A Maior Emoção da Minha Vida

A Claudia estava no quinto ou sexto mês da gravidez, quando tomou uma decisão para mim surpreendente. Ela havia optado por ter a Luiza através de um parto normal humanizado. Sempre achei que cesárea era melhor para a mãe e para o bebê. Afinal escolhe-se a data, horário, hospital, médico, anestesista e pediatra. Na hora marcada, o casal chega no hospital e pronto… Para quebrar minha resistência, ela me “recomendou” a leitura do livro editado pela UNESP “Parto Normal ou Cesárea?” Após ler o livro, aceitei a escolha da Claudia.

Parto Normal ou Cesárea - UNESP

Depois fizemos um curso em um final de semana sobre parto natural, onde eram apresentados vários aspectos como as fases do parto, as posições, necessidade e tipos de anestesia, as situações nas quais as cesárias são indicadas. No final da tarde, assistimos ao curta-metragem “Sagrado” do Dr. Paulo Batistuta, onde os partos humanizados de duas mulheres em um hospital são apresentados de forma crua. Muita gente ficou chocada!

A próxima etapa foi montar a equipe: médica obstetra, pediatra e obstetriz (facilitadora do parto, também conhecida como parteira), visitar o Hospital São Luiz que tem duas salas para este tipo de parto e acertar a parte burocrática com o plano de saúde. Tudo certo!

No início da manhã da quinta-feira passada, eu estava no banheiro quando a Claudia entrou e disse que a bolsa tinha rompido. Duas horas depois começaram as contrações. O grande momento enfim estava chegando…

Minha família (meu filho, minha mãe, tia e irmão) havia chegado do Rio Grande do Sul na semana anterior para passar o Natal conosco e conhecer o seu mais novo membro. Por ironia do destino, o voo estava marcado para a tarde deste dia. Ou seja, não puderam ver pessoalmente a Luiza.

Até o meio-dia não houve muita evolução. No início da tarde, as contrações aumentaram em frequência, duração e intensidade. A obstetriz passou no nosso apartamento para avaliar a situação. Após o exame, concluiu que o colo do útero já estava mais macio, mas quase não havia dilatação e poderia demorar até dois dias para o parto. Ela foi embora para atender a outros compromissos, mas a partir desta hora o jogo mudou: o tampão caiu, havia uma contração a cada dois ou três minutos com duração de 40 a 50 segundos. A Claudia começou a sofrer e não tinha tempo suficiente para descansar entre as contrações, nem conseguia se alimentar. Tentou uma ducha de água morna, mas nada mudou. Resolveu então enviar uma mensagem para a obstetriz e eu liguei depois para o celular dela, pedindo para ela reavaliar a Claudia no final da tarde.

Ela chegou, fez o exame e ficou surpresa com a evolução do processo durante pouco mais de três horas, já estava com 5 ou 6 centímetros de dilatação. Chegou a hora de ir para a maternidade. Pegamos as malas, documentos e a mochila com o notebook, máquina fotográfica e filmadora. A Claudia já saiu de casa com vontade de fazer força para expulsar o nenê. Decidimos ir para a maternidade no automóvel da obstetriz que dirigiu loucamente pelas ruas de São Paulo. Enquanto dirigia, telefonou para a médica e para a pediatra, com a última não conseguiu contato. E a Claudia segurando a Luiza e sofrendo…

Entramos no saguão, avisei que ela estava em trabalho de parto com 41 semanas e o pessoal do hospital já a levou para a triagem, enquanto eu providenciava a internação. Depois de apresentar documento de identidade, carteira do convênio, senha para o procedimento, dar várias informações para o cadastro e antes do processo estar concluído, apareceu a obstetriz, fazendo sinal que eu devia deixar a burocracia para depois, porque a Claudia já seria encaminhada para a suíte do parto natural. Ela já estava com 9 a 10 centímetros de dilatação. Larguei tudo e saí correndo. Encontrei a Claudia, a obstetriz e a fotógrafa no elevador. Fui ao vestiário e troquei de roupa e desci para acompanhar o parto. Na escada, encontrei com a médica obstetra e falei:

– Oi, tudo bem? Vamos até a Claudia?

Como eu só havia encontrado a médica na primeira consulta com a Claudia, não fui reconhecido e ela pensou que eu fosse um anestesista oferecido e disse:

– Acho que você está me confundindo com outra pessoa!

Eu retruquei sorrindo:

– Acho que não…

Quando entramos na sala, ela se deu conta que eu sou o esposo da cliente e ficou totalmente sem jeito, pediu desculpas, queria dar explicações, mas o importante era a Claudia que já estava em uma enorme banheira com água quentinha. Sentei no banquinho próximo. Avisaram-me que não conseguiram contato com a pediatra “titular” (problema com o celular), mas a substituta estava a caminho.

A obstetriz orientava a Claudia que fazia força para dar a luz a nossa filha. A médica explicou que estava chegando a hora do “círculo de fogo”, quando a cabeça do nenê passaria pelo períneo. Depois de mais algumas contrações, a cabecinha da Luiza apareceu rapidamente e voltou. A médica descreveu o que havia acontecido e a Claudia decidiu que da próxima vez ela conseguiria. Na contração seguinte, a cabeça saiu. Emocionei-me, meus olhos se encheram de lágrimas, mas continuava apreensivo, porque a “batalha” ainda não havia terminado. A médica retirou duas voltas do cordão umbilical em torno do pescoço da Luiza e, depois de algum tempo, juntamente com a obstetriz, ajudaram a retirar o nenê.

Momento em que Luiza fica com a Claudia na banheira.

Momento em que Luiza fica com a Claudia na banheira.

A Luiza foi colocada sobre o peito da mãe, mas aquele momento de ternura foi interrompido bruscamente, porque havia algo errado com nossa garotinha. Colocaram um clipe, cortaram o cordão e levaram a Luiza para aspirar as vias aéreas, porque ela não estava respirando bem. Como a nossa pediatra ainda não havia chegado na suíte de parto, as profissionais da emergência do hospital realizaram os procedimentos. Neste momento, fiquei como uma “barata tonta”, tentava consolar a Claudia, que ainda estava na banheira, e acompanhar o procedimento na Luiza. Foi uma grande alegria quando ela chorou e começou a respirar normalmente.

Levaram a Claudia para a cama, para onde Luiza também foi levada após ser identificada e pesada. Finalmente o período de ternura reiniciou com a garotinha no colo, procurando e sugando o seio da mãe. Infelizmente tive que descer para fazer toda a burocracia da internação. Uma hora depois voltei para a suíte, onde nós três ficamos nos curtindo por um tempo. Depois eu e a Claudia fomos para o quarto e a Luiza teve uma longa passagem pelo berçário até a enfermeira levá-la ao nosso encontro.

Luiza no colo da Claudia.

Luiza no colo da Claudia.

A Claudia resumiu assim no Facebook:

Minha nova princesa nasceu hoje, na banheira, sem anestesia, sem cortes e ávida por mamar…
Estou super bem, diferente de quando fiz a cesárea da Júlia.
Ela tinha 41 semanas e pesou 3705g. Uma bolinha…

Meu resumo é diferente. A Claudia já queria que o parto da Júlia fosse normal e foi induzida pelo obstetra a fazer cesárea. Desta vez, ela não aceitou o procedimento padrão dos obstetras da rede privada. Negou-se a aceitar o “terrorismo” que induz as grávidas a evitarem o parto normal. No caso dela, o obstetra disse que havia probabilidade de rompimento do útero, porque seu primeiro parto foi uma cesárea, mas ela foi obstinadamente atrás de informações. Depois fez tudo que pudesse facilitar o parto: Yoga, massagens, Epi-No. Óbvio que não foi um passeio no parque, mas foi um parto sem lacerações, cortes ou pontos, onde a mãe pode ter um contato mais íntimo com a filha… Uma experiência inesquecível onde ela foi a principal agente! Só posso agradecê-la por ter participado.

Eu poderia fazer um plágio da música “Amor e Sexo” da Rita Lee e dizer:

Parto normal é imaginação
Fantasia
Cesária é prosa
Parto normal é poesia…

Aconselho todos os casais grávidos a procurarem informações científicas de qualidade, porque todos têm o direito de escolherem o que for melhor para si. A cesárea é uma operação delicada e como tal só deve ser realizada se houver real necessidade, sem contar as complicações e dores do pós-operatório. A Cláudia indicou alguns sites sobre o assunto.

http://www.maternidadeativa.com.br
http://casamoara.com.br
http://www.partodoprincipio.com.br/index.php
http://www.amigasdoparto.com.br/evidencias.html

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6 Comentários

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6 Respostas para “A Maior Emoção da Minha Vida

  1. Pingback: Post 200 – Retrospectiva | World Observer by Claudia & Vicente

  2. Vicente,

    Parabéns pela chegada da Luiza!

    E também pelo apoio que você deu à escolha da sua esposa pelo parto normal. É muito legal esse suporte à opção que ela fez, a despeito da algumas “autoridades médicas” desencorajarem. Penso que ninguém tem mais autoridade para decidir sobre o parto do que a própria mulher.

    Abraço,

    Eduardo

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    • Eduardo,

      Grato pelo comentário!

      Acredito que este é um dos males do nosso tempo, as pessoas preferem lavar as mãos e deixar a responsabilidade pela decisão com os “especialistas”. No caso do parto normal ou cesárea, muitas mulheres (e homens) preferem a previsibilidade da data para não perderem as férias, o feriadão, a viagem. Enquanto esperava para fazer a certidão de nascimento da Luiza no posto do cartório do hospital, conversei com um segurança que me contou que no feriadão de Natal a maternidade ficou praticamente vazia, porque a grande maioria dos partos é realizada através de cesarianas.

      Sem contar o caso dos partos domiciliares e a tentativa dos Conselhos de Medicina de proibi-los, configurando uma clara ingerência das corporações na liberdade de opção dos indivíduos. Se não buscarmos informações e criarmos uma postura crítica, não alteraremos o status quo e somente poderemos aceitar cegamente as regras vigentes.

      Abraço,

      Vicente

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  3. Suzy Rhoden

    Vicente, li o relato emocionante do nascimento da Luiza. Vocês estão de parabéns pela escolha, em especial a Claudia pela determinação, fundamentada em amplo conhecimento a respeito do assunto e experiência anterior com o nascimento de Julia. As fotos são lindas, não deixam dúvidas de que o momento foi marcante e comovente! Em minha primeira gestação, tomei decisão semelhante a de Claudia, incentivada por uma obstetra maravilhosa e muito presente em minha vida. Também preparei-me de todas as maneiras para facilitar o parto, motivo pelo qual aguardei confiante a hora de meu neném ao invés de programar um tempo para sua chegada. Vivi todas as etapas preliminares, experimentei as contrações, tendo minha obstetra ao meu lado por muitas horas, durante as quais, por maiores que fossem nossos esforços, não houve qualquer evolução na dilatação. Depois de quase 24h, optamos pela cesáea para preservar o bebê, já que na época eu residia no interior e não contava com a estrutura de uma maternidade como a descrita por ti em seu relato. Deu tudo certo, felizmente. Mas deixo aqui meu depoimento totalmente favorável ao parto natural e meus parabéns pela decisão de vocês. Encerro desejando um Ano Novo de muitas alegrias para sua linda família, um abraço!

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    • Suzy,

      Grato pelo seu depoimento!

      Parece que normalmente os obstetras não incentivam o parto normal, a sua é uma das gloriosas exceções. Claro que muitas vezes não temos o controle sobre tudo. Você não conseguiu o parto normal que desejava e a Claudia não pode ficar os primeiros minutos com a Luiza no colo ainda unidas pelo cordão umbilical. Agora se ficarmos passivos, os outros decidem por nós…

      Feliz 2013!!!

      Grande abraço,

      Vicente

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      • É exatamente assim, Vicente, poucos profissionais da obstetrícia incentivam o parto normal. Praticamente todas as minhas amigas tiveram cesáreas. Eu, porém, fui privilegiada com uma obstetra competente e dedicada ao extremo, que ao mesmo tempo em que me orientava, me dava a liberdade para fazer minha escolha. Penso que isso é fundamental, pois precisamos estar seguras daquilo que queremos, sendo respeitadas em nossa decisão, desde que ela não signifique riscos evidentes para nós, enquanto gestantes, nem para a criança. Claudia foi persistente em sua decisão pessoal e o resultado foi lindo de se ver! Já passei a dica de seu blog e os sites indicados por Claudia para minha cunhada gestante, a fim de que ela também faça com segurança e amplo conhecimento a sua escolha em relação ao tipo de parto que quer ter. Não podemos ser passivos em algo tão especial, não é mesmo? Mais uma vez, parabéns!

        Um abraço,

        Suzy

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