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Tua Fé Te Curou

Todo hotel brasileiro tem uma cópia do evangelho no quarto. Às vezes, depois de um dia difícil, abro o exemplar do quarto em uma página aleatória, aponto para uma passagem qualquer e leio.

Há algumas semanas, pela manhã, após alguns dias de cão, fiz isso. Caiu no evangelho de Lucas, capítulo 8, entre os versículos 43 e 48. Já conhecia esta passagem e a acho muito bonita.

Uma mulher vinha sofrendo com sangramentos por doze anos. Neste período, gastou tudo o que tinha com médicos, sem sucesso. Ela decide ir ao encontro de Jesus que estava em sua cidade. As ruas estavam lotadas, mas ela consegue aproximar-se por trás e toca na borda do manto de Jesus. A hemorragia da mulher cessa instantaneamente e Jesus quer saber quem o tocou. A mulher prostra-se aos pés de Jesus e conta para todos o motivo do seu ato, sua doença e a cura. Jesus então despede-se da mulher:

– “A tua fé te curou; vai-te em paz”.

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Jesus curando a mulher com sangramento. Afresco na Catacumba de Marcelino e Pedro, em Roma.

Eu penso que a fala poderia ser um pouco diferente:

– Tua fé, tua coragem e tua atitude te curaram.

A mulher teve . Acreditou que Jesus poderia curá-la. Talvez fosse sua última oportunidade de recuperar a saúde após doze anos de hemorragias.

Havia restrições impostas pela lei judaicas para que ela circulasse pelas ruas. Segundo Levítico 15:25,

A mulher que tiver hemorragia ou que continuar menstruada além do tempo normal será considerada impura como durante o tempo da menstruação.

Ela arriscou sua própria vida por causa da fé que Jesus poderia curá-la. Ela teve coragem.

As ruas estavam lotadas de pessoas que queriam ver Jesus, o que aumentou ainda mais o risco de ser descoberta. Mesmo assim, ela conseguiu aproximar-se dele e tocou suas vestes. Ela agiu, teve atitude.

Foi a mensagem perfeita para mim. Eu devo continuar acreditando no sucesso do projeto, devo continuar tendo coragem para enfrentar os obstáculos e devo agir para atingir todos os objetivos.

 

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O Mundo é uma Grande Diversão e Bolsonaro é Nosso Showman

A palavra diversão veio do latim divertere, que significa desviar ou voltar-se em outra direção. Ou seja, virar a cabeça para outro lado que não olhar para suas preocupações. Os militares, por exemplo, usam a palavra diversão no sentido de mudar o foco de atenção do inimigo.

Em Roma, a expressão pão e circo (panem et circenses em latim) surgiu durante o período da República. O pão representa o suprimento dos bens materiais e o circo a diversão.

Jair Bolsonaro, nos seus tempos de deputado federal, sempre se posicionou de modo polêmico e usou estas polêmicas como forma de promoção pessoal. A maioria dos brasileiros imaginava que, como presidente, ele moderaria o tom das suas declarações, mas não é o estamos presenciando.

Eu poderia escrever uma longa lista de ações e frases do atual presidente do Brasil, mas isto seria exaustivo… Daria um livro infinitamente mais denso do que o satírico “Por Que Bolsonaro Merece Respeito, Confiança e Dignidade?”. Neste artigo, citarei apenas algumas para pontuar meu raciocínio.

Livro_Bolsonaro

 

As alterações propostas nas leis de trânsito foram consideradas absurdas por todos especialistas. Afinal aumentar a pontuação para cassação de CNH de 20 para 40 pontos e acabar com os radares móveis nas estradas só favorecem os maus motoristas. E o que falar sobre o fim da obrigatoriedade das cadeirinhas para condução de crianças em automóveis?

A liberação da posse e porte de armas já era um ponto esperado no governo Bolsonaro. Entre idas e vindas de emissões e revogações de decretos presidenciais, destacaria itens como o incrível aumento da quantidade permitida de munição a ser comprada anualmente, brechas legais para a compra de fuzis e a liberação para adolescentes entre 14 e 18 anos ter aulas de tiro.

E a grande celeuma em relação à Amazônia? O estopim foi a divulgação do aumento no ritmo do desmatamento na região, baseados em dados do Inpe (Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais). Bolsonaro disparou esta declaração, apresentada abaixo, sobre o Inpe.

“A questão do Inpe, eu tenho a convicção que os dados são mentirosos. Até mandei ver quem é o cara que está na frente do Inpe. Ele vai ter que vir se explicar aqui em Brasília esses dados aí que passaram pra imprensa do mundo todo, que pelo nosso sentimento não condiz com a verdade. Até parece que ele está à serviço de alguma ONG, que é muito comum.”

A resposta do ex-diretor do Inpe, Ricardo Galvão, foi contundente.

“A primeira coisa que eu posso dizer é que o sr. Jair Bolsonaro precisa entender que um presidente da República não pode falar em público, principalmente em uma entrevista coletiva para a imprensa, como se estivesse em uma conversa de botequim. Ele fez comentários impróprios e sem nenhum embasamento e fez ataques inaceitáveis não somente a mim, mas a pessoas que trabalham pela ciência desse País. Ele disse estar convicto de que os dados do Inpe são mentirosos. Mais do que ofensivo a mim, isso foi muito ofensivo à instituição. (…) Fiquei realmente aborrecido, porque na minha opinião ele fez comigo o mesmo jogo que fez com Joaquim Levy (que pediu demissão do BNDES após também ser criticado em público por Bolsonaro). Ele tomou uma atitude pusilânime, covarde, de fazer uma declaração em público talvez esperando que peça demissão, mas eu não vou fazer isso. Eu espero que ele me chame a Brasília para eu explicar o dado e que ele tenha coragem de repetir, olhando frente a frente, nos meus olhos. Eu sou um senhor de 71 anos, membro da Academia Brasileira de Ciências, não vou aceitar uma ofensa desse tipo. Ele que tenha coragem de, frente a frente, justificar o que ele está fazendo. É uma ofensa de botequim. Não vou responder a ele e ele que me chame pessoalmente e tenha coragem de me dizer cara a cara isso.”

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Ricardo Galvão

Bolsonaro despreza as questões ambientais, inclusive já afirmou que elas importam “só aos veganos que comem só vegetais”. Como resultado das ações (ou falta delas), a Alemanha e a Noruega congelaram suas contribuições ao Fundo Amazônia, totalizando um prejuízo de 288 milhões de reais. Só a Noruega, doou 3,2 bilhões de reais para a preservação da Amazônia nos últimos dez anos. Para coroar, Bolsonaro mandou a seguinte mensagem para a primeira-ministra alemã:

“Eu queria até mandar um recado para a senhora querida Angela Merkel, que suspendeu 80 milhões de dólares para a Amazônia. Pegue essa grana e refloreste a Alemanha, ok? Lá está precisando muito mais do que aqui”.

Alguns dias depois, também mandou um recado para a Noruega.

“A Noruega não é aquela que mata baleia lá em cima, no Polo Norte, não? Que explora petróleo também lá? Não tem nada a oferecer para nós. Pega a grana e ajuda a Angela Merkel a reflorestar a Alemanha.”

Vou pular a história do cocô…

Outra faceta (poderia ser “fasceta”) é o caráter autoritário e o culto à ditadura militar brasileira. Sobre este assunto, destaco duas frases recentes. A primeira é sobre o Coronel Brilhante Ustra, chefe do DOI-CODI no início dos anos 70 (período mais duro da ditadura), acusado de chefiar pessoalmente, de forma sádica, várias sessões de tortura.

“É um herói nacional que evitou que o Brasil caísse naquilo que a esquerda hoje em dia quer.”

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Eduardo Bolsonaro, vestindo uma camiseta em homenagem ao Coronel Brilhante Ustra.

Para atacar o atual presidente da OAB, Felipe Santa Cruz, fez uma frase em que deu a entender que sabe o que aconteceu com o pai de Felipe, desaparecido em 1974.

“Um dia, se o presidente da OAB quiser saber como é que o pai dele desapareceu durante o período militar, conto para ele.”

Vou pular também a indicação do seu filho, Eduardo Bolsonaro, para a embaixada do Brasil nos Estados Unidos…

Para concluir esta seleção de frases, no final do mês de julho, Bolsonaro fez a seguinte declaração:

“Sou assim mesmo. Não tem estratégia. Se eu estivesse preocupado com (a eleição de) 2022, não dava essas declarações.”

Talvez ele não tenha realmente uma estratégia. Ou talvez, sua estratégia seja continuar agradando seus fiéis eleitores. Eu, particularmente, acredito que ele, consciente ou inconscientemente, está inserido numa estratégia maior e mais elaborada. Ele é o responsável pela diversão para o que está acontecendo no país. Ele é o showman. A recuperação da economia patina. Reformas passam pelo Congresso Nacional com o rótulo de imprescindíveis para a salvação do país. Quem discutiu com a profundidade devida o impacto da reforma da Previdência Social sobre os mais pobres? Trabalhadores braçais com baixa escolaridade conseguirão se aposentar aos 65 anos? A viúvas pobres conseguirão sobreviver dignamente com pensões inferiores a um salário mínimo? Só ouvíamos que era preciso economizar um trilhão de reais. Por quê? Veremos milhões de idosos sem teto, morando nas ruas das cidades brasileiras, nos próximos dez ou vinte anos, se nada for feito. Mas só discutíamos as declarações e propostas absurdas de Bolsonaro.

Alguém sabe alguma coisa sobre a minirreforma trabalhista, contida na chamada Medida Provisória da Liberdade Econômica? E sobre a permissão de mineração nas terras indígenas? E assim por diante…

Para contrapor uma crítica direta à sua pessoa, ao seu governo ou a um resultado ruim de alguma política pública, Bolsonaro geralmente apoia sua resposta em, pelo menos, uma falácia lógica. E lá vem aquela ladainha de falar do Lula, do PT ou da esquerda…

Bolsonaro reiteradamente exprime uma opinião de que as minorias devem se submeter à vontade da maioria. Prega, desta forma, uma espécie de ditadura da maioria. Assim quer acabar com a esquerda (“esquerdalha”, segundo seu vocabulário) ou quer retirar direitos dos índios à demarcação de terras. O seu viés autoritarista lhe impede de compreender que, em regimes democráticos, as minorias desamparadas devem ser protegidas independentemente do desejo da maioria.

Não é sem motivo que Bolsonaro se autodefine como o personagem de desenhos animados Johnny Bravo. Eu assistia este desenho no canal Cartoon Network com meu filho Leonardo no início dos anos 2000. Johnny Bravo era um loiro musculoso, pouquíssimo inteligente e completamente “sem noção”. Está bem, Bolsonaro não é loiro, nem musculoso…

Bolsonaro_Johnny-Bravo

Eric Hobsbawm, no seu livro Era dos Extremos, apresenta uma associação da direita liberal com o fascismo entre as duas Grandes Guerras Mundiais para evitar a expansão do comunismo soviético em alguns países europeus. Na sequência a extrema direita traiu os liberais. Os nazistas de Hitler se apoderaram da Alemanha; e os fascistas de Mussolini, da Itália.

Desta vez, minha impressão é que os neoliberais usarão toda a força de Jair Bolsonaro para atrair os holofotes para seus disparates, enquanto fazem as reformas que julgam corretas. Se em um determinado momento, ele atrapalhar mais do que ajudar, será escolhido algum motivo para afastá-lo através de um processo de impeachment. Não tiraram Dilma devido a pedaladas fiscais?

Enquanto isso, assistiremos a ataques contra a universidade pública, aos órgãos de proteção ambientais, aos direitos dos trabalhadores mais pobres…

 

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Polaridade e Ritmo – Precisamos disto!

Estou afastado há mais de seis meses do Sítio das Fontes em Jaguariúna, no interior do estado de São Paulo. Parece até mais tempo… Afinal, pelo menos, um final de semana por mês, durante aproximadamente um ano e meio, eu passava por lá para estudar Antroposofia ou Agricultura Biodinâmica.

Se me perguntarem os pontos mais importantes que eu vi neste período, eu respondo polaridade e ritmo, porque, como diria meu mestre Peter Biekarck, não há vida sem polaridade e ritmo. Na respiração, inspiramos e expiramos. Nos batimentos cardíacos, temos a sístole e a diástole. Alternamos o sono com a vigília. Temos o dia e a noite; o verão e o inverno; a vida e a morte…

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Peter Biekarck

Não existe o polo bom e o polo mau. Existe o equilíbrio e o desequilíbrio. O equilíbrio é saudável e o desequilíbrio é doentio. As doenças são o resultado de excessos de um dos polos, de desequilíbrios.

O organismo social também segue esta mesma dinâmica. Temos a direita e a esquerda; o liberalismo e o socialismo. Se os indivíduos buscarem maximizar as suas vantagens em detrimento do social, durante todo o tempo, haverá um desequilíbrio e o organismo social ficará doente. Cada vez mais o abismo entre os mais ricos e mais pobres crescerá. Quem nasce rico tem acesso à educação de primeira linha, enquanto quem nasce pobre tem normalmente acesso apenas a escolas de nível inferior. O mesmo vale para outras áreas como saúde e seguridade social. Assim, no extremo do liberalismo, os ricos ficarão cada vez mais ricos e os pobres cada vez mais pobres.

Por outro lado, se a pessoa não pensa minimamente em como suprir suas necessidades, acaba por tornar-se mais um peso para a comunidade na qual está inserida. Torna-se um escravo econômico (leia As Três Formas Modernas de Escravidão). Cada um deveria ter as rédeas da sua vida nas mãos. Claro que percalços ocorrem, mas as pessoas não podem ser passageiras em suas próprias vidas ou agirem como se ela e as pessoas que a rodeiam fossem menos importantes do que todos os outros.

Deste modo, recomendo para promover a saúde dos indivíduos e da sociedade que as pessoas mantenham equilíbrio entre as polaridades egoísmo e altruísmo. Se isto for atingido, será possível olhar o individual e o coletivo, evitando-se comportamentos que buscam apenas a maximização dos próprios lucros, posses, poder e prazer. O olhar e a ação no coletivo evitam este desequilíbrio e promovem a saúde do organismo social.

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Talvez a construção e administração de uma escola Waldorf, gerida por uma associação, seja um dos exemplos mais interessantes. Afinal não existe a relação cliente-fornecedor, como em uma empresa tradicional. A escola não visa ao lucro, mas deve ser sustentável ao longo do tempo. Todos devem olhar para sua própria capacidade financeira e, simultaneamente, de toda a comunidade. Cada família deve estar preocupada com a educação de todas as crianças e não somente de seus filhos. São diversas dimensões de um olhar para si e para toda a comunidade. Sem dúvida, é uma ótima oportunidade para curar a sociedade na busca do equilíbrio entre o egoísmo e o altruísmo.

 

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“A Culpa foi da Aeromoça!”

Desde que as companhias aéreas brasileiras iniciaram a cobrança para despachar bagagens no check-in dos aeroportos, a quantidade de malas e mochilas levadas para o interior dos aviões aumentou muito. Consequentemente, os bagageiros estão cada vez mais cheios, o que pode acarretar problemas de segurança, atrasos e descontentamento dos passageiros. Relato dois casos que aconteceram comigo nas últimas duas semanas que exemplificam os riscos aos quais estamos expostos a bordo das aeronaves.

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No dia 15/04, embarquei no voo LA3005 da LATAM do Aeroporto de Congonhas para São José do Rio Preto. Retirei um livro da minha mochila, antes de guardá-la no bagageiro sobre minha cabeça. Sentei na poltrona do corredor e comecei a ler o livro. Passado alguns minutos, outros passageiros colocaram suas bagagens de mão no mesmo compartimento. De repente ouvi uma senhora gritando:

– Vai cair!

Fechei o livro e o coloquei sobre minha cabeça. Uma pequena pasta, com alguma coisa pesada dentro, raspou no livro, caiu sobre o braço da poltrona e acabou no meio do corredor. Minha cabeça foi salva pelo esplêndido livro de Eric Hobsbawm, Era dos Extremos…

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O comissário de bordo recolocou a pasta no bagageiro. A porta do compartimento foi fechada e, logo após o pouso, um comissário de bordo disse as tradicionais mensagens através do sistema de som da aeronave:

– Por medida de segurança, permaneçam sentados até que o aviso de “atar cintos” seja desligado.

– Tenham cuidado ao abrir o compartimento de bagagens para a retirada dos seus pertences de mão. Eles podem ter se deslocado durante o pouso e a decolagem.

Como acontece invariavelmente, a maioria das pessoas não dá a mínima para estas orientações. O sinal de apertar cintos de segurança ainda estava acionado e as pessoas já estavam se levantando para apanhar seus objetos. A mesma pasta despencou do bagageiro e bateu na minha coxa esquerda. Ao invés de um pedido de desculpas, ouvi do passageiro que abriu o compartimento a seguinte frase:

– O cara da TAM arrumou mal a bagagem…

E eu só respondi:

– Por que a pressa?

Uma semana depois, eu estava em um voo da mesma companhia aérea, no mesmo horário, para o mesmo destino.

Após o estacionamento do avião, levantei, coloquei minha mochila sobre a poltrona e estava guardando meu livro, quando uma garrafinha de alumínio caiu do bagageiro e atingiu minha cabeça. Uma jovem tinha puxado a mochila dela e empurrou a garrafa. Ela olhou para mim e disse:

– Foi a aeromoça que colocou minha mochila em cima e soltou a garrafa.

Em nenhum dos dois casos consegui dizer “tudo bem”, porque seria muito falso dizer isso. Não estava “tudo bem”, pelo contrário… O que realmente me irritou foi a terceirização da culpa. Nenhum dos dois passageiros teve o cuidado, na situação adversa que se encontram os compartimentos de bagagens dos aviões, de procurar minimizar o risco de queda de objetos na cabeça de outros passageiros.

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Trajetória típica de um objeto caindo do compartimento de bagagens na cabine de passageiros de um avião.

Por outro lado, tenho presenciado o stress a que são submetidos os comissários de bordo das aeronaves para tentar acomodar as bagagens e os passageiros o mais rápido possível para reduzir atrasos nas decolagens. Na verdade, todos somos responsáveis pela segurança própria e das outras pessoas que nos rodeiam. Devemos cuidar uns dos outros.

Por que a pressa de se levantar, abrir o compartimento de bagagens e resgatar seus objetos pessoais? As pessoas atualmente vivem com uma pressa inconsequente e inexplicável. A tampa do bagageiro deveria ser aberta com cuidado e a bagagem (muitas vezes, pesada) só deveria ser retirada quando a pessoa estiver em frente dela e com as duas mãos livres. Assim, o risco de acidentes com ferimentos potencialmente graves poderia ser minimizado.

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As Três Formas Modernas de Escravidão

Hoje em dia se discute muito sobre a escravidão moderna. Este artigo não trata de formas de escravidão como crianças em plantações de cacau na África, nem outras formas que acontecem em propriedades rurais brasileiras. Eu gostaria de abordar os tipos mais sutis de escravidão – aqueles nos quais as pessoas não percebem que se tornaram escravas. As principais causas são econômicas. Selecionei três formas que julgo as principais.

A primeira forma é o consumismo. O consumismo é a base do capitalismo. Atualmente todas as pessoas são bombardeadas por propagandas. Nas redes sociais, são influenciadas pela ostentação de outra pessoa através de uma foto ou uma história e passam a acreditar que têm a obrigação de consumir. Passam a desejar roupas e relógios de grife, os últimos modelos de automóveis ou celulares e assim por diante. Isto tudo tem um preço. Ao adquirir mercadorias de marcas famosas, paga-se um preço alto. A marca traz status para a pessoa. E é exatamente isto que a pessoa deseja comprar. Com o passar do tempo, se não houver condições econômicas de manter este padrão de consumo, a pessoa vai “evoluir” para a segunda forma de escravidão que é a dívida.

A dívida é a forma mais perversa, porque a pessoa realmente fica escrava de instituições financeiras ou agiotas. Ela fica sem alternativas de conseguir outra coisa que não seja juntar dinheiro para pagar aquela dívida que, muitas vezes, é impagável, porque os juros correm mais rápido do que a capacidade de ganhar dinheiro. Esta é uma situação terrível.

No Brasil, a Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC) acompanha o endividamento da população mensalmente através da Pesquisa de Endividamento e Inadimplência do Consumidor (PEIC). Em janeiro de 2019, 60,1% das famílias brasileiras possuíam dívidas; 22,9% tinham contas em atraso; e pior, 9,1% das famílias brasileiras admitem que não terão condições para pagar suas dívidas. A maior parte destas famílias apresentam renda abaixo de 10 salários mínimos mensais. O quadro abaixo resume esta situação.

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O mais grave é o endividamento justamente no tipo de dívida com juros mais altos, cartão de crédito – juros 11,52% ao mês (270,03% ao ano) em janeiro de 2019. Vale ressaltar que a inflação anual oficial em 2018 fechou em 3,75%. O gráfico abaixo apresenta as principais formas de endividamento das famílias brasileiras.

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Se você quiser baixar os principais resultados do PEIC de janeiro de 2019, basta clicar no link abaixo.

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Borrowing money makes you a slave of the lender

Menos terrível do que as duas formas anteriores é a acumulação. Esta situação está muito em voga no mundo, porque muito se discute sobre aposentadoria e previdência social em diversos países. Deste modo, cria-se um medo de que as pessoas não conseguirão manter o mesmo padrão de vida anterior à aposentadoria. Então faz-se de tudo para acumular recursos até o momento da aposentadoria. Isto, muitas vezes, pode gerar enormes sacrifícios pessoais.

Qualquer uma das três formas está baseada no princípio de que a vida é assim mesmo e não há outras opções para administrá-la. Assim, deve-se continuar em um trabalho que, muitas vezes, se detesta para garantir o próprio sustento e ganhar dinheiro para o consumo, pagar dívidas, acumular para uma aposentadoria futura ou, pior, deixar para os herdeiros.

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Este é um ponto importante que as pessoas deveriam pensar a respeito. O que realmente querem para suas vidas? Quais são suas necessidades? Quais são realmente seus objetivos? Senão fica muito fácil cair nesta armadilha.

 

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Lula e Sérgio Moro Aplicam o Mesmo Modelo Ético

Muitas pessoas ao lerem o título deste artigo já ficaram tão injuriadas que não seguiram a leitura nem desta primeira frase. Claro que isto inclui os seguidores inquestionáveis de Lula e os de Sérgio Moro. Neste artigo, não defenderei os erros de nenhum dos lados. Apenas demonstrarei meu ponto de vista, tanto Lula, quanto Moro empregam o mesmo modelo de ética.

Recentemente assisti novamente ao filme Watchmen. Os principais personagens adotam diferentes modelos de ética. Recomendo que assistam ao filme (disponível no Netflix) dirigido por Zack Snyder ou leiam o livro em quadrinhos (romance gráfico), escrito por Alan Moore e ilustrado por Dave Gibbons. A Revista Time considerou este livro um dos cem melhores romances publicados em inglês desde 1923. A seguir apresento o modelo ético de alguns personagens do filme.

Rorschach segue o modelo da Deontologia, também conhecido como a ética de Kant. É o agir pelo dever. Pode parecer estranho, mas só pode ser atingida através do livre arbítrio. Só a vontade pode embasar a moralidade e suplantar os instintos. Para Rorschach, tudo é preto no branco; é olho por olho, dente por dente.

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Immanuel Kant

Ozymandias e Dr. Manhattan seguem o modelo teleológico, também conhecido como Utilitarismo. Foi defendido pelos filósofos e economistas britânicos Jeremy Bentham e John Stuart Mill. Pode ser resumida na frase “agir sempre de forma a produzir a maior quantidade de bem-estar”. Para Ozymandias, pessoas podem ser prejudicadas para o benefício da maioria.

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Jeremy Bentham e John Stuart Mill

Coruja II segue a ética da virtude clássica, a ética do filosofo grego Aristóteles. Ele busca o equilíbrio, o caminho do meio, entre os extremos.

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Aristóteles

Se já viu o filme ou não pretende vê-lo, siga a leitura. Caso contrário, os próximos parágrafos serão spoilers. Volte ao artigo após a foto dos super-heróis do filme. E quando for assistir ao filme, lembre-se de que é um filme de super-heróis só para adultos.

O filme se passa nos anos 80, onde uma guerra nuclear entre os Estados Unidos e a União Soviética é iminente. Ozymandias traça um plano para destruir algumas das principais cidades do planeta, usando uma tecnologia desenvolvida através dos poderes do Dr. Manhattan. Quando isto acontece os EUA e a URSS se unem contra um inimigo comum (Dr. Manhattan) e o mundo entra em um período de paz. Ou seja, Ozymandias mata milhões para salvar a vida de bilhões, seguindo o utilitarismo.

Rorschach e o Coruja tentam impedir o plano sem sucesso. Dr. Manhattan e Espectral aparecem e, ao verem na TV o discurso do presidente americano, Nixon, os heróis se dão conta que contar a verdade poderia destruir a paz obtida através do plano de Ozymandias. Rorschach não se conforma e, mesmo sabendo que provavelmente aquele seria o último ato de sua vida, diz que denunciaria o plano de Ozymandias, porque todos têm o direito de saber a verdade.

Temos então o seguinte diálogo:

Ozymandias – Será mesmo Rorschach, se me denunciar irá sacrificar a paz pela qual milhões morreram hoje.
Coruja II – Paz baseada em uma mentira.
Ozymandias – Mas é paz, apesar de tudo.
Dr. Manhattan – Ele está certo.
Espectral – Não, não podemos fazer isso!
Dr. Manhattan – Você me ensinou o valor da vida humana, se quisermos preservá-la aqui, temos que ficar em silêncio.
Rorschach – Fiquem vocês com suas mentiras! Não faço acordos, nem mesmo
diante do Armagedom.

Fora do palácio de Ozymandias, Rorschach encontra Dr. Manhattan e o diálogo prossegue.

Dr. Manhattan – Rorschach, você sabe que não posso permitir isso!
Rorschard – Se tivesse se importado desde o começo com a humanidade nada disso aconteceria.
Dr. Manhattan – Posso mudar quase tudo Rorschach, mas não posso mudar a natureza humana.
Rorschach – Claro, deve proteger a utopia de Veidt (nome verdadeiro de Ozymandias). Um cadáver a mais não faz diferença. Muito bem, o que está esperando, vai me mate, me mate…

Dr. Manhattan explode Rorschach, porque também aderiu ao utilitarismo. A morte de Rorschach garantiria a paz e, deste modo, as vidas de bilhões estariam salvas. Por outro lado, Rorschach seguiu a ética de Kant até o último instante de sua vida. A justiça e a verdade devem estar acima de tudo, não importam as consequências.

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Watchmen – da esquerda para direita: Ozymandias, Dr. Manhattan, Espectral II, Rorschach, Coruja II e Comediante

 

Voltando agora a Lula e Sérgio Moro…

No livro “Uma ovelha negra no poder”, dos jornalistas Andrés Danza e Ernesto Tulbovitz, lançado em 2015 sobre a vida do ex-presidente uruguaio, Pepe Mujica, há um trecho sobre o Mensalão, escândalo que assolou o primeiro mandato de Lula. Abaixo transcrevo a página do livro traduzida para o português.

Lula teve de enfrentar um dos maiores escândalos da história recente do Brasil: o mensalão, uma mensalidade cobrada por alguns parlamentares para aprovar os projetos mais importantes do Poder Executivo. Compra de votos, um dos mecanismos mais antigos da política. Até José Dirceu, um dos principais assessores de Lula, está processado por esse caso.

“Lula não é corrupto como era Collor de Mello e outros presidentes brasileiros”, disse Mujica, referindo-se ao caso. Contou também que Lula viveu aquele episódio com angústia e com um pouco de culpa. “Neste mundo tenho que lidar com muitas coisas imorais, chantagens”, disse Lula com pesar a Mujica e Astori, algumas semanas antes de assumirem o governo do Uruguai. “Essa era a única forma de governar o Brasil”, se justificou. Eles tinham ido visitá-lo em Brasília, Lula sentiu necessidade de esclarecer a situação. “O mensalão é como este país, tudo é enorme”, refletiu.

“O mensalão é mais velho do que o agujero del mate (expressão uruguaia que se refere a algo velho)”, opina Mujica. Grandes políticos da história tiveram de recorrer a mecanismos semelhantes. “Às vezes, este é o preço infame das grandes obras”, argumentou ao lembrar-se Abraham Lincoln, justo nos dias em que havia estreado um filme de Steven Spielberg sobre a vida do presidente dos Estados Unidos, no qual ele mostrou como ele tinha que entregar algo em troca de votação para seus projetos.

De acordo com Mujica, Lula aceita pagar o mensalão para viabilizar o seu governo. O pagamento a deputados para votarem a favor das leis propostas pelo governo é ilícito e imoral. Este ato vai contra a Deontologia (a ética de Kant), porque afronta a justiça e a verdade. Por outro lado, ao aprovar rapidamente essas leis, o governo obteve o que precisava para a execução do seu plano. Ou seja, a ética usada foi utilitarista.

O pior no utilitarismo é que pode seguir aquela máxima de que os fins justificam os meios. E isto fica claro nos escândalos de corrupção que visavam financiar a permanência do PT no governo, investigados pela Operação Lava-Jato.

Sérgio Moro cometeu um ato ilegal ao divulgar a escuta telefônica em que Lula conversava com a então presidente Dilma Rousseff. Ele despachou às 11:13 do dia 16/03/2016, suspendendo a escuta telefônica contra o ex-presidente Lula. No mesmo dia, às 13:32 foi gravada a conversa de Lula com Dilma, onde é combinada a assinatura do termo de posse de Lula como Ministro da Casa Civil. Apesar da escuta ser considerada ilegal, Moro derrubou o sigilo e liberou sua divulgação. Não estou nem discutindo a questão do foro para autorizar a divulgação de grampo telefônico de uma presidente no exercício do cargo.

Moro, no seu despacho que autoriza a divulgação dos áudios, arremata:

“A democracia em uma sociedade livre exige que os governados saibam o que fazem os governantes, mesmo quando estes buscam agir protegidos pelas sombras.”

Eu sei que você ficou em dúvida se Moro agiu como Rorschach, seguindo a ética kantiana numa luta para punir o mal, ou como Ozymandias, seguindo o utilitarismo em que os fins justificam os meios.

A condenação de Lula no caso do “Triplex do Guarujá” pode dirimir esta dúvida. Moro condenou Lula a 9 anos e meio de prisão por corrupção passiva e lavagem de dinheiro. O problema é que o triplex nunca saiu do nome da OAS, foi inclusive usado como garantia na Caixa. A condenação foi baseada em alguns depoimentos e mensagens, sem provas realmente concretas.

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Lula e Moro no interrogatório do Processo do Triplex do Guarujá  (Fonte: Folha de São Paulo).

Para Kant, o Estado não pode punir um cidadão para inibir os outros a cometerem ilícitos. Neste caso, o utilitarismo seria aplicado. A pena é uma retribuição ética que se justifica pela moral, fundamentando a pena tão somente pelo mal que o condenado já praticou e não como uma maneira utilitária de promover o bem de outros ou do próprio condenado.

Sérgio Moro agiu em relação à Lula de acordo com a perspectiva do utilitarismo. Mesmo sem provas suficientes para condená-lo, ele decidiu fazê-lo, removendo Lula do processo eleitoral brasileiro no ano passado.

Para completar, Moro suspendeu os novos interrogatórios de Lula para evitar exploração política que pudesse interferir nas eleições. Por outro lado, há seis dias do primeiro turno das eleições presidenciais, quebrou o sigilo da delação de Antônio Palocci que fazia acusações contra Lula. Assim Moro, mais uma vez, agiu de modo utilitarista, reduzindo as chances eleitorais do PT. Afinal, na sua visão, seu objetivo de combater a corrupção seria prejudicado com a volta de Lula, ou pelo menos de alguém do PT, à presidência de República.

E você segue qual perspectiva ética – kantiana, utilitarista ou aristotélica?

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I’m Not Dog No – A Servidão Voluntária

O cantor e humorista cearense Falcão ganhou destaque nacional, quando lançou uma música com o mesmo título deste artigo. A versão em inglês do antigo sucesso de Waldick Soriano não é o tema deste artigo, e sim o comportamento canino e sua semelhança com o de inúmeros grupos de humanos.

Falcao

Cantor cearense Falcão

Tenho passado, rotineiramente, os dias da semana em uma pequena cidade do interior de São Paulo, Orindiúva. Como adquiri nos últimos meses o hábito da corrida, pelo menos duas vezes por semana, saio do hotel para treinar antes das 6 horas da manhã. No percurso de quase sete quilômetros, percorro ruas e contorno praças da cidade. Nos últimos dois ou três meses, comecei a notar que o número de cães nas ruas da cidade está crescendo, servindo de base para minha observação sobre a etologia (comportamento) canina. A seguir listo minhas sete principais conclusões.

Orindiuva_GoogleMaps

Foto de satélite da cidade de Orindiúva

1. Cães gostam de estar junto às pessoas

Os trabalhadores das usinas da região costumam esperar nas praças da cidade os ônibus que os conduzem ao trabalho. Frequentemente os cachorros ficam junto com os trabalhadores que interagem e alimentam os animais.

2. Cães seguem uma rotina

Logo após as partidas dos ônibus com os trabalhadores, as praças esvaziam e as matilhas se deslocam para outro local, onde há outras pequenas aglomerações de pessoas. Esta rotina se repete até perto das 7 horas da manhã, quando vários cachorros ficam próximos de uma escola municipal.

3. Cães solitários normalmente são tímidos

Cães solitários não costumam latir para pessoas. Ao cruzar no caminho, pode-se notar uma certa tensão no olhar do animal.

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Cão solitário

4. Cães agem de forma parecida quando estão em grupo

Quando estão em grupo, os cachorros começam a homogeneizar suas ações e reações. Parecem um único indivíduo dividido em várias partes. Todos demonstram alegria, medo ou agressividade ao mesmo tempo.

5. Cães menores são os maiores influenciadores do comportamento da matilha

Invariavelmente são os cachorros menores que influenciam os maiores. Talvez por serem mais inquietos e ativos, os cães menores começam as brincadeiras, latem e atacam algum pedestre.

6. Cães gostam de atacar alvos em movimento

Cães adoram atacar ciclistas, motociclistas e “pessoas que correm pelas ruas às 6 horas da manhã”. Este é meu maior problema, quando corro ao redor de uma praça orindiuvense e uma matilha resolve me acuar.

7. A força do cão está na matilha e a fraqueza está no indivíduo

A prova que a matilha é forte e o cão solitário é fraco aconteceu em um dia que uma pequena matilha ficou me perseguindo e latindo ao meu redor. Após uns 50 metros, todos os cães desistiram de me seguir com exceção de um animal. Neste momento, eu comecei a correr atrás dele por uns 10 metros, antes de retomar minha rota. O cãozinho ficou apavorado e se escondeu atrás de uma estátua de onde ficou me espiando. Ou seja, ele era valente no grupo e ficou covarde sozinho.

Cachorro matilha

Matilha

Felizmente, até agora a cachorrada das ruas de Orindiúva não me mordeu. Só ficam latindo ao meu redor, quando passo perto de uma matilha. Como escreveu sabiamente o cantor Falcão, “dog’s au-au it’s not nhac-nhac” (ou em bom português, cão que late não morde).

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Meus dois “melhores amigos” em Orindiúva

O ser humano tem a faculdade de pensar criticamente e agir de acordo com seus princípios, mas muitos abdicam da liberdade de discordarem de seu grupo e deixam-se levar pelo pensamento único. Agem como se só haveria força se seguissem sua “matilha”.

Não pensar criticamente é o caminho para servidão voluntária.

Escrevi três artigos sobre obediência baseado nos trabalhos de dois psicólogos americanos, Stanley Milgram e Philip Zimbardo. No trabalho de Milgram, as pessoas davam choques em outras simplesmente, porque alguém (a autoridade) assumia toda a responsabilidade. No experimento de Zimbardo, quem fazia o papel de guarda em uma penitenciária fictícia passou a humilhar quem fazia o papel de preso. E a maioria destes “presos” aceitou os desmandos e humilhações como se não houvesse alternativa.

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Stanley Milgram e Philip Zimbardo

Recentemente li o “Discurso sobre a Servidão Voluntária”, escrito pelo filósofo francês Étienne de La Boétie no século XVI. Fica claro que seguir ordens e não reagir contra elas, mesmo quando veementemente não se concorda com elas, é muito mais confortável. As pessoas podiam se rebelar e simplesmente desobedecer ao tirano, mas seguem atendendo suas ordens. Os submissos são responsáveis pela sustentação da tirania.

Étienne de La Boétie

Étienne de La Boétie

Hannah Arendt, filósofa alemã de origem judaica, acompanhou o julgamento do nazista Adolf Eichmann em Israel. Ela esperava encontrar um monstro, mas viu um homem absolutamente normal, um burocrata responsável pela logística de transporte de judeus até os campos de extermínio. Segundo Eichmann, ele simplesmente estava cumprindo a sua obrigação. Baseada nessa observação, Arendt cunhou o termo “Banalidade do Mal”.

Hannah Arendt

Hannah Arendt

Voltando a Philip Zimbardo, ele listou sete processos sociais que facilitam o escorregão para o mal no seu livro “O Efeito Lúcifer”:

– displicentemente dar o primeiro passo;
– desumanização dos outros;
– anonimato;
– responsabilidade individual difusa;
– obediência cega à autoridade;
– conformismo não crítico às regras do grupo;
– tolerância passiva ao mal pela inação ou indiferença.

O filósofo austríaco Karl Popper foi um grande defensor da tolerância, entretanto explicitou seus limites no livro “Sociedade Aberta e seus Inimigos” de 1945.

“Tolerância ilimitada leva ao desaparecimento da tolerância. Se estendermos tolerância ilimitada até mesmo para aqueles que são intolerantes, se não estivermos preparados para defender a sociedade tolerante contra a investida dos intolerantes, então os tolerantes serão destruídos, e a tolerância junto destes.”

Karl Popper

Karl Popper

Esta tolerância ilimitada poderia ser substituída por passividade – processo que transforma pessoas livres em zumbis ou simples cães de rua que só conseguem agir de acordo com a vontade da matilha que espera a iniciativa de seus mais insignificantes membros para sair da inércia.

P.S.: Aproveito para fazer um apelo ao prefeito da cidade de Orindiúva. A cidade apresenta ótima conservação de ruas, praças e prédios públicos, além de oferecer à população bons serviços nas áreas de educação e saúde. Está na hora de implantar um programa de castração dos cães de rua e oferecer este serviço para que os moradores possam esterilizar seus animais domésticos com baixo custo. Assim evitar-se-á a multiplicação de animais nas ruas e aumento de casos de zoonoses.

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