Arquivo da categoria: Meio Ambiente

Os Veganos e os Orgânicos

O veganismo não é somente um tipo de dieta, é muito mais do que isto. Na verdade, ser vegano é optar por uma filosofia de vida, onde qualquer sofrimento animal é intolerável.

Começo por uma definição sobre veganismo divulgada pela The Vegan Society em 1979:

“Uma filosofia e modo de vida que procura excluir – na medida do possível e praticável – todas as formas de exploração e crueldade de animais para alimentação, vestuário ou qualquer outro propósito e, por extensão, promove o desenvolvimento e uso de alternativas livres de animais em benefício dos seres humanos, dos animais e do meio ambiente. Em termos alimentares, denota a prática de dispensar todos os produtos derivados total ou parcialmente de animais.”

Deste modo, um vegano não se alimenta com produtos de origem animal como carne, leite, ovos, mel e todos os seus derivados. Não usa roupas de couro, seda ou lã. Não usa cosméticos ou produtos de limpeza testados em animais. Também não aprova diversões como zoológicos, aquários, rodeios e shows com animais.

go-veganNo que se refere à alimentação, o vegano só consome plantas e seus derivados, sua dieta é estritamente vegetariana. Como sabemos, atualmente, a agricultura comercial emprega fertilizantes químicos para garantir a fertilidade do solo; herbicidas, para reduzir a concorrência de outras espécies vegetais por água e nutrientes do solo; e pesticidas, para que insetos não se alimentem de partes das plantas, reduzindo a produtividade da lavoura.

A agricultura orgânica supre as necessidades de nutrientes do solo com resíduos de animais e vegetais. Deste modo, não são adicionadas novas quantidades de nitrogênio (extraído do ar e transformado em amônia através da síntese de Haber-Bosch) e fósforo (extraído através de mineração) aos ciclos destes nutrientes. Para obter mais detalhes, leia o artigo Temos Tempo para Discutir o Aquecimento Global?, e você verá que existem outros problemas ambientais tão importantes quanto o aquecimento global – o desequilíbrio dos ciclos de nitrogênio e fósforo é um dos mais graves. Outra motivação para o consumo de produtos orgânicos é o não uso de herbicidas e pesticidas, o que é benéfico para quem se alimenta dos vegetais e para a natureza em geral.

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Neste ponto, um vegano chegaria a um dilema – as frutas, grãos e verduras orgânicas não são provavelmente veganas, porque geralmente usam dejetos de criação de animais como fertilizante. Vocês poderão concluir que, pelo menos, os dejetos provêm de animais criados de forma orgânica, sem confinamento, mas esta prática é apenas uma recomendação. De acordo com a norma que rege à agricultura orgânica, os agricultores de locais sem disponibilidade de dejetos oriundos de produção orgânica poderão usar dejetos de produção convencional, sem que seu produto deixe de ser rotulado como orgânico. Estrume de vacas confinadas e camas de frango de aviários são exemplos de fertilizantes permitidos nestas circunstâncias.

As camas de frango são misturas de serragem colocadas no piso de aviários para receber os excrementos das aves. São gerados entre 1,0 e 1,5 kg de cama de frango por ave. Se considerarmos que em 2016 foram abatidos aproximadamente 6 bilhões de frangos no Brasil, houve geração entre 6 e 9 milhões de toneladas de cama de frango.

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Aviário comercial com cama de frango.

Atualmente cerca de 80% do total dos antibióticos produzidos no mundo são consumidos por animais que servirão como alimento para humanos. Os frangos possuem aparelho digestivo curto e uma quantidade significativa do medicamento não é absorvida por seus intestinos. Deste modo, suas fezes contaminadas com antibióticos são incorporadas às camas de frangos.

O tratamento normalmente empregado para a estabilização deste resíduo é a compostagem em grandes pilhas, onde os microrganismos presentes na cama degradam parte da matéria orgânica, elevando a temperatura acima de 70°C. As pilhas são periodicamente revolvidas e, depois de alguns dias, os microrganismos patogênicos são inativados. As especificações exigidas na regulamentação dos produtos orgânicos com relação ao patógenos são atendidas. Por outro lado, as moléculas dos antibióticos são apenas parcialmente degradadas e não existe restrição, quanto as concentrações máximas permitidas para o uso como fertilizante orgânico.

Quando esta cama de frango estabilizada é utilizada como fertilizante no solo, os efeitos são imprevisíveis, resultando, por exemplo, na degradação parcial das moléculas dos antibióticos com a geração de moléculas mais tóxicas, na absorção parcial pelas plantas, na contaminação de águas superficiais e lençol freático, além da seleção de superbactérias patogênicas.

Então um vegano poderia chegar à conclusão que talvez seja melhor comprar produtos agrícolas oriundos de adubação química. Assista ao vídeo abaixo e depois discutiremos alternativas.

Existe a possibilidade de usar adubação 100% vegetal, estabilizada através de compostagem. A Embrapa Agrobiologia, localizada no estado do Rio de Janeiro, desenvolveu compostos totalmente vegetais a partir da compostagem de mistura de torta-de-mamona com bagaço de cana-de-açúcar ou palhada de capim-elefante com excelente desempenho e isento de contaminantes biológicos ou químicos.

Assim os vegetarianos em geral e especificamente os veganos (além dos onívoros que consomem orgânicos) deveriam buscar informação sobre a forma de fertilização do solo onde seus orgânicos foram produzidos. Alimentos produzidos com resíduos da pecuária comercial não deveriam ser certificados como orgânicos. Admitir o uso de cama de frango na agricultura auxilia na redução dos custos da avicultura comercial que promove exploração e maus-tratos em animais, polui o meio ambiente e compromete a saúde dos humanos.

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Dia Mundial da Água – Apresentação sobre Poluição Hídrica para Crianças

No dia 22 de março comemora-se o Dia Mundial da Água. Sendo bem redundante, seria “chover no molhado” falar sobre a importância da água para todos os seres vivos.

Em 2015, fiz uma apresentação sobre poluição hídrica para um grupo de crianças do projeto da Associação São Paulo da Cruz, junto à Igreja do Calvário no Bairro Pinheiros em São Paulo.

A apresentação on line está disponível abaixo.

Se você quiser baixar o arquivo original em PowerPoint, basta clicar no link abaixo.

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Guia para apresentação:

Slide 1 – capa.

Slide 2 – explique que os peixes respiram o oxigênio que está dissolvido na água, enquanto nós respiramos o oxigênio que está no ar.

Slide 3 – descobra quais crianças já tiveram aquário em casa. Elas darão depoimentos que comprovam um importante mecanismo da poluição hídrica a ser explicado na sequência da apresentação.

Slide 4 – a grande maioria das pessoas que tem ou já tiveram um aquário matou todos os peixes por colocar mais alimento do que os peixes conseguem consumir. Isto normalmente acontece, durante uma ausência mais prolongada da família, para que os peixes não passem fome.

Slide 5 – gere discussão da causa da morte dos peixes.

Slide 6 – explique que, na água, no ar, no solo, no nosso corpo, existem microrganismos (invisíveis sem o auxílio de um microscópio). As bactérias são um dos principais grupos dos microrganismos.

Slide 7 – explique que as bactérias se alimentam, respiram e se multiplicam em grande velocidade, enquanto houver alimento.

Slide 8 – conclua que os peixes morreram asfixiados, porque não havia mais oxigênio dissolvido na água do aquário. Como havia excesso de alimento, as bactérias começaram a se reproduzir com grande velocidade e consumiram todo o oxigênio dissolvido e os peixes não conseguiram mais respirar e morreram.

Slide 9 – mostrar que a poluição pode ser apenas uma quantidade exagerada de alimento que os peixes não conseguirão consumir.

Slide 10 – explique que a poluição pode ser causada por uma substância tóxica como venenos e metais pesados.

Slide 11 – apresente exemplos de fontes geradoras de poluição. O primeiro exemplo é o esgoto doméstico. Sim, o nosso cocô, quando chega no rio pode servir de alimento para os peixes e as bactérias. Como as bactérias se multiplicam rápido e existe muito alimento (cocô) no rio, elas acabam consumindo todo oxigênio e os peixes morrem.

Slide 12 – o efluente líquido de uma indústria também pode causar poluição nos rios. Dependendo do tipo da indústria, seu efluente pode ser parecido com o esgoto doméstico ou ser um veneno para toda a vida aquática.

Slide 13 – os efluentes agrícolas podem ser água da chuva ou de irrigação contaminada por fertilizantes ou agrotóxicos.

Slide 14 – o esterco de animais segue a mesma lógica da poluição causada pelo esgoto doméstico (slide 11).

Slide 15 – existem muitos lixões localizados próximos a rios que terminam por contaminá-los. Muitas pessoas jogam lixo no chão e, quando chove, este lixo é arrastado para os bueiros das ruas e chegam até os rios, gerando poluição. Neste caso, a poluição é causada pelo excesso de alimento (matéria orgânica) e por venenos (substâncias tóxicas).

Slide 16 – este é um exemplo de tragédia ambiental. No final de 2006, cerca de 100 toneladas de peixes morreram no Rio dos Sinos no Rio Grande do Sul. Houve uma combinação de seca no rio, de altas temperaturas, de esgoto doméstico não tratado e lançamentos clandestinos de algumas indústrias e de um grande aterro de resíduos industriais. Este slide poderia ser substituído pelo do desastre de Mariana, causado pelo rompimento da barragem da mineradora Samarco, que encheu o Rio Doce de lama tóxica.

Slide 17 – pergunte o que devemos fazer para evitar a poluição dos rios.

Slide 18 – explique que é melhor evitar que a poluição seja gerada do que tratar os seus efeitos. Assim o primeiro passo é não gerar resíduos e economizar água.

Slide 19 – se não for possível evitar a geração de resíduos, procure reaproveitá-los ou reciclá-los.

Slide 20 – se depois de todas as medidas para evitar a geração de resíduos, ainda sobrar alguma coisa, devemos tratá-la antes de devolvê-la novamente ao meio ambiente. Esta figura mostra uma estação de tratamento de esgotos da cidade de São Paulo. O esgoto passa inicialmente por um sistema de gradeamento, onde os sólidos maiores são removidos. Depois passa por um tanque de sedimentação, onde os sólidos menores são separados. Na sequência, o líquido é conduzido para um tanque onde microrganismos consomem a matéria orgânica solúvel. Estes microrganismos são separados do líquido antes de retornar o esgoto tratado para o rio.

Slide 21 – Os sólidos retirados nas diversas etapas do tratamento são digeridos por bactérias em tanques fechados, concentrados e secos.

Slide 22 – O tratamento de esterco de vacas e porcos em biodigestores anaeróbios produz biogás que pode ser usado para geração de calor ou energia elétrica. Os sólidos biodigeridos podem ser usados como fertilizantes na agricultura. Assim um resíduo altamente poluente pode ser reaproveitado.

Slide 23 – Agradecimento final.

Espero que esta apresentação seja útil para apresentar a seus filhos e alunos. Estou à disposição para esclarecer quaisquer dúvidas.

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A Entrevista de Yuval Harari no TED – Nacionalismo x Globalismo

Na noite de segunda-feira recebi um e-mail do TED com o link da conversa do historiador israelense Yuval Noah Harari, autor de Sapiens: Uma Breve História da Humanidade, com Chris Anderson.

Vale a pena assistir ao vídeo. Harari considera impossível lidar com as grandes questões atuais da humanidade em escala nacional. Como resolver a questão ambiental sem uma coordenação global? Como disciplinar os fluxos de capital especulativo ou coibir a circulação de dinheiro oriundo de atividades ilícitas? Como regular o desenvolvimento e aplicação de novas tecnologias como a Inteligência Artificial e a Bioengenharia? Globalismo, neste contexto, seria a construção de um sistema que coloque os interesses de todo o mundo acima dos interesses de cada nação. Assim devemos construir um novo sistema. Claro que uma estrutura supranacional deve ser criada com muito cuidado para evitar a criação de uma casta de notáveis ou de burocracia desnecessária.

No documentário “Requiem for the American Dream”, o filósofo e cientista político Noam Chomsky apresenta a financeirização (redução da atividade industrial e aumento da atividade financeira) da economia americana. Em 1950, 28% do PIB era advindo da indústria e 11% do setor financeiro. Em 2010, apenas 11% era oriundo da indústria e 21% do PIB vinha do setor financeiro. Aproximadamente 40% dos lucros corporativos, em 2007, foram de instituições financeiras. Isto ocorreu após a redução da regulamentação do setor financeiro ocorrida nos Estados Unidos nas décadas de 70 e 80. Como resultado, houve crescimento na especulação financeira que terminou estourando na crise de 2008. Hoje Donald Trump fala em desregulamentar mais a economia americana. O economista francês, Thomas Piketty, autor do best seller “Capital do Século XXI”, também alerta para o perigo da financeirização da economia global. Ou seja, a ação para evitar novas crises financeiras, que geram instabilidade e desemprego em vários países do mundo, deve ser global.

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Da mesma forma, a questão da Inteligência Artificial (AI) deve ser analisada globalmente, porque sua aplicação poderá gerar desemprego em massa no futuro. Neste caso, as populações dos países mais pobres devem ser as mais prejudicadas. As discussões éticas sobre a aplicação da Bioengenharia em seres humanos é outro ponto crítico com a possibilidade da criação de super-humanos. Se não houver uma regulamentação global, alguns países podem restringir a aplicação, enquanto outros liberá-la irrestritamente.

As pessoas precisam se dar conta de que não é possível voltar no tempo e usar velhos modelos. Eles não funcionarão no futuro. Há 2.500 anos o filósofo Heráclito de Éfeso disse algumas frases que deveríamos, no mínimo, refletir a respeito.

Da luta dos contrários é que nasce a harmonia.

Tudo o que é fixo é ilusão.

Não se pode entrar duas vezes no mesmo rio.

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Heráclito de Éfeso

O mundo está em eterna transformação, novos modelos devem ser criados. Aquela tese exótica do “fim da história” do filósofo e economista Francis Fukuyama, sobre o triunfo definitivo do modelo da democracia liberal, está fortemente abalada. Estas discussões bobas sobre direita e esquerda aqui no Brasil são grandes perdas de energia e de tempo. As pessoas devem parar de olhar para trás como se a história fosse se repetir para um lado ou para outro, porque o rio continua correndo e, quando nos banharmos em suas águas, veremos que não é mais o mesmo rio e nem nós somos os mesmos.

Hirari faz um outro alerta sobre nossa desconexão com a natureza e, até mesmo, com nós mesmos. Este poderia ser um bom ponto de partida, ficar menos em frente das telas (computador, celular, tablete, televisão) e olhar mais para dentro de si, para as pessoas em volta, para o mundo que nos cerca, para a natureza. Em janeiro assisti na escola das minhas filhas a uma palestra do professor alemão Dr. Peter Guttenhoefer. Num momento ele disse estas frases simples:

O andar faz o pé.
O uso faz a mão.
O pensar faz o cérebro.

Como nossas crianças estão usando seus pés, mãos e cérebros? Como é o ambiente em que nossas crianças estão inseridas? Estão próximas à natureza ou em um ambiente quase hospitalar? Qual é a diversão delas – televisão e tablet? Precisamos nos conectar ao mundo real e ajudar nossas crianças a fazer o mesmo. Só desta forma poderemos viver num mundo mais sadio.

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Temos Tempo para Discutir o Aquecimento Global?

Há sete anos, escrevi um artigo (Aquecimento Global é um Dogma e Dogmas não Podem Ser Discutidos) onde discutia-se a certeza que o aquecimento global é causado pelo ser humano. Após estes anos, estou convencido que dificilmente será provada a teoria antropogênica do aquecimento global. Afinal a Terra já passou por eras glaciais e eras de aquecimento, sem a presença dos humanos ou, antes da Revolução Industrial com a humanidade presente. Fica muito difícil provar se a concentração de CO2 é causa ou consequência. Como provar cientificamente que a humanidade é a causadora deste ciclo de aquecimento? Esta é uma boa hipótese, mas é somente uma hipótese.

Se você insistir com o argumento sobre o aumento da concentração de CO2 e demais gases do efeito estufa na atmosfera, corremos o risco de seguir uma falácia lógica conhecida pela expressão latina post hoc ergo propter hoc (depois disso, logo causado por isso), também chamada de correlação coincidente. Por exemplo, quando A ocorreu, B ocorreu, logo A é a causa de B. Muitas vezes isto não é verdade…

Se não tem como provar a teoria antropogênica do aquecimento global, vale à pena arriscar? Prefiro que a humanidade faça as coisas do jeito certo, como se a teoria estivesse correta, mude os padrões de consumo e seja mais sustentável.

As mudanças climáticas são apenas um dos aspectos do que vem acontecendo de errado com o meio ambiente da Terra. O pesquisador sueco Johan Rockström e o químico americano Will Steffen lideraram um grupo de cientistas que propôs 9 limites planetários que não deveriam ser transpostos.

1. Mudanças climáticas
2. Perda da integridade da biosfera (perda de biodiversidade e extinção de espécies)
3. Destruição do ozônio estratosférico
4. Acidificação dos oceanos
5. Fluxos biogeoquímicos (ciclos do fósforo e do nitrogênio)
6. Mudança do sistema terrestre (por exemplo, o desmatamento)
7. Utilização da água doce
8. Carga atmosférica de aerossóis (partículas microscópicas na atmosfera que afetam o clima e os organismos vivos – ainda não quantificado globalmente)
9. Introdução de novas entidades (por exemplo, poluentes orgânicos, materiais radioativos, nanomateriais, e microplásticos – ainda não quantificado globalmente)

Atualmente quatro destes nove itens ultrapassaram o limite seguro e entraram na “zona de perigo”: mudanças climáticas, perda da integridade da biosfera, fluxos biogeoquímicos e mudança do sistema terrestre.

A humanidade está gerando a sexta grande onda de extinção de espécies da história da Terra. As outras cinco foram causadas por causas naturais – erupção de grandes vulcões ou impacto de asteroides, meteoros e cometas. Podemos chegar a 2020 com apenas um terço da população de vertebrados de 1970. A figura abaixo mostra a aceleração do número de extinções de vertebrados.

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Taxa de extinção de vertebrados (Fonte: WWF – Living Planet Report 2016)

O desequilíbrio dos ciclos de nitrogênio e fósforo é causado pelo uso crescente de fertilizantes na agricultura. Há um século, os químicos alemães Fritz Haber e Carl Bosch inventaram um processo para produzir amônia (composto básico para a produção de fertilizantes) a partir do nitrogênio atmosférico. Deste modo, quantidades enormes de nitrogênio sob forma de amônia e nitratos foram introduzidas no ciclo do nitrogênio, desequilibrando-o totalmente.

O fósforo é um elemento químico com reservas mais ameaçadas do que, por exemplo, o petróleo. Já escrevi um artigo sobre esta questão (A Ameaça da Fome no Mundo – Reciclar é Preciso, Extrair não é Preciso). Como o fósforo é extraído do subsolo como mineral, purifica-se para ser empregado na agricultura sob a forma de fosfato. O maior problema é que as plantas não aproveitam todo nitrogênio e fósforo adicionado ao solo e as chuvas arrastam o excesso para os rios, reduzindo a concentração de oxigênio dissolvido, o que prejudica a vida aquática. Ao chegar nos oceanos causa as chamadas dead zones (zonas mortas) nas regiões costeiras, onde há redução expressiva na viabilidade da vida marinha. O delta do Rio Mississippi, no Golfo do México, é um dos principais casos. Atualmente mais de 400 pontos de dead zones foram detectados na Terra. Veja a figura abaixo.

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Dead zones (Fonte: Robert Simmon & Jesse Allen – NASA Earth Observatory)

A agricultura, além de contribuir fortemente para a extinção de espécies e para o desequilíbrio nos ciclos do nitrogênio e do fósforo, tem causado desmatamento, alteração radical de ecossistemas e desertificação de muitas áreas do planeta (o quarto item a superar os limites planetários – mudança do sistema terrestre). Sem contar que apenas a pecuária é responsável por 14,5% dos gases de efeito estufa, o que ajudaria na mudança climática.

Obama fez um grande esforço para que os Estados Unidos se comprometesse com redução de emissões e assumisse um acordo na COP21 em Paris. Provavelmente, com Trump na presidência, os Estados Unidos ficarão de fora como já aconteceu com o Protocolo de Kyoto. Os Estados Unidos nunca gostaram de assumir acordos e resoluções internacionais. Por exemplo, o país não é signatário da maioria dos tratados referentes aos direitos humanos.
Este é o problema se Donald Trump botar para quebrar na questão ambiental, como a indicação de Scott Pruitt como administrador da EPA (agência americana de proteção ambiental), nossos filhos e netos viverão num planeta bem diferente do que o atual. Em dezembro, o jornal El País iniciou assim seu artigo sobre a indicação de Pruitt:

O presidente eleito dos Estados Unidos, Donald Trump, escolheu para ser o novo responsável pela política do país para o meio ambiente um promotor veterano de Oklahoma que não acredita que a ação humana interfira na mudança climática e que dedicou seus últimos anos a vetar na Justiça as regulamentações propostas por Barack Obama na batalha contra o aquecimento global. Scott Pruitt, promotor geral do Estado que mais utiliza petróleo e gás de forma intensiva, será o novo diretor da Agência para Proteção do Meio Ambiente dos EUA.

Na semana passada, Pruitt foi sabatinado pelo senado americano para ter a indicação de seu nome confirmada. O Senador Bernie Sanders deu uma verdadeira prensa em Pruitt e perguntou por que o clima estava mudando. A resposta de Pruitt foi evasiva:

– O clima está mudando e a atividade humana contribui para isto de alguma maneira.

Se quiser ver o vídeo com a íntegra dos questionamentos de Sanders para Pruitt ou ler a transcrição completa, basta clicar no link abaixo do Washington Post.

https://www.washingtonpost.com/news/energy-environment/wp/2017/01/18/bernie-sanders-to-scott-pruitt-why-is-the-climate-changing/?utm_term=.75539e270718

A humanidade tem feito um “ótimo” trabalho para destruir a Terra. Agora com a ajuda de Trump e sua equipe, parece que o trabalho será ainda mais bem executado…

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Índia – Meio Bilhão Atrás da Moita

Como comentei no artigo anterior, estive na feira IFAT, em Munique, no mês passado. Assisti a uma apresentação sobre um projeto de cooperação entre Índia e Alemanha na área de saneamento básico.

IFAT 2016

M. Sevala Naik, Cônsul Geral da Índia em Munique, na IFAT

Estima-se que a população atual da Índia seja 1,3 bilhões de habitantes, 17% da população humana no planeta, vivendo em 2,5% da terra, dispondo de apenas 4,0% da água fresca. Em breve, deverá ultrapassar a China e se tornar o país mais populoso do mundo. Em 2050, estima-se que sua população esteja em torno de 1,7 bilhões de habitantes, a maioria estará vivendo em cidades.

A seguir apresento dois slides que fotografei de uma das apresentações sobre a Índia.

India - slide 1

As cidades com mais de 50 mil habitantes geram diariamente 38 milhões de metros cúbicos de esgoto. Apenas uma pequena fração deste total é tratada de forma eficiente. Além dos esgotos domésticos, existe a poluição industrial causada, principalmente por farmacêuticas, têxteis e curtumes. O resultado final é a poluição de 75% das águas superficiais do país.

Por outro lado, apenas um terço das casas destas cidades está ligada a sistemas de coleta de esgoto, como pode ser visto no slide abaixo.

India - slide 2

Atualmente cerca um terço da população indiana vive em áreas urbanas. Se 12,6% das pessoas que vivem em cidades fazem suas necessidades a céu aberto, isto representa 55 milhões de pessoas. Outras 25 milhões de pessoas usam banheiros públicos, totalizando mais 80 milhões sem privadas em casa.

Na zona rural, a situação ainda é muito pior! Mais da metade dos habitantes faz suas necessidades a céu aberto, 450 milhões de pessoas. Ou seja, mais de meio bilhão de pessoas na Índia defecam na rua ou atrás de moitas. Observe a situação em outros países no mapa abaixo.

Defecating in the Open - Global

Em julho de 2014, The Economist fez uma reportagem sobre o assunto. Leia um trecho traduzido abaixo.

Narendra Modi, primeiro-ministro da Índia, diz que a construção de banheiros é uma prioridade sobre templos. Seu ministro das Finanças, Arun Jaitley, utilizou o orçamento deste mês para definir uma meta de acabar com a defecação a céu aberto em 2019. Isto acontecerá 150 anos após o nascimento de Mohandas Gandhi que disse que o bom saneamento era mais importante do que a independência.

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Primeiro-ministro Narendra Modi

Esta deve ser uma das maiores e mais importantes iniciativas na área do saneamento básico em toda a história da humanidade. Você consegue imaginar um político que prioriza construção de privadas ou invés de grandes obras?

A decisão do primeiro-ministro indiano segue uma lógica clara – má higiene pública leva a problemas de saúde, má nutrição e mortalidade infantil –, sem falar do grande risco de estupro para as mulheres devido à falta de um banheiro junto a suas casas. Superar este problema requer um plano abrangente, porque envolve educação e mudança de hábitos culturais, não apenas a construção de mais de cem milhões de novos banheiros pelo governo.

Termino este artigo com o mesmo pensamento que iniciei o artigo anterior. Fica escancarado como nosso mundo é desigual. Assisti a palestras na IFAT sobre a remoção de micropoluentes da água, através de processos sofisticados com o uso de carvão ativado e membranas, e a um seminário sobre a situação delicadíssima do abastecimento de água e saneamento básico na Índia.

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Péssimas condições sanitárias na Índia  [Fonte: The Economist]

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Por um Mundo mais Sadio e Justo – o Lixo e a Consciência

Após passar alguns dias na maior feira do mundo de tecnologia para tratamento de água, esgotos e reciclagem, a IFAT, em Munique na Alemanha, fica escancarado como nosso mundo é desigual. Assisti a palestras de como remover micropoluentes da água, através de processos sofisticados com o uso de carvão ativado e membranas, e a um seminário sobre a situação do abastecimento de água e saneamento básico na Índia.

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IFAT 2016 – painel Future Dialog

Na manhã do primeiro dia da feira, assisti a um painel muito interessante, “Um mundo sem desperdício – visão ou ilusão? ”, no qual quatro apresentadores mostraram suas visões sobre o assunto e o que estavam fazendo sobre o tema. O cientista Prof. Dr. Michael Braungart afirmou que os principais problemas já são conhecidos há 25 anos, mas muito pouco foi feito até hoje. A questão não é melhorar o que está aí, mas criar algo novo que não gere resíduos. O antimônio, por exemplo é um metal pesado usado como catalisador no processo de fabricação de garrafas PET e pode contaminar os líquidos contidos por elas. Outro exemplo é a série de metais pesados utilizados em equipamentos eletrônicos que não são reciclados e poluem o meio ambiente.

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Michael Braungart

O representante de Gana no painel, o jornalista e ambientalista Michael Anane, denunciou que mensalmente quinhentos containers são enviados para seu país por nações desenvolvidas com equipamentos eletrônicos obsoletos, boa parte deste material sem nenhuma condição de uso ou conserto. Nestes casos, fios são queimados ao ar livre, para recuperar o cobre que, posteriormente, será enviado para a Europa. Todo o material que sobra é lançado em um lixão, onde metais extremamente tóxicos, como mercúrio e cádmio, contaminam o solo. Se achou esta transferência de lixo tóxico estranha, você está certo! A Convenção de Basel (Basileia, em português) proíbe estas movimentações de resíduos perigosos e sua disposição final em outros países.

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Michael Anane

Se por um lado, os países desenvolvidos discutem os princípios da “economia circular”, onde resíduos não são gerados ou são aproveitados nos próximos elos da cadeia produtiva, por outro lado, os olhos são tapados para que lixo tóxico seja jogado “embaixo do tapete” dos países pobres.

Uma reportagem interativa do portal de notícias Al Jazeera mostra este grave problema humano e ambiental. Leia sem preconceito, o site é muito bom.

E-waste Republic – Al Jazeera

Existem uma série de iniciativas elogiáveis como o “Plastic Bank” criado pelo canadense David Katz, um dos apresentadores do painel. O “Plastic Bank” cria centros de processamento de resíduos de plástico em áreas muito pobres que têm uma quantidade elevada deste tipo de resíduo. O objetivo do “Plastic Bank” é liderar o movimento em direção a uma demanda mundial para o uso deste “Social Plastic” em produtos de uso diário. Quanto maior for a demanda, maior será o impacto social para ajudar os pobres do mundo. Segundo Katz, grande parte do plástico nos oceanos do mundo é originária dos países em desenvolvimento. Deste modo, o “Plastic Bank” criou um sistema para evitar o desperdício de plástico lançado em oceanos, rios e cursos de água, tornando-o muito valioso para ser simplesmente jogado fora.

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David Katz

Para se ter ideia do tamanho deste problema, copiei o parágrafo abaixo do site da ONG Instituto Akatu (www.akatu.org.br).

Por ano, 250 milhões de toneladas de plástico produzidas e cerca de 35% desse montante são usados apenas uma vez, por apenas 20 minutos. Após o uso, em torno 10% do material descartado tem como destino o mar, revelou um estudo da Race for Water, fundação suíça dedicada à preservação da água.

A jornalista alemã independente Hanna Gersmann, quarta apresentadora do painel, defendeu a existência de um ambiente legal que favoreça os processos sustentáveis através, por exemplo, da taxação de processos muito intensivos em recursos. Os plásticos e papéis oriundos de reciclagem, por exemplo, deveriam ser menos tributados do que os produtos obtidos, respectivamente, a partir do petróleo e da madeira.

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Hanna Gersmann

No Brasil, a gasolina é mais pesadamente tributada do que etanol. Deste modo, aumenta a viabilidade econômica das pessoas abastecerem seus automóveis com um combustível renovável do que com o combustível fóssil, reduzindo a emissão de gás carbônico (principal gás do efeito estufa) por quilômetro rodado.

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Tributação dos combustíveis no Brasil

Michael Braungart, juntamente com o designer William McDonough, criou uma abordagem para o projeto de produtos ou sistemas chamada “Cradle to Cradle”. O nome é uma oposição à expressão do inglês “cradle to grave”, berço ao túmulo. Assim a ideia é um ciclo contínuo interminável, sustentável, baseado em cinco princípios:

  1. Saúde ligada ao material – ausência de compostos tóxicos, como metais pesados ou produtos químicos cancerígenos, para a saúde das pessoas e do meio ambiente. Neste item, também está incluída a origem das matérias primas, por exemplo, a origem da madeira – floresta nativa ou reflorestamento.
  2. Reutilização do material – todo o material deve ser recuperado ou reciclado após o final da sua vida útil.
  3. Energias renováveis – em todas as etapas do processo devem ser empregadas majoritariamente energias renováveis.
  4. Água limpa – o consumo de água deve ser minimizado e a água empregada deve ser reutilizada no próprio processo, reciclada ou, se não houver outra alternativa, tratada e devolvida ao meio ambiente com qualidade aceitável.
  5. Responsabilidade social – o impacto do produto ou sistema sobre a comunidade deve ser positivo.

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Tem um ponto que deve ser atacado em paralelo com o redesenho de processos produtivos – o consumismo crescente no mundo. Você acha racional trocar de celular anualmente? Apple e Samsung trazem todo ano novos modelos de seus carros chefe, iPhone e Galaxy. Qualquer destes aparelhos multifuncionais de dois ou três anos atrás já possui mais utilidades do que a esmagadora maioria dos mortais jamais imaginou. Podemos, além de fazer ligações telefônicas, trocar mensagens eletrônicas instantâneas (inclusive de áudio e vídeo), tirar fotografias em alta resolução e imediatamente compartilhá-las através de e-mails ou nas redes sociais, usar navegadores (Waze e Google Maps) que nos ajudam a chegar a qualquer lugar, fazer transações bancárias, ouvir música, ver vídeos, ler e escrever textos, tomar conhecimento sobre as últimas notícias, passar o tempo com jogos. Tudo isto está na palma de nossas mãos, precisando apenas de uma conexão sem fio com a Internet, mas muita gente se sente obrigada a comprar o modelo recém lançado e o “antigo” vai para a gaveta. Nos últimos modelos, até mesmo a remoção das baterias de lítio é complexa com a necessidade de ferramentas especiais.

O consumo de produtos descartáveis é outro ponto a ser atacado. Se mais de um terço de todo o plástico produzido no mundo, 90 milhões de toneladas, é descartado logo após o uso, devemos também repensar nosso estilo de vida. Estes plásticos são sacos e filmes que envolvem alimentos e produtos em geral, copos, pratos, garrafas, canudos e talheres. O destino final deste recurso transformado em lixo, pode ser o estômago de peixes, aves marinhas e tartarugas. Não seria melhor voltar aos velhos tempos e usar utensílios de vidro ou aço e embalagens de papel? Assista ao vídeo abaixo.

 

Resumindo, nosso planeta tem recursos e capacidade de regeneração finitos. Não adianta estimular o consumo, se não existe boas soluções para aproveitar o produto após sua vida útil. Não adianta também se livrar do problema, enviando resíduos para países pobres. A solução deve ser holística e sustentável – ambientalmente, socialmente e economicamente. Os nossos hábitos e valores devem seguir esta condição, porque, ao comprar um produto, deveríamos pagar todos os custos ambientais e sociais que este produto carrega desde sua produção até seu destino final após a vida útil. Nosso consumo deve ser consciente!

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São Paulo “Atacama” – A Verdade sobre a Seca em São Paulo

El Niño foi generoso com os paulistas e, nos últimos quatro meses, choveu um pouco mais do que a média histórica para o período. El Niño, para os que não conhecem o “menino”, é um fenômeno que se caracteriza pelo aquecimento das águas superficiais do Oceano Pacífico, causando grandes mudanças climáticas. No Sul do Brasil, aumenta a quantidade de chuvas; no Sudeste, eleva a temperatura ambiente; e no Nordeste, causa estiagem. Segundo previsões, esta condição pode se estender até o início de 2016.

São Paulo é uma zona de transição. Deste modo, não ficou embaixo d’água, como os estados do Sul ou ficou seco como os estados nordestinos. Choveu na medida certa em 2015, como está apresentado na tabela abaixo, onde são apresentadas as médias históricas e as chuvas acumuladas mensalmente sobre cada manancial. Os dados foram obtidos no site da Sabesp. Para ver a tabela em tamanho maior, basta clicar em cima dela.

Tabela das chuvas sobre os sistemas de abastecimento de São Paulo em 2015

Tabela das chuvas sobre os sistemas de abastecimento de São Paulo em 2015

Apenas no pequeno sistema Alto Cotia, as chuvas ficaram significativamente abaixo da média em 2015. O Guarapiranga ficou bem acima, o que gerou um bom aumento no seu volume, como veremos a seguir. No Alto Tietê, as chuvas ficaram na média; no pequeno Rio Claro, ficaram acima; e no Cantareira e Rio Grande, as chuvas ficaram um pouco abaixo da média histórica.

Fiz tabelas semelhantes para o período entre outubro de 2012 e outubro de 2014. Para não saturá-los com uma montanha de números, resumi tudo nesta tabela e neste gráfico.

Tabela das chuvas sobre os sistemas de abastecimento de São Paulo entre 2013 e 2015

Tabela das chuvas sobre os sistemas de abastecimento de São Paulo entre 2013 e 2015

 

Grafico chuvas sp 2013-2015

Em 2013, as chuvas ficaram entre 15 e 20% abaixo do histórico no Cantareira, Guarapiranga e no Alto Cotia; na média, no Alto Tietê; e acima da média nos demais sistemas. No ano passado, tivemos uma seca muito severa que atingiu todos os mananciais, com exceção do Rio Claro. O volume de chuvas foi aproximadamente 40% menor do que o esperado.

A variação dos volumes dos mananciais está apresentada na tabela e no gráfico abaixo.

Tabela dos volumes dos sistemas de abastecimento de São Paulo entre outubro de 2012 e outubro de 2015

Tabela dos volumes dos sistemas de abastecimento de São Paulo entre outubro de 2012 e outubro de 2015

 

Grafico volumes sp 2013-2015

A próxima tabela sintetiza tudo! A variação do volume de cada sistema foi calculada com base na sua capacidade total, incluindo os volumes mortos.

Tabela chuvas-volumes 2013-2015

Fica claro que São Paulo viveu apenas um ano de estiagem – 2014. As chuvas em 2013 e 2015 ficaram dentro da normalidade. No Cantareira, apesar de não haver uma grande estiagem em 2013, 15% de sua capacidade total foi consumida, 185 milhões de metros cúbicos. Entre outubro de 2013 e outubro de 2014, no auge da estiagem, 41% da capacidade do Cantareira foram consumidos, incríveis 526 milhões de metros cúbicos. Durante este período, muito pouco foi feito:

– inicio do programa de descontos da Sabesp em fevereiro de 2014;
– início do uso do primeiro volume morto do Cantareira em maio de 2014;
– início do uso do segundo volume morto do Cantareira em outubro de 2014.

Em setembro de 2015, 81% dos clientes da Sabesp reduziram seu consumo em relação ao ano anterior e ganharam descontos na conta d’água. Mesmo com esta economia e chuvas dentro da média histórica, o volume total dos mananciais cresceu nos últimos doze meses apenas 164 milhões de metros cúbicos (7% da capacidade total). Os dois principais sistemas, Cantareira e Alto Tietê, ficaram com seus níveis praticamente estáveis.

Ou seja, o sistema de abastecimento de água de São Paulo continua frágil e as poucas obras concluídas em 2015, não ajudariam a resistir a um novo período de estiagem. Por que nada foi feito em 2014? Havia as eleições e o governador Geraldo Alckmin concorria à reeleição. Deste modo, preferiu minimizar, em seus discursos, os riscos do desabastecimento de água. Depois colocou a culpa no clima e prossegue com a mesma tática. Imagina se estivéssemos com uma seca de quatro anos como a Califórnia?

Neste momento de “petralhas” e “coxinhas”, certamente os tucanos dirão que sou petista. Tenho a isenção de quem já denunciou a administração petista de Novo Hamburgo (cidade gaúcha onde morei quase vinte anos). O PSDB está duas décadas no poder em São Paulo e tratou a questão do abastecimento de água do estado de forma secundária. O mais importante era garantir o lucro e a distribuição de dividendos que caem no caixa do estado com liberdade para ser usado onde o governo quiser sem aquelas vinculações “indesejáveis”.

Alckmin sabia da gravidade da crise hídrica e não cumpriu sua obrigação para garantir sua reeleição. Agiu de má-fé. Se ele achasse que o problema não era importante, então seria um incompetente e não merecia vencer a eleição. Da mesma forma, Dilma sabia da gravidade da crise econômica do país e mentiu na campanha eleitoral para a presidência da república. Também agiu de má-fé. A prova foi a nomeação de Joaquim Levy para o Ministério da Fazenda e as medidas de austeridade econômica que seu governo tenta aprovar no Congresso desde o início deste ano. O El Niño salvou Alckmin, Dilma parece não ter a mesma sorte…

Os políticos brasileiros estão muito interessados em garantir a próxima eleição. Fazer o que deve ser feito e servir o povo fica para um plano secundário ou terciário…

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