A Copa do Mundo Envergonhada

Começou na semana passada a Copa do Mundo de Futebol no Brasil. Já ganhamos o primeiro jogo na nossa jornada rumo ao hexacampeonato! Infelizmente, estava no meio de um teste no Canadá e apenas pude ver os melhores lances do jogo à noite em um canal de esportes local.

Gol de empate de Neymar para o Brasil contra a Croacia [Fonte: site Globoesporte.com]

Gol de empate de Neymar para o Brasil contra a Croácia  [Fonte: site Globoesporte.com]

Mesmo em Saskatoon, tive a surpresa de ver o destaque da Copa na edição local do jornal Metro, considerando que o futebol tem pouca importância para a população local. No dia da estreia do Brasil, a capa era dedicada à Copa, além de mais uma página interna. No dia seguinte, havia mais uma página sobre a abertura e o jogo do Brasil; e outra, sobre os jogos de sexta-feira. Nos canais de esporte canadenses, a Copa dividia o tempo com as finais da NBA, da NHL (hóquei no gelo, o esporte nacional) e do U.S. Open de golfe. Realmente a Copa é um dos maiores eventos mundiais.

Poucos povos do mundo gostam de futebol como os brasileiros, mas nunca vi uma Copa do Mundo na qual os brasileiros estão tão tímidos ou mesmo envergonhados para torcer pela nossa seleção. Houve os tradicionais atrasos de obras, a malversação das verbas públicas, os desmandos da FIFA… Isto pode e deve nos trazer indignação, mas por que a vergonha em torcer pelo Brasil?

Lembro-me que no segundo grau se decidiu fazer uma peça com a versão em inglês do texto do “Pequeno Príncipe” de Saint-Exupéry. Eu recebi o menor papel de todos – o bêbado, porque provavelmente ninguém acreditava no meu talento dramático. O motivo da escolha do papel não foi certamente a minha identificação com o personagem, porque, naquela época, eu não consumia absolutamente nada de álcool. Leia a íntegra do capítulo XII abaixo.

Bebado_Pequeno-Principe

O planeta seguinte era habitado por um bêbado. Esta visita foi muito curta, mas mergulhou o principezinho numa profunda melancolia.

– Que fazes aí? Perguntou ao bêbado, silenciosamente instalado diante de uma coleção de garrafas vazias e uma coleção de garrafas cheias.

– Eu bebo, respondeu o bêbado, com ar lúgubre.

– Por que é que bebes? Perguntou-lhe o principezinho.

– Para esquecer, respondeu o beberrão.

– Esquecer o que? Indagou o principezinho, que já começava a sentir pena.

– Esquecer que eu tenho vergonha, confessou o bêbado, baixando a cabeça.

– Vergonha de que? Investigou o principezinho, que desejava socorrê-lo.

– Vergonha de beber! Concluiu o beberrão, encerrando-se definitivamente no seu silêncio.

E o principezinho foi-se embora, perplexo.

As pessoas grandes são decididamente muito bizarras, dizia de si para si, durante a viagem.

Vejo amigos, amantes absolutos de futebol, envergonhados de torcer pela nossa seleção. As pessoas estão com vergonha de botar bandeiras nas casas e carros. Lembro-me de outras copas realizadas fora do país – as ruas eram decoradas; postes e meios-fios pintados; população mobilizada.

A vergonha é um sentimento curioso, é muito diferente da culpa. A vergonha é baseada na frase:

– O que os outros vão pensar se descobrirem que eu fiz isto?

Ou seja, a vergonha não nasce do conflito entre uma ação e os valores da pessoa, como a culpa. A vergonha se origina nas convenções sociais ou regras religiosas, por exemplo.

Agora parece que o brasileiro que torcer pela seleção, estará apoiando o governo, a FIFA, o gasto excessivo com estádios, desvios de verbas, falta de investimentos em educação, saúde e infraestrutura. Como se a paixão por futebol tivesse algo a ver com isto? Para ajudar o pessoal a ficar “sem vergonha”, preparei o quadro abaixo que mostra que eleição para presidente e o resultado da seleção brasileira na Copa não tem relação.

Copa_Presidentes-Brasil

Quadro: Resultado do Brasil na Copa do Mundo e a eleição presidencial.

Como observamos no quadro acima, FHC foi o único candidato da situação vencedor de eleição em ano que o Brasil ganhou a Copa. Em 1994, o maior cabo eleitoral de FHC não foi o futebol pragmático da seleção de Parreira, certamente foi o sucesso do Plano Real. Em 2002, o Brasil conquistou o Penta no Japão, mas o candidato da situação, José Serra, foi derrotado por Lula.

Ao invés de ficar com esta vergonha depreciativa, devíamos lutar para melhorar o país. Devíamos fiscalizar ativamente os atos e as contas dos três poderes em todas as esferas do país. Devíamos pressionar os Legislativos para aprovarem as leis de nosso interesse, ao invés de ficar lamentando ou postando coisas sem o menor fundamento nas redes sociais. Se continuarmos na espera que os outros resolvam os problemas do Brasil, deveremos sentir culpa por nossa omissão, ao invés de vergonha em relação ao país.

Felizmente as crianças, com sua espontaneidade, estão fazendo os adultos a perderem a vergonha de torcer pela nossa seleção, porque “as pessoas grandes são decididamente muito bizarras”

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9 Comentários

Arquivado em Ética, Esporte, Lazer, linkedin, Política, Psicologia

9 Respostas para “A Copa do Mundo Envergonhada

  1. Pingback: Post 200 – Retrospectiva | World Observer by Claudia & Vicente

  2. Realmente, Vicente.
    É muito curioso esse sentimento de vergonha.
    Na minha opinião, é aquele velho “complexo de vira-lata”.
    Só nossos estádios ficam mais caros que o orçamento oficial e as obras atrasam. Essa é a versão dos fatos que nos é passada.
    Mas quem diria que a reforma do estádio de Wembley, na terra dos pontuais britânicos, custou R$ 2,5 bilhões (dois Maracanãs) e foi uma reconstrução caótica?
    Isso, contudo é contrário ao mito de que as coisas só prestam no hemisfério norte, com exceção honrosa da Austrália.
    Não estou querendo dizer que tudo vai bem nesse país tropical. Apenas que, talvez, nós não sejamos piores que os outros.
    Minha hipótese é de que esse complexo de inferioridade é uma estratégia de dominação: afinal, se de tudo que se faz aqui nada presta, para que tentar mudar alguma coisa?
    Por esse motivo, sinceramente torço para que o evento seja bem sucedido. Até como uma forma de encorajar aquela participação que, como você bem lembrou, busque uma transformação real das coisas. E não se restrinja a desabafos estéreis redes sociais afora.
    Abraço!

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    • Concordo, os brasileiros se sentem como os piores do mundo. Estamos sempre aguardando a aprovação do exterior. Qualquer crítica vinda de fora é uma tragédia, mais uma prova de nossa incompetência histórica…
      Há dois anos escrevi um artigo com uma série de escândalos com políticos de outros países, . Não quero dizer que se acontece lá fora, está tudo bem, então pode acontecer aqui. O ponto é este – “nós não somos piores que os outros” e devemos ter determinação para buscar as mudanças que o país precisa. Se realmente acreditarmos que somos ruins e sempre seremos, porque lutar para mudar?
      Estamos na mesma torcida! Tomara que esta realmente seja “a Copa das Copas” para ajudar a reduzir o nosso “complexo de vira-lata”.
      Abraço!

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  3. Idealmente, não deveríamos fiscalizar os poderes, já que eles lá estão como nossos representantes. Qual o sentido de se eleger legisladores, se tivéssemos que ficar vigiando seus passos? Melhor seria um governo popular. Entretanto, o processo democrático é falho. Mas não creio que seja adequado jogar mais esse peso para cima do povão: a responsabilidade por tantos desmandos. Como, após uma jornada intensa de trabalho, abdicar do tempo de repouso para ir fiscalizar os atos dos representantes? Ainda mais quando esses atos estão, geralmente, ocultos entre tantos artifícios da burocracia. Ainda bem que nos restou, pelo menos, vergonha de tudo o que vemos aí. Realmente, não há como se sentir confortável assistindo a uma partida de futebol que acontece em um estádio mal feito, que custou mais de um bilhão de reais, vindo dos impostos nossos, e que, tão logo o evento acabe, se tornará um elefante branco. Não há como dissociar esse evento de suas consequências políticas. E fico feliz que os brasileiros estejam agindo assim. Imagine se todos estivessem encarnando o espírito da copa. Os representantes estariam pensando que acertaram nesse empreendimento. Iriam até fazer política com ele.

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    • Gerlon, grato pelo teu comentário!
      Entendo teu ponto de vista, mas gostaria de colocar alguns pontos para discussão. A maioria dos brasileiros, um ano depois das eleições, não se lembra em quem votou para vereador, deputado estadual ou federal. As velhas raposas e seus parentes, com suas campanhas milionárias, ou algumas figuras conhecidas da televisão são geralmente os mais votados. Se poucos milhares de pessoas tivessem como “hobby” fiscalizar os gastos da sua prefeitura ou do seu representante eleito, tudo seria melhor. Os portais da transparência facilitam muito esta atividade. Muita gente fica diariamente horas nas redes sociais apenas gastando seu tempo, poderiam usar algumas destas horas para esta atividade de fiscalização. Em minha opinião, sim, nós brasileiros temos alguma responsabilidade pelo que acontece na nossa política, porque escolhemos mal nossos representantes e não fiscalizamos seus atos.
      Tenho um amigo torcedor do Inter que decidiu não ir a jogos da Copa em protesto contra a FIFA. Certamente foi difícil para ele não assistir aos jogos da Copa no estádio do seu time do coração. Respeito a opinião de todos, mas ao invés de sentir vergonha, preferiria que os brasileiros tivessem atitudes mais práticas, exigindo investimentos em saúde e educação.
      Abraço.

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      • Vicente, essa questão é complexa. Temos sim uma dose de responsabilidade. Mas veja que não fomos treinados para essa tarefa de fiscalização. Saímos dos doutorados sem a mínima noção do funcionamento dos poderes que nos governam. Entramos nessas páginas de transparência, e elas se nos revelam tão pouco transparentes, com dados genéricos e nebulosos. Por exemplo, consta que os deputados gastam aproximadamente 5 mil reais mensais com combustível e manutenção do automóvel. E aí? É justo? Então porque o brasileiro comum, com esse valor, por ano, deve fazer todas as suas despesas? (Levando-se em conta o valor do salário mínimo, o qual, muitas vezes, representa todo o recurso de uma família inteira). Vemos que a prefeitura gastou tantos mil com uma obra. É justo? Não sei. Vemos que a Petrobrás gastou 500 milhões para fazer uma terraplenagem. Para mim, com 500 milhões se plana o Himalaia, mas vai saber…

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        • Gerlon, com certeza não é uma questão simples. Teus exemplos foram ótimos. Se tivermos cidadãos das mais diversas especialidades trabalhando em ONGs com este objetivo, seria possível abrir a caixa preta da corrupção. Nós dois não temos a menor ideia se R$ 500 milhões para terraplenagem é demais, mas um engenheiro civil especialista neste tipo de obra perguntaria quantos metros cúbicos de terra foram removidos e já teria a primeira estimativa. O mesmo vale para todos os gastos de políticos ou dos governos municipais, estaduais ou federal. Não é fácil, mas não podemos desistir!

          Abraço,

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  4. Aline S Cassini

    Pois sabe que eu sempre esperei ansiosamente, durante 4 anos, pelas copas do mundo. Sempre achei o máximo e, quando terminava a fase de grupos, já começava a bater aquela depressão que a copa estava acabando, que não tinha mais um monte de jogos por dia, e já começava a espera pela próxima… Sempre pensei em viajar e participar de uma copa do mundo! Pois neste ano de copa no Brasil, foi tanto protesto, tanta roubalheira, tanta controvérsia, tanta gente contra, tanta gente metendo o pau que apenas na semana passada eu me dei conta: meu deus, é COPA!!! E eu adoro copa!!! E acho um absurdo as pessoas torcendo contra a seleção só por que a copa é aqui…
    Sempre quis viajar e participar da copa; neste ano, nem por um momento tentei comprar ingresso para assistir algum jogo… agora me arrependo…
    Os problemas são muitos, mas a copa está sendo o máximo!!

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    • Oi Aline,
      Sem dúvida, esta é a melhor Copa em muito tempo. Além dos jogos com bom futebol e muita emoção, as festas dentro e fora dos estádios estão incríveis. Parece que os torcedores de outros países ajudaram a contagiar os brasileiros e a Copa enfim pegou…
      Os problemas, com certeza, são muitos, mas também são hipervalorizados. As coisas boas do país são minimizadas. Outro dia, embarquei no terminal novo do Aeroporto de Guarulhos e postei no Facebook que o terminal tinha ficado muito bom. Ganhei só umas dez curtidas e nenhum comentário. Se eu tivesse postado que o terminal estava cheio de problemas, eu teria recebido dezenas de comentários depreciativos sobre o Brasil.
      Como eu escrevi, vamos curtir a Copa e lutar para melhorar nossa política.
      Abraço.

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