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Lula e Sérgio Moro Aplicam o Mesmo Modelo Ético

Muitas pessoas ao lerem o título deste artigo já ficaram tão injuriadas que não seguiram a leitura nem desta primeira frase. Claro que isto inclui os seguidores inquestionáveis de Lula e os de Sérgio Moro. Neste artigo, não defenderei os erros de nenhum dos lados. Apenas demonstrarei meu ponto de vista, tanto Lula, quanto Moro empregam o mesmo modelo de ética.

Recentemente assisti novamente ao filme Watchmen. Os principais personagens adotam diferentes modelos de ética. Recomendo que assistam ao filme (disponível no Netflix) dirigido por Zack Snyder ou leiam o livro em quadrinhos (romance gráfico), escrito por Alan Moore e ilustrado por Dave Gibbons. A Revista Time considerou este livro um dos cem melhores romances publicados em inglês desde 1923. A seguir apresento o modelo ético de alguns personagens do filme.

Rorschach segue o modelo da Deontologia, também conhecido como a ética de Kant. É o agir pelo dever. Pode parecer estranho, mas só pode ser atingida através do livre arbítrio. Só a vontade pode embasar a moralidade e suplantar os instintos. Para Rorschach, tudo é preto no branco; é olho por olho, dente por dente.

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Immanuel Kant

Ozymandias e Dr. Manhattan seguem o modelo teleológico, também conhecido como Utilitarismo. Foi defendido pelos filósofos e economistas britânicos Jeremy Bentham e John Stuart Mill. Pode ser resumida na frase “agir sempre de forma a produzir a maior quantidade de bem-estar”. Para Ozymandias, pessoas podem ser prejudicadas para o benefício da maioria.

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Jeremy Bentham e John Stuart Mill

Coruja II segue a ética da virtude clássica, a ética do filosofo grego Aristóteles. Ele busca o equilíbrio, o caminho do meio, entre os extremos.

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Aristóteles

Se já viu o filme ou não pretende vê-lo, siga a leitura. Caso contrário, os próximos parágrafos serão spoilers. Volte ao artigo após a foto dos super-heróis do filme. E quando for assistir ao filme, lembre-se de que é um filme de super-heróis só para adultos.

O filme se passa nos anos 80, onde uma guerra nuclear entre os Estados Unidos e a União Soviética é iminente. Ozymandias traça um plano para destruir algumas das principais cidades do planeta, usando uma tecnologia desenvolvida através dos poderes do Dr. Manhattan. Quando isto acontece os EUA e a URSS se unem contra um inimigo comum (Dr. Manhattan) e o mundo entra em um período de paz. Ou seja, Ozymandias mata milhões para salvar a vida de bilhões, seguindo o utilitarismo.

Rorschach e o Coruja tentam impedir o plano sem sucesso. Dr. Manhattan e Espectral aparecem e, ao verem na TV o discurso do presidente americano, Nixon, os heróis se dão conta que contar a verdade poderia destruir a paz obtida através do plano de Ozymandias. Rorschach não se conforma e, mesmo sabendo que provavelmente aquele seria o último ato de sua vida, diz que denunciaria o plano de Ozymandias, porque todos têm o direito de saber a verdade.

Temos então o seguinte diálogo:

Ozymandias – Será mesmo Rorschach, se me denunciar irá sacrificar a paz pela qual milhões morreram hoje.
Coruja II – Paz baseada em uma mentira.
Ozymandias – Mas é paz, apesar de tudo.
Dr. Manhattan – Ele está certo.
Espectral – Não, não podemos fazer isso!
Dr. Manhattan – Você me ensinou o valor da vida humana, se quisermos preservá-la aqui, temos que ficar em silêncio.
Rorschach – Fiquem vocês com suas mentiras! Não faço acordos, nem mesmo
diante do Armagedom.

Fora do palácio de Ozymandias, Rorschach encontra Dr. Manhattan e o diálogo prossegue.

Dr. Manhattan – Rorschach, você sabe que não posso permitir isso!
Rorschard – Se tivesse se importado desde o começo com a humanidade nada disso aconteceria.
Dr. Manhattan – Posso mudar quase tudo Rorschach, mas não posso mudar a natureza humana.
Rorschach – Claro, deve proteger a utopia de Veidt (nome verdadeiro de Ozymandias). Um cadáver a mais não faz diferença. Muito bem, o que está esperando, vai me mate, me mate…

Dr. Manhattan explode Rorschach, porque também aderiu ao utilitarismo. A morte de Rorschach garantiria a paz e, deste modo, as vidas de bilhões estariam salvas. Por outro lado, Rorschach seguiu a ética de Kant até o último instante de sua vida. A justiça e a verdade devem estar acima de tudo, não importam as consequências.

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Watchmen – da esquerda para direita: Ozymandias, Dr. Manhattan, Espectral II, Rorschach, Coruja II e Comediante

 

Voltando agora a Lula e Sérgio Moro…

No livro “Uma ovelha negra no poder”, dos jornalistas Andrés Danza e Ernesto Tulbovitz, lançado em 2015 sobre a vida do ex-presidente uruguaio, Pepe Mujica, há um trecho sobre o Mensalão, escândalo que assolou o primeiro mandato de Lula. Abaixo transcrevo a página do livro traduzida para o português.

Lula teve de enfrentar um dos maiores escândalos da história recente do Brasil: o mensalão, uma mensalidade cobrada por alguns parlamentares para aprovar os projetos mais importantes do Poder Executivo. Compra de votos, um dos mecanismos mais antigos da política. Até José Dirceu, um dos principais assessores de Lula, está processado por esse caso.

“Lula não é corrupto como era Collor de Mello e outros presidentes brasileiros”, disse Mujica, referindo-se ao caso. Contou também que Lula viveu aquele episódio com angústia e com um pouco de culpa. “Neste mundo tenho que lidar com muitas coisas imorais, chantagens”, disse Lula com pesar a Mujica e Astori, algumas semanas antes de assumirem o governo do Uruguai. “Essa era a única forma de governar o Brasil”, se justificou. Eles tinham ido visitá-lo em Brasília, Lula sentiu necessidade de esclarecer a situação. “O mensalão é como este país, tudo é enorme”, refletiu.

“O mensalão é mais velho do que o agujero del mate (expressão uruguaia que se refere a algo velho)”, opina Mujica. Grandes políticos da história tiveram de recorrer a mecanismos semelhantes. “Às vezes, este é o preço infame das grandes obras”, argumentou ao lembrar-se Abraham Lincoln, justo nos dias em que havia estreado um filme de Steven Spielberg sobre a vida do presidente dos Estados Unidos, no qual ele mostrou como ele tinha que entregar algo em troca de votação para seus projetos.

De acordo com Mujica, Lula aceita pagar o mensalão para viabilizar o seu governo. O pagamento a deputados para votarem a favor das leis propostas pelo governo é ilícito e imoral. Este ato vai contra a Deontologia (a ética de Kant), porque afronta a justiça e a verdade. Por outro lado, ao aprovar rapidamente essas leis, o governo obteve o que precisava para a execução do seu plano. Ou seja, a ética usada foi utilitarista.

O pior no utilitarismo é que pode seguir aquela máxima de que os fins justificam os meios. E isto fica claro nos escândalos de corrupção que visavam financiar a permanência do PT no governo, investigados pela Operação Lava-Jato.

Sérgio Moro cometeu um ato ilegal ao divulgar a escuta telefônica em que Lula conversava com a então presidente Dilma Rousseff. Ele despachou às 11:13 do dia 16/03/2016, suspendendo a escuta telefônica contra o ex-presidente Lula. No mesmo dia, às 13:32 foi gravada a conversa de Lula com Dilma, onde é combinada a assinatura do termo de posse de Lula como Ministro da Casa Civil. Apesar da escuta ser considerada ilegal, Moro derrubou o sigilo e liberou sua divulgação. Não estou nem discutindo a questão do foro para autorizar a divulgação de grampo telefônico de uma presidente no exercício do cargo.

Moro, no seu despacho que autoriza a divulgação dos áudios, arremata:

“A democracia em uma sociedade livre exige que os governados saibam o que fazem os governantes, mesmo quando estes buscam agir protegidos pelas sombras.”

Eu sei que você ficou em dúvida se Moro agiu como Rorschach, seguindo a ética kantiana numa luta para punir o mal, ou como Ozymandias, seguindo o utilitarismo em que os fins justificam os meios.

A condenação de Lula no caso do “Triplex do Guarujá” pode dirimir esta dúvida. Moro condenou Lula a 9 anos e meio de prisão por corrupção passiva e lavagem de dinheiro. O problema é que o triplex nunca saiu do nome da OAS, foi inclusive usado como garantia na Caixa. A condenação foi baseada em alguns depoimentos e mensagens, sem provas realmente concretas.

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Lula e Moro no interrogatório do Processo do Triplex do Guarujá  (Fonte: Folha de São Paulo).

Para Kant, o Estado não pode punir um cidadão para inibir os outros a cometerem ilícitos. Neste caso, o utilitarismo seria aplicado. A pena é uma retribuição ética que se justifica pela moral, fundamentando a pena tão somente pelo mal que o condenado já praticou e não como uma maneira utilitária de promover o bem de outros ou do próprio condenado.

Sérgio Moro agiu em relação à Lula de acordo com a perspectiva do utilitarismo. Mesmo sem provas suficientes para condená-lo, ele decidiu fazê-lo, removendo Lula do processo eleitoral brasileiro no ano passado.

Para completar, Moro suspendeu os novos interrogatórios de Lula para evitar exploração política que pudesse interferir nas eleições. Por outro lado, há seis dias do primeiro turno das eleições presidenciais, quebrou o sigilo da delação de Antônio Palocci que fazia acusações contra Lula. Assim Moro, mais uma vez, agiu de modo utilitarista, reduzindo as chances eleitorais do PT. Afinal, na sua visão, seu objetivo de combater a corrupção seria prejudicado com a volta de Lula, ou pelo menos de alguém do PT, à presidência de República.

E você segue qual perspectiva ética – kantiana, utilitarista ou aristotélica?

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Eu e o Persistente 2017 que Insiste em Não Acabar

Faz cinco meses que eu não publico nada no blog. Esta deve ser a mais longa inatividade desde a sua criação há nove anos. O pior é que não faltaram assuntos…

Quando escrevi o post “2017 – O Ano que Ainda Não Terminou em Alguns Sons e Imagens”, havia tomado a decisão de voltar para a vida de consultor independente. Reativei minha rede de contatos para ver potenciais parcerias. Em abril, fechei um contrato de um ano com alta carga horária mensal para reestruturar as áreas de engenharia e tecnologia de uma empresa. Iniciei as atividades em maio. O trabalho é muito interessante, tenho aprendido muito sobre processos biotecnológicos. Só tem um detalhe, a empresa está localizada a mais de 500 km da minha residência. Deste modo, praticamente todas as semanas, nas segundas-feiras, eu pego o primeiro voo para o aeroporto mais próximo da cidade onde fica a empresa e retorno no último voo na noite de sexta-feira.

Também decidi que eu não deixaria passar oportunidades de negócio. Fechei um contrato spot como uma empresa de alimentos na Europa para solucionar um problema de qualidade de uma de suas linhas de produtos. Assim passei uma semana, acompanhando testes na planta deles no início de agosto. Tive sucesso e agora estou em negociação para um contrato maior. E recentemente, fechei um contrato com meu antigo empregador para uma consultoria técnica na área ambiental, mais especificamente na nova estação de tratamento do esgoto sanitário e na modernização da estação de tratamento de efluentes industriais de uma planta no Rio Grande do Sul.

Ou seja, meus dias têm sido intensos. Os trabalhos são interessantíssimos, temas variados em regiões geográficas bem diferentes.

Há cinco anos, escrevi o artigo “Empresário ou Empregado – Contatos Quentes e Frios”. Nele descrevi as limitações da vida de consultor. A principal é a contratação quase exclusiva por alguém que te conhece ou recebeu indicação de quem te conhece (os chamados contatos quentes). Além disso, quase sempre você é contratado para fazer aquilo que comprovadamente sabe fazer. A chance de fazer coisas novas é normalmente muito pequena.

Neste ano, só investi nos contatos quentes e poupei energia com os frios. Todos meus contratos são provenientes de contatos quentes. E confesso que desta vez fiz coisas inéditas, aprendi novas tecnologias, negociei contratos no exterior, emiti invoices em inglês, fechei contratos de câmbio…

E consultas para novos projetos continuam chegando…

Para completar, continuo estudando Antroposofia em um curso de formação da pedagogia Waldorf. Esta atividade ocupou um final de semana por mês, além de uma semana inteira em julho. Tenho inclusive tentado pintar algumas aquarelas como a apresentada abaixo.

aquarela

Minha família continua me apoiando nesta correria quase insana. Sem o amor e compreensão da Claudia e das gurias, eu não aguentaria este ritmo.

Por falar em correria, continuo correndo e, segundo o App Runkeeper, já percorri mais de 700 km, desde que iniciei as corridas no final de julho do ano passado. Participei de mais uma corrida de rua, dessa vez foram 10 km em São José do Rio Preto.

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Vamos ver se 2017/ 2018 será encerrado na Corrida de São Silvestre que eu e meu filho Leonardo vamos participar em 31 de dezembro deste ano pelas ruas de São Paulo. Já estamos inscritos!

 

Se existe alguém com saudades de meus artigos sobre política, não perca, na próxima semana, o artigo “A Sérvia e a Eleição Presidencial Brasileira”.

 

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Deixem as Crianças Crescerem

Comecei recentemente a ler o livro “Memórias de Vida e Luz”, autobiografia de Jacques Lusseyran, um herói cego da Resistência Francesa na Segunda Guerra Mundial. Em uma passagem do livro, Lusseyran mostra sua gratidão pela forma que seus pais encararam sua cegueira e arremata com este conselho para pais de crianças cegas:

“Por isso eu digo aos pais cujos filhos ficaram cegos que tenham confiança. A cegueira é um obstáculo, mas só se torna uma miséria quando se cai na insensatez. Digo-lhes que sejam tranquilos, jamais contrariando o que seu pequeno filho ou filha anda descobrindo. Nunca deveriam dizer ‘Você não pode saber isso porque não enxerga’, e o mais ocasionalmente possível ‘Não faça isso, é perigoso’. Para uma criança cega existe uma ameaça maior do que todos ferimentos e galos, os arranhões e a maioria das batidas: é o perigo do isolamento dentro de si mesma.”

Jacques_Lusseyran

Jacques Lusseyran

Ou seja, não diga ao seu filho cego que ele não sabe ou é incapaz de fazer algo, simplesmente porque ele não enxerga. Se os pais fizerem isto, estarão limitando a evolução de seu filho, colocarão uma armadura que o isolará do mundo.

Mas este conselho poderia ser dado a pais com filhos com outros tipos de necessidades especiais: deficientes auditivos, crianças com dificuldades de locomoção ou com algum tipo de retardo intelectual. Afinal o excesso de proteção também poderá isolar o filho e limitar sua interação com outras pessoas e com o mundo.

criancasPensando bem, este conselho de Jacques Lusseyran vale para todas as crianças. Nós pais temos o dever de proteger e educar nossos filhos, mas, neste processo, não devemos tolher suas iniciativas ou moldar seus pensamentos de forma que eles se tornem simples cópias do senso comum.

Mais uma vez estamos frente a frente com o desafio de encontrar o equilíbrio.

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2017 – O Ano que Ainda Não Terminou em Alguns Sons e Imagens

Parece que temos mais histórias para contar em alguns anos do que em outros. O ano de 2017 está entre os mais ricos em novas experiências da minha vida. Na manhã do dia 14 de janeiro, tive uma fratura grave na tíbia e fíbula da perna direita, jogando um inocente futebol com minhas filhas e uma colega da mais velha no quintal da minha casa. Dois vizinhos, Fernando e Toni, me levaram ao Hospital São Luiz no Morumbi. Minha fratura foi reduzida e no dia seguinte fui operado.

Gravei este áudio com a narração do acidente em estilo de transmissão pelo rádio de um jogo de futebol e coloquei algumas fotos do quintal de casa.

A radiografia abaixo mostra o tamanho do estrago. Agora tenho uma haste metálica dentro da tíbia fixada por dois parafusos na altura do joelho e por outros dois no tornozelo. Além disto, tenho duas placas fixadas por seis parafusos na lateral da perna próximo ao tornozelo que ajudaram na consolidação da fíbula.

Fratura_15-01-2017

Pelo menos não precisei engessar a perna, usei uma imobilização removível chamada Robofoot que eu tirava para dormir, tomar banho ou quando estava sentado na sala.

Com menos de uma semana, passei a tomar banho sozinho sem qualquer ajuda. Dois meses depois, já subia escadas.

Passei por vários momentos no processo de recuperação. Desde os tempos iniciais em que não podia encostar o pé no chão aprendi a andar de muletas até a hora tive que largá-las, no final de abril. Para isto fiz muita fisioterapia, com longas sessões de exercícios e choques. Tive que reaprender a andar.

Para ajudar na recuperação comecei com caminhadas na metade de junho e depois com corridas leves. A figura abaixo mostra minha primeira caminhada mais longa.

Runkeeper_17-06-2017

Peguei gosto pelas corridas e perdi mais ou menos 6 quilos em um ano, minha saúde melhorou. Um dia depois de completar 52 anos, participei pela primeira vez de uma corrida de rua.

foto 25-03-2018

Comecei a estudar Antroposofia em um curso de formação da pedagogia Waldorf. Uma vontade de dar aulas de química para pré-adolescentes e adolescentes começou a crescer dentro de mim… O futuro dirá se concretizarei esta vontade.

Durante o curso, junto com aulas teóricas, temos aulas de arte. Sempre me considerei um grande nada como artista. Tinha certeza absoluta da minha incompetência para todas as formas de artes. Com o transcorrer das atividades de modelagem em argila consegui superar esta certeza negativa e saíram algumas peças, como o “Urso” e o “Tio Gervásio”, cujo resultados finais me agradaram.

Urso_argila

Tio Gervasio

O curso de Antroposofia era no Sítio das Fontes em Jaguariúna. Lembro-me de um sábado que eu e alguns colegas acordamos bem cedo para ver o nascer do sol no equinócio da primavera. Repare que na segunda foto aparecem dois sóis.

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Equinocio-2

No período que fiquei em casa, aproveitei as horas economizadas por não pegar a Rodovia Raposo Tavares nos deslocamentos até o escritório em São Paulo para ler mais e ver filmes e documentários.

No documentário “The Corporation”, havia participação destacada de Ray Anderson, fundador e ex-presidente da Interface, um dos maiores fabricantes mundiais de carpete modular para aplicações comerciais e residenciais. Ele era conhecido nos círculos ambientais por sua posição avançada e progressiva sobre ecologia industrial e sustentabilidade. Em um de seus depoimentos, ele citou dois livros que ajudaram a moldar seu pensamento, “A Ecologia do Comércio” de Paul Hawken e “Ismael” de Daniel Quinn. Descobri que tinha o livro Ismael em casa. Li e fiquei impressionado com a visão de Quinn sobre como o ser humano está destruindo o planeta, através da agricultura.

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O pensamento de Quinn baseia-se na premissa que as populações de animais entram em equilíbrio com a disponibilidade de alimentos na região em que vivem. Se a disponibilidade aumenta, a população aumenta; na sequência, isto causa uma redução da disponibilidade de alimentos e a população diminui. Ou seja, na natureza, existe um equilíbrio dinâmico entre alimentação e crescimento populacional.

Daniel Quinn

Daniel Quinn

O ser humano quebrou este equilíbrio através da agricultura. Invadiu áreas, destruiu ecossistemas e matou outros animais que competiam pela mesma fonte de alimentos. Quanto maior se tornava a disponibilidade de alimentos, mais rapidamente cresciam as populações humanas. Consequentemente mais alimentos eram necessários, aumentavam-se as áreas para agricultura, novos ecossistemas eram destruídos, novas espécies eram extintas. Ao invés do equilíbrio dinâmico de outrora, temos hoje uma espiral ascendente de destruição causada pela agricultura em nível planetário. Tudo isto é agravado pelo consumismo que estimula o consumo de alimentos e bens de forma insustentável.

Como tornar a ação humana mais sadia para o planeta? Comecei a estudar agricultura e como, suas práticas ajudam a mudar clima da Terra e a destruir o solo, as reservas de água doce e a biodiversidade. Tentei então imaginar como as diversas vertentes da agricultura orgânica poderiam ajudar a recuperar o meio ambiente ao mesmo tempo que alimentam a população humana. Fiz um curso de agricultura biodinâmica.

Escrevi um trabalho sobre o assunto. Propus alternativas onde novas tecnologias digitais e robótica ajudariam a agricultura, evitando a aplicação massiva de fertilizantes sintéticos, pesticidas e herbicidas nas lavouras. Quando o trabalho estava pronto para ser apresentado, fui informado que minha área na empresa, inovação global, seria extinta. Após reflexões e sonhos reveladores, achei melhor sair e reativar a empresa de consultoria que a Claudia fundou e entrei de sócio em 2008. A ideia de deixar a empresa, onde trabalho há quase oito anos, já estava em maturação desde o período em que fiquei recuperando-me da fratura em casa.

Recentemente esbarrei numa frase do filósofo dinamarquês Soren Kierkegaard:

“A vida só pode ser compreendida, olhando-se para trás; mas só pode ser vivida, olhando-se para frente.”

Soren_Kierkegaard

Soren Kierkegaard

Na época, não entendi porque quebrei a perna. Hoje percebo que precisava parar e pensar. Minha ligação com nossa filha menor, Luiza, cresceu. Não podia mais ser levado pela vida como aconteceu nos dois ou três últimos anos. Não podia mais viver, acumulando reservas, sem ousar com a justificativa que precisava garantir a estabilidade da minha família. Preciso construir um novo caminho e continuo contando com o amor e apoio da minha família nesta construção.

Daqui a alguns anos, quero parar (de maneira menos dramática) e olhar para trás e entender o sentido das mudanças de 2017 e 2018. Depois voltarei a seguir em frente certo que tudo fez sentido nesta jornada incrível que chamamos de vida.

 

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A Estranha Educação da Língua Portuguesa

Queremos que as pessoas tratem umas às outras com educação. Deste modo, é importante pedir com cordialidade, agradecer e retribuir. A língua portuguesa usa algumas expressões consagradas pelo uso diário que eu considero ruins.

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Se queremos, por exemplo, alguma informação, começamos a frase por um educado “por favor”. Como se a pessoa que pede a informação passasse a dever a retribuição deste “favor”. E isto fica muito claro, quando, após receber a informação solicitada, a pessoa diz obrigado (ou obrigada). Ou seja, ela confirma categoricamente que está obrigada a retribuir o “favor”. Ela ficou com uma dívida com a outra.

O Profeta Gentileza, no Rio de Janeiro ensinava que “em lugar de ‘muito obrigado’ devemos dizer ‘agradecido’ e ao invés de ‘por favor’ devemos usar ‘por gentileza’, porque ninguém é obrigado a nada e devemos ser gentis uns para com os outros e relacionarmo-nos por amor e não por favor”.

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José Datrino, o Profeta Gentileza.

A terceira expressão é a resposta educada para o “obrigado”, “de nada”. Neste contexto, o “de nada” soa como uma desobrigação de retribuir o “favor”.

Em Pelotas, no Rio Grande do Sul, os habitantes locais substituíram o “de nada” pelo “merece”. Assim fica a mensagem que a pessoa “merece” a “gentileza” recebida.

Se unirmos os ensinamentos do Profeta Gentileza à forma pelotense de retribuir um agradecimento, teríamos o seguinte diálogo:

– Por gentileza…
– Agradecido (ou grato)!
– Merece!

Podíamos encerrar 2017 e seguir 2018, sendo educados e exercitando esta forma de pedir e agradecer, porque como dizia o Profeta:

– Gentileza gera gentileza.

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E se o Príncipe Hamlet Fosse um Ovo, uma Semente ou uma Pedra?

Já imaginou se o príncipe Hamlet da Dinamarca, personagem principal da magistral peça de William Shakespeare, não fosse um ser humano? E se ele fosse o ovo de uma ave, ou a semente de uma árvore ou uma simples pedra?

Para relembrar, há alguns anos escrevi um artigo sobre Hamlet, a versão de Millôr Fernandes para o famoso monólogo “Ser ou Não Ser” está apresentada na sequência.

Hamlet_Delacroix

Hamlet e Horácio no cemitério de Eugène Delacroix

Ser ou não ser – eis a questão
Será mais nobre sofrer na alma
Pedradas e flechadas do destino feroz
Ou pegar em armas contra um mar de angústias –
E, combatendo-o, dar-lhe fim? Morrer; dormir;
Só isso. E com o sono – dizem – extinguir
Dores do coração e mil mazelas naturais
A que a carne é sujeita; eis uma consumação
Ardentemente desejável. Morrer – dormir –
Dormir! Talvez sonhar. Aí está o obstáculo!
Os sonhos que hão de vir no sonho da morte
Quando tivermos escapado ao tumulto vital
Não obrigam a hesitar: e é essa reflexão
Que dá à desventura uma vida tão longa.
Pois quem suportaria o açoite e os insultos do mundo,
A afronta do opressor, o desdém do orgulhoso,
As pontadas do amor humilhado, as delongas da lei,
A prepotência do mundo, e o achincalhe
Que o mérito paciente recebe dos inúteis.
Podendo ele próprio, encontrar seu repouso
Com um simples punhal? Quem aguentaria fardos,
Gemendo e suando numa vida servil,
Senão porque o terror de alguma coisa após a morte –
O pais não descoberto, de cujos confins
Jamais voltou nenhum viajante – nos confunde a vontade,
Nos faz preferir e suportar os males que já temos,
A fugirmos para outro que desconhecemos?
E assim a reflexão faz todos nós covardes.
E assim o matiz natural da decisão
Se transforma no doentio pálido do pensamento,
E empreitadas de vigor e coragem,
Refletidas demais, saem de seu caminho,
Perdem o nome de ação.

Ovo_Sementes_Pedras

Se Hamlet fosse um ovo, poderia ser assim seu famoso monólogo:

Ser ou não ser – eis a questão
Ser mineral ou ovo?
Enquanto sou simples ovo, sou como mineral, meu relógio está parado – sem riscos,
Mas diferente dos minerais, posso me transformar!
Com ar ou sem ar – eis a questão
Sem ar, o tempo não existe,
Com ar, o cronômetro dispara…
Não serei mais ovo,
Serei uma ave!
Toda água que preciso para me transformar em ave já está dentro de mim,
Quando estiver pronta bicarei o invólucro mineral que me protege – a casca,
Colocarei minha cabeça para fora e inspirarei o ar para meus pulmões pela primeira vez.
Depois ao expirar, emitirei o primeiro som da minha vida.
Inspirarei e expirarei de forma rítmica enquanto viver.
Aprenderei a suprir meu próprio alimento.
Caçarei animalzinhos menores e fugirei dos meus predadores.
Alternarei períodos de sono com períodos de vigília.
Crescerei e procriarei.
Colocarei ovos que poderão gerar aves semelhantes a mim.
Seguirei meus instintos todos os dias.
Sentirei o mundo ao meu redor.
Até o dia em que perderei minhas forças, envelhecerei.
Me tornarei presa fácil e, um dia, expirarei pela última vez.
Terei morrido!
Meus restos voltarão para a terra e uma parte voltará a ser mineral.
Mas se alguns dos ovos que botei, ao longo da minha vida, virarem aves,
Todo o ciclo da vida recomeça e esta história poderá ser recontada.

E se fosse uma semente?

Ser ou não ser – eis a questão
Ser mineral ou planta?
Enquanto sou simples semente, sou como mineral, meu relógio está parado – sem riscos,
Mas diferente dos minerais, posso me transformar!
Com água ou sem água – eis a questão
Sem água, o tempo não existe,
Com água, o cronômetro dispara…
Não serei mais semente,
Primeiro virarei broto,
Crescerão raízes, caule e folhas,
Minhas raízes buscarão na terra a água e os minerais que preciso,
Minhas raízes chegarão até a rocha-mãe e a desintegrarei lenta e carinhosamente,
A água e os minerais absorvidos pelas raízes formarão a seiva bruta,
Que subirá, através do xilema, pelo meu caule até minhas folhas.
De dia o sol iluminará minhas folhas,
Absorverei o gás carbônico do ar
E, através do milagre da fotossíntese, liberarei oxigênio e produzirei açúcares.
Através do floema mandarei para baixo esta nova seiva nutritiva.
Crescerei um pouco a cada dia.
No final de cada ciclo, florescerei e frutificarei.
Farei sementes iguais à que eu fui um dia.
E voltarei a crescer até um dia em que pararei de crescer e morrerei.
O tempo, materializado em meu corpo, estará encerrado para mim.
Voltarei a ser mineral, voltarei para a terra…
Mas minhas sementes, se receberem água, contarão de novo esta história.

Mas tudo seria mais simples, se Hamlet fosse uma pedra:

Ser ou não ser – eis a questão,
Simples, apenas ser…
E suportar tudo – eternamente,
Ser pisoteada por homens e animais,
Despencar da encosta de uma montanha,
Ser chibatada pelas águas do mar ou de um rio,
Ou lavada gentilmente pela chuva,
Ser erodida pelos ventos,
Ou partida pela violência de um raio.
Passar os tempos no alto de uma montanha,
No fundo de um rio,
Ou nas profundezas da terra, onde as raízes de plantas roubam meus minerais.
Se eu for totalmente fragmentada, desintegrada,
Continuo a ser a mesma, porque sou apenas a soma de minhas partes.
Tenho a eternidade.

 

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Meu Cinquentenário

Não é todo dia que se completa 50 anos. OK, vale o mesmo para 20, 32, 45 ou qualquer outra idade. A questão é o simbolismo dos 50 ou meio século se preferirem…

Passei um ano muito mais complicado do que o normal. Pensei muito no que já fiz e, principalmente, no que tenho que fazer para frente. Isto gerou uma tensão, porque não é fácil vislumbrar o próprio futuro. Só recentemente comecei a digerir a ideia que continuar minha jornada neste caminho incrível da vida é a melhor, talvez a única, alternativa.

Fiz amizades que gostaria que fossem para toda a vida. Não converso com a maioria destas pessoas há anos. É provável que, se eu encontrar alguns destes amigos do passado, o tempo tenha nos afastado de tal forma que nossa conversa será apenas social. Em compensação, conheci novas pessoas por causa dos meus novos interesses. Muitos dos novos amigos não têm a menor semelhança com os antigos. Será que eu continuo pelo menos, parecido com o Vicente de 20, 30 ou 40 anos atrás? Sinto-me como um agricultor que progressivamente foi trocando as plantas da sua fazenda.

De volta para a jornada, hoje tenho certeza que mais importante do que chegar a algum lugar é prestar atenção no caminho. Muitas vezes, estamos tão certos de que precisamos de alguma coisa que colocamos viseiras, como fazem com os cavalos de carroças, e o mundo ao nosso redor desaparece. Quantas oportunidades são perdidas assim? Nos convencemos que estamos apaixonados por alguém, sofremos loucamente com perdas, cobiçamos uma certa posição, desejamos bens materiais cada vez mais caros. E como ficam os amores maduros, o amor pelos filhos, a alegria de aprender coisas novas, os trabalhos que nos levam à autorrealização ou aquele lugar com atmosfera mágica?

Por exemplo, eu tive diversos tipos de chefes, alguns foram maravilhosos; outros, terríveis. Hoje eu compreendo a importância do sofrimento pelo qual passei nos períodos em que tive estes chefes terríveis. Tornei-me menos orgulhoso, entendi que não podia fazer apenas o que eu queria. Com o tempo também passei a ouvir melhor os outros e refletir se não havia outros caminhos para fazer a mesma atividade. Fiquei mais flexível, menos dono da verdade. Afinal o que é a verdade?

Voltando a falar sobre a jornada, às vezes, esbarramos em alguma coisa que passa a ser uma fonte inesgotável de prazer. Pode ser um hobby, uma música, um filme ou um livro. Para matar o tempo em uma conexão de voo, entrei numa livraria e vi, em uma estante, uma coleção de livros no formato pocket da L&PM. Entre estes livros, estava Hamlet de William Shakespeare. Apanhei o livro e li a primeira página da peça e entendi o que estava escrito. A tradução do Millôr Fernandes era simples; e a leitura, fluida. Comprei e devorei o livro. Depois li outros – Otelo, MacBeth, Júlio César, Rei Lear, Henrique V… O bardo inglês virou meu companheiro fiel de viagens!

No Rei Lear, o bobo da corte, que não tinha nada de bobo, disse para o rei que ele não deveria ter ficado velho antes de ter ficado sábio. Nos últimos anos tenho estudado assuntos muito diferentes dos meus velhos estudos de engenharia – genética, agricultura, filosofia, história… Quanto mais estudo, mais eu percebo que sei quase nada. Sócrates tinha razão! Não tenho a arrogância de me comparar a ele. Assim corro o risco de cair em um dilema. Poderia pensar que é melhor não estudar mais, porque à medida que tenho contato com diferentes disciplinas, me dou conta que meu conhecimento é uma fração cada vez menor do todo. Prefiro me esforçar, sem ansiedade, para, até o dia do meu último suspiro, chegar o mais próximo possível do zero. Aprender todos os dias é uma das belezas desta jornada.

No dia em que Steve Jobs morreu, assisti ao vídeo de uma palestra para formandos da Universidade de Stanford. Jobs deu quatro conselhos valiosos. O primeiro estabelece que só é possível unir os pontos da vida quando se olha para o passado. O segundo manda seguir o seu coração. O terceiro conselho é para não desperdiçarmos nossa vida, vivendo a vida de outra pessoa. E finalmente “stay hungry, stay foolish”. Seja humilde e não sacie nunca sua fome de novos conhecimentos e experiências.

De volta para Shakespeare, qual foi a melhor frase do príncipe Hamlet da Dinamarca? Todos pensarão que é o “ser ou não ser” que ele fala sem segurar uma caveira como muitos pensam. A melhor frase da peça não é de Hamlet e sim de Polônio, um bajulador do rei Cláudio. Quando seu filho Laertes está de saída para passar uma temporada no exterior, depois de vários bons conselhos, Polônio arremata de forma inesquecível:

– E, sobretudo, isto: sê fiel a ti mesmo. Jamais serás falso pra ninguém.

Muito antes de ler esta frase, já tentava seguia este conselho…

O grande David Bowie, que voltou para as estrelas neste ano, fez sucesso com a música “Changes” há 45 anos:

Look out you rock ‘n rollers
Pretty soon you’re gonna get a little older
Time may change me
But I can’t trace time

Se substituirmos a palavra tempo por jornada, posso afirmar que minha jornada me transformou. Felizmente não tenho total controle sobre minha jornada. Esta é a beleza da vida… Esta é a maravilha de olhar para trás e ver 50 anos e desejar viver ainda mais. Que jornada!

Talvez esta seja minha cara daqui umas décadas...

Talvez esta seja minha cara daqui umas décadas…

 

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David Bowie Vive entre as Estrelas

Acordei na segunda-feira com a notícia da morte do artista inglês David Bowie. No final de semana, ouvi seu novo disco, “Blackstar” lançado no dia de seu aniversário na última sexta-feira. Vi e revi os clipes de três músicas – Blackstar, Lazarus e Sue. Li as letras das músicas. Prestei atenção no som dos instrumentos. Mostrei o clipe de Sue e um antigo de Space Oddity, onde Bowie canta a música como seu personagem Ziggy Stardust, para minha filha Júlia. Na tarde do domingo, estava impressionado com o trabalho de Bowie e escrevi na minha página do Facebook:

David Bowie Ziggy Stardust

David Bowie comemorou seu aniversário de 69 anos com o lançamento do seu novo álbum “Blackstar”. O que mais me impressionou foi Bowie ter realizado um trabalho totalmente diferente dos anteriores da sua longa e exitosa carreira. Ouvi todas as sete músicas impregnadas de jazz com lindos solos de saxofone.

O clipe da música título do álbum, além de impactante, nos traz aquela sensação que a pior escolha de nossas vidas é seguir cegamente algum profeta. Não esqueça que os falsos profetas estão por toda parte, não apenas na religião…

Este gênio me traz a inspiração de que nunca é tarde para recomeçar ou tentar algo novo.

Vida longa para este “ET” incrível, Major Tom, David Bowie!

Redescobri Bowie há quase três anos com o lançamento de seu álbum “The Next Day”. Fazia dez anos que ele não gravava um álbum com músicas inéditas. Confesso que comecei a ouvir as músicas com baixa expectativa, porque muitos artistas, nestes retornos, criam obras muito abaixo de seus melhores trabalhos. Cada música que eu ouvia, eu gostava mais e mais. “The Next Day” é um grande disco de rock! Ouvi algumas vezes o disco e depois comecei a ouvir novamente as músicas conhecidas das décadas de 70 e 80. Quando fiquei sabendo do lançamento de “Blackstar”, passei a contar os dias. Enfim o grande dia chegou, e seu último trabalho, como eu registrei na minha página do Facebook, é impressionante.

Meu abatimento com a morte de Bowie talvez seja alimentado pela certeza de que ele não vai se reinventar novamente. Não verei algo tão original como este último trabalho ou outros anteriores da sua carreira.

Minha tristeza também pode ser alimentada por relembrar que o tempo é implacável e, mais cedo ou mais tarde, as pessoas que gostamos ou admiramos ficarão distantes de nós ou desaparecerão.

O jovem David Bowie, em 1971, aos 24 anos de idade, compôs “Changes”. No final da música ele faz o seguinte alerta aos roqueiros:

Ch-ch-ch-ch-Changes
(Turn and face the strain)
Ch-ch-Changes
Oh, look out you rock ‘n rollers
Ch-ch-ch-ch-Changes
(Turn and face the strain)
Ch-ch-Changes
Pretty soon you’re gonna get a little older
Time may change me
But I can’t trace time
I said that time may change me
But I can’t trace time

Minha dor é saber que este alerta não vale apenas para os roqueiros…

Prefiro pensar David Bowie voltou a encarnar o Major Tom de “Space Oddity” e está cruzando o espaço em busca de inspiração para criar novos personagens e novas músicas geniais.

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Resolver Caminhando

Meu filho Leonardo nos visitou na segunda quinzena de julho e voltou para o Rio Grande do Sul no primeiro domingo de agosto. Não tivemos muito tempo juntos nestas duas semanas, porque eu não consegui uma folga no trabalho e ainda fiz uma viagem não programada.

No último sábado juntos, recebemos em nossa casa a visita um casal de amigos. A noite foi muito agradável, jantamos, bebemos vinho, conversamos e nos lembramos de várias histórias (as velhas histórias de sempre). Por volta da meia-noite, eles se despediram e retornaram para São Paulo.

O Léo apareceu na sala com um moletom em cada mão e deu a ordem:

– Escolhe um, veste e vamos caminhar.

Vestimos os moletons e fomos caminhar na pista em torno do lago e da área de lazer do condomínio. A noite estava fria e conversamos sem parar sobre os mais variados assuntos por uma hora, enquanto caminhávamos. Pedi então para terminarmos nossa conversa no aconchego da sala da casa. Afinal eu já estava congelando…

Caminhamos de volta para casa, e conversamos até as 3 horas da madrugada. Excelente bate-papo!

Como coincidências não existem, na viagem que eu fiz na semana anterior li uma revista Newsweek, onde havia uma seção chamada “Newswalks”, na qual a revista convida pensadores para dar caminhadas por locais escolhidos pelos próprios convidados, enquanto refletem sobre suas vidas, inspirações e ambições. A introdução desta seção está apresentada abaixo:

Em seus “Walking Essays” de 1912, um jovem e brilhante escritor inglês, A. H. Sidgwick, propôs que a caminhada “estabelece uma base de respeito mútuo mais rapidamente e com mais segurança” do que qualquer outra atividade. O ambiente de uma caminhada foi o mais acertado: “familiar suficiente para criar uma sensação de facilidade, e ainda estranho o suficiente para jogar os caminhantes de volta sobre si mesmos com o instinto de solidariedade humana”.

Quando Leigh Fermor Paddy e Bruce Chatwin cruzaram, conversando através da paisagem do Peloponeso, eles estavam encenando solvitur ambulando de Diógenes – resolver caminhando.

Achei a ideia ótima. Muitos filósofos e escritores defenderam a caminhada como fonte de inspiração para seus pensamentos, como Nietzsche e Rousseau. As caminhadas do poeta gaúcho Mário Quintana pela Rua da Praia em Porto Alegre devem ter inspirado inúmeros poemas. Talvez “O Mapa”, que reproduzo abaixo, seja fruto dessas caminhadas inspiradas.

Olho o mapa da cidade
Como quem examinasse
A anatomia de um corpo…

(E nem que fosse o meu corpo!)

Sinto uma dor infinita
Das ruas de Porto Alegre
Onde jamais passarei…

Há tanta esquina esquisita,
Tanta nuança de paredes,
Há tanta moça bonita
Nas ruas que não andei
(E há uma rua encantada
Que nem em sonhos sonhei…)

Quando eu for, um dia desses,
Poeira ou folha levada
No vento da madrugada,
Serei um pouco do nada
Invisível, delicioso

Que faz com que o teu ar
Pareça mais um olhar,
Suave mistério amoroso,
Cidade de meu andar
(Deste já tão longo andar!)

E talvez de meu repouso…

Poeta Mário Quintana caminhando na Rua da Praia em Porto Alegre.

Poeta Mário Quintana caminhando na Rua da Praia em Porto Alegre.

Concordo que qualquer conversa flui melhor durante uma caminhada tranquila, sem pressa. Também percebo que, quando caminho solitariamente, as ideias começam a brotar de forma diferente do que entre quatro paredes, sob pressão. Mas por que as pessoas não aproveitam mais um ato tão simples como caminhar para solucionar seus problemas (a tradução literal do solvitur ambulando)?

A principal dificuldade para aproveitar o ato de caminhar é a necessidade de se desplugar de todos os estímulos que recebemos – ligações telefônicas, mensagens do WhatsApp ou de e-mail, atualizações do Facebook ou Twitter, navegação em sites da Internet… Tudo isto ocupa a cabeça de uma forma que fica impossível manter uma comunicação empática com seu colega de caminhada ou pensar na própria vida, se estiver solitário.

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Post 200 – Retrospectiva

Este é o ducentésimo (por que não é “duzentésimo”?) post publicado neste blog.

200-posts

Normalmente o centésimo é mais festejado, talvez pela introdução do terceiro dígito na contagem do número de posts, mas não posso perder a chance de fazer uma retrospectiva dos últimos cem posts publicados.

Vários posts foram inspirados por filmes. “Diários de Motocicleta” ajudou a contar a história da formação da consciência social de Che Guevara. “As Aventuras de Pi” tratou de temas como religiosidade e espiritualidade. “Amour” tratou dos sacrifícios extremos assumidos em nome do amor. “Meia-Noite em Paris” inspirou uma discussão sobre “O Passado e o Futuro”. “Ela” (título original Her) trouxe à tona as maravilhas e os perigos da inteligência artificial meio ano antes do físico Stephen Hawking externar seus temores sobre o assunto (fiquei bem acompanhado desta vez…).

Outros posts resgataram fatos históricos, como as descobertas e invenções de Heron de Alexandria ou o ato heroico de Sérgio Macaco que evitou centenas de mortes durante os anos de chumbo no Brasil. O próprio golpe militar foi protagonista de um post, onde reafirmei minha certeza que a democracia é o único caminho. As semelhanças dos casos de Napoleão Bonaparte e Eike Batista também renderam um post. E a guerra, o ato mais estúpido do ser humano, foi meu alvo após uma visita a Les Invalides em Paris,”Pra Não Dizer que Não Falei das Flores“.

O nascimento de nossa caçula, Luiza, recebeu um post superespecial – “A Maior Emoção da Minha Vida”. A Claudia deve futuramente fazer um post mais aprofundado sobre o parto humanizado.

Alguns posts trataram das minhas visões pessoais sobre família, amor pelos filhos (“Quando nos sentimos pais”) e educação dos filhos (“O que Dar e o que Esperar do Futuro de Nossos Filhos”). Afinal minha riqueza não deve ser medida pelos meus bens materiais, mas pela qualidade dos meus relacionamentos e “Eu Sou um Homem Rico”.

As questões do exibicionismo e da privacidade foram discutidas em dois posts, o primeiro sobre o BBB e o segundo que também trata do monitoramento da vida privada das pessoas pelos Estados – “Privacidade, Intromissão e Exibicionismo”. A propósito este post foi publicado quatro meses antes das denúncias de Edward Snowden.

As religiões e a manipulação dos fiéis por líderes inescrupulosos são fontes inesgotáveis de inspiração. Não escaparam deste blog o Islamismo, a igreja católica, representada pelos papas Bento XVI e Francisco, e nem mesmo “Deus, Sempre Ele”.

Dediquei dois posts para uma das piores figuras públicas da atualidade, o russo Vladimir Putin, sobre seu ecomarketing e sobre a Crimeia. Muito, mas muito menos importante, o ex-prefeito de Novo Hamburgo, Tarcísio Zimmermann, também foi “agraciado” com dois posts, enquanto tentava se reeleger antes de ser cassado devido à Lei da Ficha Limpa.

Em outros três posts, procurei comentar como nossos pensamentos podem ser nossos maiores aliados ou inimigos – “Como a Matrix de Neo e a Caverna de Platão nos Mostram a Realidade”, “Memórias e os Fantasmas do Passado” e “Como Assassinamos Nossos Insights”. Na mesma linha, escrevi mais dois posts – “O Medo” e “A Autossabotagem”.

A culinária vegana manteve seu lugar de destaque – moqueca de tofu, ratatouille, torta de sorvete, estrogonofe ou como preparar proteína texturizada de soja.

Aventurei-me em novos territórios – primeiro escrevi uma história infantil sobre bullying (“A Bruxinha Totute”); depois um poema no meio da “Turbulência” de um voo entre a França e o Brasil; mais um conto de ficção científica dividido em cinco partes sobre a expansão da humanidade em outros sistemas planetários e sua incontrolável ambição (“A Fonte da Juventude de Perennial”). Para finalizar escrevi, na semana passada, uma história que mescla ciência e religião (“Projeto Gaia – Experiência Final”).

Vários posts tiveram como inspiração as manifestações de junho do ano passado. Iniciei com “Os Protestos e a Verdadeira Democracia”, na sequência sugeri como próximo alvo a finada PEC 37/2011. Imaginem como ficaria a investigação da “Operação Lava Jato”, se o poder de investigação do Ministério Público Federal fosse tolhido? A melhoria nos serviços públicos de saúde foi um dos principais alvos dos manifestantes e o governo federal reagiu com a criação do “Programa Mais Médicos” que inspirou um artigo. Em breve, voltarei a escrever sobre a política brasileira.

Tentei desvendar os mistérios da satisfação pessoal em ”Não Esqueçam seus Objetivos Pessoais no Avião” e “Salário Motiva os Funcionários?”.

Questões éticas com animais foram tratadas em “Golfinhos de Guerra” e “Sofrer e Amar não são Exclusividades dos Humanos”.

A sustentabilidade ambiental também teve destaque com artigos sobre reciclagem de metais raros de telefones celulares, reciclagem de fósforo e da influência do consumo de carne na degradação do meio ambiente.

Este blog não é mais somente meu. A Claudia estreou em grande estilo com o post que conta como virou vegetariana, “Eu, a carne e a berinjela…”. Sinto que o respeito aos vegetarianos cresce a cada dia como retratei no post “Vitória Vegetariana”. E aqui entre nós, “Por Que Comer Carne?”.

A Copa do Mundo de Futebol realizada no Brasil em 2014 rendeu dois posts, “A Copa do Mundo Envergonhada” e “Como o Futebol Brasileiro foi Massacrado pelo Alemão”. Dentro da esfera futebolística, publiquei mais dois post “De Volta para o Meu Lugar”, sobre a reabertura do Beira-Rio, e “Fernandão, Vida, Morte e Piscadas”, sobre o morte do ídolo colorado Fernandão.

A seca em São Paulo que ameaça o fornecimento de água à população do estado também inspirou dois posts – “o que fazer quando a água acabar?” e “as medidas que evitariam a crise de abastecimento de água”. Apesar das excelentes chuvas dos últimos dias, o risco continua…

Falei sobre os mais variados assuntos, das “Gambiarras” ao “Portuglish ou Portunglês”, do show de Yusuf Islam em São Paulo aos “Múltiplos Papéis da Mulher no Mundo Atual”, dos conflitos entre judeus e palestinos em “O Escudo Humano” aos problemas da economia americana em “Obama e o Dilema Capitalista”, do racismo contra o goleiro Aranha a “Os Psicopatas, os Hiperativos, os Estranhos e os Normais”. Afinal “As Pessoas são Diferentes – Que Bom!!!”.

Agradeço a todos que acompanham nosso blog, espero críticas e sugestões para os assuntos dos próximos cem posts e lembro, mais uma vez que tento não falhar e fazer “Jornalismo Profundo como um Pires“ e “Eu Não me Chamo “Martho Medeiros”.

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A Autossabotagem

Há muitos anos li um livro de um grande escritor gaúcho não muito popular do grande público, Dyonélio Machado. O livro “Os Ratos” trata do período de 24 horas da vida de um funcionário público a procura de dinheiro para pagar sua dívida com o leiteiro. Você pode achar o enredo meio bobo, mas o livro, publicado há quase 80 anos, é muito bom e sua leitura continua atual.

Se você não quiser saber o final do livro, volte a ler após a figura da capa do livro.

Depois de passar horas, tentando arrumar dinheiro com o chefe, colegas e agiotas, o personagem principal finalmente consegue a quantia que precisa para pagar sua dívida. Ele deixa a quantia sobre a mesa da cozinha da sua casa. Eram outros tempos, o leiteiro deixava as garrafas ou tarros cheios e levava os vazios. Durante a noite, ele imagina que vários ratos roem e destroem totalmente o dinheiro que ele havia deixado sobre a mesa. Mesmo assim, ele não se levanta para verificar se isto realmente está acontecendo, apenas sofre. E só consegue relaxar, quando o leiteiro chega no horário de sempre e entrega o leite que havia ameaçado suspender o fornecimento caso a dívida não fosse quitada. Veja a passagem onde a paranoia e angústia chega ao ponto máximo.

De repente, um barulho no forro… “Ratos… São ratos”. Fica esperando o barulho dos ratos na cozinha. O barulho aumentou: em vários pontos, no forro, o rufar… “A casa está cheia de ratos!” Há um roer ali perto. O que estarão comendo? É isto! “Os ratos vão roer – já roeram! – todo o dinheiro!…” Tem um grande desespero. É preciso levantar-se. Mas o barulho cessou. Há só o silêncio. Será que ratos roem dinheiro? É melhor perguntar à mulher. Absurdo. Claro que ratos não roem dinheiro! “Vê os ninhos, os papéis picados, miudinhos, picadinhos… uma poeira”.

Os-Ratos_Dyonelio-Machado

Muitas vezes inventamos barreiras e problemas imaginários. Algumas pessoas criam conspirações complexas, onde todos querem prejudicá-las. Inimigos imaginários ganham vida. Ao invés de agir, a reação é uma paralisia, como aconteceu com o personagem principal do livro “Os Ratos”, onde a pessoa, após criar a fantasia, fica com medo de enfrentá-la.

Um caso mais sutil acontece, quando nos convencemos que somos incapazes de fazer algo. O pensamento típico desta forma de comportamento é a frase:

– Não adianta tentar! Eu não vou conseguir mesmo…

Outra forma de autossabotagem é acreditar que o simples desejo tem poder para conseguir alguma coisa. A máxima que resume isto é aquela frase do “O Alquimista” do Paulo Coelho:

– Quando você quer alguma coisa, todo o universo conspira para que você realize o seu desejo.

Alquimista_Paulo-Coelho

Concordo que o primeiro passo para se conseguir algo é acreditar, mas se você apenas confiar que isto basta e não trabalhar duro, não desenvolver suas aptidões, não perseverar, dificilmente chegará ao resultado almejado. Na hora do fracasso, o culpado é a sorte ou o destino.

Aqueles que alcançam seus objetivos depois de batalharem muito, ainda são classificados como sortudos ou, então, se diz que nasceu com certa parte do corpo virada para a lua.

Temos que nos vigiar permanentemente, porque nossa mente pode ser nosso maior aliado ou nosso maior inimigo. Nós somos os principais agentes dos nossos sucessos e fracassos.

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Eu Não me Chamo “Martho Medeiros”

Faz quase quatro anos que mantenho este blog ativo e tenho publicado artigos todas as terças-feiras desde julho do ano passado, incluindo até a terça de carnaval. Confesso que algumas vezes não foi fácil encontrar algum assunto interessante. No penúltimo domingo, a Claudia me perguntou qual seria o assunto do próximo artigo. Eu comentei que escreveria sobre o reciclo de fósforo. Na sequência, completei:

– O número de acessos diretos através das redes sociais será baixo. Este tipo de artigo mais técnico tem pouco acesso.

Eu tinha assistido a algumas apresentações em uma feira sobre sustentabilidade na Alemanha e queria compartilhar algumas informações interessantes sobre reciclagem. Estava certo, não tive dez acessos diretos ao artigo, somando Facebook, Twitter e Linkedin. Tudo bem, não tenho como saber quantos dos assinantes diretos do blog, além da própria Claudia, leram este artigo… Alguns ainda dirão maldosamente que a “coitada” da Claudia é obrigada a ler tudo que eu escrevo, mas é mentira! Eu só tenho que obrigá-la a ler os posts sobre futebol…

Desde que criei meu blog, decidi que me manteria fiel a sua missão e escreveria sobre tudo o que me interessa. Alguns artigos fizeram mais sucesso; outros, muito pouco… Sinceramente, gostaria de ter milhares de acessos diários, mas não deixaria de publicar artigos que nasceram de uma boa reflexão e, ao escrevê-los, consegui resolver as maiores (só as maiores) inconsistências do meu pensamento. Muitas vezes não consigo solucionar meus conflitos, em relação ao tema, em uma ou, pior, duas páginas. Se a pessoa não se sente atraída por determinado tema, como vai suportar a leitura de um longo artigo? Parece impossível resumir tudo a poucos “tweets” de 140 caracteres…

Twitter

Meus sucessos (guardadas as devidas proporções) foram os artigos que tratavam de temas pessoais, como relacionamentos, ou os profissionais, como autorrealização e sucesso na carreira. Nesta hora, me dei conta de um dos motivos do sucesso da escritora Martha Medeiros.

Martha Medeiros

Martha Medeiros

Não sou um leitor frequente de suas colunas no jornal, mas acho seu estilo muito interessante. Ela apresenta temas, aparentemente simples do dia a dia, com sua visão de mundo, chegando a uma conclusão que eu concordo integralmente – não se preocupe com os rótulos e não se estresse em seguir os modelos de sucesso dos livros e revistas, ache seu modelo e seja feliz do seu jeito. E mais, sofrer de vez em quando também é normal.

Apesar dos meus textos de maior sucesso seguirem esta linha, eu não sou o “Martho Medeiros”!

Quero ter a mais completa liberdade no meu blog de baixar a lenha no ex-prefeito de Novo Hamburgo por causa de seus desmandos, como se minha antiga cidade no Rio Grande do Sul fosse a Antares de Érico Veríssimo ou a Lagoa Branca do excelente “Tambores Silenciosos” de Josué Guimarães. Afinal a política de Novo Hamburgo era a representação do pior da política brasileira (sobre a qual também escrevi)…

Quero falar livremente das religiões! Por que não questionar o Islamismo, o Judaísmo e o Cristianismo? Pior do que seguir cegamente alguma coisa, é ser manipulado por um líder sem escrúpulos. As escrituras não devem ser usadas literalmente fora do contexto da época. Não se pode destacar as passagens que interessam e omitir as que não interessam.

Quero escrever sobre futebol, sem deslumbramentos, apesar da maravilha que é meu Internacional, nem com aquele surrado chavão de “ópio do povo”.

Quero falar sobre tecnologia, meio ambiente, sobre o futuro da humanidade… Sou um otimista, apesar de ter certeza que o caminho até este futuro radioso não será um passeio no parque.

Quero falar sobre a ética como algo absoluto, jamais relativo. As circunstâncias que explicam os desvios de comportamento devem ser discutidas sem preconceitos, entendidas e alteradas.

Sei que muitas pessoas buscam algum conforto para seus problemas imediatos. Ler uma coluna da Martha Medeiros que ajude a perceber que você não é o único do mundo que sofre com certo tipo de dor é bom. Talvez por isto, as mulheres são suas maiores fãs. Como já escrevi no meu blog, as mulheres são pressionadas atualmente para serem mães, esposas, amantes e profissionais perfeitas. Sejam as melhores de acordo com suas possibilidades, porque perfeição total não existe! Quando eu escrevo sobre este tipo de assunto, existe sempre uma motivação pessoal, nasce dentro de mim ou da observação de uma pessoa próxima. O diabo é que ainda tenho aquela ideia de querer ajudar a salvar o mundo, por isso também tenho que escrever sobre política, religião, economia, tecnologia, meio ambiente…

Eu e Martha, sem dúvida, concordamos que escrever liberta, como pode ser visto neste trecho de uma entrevista:

– Para mim, escrever é libertador sempre. Posso ter sofrimentos meus pessoais, mas que na hora que começo a escrever começam a se dissolver. O ato da escrita não é sofrido. Sofrida é a vida. O ato de escrever, para mim, é mais cura do que sofrimento.

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Inteligência Artificial e Sentimentos Naturais

No sábado passado, no voo entre New York e Munique, assisti ao filme “Ela” (título original Her) do diretor americano Spike Jonze. Neste trabalho, além de dirigir, ele escreveu o roteiro e produziu o filme.

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A seguir faço um breve resumo do filme. A história acontece no futuro, onde todas as pessoas estão conectadas virtualmente. Theodore (atuação muito boa de Joaquin Phoenix) é um homem solitário e seu trabalho é escrever cartas a pedido de outras pessoas, normalmente entre casais. Ele não consegue iniciar novo relacionamento após o final do seu casamento. Para amenizar a sua solidão, ele compra um novo sistema operacional dotado de inteligência artificial (A.I.), Samantha (representada pela voz sexy de Scarlett Johansson). Samantha evolui rapidamente e a relação entre os dois passa pela amizade, cumplicidade, paixão e amor. Como toda relação humana, ela esquenta, esfria e tem crises. Já assisti a filmes bons com finais fracos ou, pelo menos, muito previsíveis. O final de “Ela” é inteligente e surpreendente. Sempre gosto de destacar uma frase do filme. Achei esta, de uma amiga de Theodore, muito boa, eu só trocaria a palavra amor por paixão:

– “O amor é uma forma de insanidade socialmente aceitável”.

Assista ao filme! Garanto que não é daquelas melosas comédias românticas. A história é ótima e nos faz pensar também o que se espera dos relacionamentos em uma era, onde existe muita conexão virtual, mas pouca compreensão e conversas reais. Por incrível que pareça, uma história possível que ganhou o Oscar de melhor roteiro original de 2014.

Outros filmes já trataram a questão da inteligência artificial. Em “A.I. – Inteligência Artificial” de Steven Spielberg, a história gira em torno de um androide menino que é comprado para amar seus pais e substituir o filho humano que está em estado vegetativo. Após um acidente, o “pai” resolve se livrar do androide para proteger o filho natural, mas a “mãe” o ajuda a fugir. Como na história de Pinóquio, o androide quer virar um menino de verdade.

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Em outros filmes, computadores dotados de inteligência artificial escravizam os humanos como no “Exterminador do Futuro” e no brilhante “Matrix”. A questão ética é se os sistemas computacionais poderiam ser programados para aprender a desenvolver sentimentos? Como um ser humano, os computadores poderiam sentir amor, compaixão, medo, orgulho, raiva… Até que ponto isto seria seguro?

Matrix_Poster

Lembro-me da declaração de Larry Page, fundador e atual presidente do Google, sobre a possibilidade dos sistemas lerem o cérebro humano. Assim não seriam mais necessárias interfaces de comunicação. Estaremos nus! Enquanto Samantha vasculhava os e-mails e arquivos de Theodore, os sistemas do futuro poderão explorar nossas mentes. Assustador…

Esta discussão pode parecer exótica, mas há pouco foi aprovado o marco civil da internet brasileira. A grande maioria dos países não tem regulação que garanta liberdade de expressão, privacidade e neutralidade da internet. Se hoje este é um assunto importante, há dez anos não tinha relevância. Assim, seria bom iniciar logo a discussão ética sobre a inteligência artificial, porque isto poderá ter grande impacto em nossas vidas no futuro.

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Deus, Sempre Ele

Nestes últimos dias, Claudia e eu nos divertimos no cinema na quinta-feira e no teatro no sábado. No cinema, assistimos ao polêmico filme Noé do diretor Darren Aronofsky (seu trabalho anterior foi o intenso “Cisne Negro”). No sábado, foi a vez da peça “Meu Deus” da israelense Anat Gov com Dan Stulbach, no papel de Deus, e Irene Ravache como sua psicoterapeuta.

Começarei com um comentário sobre as polêmicas do filme. Não podemos esquecer que Noé, além de ser patriarca bíblico, é um dos profetas do islamismo. Assim as maiores críticas dos religiosos judaicos, cristãos e mulçumanos basearam-se nas inconsistências do filme em relação ao Gênesis e ao Al Corão. Aronofsky alega que, com as informações contidas sobre Noé e o dilúvio, seria impossível fazer um filme com duas horas de duração. Afinal todo o caso é tratado em apenas quatro capítulos curtos do Gênesis. A questão maior não se refere ao “recheio” de detalhes para preencher as lacunas, mas a algumas alterações em relação ao original. O diretor e roteirista, Aronofsky, deu um enfoque ecológico para a história, onde Deus teria decidido extinguir a espécie humana. Deste modo, nenhuma mulher fértil deveria entrar na arca para salvar-se do Dilúvio. A gravidez da esposa, supostamente estéril, de Sem, seu filho mais velho, gera um enorme dilema para Noé no filme. Os outros dois filhos, Cam e Jafé, na história original, entraram na arca com suas esposas, enquanto que no filme estavam sozinhos. A tensão entre Cam e Noé, por exemplo, é explicada no filme pela inexistência de uma esposa para Cam. Poderia comentar outros pontos, como a morte do pai de Noé, Lameque, a participação de Tubalcaim, um dos descendentes da sétima geração de Caim, mas não me estenderei, porque vale a pena ir ao cinema para assistir ao filme. Gosto de filmes que sejam persistentes na minha cabeça.

Noe - filme

Na peça “Meu Deus”, um Deus amargurado e deprimido procura a ajuda de uma psicoterapeuta para achar a explicação para sua perda de poderes e para sua vontade de acabar com a própria vida. Temos que entender que o Deus da peça é o Deus do Velho Testamento, muito mais temido do que amado. No final, chega-se a conclusão que Deus ficou deprimido após tudo o que fez com Jó, um dos seus servos mais fiéis.

meu-deus-teatro

Farei a análise de algumas passagens da Bíblia, onde Deus tem algumas atitudes no mínimo interessantes. Após criar e colocar Adão e Eva no Jardim do Éden, Deus resolveu tentá-los através da árvore do conhecimento do bem e do mal, a única que não poderia ter seus frutos comidos. Todos sabem o final desta história; a serpente tenta Eva; Eva convence Adão; os dois experimentam o fruto proibido; Deus descobre, amaldiçoa a serpente, Adão e Eva e os expulsa do Paraíso. Por que colocar esta árvore bem no meio do Jardim do Éden? Parece uma mera provocação da curiosidade de dois jovens imaturos que cometeram apenas um erro e não foram perdoados.

O caso dos filhos mais velhos de Adão e Eva, Caim e Abel, nos mostra mais um teste de Deus. Abel era pastor e Caim agricultor. Abel ofertou um cordeiro ao Senhor; e Caim, frutos do seu trabalho na terra. Deus aceita apenas a oferenda de Abel, o que causa enorme irritação de Caim. Deus fala a Caim que ele tem que aprender a controlar sua ira. Não adianta, logo após Caim golpeia a cabeça do irmão com uma pedra e o mata. Deus descobre o assassinato, amaldiçoa Caim e o expulsa para uma terra no leste do Éden. Incrivelmente Ele protege Caim e diz que quem matá-lo sofrerá sete vezes a vingança. Caim constrói uma cidade, Enoque, tem vários descendentes, como os que moram em tendas e criam rebanhos, os que tocam harpa e flauta, e os que fabricavam todos os tipos de ferramentas de bronze e ferro. Por que Deus primeiro provoca a ira de Caim e depois de Caim matar o próprio irmão o protege? Será que Deus se sentiu culpado ou tinha alguma identificação com a ira de Caim?

“O Assassinato de Abel” de Tintoretto

“O Assassinato de Abel” de Tintoretto

Mais tarde arrependido da Criação, Deus resolve exterminar a humanidade através do dilúvio. Salva-se apenas a família de Noé, descendente de Set, filho mais novo de Adão e Eva. Todos os demais são mortos – homens, mulheres, crianças e animais que não entraram na arca. No final Deus diz a si mesmo:

– “Nunca mais amaldiçoarei a terra por causa do homem, porque seu coração é inteiramente inclinado para o mal desde a infância. E nunca mais destruirei todos os seres vivos como fiz desta vez”.

“A Construção da Arca” de Francesco Bassano

“A Construção da Arca” de Francesco Bassano

Interessante é que o homem foi criado por Deus “a sua imagem e semelhança”.

Mais adiante no Gênesis, tem uma das provações mais cruéis de toda a Bíblia. Deus pede para que Abraão ofereça a Ele, em sacrifício, Isaac, seu único filho com Sara. Abraão vai com o filho para um monte, prepara o altar para o sacrifício, amarra o filho, saca a faca e, no instante em que consumaria o ato, um anjo do Senhor aparece e o impede:

– “Não toque no rapaz. Não faça nada. Agora sei que você teme a Deus, porque não me negou seu filho, seu único filho”.

Por que fazer um teste de lealdade deste tipo? Forçar alguém a preparar a morte do próprio filho… Como se não pudesse amar simultaneamente o seu filho e a Deus? Como se Deus sempre exigisse estar acima de tudo?

“O Sacrifício de Isaac” de Caravaggio

“O Sacrifício de Isaac” de Caravaggio

Não vou falar da destruição de Sodoma e Gomorra ou dos conflitos entre irmãos como Ismael e Isaac ou Esaú e Jacó. Vou falar um pouco sobre Jó.

Jó era justo, temente a Deus, seu servo mais leal. Ele tinha dez filhos, possuía muitas posses – terras, servos e animais. Um dia Deus se encontra com Satanás e comenta sobre a lealdade de Jó. O Satanás comenta que é fácil ser fiel quando se é protegido por Deus com casa, família, propriedades. Para provar a fidelidade de Jó, Deus permite que Satanás lhe tire de uma só vez todos os bens, seus animais são mortos ou roubados, a maioria dos seus servos é assassinada e os dez filhos morrem no desabamento da casa do irmão mais velho atingida por um furacão. Ao saber de todas estas notícias, Jó desespera-se, rasga suas roupas, raspa a cabeça, cai por terra e, em adoração, diz:

– “Nu, saí do ventre de minha mãe e nu, voltarei para lá. O Senhor deu, o Senhor tirou; como foi do agrado do Senhor, assim aconteceu. Seja bendito o nome do Senhor!”

Deus reencontra-se com Satanás e mostra como, apesar de tudo, Jó manteve-se fiel a Ele. O Satanás diz que o que fizera até aquele momento era pouco. Se Jó fosse atingido na sua saúde, não permaneceria fiel a Deus. Deus pede apenas que a vida de Jó fosse poupada. O corpo do pobre homem fica coberto por feridas purulentas. Depois três amigos aparecem e ficam acusando Jó de ter feito algo errado para merecer isto. Jó somente quer que Deus lhe diga o que fez de errado para merecer tudo aquilo. No final, Deus enfim aparece e faz um discurso em mostra toda a grandeza de sua obra. Jó, no final daquele debate desigual, ainda desculpa-se. Deus restabelece seus bens e Jó tem mais dez filhos.

“A Paciência de Jó” de Gerard Seghers

“A Paciência de Jó” de Gerard Seghers

Na peça “Meu Deus”, o Satanás que tenta Deus é apresentado pela psicanalista Ana como o lado ruim do próprio Deus. Na verdade, o Senhor faz mais um teste, desta vez com seu servo mais fiel, fazendo-o sofrer terrivelmente. Jó aceita todas as perdas e, quando sofre uma terrível doença, apenas quer saber o motivo de tanto sofrimento. Onde Jó havia errado?

O Deus do Velho Testamento nos passa a impressão de ser um jovem brilhante, mas orgulhoso de sua capacidade. Quando se sente contrariado, age de forma impulsiva e pune impiedosamente os faltosos. Não consegue perceber que a pessoa que cometeu o erro pode estar num estágio inferior ao Seu. Pune ao invés de educar. Não perdoa! Criou, como um cientista em um laboratório, muitas formas de vida e, simplesmente, as extermina se agiram de forma diversa das suas expectativas. Fez vários testes para provar que ninguém era mais temido do que Ele, basta lembrar-se dos casos de Adão, Caim, Abraão ou Jó. Afinal parecia melhor ser temido do que amado…

Lembra o Zeus grego, distribuindo sua ira santa. Apenas moralmente mais correto que seu “par” grego, pois não engana ou comete adultérios, por exemplo. Deus exige e cobra os acordos firmados, sem perdão.

Após uns 4 mil anos, considerando os períodos de tempo do Gênesis, Deus se mostra muito mais reservado e manda para a Terra, Jesus Cristo que prega o amor entre todos. Agora Deus é amor. Devemos amar Deus, não temê-lo. Deus perdoa a quem se arrepende, um novo paradigma…

“A Criação de Adão” de Michelangelo

“A Criação de Adão” de Michelangelo

A frase mais impactante da peça foi feita por Ana, após Deus revelar que queria se matar, ela conclui que seria impossível Ele fazer isto, porque Deus vive na cabeça das pessoas e, para Ele deixar de existir, teria que matar todas as pessoas. Enquanto houver uma pessoa viva, Deus permaneceria vivo…

Veja o filme, assista à peça, pense bem e decida qual Deus você quer que viva dentro de sua cabeça! Mas lembre-se de que talvez não sejamos tão importantes quanto imaginamos ou desejamos. Assista ao inesquecível final do “MIB – Homens de Preto 1”.

 

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De Volta para o Meu Lugar

Neste final de semana, voltei a Porto Alegre para acompanhar as festividades de reinauguração do Gigante da Beira-Rio. Após mais de um ano fechado, o estádio do Internacional foi reaberto com uma linda e emocionante festa.

Nunca me apeguei a lugares, já comprei e vendi alguns apartamentos e terrenos. As boas recordações sempre eram carregadas por mim e o resto ficava para trás. Na minha infância, minha família mudou várias vezes de cidade devido ao trabalho do meu pai. No máximo a cada dois anos, tudo se repetia. Eu não criava raízes e me acostumei a ser “meio-cigano”. Eu me apegava à minha família, principalmente meus pais, depois à minha irmã. Os lugares eram descartáveis…

Revendo toda emoção que senti neste final de semana, em especial na noite de sábado, concluí que o meu lugar é o Beira-Rio. Como se ao entrar nele, depois de alguns anos de “exílio voluntário” em São Paulo, tudo voltasse a minha mente, um verdadeiro turbilhão de emoções.

Meu filho Leonardo e eu na frente do Beira no dia da festa de reinauguração.

Meu filho Leonardo e eu na frente do Beira no dia da festa de reinauguração.

Pude rever ídolos colorados de diferentes gerações e reviver os momentos dos anos 70 que passei ao lado do meu pai e meu tio nas conquistas dos campeonatos brasileiros. Os jogos dos anos 80 nos quais quase conquistamos títulos importantes. O sofrimento quase instransponível dos anos 90. E a redenção dos anos 2000, quando conquistamos os títulos mais importantes da história do clube, sempre ao lado do meu irmão e do meu filho. No momento da festa em que é mostrada a conquista do Mundial em 2006, na apresentação do gol do Gabiru, eu e meu filho nos abraçamos e choramos. Nossas lágrimas eram da mais pura alegria por estarmos vivendo aquele momento maravilhoso juntos naquele lugar especial.

Festa colorada em 05-04-2014.

Festa colorada em 05-04-2014.

Como brinde ainda pude cantar a plenos pulmões “Camila” com o Nenhum de Nós e “Deu Pra Ti” com Kleiton & Kledir. O encerramento da festa ficou por conta do músico e DJ britânico Fatboy Slim. Não gosto muito deste tipo de música, mas assisti a apresentação com atenção. Os telões, durante a segunda música, mostravam frases do comediante e músico americano Bill Hicks falecido em 1994 aos 32 anos de idade. Em minha opinião, Hicks é muito mais um crítico social do que comediante. A frase repetida várias vezes no telão era:

– “Is this real or is this just a ride?”

Esta questão sobre a vida é filosoficamente complexa. Isto é real ou isto é apenas um passeio? Vale a pena assistir ao vídeo feito no final de um dos shows de Bill Hicks.

Se tudo é real ou se não passa de um passeio em um parque de diversões, eu não sei, mas em qualquer das duas hipóteses eu diria:

– O Gigante da Beira-Rio é meu lugar e ele está lindo!

Interior do Beira-Rio antes do jogo contra o Peñarol em 06-04-2014.

Interior do Beira-Rio antes do jogo contra o Peñarol em 06-04-2014.

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Nova Intervenção Militar no Brasil – 1º de Abril

Hoje se completa 50 anos do golpe que levou os militares brasileiros ao poder em 1º de abril de 1964. Nossos militares tentaram puxar a data para o dia 31 de março para evitar piadas a respeito…

Vejo cada vez mais pessoas nas redes sociais, pedindo uma nova intervenção militar devido aos níveis alarmantes de corrupção do atual governo. Muitas destas pessoas têm menos de 40 anos. Ou seja, quando o regime militar encerrou seu ciclo em 15 de março de 1985, tinham no máximo uns 10 anos. Não foram às ruas na campanha das “Diretas Já”. Não viveram a expectativa pela possibilidade de um novo golpe militar na madrugada da véspera da posse de Tancredo Neves, quando ele foi internado para uma cirurgia de emergência. Não viveram sob o regime da censura da produção cultural e dos meios de comunicação. Não tiveram aulas com um agente do DOPS (Departamento de Ordem Política e Social) infiltrado como “colega”, em alguma cadeira como, por exemplo, EPB (Estudo dos Problemas Brasileiros). Não acompanharam cassações de políticos por apenas fazerem discursos fortes contra o regime militar. Também não ouviram histórias sobre prisões arbitrárias, exílio, tortura e desaparecimento de pessoas.

Para aqueles que já esqueceram ou não sabem, selecionei algumas histórias. Vou começar pela censura. Hoje falamos que nunca houve tanta corrupção e desmando no Brasil, mas nos esquecemos de que atualmente temos abundância de fontes de informação. Através dos “portais da transparência”, é possível fiscalizar as despesas dos três poderes nos âmbitos municipal, estadual e federal. As principais estatais têm ações na Bolsa de Valores de São Paulo, o que obriga a comunicar os atos relevantes e publicar seus resultados trimestralmente. Existem revistas com as mais diversas tendências da direita à esquerda. Temos Internet com suas redes sociais e blogs com a divulgação das mais variadas opiniões e informações sobre tudo. Na época do regime militar, estávamos restritos a jornais impressos, rádios e poucas redes de televisão, onde apenas os amigos do regime conseguiam as concessões estatais para explorar as emissoras de rádio e TV.

Muitos jornais que se atreviam a divulgar alguma notícia que desagradava o regime eram censurados. No início para mostrar que a notícia foi censurada, deixavam enormes espaços em branco. Os militares não gostaram daquela afronta e exigiram que o espaço fosse ocupado. Alguns jornais resolveram ocupar estes espaços com receitas culinárias ou poesias. Segundo o jornal “O Estado de São Paulo”, entre agosto de 1973 e janeiro de 1975, versos de “Os Lusíadas”, de Luís Vaz de Camões, apareceram 655 vezes nas páginas do Estadão.

Versos de “Os Lusíadas” no Estadão

Versos de “Os Lusíadas” no Estadão

A censura também atingiu a cultura. Chico Buarque foi um dos mais censurados na época. Uma de suas músicas censuradas mais emblemáticas foi “Apesar de Você” que parece ser uma inocente música sobre um conflito entre dois namorados, mas, na verdade, era uma crítica ao governo Médici. Clara Nunes inocentemente gravou esta música e, para limpar a barra com os militares, teve que cantar até na abertura das Olimpíadas do Exército em 1971. Você pode ouvir a interpretação de Clara Nunes de “Apesar de Você” e “Fado Tropical”.

Outro cantor e compositor muito censurado foi o brega Odair José. Os censores não se limitavam apenas às questões políticas, mas também aos costumes. O governo iniciava uma campanha de controle da natalidade, não gostou do refrão da música “Uma Vida Só” que dizia “pare de tomar a pílula” e censurou a música.

Era preciso manter o país livre da ameaça causada por qualquer coisa que ameaçasse os valores das famílias. Esta atitude paternalista levava à censura de músicas, filmes, jornais e revistas.

O pior mesmo foram as torturas e mortes durante o período da ditadura militar. Vou comentar apenas dois dos vários casos conhecidos – Rubens Paiva e Vladimir Herzog.

Rubens Paiva foi um deputado federal cassado em 1964 logo após o golpe militar. Em 1971, foi preso em sua casa, torturado e assassinado nos porões do DOI-CODI no Rio de Janeiro. Há alguns dias, o coronel reformado Paulo Malhães admitiu que liderou uma operação na qual os restos do corpo de Rubens Paiva foram desenterrados na praia do Recreio dos Bandeirantes e lançados em alto-mar. Dias depois no depoimento na Comissão Nacional da Verdade (CNV), ele negou que havia participado desta missão, mas admitiu que participou de torturas na chamada “Casa da Morte”, localizada em Petrópolis na serra carioca.

Rubens Paiva com seu filho, o escritor Marcelo Rubens Paiva

Rubens Paiva com seu filho, o escritor Marcelo Rubens Paiva

O que falar então do caso do jornalista Vladimir Herzog que foi preso, torturado e morto no DOI-CODI em São Paulo? A foto de Herzog morto em uma simulação grotesca de suicídio se transformou no símbolo da luta pelo fim da ditadura militar no Brasil.

Vladimir Herzog morto no DOI-CODI

Vladimir Herzog morto no DOI-CODI

Os regimes totalitários, de qualquer matiz ideológica, podem até começar com boas intenções, mas, depois de um tempo, o mais importante é se manter no poder, não importam os meios. Já escrevi um artigo sobre um caso ocorrido em 1968, no qual o brigadeiro João Paulo Burnier criou um plano onde haveria uma onda de atentados e a culpa recairia sobre os comunistas. A ação heroica do militar Sérgio Macaco, que denunciou o esquema, evitou uma tragédia, onde centenas de pessoas morreriam.

Winston Churchill, em um pronunciamento em 1947 disse uma frase célebre:

– “A democracia é a pior forma de governo, salvo todas as demais formas que têm sido experimentadas de tempos em tempos”.

Quase 70 anos depois que Churchill disse esta frase, a situação não mudou. A democracia é um sistema imperfeito, a jovem democracia brasileira pode possuir mais imperfeições ainda, mas não existe como melhorar a democracia fora do estado direito, sem liberdade de expressão. O povo tem muito mais força do que imagina e todas as vezes que a usa faz valer sua vontade. O resultado da votação do “Marco Civil da Internet” na Câmara Federal, na semana passada, foi a mais recente prova disto. Infelizmente o povo brasileiro não exerce seus direitos frequentemente.

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Eu Sou um Homem Rico

Guardei a mala e a mochila no bagageiro sobre meu assento no avião. Tirei o tênis e coloquei aquela meia que vem no nécessaire das companhias aéreas. Acomodei-me na poltrona e resolvi conferir quais eram as opções disponíveis de filmes. Escolhi “Captain Phillips” como primeiro filme da noite, esperando mais uma convincente atuação de Tom Hanks. A surpresa ficou com seu antagonista no filme, o somali Barkhad Abdi.

Capitão Phillips

“Captain Phillips” com Tom Hanks e Barkhad Abdi

Antes de o filme começar, passou um comercial do Bank of Singapore. Você pode assisti-lo abaixo.

Realmente, não há nada mais precioso em nossas vidas do que os relacionamentos que mantemos com as pessoas ao nosso redor, mas não é fácil se dar conta disto. Enquanto a moça da Columbia Pictures aparecia com aquela pose de Estátua da Liberdade, eu cheguei a uma importante conclusão:

– Eu sou um homem rico!

Mais importante do que casas, apartamentos, automóveis e investimentos que pudessem fazer parte do meu patrimônio, tenho três filhos e uma esposa que amo muito e que me amam. Todo o dia tenho uma troca intensa com eles e a cada reencontro parece que tudo se renova, me sinto feliz!

No ano passado, fiz um curso sobre finanças no INSEAD da França. A primeira parte do curso poderia ser resumida em três frases simples em inglês:

Cash is king!

Time is queen!

Risk matters!

Ou seja, o caixa é o rei, o tempo é a rainha e o risco importa. Os investidores procuram projetos que tornem o fluxo de caixa da empresa mais positivo do que projetos apenas lucrativos. Manter o fluxo de caixa positivo conserva a saúde da empresa. O tempo é importante, porque, ao comparar diferentes projetos, devemos trazer suas contribuições ao caixa da empresa para o tempo presente, para o dia de hoje. Finalmente, sempre que investimos em alguma coisa, olhamos para o retorno e para o risco associados ao investimento.

Paradoxalmente, pela minha nova definição de homem rico, o caixa deve estar sempre praticamente zerado. Devemos retornar tudo o que recebemos o mais rápido possível. Isto não significa que os fluxos de entrada e saída sejam pequenos, pelo contrário devemos circular grandes volumes de amor, carinho e compreensão. Vamos ser mais perdulários do que a caricata figura do “rei do camarote”, mas ao invés de focar nos bens materiais, vamos prestar atenção aos sentimentos.

O "rei do camarote"

O “rei do camarote”

Para finalizar, lembro-me de um presente que meu filho Léo me deu há um bom tempo, o saco do carinho. Estava escrito assim:

– Carinho – quanto mais se dá, mais se tem!

Este parece um daqueles círculos virtuosos. Quanto mais a gente dá e demonstra afeto, mais recebe, mais feliz e autoconfiante fica, mais a gente dá, mais recebe…

Como eu apresentei antes, a nova lógica é sempre devolver, no mínimo, tudo o que se recebeu e nosso “caixa” ficará zerado, mas nossos corações ficarão cada vez mais plenos em felicidade e alegria.

Foto da minha família (São Paulo, julho de 2013)

Foto da minha família (São Paulo, julho de 2013)

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Yusuf Islam, Cat Stevens e um Belo Show

A noite de sábado não foi simplesmente “Another Saturday Night”, antigo sucesso de Cat Stevens. Eu e a Claudia fomos assistir ao show de Yusuf Islam, nome adotado por Cat após sua conversão ao Islamismo, aqui em São Paulo. O início já foi incrível, Yusuf entrou no palco sozinho com seu violão e cantou “Moonshadow” do mesmo jeito dos tempos de Cat. Esta é uma das suas músicas preferidas daquela fase, porque fala da superação das limitações pessoais. A propósito qual foi a última vez que você viu sua sombra sob o luar?

Show de Yusuf no Credicard Hall em 16-11-2013

Show de Yusuf no Credicard Hall em 16-11-2013

Na sequência, ele cantou “Where do the children play?”, com a presença da sua banda a partir da metade da música. Gosto muito desta música, eu aceito e aprecio o desenvolvimento tecnológico, mas sempre tenho receio com o distanciamento das coisas mais simples e puras da vida, como fala o refrão:

I know we’ve come a long way.
We’re changin’ day to day,
But tell me, where do the children play?

Depois se sucederam vários clássicos como “I love my dog” do primeiro disco de 1966 e a verdadeira “The first cut is the deepest” da mesma época. E vieram ainda dos tempos do Cat Stevens “The Wind”, “Morning Has Broken”, “Foreigner Suite”, “Don’t Be Shy”, “Oh Very Young” e a libertária, otimista e pacifista “Peace Train”, além da “All You Need Is Love” dos Beatles. As músicas da fase Yusuf tinham a qualidade e harmonizavam com os clássicos.

Antes de falar do bis gostaria de relembrar um pouco da história do inglês Steven Demetre Georgiou que já foi Cat Stevens e agora é Yusuf Islam. Após um início fulminante de carreira, em 1969, com cerca de vinte anos de idade, contrai tuberculose, quase morre, e fica praticamente um ano internado recuperando-se da doença. Torna-se uma pessoa mais espiritualizada, suas músicas passam a falar mais de paz e harmonia. Alguns anos depois, em 1976, ele tem a experiência definitiva, após quase morrer afogado na praia de Malibu, na Califórnia, sentindo que não se salvaria, faz a promessa:

– Deus, se Você me salvar, eu trabalharei para Você!

Coincidência ou não, uma onda o levou para a praia no instante seguinte à promessa… Seu irmão lhe presenteou com uma edição traduzida do Al Corão. Ele estuda e decide se converter ao Islamismo, abandona a carreira artística e passa a se dedicar às causas humanitárias. Apenas recentemente volta a lançar discos e fazer shows.

A voz de Yusuf, aos 65 anos de idade, continua incrivelmente igual à do tempo do Cat. Talvez a abstinência de álcool e drogas tenha ajudado muito. E agora chegamos ao bis do show, quando ele interpreta dois megassucessos “Father and Son” e “Wild World”.

A história de um filho que quer sair de casa para buscar seus próprios rumos e de um pai que deseja que seu filho fique é tocante. Sempre me emociono ao ouvir a música, talvez porque consigo me identificar com os dois papéis. Música linda com uma linda interpretação!

Para finalizar de forma apoteótica, interpreta “Wild World” com palmas e coros da plateia. Foi um lindo show, de um artista que semeia paz e harmonia. Deu-me uma carga extra de equilíbrio na semana na qual estaremos de mudança para nossa nova casa em Cotia. Vou precisar…

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Jornalismo Profundo como um Pires

Qual é a função do jornalista no mundo de hoje? No passado, era muito mais difícil conseguir informações, o jornalista era a pessoa que disponibilizava notícias para a população em geral. Hoje, com a Internet cada vez mais onipresente, o tamanho do mundo encolheu. O massacre em um shopping center no Quênia é imediatamente divulgado em todos os cantos do planeta.

A divulgação de imagens também deixou de ser exclusividade de agências jornalísticas, qualquer pessoa com um celular com câmera pode filmar uma ocorrência de grande importância ou tirar uma foto digna de um Prêmio Esso ou Pulitzer. Na sequência, pode divulgar no Youtube ou através de outras redes sociais como o Twitter ou Facebook.

Ou seja, o jornalismo descritivo na era da abundância de imagens e informações perdeu terreno e importância. Os telejornais tentaram se reinventar, passaram a ter dois âncoras, normalmente uma mulher e um homem. Começaram a empregar linguagem mais informal. Os apresentadores algumas vezes trocam sorrisinhos e dizem gracinhas. Totalmente dispensável! Passaram também a ter maior participação popular, mas novamente se perderam na obviedade. O que acrescenta perguntar para uma pessoa na rua sua opinião sobre a inflação, a corrupção ou a violência? Tempo precioso perdido!

Vamos analisar dois casos recentes – a greve dos professores municipais no Rio de Janeiro e a libertação dos animais do Instituto Royal em São Paulo.

Os professores do Rio de janeiro ficaram em greve por aproximadamente 80 dias. Os meios de comunicação centraram suas matérias em dois aspectos – o prejuízo dos alunos e o vandalismo dos “black blocs”. Algumas imagens rolaram pela Internet, como a fotografia abaixo, mostrando uma grande manifestação popular no dia 7 de outubro em apoio aos professores. O governo municipal aprovou a toque de caixa um novo plano de carreira que foi rechaçado pelas lideranças da categoria. Não vi nenhum comparativo, mostrando as diferenças entre as propostas dos dois lados. Também não vi um raio X do ensino da cidade do Rio de Janeiro e um comparativo com outras capitais no Brasil e no exterior. Ou seja, ao invés de mostrar e analisar o essencial, a imprensa, de modo geral, preferiu mostrar o acessório – o vandalismo dos “black blocs”.

Manifestação em apoio aos professores cariocas em 07-10-2013.

Manifestação em apoio aos professores cariocas em 07-10-2013.

O caso da libertação de 178 cães da raça beagle do Instituto Royal segue o mesmo roteiro. Foi apresentado um grande número de vídeos com pessoas retirando os animais do local. Todos estavam sem máscaras, sem receio de serem identificados, não parecia uma ação planejada.

A grande discussão nos noticiários foi se a atuação do Instituto Royal era legal. A esta questão eu respondo que sim! A Agência Nacional de Vigilância Sanitária, ANVISA, exige que novos remédios e ingredientes para produtos de limpeza ou alimentícios sejam testados em animais. Ou seja, as empresas têm duas opções – ou fazem os testes em animais ou não lançam os produtos. Muitos destes remédios e ingredientes já foram testados e aprovados nos seus países de origem, por exemplo, Estados Unidos ou Europa, mas a ANVISA não aceita estes resultados e exige novos testes no Brasil. Por quê? Seria um bom início a ANVISA analisar os resultados dos testes realizados o exterior, evitando-se o sacrifício inútil de milhares de vidas.

Outro ponto é o sofrimento dos animais. As declarações dos representantes do Instituto Royal afirmando que os animais não sofrem são surrealistas. São aplicados produtos químicos na pele dos animais, eles são obrigados a comer produtos de limpeza, mas não sentem dor. No caso de rações para cachorro até vivissecção é realizada para ver o efeito no sistema digestivo do animal, mas “todos os procedimentos são realizados sem sofrimento”. No final todos os animais são sacrificados e dissecados.

Cão da raça beagle resgatado no Instituto Royal.

Cão da raça beagle resgatado no Instituto Royal.

Se atualmente não existem outras formas com eficácia comprovada para substituir os testes com animais, deveria ser criado um plano para a substituição para testes in vitro com células humanas. Por exemplo, em 2018 estariam proibidos testes de produtos de limpeza e alimentícios em animais; em 2025, remédios.

Os testes com animais ficaram parcialmente desacreditados após dois casos célebres:

– os testes em animais para verificar a ligação entre tabagismo e câncer;
– a má formação de fetos devido ao consumo de talidomida durante a gravidez.

Inúmeros testes foram realizados com animais para provar a ligação entre tabagismo e câncer. Em um destes testes, camundongos ficavam numa câmara, inalando fumaça de cigarro. Centenas passaram a vida nestas condições, mas não houve aumento nos índices de câncer de pulmão. Os resultados destes testes serviram de álibi para a indústria do fumo por anos. Em 1993, o The New York Times publicou o depoimento de William Campbell, na época presidente da Philip Morris, em um processo de indenização de comissários de bordo que tiveram problemas de saúde devido à inalação de fumaça de cigarro durante voos (naquele tempo era permitido fumar a bordo dos aviões).

– O tabagismo causa câncer?
– Que eu saiba, não está provado que o cigarro provoca câncer.

– No que você se baseia?
– Me baseio no fato de que, tradicionalmente , você sabe, existem em termos científicos dificuldades relacionadas com a determinação das causas e, até este momento, não há nenhuma evidência de que os cientistas tenham conseguido produzir câncer em animais a partir de fumaça de cigarro.

Se você quiser ler a íntegra deste depoimento, basta clicar no link abaixo.

http://www.nytimes.com/1993/12/06/business/on-cigarettes-health-and-lawyers.html

O problema é que o organismo da maioria dos mamíferos, incluindo camundongos e cães, sintetiza sua própria vitamina C, um poderoso antioxidante. Nós humanos somos incapazes de fazer isto e necessitamos de fontes externas. Deste modo, os camundongos tinham uma proteção natural nos seus pulmões, o que tornava os testes inúteis para simularmos o efeito da fumaça dos cigarros nos humanos. A ligação entre câncer e tabagismo foi provada através de estatística, porque a incidência de câncer no pulmão era significativamente maior nos fumantes. A indústria do cigarro fez um acordo bilionário para indenizar as vítimas do tabagismo nos Estados Unidos.

Sessão do senado americano em 1994, onde os presidentes das 7 maiores empresas de tabaco dos EUA afirmaram sob juramento que nicotina não vicia. William Campbell está na direita da foto.

Sessão do senado americano em 1994, onde os presidentes das 7 maiores empresas de tabaco dos EUA afirmaram sob juramento que nicotina não vicia. William Campbell está na direita da foto.

No caso da talidomida, no final dos anos 50 e durante os anos 60, cerca de dez mil bebês, segundo a BBC, nasceram com má-formação após suas mães consumirem este medicamento para combater enjoos durante a gravidez. A característica mais lembrada destas crianças é a focomelia, encurtamento e deformação dos membros superiores e inferiores, como pode ser visto na foto abaixo da artista inglesa Alison Lapper.

Artista inglesa Alison Lapper pintando.

Artista inglesa Alison Lapper pintando.

Foram realizados testes com animais, mas inicialmente não foram usadas fêmeas grávidas. Com o surgimento de casos teratogênicos em humanos, reiniciaram-se os testes com animais, mas em várias espécies a má-formação do feto só aparecia em dosagens significativamente maiores (centenas a milhares de vezes) do que a dose diária ingerida por um humano.

Se você acredita que está seguro com os testes em animais, engana-se, porque muitos medicamentos que causam, por exemplo, má-formação de fetos humanos não geram efeitos em algumas espécies e nenhum animal de teste tem resultados completamente alinhados aos humanos. A prova são as advertências às gestantes que estão impressas nas bulas dos remédios.

Ao invés de mostrar insistentemente “black blocs”, queimando carros de polícia nas proximidades do Instituto Royal na cidade paulista de São Roque, a imprensa poderia estimular a discussão da validade dos testes em animais.

O jornalismo hoje deveria ser mais analítico, mostrar os diversos lados da notícia, ser plural, ao mesmo tempo não deveria ser maniqueísta. Por exemplo, ao invés de simplesmente mostrar a ação dos “black blocs”, os meios de comunicação poderiam traçar perfis sociais e psicológicos dos seus integrantes. Poderiam mostrar as raízes históricas e ideológicas do movimento no mundo. Tenho certeza que haveria discussões mais ricas e toda sociedade sairia ganhando.

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O Manto da Invisibilidade já Existe

No início da manhã da quinta-feira passada, estava enchendo minha garrafa com água mineral no escritório quando ouvi uma voz:

– Bom dia, chefe!

Virei-me para ver quem havia me cumprimentado. Era o rapaz da limpeza. Na mesma hora, retribuí o sorriso e o cumprimento:

– Bom dia! Tudo bem contigo?

Há alguns meses, quando ele começou a trabalhar na área, percebi que ele não me dirigia o olhar e muito menos a palavra. Esta não era uma característica exclusiva daquele rapaz, todos os ajudantes de limpeza, independente de sexo e idade, agiam da mesma forma. Eu costumo quebrar o gelo, sempre que percebo a aproximação, cumprimento a pessoa, alcanço o cesto de lixo que fica sob a bancada de trabalho e agradeço ao receber o cesto vazio. Depois de alguns dias, eles passam a tomar a iniciativa do cumprimento e dão e retribuem sorrisos.
Pontes foram construídas sobre os desfiladeiros que nos separavam.

Aquele simples cumprimento do rapaz da limpeza ativou uma série de pensamentos e lembranças. Por que em determinadas situações as pessoas agem como se outras não existissem? Por que nos diversos ambientes em que convivemos existem “castas” com barreiras de comunicação entre elas?

A situação lembra a divisão das classes sociais que Aldous Huxley criou no seu livro “Admirável Mundo Novo”, ou uma forma de castas, como os dalits na Índia. Lembrei-me também da história do psicólogo Fernando Braga da Costa que durante alguns anos, pelo menos uma vez por semana, trabalhou como gari no campus da USP em São Paulo. Seu mestrado foi baseado nas suas observações e nos depoimentos destes trabalhadores, que conviviam com ele, sobre as situações de humilhação social pelas quais passavam cotidianamente. Na sequência o psicólogo publicou o livro “Homens invisíveis: relatos de uma humilhação social”. Deste livro, transcrevo o chamado “episódio do uniforme”:

No intervalo entre aulas no Instituto de Psicologia, foi preciso que eu passasse por dentro do prédio daquela faculdade. Imaginei, então, que vestindo aquele uniforme ali incomum – calça, camisa e boné vermelhos – fosse chamar a atenção de toda a gente: colegas de classe, professores, curiosos.

Entramos pela porta principal, eu e o Antônio (um dos garis). Percorremos o piso térreo, as escadas e o primeiro andar. Não fui reconhecido. E as pessoas pelas quais passávamos não reagiam à nossa presença. Talvez apenas uma ou outra tenha se desviado de nós como nos desviamos de obstáculos, objetos. Nenhuma saudação corriqueira, um olhar, sequer um aceno de cabeça. Foi surpreendente. Eu era um uniforme que perambulava: estava invisível, Antônio estava invisível. Saindo do prédio, estava inquieto; era perturbadora a anestesia dos outros, a percepção social neutralizada.

Por que não fui visto? Por que passei despercebido? Passei realmente despercebido? Que implicações teve o uso de um uniforme? Os uniformes podem valer como signos da posição social – posição de trabalho, posição hierárquica, posição de classe. Quantos outros signos foram produzidos e, carregados pelos garis, disparam desaparecimento público? Esse desaparecimento, essa invisibilidade, que não parecem físicos, como defini-los? Como são socialmente construídos? Como aparecem para os garis? Que aprender e pensar das interpretações dos próprios trabalhadores acerca deste fenômeno?

Fernando Braga da Costa (de laranja à direita) com seus companheiros garis

Fernando Braga da Costa (de laranja à direita) com seus companheiros garis

Em minha opinião, a lógica é terrível! As pessoas invisíveis só existem para servir as pessoas que se recusam a vê-las. Assim, elas deixam de ser pessoas e passam a ser coisas, máquinas que cumprem funções específicas, só isto. E quem fala com coisas é louco. O psicólogo Fernando complementa que aparecem apenas os uniformes e os lugares varridos e limpos.

Assista ao sensacional, impressionante e chocante curta-metragem de animação “El Empleo” do argentino Santiago “Bou” Grasso.

Se os subalternos são invisíveis para nós, por que nós não seríamos também invisíveis para outras pessoas que se acham superiores?

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