Amour – Os Limites Extremos do Amor, da Vida e da Morte

Há uns três meses, eu estava de noite em um restaurante de uma cidade do estado americano do Illinois. Após fazer o pedido da janta, dei uma passada no banheiro. Na volta, notei que uma mesa próxima do nosso grupo foi ocupada por um casal jovem, ele tinha uma longa barba negra e ela era ruiva com um corte de cabelo curto.

Quando o pedido deles chegou, a moça puxou o prato do rapaz para o seu lado e começou a cortar o carne que havia no prato. Pensei que eles fariam aquela prática comum entre casais de provar os dois pratos e ela seria a responsável pela divisão. Desviei minha atenção da mesa da frente e, quando dei uma nova espiada, achei estranho que ela estava picando a carne em pedaços pequenos, enquanto o rapaz olhava para o prato com aquele mesmo olhar de uma criança para um sorvete na expectativa de comê-lo. Somente neste momento, prestei mais atenção e percebi que ele não estava sentado numa cadeira normal do restaurante, estava numa cadeira de rodas motorizada, ele era tetraplégico.

Tetraplégico

Tetraplégico

Depois do jantar, a caminho do hotel, a imagem do rapaz não saía da minha cabeça. Tentei me imaginar no lugar dele, como eu reagiria numa situação destas? Totalmente dependente dos outros para atender as necessidades mais básicas, como ir ao banheiro, tomar banho, se alimentar ou se vestir… Como tudo que é desagradável, achamos melhor botar uma pedra em cima e fazemos uma racionalização simples:

– Por que criar um problema que não existe?

Ontem assisti ao filme francês “Amour”, vencedor da Palma de Ouro em Cannes e do Oscar de Melhor Filme Estrangeiro. Se você busca um filme leve e romântico com final feliz, não assista a esta impactante obra cinematográfica. A densidade dramática deste filme pode ser comparada àquelas estrelas de nêutrons, cuja gravidade suga tudo ao seu redor, inclusive a luz.

No filme, são mostrados os dias finais da vida de um casal de professores de música aposentados, Georges e Anne, interpretados magistralmente por Jean-Louis Trintignant e Emmanuelle Riva. Assista ao trailer abaixo.

No início do filme, o casal tinha uma vida normal, morava num amplo apartamento em Paris e aparentemente ambos nutriam sentimento de amor e respeito mútuos. A situação começa a mudar, quando Anne sofre um “apagão” no momento em que tomavam café da manhã. Detecta-se uma obstrução na artéria carótida. Esta seria uma operação de baixo risco, mas ocorre uma complicação e Anne fica com um lado do corpo paralisado e, quando volta para casa, passa a usar cadeira de rodas. Neste momento, acontece uma cena que sela o destino dos protagonistas, Anne obriga Georges a prometer que não a internaria mais. A partir deste momento, ele tenta várias alternativas para tornar a vida do casal melhor, mas a saúde de Anne vai se deteriorando. Ela sofre outro derrame, não consegue mais se comunicar razoavelmente, passa a usar fralda geriátrica e conclui que não quer mais viver. Georges, por seu lado, suporta sozinho um fardo pesadíssimo em nome da lealdade por sua esposa e leva seu compromisso até as últimas consequências.

Cena do "apagão de Anne no filme Amour

Cena do “apagão” de Anne no filme Amour

O diretor Michael Haneke, após pouco mais de duas horas de filme, nos leva a pensar sobre a velhice e seus problemas, sobre os limites do amor, sobre o que esperamos dos nossos relacionamentos e o que aceitamos dar em troca, sobre a vida e a morte…

Neste momento, volto para minha pergunta-chave deste post:

– Como eu reagiria numa situação destas?

O caso do rapaz de Illinois parece mais fácil para mim hoje. Quando se é jovem e se tem toda a vida pela frente, um “acidente” de percurso como ficar tetraplégico, apesar de extremamente traumático pelas limitações impostas, pode se transformar na força motriz para encontrar novas vocações e propósitos para a vida. Como me considero um jovem de 47 anos, acredito que conseguiria ir em frente.

O caso de Georges, apesar da dor de ver a pessoa amada naquele estado, também diria que seguiria em frente. Acredito que meu amor pela Claudia me transformaria no seu serviçal fiel. Mas meu Amorzin, já te disse que tu vais ser uma viúva linda. Então não deverei passar por isto.

O caso da Anne me assusta! Não quero me tornar um fardo para as pessoas que eu amo. Seria muito cruel…

Apesar de muita gente não acreditar, temos poder para conduzir nossas vidas, mas ainda há uma parcela expressiva que não controlamos. Podemos ter uma vida saudável, fazer exercícios físicos regularmente, manter a mente ativa, mas a “maldita” genética pode nos fulminar na esquina. Se este avião no qual estou voando para Saskatoon, enquanto escrevo este post, cair provavelmente ninguém irá lê-lo, ficará eternamente inédito. No caso do filme “Amour”, Anne escolheu seu destino e Georges usou seu livre arbítrio para aceitá-lo, com todas as consequências para si. Ou seja, ao tomarmos uma decisão devemos analisar se não haverá desequilíbrios para um dos lados, porque não é justo submeter as pessoas a quem amamos a um ônus demasiadamente pesado e o contrário também vale, não podemos simplesmente nos anular por causa de quem amamos.

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