principalmente em uma entrevista coletiva para a imprensa, como se estivesse em uma conversa de botequim. Ele fez comentários impróprios e sem nenhum embasamento e fez ataques inaceitáveis não somente a mim, mas a pessoas que trabalham pela ciência desse País. Ele disse estar convicto de que os dados do Inpe são mentirosos. Mais do que ofensivo a mim, isso foi muito ofensivo à instituição. (…) Fiquei realmente aborrecido, porque na minha opinião ele fez comigo o mesmo jogo que fez com Joaquim Levy (que pediu demissão do BNDES após também ser criticado em público por Bolsonaro). Ele tomou uma atitude pusilânime, covarde, de fazer uma declaração em público talvez esperando que peça demissão, mas eu não vou fazer isso. Eu espero que ele me chame a Brasília para eu explicar o dado e que ele tenha coragem de repetir, olhando frente a frente, nos meus olhos. Eu sou um senhor de 71 anos, membro da Academia Brasileira de Ciências, não vou aceitar uma ofensa desse tipo. Ele que tenha coragem de, frente a frente, justificar o que ele está fazendo. É uma ofensa de botequim. Não vou responder a ele e ele que me chame pessoalmente e tenha coragem de me dizer cara a cara isso.”

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Ricardo Galvão

Bolsonaro despreza as questões ambientais, inclusive já afirmou que elas importam “só aos veganos que comem só vegetais”. Como resultado das ações (ou falta delas), a Alemanha e a Noruega congelaram suas contribuições ao Fundo Amazônia, totalizando um prejuízo de 288 milhões de reais. Só a Noruega, doou 3,2 bilhões de reais para a preservação da Amazônia nos últimos dez anos. Para coroar, Bolsonaro mandou a seguinte mensagem para a primeira-ministra alemã:

“Eu queria até mandar um recado para a senhora querida Angela Merkel, que suspendeu 80 milhões de dólares para a Amazônia. Pegue essa grana e refloreste a Alemanha, ok? Lá está precisando muito mais do que aqui”.

Alguns dias depois, também mandou um recado para a Noruega.

“A Noruega não é aquela que mata baleia lá em cima, no Polo Norte, não? Que explora petróleo também lá? Não tem nada a oferecer para nós. Pega a grana e ajuda a Angela Merkel a reflorestar a Alemanha.”

Vou pular a história do cocô…

Outra faceta (poderia ser “fasceta”) é o caráter autoritário e o culto à ditadura militar brasileira. Sobre este assunto, destaco duas frases recentes. A primeira é sobre o Coronel Brilhante Ustra, chefe do DOI-CODI no início dos anos 70 (período mais duro da ditadura), acusado de chefiar pessoalmente, de forma sádica, várias sessões de tortura.

“É um herói nacional que evitou que o Brasil caísse naquilo que a esquerda hoje em dia quer.”

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Eduardo Bolsonaro, vestindo uma camiseta em homenagem ao Coronel Brilhante Ustra.

Para atacar o atual presidente da OAB, Felipe Santa Cruz, fez uma frase em que deu a entender que sabe o que aconteceu com o pai de Felipe, desaparecido em 1974.

“Um dia, se o presidente da OAB quiser saber como é que o pai dele desapareceu durante o período militar, conto para ele.”

Vou pular também a indicação do seu filho, Eduardo Bolsonaro, para a embaixada do Brasil nos Estados Unidos…

Para concluir esta seleção de frases, no final do mês de julho, Bolsonaro fez a seguinte declaração:

“Sou assim mesmo. Não tem estratégia. Se eu estivesse preocupado com (a eleição de) 2022, não dava essas declarações.”

Talvez ele não tenha realmente uma estratégia. Ou talvez, sua estratégia seja continuar agradando seus fiéis eleitores. Eu, particularmente, acredito que ele, consciente ou inconscientemente, está inserido numa estratégia maior e mais elaborada. Ele é o responsável pela diversão para o que está acontecendo no país. Ele é o showman. A recuperação da economia patina. Reformas passam pelo Congresso Nacional com o rótulo de imprescindíveis para a salvação do país. Quem discutiu com a profundidade devida o impacto da reforma da Previdência Social sobre os mais pobres? Trabalhadores braçais com baixa escolaridade conseguirão se aposentar aos 65 anos? A viúvas pobres conseguirão sobreviver dignamente com pensões inferiores a um salário mínimo? Só ouvíamos que era preciso economizar um trilhão de reais. Por quê? Veremos milhões de idosos sem teto, morando nas ruas das cidades brasileiras, nos próximos dez ou vinte anos, se nada for feito. Mas só discutíamos as declarações e propostas absurdas de Bolsonaro.

Alguém sabe alguma coisa sobre a minirreforma trabalhista, contida na chamada Medida Provisória da Liberdade Econômica? E sobre a permissão de mineração nas terras indígenas? E assim por diante…

Para contrapor uma crítica direta à sua pessoa, ao seu governo ou a um resultado ruim de alguma política pública, Bolsonaro geralmente apoia sua resposta em, pelo menos, uma falácia lógica. E lá vem aquela ladainha de falar do Lula, do PT ou da esquerda…

Bolsonaro reiteradamente exprime uma opinião de que as minorias devem se submeter à vontade da maioria. Prega, desta forma, uma espécie de ditadura da maioria. Assim quer acabar com a esquerda (“esquerdalha”, segundo seu vocabulário) ou quer retirar direitos dos índios à demarcação de terras. O seu viés autoritarista lhe impede de compreender que, em regimes democráticos, as minorias desamparadas devem ser protegidas independentemente do desejo da maioria.

Não é sem motivo que Bolsonaro se autodefine como o personagem de desenhos animados Johnny Bravo. Eu assistia este desenho no canal Cartoon Network com meu filho Leonardo no início dos anos 2000. Johnny Bravo era um loiro musculoso, pouquíssimo inteligente e completamente “sem noção”. Está bem, Bolsonaro não é loiro, nem musculoso…

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Eric Hobsbawm, no seu livro Era dos Extremos, apresenta uma associação da direita liberal com o fascismo entre as duas Grandes Guerras Mundiais para evitar a expansão do comunismo soviético em alguns países europeus. Na sequência a extrema direita traiu os liberais. Os nazistas de Hitler se apoderaram da Alemanha; e os fascistas de Mussolini, da Itália.

Desta vez, minha impressão é que os neoliberais usarão toda a força de Jair Bolsonaro para atrair os holofotes para seus disparates, enquanto fazem as reformas que julgam corretas. Se em um determinado momento, ele atrapalhar mais do que ajudar, será escolhido algum motivo para afastá-lo através de um processo de impeachment. Não tiraram Dilma devido a pedaladas fiscais?

Enquanto isso, assistiremos a ataques contra a universidade pública, aos órgãos de proteção ambientais, aos direitos dos trabalhadores mais pobres…

 

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Polaridade e Ritmo – Precisamos disto!

Estou afastado há mais de seis meses do Sítio das Fontes em Jaguariúna, no interior do estado de São Paulo. Parece até mais tempo… Afinal, pelo menos, um final de semana por mês, durante aproximadamente um ano e meio, eu passava por lá para estudar Antroposofia ou Agricultura Biodinâmica.

Se me perguntarem os pontos mais importantes que eu vi neste período, eu respondo polaridade e ritmo, porque, como diria meu mestre Peter Biekarck, não há vida sem polaridade e ritmo. Na respiração, inspiramos e expiramos. Nos batimentos cardíacos, temos a sístole e a diástole. Alternamos o sono com a vigília. Temos o dia e a noite; o verão e o inverno; a vida e a morte…

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Peter Biekarck

Não existe o polo bom e o polo mau. Existe o equilíbrio e o desequilíbrio. O equilíbrio é saudável e o desequilíbrio é doentio. As doenças são o resultado de excessos de um dos polos, de desequilíbrios.

O organismo social também segue esta mesma dinâmica. Temos a direita e a esquerda; o liberalismo e o socialismo. Se os indivíduos buscarem maximizar as suas vantagens em detrimento do social, durante todo o tempo, haverá um desequilíbrio e o organismo social ficará doente. Cada vez mais o abismo entre os mais ricos e mais pobres crescerá. Quem nasce rico tem acesso à educação de primeira linha, enquanto quem nasce pobre tem normalmente acesso apenas a escolas de nível inferior. O mesmo vale para outras áreas como saúde e seguridade social. Assim, no extremo do liberalismo, os ricos ficarão cada vez mais ricos e os pobres cada vez mais pobres.

Por outro lado, se a pessoa não pensa minimamente em como suprir suas necessidades, acaba por tornar-se mais um peso para a comunidade na qual está inserida. Torna-se um escravo econômico (leia As Três Formas Modernas de Escravidão). Cada um deveria ter as rédeas da sua vida nas mãos. Claro que percalços ocorrem, mas as pessoas não podem ser passageiras em suas próprias vidas ou agirem como se ela e as pessoas que a rodeiam fossem menos importantes do que todos os outros.

Deste modo, recomendo para promover a saúde dos indivíduos e da sociedade que as pessoas mantenham equilíbrio entre as polaridades egoísmo e altruísmo. Se isto for atingido, será possível olhar o individual e o coletivo, evitando-se comportamentos que buscam apenas a maximização dos próprios lucros, posses, poder e prazer. O olhar e a ação no coletivo evitam este desequilíbrio e promovem a saúde do organismo social.

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Talvez a construção e administração de uma escola Waldorf, gerida por uma associação, seja um dos exemplos mais interessantes. Afinal não existe a relação cliente-fornecedor, como em uma empresa tradicional. A escola não visa ao lucro, mas deve ser sustentável ao longo do tempo. Todos devem olhar para sua própria capacidade financeira e, simultaneamente, de toda a comunidade. Cada família deve estar preocupada com a educação de todas as crianças e não somente de seus filhos. São diversas dimensões de um olhar para si e para toda a comunidade. Sem dúvida, é uma ótima oportunidade para curar a sociedade na busca do equilíbrio entre o egoísmo e o altruísmo.

 

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“A Culpa foi da Aeromoça!”

Desde que as companhias aéreas brasileiras iniciaram a cobrança para despachar bagagens no check-in dos aeroportos, a quantidade de malas e mochilas levadas para o interior dos aviões aumentou muito. Consequentemente, os bagageiros estão cada vez mais cheios, o que pode acarretar problemas de segurança, atrasos e descontentamento dos passageiros. Relato dois casos que aconteceram comigo nas últimas duas semanas que exemplificam os riscos aos quais estamos expostos a bordo das aeronaves.

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No dia 15/04, embarquei no voo LA3005 da LATAM do Aeroporto de Congonhas para São José do Rio Preto. Retirei um livro da minha mochila, antes de guardá-la no bagageiro sobre minha cabeça. Sentei na poltrona do corredor e comecei a ler o livro. Passado alguns minutos, outros passageiros colocaram suas bagagens de mão no mesmo compartimento. De repente ouvi uma senhora gritando:

– Vai cair!

Fechei o livro e o coloquei sobre minha cabeça. Uma pequena pasta, com alguma coisa pesada dentro, raspou no livro, caiu sobre o braço da poltrona e acabou no meio do corredor. Minha cabeça foi salva pelo esplêndido livro de Eric Hobsbawm, Era dos Extremos…

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O comissário de bordo recolocou a pasta no bagageiro. A porta do compartimento foi fechada e, logo após o pouso, um comissário de bordo disse as tradicionais mensagens através do sistema de som da aeronave:

– Por medida de segurança, permaneçam sentados até que o aviso de “atar cintos” seja desligado.

– Tenham cuidado ao abrir o compartimento de bagagens para a retirada dos seus pertences de mão. Eles podem ter se deslocado durante o pouso e a decolagem.

Como acontece invariavelmente, a maioria das pessoas não dá a mínima para estas orientações. O sinal de apertar cintos de segurança ainda estava acionado e as pessoas já estavam se levantando para apanhar seus objetos. A mesma pasta despencou do bagageiro e bateu na minha coxa esquerda. Ao invés de um pedido de desculpas, ouvi do passageiro que abriu o compartimento a seguinte frase:

– O cara da TAM arrumou mal a bagagem…

E eu só respondi:

– Por que a pressa?

Uma semana depois, eu estava em um voo da mesma companhia aérea, no mesmo horário, para o mesmo destino.

Após o estacionamento do avião, levantei, coloquei minha mochila sobre a poltrona e estava guardando meu livro, quando uma garrafinha de alumínio caiu do bagageiro e atingiu minha cabeça. Uma jovem tinha puxado a mochila dela e empurrou a garrafa. Ela olhou para mim e disse:

– Foi a aeromoça que colocou minha mochila em cima e soltou a garrafa.

Em nenhum dos dois casos consegui dizer “tudo bem”, porque seria muito falso dizer isso. Não estava “tudo bem”, pelo contrário… O que realmente me irritou foi a terceirização da culpa. Nenhum dos dois passageiros teve o cuidado, na situação adversa que se encontram os compartimentos de bagagens dos aviões, de procurar minimizar o risco de queda de objetos na cabeça de outros passageiros.

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Trajetória típica de um objeto caindo do compartimento de bagagens na cabine de passageiros de um avião.

Por outro lado, tenho presenciado o stress a que são submetidos os comissários de bordo das aeronaves para tentar acomodar as bagagens e os passageiros o mais rápido possível para reduzir atrasos nas decolagens. Na verdade, todos somos responsáveis pela segurança própria e das outras pessoas que nos rodeiam. Devemos cuidar uns dos outros.

Por que a pressa de se levantar, abrir o compartimento de bagagens e resgatar seus objetos pessoais? As pessoas atualmente vivem com uma pressa inconsequente e inexplicável. A tampa do bagageiro deveria ser aberta com cuidado e a bagagem (muitas vezes, pesada) só deveria ser retirada quando a pessoa estiver em frente dela e com as duas mãos livres. Assim, o risco de acidentes com ferimentos potencialmente graves poderia ser minimizado.

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As Três Formas Modernas de Escravidão

Hoje em dia se discute muito sobre a escravidão moderna. Este artigo não trata de formas de escravidão como crianças em plantações de cacau na África, nem outras formas que acontecem em propriedades rurais brasileiras. Eu gostaria de abordar os tipos mais sutis de escravidão – aqueles nos quais as pessoas não percebem que se tornaram escravas. As principais causas são econômicas. Selecionei três formas que julgo as principais.

A primeira forma é o consumismo. O consumismo é a base do capitalismo. Atualmente todas as pessoas são bombardeadas por propagandas. Nas redes sociais, são influenciadas pela ostentação de outra pessoa através de uma foto ou uma história e passam a acreditar que têm a obrigação de consumir. Passam a desejar roupas e relógios de grife, os últimos modelos de automóveis ou celulares e assim por diante. Isto tudo tem um preço. Ao adquirir mercadorias de marcas famosas, paga-se um preço alto. A marca traz status para a pessoa. E é exatamente isto que a pessoa deseja comprar. Com o passar do tempo, se não houver condições econômicas de manter este padrão de consumo, a pessoa vai “evoluir” para a segunda forma de escravidão que é a dívida.

A dívida é a forma mais perversa, porque a pessoa realmente fica escrava de instituições financeiras ou agiotas. Ela fica sem alternativas de conseguir outra coisa que não seja juntar dinheiro para pagar aquela dívida que, muitas vezes, é impagável, porque os juros correm mais rápido do que a capacidade de ganhar dinheiro. Esta é uma situação terrível.

No Brasil, a Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC) acompanha o endividamento da população mensalmente através da Pesquisa de Endividamento e Inadimplência do Consumidor (PEIC). Em janeiro de 2019, 60,1% das famílias brasileiras possuíam dívidas; 22,9% tinham contas em atraso; e pior, 9,1% das famílias brasileiras admitem que não terão condições para pagar suas dívidas. A maior parte destas famílias apresentam renda abaixo de 10 salários mínimos mensais. O quadro abaixo resume esta situação.

PEIC_ jan-2019

O mais grave é o endividamento justamente no tipo de dívida com juros mais altos, cartão de crédito – juros 11,52% ao mês (270,03% ao ano) em janeiro de 2019. Vale ressaltar que a inflação anual oficial em 2018 fechou em 3,75%. O gráfico abaixo apresenta as principais formas de endividamento das famílias brasileiras.

PEIC_ jan-2019_principais-tipos-divida

Se você quiser baixar os principais resultados do PEIC de janeiro de 2019, basta clicar no link abaixo.

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Borrowing money makes you a slave of the lender

Menos terrível do que as duas formas anteriores é a acumulação. Esta situação está muito em voga no mundo, porque muito se discute sobre aposentadoria e previdência social em diversos países. Deste modo, cria-se um medo de que as pessoas não conseguirão manter o mesmo padrão de vida anterior à aposentadoria. Então faz-se de tudo para acumular recursos até o momento da aposentadoria. Isto, muitas vezes, pode gerar enormes sacrifícios pessoais.

Qualquer uma das três formas está baseada no princípio de que a vida é assim mesmo e não há outras opções para administrá-la. Assim, deve-se continuar em um trabalho que, muitas vezes, se detesta para garantir o próprio sustento e ganhar dinheiro para o consumo, pagar dívidas, acumular para uma aposentadoria futura ou, pior, deixar para os herdeiros.

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Este é um ponto importante que as pessoas deveriam pensar a respeito. O que realmente querem para suas vidas? Quais são suas necessidades? Quais são realmente seus objetivos? Senão fica muito fácil cair nesta armadilha.

 

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Lula e Sérgio Moro Aplicam o Mesmo Modelo Ético

Muitas pessoas ao lerem o título deste artigo já ficaram tão injuriadas que não seguiram a leitura nem desta primeira frase. Claro que isto inclui os seguidores inquestionáveis de Lula e os de Sérgio Moro. Neste artigo, não defenderei os erros de nenhum dos lados. Apenas demonstrarei meu ponto de vista, tanto Lula, quanto Moro empregam o mesmo modelo de ética.

Recentemente assisti novamente ao filme Watchmen. Os principais personagens adotam diferentes modelos de ética. Recomendo que assistam ao filme (disponível no Netflix) dirigido por Zack Snyder ou leiam o livro em quadrinhos (romance gráfico), escrito por Alan Moore e ilustrado por Dave Gibbons. A Revista Time considerou este livro um dos cem melhores romances publicados em inglês desde 1923. A seguir apresento o modelo ético de alguns personagens do filme.

Rorschach segue o modelo da Deontologia, também conhecido como a ética de Kant. É o agir pelo dever. Pode parecer estranho, mas só pode ser atingida através do livre arbítrio. Só a vontade pode embasar a moralidade e suplantar os instintos. Para Rorschach, tudo é preto no branco; é olho por olho, dente por dente.

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Immanuel Kant

Ozymandias e Dr. Manhattan seguem o modelo teleológico, também conhecido como Utilitarismo. Foi defendido pelos filósofos e economistas britânicos Jeremy Bentham e John Stuart Mill. Pode ser resumida na frase “agir sempre de forma a produzir a maior quantidade de bem-estar”. Para Ozymandias, pessoas podem ser prejudicadas para o benefício da maioria.

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Jeremy Bentham e John Stuart Mill

Coruja II segue a ética da virtude clássica, a ética do filosofo grego Aristóteles. Ele busca o equilíbrio, o caminho do meio, entre os extremos.

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Aristóteles

Se já viu o filme ou não pretende vê-lo, siga a leitura. Caso contrário, os próximos parágrafos serão spoilers. Volte ao artigo após a foto dos super-heróis do filme. E quando for assistir ao filme, lembre-se de que é um filme de super-heróis só para adultos.

O filme se passa nos anos 80, onde uma guerra nuclear entre os Estados Unidos e a União Soviética é iminente. Ozymandias traça um plano para destruir algumas das principais cidades do planeta, usando uma tecnologia desenvolvida através dos poderes do Dr. Manhattan. Quando isto acontece os EUA e a URSS se unem contra um inimigo comum (Dr. Manhattan) e o mundo entra em um período de paz. Ou seja, Ozymandias mata milhões para salvar a vida de bilhões, seguindo o utilitarismo.

Rorschach e o Coruja tentam impedir o plano sem sucesso. Dr. Manhattan e Espectral aparecem e, ao verem na TV o discurso do presidente americano, Nixon, os heróis se dão conta que contar a verdade poderia destruir a paz obtida através do plano de Ozymandias. Rorschach não se conforma e, mesmo sabendo que provavelmente aquele seria o último ato de sua vida, diz que denunciaria o plano de Ozymandias, porque todos têm o direito de saber a verdade.

Temos então o seguinte diálogo:

Ozymandias – Será mesmo Rorschach, se me denunciar irá sacrificar a paz pela qual milhões morreram hoje.
Coruja II – Paz baseada em uma mentira.
Ozymandias – Mas é paz, apesar de tudo.
Dr. Manhattan – Ele está certo.
Espectral – Não, não podemos fazer isso!
Dr. Manhattan – Você me ensinou o valor da vida humana, se quisermos preservá-la aqui, temos que ficar em silêncio.
Rorschach – Fiquem vocês com suas mentiras! Não faço acordos, nem mesmo
diante do Armagedom.

Fora do palácio de Ozymandias, Rorschach encontra Dr. Manhattan e o diálogo prossegue.

Dr. Manhattan – Rorschach, você sabe que não posso permitir isso!
Rorschard – Se tivesse se importado desde o começo com a humanidade nada disso aconteceria.
Dr. Manhattan – Posso mudar quase tudo Rorschach, mas não posso mudar a natureza humana.
Rorschach – Claro, deve proteger a utopia de Veidt (nome verdadeiro de Ozymandias). Um cadáver a mais não faz diferença. Muito bem, o que está esperando, vai me mate, me mate…

Dr. Manhattan explode Rorschach, porque também aderiu ao utilitarismo. A morte de Rorschach garantiria a paz e, deste modo, as vidas de bilhões estariam salvas. Por outro lado, Rorschach seguiu a ética de Kant até o último instante de sua vida. A justiça e a verdade devem estar acima de tudo, não importam as consequências.

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Watchmen – da esquerda para direita: Ozymandias, Dr. Manhattan, Espectral II, Rorschach, Coruja II e Comediante

 

Voltando agora a Lula e Sérgio Moro…

No livro “Uma ovelha negra no poder”, dos jornalistas Andrés Danza e Ernesto Tulbovitz, lançado em 2015 sobre a vida do ex-presidente uruguaio, Pepe Mujica, há um trecho sobre o Mensalão, escândalo que assolou o primeiro mandato de Lula. Abaixo transcrevo a página do livro traduzida para o português.

Lula teve de enfrentar um dos maiores escândalos da história recente do Brasil: o mensalão, uma mensalidade cobrada por alguns parlamentares para aprovar os projetos mais importantes do Poder Executivo. Compra de votos, um dos mecanismos mais antigos da política. Até José Dirceu, um dos principais assessores de Lula, está processado por esse caso.

“Lula não é corrupto como era Collor de Mello e outros presidentes brasileiros”, disse Mujica, referindo-se ao caso. Contou também que Lula viveu aquele episódio com angústia e com um pouco de culpa. “Neste mundo tenho que lidar com muitas coisas imorais, chantagens”, disse Lula com pesar a Mujica e Astori, algumas semanas antes de assumirem o governo do Uruguai. “Essa era a única forma de governar o Brasil”, se justificou. Eles tinham ido visitá-lo em Brasília, Lula sentiu necessidade de esclarecer a situação. “O mensalão é como este país, tudo é enorme”, refletiu.

“O mensalão é mais velho do que o agujero del mate (expressão uruguaia que se refere a algo velho)”, opina Mujica. Grandes políticos da história tiveram de recorrer a mecanismos semelhantes. “Às vezes, este é o preço infame das grandes obras”, argumentou ao lembrar-se Abraham Lincoln, justo nos dias em que havia estreado um filme de Steven Spielberg sobre a vida do presidente dos Estados Unidos, no qual ele mostrou como ele tinha que entregar algo em troca de votação para seus projetos.

De acordo com Mujica, Lula aceita pagar o mensalão para viabilizar o seu governo. O pagamento a deputados para votarem a favor das leis propostas pelo governo é ilícito e imoral. Este ato vai contra a Deontologia (a ética de Kant), porque afronta a justiça e a verdade. Por outro lado, ao aprovar rapidamente essas leis, o governo obteve o que precisava para a execução do seu plano. Ou seja, a ética usada foi utilitarista.

O pior no utilitarismo é que pode seguir aquela máxima de que os fins justificam os meios. E isto fica claro nos escândalos de corrupção que visavam financiar a permanência do PT no governo, investigados pela Operação Lava-Jato.

Sérgio Moro cometeu um ato ilegal ao divulgar a escuta telefônica em que Lula conversava com a então presidente Dilma Rousseff. Ele despachou às 11:13 do dia 16/03/2016, suspendendo a escuta telefônica contra o ex-presidente Lula. No mesmo dia, às 13:32 foi gravada a conversa de Lula com Dilma, onde é combinada a assinatura do termo de posse de Lula como Ministro da Casa Civil. Apesar da escuta ser considerada ilegal, Moro derrubou o sigilo e liberou sua divulgação. Não estou nem discutindo a questão do foro para autorizar a divulgação de grampo telefônico de uma presidente no exercício do cargo.

Moro, no seu despacho que autoriza a divulgação dos áudios, arremata:

“A democracia em uma sociedade livre exige que os governados saibam o que fazem os governantes, mesmo quando estes buscam agir protegidos pelas sombras.”

Eu sei que você ficou em dúvida se Moro agiu como Rorschach, seguindo a ética kantiana numa luta para punir o mal, ou como Ozymandias, seguindo o utilitarismo em que os fins justificam os meios.

A condenação de Lula no caso do “Triplex do Guarujá” pode dirimir esta dúvida. Moro condenou Lula a 9 anos e meio de prisão por corrupção passiva e lavagem de dinheiro. O problema é que o triplex nunca saiu do nome da OAS, foi inclusive usado como garantia na Caixa. A condenação foi baseada em alguns depoimentos e mensagens, sem provas realmente concretas.

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Lula e Moro no interrogatório do Processo do Triplex do Guarujá  (Fonte: Folha de São Paulo).

Para Kant, o Estado não pode punir um cidadão para inibir os outros a cometerem ilícitos. Neste caso, o utilitarismo seria aplicado. A pena é uma retribuição ética que se justifica pela moral, fundamentando a pena tão somente pelo mal que o condenado já praticou e não como uma maneira utilitária de promover o bem de outros ou do próprio condenado.

Sérgio Moro agiu em relação à Lula de acordo com a perspectiva do utilitarismo. Mesmo sem provas suficientes para condená-lo, ele decidiu fazê-lo, removendo Lula do processo eleitoral brasileiro no ano passado.

Para completar, Moro suspendeu os novos interrogatórios de Lula para evitar exploração política que pudesse interferir nas eleições. Por outro lado, há seis dias do primeiro turno das eleições presidenciais, quebrou o sigilo da delação de Antônio Palocci que fazia acusações contra Lula. Assim Moro, mais uma vez, agiu de modo utilitarista, reduzindo as chances eleitorais do PT. Afinal, na sua visão, seu objetivo de combater a corrupção seria prejudicado com a volta de Lula, ou pelo menos de alguém do PT, à presidência de República.

E você segue qual perspectiva ética – kantiana, utilitarista ou aristotélica?

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I’m Not Dog No – A Servidão Voluntária

O cantor e humorista cearense Falcão ganhou destaque nacional, quando lançou uma música com o mesmo título deste artigo. A versão em inglês do antigo sucesso de Waldick Soriano não é o tema deste artigo, e sim o comportamento canino e sua semelhança com o de inúmeros grupos de humanos.

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Cantor cearense Falcão

Tenho passado, rotineiramente, os dias da semana em uma pequena cidade do interior de São Paulo, Orindiúva. Como adquiri nos últimos meses o hábito da corrida, pelo menos duas vezes por semana, saio do hotel para treinar antes das 6 horas da manhã. No percurso de quase sete quilômetros, percorro ruas e contorno praças da cidade. Nos últimos dois ou três meses, comecei a notar que o número de cães nas ruas da cidade está crescendo, servindo de base para minha observação sobre a etologia (comportamento) canina. A seguir listo minhas sete principais conclusões.

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Foto de satélite da cidade de Orindiúva

1. Cães gostam de estar junto às pessoas

Os trabalhadores das usinas da região costumam esperar nas praças da cidade os ônibus que os conduzem ao trabalho. Frequentemente os cachorros ficam junto com os trabalhadores que interagem e alimentam os animais.

2. Cães seguem uma rotina

Logo após as partidas dos ônibus com os trabalhadores, as praças esvaziam e as matilhas se deslocam para outro local, onde há outras pequenas aglomerações de pessoas. Esta rotina se repete até perto das 7 horas da manhã, quando vários cachorros ficam próximos de uma escola municipal.

3. Cães solitários normalmente são tímidos

Cães solitários não costumam latir para pessoas. Ao cruzar no caminho, pode-se notar uma certa tensão no olhar do animal.

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Cão solitário

4. Cães agem de forma parecida quando estão em grupo

Quando estão em grupo, os cachorros começam a homogeneizar suas ações e reações. Parecem um único indivíduo dividido em várias partes. Todos demonstram alegria, medo ou agressividade ao mesmo tempo.

5. Cães menores são os maiores influenciadores do comportamento da matilha

Invariavelmente são os cachorros menores que influenciam os maiores. Talvez por serem mais inquietos e ativos, os cães menores começam as brincadeiras, latem e atacam algum pedestre.

6. Cães gostam de atacar alvos em movimento

Cães adoram atacar ciclistas, motociclistas e “pessoas que correm pelas ruas às 6 horas da manhã”. Este é meu maior problema, quando corro ao redor de uma praça orindiuvense e uma matilha resolve me acuar.

7. A força do cão está na matilha e a fraqueza está no indivíduo

A prova que a matilha é forte e o cão solitário é fraco aconteceu em um dia que uma pequena matilha ficou me perseguindo e latindo ao meu redor. Após uns 50 metros, todos os cães desistiram de me seguir com exceção de um animal. Neste momento, eu comecei a correr atrás dele por uns 10 metros, antes de retomar minha rota. O cãozinho ficou apavorado e se escondeu atrás de uma estátua de onde ficou me espiando. Ou seja, ele era valente no grupo e ficou covarde sozinho.

Cachorro matilha

Matilha

Felizmente, até agora a cachorrada das ruas de Orindiúva não me mordeu. Só ficam latindo ao meu redor, quando passo perto de uma matilha. Como escreveu sabiamente o cantor Falcão, “dog’s au-au it’s not nhac-nhac” (ou em bom português, cão que late não morde).

Cachorros 2

Meus dois “melhores amigos” em Orindiúva

O ser humano tem a faculdade de pensar criticamente e agir de acordo com seus princípios, mas muitos abdicam da liberdade de discordarem de seu grupo e deixam-se levar pelo pensamento único. Agem como se só haveria força se seguissem sua “matilha”.

Não pensar criticamente é o caminho para servidão voluntária.

Escrevi três artigos sobre obediência baseado nos trabalhos de dois psicólogos americanos, Stanley Milgram e Philip Zimbardo. No trabalho de Milgram, as pessoas davam choques em outras simplesmente, porque alguém (a autoridade) assumia toda a responsabilidade. No experimento de Zimbardo, quem fazia o papel de guarda em uma penitenciária fictícia passou a humilhar quem fazia o papel de preso. E a maioria destes “presos” aceitou os desmandos e humilhações como se não houvesse alternativa.

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Stanley Milgram e Philip Zimbardo

Recentemente li o “Discurso sobre a Servidão Voluntária”, escrito pelo filósofo francês Étienne de La Boétie no século XVI. Fica claro que seguir ordens e não reagir contra elas, mesmo quando veementemente não se concorda com elas, é muito mais confortável. As pessoas podiam se rebelar e simplesmente desobedecer ao tirano, mas seguem atendendo suas ordens. Os submissos são responsáveis pela sustentação da tirania.

Étienne de La Boétie

Étienne de La Boétie

Hannah Arendt, filósofa alemã de origem judaica, acompanhou o julgamento do nazista Adolf Eichmann em Israel. Ela esperava encontrar um monstro, mas viu um homem absolutamente normal, um burocrata responsável pela logística de transporte de judeus até os campos de extermínio. Segundo Eichmann, ele simplesmente estava cumprindo a sua obrigação. Baseada nessa observação, Arendt cunhou o termo “Banalidade do Mal”.

Hannah Arendt

Hannah Arendt

Voltando a Philip Zimbardo, ele listou sete processos sociais que facilitam o escorregão para o mal no seu livro “O Efeito Lúcifer”:

– displicentemente dar o primeiro passo;
– desumanização dos outros;
– anonimato;
– responsabilidade individual difusa;
– obediência cega à autoridade;
– conformismo não crítico às regras do grupo;
– tolerância passiva ao mal pela inação ou indiferença.

O filósofo austríaco Karl Popper foi um grande defensor da tolerância, entretanto explicitou seus limites no livro “Sociedade Aberta e seus Inimigos” de 1945.

“Tolerância ilimitada leva ao desaparecimento da tolerância. Se estendermos tolerância ilimitada até mesmo para aqueles que são intolerantes, se não estivermos preparados para defender a sociedade tolerante contra a investida dos intolerantes, então os tolerantes serão destruídos, e a tolerância junto destes.”

Karl Popper

Karl Popper

Esta tolerância ilimitada poderia ser substituída por passividade – processo que transforma pessoas livres em zumbis ou simples cães de rua que só conseguem agir de acordo com a vontade da matilha que espera a iniciativa de seus mais insignificantes membros para sair da inércia.

P.S.: Aproveito para fazer um apelo ao prefeito da cidade de Orindiúva. A cidade apresenta ótima conservação de ruas, praças e prédios públicos, além de oferecer à população bons serviços nas áreas de educação e saúde. Está na hora de implantar um programa de castração dos cães de rua e oferecer este serviço para que os moradores possam esterilizar seus animais domésticos com baixo custo. Assim evitar-se-á a multiplicação de animais nas ruas e aumento de casos de zoonoses.

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A Sérvia e a Eleição Presidencial Brasileira

A primeira ideia, que vem à mente ao ler o título deste artigo, é a existência de uma conspiração do governo sérvio para interferir no resultado das eleições presidenciais brasileiras. Seria algo similar ao feito pelos russos no pleito que elegeu Donald Trump presidente dos Estados Unidos? De acordo com meu conhecimento, não existe atuação da Sérvia nas nossas eleições. Você deve estar pensando sobre o motivo deste título exótico.

No início de agosto, passei uma semana na Sérvia. Na medida que a intimidade e confiança mútuas começam a crescer, assuntos sensíveis como a Guerra dos Balcãs podem ser conversados. Fiquei surpreso quando descobri que a maioria das pessoas que eu conversava tinham suas origens em diferentes países da antiga Iugoslávia. Alguns tinham família na Croácia, outros na Bósnia ou Montenegro. A pergunta é óbvia, se não existem etnias puras sérvias, croatas ou montenegrinas, por que a rivalidade entre as regiões da antiga Iugoslávia cresceu aponto de acontecer uma guerra tão sangrenta?

Por um lado, líderes inescrupulosos almejaram consolidar seus poderes. Por outro lado, sempre existem interesses econômicos por trás de guerras. Um dos meus interlocutores na Sérvia contou-me que, como estava próximo à fronteira com a Croácia, assistia aos noticiários dos dois lados. Nos telejornais croatas, os sérvios eram bandidos assassinos; nos telejornais sérvios, os croatas eram os carniceiros. Assim o ódio foi crescendo nos dois lados, as atrocidades foram se acumulando, bem como o desejo de vingança de um lado em relação ao outro.

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Antiga Iugoslávia e as atuais repúblicas

Guardadas as devidas proporções, observamos algo parecido no Brasil. O ódio em relação aos políticos tradicionais e, principalmente, ao Partido dos Trabalhadores (Lula em especial) parece ter cegado e ensurdecido boa parcela da população brasileira. Não importam os argumentos racionais ou quaisquer bons e puros sentimentos, só o ódio e a vingança valem.

Como pode alguém que mais de uma vez insultou mulheres em público receber votos de mulheres? Como pode alguém que já minimizou perdas de vidas inocentes, prega o endurecimento da violência policial e fez elogios à tortura e torturadores receber votos de pessoas que vivem em zonas de risco? Como pode o companheiro de chapa de um candidato à presidência falar contra o décimo terceiro salário, entre outros direitos trabalhistas, receber votos de trabalhadores assalariados pobres?

O mesmo acontece em relação ao outro lado. Como pode alguém votar no candidato de um partido que se afundou na corrupção, que tanto criticava, para angariar fundos para se manter no poder? Como pode alguém votar no candidato de um partido que, apesar de todas as evidências, foi incapaz de fazer um mea-culpa e prometer que daqui para frente os procedimentos serão diferentes?

Diferente das últimas eleições presidenciais, não estamos escolhendo entre um projeto mais liberal e outro mais intervencionista, ou entre um projeto mais orientado ao econômico e outro mais voltado ao social. A questão nem está relacionada ao populismo.

Na verdade, temos um candidato que já criticou abertamente minorias (índios, quilombolas e gays) e cuidados na área ambiental, ameaçando os direitos humanos e a proteção ao meio ambiente. Alguém que já disse que vai acabar com o ativismo. Alguém que simpatiza com regimes de exceção, cercado por militares da reserva que também simpatizam. Alguém que já disse que vai propor o aumento do número de ministros do STF de 11 para 21, provavelmente para controlar as decisões desta corte. Alguém que está procurando um ministro da educação que tenha autoridade, expulse a filosofia de Paulo Freire das escolas e mude os currículos escolares. Alguém que defende a fusão do ministério da agricultura com o do meio ambiente. Este é Jair Bolsonaro que, se eleito, deverá ter o apoio do Congresso mais conservador dos últimos 30 anos. Ou seja, ele poderá aprovar suas propostas no Câmara dos Deputados e Senado.

No ano passado, escrevi um artigo, onde comentava o desequilíbrio pelo qual nosso mundo está passando. Abaixo transcrevo um trecho.

O economista britânico Guy Standing, no seu livro “O Precariado – A Nova Classe Perigosa” (The Precariat: The New Dangerous Class), descreve a formação e crescimento de uma nova classe, o “precariado”, com o avanço da globalização neoliberal. Segundo Standing:

“O precariado é definido pela visão de curto prazo e, induzida pela baixa probabilidade de progresso pessoal ou de construção de uma carreira, pode verificar-se uma evolução massificada no sentido da incapacidade de pensar a longo prazo.”

“Aqueles no precariado têm vidas dominadas por inseguranças, incertezas, dúvidas e humilhações.”

“As pessoas inseguras deixam as outras furiosas e as pessoas com raiva são voláteis, propensas a apoiar uma política de ódio e amargura.”

Precariat_Guy Standing

Esta explicação sobre o precariado justifica uma porção expressiva dos votos em Bolsonaro no primeiro turno.

Existe uma palavra em alemão, Weltanschauung, que pode ser livremente traduzida como visão de mundo. Segundo o Wikipédia,

Weltanschauung é um conjunto ordenado de valores, crenças, impressões, sentimentos e concepções de natureza intuitiva, anteriores à reflexão, a respeito da época ou do mundo em que se vive. Em outros termos, é a orientação cognitiva fundamental de um indivíduo, de uma coletividade ou de toda uma sociedade, num dado espaço-tempo e cultura, a respeito de tudo o que existe – sua gênese, sua natureza, suas propriedades. Uma visão de mundo pode incluir a filosofia natural, postulados fundamentais, existenciais e normativos, ou temas, valores, emoções e ética.

Os decepcionados, os enraivecidos e os desesperançados escolheram, sem refletir, Jair Bolsonaro como sua opção para presidente, segundo sua Weltanschauung.

Não votei no primeiro turno em Fernando Haddad, principalmente, devido ao envolvimento de seu partido, PT, em corrupção. Neste segundo turno, não vejo outra opção. Bolsonaro representa um retrocesso social e político perigoso. Só nos resta, nestas duas semanas antes das eleições, conversar com amigos, parentes e demais pessoas do nosso convívio. Devemos refletir sobre o que significa a vitória de projeto ultraconservador como o Bolsonaro. Este processo deve ser realizado na paz, sem ódio, porque o ódio só alimentará mais a certeza que Bolsonaro é a melhor alternativa neste momento do nosso país. Lembremos dos sérvios, croatas e bósnios…

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Bolsonaro e Haddad no domingo da votação. [Fonte: El País]

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Deixem as Crianças Crescerem

Comecei recentemente a ler o livro “Memórias de Vida e Luz”, autobiografia de Jacques Lusseyran, um herói cego da Resistência Francesa na Segunda Guerra Mundial. Em uma passagem do livro, Lusseyran mostra sua gratidão pela forma que seus pais encararam sua cegueira e arremata com este conselho para pais de crianças cegas:

“Por isso eu digo aos pais cujos filhos ficaram cegos que tenham confiança. A cegueira é um obstáculo, mas só se torna uma miséria quando se cai na insensatez. Digo-lhes que sejam tranquilos, jamais contrariando o que seu pequeno filho ou filha anda descobrindo. Nunca deveriam dizer ‘Você não pode saber isso porque não enxerga’, e o mais ocasionalmente possível ‘Não faça isso, é perigoso’. Para uma criança cega existe uma ameaça maior do que todos ferimentos e galos, os arranhões e a maioria das batidas: é o perigo do isolamento dentro de si mesma.”

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Jacques Lusseyran

Ou seja, não diga ao seu filho cego que ele não sabe ou é incapaz de fazer algo, simplesmente porque ele não enxerga. Se os pais fizerem isto, estarão limitando a evolução de seu filho, colocarão uma armadura que o isolará do mundo.

Mas este conselho poderia ser dado a pais com filhos com outros tipos de necessidades especiais: deficientes auditivos, crianças com dificuldades de locomoção ou com algum tipo de retardo intelectual. Afinal o excesso de proteção também poderá isolar o filho e limitar sua interação com outras pessoas e com o mundo.

criancasPensando bem, este conselho de Jacques Lusseyran vale para todas as crianças. Nós pais temos o dever de proteger e educar nossos filhos, mas, neste processo, não devemos tolher suas iniciativas ou moldar seus pensamentos de forma que eles se tornem simples cópias do senso comum.

Mais uma vez estamos frente a frente com o desafio de encontrar o equilíbrio.

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Sun Tzu e a Intervenção Federal no Rio de Janeiro

O general chinês Sun Tzu escreveu há 2.500 anos o clássico “A Arte da Guerra”. Apesar de seu nome, este livro não é apenas sobre táticas de guerra, ele trata sobre conflitos e como superá-los, tanto que uma mensagem marcante é:

“A suprema arte da guerra é submeter o inimigo sem lutar.”

A intervenção federal na área da segurança pública no Rio de Janeiro completou um mês e a população prossegue na expectativa nos seus resultados.

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O ministro da Segurança Pública, Raul Jungmann, e o comandante Militar do Leste, General Braga Netto, em entrevista coletiva sobre o decreto de intervenção no Estado do Rio de Janeiro (Marcelo Camargo/Agência Brasil)

Sun Tzu foi enfático em um dos aspectos centrais das discussões sobre a intervenção – o respeito pelas leis e o comporta ético. Leia o trecho a seguir.

“Os que usam bem as armas cultivam o caminho e obedecem às leis. Assim podem governar, prevalecendo sobre os corruptos; usar a harmonia para desvanecer a oposição, não atacar um exército inocente, não fazer prisioneiros ou saquear por onde a tropa passar, não cortar as árvores, nem contaminar os poços; limpar e purificar os templos das cidades e montanhas por onde você passar, não repetir os erros de uma civilização decadente. Tudo isso está inserido na lei moral.”

Sun Tzu

Sun Tzu

Ou seja, violência contra a população das comunidades, onde houver conflitos entre grupos de criminosos com a polícia ou exército, deve ser evitada a qualquer custo. Desde modo, os mandados coletivos de busca e apreensão são inadmissíveis, por permitir que lares de moradores inocentes sejam invadidos sem indícios concretos.

Os líderes da intervenção militar explicam a aparente inatividade das forças policiais-militares por estarem em um período de planejamento e levantamento dos recursos humanos e materiais necessários para as operações. O planejamento é essencial para atingir o sucesso em qualquer atividade. Sun Tzu cita a importância desta etapa em várias passagens do seu livro.

“Informação é crucial. Nunca vá para a batalha sem saber o que pode estar contra você.”

“Compare, prudentemente, o exército inimigo com o seu próprio, de modo que você possa saber onde a força é superabundante e onde é deficiente.”

“Não ataque alguém só por estar magoado. Um general não deve colocar suas tropas em campo apenas para satisfazer seu próprio esplendor.”

“Um general não deve empreender uma guerra num ataque de ira, nem deve enviar suas tropas num momento de indignação. Entenda que um homem que está enfurecido voltará a ser feliz, e aquele que está indignado voltará a ser honrado, mas um Estado que pereceu nunca poderá ser reavivado, nem um homem que morreu poderá ser ressuscitado.”

“Nunca se deve atacar com cólera ou pressa, é aconselhável reservar um tempo para o planejamento e organização do plano. Um verdadeiro mestre das artes marciais vence um inimigo sem batalha, conquista outras cidades sem assaltá-las e destrói outros exércitos sem gastar muito tempo. Desfaz os planos dos inimigos, destrói suas relações e alianças, corta suas provisões ou bloqueia seu caminho.”

“Se não é vantajoso, nunca envie suas tropas; se não lhe rende ganhos, nunca utilize seus homens; se não é uma situação perigosa, nunca lute uma batalha precipitada.”

“A estratégia sem tática é o caminho mais lento para a vitória. Tática sem estratégia é o ruído antes da derrota.”

Em algum momento, o planejamento e a preparação para o conflito deverão ser colocados em prática, porque existe uma premência por resultados positivos neste ano em que temos eleições para os governos federal e estaduais. Em minha opinião, o maior obstáculo para a vitória reside na frase abaixo.

“Aquele que conhece o inimigo e a si mesmo lutará cem batalhas sem perder; para aquele que não conhece o inimigo, mas conhece a si mesmo, as chances para a vitória ou derrota serão iguais; aquele que não conhece nem o inimigo e nem a si próprio será derrotado em todas as batalhas.”

O problema é a relação entre o crime e a polícia. Se a polícia tem criminosos em seus quadros, qual seria a chance de “conhecer a si próprio”? Neste caso, o fracasso está garantido.

Outro ponto é a duração das operações, Sun Tzu recomenda que as operações sejam rápidas. Operações longas ou com várias campanhas também exaurem a energia das tropas e da população em geral, como pode ser confirmado nas seguintes frases.

“Ainda que você esteja vencendo, se a batalha continuar por muito tempo, deixará suas tropas desanimadas e cegará sua espada. Se estiver sitiando uma cidade, esgotarão suas forças.”

“Não há exemplos de uma nação beneficiando-se da guerra prolongada.”

“Deixar que uma operação militar se prolongue por muito tempo, nunca será benéfico para o país. Não se deve mobilizar o povo mais de uma vez por campanha.”

“Uma operação militar significa um grande esforço para o povo e uma guerra pode durar muitos anos até a obtenção da vitória.”

Se pensarmos nos moradores das comunidades atingidas pelos conflitos, o desgaste é desumano, especialmente quando admitimos que as chances de uma vitória militar são reduzidas, por causa das milícias que usam a própria estrutura da polícia para agirem nessas mesmas comunidades e dos espiões do crime organizado infiltrados na polícia e no Judiciário.

A primeira citação de Sun Tzu neste artigo foi a seguinte:

“A suprema arte da guerra é submeter o inimigo sem lutar.”

Como vencer criminosos bem armados sem luta? A principal fonte de receitas destes grupos é o tráfico de drogas ilícitas. Já escrevi um artigo sobre este assunto (Drogas – O Fim da Guerra), onde reproduzo dados apresentados em 2014 por Ethan Nadelmann, diretor e fundador da ONG Drug Policy Alliance. Em 40 anos de guerra, apenas os Estados Unidos gastaram US$ 1 trilhão para obtenção de um grande fracasso. A quem interessa prosseguir com esta longa guerra sem chance de sucesso? Sem dúvida, interessa aos corruptos que recebem propinas para manter o tráfico em atividade.

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Ethan Nadelmann, durante o TEDGlobal 2014 no Rio de Janeiro.

Acredito que a liberação das drogas com menores potenciais de dano físico e dependência como, por exemplo, a maconha, seria um bom início. Outro ponto é o aumento da efetividade do combate à lavagem de dinheiro oriundo de atividades criminosas. Estas medidas reduziriam o poder de fogo dos grupos criminosos sem disparar um único tiro.

 

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A Estranha Educação da Língua Portuguesa

Queremos que as pessoas tratem umas às outras com educação. Deste modo, é importante pedir com cordialidade, agradecer e retribuir. A língua portuguesa usa algumas expressões consagradas pelo uso diário que eu considero ruins.

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Se queremos, por exemplo, alguma informação, começamos a frase por um educado “por favor”. Como se a pessoa que pede a informação passasse a dever a retribuição deste “favor”. E isto fica muito claro, quando, após receber a informação solicitada, a pessoa diz obrigado (ou obrigada). Ou seja, ela confirma categoricamente que está obrigada a retribuir o “favor”. Ela ficou com uma dívida com a outra.

O Profeta Gentileza, no Rio de Janeiro ensinava que “em lugar de ‘muito obrigado’ devemos dizer ‘agradecido’ e ao invés de ‘por favor’ devemos usar ‘por gentileza’, porque ninguém é obrigado a nada e devemos ser gentis uns para com os outros e relacionarmo-nos por amor e não por favor”.

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José Datrino, o Profeta Gentileza.

A terceira expressão é a resposta educada para o “obrigado”, “de nada”. Neste contexto, o “de nada” soa como uma desobrigação de retribuir o “favor”.

Em Pelotas, no Rio Grande do Sul, os habitantes locais substituíram o “de nada” pelo “merece”. Assim fica a mensagem que a pessoa “merece” a “gentileza” recebida.

Se unirmos os ensinamentos do Profeta Gentileza à forma pelotense de retribuir um agradecimento, teríamos o seguinte diálogo:

– Por gentileza…
– Agradecido (ou grato)!
– Merece!

Podíamos encerrar 2017 e seguir 2018, sendo educados e exercitando esta forma de pedir e agradecer, porque como dizia o Profeta:

– Gentileza gera gentileza.

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Adeus, Filó! Você Sucateou Minhas Armaduras…

Há mais ou menos um mês, Claudia descobriu uma família de cães abandonada em um terreno baldio de Cotia, no caminho entre nossa casa e as escolas das meninas. Os animais estavam severamente desnutridos como você pode ver no filme abaixo.

Os dois filhotes foram adotados pela Dot, a amiga que publicou este vídeo, enquanto que as duas maiores ficaram mais um tempo por lá até serem resgatas pela Claudia. Após a castração (condição necessária para adoção), elas ficaram na nossa casa para se recuperarem da cirurgia.

Passaram-se algumas semanas e a cachorrinha menor, mais velha, começou a apresentar dificuldades para se locomover. O exame de sangue confirmou nosso maior temor, ela estava com cinomose, uma doença gravíssima que ataca o sistema nervoso dos cães.

A cachorrinha ganhou o nome de Filomena (Filó para os íntimos), recebeu remédios para tentar reverter a situação. Infelizmente seu estado foi agravando-se a cada dia, Filó não conseguia mais ficar de pé sozinha e, na sexta-feira passada, percebemos que estava cega. Como a doença evoluía rapidamente, tomamos uma difícil decisão para acabar com o sofrimento da Filó – providenciar a eutanásia.

Como a Claudia viajou na manhã do sábado para participar de um curso, eu levei a Filó sozinho para a veterinária. Não consegui conter as lágrimas na sala de espera, muito menos quando fiquei no consultório me despedindo dela ou no momento em que a injeção de anestésico foi aplicada. Só não fiquei junto quando foi aplicada a injeção letal.

Saí com o corpo da Filó enrolado num cobertor na mesma caixa em que foi levada para a clínica. Estava triste, muito triste…

Havia uma flor no chão do carro e a coloquei sobre seu corpo no transporte para a outra clínica, onde seria dado o destino final ao seu corpo. Quando deixei a caixa em uma mesa desta outra clínica, novamente não evitei o choro.

Desde a adolescência construímos nossas armaduras para que os outros nos enxerguem da forma que desejamos. Eu forjei duas armaduras – a primeira de racionalidade para encobrir meu sentimentalismo e a segunda brincalhona para disfarçar minha introspecção. Filó mandou as duas para a sucata no sábado.

Vai ser difícil apagar da minha memória o olhar da Filó. Morreu quando estava próxima de uma vida melhor, com mais carinho. Camomila, a companheira da Filó, continua esperando sua volta, e nós continuamos aguardando interessados na adoção…

Camomila e Filomena

Camomila e Filó (na direita)

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Os Veganos e os Orgânicos

O veganismo não é somente um tipo de dieta, é muito mais do que isto. Na verdade, ser vegano é optar por uma filosofia de vida, onde qualquer sofrimento animal é intolerável.

Começo por uma definição sobre veganismo divulgada pela The Vegan Society em 1979:

“Uma filosofia e modo de vida que procura excluir – na medida do possível e praticável – todas as formas de exploração e crueldade de animais para alimentação, vestuário ou qualquer outro propósito e, por extensão, promove o desenvolvimento e uso de alternativas livres de animais em benefício dos seres humanos, dos animais e do meio ambiente. Em termos alimentares, denota a prática de dispensar todos os produtos derivados total ou parcialmente de animais.”

Deste modo, um vegano não se alimenta com produtos de origem animal como carne, leite, ovos, mel e todos os seus derivados. Não usa roupas de couro, seda ou lã. Não usa cosméticos ou produtos de limpeza testados em animais. Também não aprova diversões como zoológicos, aquários, rodeios e shows com animais.

go-veganNo que se refere à alimentação, o vegano só consome plantas e seus derivados, sua dieta é estritamente vegetariana. Como sabemos, atualmente, a agricultura comercial emprega fertilizantes químicos para garantir a fertilidade do solo; herbicidas, para reduzir a concorrência de outras espécies vegetais por água e nutrientes do solo; e pesticidas, para que insetos não se alimentem de partes das plantas, reduzindo a produtividade da lavoura.

A agricultura orgânica supre as necessidades de nutrientes do solo com resíduos de animais e vegetais. Deste modo, não são adicionadas novas quantidades de nitrogênio (extraído do ar e transformado em amônia através da síntese de Haber-Bosch) e fósforo (extraído através de mineração) aos ciclos destes nutrientes. Para obter mais detalhes, leia o artigo Temos Tempo para Discutir o Aquecimento Global?, e você verá que existem outros problemas ambientais tão importantes quanto o aquecimento global – o desequilíbrio dos ciclos de nitrogênio e fósforo é um dos mais graves. Outra motivação para o consumo de produtos orgânicos é o não uso de herbicidas e pesticidas, o que é benéfico para quem se alimenta dos vegetais e para a natureza em geral.

podutos-organicos-certificados

Neste ponto, um vegano chegaria a um dilema – as frutas, grãos e verduras orgânicas não são provavelmente veganas, porque geralmente usam dejetos de criação de animais como fertilizante. Vocês poderão concluir que, pelo menos, os dejetos provêm de animais criados de forma orgânica, sem confinamento, mas esta prática é apenas uma recomendação. De acordo com a norma que rege à agricultura orgânica, os agricultores de locais sem disponibilidade de dejetos oriundos de produção orgânica poderão usar dejetos de produção convencional, sem que seu produto deixe de ser rotulado como orgânico. Estrume de vacas confinadas e camas de frango de aviários são exemplos de fertilizantes permitidos nestas circunstâncias.

As camas de frango são misturas de serragem colocadas no piso de aviários para receber os excrementos das aves. São gerados entre 1,0 e 1,5 kg de cama de frango por ave. Se considerarmos que em 2016 foram abatidos aproximadamente 6 bilhões de frangos no Brasil, houve geração entre 6 e 9 milhões de toneladas de cama de frango.

cama-de-frango

Aviário comercial com cama de frango.

Atualmente cerca de 80% do total dos antibióticos produzidos no mundo são consumidos por animais que servirão como alimento para humanos. Os frangos possuem aparelho digestivo curto e uma quantidade significativa do medicamento não é absorvida por seus intestinos. Deste modo, suas fezes contaminadas com antibióticos são incorporadas às camas de frangos.

O tratamento normalmente empregado para a estabilização deste resíduo é a compostagem em grandes pilhas, onde os microrganismos presentes na cama degradam parte da matéria orgânica, elevando a temperatura acima de 70°C. As pilhas são periodicamente revolvidas e, depois de alguns dias, os microrganismos patogênicos são inativados. As especificações exigidas na regulamentação dos produtos orgânicos com relação ao patógenos são atendidas. Por outro lado, as moléculas dos antibióticos são apenas parcialmente degradadas e não existe restrição, quanto as concentrações máximas permitidas para o uso como fertilizante orgânico.

Quando esta cama de frango estabilizada é utilizada como fertilizante no solo, os efeitos são imprevisíveis, resultando, por exemplo, na degradação parcial das moléculas dos antibióticos com a geração de moléculas mais tóxicas, na absorção parcial pelas plantas, na contaminação de águas superficiais e lençol freático, além da seleção de superbactérias patogênicas.

Então um vegano poderia chegar à conclusão que talvez seja melhor comprar produtos agrícolas oriundos de adubação química. Assista ao vídeo abaixo e depois discutiremos alternativas.

Existe a possibilidade de usar adubação 100% vegetal, estabilizada através de compostagem. A Embrapa Agrobiologia, localizada no estado do Rio de Janeiro, desenvolveu compostos totalmente vegetais a partir da compostagem de mistura de torta-de-mamona com bagaço de cana-de-açúcar ou palhada de capim-elefante com excelente desempenho e isento de contaminantes biológicos ou químicos.

Assim os vegetarianos em geral e especificamente os veganos (além dos onívoros que consomem orgânicos) deveriam buscar informação sobre a forma de fertilização do solo onde seus orgânicos foram produzidos. Alimentos produzidos com resíduos da pecuária comercial não deveriam ser certificados como orgânicos. Admitir o uso de cama de frango na agricultura auxilia na redução dos custos da avicultura comercial que promove exploração e maus-tratos em animais, polui o meio ambiente e compromete a saúde dos humanos.

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Por que Chegamos a Este Ponto? Em Busca de um Novo Equilíbrio

Há quase dois séculos e meio, o escocês Adam Smith publicou um dos livros mais influentes da nossa era, “A Riqueza das Nações”. Neste livro, ele defende que as pessoas devem maximizar seu próprio proveito e existiria uma “mão invisível” que ajudaria a equilibrar as relações econômicas e sociais. Hoje Adam Smith é considerado o pai da moderna economia e do liberalismo.

Adam Smith_The Wealth of Nations

Praticamente um século depois, com a revolução industrial e a falha da “mão invisível” de Adam Smith, Karl Marx publica o primeiro volume de outra obra influente do nosso tempo, “O Capital”. Esta obra combinada com o “Manifesto Comunista”, publicado por Marx e Engels, duas décadas antes são a base do socialismo.

Karl Marx_Das Kapital

Aristóteles, dois mil anos antes de Adam Smith, afirmou que o homem é um animal político – político por viver em uma polis (cidade-estado grega), local em que poderia se desenvolver plenamente nas relações com os outros humanos, onde o bem comum seria traduzido em felicidade, justiça e bem-estar social.

Aristoteles

Aristóteles

Podemos dizer que, no liberalismo, o indivíduo predomina sobre a sociedade, enquanto, no socialismo, a sociedade predomina sobre o indivíduo. Precisa-se buscar o equilíbrio. Este verso de Rudolf Steiner representa este equilíbrio.

Salutar só é, quando
No espelho da alma humana
Forma-se toda a comunidade;
E na comunidade
Vive a força da alma individual.

steiner-1915

Rudolf Steiner

Atualmente estamos atingindo o auge do individualismo na nossa sociedade. Se este estado não for alterado em breve, teremos problemas irreversíveis para a humanidade.

O economista britânico Guy Standing, no seu livro “O Precariado – A Nova Classe Perigosa” (The Precariat: The New Dangerous Class), descreve a formação e crescimento de uma nova classe, o “precariado”, com o avanço da globalização neoliberal. Segundo Standing:

“O precariado é definido pela visão de curto prazo e, induzida pela baixa probabilidade de progresso pessoal ou de construção de uma carreira, pode verificar-se uma evolução massificada no sentido da incapacidade de pensar a longo prazo.”

“Aqueles no precariado têm vidas dominadas por inseguranças, incertezas, dúvidas e humilhações.”

“As pessoas inseguras deixam as outras furiosas e as pessoas com raiva são voláteis, propensas a apoiar uma política de ódio e amargura.”

Se aceitamos que os menos favorecidos sejam pouco protegidos pela legislação ou ameaçados por processos como terceirização ou contratos de trabalho temporários, estaremos também aceitando que os menos favorecidos sejam explorados e marginalizados. O problema é que os interesses econômicos se tornaram tão dominantes que as pessoas são convencidas que não existe outra forma de organizar a sociedade.

Precariat_Guy Standing

Podemos dividir a atividade humana em três setores: político-jurídico, econômico e cultural-social. Estes setores deveriam ser totalmente independentes. O setor econômico deve financiar os dois outros setores através dos impostos transparentemente. O que vemos hoje aqui no Brasil (e na maior parte do planeta) é a compra do setor político pelo setor econômico: leis são alteradas; isenções fiscais acertadas; grandes obras definidas, enquanto que os interesses da sociedade são relegados ao segundo plano. Simultaneamente a ideia de que a economia deve ser desregulamentada é vendida como se isto fosse bom para a sociedade, mas isto só beneficia os muito ricos, porque o setor econômico também compra a mídia e a cultura.

Devemos separar totalmente estes três setores para termos um futuro mais justo e sustentável. O problema é que, para obtermos sucesso, esta ação deve ser global. Seguindo o ideário da Revolução Francesa, queremos ter Liberdade na cultura, Igualdade na política e Fraternidade na economia.

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Autofagia Liberal e o Umbigocentrismo

As reformas trabalhistas e da Previdência em andamento no Brasil são provas evidentes da autofagia liberal e do umbigocentrismo dos nossos dias.

autofagia liberal

Vamos às explicações sobre o significado destas duas expressões. O liberalismo é autofágico, porque, ao buscar a maximização do lucro, pode comprometer seriamente o meio ambiente, a comunidade onde atua e, até mesmo, segmentos significativos da população de diversos país. Em 1962, Milton Friedman escreveu sua principal obra “Capitalismo e Liberdade”. Sobre a atuação do governo na economia, escreveu:

Do que precisamos urgentemente, para a estabilidade e o crescimento econômico, é de uma redução da intervenção do governo não de seu aumento.

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Milton Friedman

Alinha-se a conhecida ideia neoliberal de que tudo anda melhor se o Estado desregulamentar a economia. Sobre a responsabilidade social das empresas, o resumo de sua opinião está apresentado abaixo.

A ideia de que as empresas têm “responsabilidade social” para além de ter lucro é perigosa. Ela mostra uma concepção fundamentalmente errada da natureza de uma economia de livre mercado. Em tal economia, a obrigação social das empresas é aumentar seus lucros dentro da lei. É só isto. A aceitação pelos líderes das empresas da responsabilidade de fazerem mais que aumentar valor para os acionistas pode minar os fundamentos de nosso sistema econômico.

Como a obrigação social das empresas, segundo Friedman, é apenas aumentar seus lucros dentro da lei, se a lei for alterada em benefício da empresa, não há nenhum arrepio ético. Após alguns anos, a aplicação desta lei pode causar queda do poder aquisitivo da população e o que beneficiou a empresa, no curto prazo, através da redução de seus custos com pessoal, se voltará contra a própria empresa devido à queda de suas vendas. Autofagia!

A reforma trabalhista proposta pelo governo Temer em tramitação acelerada no Congresso é um exemplo. Cito três pontos que deveríamos pensar a respeito:

  1. Acordos coletivos prevalecem sobre a legislação.
  2. Ratificação da lei da terceirização, sancionada há pouco por Temer.
  3. Demissão em massa não precisará mais ter a concordância do sindicato.

Assim, durante um período de alto desemprego, como o que estamos vivendo atualmente, a faca e o queijo estarão nas mãos das empresas. A empresa simplesmente pode ameaçar os empregados com o encerramento de suas atividades naquele local, forçando-os a aceitar cláusulas em que abrem mão de alguns benefícios, como as “horas in itinere”, o tempo de deslocamento até o trabalho. Os bancos de horas poderão ser revalidados eternamente, se o acordo coletivo permitir.

A terceirização das atividades-fim das empresas deve gerar também uma redução dos seus gastos com pessoal, porque uma série de benefícios sociais deixam de ser pagos. Além de abrir a possibilidade de colocar outro profissional mais barato na função.

A possibilidade de fazer uma demissão em massa sem concordância do sindicato enfraquece as posições dos trabalhadores e dos próprios sindicatos. Sempre será possível mudar a empresa para uma região onde o “estoque” de mão de obra barata seja maior.

O umbigocentrismo é a certeza que o universo gira em torno do próprio umbigo. Se existe vantagem ou, até mesmo, ausência de prejuízo para o dono do umbigo, nada mais importa. O impacto nos outros de qualquer decisão não é relevante.

Umbigocentrismo

A reforma da Previdência Social brasileira mostra como as pessoas que deveriam ser mais críticas em relação às medidas estão olhando para o próprio umbigo e acatam o discurso oficial. Esta reforma acabará prejudicando sensivelmente as pessoas com escolaridade mais baixa, O ator Wagner Moura liderou uma campanha contra a reforma. Alexandre Schwartsman, ex-diretor de Assuntos Internacionais do Banco Central do Brasil e ex-economista chefe de uma série de grandes bancos privados, na sua coluna semanal na Folha de São Paulo, criticou o ator, dizendo que ele foi intelectualmente desonesto.

Wagner Moura_reforma Previdencia

Wagner Moura

Schwartsman apresentou o gráfico abaixo, baseado em dados do IBGE. O gráfico mostra qual é a expectativa de vida em cada idade para homens e mulheres. Por exemplo, uma mulher brasileira quando nasce tem expectativa de vida de 78,6 anos. Aos 60 anos, ela viveria, em média, mais 23,5 anos. Ou seja, uma mulher de 60 anos viveria, em média, até os 83,5 anos.

Expectativa de vida condicional

Gráfico do artigo de Alexandre Schwartsman, baseado em dados do IBGE [http://www.ibge.gov.br/home/estatistica/populacao/tabuadevida/2013/defaulttab_xls.shtm]

Abaixo está a explicação de Schwartsman no seu atigo, onde tenta provar que Wagner Moura foi desonesto intelectualmente ao dizer que “querem que você morra antes de se aposentar!”.

De fato, a expectativa de vida ao nascer se encontra ao redor de 75 anos, porque (infelizmente) a mortalidade infantil ainda é relativamente elevada e a violência cobra muitas vidas de homens jovens. Quem, porém, se aposenta por tempo de contribuição atinge esta condição em média aos 54,5 anos (homens 55,5 e mulheres 52,3), idade em que, como mostrado no gráfico, a expectativa de vida supera 80 anos (78,4 homens, 82,1 mulheres). Quem não comprova tempo de contribuição, os mais pobres, já se aposenta hoje aos 65 anos, com expectativa de vida de 83 anos.

Parece que você, Alexandre Schwartsman, foi desonesto intelectualmente ao pegar estatísticas que não consideram as diferenças entre regiões e nível educacional. Sua visão é liberal autofágica e umbigocêntrica. Sua visão é baseada em trabalhadores urbanos com formação superior que terão chances de manterem-se ativos até os 65 anos. Imagina pessoas com baixa formação educacional, trabalhadores braçais. Como conseguirão emprego com carteira assinada após os 55 anos?

Esta reforma da Previdência segue o velho script – trabalhadores organizados do serviço público e militares, os maiores responsáveis pelos déficits previdenciários, são deixados de lado, enquanto os trabalhadores de empresas privadas mais uma vez pagarão a conta. Não é uma razão válida colocar idade mínima de 65 anos, porque nos países desenvolvidos é esta a idade. Precisamos ser mais críticos e exercitar a empatia para nos colocarmos no lugar dos outros – os mais pobres, menos protegidos.

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A Empatia e os Julgamentos – o Caso Bruna Sena

As redes sociais tornaram públicas opiniões que antes só eram expressas no âmbito privado. Duvido que um décimo do que é escrito no Facebook ou Twitter seria dito cara a cara para o alvo das manifestações – ofensas gratuitas, palavrões, acusações levianas, distorções…

No mundo corporativo, não existe treinamento na área de desenvolvimento humano que não fale de empatia. Os americanos usam uma frase que resume o significado desta palavra:

– Put yourself in others’ shoes.

Poderíamos traduzir livremente a frase como “coloque-se no lugar de outra pessoa”. Ou seja, veja, escute, pense e sinta como o outro. Ou como li em um artigo de Elaine Brum no site do El país recentemente, “vestir a pele do outro”.

A maioria das pessoas não consegue mais escutar ativamente os outros para tentar entender as lógicas e motivações que fundamentam seus raciocínios. Muitas vezes, a fala é interrompida com um contra-argumento ou, quando isto não acontece, já se começa a pensar na resposta enquanto o outro ainda está falando.

Se escutar ativamente é difícil, imagina ler ativamente. Quem lê uma coluna de jornal de um comentarista com posição política contrária à sua?

No início de fevereiro, a notícia de que uma jovem de 17 anos, negra e pobre, que cursou escola pública durante toda a sua vida, foi a primeira colocada no vestibular da USP de Ribeirão Preto teve muita repercussão nas redes. Infelizmente o que mais se discutiu não foi a incrível história de superação de Bruna Sena, filha de uma operadora de caixa de supermercado com salário mensal de R$ 1.400,00, mas uma frase que ela postou na sua conta do Twitter.

“A casa-grande surta quando a senzala vira médica”.

Dentro de diversas bolhas das redes sociais, Bruna foi duramente criticada por homens e mulheres brancos que provavelmente nunca sentiram as dificuldades que ela e sua mãe passam.

bruna-sena_folha

Aposto que a maioria das pessoas não seguiu a leitura da matéria da Folha de São Paulo, pois a frase foi colocada “convenientemente” no primeiro parágrafo. Não leram o pedido da mãe com medo que sua filha seja discriminada na universidade.

“Por favor, coloque no jornal que tenho medo dos racistas. Ela vai ser o 1% negro e pobre no meio dos brancos e ricos da faculdade.”

Quem teve empatia por Bruna e sua mãe? Quem ao menos tentou imaginar todas as dificuldades de uma mãe pobre, abandonada pelo marido, de criar uma menina, tentando proporcionar as maiores oportunidades possíveis? Quem tentou sentir o que uma negra pobre passa em um país como o Brasil? Quem tentou sentir a emoção de jovem de 17 anos, com muito menos condições de competir com jovens que estudaram nos melhores colégios particulares do país, ao descobrir que foi a primeira colocada no vestibular de medicina da USP?

Como podem minimizar toda a luta e os medos desta família a um simples “mimimi”? Faltou empatia! Como as pessoas podem julgar uma menina de 17 anos com tamanha dureza? Faltou empatia!

Bruna, vou tentar te tranquilizar. Você será muito bem recebida pela esmagadora maioria de teus colegas de medicina. Mais tarde, se você for competente, verá que, como o número de médicas negras é muito pequeno, muitos hospitais desejarão contratá-la. Aproveitando tua frase, a casa grande não vai surtar, vai te querer, porque, deste modo, o sistema é legitimado. As grandes empresas precisam de mulheres e negros em gerências e diretorias para mostrarem que não são sexistas nem racistas. Ainda temos um longo caminho pela frente…

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A Entrevista de Yuval Harari no TED – Nacionalismo x Globalismo

Na noite de segunda-feira recebi um e-mail do TED com o link da conversa do historiador israelense Yuval Noah Harari, autor de Sapiens: Uma Breve História da Humanidade, com Chris Anderson.

Vale a pena assistir ao vídeo. Harari considera impossível lidar com as grandes questões atuais da humanidade em escala nacional. Como resolver a questão ambiental sem uma coordenação global? Como disciplinar os fluxos de capital especulativo ou coibir a circulação de dinheiro oriundo de atividades ilícitas? Como regular o desenvolvimento e aplicação de novas tecnologias como a Inteligência Artificial e a Bioengenharia? Globalismo, neste contexto, seria a construção de um sistema que coloque os interesses de todo o mundo acima dos interesses de cada nação. Assim devemos construir um novo sistema. Claro que uma estrutura supranacional deve ser criada com muito cuidado para evitar a criação de uma casta de notáveis ou de burocracia desnecessária.

No documentário “Requiem for the American Dream”, o filósofo e cientista político Noam Chomsky apresenta a financeirização (redução da atividade industrial e aumento da atividade financeira) da economia americana. Em 1950, 28% do PIB era advindo da indústria e 11% do setor financeiro. Em 2010, apenas 11% era oriundo da indústria e 21% do PIB vinha do setor financeiro. Aproximadamente 40% dos lucros corporativos, em 2007, foram de instituições financeiras. Isto ocorreu após a redução da regulamentação do setor financeiro ocorrida nos Estados Unidos nas décadas de 70 e 80. Como resultado, houve crescimento na especulação financeira que terminou estourando na crise de 2008. Hoje Donald Trump fala em desregulamentar mais a economia americana. O economista francês, Thomas Piketty, autor do best seller “Capital do Século XXI”, também alerta para o perigo da financeirização da economia global. Ou seja, a ação para evitar novas crises financeiras, que geram instabilidade e desemprego em vários países do mundo, deve ser global.

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Da mesma forma, a questão da Inteligência Artificial (AI) deve ser analisada globalmente, porque sua aplicação poderá gerar desemprego em massa no futuro. Neste caso, as populações dos países mais pobres devem ser as mais prejudicadas. As discussões éticas sobre a aplicação da Bioengenharia em seres humanos é outro ponto crítico com a possibilidade da criação de super-humanos. Se não houver uma regulamentação global, alguns países podem restringir a aplicação, enquanto outros liberá-la irrestritamente.

As pessoas precisam se dar conta de que não é possível voltar no tempo e usar velhos modelos. Eles não funcionarão no futuro. Há 2.500 anos o filósofo Heráclito de Éfeso disse algumas frases que deveríamos, no mínimo, refletir a respeito.

Da luta dos contrários é que nasce a harmonia.

Tudo o que é fixo é ilusão.

Não se pode entrar duas vezes no mesmo rio.

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Heráclito de Éfeso

O mundo está em eterna transformação, novos modelos devem ser criados. Aquela tese exótica do “fim da história” do filósofo e economista Francis Fukuyama, sobre o triunfo definitivo do modelo da democracia liberal, está fortemente abalada. Estas discussões bobas sobre direita e esquerda aqui no Brasil são grandes perdas de energia e de tempo. As pessoas devem parar de olhar para trás como se a história fosse se repetir para um lado ou para outro, porque o rio continua correndo e, quando nos banharmos em suas águas, veremos que não é mais o mesmo rio e nem nós somos os mesmos.

Hirari faz um outro alerta sobre nossa desconexão com a natureza e, até mesmo, com nós mesmos. Este poderia ser um bom ponto de partida, ficar menos em frente das telas (computador, celular, tablete, televisão) e olhar mais para dentro de si, para as pessoas em volta, para o mundo que nos cerca, para a natureza. Em janeiro assisti na escola das minhas filhas a uma palestra do professor alemão Dr. Peter Guttenhoefer. Num momento ele disse estas frases simples:

O andar faz o pé.
O uso faz a mão.
O pensar faz o cérebro.

Como nossas crianças estão usando seus pés, mãos e cérebros? Como é o ambiente em que nossas crianças estão inseridas? Estão próximas à natureza ou em um ambiente quase hospitalar? Qual é a diversão delas – televisão e tablet? Precisamos nos conectar ao mundo real e ajudar nossas crianças a fazer o mesmo. Só desta forma poderemos viver num mundo mais sadio.

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