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A Sérvia e a Eleição Presidencial Brasileira

A primeira ideia, que vem à mente ao ler o título deste artigo, é a existência de uma conspiração do governo sérvio para interferir no resultado das eleições presidenciais brasileiras. Seria algo similar ao feito pelos russos no pleito que elegeu Donald Trump presidente dos Estados Unidos? De acordo com meu conhecimento, não existe atuação da Sérvia nas nossas eleições. Você deve estar pensando sobre o motivo deste título exótico.

No início de agosto, passei uma semana na Sérvia. Na medida que a intimidade e confiança mútuas começam a crescer, assuntos sensíveis como a Guerra dos Balcãs podem ser conversados. Fiquei surpreso quando descobri que a maioria das pessoas que eu conversava tinham suas origens em diferentes países da antiga Iugoslávia. Alguns tinham família na Croácia, outros na Bósnia ou Montenegro. A pergunta é óbvia, se não existem etnias puras sérvias, croatas ou montenegrinas, por que a rivalidade entre as regiões da antiga Iugoslávia cresceu aponto de acontecer uma guerra tão sangrenta?

Por um lado, líderes inescrupulosos almejaram consolidar seus poderes. Por outro lado, sempre existem interesses econômicos por trás de guerras. Um dos meus interlocutores na Sérvia contou-me que, como estava próximo à fronteira com a Croácia, assistia aos noticiários dos dois lados. Nos telejornais croatas, os sérvios eram bandidos assassinos; nos telejornais sérvios, os croatas eram os carniceiros. Assim o ódio foi crescendo nos dois lados, as atrocidades foram se acumulando, bem como o desejo de vingança de um lado em relação ao outro.

Former_Yugoslavia_2006

Antiga Iugoslávia e as atuais repúblicas

Guardadas as devidas proporções, observamos algo parecido no Brasil. O ódio em relação aos políticos tradicionais e, principalmente, ao Partido dos Trabalhadores (Lula em especial) parece ter cegado e ensurdecido boa parcela da população brasileira. Não importam os argumentos racionais ou quaisquer bons e puros sentimentos, só o ódio e a vingança valem.

Como pode alguém que mais de uma vez insultou mulheres em público receber votos de mulheres? Como pode alguém que já minimizou perdas de vidas inocentes, prega o endurecimento da violência policial e fez elogios à tortura e torturadores receber votos de pessoas que vivem em zonas de risco? Como pode o companheiro de chapa de um candidato à presidência falar contra o décimo terceiro salário, entre outros direitos trabalhistas, receber votos de trabalhadores assalariados pobres?

O mesmo acontece em relação ao outro lado. Como pode alguém votar no candidato de um partido que se afundou na corrupção, que tanto criticava, para angariar fundos para se manter no poder? Como pode alguém votar no candidato de um partido que, apesar de todas as evidências, foi incapaz de fazer um mea-culpa e prometer que daqui para frente os procedimentos serão diferentes?

Diferente das últimas eleições presidenciais, não estamos escolhendo entre um projeto mais liberal e outro mais intervencionista, ou entre um projeto mais orientado ao econômico e outro mais voltado ao social. A questão nem está relacionada ao populismo.

Na verdade, temos um candidato que já criticou abertamente minorias (índios, quilombolas e gays) e cuidados na área ambiental, ameaçando os direitos humanos e a proteção ao meio ambiente. Alguém que já disse que vai acabar com o ativismo. Alguém que simpatiza com regimes de exceção, cercado por militares da reserva que também simpatizam. Alguém que já disse que vai propor o aumento do número de ministros do STF de 11 para 21, provavelmente para controlar as decisões desta corte. Alguém que está procurando um ministro da educação que tenha autoridade, expulse a filosofia de Paulo Freire das escolas e mude os currículos escolares. Alguém que defende a fusão do ministério da agricultura com o do meio ambiente. Este é Jair Bolsonaro que, se eleito, deverá ter o apoio do Congresso mais conservador dos últimos 30 anos. Ou seja, ele poderá aprovar suas propostas no Câmara dos Deputados e Senado.

No ano passado, escrevi um artigo, onde comentava o desequilíbrio pelo qual nosso mundo está passando. Abaixo transcrevo um trecho.

O economista britânico Guy Standing, no seu livro “O Precariado – A Nova Classe Perigosa” (The Precariat: The New Dangerous Class), descreve a formação e crescimento de uma nova classe, o “precariado”, com o avanço da globalização neoliberal. Segundo Standing:

“O precariado é definido pela visão de curto prazo e, induzida pela baixa probabilidade de progresso pessoal ou de construção de uma carreira, pode verificar-se uma evolução massificada no sentido da incapacidade de pensar a longo prazo.”

“Aqueles no precariado têm vidas dominadas por inseguranças, incertezas, dúvidas e humilhações.”

“As pessoas inseguras deixam as outras furiosas e as pessoas com raiva são voláteis, propensas a apoiar uma política de ódio e amargura.”

Precariat_Guy Standing

Esta explicação sobre o precariado justifica uma porção expressiva dos votos em Bolsonaro no primeiro turno.

Existe uma palavra em alemão, Weltanschauung, que pode ser livremente traduzida como visão de mundo. Segundo o Wikipédia,

Weltanschauung é um conjunto ordenado de valores, crenças, impressões, sentimentos e concepções de natureza intuitiva, anteriores à reflexão, a respeito da época ou do mundo em que se vive. Em outros termos, é a orientação cognitiva fundamental de um indivíduo, de uma coletividade ou de toda uma sociedade, num dado espaço-tempo e cultura, a respeito de tudo o que existe – sua gênese, sua natureza, suas propriedades. Uma visão de mundo pode incluir a filosofia natural, postulados fundamentais, existenciais e normativos, ou temas, valores, emoções e ética.

Os decepcionados, os enraivecidos e os desesperançados escolheram, sem refletir, Jair Bolsonaro como sua opção para presidente, segundo sua Weltanschauung.

Não votei no primeiro turno em Fernando Haddad, principalmente, devido ao envolvimento de seu partido, PT, em corrupção. Neste segundo turno, não vejo outra opção. Bolsonaro representa um retrocesso social e político perigoso. Só nos resta, nestas duas semanas antes das eleições, conversar com amigos, parentes e demais pessoas do nosso convívio. Devemos refletir sobre o que significa a vitória de projeto ultraconservador como o Bolsonaro. Este processo deve ser realizado na paz, sem ódio, porque o ódio só alimentará mais a certeza que Bolsonaro é a melhor alternativa neste momento do nosso país. Lembremos dos sérvios, croatas e bósnios…

Bolsonaro_Haddad

Bolsonaro e Haddad no domingo da votação. [Fonte: El País]

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A Indignada Passividade do Brasileiro

Daqui da França, acompanhei os comentários indignados de muitos brasileiros sobre a aceitação pelo Supremo Tribunal Federal dos tais embargos infringentes que podem beneficiar doze dos condenados na famosa Ação Penal 470 (popular Mensalão) na semana passada. Tenho uma série de impressões e comentários sobre esta decisão.

Em primeiro lugar, escrevi um artigo há três semanas em que falava da esperança de uma grande mobilização popular do dia 7 de setembro passado. Infelizmente, comparadas com as manifestações de junho, as do Dia da Independência foram pequenas. Não sei o real motivo deste fracasso, se a novidade foi perdida, se foi o medo da violência dos confrontos entre “black blocs” e polícia ou se a velha passividade do brasileiro voltou a imperar. Eu e a Claudia participamos das manifestações em São Paulo. Por sinal, o pessoal saiu da frente do MASP e, quando chegou na esquina da Avenida Brigadeiro Luís Antônio, a manifestação se dividiu em duas: a parte “black bloc” e a outra que desceu até a Assembleia Legislativa do estado para protestar contra o escândalo dos trens e metros de São Paulo. Havia diferentes “bandeiras” entre os manifestantes, inclusive gente desejosa de uma intervenção militar no país, mas existia uma meta comum a todos, o combate à corrupção. Infelizmente as autoridades do país, desta vez, concluíram que não havia o que temer, porque o povo decidiu ficar em casa.

Manifestação Black Bloc no 7 de setembro em São Paulo

Manifestação Black Bloc no 7 de setembro em São Paulo

Neste contexto, os votos dos ministros do STF foram livres da pressão mais contundente da sociedade brasileira que, ao invés de ir para as ruas e deixar claro que queria o cumprimento imediato das penas dos condenados, achou mais cômodo ficar em casa e atualizar seus status nas redes sociais. Todos nós sabemos como a justiça brasileira é lenta, com inúmeras possibilidades de recursos e agravos. Quem não tem ou teve algum processo de baixa complexidade que levou muitos anos até chegar a sentença final? A aceitação dos agravos infringentes (ou seriam adstringentes) foi muito apertada, 6 votos a 5, devido às interpretações ou interesses divergentes na corte. O voto decisivo, proferido pelo ministro Celso de Mello, obviamente no que se refere à parte legal, deve ser aceito. Meu comentário, neste caso, é que o amplo direito de defesa que o ministro usou como argumento deveria valer, antes de qualquer coisa, para todos aqueles que, muitas vezes, não sabem nem quais são seus direitos. Os condenados neste processo tinham ótimos advogados que conheciam toda a sorte de mecanismos para a obtenção de recursos e embargos.

Ministro Celso de Mello do STF

Ministro Celso de Mello do STF

Vejo muita gente falando que tudo acabará ou já acabou em pizza. Estes embargos valem apenas para duas acusações, lavagem de dinheiro e formação de quadrilha, onde doze réus foram condenados e receberam, pelo menos, 4 votos pela absolvição. Deste modo, o próximo julgamento será muito mais rápido do que o anterior, mas devido aos prazos processuais e recesso do judiciário, deverá ocorrer no primeiro semestre de 2014. Metade dos condenados como Marcos Valério, seus sócios e os dirigentes do Banco Rural, mesmo se forem absolvidos do crime de formação de quadrilha, cumprirão a pena em regime fechado. Para a opinião pública, os casos que realmente importam são de José Genuíno, João Paulo Cunha, Delúbio Soares e, principalmente, José Dirceu. A vantagem deles, se forem inocentados do crime de formação de quadrilha, será a migração do regime fechado para o semiaberto (quando o preso vai dormir na cadeia). Em minha opinião, isto não é uma pizza. Mesmo se José Dirceu cumprir a pena em regime semiaberto, será um verdadeiro marco na história brasileira, porque nenhum político desta envergadura passou por isto durante período democrático no Brasil.

Pizzas no STF

Pizzas no STF

A opinião pública continua satanizando a corrupção na esfera pública, mas é muito amena em relação à esfera privada. Esta semana, no meu treinamento sobre finanças no INSEAD da França, estudamos sobre balanços patrimoniais, demonstrações de resultados e como calcular o desempenho das empresas. Bônus generosos são pagos aos principais executivos de grandes empresas privadas, quando os resultados são atingidos. Veja esta tira de um dos meus personagens preferidos, o Dilbert, abaixo.

Dilbert_accounting

Ou seja, para atingir os resultados e ganhar o bônus, o chefe do Dilbert decide vender para empresas, que provavelmente não pagarão a conta, com prazo para pagar após o recebimento de seu “merecido” bônus. Se você acha que este tipo de “trampa” não existe no âmbito privado, em 2009, o governo americano socorreu vários bancos e seguradoras, entre elas a AIG, maior seguradora dos Estados Unidos. A AIG, à beira da falência na época, foi salva por uma linha de crédito bilionária, mas pagou para dez executivos da empresa, como bônus, US$ 165 milhões. Parece que esta atitude não foi uma exclusividade dos executivos da AIG, aconteceu algo parecido em outros bancos americanos.

Este exemplo apenas nos mostra como a ética é maltratada por todos os lugares e não apenas no governo federal do PT, ou no mensalão mineiro do PSDB, ou nos escândalos do DEM no Distrito Federal, ou em inúmeros casos em prefeituras brasileiras, ou hospitais públicos, ou empresas privadas…

Destaco esta parte da música Money do Pink Floyd:

Money, it’s a crime
Share it fairly but don’t take a slice of my pie.
Money, so they say
Is the root of all evil today
But if you ask for a raise it’s no surprise that they’re
Giving none away

Acho que o dinheiro em si não é a “raiz de todo o mal hoje”, mas sim a ambição cega por dinheiro e poder e suas consequências! Mas isto já é outro artigo…

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