Arquivo da categoria: Ética

Deixem as Crianças Crescerem

Comecei recentemente a ler o livro “Memórias de Vida e Luz”, autobiografia de Jacques Lusseyran, um herói cego da Resistência Francesa na Segunda Guerra Mundial. Em uma passagem do livro, Lusseyran mostra sua gratidão pela forma que seus pais encararam sua cegueira e arremata com este conselho para pais de crianças cegas:

“Por isso eu digo aos pais cujos filhos ficaram cegos que tenham confiança. A cegueira é um obstáculo, mas só se torna uma miséria quando se cai na insensatez. Digo-lhes que sejam tranquilos, jamais contrariando o que seu pequeno filho ou filha anda descobrindo. Nunca deveriam dizer ‘Você não pode saber isso porque não enxerga’, e o mais ocasionalmente possível ‘Não faça isso, é perigoso’. Para uma criança cega existe uma ameaça maior do que todos ferimentos e galos, os arranhões e a maioria das batidas: é o perigo do isolamento dentro de si mesma.”

Jacques_Lusseyran

Jacques Lusseyran

Ou seja, não diga ao seu filho cego que ele não sabe ou é incapaz de fazer algo, simplesmente porque ele não enxerga. Se os pais fizerem isto, estarão limitando a evolução de seu filho, colocarão uma armadura que o isolará do mundo.

Mas este conselho poderia ser dado a pais com filhos com outros tipos de necessidades especiais: deficientes auditivos, crianças com dificuldades de locomoção ou com algum tipo de retardo intelectual. Afinal o excesso de proteção também poderá isolar o filho e limitar sua interação com outras pessoas e com o mundo.

criancasPensando bem, este conselho de Jacques Lusseyran vale para todas as crianças. Nós pais temos o dever de proteger e educar nossos filhos, mas, neste processo, não devemos tolher suas iniciativas ou moldar seus pensamentos de forma que eles se tornem simples cópias do senso comum.

Mais uma vez estamos frente a frente com o desafio de encontrar o equilíbrio.

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Sun Tzu e a Intervenção Federal no Rio de Janeiro

O general chinês Sun Tzu escreveu há 2.500 anos o clássico “A Arte da Guerra”. Apesar de seu nome, este livro não é apenas sobre táticas de guerra, ele trata sobre conflitos e como superá-los, tanto que uma mensagem marcante é:

“A suprema arte da guerra é submeter o inimigo sem lutar.”

A intervenção federal na área da segurança pública no Rio de Janeiro completou um mês e a população prossegue na expectativa nos seus resultados.

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O ministro da Segurança Pública, Raul Jungmann, e o comandante Militar do Leste, General Braga Netto, em entrevista coletiva sobre o decreto de intervenção no Estado do Rio de Janeiro (Marcelo Camargo/Agência Brasil)

Sun Tzu foi enfático em um dos aspectos centrais das discussões sobre a intervenção – o respeito pelas leis e o comporta ético. Leia o trecho a seguir.

“Os que usam bem as armas cultivam o caminho e obedecem às leis. Assim podem governar, prevalecendo sobre os corruptos; usar a harmonia para desvanecer a oposição, não atacar um exército inocente, não fazer prisioneiros ou saquear por onde a tropa passar, não cortar as árvores, nem contaminar os poços; limpar e purificar os templos das cidades e montanhas por onde você passar, não repetir os erros de uma civilização decadente. Tudo isso está inserido na lei moral.”

Sun Tzu

Sun Tzu

Ou seja, violência contra a população das comunidades, onde houver conflitos entre grupos de criminosos com a polícia ou exército, deve ser evitada a qualquer custo. Desde modo, os mandados coletivos de busca e apreensão são inadmissíveis, por permitir que lares de moradores inocentes sejam invadidos sem indícios concretos.

Os líderes da intervenção militar explicam a aparente inatividade das forças policiais-militares por estarem em um período de planejamento e levantamento dos recursos humanos e materiais necessários para as operações. O planejamento é essencial para atingir o sucesso em qualquer atividade. Sun Tzu cita a importância desta etapa em várias passagens do seu livro.

“Informação é crucial. Nunca vá para a batalha sem saber o que pode estar contra você.”

“Compare, prudentemente, o exército inimigo com o seu próprio, de modo que você possa saber onde a força é superabundante e onde é deficiente.”

“Não ataque alguém só por estar magoado. Um general não deve colocar suas tropas em campo apenas para satisfazer seu próprio esplendor.”

“Um general não deve empreender uma guerra num ataque de ira, nem deve enviar suas tropas num momento de indignação. Entenda que um homem que está enfurecido voltará a ser feliz, e aquele que está indignado voltará a ser honrado, mas um Estado que pereceu nunca poderá ser reavivado, nem um homem que morreu poderá ser ressuscitado.”

“Nunca se deve atacar com cólera ou pressa, é aconselhável reservar um tempo para o planejamento e organização do plano. Um verdadeiro mestre das artes marciais vence um inimigo sem batalha, conquista outras cidades sem assaltá-las e destrói outros exércitos sem gastar muito tempo. Desfaz os planos dos inimigos, destrói suas relações e alianças, corta suas provisões ou bloqueia seu caminho.”

“Se não é vantajoso, nunca envie suas tropas; se não lhe rende ganhos, nunca utilize seus homens; se não é uma situação perigosa, nunca lute uma batalha precipitada.”

“A estratégia sem tática é o caminho mais lento para a vitória. Tática sem estratégia é o ruído antes da derrota.”

Em algum momento, o planejamento e a preparação para o conflito deverão ser colocados em prática, porque existe uma premência por resultados positivos neste ano em que temos eleições para os governos federal e estaduais. Em minha opinião, o maior obstáculo para a vitória reside na frase abaixo.

“Aquele que conhece o inimigo e a si mesmo lutará cem batalhas sem perder; para aquele que não conhece o inimigo, mas conhece a si mesmo, as chances para a vitória ou derrota serão iguais; aquele que não conhece nem o inimigo e nem a si próprio será derrotado em todas as batalhas.”

O problema é a relação entre o crime e a polícia. Se a polícia tem criminosos em seus quadros, qual seria a chance de “conhecer a si próprio”? Neste caso, o fracasso está garantido.

Outro ponto é a duração das operações, Sun Tzu recomenda que as operações sejam rápidas. Operações longas ou com várias campanhas também exaurem a energia das tropas e da população em geral, como pode ser confirmado nas seguintes frases.

“Ainda que você esteja vencendo, se a batalha continuar por muito tempo, deixará suas tropas desanimadas e cegará sua espada. Se estiver sitiando uma cidade, esgotarão suas forças.”

“Não há exemplos de uma nação beneficiando-se da guerra prolongada.”

“Deixar que uma operação militar se prolongue por muito tempo, nunca será benéfico para o país. Não se deve mobilizar o povo mais de uma vez por campanha.”

“Uma operação militar significa um grande esforço para o povo e uma guerra pode durar muitos anos até a obtenção da vitória.”

Se pensarmos nos moradores das comunidades atingidas pelos conflitos, o desgaste é desumano, especialmente quando admitimos que as chances de uma vitória militar são reduzidas, por causa das milícias que usam a própria estrutura da polícia para agirem nessas mesmas comunidades e dos espiões do crime organizado infiltrados na polícia e no Judiciário.

A primeira citação de Sun Tzu neste artigo foi a seguinte:

“A suprema arte da guerra é submeter o inimigo sem lutar.”

Como vencer criminosos bem armados sem luta? A principal fonte de receitas destes grupos é o tráfico de drogas ilícitas. Já escrevi um artigo sobre este assunto (Drogas – O Fim da Guerra), onde reproduzo dados apresentados em 2014 por Ethan Nadelmann, diretor e fundador da ONG Drug Policy Alliance. Em 40 anos de guerra, apenas os Estados Unidos gastaram US$ 1 trilhão para obtenção de um grande fracasso. A quem interessa prosseguir com esta longa guerra sem chance de sucesso? Sem dúvida, interessa aos corruptos que recebem propinas para manter o tráfico em atividade.

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Ethan Nadelmann, durante o TEDGlobal 2014 no Rio de Janeiro.

Acredito que a liberação das drogas com menores potenciais de dano físico e dependência como, por exemplo, a maconha, seria um bom início. Outro ponto é o aumento da efetividade do combate à lavagem de dinheiro oriundo de atividades criminosas. Estas medidas reduziriam o poder de fogo dos grupos criminosos sem disparar um único tiro.

 

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A Estranha Educação da Língua Portuguesa

Queremos que as pessoas tratem umas às outras com educação. Deste modo, é importante pedir com cordialidade, agradecer e retribuir. A língua portuguesa usa algumas expressões consagradas pelo uso diário que eu considero ruins.

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Se queremos, por exemplo, alguma informação, começamos a frase por um educado “por favor”. Como se a pessoa que pede a informação passasse a dever a retribuição deste “favor”. E isto fica muito claro, quando, após receber a informação solicitada, a pessoa diz obrigado (ou obrigada). Ou seja, ela confirma categoricamente que está obrigada a retribuir o “favor”. Ela ficou com uma dívida com a outra.

O Profeta Gentileza, no Rio de Janeiro ensinava que “em lugar de ‘muito obrigado’ devemos dizer ‘agradecido’ e ao invés de ‘por favor’ devemos usar ‘por gentileza’, porque ninguém é obrigado a nada e devemos ser gentis uns para com os outros e relacionarmo-nos por amor e não por favor”.

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José Datrino, o Profeta Gentileza.

A terceira expressão é a resposta educada para o “obrigado”, “de nada”. Neste contexto, o “de nada” soa como uma desobrigação de retribuir o “favor”.

Em Pelotas, no Rio Grande do Sul, os habitantes locais substituíram o “de nada” pelo “merece”. Assim fica a mensagem que a pessoa “merece” a “gentileza” recebida.

Se unirmos os ensinamentos do Profeta Gentileza à forma pelotense de retribuir um agradecimento, teríamos o seguinte diálogo:

– Por gentileza…
– Agradecido (ou grato)!
– Merece!

Podíamos encerrar 2017 e seguir 2018, sendo educados e exercitando esta forma de pedir e agradecer, porque como dizia o Profeta:

– Gentileza gera gentileza.

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Adeus, Filó! Você Sucateou Minhas Armaduras…

Há mais ou menos um mês, Claudia descobriu uma família de cães abandonada em um terreno baldio de Cotia, no caminho entre nossa casa e as escolas das meninas. Os animais estavam severamente desnutridos como você pode ver no filme abaixo.

Os dois filhotes foram adotados pela Dot, a amiga que publicou este vídeo, enquanto que as duas maiores ficaram mais um tempo por lá até serem resgatas pela Claudia. Após a castração (condição necessária para adoção), elas ficaram na nossa casa para se recuperarem da cirurgia.

Passaram-se algumas semanas e a cachorrinha menor, mais velha, começou a apresentar dificuldades para se locomover. O exame de sangue confirmou nosso maior temor, ela estava com cinomose, uma doença gravíssima que ataca o sistema nervoso dos cães.

A cachorrinha ganhou o nome de Filomena (Filó para os íntimos), recebeu remédios para tentar reverter a situação. Infelizmente seu estado foi agravando-se a cada dia, Filó não conseguia mais ficar de pé sozinha e, na sexta-feira passada, percebemos que estava cega. Como a doença evoluía rapidamente, tomamos uma difícil decisão para acabar com o sofrimento da Filó – providenciar a eutanásia.

Como a Claudia viajou na manhã do sábado para participar de um curso, eu levei a Filó sozinho para a veterinária. Não consegui conter as lágrimas na sala de espera, muito menos quando fiquei no consultório me despedindo dela ou no momento em que a injeção de anestésico foi aplicada. Só não fiquei junto quando foi aplicada a injeção letal.

Saí com o corpo da Filó enrolado num cobertor na mesma caixa em que foi levada para a clínica. Estava triste, muito triste…

Havia uma flor no chão do carro e a coloquei sobre seu corpo no transporte para a outra clínica, onde seria dado o destino final ao seu corpo. Quando deixei a caixa em uma mesa desta outra clínica, novamente não evitei o choro.

Desde a adolescência construímos nossas armaduras para que os outros nos enxerguem da forma que desejamos. Eu forjei duas armaduras – a primeira de racionalidade para encobrir meu sentimentalismo e a segunda brincalhona para disfarçar minha introspecção. Filó mandou as duas para a sucata no sábado.

Vai ser difícil apagar da minha memória o olhar da Filó. Morreu quando estava próxima de uma vida melhor, com mais carinho. Camomila, a companheira da Filó, continua esperando sua volta, e nós continuamos aguardando interessados na adoção…

Camomila e Filomena

Camomila e Filó (na direita)

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Os Veganos e os Orgânicos

O veganismo não é somente um tipo de dieta, é muito mais do que isto. Na verdade, ser vegano é optar por uma filosofia de vida, onde qualquer sofrimento animal é intolerável.

Começo por uma definição sobre veganismo divulgada pela The Vegan Society em 1979:

“Uma filosofia e modo de vida que procura excluir – na medida do possível e praticável – todas as formas de exploração e crueldade de animais para alimentação, vestuário ou qualquer outro propósito e, por extensão, promove o desenvolvimento e uso de alternativas livres de animais em benefício dos seres humanos, dos animais e do meio ambiente. Em termos alimentares, denota a prática de dispensar todos os produtos derivados total ou parcialmente de animais.”

Deste modo, um vegano não se alimenta com produtos de origem animal como carne, leite, ovos, mel e todos os seus derivados. Não usa roupas de couro, seda ou lã. Não usa cosméticos ou produtos de limpeza testados em animais. Também não aprova diversões como zoológicos, aquários, rodeios e shows com animais.

go-veganNo que se refere à alimentação, o vegano só consome plantas e seus derivados, sua dieta é estritamente vegetariana. Como sabemos, atualmente, a agricultura comercial emprega fertilizantes químicos para garantir a fertilidade do solo; herbicidas, para reduzir a concorrência de outras espécies vegetais por água e nutrientes do solo; e pesticidas, para que insetos não se alimentem de partes das plantas, reduzindo a produtividade da lavoura.

A agricultura orgânica supre as necessidades de nutrientes do solo com resíduos de animais e vegetais. Deste modo, não são adicionadas novas quantidades de nitrogênio (extraído do ar e transformado em amônia através da síntese de Haber-Bosch) e fósforo (extraído através de mineração) aos ciclos destes nutrientes. Para obter mais detalhes, leia o artigo Temos Tempo para Discutir o Aquecimento Global?, e você verá que existem outros problemas ambientais tão importantes quanto o aquecimento global – o desequilíbrio dos ciclos de nitrogênio e fósforo é um dos mais graves. Outra motivação para o consumo de produtos orgânicos é o não uso de herbicidas e pesticidas, o que é benéfico para quem se alimenta dos vegetais e para a natureza em geral.

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Neste ponto, um vegano chegaria a um dilema – as frutas, grãos e verduras orgânicas não são provavelmente veganas, porque geralmente usam dejetos de criação de animais como fertilizante. Vocês poderão concluir que, pelo menos, os dejetos provêm de animais criados de forma orgânica, sem confinamento, mas esta prática é apenas uma recomendação. De acordo com a norma que rege à agricultura orgânica, os agricultores de locais sem disponibilidade de dejetos oriundos de produção orgânica poderão usar dejetos de produção convencional, sem que seu produto deixe de ser rotulado como orgânico. Estrume de vacas confinadas e camas de frango de aviários são exemplos de fertilizantes permitidos nestas circunstâncias.

As camas de frango são misturas de serragem colocadas no piso de aviários para receber os excrementos das aves. São gerados entre 1,0 e 1,5 kg de cama de frango por ave. Se considerarmos que em 2016 foram abatidos aproximadamente 6 bilhões de frangos no Brasil, houve geração entre 6 e 9 milhões de toneladas de cama de frango.

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Aviário comercial com cama de frango.

Atualmente cerca de 80% do total dos antibióticos produzidos no mundo são consumidos por animais que servirão como alimento para humanos. Os frangos possuem aparelho digestivo curto e uma quantidade significativa do medicamento não é absorvida por seus intestinos. Deste modo, suas fezes contaminadas com antibióticos são incorporadas às camas de frangos.

O tratamento normalmente empregado para a estabilização deste resíduo é a compostagem em grandes pilhas, onde os microrganismos presentes na cama degradam parte da matéria orgânica, elevando a temperatura acima de 70°C. As pilhas são periodicamente revolvidas e, depois de alguns dias, os microrganismos patogênicos são inativados. As especificações exigidas na regulamentação dos produtos orgânicos com relação ao patógenos são atendidas. Por outro lado, as moléculas dos antibióticos são apenas parcialmente degradadas e não existe restrição, quanto as concentrações máximas permitidas para o uso como fertilizante orgânico.

Quando esta cama de frango estabilizada é utilizada como fertilizante no solo, os efeitos são imprevisíveis, resultando, por exemplo, na degradação parcial das moléculas dos antibióticos com a geração de moléculas mais tóxicas, na absorção parcial pelas plantas, na contaminação de águas superficiais e lençol freático, além da seleção de superbactérias patogênicas.

Então um vegano poderia chegar à conclusão que talvez seja melhor comprar produtos agrícolas oriundos de adubação química. Assista ao vídeo abaixo e depois discutiremos alternativas.

Existe a possibilidade de usar adubação 100% vegetal, estabilizada através de compostagem. A Embrapa Agrobiologia, localizada no estado do Rio de Janeiro, desenvolveu compostos totalmente vegetais a partir da compostagem de mistura de torta-de-mamona com bagaço de cana-de-açúcar ou palhada de capim-elefante com excelente desempenho e isento de contaminantes biológicos ou químicos.

Assim os vegetarianos em geral e especificamente os veganos (além dos onívoros que consomem orgânicos) deveriam buscar informação sobre a forma de fertilização do solo onde seus orgânicos foram produzidos. Alimentos produzidos com resíduos da pecuária comercial não deveriam ser certificados como orgânicos. Admitir o uso de cama de frango na agricultura auxilia na redução dos custos da avicultura comercial que promove exploração e maus-tratos em animais, polui o meio ambiente e compromete a saúde dos humanos.

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Por que Chegamos a Este Ponto? Em Busca de um Novo Equilíbrio

Há quase dois séculos e meio, o escocês Adam Smith publicou um dos livros mais influentes da nossa era, “A Riqueza das Nações”. Neste livro, ele defende que as pessoas devem maximizar seu próprio proveito e existiria uma “mão invisível” que ajudaria a equilibrar as relações econômicas e sociais. Hoje Adam Smith é considerado o pai da moderna economia e do liberalismo.

Adam Smith_The Wealth of Nations

Praticamente um século depois, com a revolução industrial e a falha da “mão invisível” de Adam Smith, Karl Marx publica o primeiro volume de outra obra influente do nosso tempo, “O Capital”. Esta obra combinada com o “Manifesto Comunista”, publicado por Marx e Engels, duas décadas antes são a base do socialismo.

Karl Marx_Das Kapital

Aristóteles, dois mil anos antes de Adam Smith, afirmou que o homem é um animal político – político por viver em uma polis (cidade-estado grega), local em que poderia se desenvolver plenamente nas relações com os outros humanos, onde o bem comum seria traduzido em felicidade, justiça e bem-estar social.

Aristoteles

Aristóteles

Podemos dizer que, no liberalismo, o indivíduo predomina sobre a sociedade, enquanto, no socialismo, a sociedade predomina sobre o indivíduo. Precisa-se buscar o equilíbrio. Este verso de Rudolf Steiner representa este equilíbrio.

Salutar só é, quando
No espelho da alma humana
Forma-se toda a comunidade;
E na comunidade
Vive a força da alma individual.

steiner-1915

Rudolf Steiner

Atualmente estamos atingindo o auge do individualismo na nossa sociedade. Se este estado não for alterado em breve, teremos problemas irreversíveis para a humanidade.

O economista britânico Guy Standing, no seu livro “O Precariado – A Nova Classe Perigosa” (The Precariat: The New Dangerous Class), descreve a formação e crescimento de uma nova classe, o “precariado”, com o avanço da globalização neoliberal. Segundo Standing:

“O precariado é definido pela visão de curto prazo e, induzida pela baixa probabilidade de progresso pessoal ou de construção de uma carreira, pode verificar-se uma evolução massificada no sentido da incapacidade de pensar a longo prazo.”

“Aqueles no precariado têm vidas dominadas por inseguranças, incertezas, dúvidas e humilhações.”

“As pessoas inseguras deixam as outras furiosas e as pessoas com raiva são voláteis, propensas a apoiar uma política de ódio e amargura.”

Se aceitamos que os menos favorecidos sejam pouco protegidos pela legislação ou ameaçados por processos como terceirização ou contratos de trabalho temporários, estaremos também aceitando que os menos favorecidos sejam explorados e marginalizados. O problema é que os interesses econômicos se tornaram tão dominantes que as pessoas são convencidas que não existe outra forma de organizar a sociedade.

Precariat_Guy Standing

Podemos dividir a atividade humana em três setores: político-jurídico, econômico e cultural-social. Estes setores deveriam ser totalmente independentes. O setor econômico deve financiar os dois outros setores através dos impostos transparentemente. O que vemos hoje aqui no Brasil (e na maior parte do planeta) é a compra do setor político pelo setor econômico: leis são alteradas; isenções fiscais acertadas; grandes obras definidas, enquanto que os interesses da sociedade são relegados ao segundo plano. Simultaneamente a ideia de que a economia deve ser desregulamentada é vendida como se isto fosse bom para a sociedade, mas isto só beneficia os muito ricos, porque o setor econômico também compra a mídia e a cultura.

Devemos separar totalmente estes três setores para termos um futuro mais justo e sustentável. O problema é que, para obtermos sucesso, esta ação deve ser global. Seguindo o ideário da Revolução Francesa, queremos ter Liberdade na cultura, Igualdade na política e Fraternidade na economia.

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Autofagia Liberal e o Umbigocentrismo

As reformas trabalhistas e da Previdência em andamento no Brasil são provas evidentes da autofagia liberal e do umbigocentrismo dos nossos dias.

autofagia liberal

Vamos às explicações sobre o significado destas duas expressões. O liberalismo é autofágico, porque, ao buscar a maximização do lucro, pode comprometer seriamente o meio ambiente, a comunidade onde atua e, até mesmo, segmentos significativos da população de diversos país. Em 1962, Milton Friedman escreveu sua principal obra “Capitalismo e Liberdade”. Sobre a atuação do governo na economia, escreveu:

Do que precisamos urgentemente, para a estabilidade e o crescimento econômico, é de uma redução da intervenção do governo não de seu aumento.

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Milton Friedman

Alinha-se a conhecida ideia neoliberal de que tudo anda melhor se o Estado desregulamentar a economia. Sobre a responsabilidade social das empresas, o resumo de sua opinião está apresentado abaixo.

A ideia de que as empresas têm “responsabilidade social” para além de ter lucro é perigosa. Ela mostra uma concepção fundamentalmente errada da natureza de uma economia de livre mercado. Em tal economia, a obrigação social das empresas é aumentar seus lucros dentro da lei. É só isto. A aceitação pelos líderes das empresas da responsabilidade de fazerem mais que aumentar valor para os acionistas pode minar os fundamentos de nosso sistema econômico.

Como a obrigação social das empresas, segundo Friedman, é apenas aumentar seus lucros dentro da lei, se a lei for alterada em benefício da empresa, não há nenhum arrepio ético. Após alguns anos, a aplicação desta lei pode causar queda do poder aquisitivo da população e o que beneficiou a empresa, no curto prazo, através da redução de seus custos com pessoal, se voltará contra a própria empresa devido à queda de suas vendas. Autofagia!

A reforma trabalhista proposta pelo governo Temer em tramitação acelerada no Congresso é um exemplo. Cito três pontos que deveríamos pensar a respeito:

  1. Acordos coletivos prevalecem sobre a legislação.
  2. Ratificação da lei da terceirização, sancionada há pouco por Temer.
  3. Demissão em massa não precisará mais ter a concordância do sindicato.

Assim, durante um período de alto desemprego, como o que estamos vivendo atualmente, a faca e o queijo estarão nas mãos das empresas. A empresa simplesmente pode ameaçar os empregados com o encerramento de suas atividades naquele local, forçando-os a aceitar cláusulas em que abrem mão de alguns benefícios, como as “horas in itinere”, o tempo de deslocamento até o trabalho. Os bancos de horas poderão ser revalidados eternamente, se o acordo coletivo permitir.

A terceirização das atividades-fim das empresas deve gerar também uma redução dos seus gastos com pessoal, porque uma série de benefícios sociais deixam de ser pagos. Além de abrir a possibilidade de colocar outro profissional mais barato na função.

A possibilidade de fazer uma demissão em massa sem concordância do sindicato enfraquece as posições dos trabalhadores e dos próprios sindicatos. Sempre será possível mudar a empresa para uma região onde o “estoque” de mão de obra barata seja maior.

O umbigocentrismo é a certeza que o universo gira em torno do próprio umbigo. Se existe vantagem ou, até mesmo, ausência de prejuízo para o dono do umbigo, nada mais importa. O impacto nos outros de qualquer decisão não é relevante.

Umbigocentrismo

A reforma da Previdência Social brasileira mostra como as pessoas que deveriam ser mais críticas em relação às medidas estão olhando para o próprio umbigo e acatam o discurso oficial. Esta reforma acabará prejudicando sensivelmente as pessoas com escolaridade mais baixa, O ator Wagner Moura liderou uma campanha contra a reforma. Alexandre Schwartsman, ex-diretor de Assuntos Internacionais do Banco Central do Brasil e ex-economista chefe de uma série de grandes bancos privados, na sua coluna semanal na Folha de São Paulo, criticou o ator, dizendo que ele foi intelectualmente desonesto.

Wagner Moura_reforma Previdencia

Wagner Moura

Schwartsman apresentou o gráfico abaixo, baseado em dados do IBGE. O gráfico mostra qual é a expectativa de vida em cada idade para homens e mulheres. Por exemplo, uma mulher brasileira quando nasce tem expectativa de vida de 78,6 anos. Aos 60 anos, ela viveria, em média, mais 23,5 anos. Ou seja, uma mulher de 60 anos viveria, em média, até os 83,5 anos.

Expectativa de vida condicional

Gráfico do artigo de Alexandre Schwartsman, baseado em dados do IBGE [http://www.ibge.gov.br/home/estatistica/populacao/tabuadevida/2013/defaulttab_xls.shtm]

Abaixo está a explicação de Schwartsman no seu atigo, onde tenta provar que Wagner Moura foi desonesto intelectualmente ao dizer que “querem que você morra antes de se aposentar!”.

De fato, a expectativa de vida ao nascer se encontra ao redor de 75 anos, porque (infelizmente) a mortalidade infantil ainda é relativamente elevada e a violência cobra muitas vidas de homens jovens. Quem, porém, se aposenta por tempo de contribuição atinge esta condição em média aos 54,5 anos (homens 55,5 e mulheres 52,3), idade em que, como mostrado no gráfico, a expectativa de vida supera 80 anos (78,4 homens, 82,1 mulheres). Quem não comprova tempo de contribuição, os mais pobres, já se aposenta hoje aos 65 anos, com expectativa de vida de 83 anos.

Parece que você, Alexandre Schwartsman, foi desonesto intelectualmente ao pegar estatísticas que não consideram as diferenças entre regiões e nível educacional. Sua visão é liberal autofágica e umbigocêntrica. Sua visão é baseada em trabalhadores urbanos com formação superior que terão chances de manterem-se ativos até os 65 anos. Imagina pessoas com baixa formação educacional, trabalhadores braçais. Como conseguirão emprego com carteira assinada após os 55 anos?

Esta reforma da Previdência segue o velho script – trabalhadores organizados do serviço público e militares, os maiores responsáveis pelos déficits previdenciários, são deixados de lado, enquanto os trabalhadores de empresas privadas mais uma vez pagarão a conta. Não é uma razão válida colocar idade mínima de 65 anos, porque nos países desenvolvidos é esta a idade. Precisamos ser mais críticos e exercitar a empatia para nos colocarmos no lugar dos outros – os mais pobres, menos protegidos.

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