Arquivo do mês: fevereiro 2013

Agnus Dei, Agnus Homines

Um velhinho octogenário, baixo, cabelos brancos está sentado na mesa de trabalho no interior dos seus aposentos. Seu mordomo anuncia a chegada e pergunta no que pode servi-lo. O velhinho retira seus óculos de leitura, encara seu interlocutor e após longos segundos fala:

– Paolo, você se lembra de nossa conversa sobre a missão espinhosa que estou enfrentando? Você tem certeza de que deseja sacrificar sua vida por esta causa?

O mordomo sem titubear responde:

– Claro Vossa Santidade! O que sinto mais fortemente dentro de mim é a convicção de que agirei exclusivamente por amor, eu diria um amor visceral, pela Igreja de Cristo e seu representante!

Ao ouvir isto, o Papa deschaveou a segunda gaveta do lado direito da mesa, ergueu-se lentamente e disse:

– Então você sabe o que fazer! Que Deus te projeta e tenha misericórdia de nossas almas…

Vagarosamente Bento XVI caminhou até a peça ao lado, onde se ajoelhou no oratório e começou a rezar. Enquanto isso, Paolo retirava da gaveta uma série de cartas e documentos, colocou-os dentro de uma fronha, depois enrolou tudo com uma toalha. Desceu as escadas até o vestiário, trancando o material precioso em seu armário.

Papa Bento XVI com seu mordomo Paolo Gabriele

Papa Bento XVI com seu ex-mordomo Paolo Gabriele

O resto da história todo mundo já sabe. Era janeiro de 2012, Paolo Gabriele, mordomo pessoal do Papa há seis anos, entregou os documentos jornalista italiano Gianluigi Nuzzi. Estava criado o Vatileaks, escândalo que escancarou as lutas pelo poder no Vaticano, corrupção, nepotismo e lavagem de dinheiro no IOR (Istituto per le Opere di Religione, vulgo Banco do Vaticano).

Atenção - Aviso Importante

Claro que o início deste post é uma obra de ficção, mas poderia ter acontecido da forma que descrevi acima. Se nos aprofundarmos nas teorias conspiratórias, lembro-me do caso de Albino Luciani, o Papa João Paulo I, popularmente conhecido como “Papa Sorriso”. Em 1978, ele foi escolhido para substituir Paulo VI, mas seu pontificado durou apenas 34 dias. Oficialmente ele teve morte natural, provavelmente ataque cardíaco, mas não foi feita autópsia. O jornalista britânico David Yallop afirma em seu livro ”Em Nome de Deus” que o Papa morreu envenenado, porque no dia seguinte ele excluiria toda a cúpula do IOR. Se esta versão é verdadeira ou fantasiosa, não sabemos, mas talvez Bento XVI tenha decidido não arriscar…

Papa João Paulo I, o Papa Sorriso

Papa João Paulo I, o Papa Sorriso

Voltando para minha versão sobre o mentor do Vatileaks, o Papa atual não contava com a passividade do rebanho dos católicos. Parece que houve mais indignação com o vazamento dos documentos do que com o conteúdo em si. Deste modo, Bento XVI preocupou-se em “limpar a barra” de seu mordomo Paolo da melhor forma possível, perdoando-o e libertando-o no final do ano passado. Na sequência tomou uma decisão surpreendente, optou pela renúncia, voltando a iluminar, com uma potência ainda maior desta vez, todos os escândalos e mazelas da Igreja Católica. Todas suas manifestações a partir da divulgação da sua decisão de renunciar foram contundentes como esta:

– É preciso superar individualismos e rivalidades que deturpam a face da Igreja.

Tenho um desejo utópico que a Igreja Católica se refundasse neste conclave e retornasse à sua origem baseada nos ensinamentos de Jesus, no amor e na compaixão. Por outro lado, gostaria que assuntos onde a Igreja tem sido retrógrada como, por exemplo, contracepção, pesquisa com células tronco, eutanásia e homossexualismo fossem discutidos abertamente e houvesse expressivos avanços nos próximos anos.

Para não ficar restrito apenas aos escândalos da Igreja Católica, não podemos aceitar que, em nome da religião, haja enriquecimento ilícito de “Ministros de Deus”, como lemos recentemente em um artigo da Revista Forbes sobre os pastores evangélicos mais ricos do Brasil (link abaixo).

http://forbesbrasil.br.msn.com/negocios/bispo-edir-macedo-%C3%A9-o-pastor-mais-rico-do-brasil-com-uma-fortuna-de-usdollar-950-milh%C3%B5es

Principalmente eu desejaria que todos se tornassem Papas de sua própria fé, sem intermediários como já apresentei no post Descoberta a Nova Redação do Primeiro Mandamento. Cada pessoa estaria livre para criar sua ligação com o Ente Supremo da forma que julgar melhor para si. Isto parece ser um ato egoísta, mas nada é mais individual, em minha opinião, do que a espiritualidade. Quanto ao dízimo, um empresário, ao invés de pagar 10% do seu lucro a uma Igreja qualquer, poderia criar um negócio social, onde seriam gerados empregos e renda para comunidades carentes. Um trabalhador poderia doar 10% do seu salário para as entidades de sua confiança e auxiliar o segmento que ele se identifica mais como crianças, idosos, deficientes físicos ou mentais, animais abandonados, meio ambiente. Além disto, obviamente, todos deveriam “botar as mãos na massa” para fazer um mundo melhor. Desta forma, quem acredita em Deus será um agnus Dei (cordeiro de Deus), ao invés de ser um agnus homines (cordeiro dos homens) e simplesmente seguir as orientações de pessoas que se colocam como intermediários entre o Céu e a Terra.

Agnus Dei, o cordeiro de Deus

Agnus Dei, o cordeiro de Deus

Se “meu latim” estiver errado, por gentileza, corrijam…

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Privacidade, Intromissão e Exibicionismo

No penúltimo post, comentei rapidamente sobre dois livros importantes da literatura mundial, Admirável Mundo Novo de Aldous Huxley e 1984 de George Orwell. Quem acompanha meu blog já conhece meu otimismo em relação ao futuro da humanidade, mas atualmente a quantidade de informações disponíveis sobre os indivíduos na rede é tão grande que me leva a fazer algumas considerações.

Hoje, sob a justificativa de que a segurança dos indivíduos e comunidades deve ser garantida, uma série de ações para rastrear as atividades já é executada normalmente com o consentimento da maioria das pessoas:

– a Internet é monitorada para evitar ações criminosas como pedofilia, fraudes, lavagem de dinheiro, etc.;
– as movimentações bancárias são vasculhadas e avalia-se a compatibilidade com a evolução do patrimônio;
– as compras no cartão de crédito são registradas; e as tendências, analisadas.

Nunca os Estados tiveram tantos recursos para monitorar a vida dos seus cidadãos. Infelizmente apenas os aspectos positivos destas ações são percebidos. Sem dúvida alguns procedimentos podem ameaçar as democracias, especialmente se forem conjugadas com a apatia das pessoas. Já ouvi apoio para a colocação de chips em pessoas e para sistemas de leitura da mente. No primeiro caso, sequestros poderiam ser inibidos, mas o chip daria a localização exata de cada indivíduo para os Serviços de Inteligência do país. Os sistemas de leitura da mente seriam ótimos para dar mais autonomia aos tetraplégicos, também poderiam ser o canal de comunicação com pessoas em estado vegetativo, mas os mesmos Serviços de Inteligência poderiam usá-los para descobrir as ideias e opiniões das pessoas.

Big Brother de George Orwell

Big Brother de George Orwell

A grande maioria das pessoas não deseja que suas preferências sejam gravadas por sites de busca como o Google. Afinal onde está a privacidade? Queixa-se também quando recebem E-mails comerciais baseados em cadastros de clubes sociais, clubes esportivos ou cadastro dos cartões de crédito. Por outro lado, as mesmas pessoas que reclamam ao ter a privacidade “violada”, postam fotos, vídeos e opiniões comprometedoras em redes sociais.

redes-sociais

O que leva a este tipo de comportamento? Parece que muitas pessoas buscam aceitação, reconhecimento social e fama a qualquer custo. Abraham Maslow há 70 anos formulou sua Teoria da Hierarquia das Necessidades, conhecida popularmente como a Pirâmide de Maslow. Existem críticas que dizem ser impossível criar um modelo universal, por outro lado as necessidades variam de acordo com as circunstâncias, mas acredito que este modelo é um bom ponto de partida para esta análise.

Piramide de Maslow

Pirâmide de Maslow

Os dois primeiros níveis da pirâmide (fisiológico e segurança) são os mais objetivos. Dizem respeito à alimentação, saúde, moradia, emprego, renda mínima e paz. O terceiro nível (social) refere-se aos relacionamentos, amizades, amor e família. Nestas épocas digitais, onde as pessoas se esforçam para ter mais amigos no Facebook, até mesmo o conceito de amizade mudou. Os amigos de carne e osso reais, que oferecem o ombro nos momentos difíceis e nos dizem o que devemos ouvir, foram substituídos por outros que curtem tudo o que postamos, mas isto satisfaz muita gente…

O nível da pirâmide relativo ao status e a autoestima é mais fácil de ser compreendido. Muitas pessoas acreditam que o importante é aparecer, não importa a forma. Ou seja, não importa o que falam, bem ou mal, o essencial para o ego é ser visto e comentado por muitos. Toda esta leva de subcelebridades e pseudomodelos se encaixa nesta forma de agir. Neste momento, percebo que é praticamente impossível para estas pessoas atingirem a autorrealização, porque não têm a mínima ideia do que realmente tem valor, é importante ou quais seriam os propósitos das suas vidas.

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