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E se o Príncipe Hamlet Fosse um Ovo, uma Semente ou uma Pedra?

Já imaginou se o príncipe Hamlet da Dinamarca, personagem principal da magistral peça de William Shakespeare, não fosse um ser humano? E se ele fosse o ovo de uma ave, ou a semente de uma árvore ou uma simples pedra?

Para relembrar, há alguns anos escrevi um artigo sobre Hamlet, a versão de Millôr Fernandes para o famoso monólogo “Ser ou Não Ser” está apresentada na sequência.

Hamlet_Delacroix

Hamlet e Horácio no cemitério de Eugène Delacroix

Ser ou não ser – eis a questão
Será mais nobre sofrer na alma
Pedradas e flechadas do destino feroz
Ou pegar em armas contra um mar de angústias –
E, combatendo-o, dar-lhe fim? Morrer; dormir;
Só isso. E com o sono – dizem – extinguir
Dores do coração e mil mazelas naturais
A que a carne é sujeita; eis uma consumação
Ardentemente desejável. Morrer – dormir –
Dormir! Talvez sonhar. Aí está o obstáculo!
Os sonhos que hão de vir no sonho da morte
Quando tivermos escapado ao tumulto vital
Não obrigam a hesitar: e é essa reflexão
Que dá à desventura uma vida tão longa.
Pois quem suportaria o açoite e os insultos do mundo,
A afronta do opressor, o desdém do orgulhoso,
As pontadas do amor humilhado, as delongas da lei,
A prepotência do mundo, e o achincalhe
Que o mérito paciente recebe dos inúteis.
Podendo ele próprio, encontrar seu repouso
Com um simples punhal? Quem aguentaria fardos,
Gemendo e suando numa vida servil,
Senão porque o terror de alguma coisa após a morte –
O pais não descoberto, de cujos confins
Jamais voltou nenhum viajante – nos confunde a vontade,
Nos faz preferir e suportar os males que já temos,
A fugirmos para outro que desconhecemos?
E assim a reflexão faz todos nós covardes.
E assim o matiz natural da decisão
Se transforma no doentio pálido do pensamento,
E empreitadas de vigor e coragem,
Refletidas demais, saem de seu caminho,
Perdem o nome de ação.

Ovo_Sementes_Pedras

Se Hamlet fosse um ovo, poderia ser assim seu famoso monólogo:

Ser ou não ser – eis a questão
Ser mineral ou ovo?
Enquanto sou simples ovo, sou como mineral, meu relógio está parado – sem riscos,
Mas diferente dos minerais, posso me transformar!
Com ar ou sem ar – eis a questão
Sem ar, o tempo não existe,
Com ar, o cronômetro dispara…
Não serei mais ovo,
Serei uma ave!
Toda água que preciso para me transformar em ave já está no dentro de mim,
Quando estiver pronta bicarei o invólucro mineral que me protege – a casca,
Colocarei minha cabeça para fora e inspirarei o ar para meus pulmões pela primeira vez.
Depois ao expirar, emitirei o primeiro som da minha vida.
Inspirarei e expirarei de forma rítmica enquanto viver.
Aprenderei a suprir meu próprio alimento.
Caçarei animalzinhos menores e fugirei dos meus predadores.
Alternarei períodos de sono com períodos de vigília.
Crescerei e procriarei.
Colocarei ovos que poderão gerar aves semelhantes a mim.
Seguirei meus instintos todos os dias.
Sentirei o mundo ao meu redor.
Até o dia em que perderei minhas forças, envelhecerei.
Me tornarei presa fácil e, um dia, expirarei pela última vez.
Terei morrido!
Meus restos voltarão para a terra e uma parte voltará a ser mineral.
Mas se alguns dos ovos que botei, ao longo da minha vida, virarem aves,
Todo o ciclo da vida recomeça e esta história poderá ser recontada.

E se fosse uma semente?

Ser ou não ser – eis a questão
Ser mineral ou planta?
Enquanto sou simples semente, sou como mineral, meu relógio está parado – sem riscos,
Mas diferente dos minerais, posso me transformar!
Com água ou sem água – eis a questão
Sem água, o tempo não existe,
Com água, o cronômetro dispara…
Não serei mais semente,
Primeiro virarei broto,
Crescerão raízes, caule e folhas,
Minhas raízes buscarão na terra a água e os minerais que preciso,
Minhas raízes chegarão até a rocha-mãe e a desintegrarei lenta e carinhosamente,
A água e os minerais absorvidos pelas raízes formarão a seiva bruta,
Que subirá, através do xilema, pelo meu caule até minhas folhas.
De dia o sol iluminará minhas folhas,
Absorverei o gás carbônico do ar
E, através do milagre da fotossíntese, liberarei oxigênio e produzirei açúcares.
Através do floema mandarei para baixo esta nova seiva nutritiva.
Crescerei um pouco a cada dia.
No final de cada ciclo, florescerei e frutificarei.
Farei sementes iguais à que eu fui um dia.
E voltarei a crescer até um dia em que pararei de crescer e morrerei.
O tempo, materializado em meu corpo, estará encerrado para mim.
Voltarei a ser mineral, voltarei para a terra…
Mas minhas sementes, se receberem água, contarão de novo esta história.

Mas tudo seria mais simples, se Hamlet fosse uma pedra:

Ser ou não ser – eis a questão,
Simples, apenas ser…
E suportar tudo – eternamente,
Ser pisoteada por homens e animais,
Despencar da encosta de uma montanha,
Ser chibatada pelas águas do mar ou de um rio,
Ou lavada gentilmente pela chuva,
Ser erodida pelos ventos,
Ou partida pela violência de um raio.
Passar os tempos no alto de uma montanha,
No fundo de um rio,
Ou nas profundezas da terra, onde as raízes de plantas roubam meus minerais.
Se eu for totalmente fragmentada, desintegrada,
Continuo a ser a mesma, porque sou apenas a soma de minhas partes.
Tenho a eternidade.

 

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Meu Cinquentenário

Não é todo dia que se completa 50 anos. OK, vale o mesmo para 20, 32, 45 ou qualquer outra idade. A questão é o simbolismo dos 50 ou meio século se preferirem…

Passei um ano muito mais complicado do que o normal. Pensei muito no que já fiz e, principalmente, no que tenho que fazer para frente. Isto gerou uma tensão, porque não é fácil vislumbrar o próprio futuro. Só recentemente comecei a digerir a ideia que continuar minha jornada neste caminho incrível da vida é a melhor, talvez a única, alternativa.

Fiz amizades que gostaria que fossem para toda a vida. Não converso com a maioria destas pessoas há anos. É provável que, se eu encontrar alguns destes amigos do passado, o tempo tenha nos afastado de tal forma que nossa conversa será apenas social. Em compensação, conheci novas pessoas por causa dos meus novos interesses. Muitos dos novos amigos não têm a menor semelhança com os antigos. Será que eu continuo pelo menos, parecido com o Vicente de 20, 30 ou 40 anos atrás? Sinto-me como um agricultor que progressivamente foi trocando as plantas da sua fazenda.

De volta para a jornada, hoje tenho certeza que mais importante do que chegar a algum lugar é prestar atenção no caminho. Muitas vezes, estamos tão certos de que precisamos de alguma coisa que colocamos viseiras, como fazem com os cavalos de carroças, e o mundo ao nosso redor desaparece. Quantas oportunidades são perdidas assim? Nos convencemos que estamos apaixonados por alguém, sofremos loucamente com perdas, cobiçamos uma certa posição, desejamos bens materiais cada vez mais caros. E como ficam os amores maduros, o amor pelos filhos, a alegria de aprender coisas novas, os trabalhos que nos levam à autorrealização ou aquele lugar com atmosfera mágica?

Por exemplo, eu tive diversos tipos de chefes, alguns foram maravilhosos; outros, terríveis. Hoje eu compreendo a importância do sofrimento pelo qual passei nos períodos em que tive estes chefes terríveis. Tornei-me menos orgulhoso, entendi que não podia fazer apenas o que eu queria. Com o tempo também passei a ouvir melhor os outros e refletir se não havia outros caminhos para fazer a mesma atividade. Fiquei mais flexível, menos dono da verdade. Afinal o que é a verdade?

Voltando a falar sobre a jornada, às vezes, esbarramos em alguma coisa que passa a ser uma fonte inesgotável de prazer. Pode ser um hobby, uma música, um filme ou um livro. Para matar o tempo em uma conexão de voo, entrei numa livraria e vi, em uma estante, uma coleção de livros no formato pocket da L&PM. Entre estes livros, estava Hamlet de William Shakespeare. Apanhei o livro e li a primeira página da peça e entendi o que estava escrito. A tradução do Millôr Fernandes era simples; e a leitura, fluida. Comprei e devorei o livro. Depois li outros – Otelo, MacBeth, Júlio César, Rei Lear, Henrique V… O bardo inglês virou meu companheiro fiel de viagens!

No Rei Lear, o bobo da corte, que não tinha nada de bobo, disse para o rei que ele não deveria ter ficado velho antes de ter ficado sábio. Nos últimos anos tenho estudado assuntos muito diferentes dos meus velhos estudos de engenharia – genética, agricultura, filosofia, história… Quanto mais estudo, mais eu percebo que sei quase nada. Sócrates tinha razão! Não tenho a arrogância de me comparar a ele. Assim corro o risco de cair em um dilema. Poderia pensar que é melhor não estudar mais, porque à medida que tenho contato com diferentes disciplinas, me dou conta que meu conhecimento é uma fração cada vez menor do todo. Prefiro me esforçar, sem ansiedade, para, até o dia do meu último suspiro, chegar o mais próximo possível do zero. Aprender todos os dias é uma das belezas desta jornada.

No dia em que Steve Jobs morreu, assisti ao vídeo de uma palestra para formandos da Universidade de Stanford. Jobs deu quatro conselhos valiosos. O primeiro estabelece que só é possível unir os pontos da vida quando se olha para o passado. O segundo manda seguir o seu coração. O terceiro conselho é para não desperdiçarmos nossa vida, vivendo a vida de outra pessoa. E finalmente “stay hungry, stay foolish”. Seja humilde e não sacie nunca sua fome de novos conhecimentos e experiências.

De volta para Shakespeare, qual foi a melhor frase do príncipe Hamlet da Dinamarca? Todos pensarão que é o “ser ou não ser” que ele fala sem segurar uma caveira como muitos pensam. A melhor frase da peça não é de Hamlet e sim de Polônio, um bajulador do rei Cláudio. Quando seu filho Laertes está de saída para passar uma temporada no exterior, depois de vários bons conselhos, Polônio arremata de forma inesquecível:

– E, sobretudo, isto: sê fiel a ti mesmo. Jamais serás falso pra ninguém.

Muito antes de ler esta frase, já tentava seguia este conselho…

O grande David Bowie, que voltou para as estrelas neste ano, fez sucesso com a música “Changes” há 45 anos:

Look out you rock ‘n rollers
Pretty soon you’re gonna get a little older
Time may change me
But I can’t trace time

Se substituirmos a palavra tempo por jornada, posso afirmar que minha jornada me transformou. Felizmente não tenho total controle sobre minha jornada. Esta é a beleza da vida… Esta é a maravilha de olhar para trás e ver 50 anos e desejar viver ainda mais. Que jornada!

Talvez esta seja minha cara daqui umas décadas...

Talvez esta seja minha cara daqui umas décadas…

 

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David Bowie Vive entre as Estrelas

Acordei na segunda-feira com a notícia da morte do artista inglês David Bowie. No final de semana, ouvi seu novo disco, “Blackstar” lançado no dia de seu aniversário na última sexta-feira. Vi e revi os clipes de três músicas – Blackstar, Lazarus e Sue. Li as letras das músicas. Prestei atenção no som dos instrumentos. Mostrei o clipe de Sue e um antigo de Space Oddity, onde Bowie canta a música como seu personagem Ziggy Stardust, para minha filha Júlia. Na tarde do domingo, estava impressionado com o trabalho de Bowie e escrevi na minha página do Facebook:

David Bowie Ziggy Stardust

David Bowie comemorou seu aniversário de 69 anos com o lançamento do seu novo álbum “Blackstar”. O que mais me impressionou foi Bowie ter realizado um trabalho totalmente diferente dos anteriores da sua longa e exitosa carreira. Ouvi todas as sete músicas impregnadas de jazz com lindos solos de saxofone.

O clipe da música título do álbum, além de impactante, nos traz aquela sensação que a pior escolha de nossas vidas é seguir cegamente algum profeta. Não esqueça que os falsos profetas estão por toda parte, não apenas na religião…

Este gênio me traz a inspiração de que nunca é tarde para recomeçar ou tentar algo novo.

Vida longa para este “ET” incrível, Major Tom, David Bowie!

Redescobri Bowie há quase três anos com o lançamento de seu álbum “The Next Day”. Fazia dez anos que ele não gravava um álbum com músicas inéditas. Confesso que comecei a ouvir as músicas com baixa expectativa, porque muitos artistas, nestes retornos, criam obras muito abaixo de seus melhores trabalhos. Cada música que eu ouvia, eu gostava mais e mais. “The Next Day” é um grande disco de rock! Ouvi algumas vezes o disco e depois comecei a ouvir novamente as músicas conhecidas das décadas de 70 e 80. Quando fiquei sabendo do lançamento de “Blackstar”, passei a contar os dias. Enfim o grande dia chegou, e seu último trabalho, como eu registrei na minha página do Facebook, é impressionante.

Meu abatimento com a morte de Bowie talvez seja alimentado pela certeza de que ele não vai se reinventar novamente. Não verei algo tão original como este último trabalho ou outros anteriores da sua carreira.

Minha tristeza também pode ser alimentada por relembrar que o tempo é implacável e, mais cedo ou mais tarde, as pessoas que gostamos ou admiramos ficarão distantes de nós ou desaparecerão.

O jovem David Bowie, em 1971, aos 24 anos de idade, compôs “Changes”. No final da música ele faz o seguinte alerta aos roqueiros:

Ch-ch-ch-ch-Changes
(Turn and face the strain)
Ch-ch-Changes
Oh, look out you rock ‘n rollers
Ch-ch-ch-ch-Changes
(Turn and face the strain)
Ch-ch-Changes
Pretty soon you’re gonna get a little older
Time may change me
But I can’t trace time
I said that time may change me
But I can’t trace time

Minha dor é saber que este alerta não vale apenas para os roqueiros…

Prefiro pensar David Bowie voltou a encarnar o Major Tom de “Space Oddity” e está cruzando o espaço em busca de inspiração para criar novos personagens e novas músicas geniais.

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Resolver Caminhando

Meu filho Leonardo nos visitou na segunda quinzena de julho e voltou para o Rio Grande do Sul no primeiro domingo de agosto. Não tivemos muito tempo juntos nestas duas semanas, porque eu não consegui uma folga no trabalho e ainda fiz uma viagem não programada.

No último sábado juntos, recebemos em nossa casa a visita um casal de amigos. A noite foi muito agradável, jantamos, bebemos vinho, conversamos e nos lembramos de várias histórias (as velhas histórias de sempre). Por volta da meia-noite, eles se despediram e retornaram para São Paulo.

O Léo apareceu na sala com um moletom em cada mão e deu a ordem:

– Escolhe um, veste e vamos caminhar.

Vestimos os moletons e fomos caminhar na pista em torno do lago e da área de lazer do condomínio. A noite estava fria e conversamos sem parar sobre os mais variados assuntos por uma hora, enquanto caminhávamos. Pedi então para terminarmos nossa conversa no aconchego da sala da casa. Afinal eu já estava congelando…

Caminhamos de volta para casa, e conversamos até as 3 horas da madrugada. Excelente bate-papo!

Como coincidências não existem, na viagem que eu fiz na semana anterior li uma revista Newsweek, onde havia uma seção chamada “Newswalks”, na qual a revista convida pensadores para dar caminhadas por locais escolhidos pelos próprios convidados, enquanto refletem sobre suas vidas, inspirações e ambições. A introdução desta seção está apresentada abaixo:

Em seus “Walking Essays” de 1912, um jovem e brilhante escritor inglês, A. H. Sidgwick, propôs que a caminhada “estabelece uma base de respeito mútuo mais rapidamente e com mais segurança” do que qualquer outra atividade. O ambiente de uma caminhada foi o mais acertado: “familiar suficiente para criar uma sensação de facilidade, e ainda estranho o suficiente para jogar os caminhantes de volta sobre si mesmos com o instinto de solidariedade humana”.

Quando Leigh Fermor Paddy e Bruce Chatwin cruzaram, conversando através da paisagem do Peloponeso, eles estavam encenando solvitur ambulando de Diógenes – resolver caminhando.

Achei a ideia ótima. Muitos filósofos e escritores defenderam a caminhada como fonte de inspiração para seus pensamentos, como Nietzsche e Rousseau. As caminhadas do poeta gaúcho Mário Quintana pela Rua da Praia em Porto Alegre devem ter inspirado inúmeros poemas. Talvez “O Mapa”, que reproduzo abaixo, seja fruto dessas caminhadas inspiradas.

Olho o mapa da cidade
Como quem examinasse
A anatomia de um corpo…

(E nem que fosse o meu corpo!)

Sinto uma dor infinita
Das ruas de Porto Alegre
Onde jamais passarei…

Há tanta esquina esquisita,
Tanta nuança de paredes,
Há tanta moça bonita
Nas ruas que não andei
(E há uma rua encantada
Que nem em sonhos sonhei…)

Quando eu for, um dia desses,
Poeira ou folha levada
No vento da madrugada,
Serei um pouco do nada
Invisível, delicioso

Que faz com que o teu ar
Pareça mais um olhar,
Suave mistério amoroso,
Cidade de meu andar
(Deste já tão longo andar!)

E talvez de meu repouso…

Poeta Mário Quintana caminhando na Rua da Praia em Porto Alegre.

Poeta Mário Quintana caminhando na Rua da Praia em Porto Alegre.

Concordo que qualquer conversa flui melhor durante uma caminhada tranquila, sem pressa. Também percebo que, quando caminho solitariamente, as ideias começam a brotar de forma diferente do que entre quatro paredes, sob pressão. Mas por que as pessoas não aproveitam mais um ato tão simples como caminhar para solucionar seus problemas (a tradução literal do solvitur ambulando)?

A principal dificuldade para aproveitar o ato de caminhar é a necessidade de se desplugar de todos os estímulos que recebemos – ligações telefônicas, mensagens do WhatsApp ou de e-mail, atualizações do Facebook ou Twitter, navegação em sites da Internet… Tudo isto ocupa a cabeça de uma forma que fica impossível manter uma comunicação empática com seu colega de caminhada ou pensar na própria vida, se estiver solitário.

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Post 200 – Retrospectiva

Este é o ducentésimo (por que não é “duzentésimo”?) post publicado neste blog.

200-posts

Normalmente o centésimo é mais festejado, talvez pela introdução do terceiro dígito na contagem do número de posts, mas não posso perder a chance de fazer uma retrospectiva dos últimos cem posts publicados.

Vários posts foram inspirados por filmes. “Diários de Motocicleta” ajudou a contar a história da formação da consciência social de Che Guevara. “As Aventuras de Pi” tratou de temas como religiosidade e espiritualidade. “Amour” tratou dos sacrifícios extremos assumidos em nome do amor. “Meia-Noite em Paris” inspirou uma discussão sobre “O Passado e o Futuro”. “Ela” (título original Her) trouxe à tona as maravilhas e os perigos da inteligência artificial meio ano antes do físico Stephen Hawking externar seus temores sobre o assunto (fiquei bem acompanhado desta vez…).

Outros posts resgataram fatos históricos, como as descobertas e invenções de Heron de Alexandria ou o ato heroico de Sérgio Macaco que evitou centenas de mortes durante os anos de chumbo no Brasil. O próprio golpe militar foi protagonista de um post, onde reafirmei minha certeza que a democracia é o único caminho. As semelhanças dos casos de Napoleão Bonaparte e Eike Batista também renderam um post. E a guerra, o ato mais estúpido do ser humano, foi meu alvo após uma visita a Les Invalides em Paris,”Pra Não Dizer que Não Falei das Flores“.

O nascimento de nossa caçula, Luiza, recebeu um post superespecial – “A Maior Emoção da Minha Vida”. A Claudia deve futuramente fazer um post mais aprofundado sobre o parto humanizado.

Alguns posts trataram das minhas visões pessoais sobre família, amor pelos filhos (“Quando nos sentimos pais”) e educação dos filhos (“O que Dar e o que Esperar do Futuro de Nossos Filhos”). Afinal minha riqueza não deve ser medida pelos meus bens materiais, mas pela qualidade dos meus relacionamentos e “Eu Sou um Homem Rico”.

As questões do exibicionismo e da privacidade foram discutidas em dois posts, o primeiro sobre o BBB e o segundo que também trata do monitoramento da vida privada das pessoas pelos Estados – “Privacidade, Intromissão e Exibicionismo”. A propósito este post foi publicado quatro meses antes das denúncias de Edward Snowden.

As religiões e a manipulação dos fiéis por líderes inescrupulosos são fontes inesgotáveis de inspiração. Não escaparam deste blog o Islamismo, a igreja católica, representada pelos papas Bento XVI e Francisco, e nem mesmo “Deus, Sempre Ele”.

Dediquei dois posts para uma das piores figuras públicas da atualidade, o russo Vladimir Putin, sobre seu ecomarketing e sobre a Crimeia. Muito, mas muito menos importante, o ex-prefeito de Novo Hamburgo, Tarcísio Zimmermann, também foi “agraciado” com dois posts, enquanto tentava se reeleger antes de ser cassado devido à Lei da Ficha Limpa.

Em outros três posts, procurei comentar como nossos pensamentos podem ser nossos maiores aliados ou inimigos – “Como a Matrix de Neo e a Caverna de Platão nos Mostram a Realidade”, “Memórias e os Fantasmas do Passado” e “Como Assassinamos Nossos Insights”. Na mesma linha, escrevi mais dois posts – “O Medo” e “A Autossabotagem”.

A culinária vegana manteve seu lugar de destaque – moqueca de tofu, ratatouille, torta de sorvete, estrogonofe ou como preparar proteína texturizada de soja.

Aventurei-me em novos territórios – primeiro escrevi uma história infantil sobre bullying (“A Bruxinha Totute”); depois um poema no meio da “Turbulência” de um voo entre a França e o Brasil; mais um conto de ficção científica dividido em cinco partes sobre a expansão da humanidade em outros sistemas planetários e sua incontrolável ambição (“A Fonte da Juventude de Perennial”). Para finalizar escrevi, na semana passada, uma história que mescla ciência e religião (“Projeto Gaia – Experiência Final”).

Vários posts tiveram como inspiração as manifestações de junho do ano passado. Iniciei com “Os Protestos e a Verdadeira Democracia”, na sequência sugeri como próximo alvo a finada PEC 37/2011. Imaginem como ficaria a investigação da “Operação Lava Jato”, se o poder de investigação do Ministério Público Federal fosse tolhido? A melhoria nos serviços públicos de saúde foi um dos principais alvos dos manifestantes e o governo federal reagiu com a criação do “Programa Mais Médicos” que inspirou um artigo. Em breve, voltarei a escrever sobre a política brasileira.

Tentei desvendar os mistérios da satisfação pessoal em ”Não Esqueçam seus Objetivos Pessoais no Avião” e “Salário Motiva os Funcionários?”.

Questões éticas com animais foram tratadas em “Golfinhos de Guerra” e “Sofrer e Amar não são Exclusividades dos Humanos”.

A sustentabilidade ambiental também teve destaque com artigos sobre reciclagem de metais raros de telefones celulares, reciclagem de fósforo e da influência do consumo de carne na degradação do meio ambiente.

Este blog não é mais somente meu. A Claudia estreou em grande estilo com o post que conta como virou vegetariana, “Eu, a carne e a berinjela…”. Sinto que o respeito aos vegetarianos cresce a cada dia como retratei no post “Vitória Vegetariana”. E aqui entre nós, “Por Que Comer Carne?”.

A Copa do Mundo de Futebol realizada no Brasil em 2014 rendeu dois posts, “A Copa do Mundo Envergonhada” e “Como o Futebol Brasileiro foi Massacrado pelo Alemão”. Dentro da esfera futebolística, publiquei mais dois post “De Volta para o Meu Lugar”, sobre a reabertura do Beira-Rio, e “Fernandão, Vida, Morte e Piscadas”, sobre o morte do ídolo colorado Fernandão.

A seca em São Paulo que ameaça o fornecimento de água à população do estado também inspirou dois posts – “o que fazer quando a água acabar?” e “as medidas que evitariam a crise de abastecimento de água”. Apesar das excelentes chuvas dos últimos dias, o risco continua…

Falei sobre os mais variados assuntos, das “Gambiarras” ao “Portuglish ou Portunglês”, do show de Yusuf Islam em São Paulo aos “Múltiplos Papéis da Mulher no Mundo Atual”, dos conflitos entre judeus e palestinos em “O Escudo Humano” aos problemas da economia americana em “Obama e o Dilema Capitalista”, do racismo contra o goleiro Aranha a “Os Psicopatas, os Hiperativos, os Estranhos e os Normais”. Afinal “As Pessoas são Diferentes – Que Bom!!!”.

Agradeço a todos que acompanham nosso blog, espero críticas e sugestões para os assuntos dos próximos cem posts e lembro, mais uma vez que tento não falhar e fazer “Jornalismo Profundo como um Pires“ e “Eu Não me Chamo “Martho Medeiros”.

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A Autossabotagem

Há muitos anos li um livro de um grande escritor gaúcho não muito popular do grande público, Dyonélio Machado. O livro “Os Ratos” trata do período de 24 horas da vida de um funcionário público a procura de dinheiro para pagar sua dívida com o leiteiro. Você pode achar o enredo meio bobo, mas o livro, publicado há quase 80 anos, é muito bom e sua leitura continua atual.

Se você não quiser saber o final do livro, volte a ler após a figura da capa do livro.

Depois de passar horas, tentando arrumar dinheiro com o chefe, colegas e agiotas, o personagem principal finalmente consegue a quantia que precisa para pagar sua dívida. Ele deixa a quantia sobre a mesa da cozinha da sua casa. Eram outros tempos, o leiteiro deixava as garrafas ou tarros cheios e levava os vazios. Durante a noite, ele imagina que vários ratos roem e destroem totalmente o dinheiro que ele havia deixado sobre a mesa. Mesmo assim, ele não se levanta para verificar se isto realmente está acontecendo, apenas sofre. E só consegue relaxar, quando o leiteiro chega no horário de sempre e entrega o leite que havia ameaçado suspender o fornecimento caso a dívida não fosse quitada. Veja a passagem onde a paranoia e angústia chega ao ponto máximo.

De repente, um barulho no forro… “Ratos… São ratos”. Fica esperando o barulho dos ratos na cozinha. O barulho aumentou: em vários pontos, no forro, o rufar… “A casa está cheia de ratos!” Há um roer ali perto. O que estarão comendo? É isto! “Os ratos vão roer – já roeram! – todo o dinheiro!…” Tem um grande desespero. É preciso levantar-se. Mas o barulho cessou. Há só o silêncio. Será que ratos roem dinheiro? É melhor perguntar à mulher. Absurdo. Claro que ratos não roem dinheiro! “Vê os ninhos, os papéis picados, miudinhos, picadinhos… uma poeira”.

Os-Ratos_Dyonelio-Machado

Muitas vezes inventamos barreiras e problemas imaginários. Algumas pessoas criam conspirações complexas, onde todos querem prejudicá-las. Inimigos imaginários ganham vida. Ao invés de agir, a reação é uma paralisia, como aconteceu com o personagem principal do livro “Os Ratos”, onde a pessoa, após criar a fantasia, fica com medo de enfrentá-la.

Um caso mais sutil acontece, quando nos convencemos que somos incapazes de fazer algo. O pensamento típico desta forma de comportamento é a frase:

– Não adianta tentar! Eu não vou conseguir mesmo…

Outra forma de autossabotagem é acreditar que o simples desejo tem poder para conseguir alguma coisa. A máxima que resume isto é aquela frase do “O Alquimista” do Paulo Coelho:

– Quando você quer alguma coisa, todo o universo conspira para que você realize o seu desejo.

Alquimista_Paulo-Coelho

Concordo que o primeiro passo para se conseguir algo é acreditar, mas se você apenas confiar que isto basta e não trabalhar duro, não desenvolver suas aptidões, não perseverar, dificilmente chegará ao resultado almejado. Na hora do fracasso, o culpado é a sorte ou o destino.

Aqueles que alcançam seus objetivos depois de batalharem muito, ainda são classificados como sortudos ou, então, se diz que nasceu com certa parte do corpo virada para a lua.

Temos que nos vigiar permanentemente, porque nossa mente pode ser nosso maior aliado ou nosso maior inimigo. Nós somos os principais agentes dos nossos sucessos e fracassos.

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Eu Não me Chamo “Martho Medeiros”

Faz quase quatro anos que mantenho este blog ativo e tenho publicado artigos todas as terças-feiras desde julho do ano passado, incluindo até a terça de carnaval. Confesso que algumas vezes não foi fácil encontrar algum assunto interessante. No penúltimo domingo, a Claudia me perguntou qual seria o assunto do próximo artigo. Eu comentei que escreveria sobre o reciclo de fósforo. Na sequência, completei:

– O número de acessos diretos através das redes sociais será baixo. Este tipo de artigo mais técnico tem pouco acesso.

Eu tinha assistido a algumas apresentações em uma feira sobre sustentabilidade na Alemanha e queria compartilhar algumas informações interessantes sobre reciclagem. Estava certo, não tive dez acessos diretos ao artigo, somando Facebook, Twitter e Linkedin. Tudo bem, não tenho como saber quantos dos assinantes diretos do blog, além da própria Claudia, leram este artigo… Alguns ainda dirão maldosamente que a “coitada” da Claudia é obrigada a ler tudo que eu escrevo, mas é mentira! Eu só tenho que obrigá-la a ler os posts sobre futebol…

Desde que criei meu blog, decidi que me manteria fiel a sua missão e escreveria sobre tudo o que me interessa. Alguns artigos fizeram mais sucesso; outros, muito pouco… Sinceramente, gostaria de ter milhares de acessos diários, mas não deixaria de publicar artigos que nasceram de uma boa reflexão e, ao escrevê-los, consegui resolver as maiores (só as maiores) inconsistências do meu pensamento. Muitas vezes não consigo solucionar meus conflitos, em relação ao tema, em uma ou, pior, duas páginas. Se a pessoa não se sente atraída por determinado tema, como vai suportar a leitura de um longo artigo? Parece impossível resumir tudo a poucos “tweets” de 140 caracteres…

Twitter

Meus sucessos (guardadas as devidas proporções) foram os artigos que tratavam de temas pessoais, como relacionamentos, ou os profissionais, como autorrealização e sucesso na carreira. Nesta hora, me dei conta de um dos motivos do sucesso da escritora Martha Medeiros.

Martha Medeiros

Martha Medeiros

Não sou um leitor frequente de suas colunas no jornal, mas acho seu estilo muito interessante. Ela apresenta temas, aparentemente simples do dia a dia, com sua visão de mundo, chegando a uma conclusão que eu concordo integralmente – não se preocupe com os rótulos e não se estresse em seguir os modelos de sucesso dos livros e revistas, ache seu modelo e seja feliz do seu jeito. E mais, sofrer de vez em quando também é normal.

Apesar dos meus textos de maior sucesso seguirem esta linha, eu não sou o “Martho Medeiros”!

Quero ter a mais completa liberdade no meu blog de baixar a lenha no ex-prefeito de Novo Hamburgo por causa de seus desmandos, como se minha antiga cidade no Rio Grande do Sul fosse a Antares de Érico Veríssimo ou a Lagoa Branca do excelente “Tambores Silenciosos” de Josué Guimarães. Afinal a política de Novo Hamburgo era a representação do pior da política brasileira (sobre a qual também escrevi)…

Quero falar livremente das religiões! Por que não questionar o Islamismo, o Judaísmo e o Cristianismo? Pior do que seguir cegamente alguma coisa, é ser manipulado por um líder sem escrúpulos. As escrituras não devem ser usadas literalmente fora do contexto da época. Não se pode destacar as passagens que interessam e omitir as que não interessam.

Quero escrever sobre futebol, sem deslumbramentos, apesar da maravilha que é meu Internacional, nem com aquele surrado chavão de “ópio do povo”.

Quero falar sobre tecnologia, meio ambiente, sobre o futuro da humanidade… Sou um otimista, apesar de ter certeza que o caminho até este futuro radioso não será um passeio no parque.

Quero falar sobre a ética como algo absoluto, jamais relativo. As circunstâncias que explicam os desvios de comportamento devem ser discutidas sem preconceitos, entendidas e alteradas.

Sei que muitas pessoas buscam algum conforto para seus problemas imediatos. Ler uma coluna da Martha Medeiros que ajude a perceber que você não é o único do mundo que sofre com certo tipo de dor é bom. Talvez por isto, as mulheres são suas maiores fãs. Como já escrevi no meu blog, as mulheres são pressionadas atualmente para serem mães, esposas, amantes e profissionais perfeitas. Sejam as melhores de acordo com suas possibilidades, porque perfeição total não existe! Quando eu escrevo sobre este tipo de assunto, existe sempre uma motivação pessoal, nasce dentro de mim ou da observação de uma pessoa próxima. O diabo é que ainda tenho aquela ideia de querer ajudar a salvar o mundo, por isso também tenho que escrever sobre política, religião, economia, tecnologia, meio ambiente…

Eu e Martha, sem dúvida, concordamos que escrever liberta, como pode ser visto neste trecho de uma entrevista:

– Para mim, escrever é libertador sempre. Posso ter sofrimentos meus pessoais, mas que na hora que começo a escrever começam a se dissolver. O ato da escrita não é sofrido. Sofrida é a vida. O ato de escrever, para mim, é mais cura do que sofrimento.

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