Arquivo do mês: março 2014

O Medo

Uma das sensações mais controversas que existe é o medo. Sem dúvida, a espécie humana só foi preservada até os dias de hoje devido a este sentimento. Provavelmente os humanos destemidos, que decidiram lutar sozinhos à unha com feras, morreram e não deixaram descendentes. Como diria Darwin, a seleção natural preservou uma característica útil para a sobrevivência da espécie – a habilidade de sentir medo.

Darwin

Charles Darwin

O medo nos dá limites! Sabemos que não se pode entrar no mar agitado, porque temos o risco de morrer afogados. Sabemos que não devemos ficar do outro lado dos arrecifes na Praia da Boa Viagem em Pernambuco, porque um tubarão pode nos atacar. Sabemos que não podemos atravessar uma rua antes de ver se ela esta livre, porque podemos ser atropelados. O medo nos ajuda a evitar acidentes, lesões e mortes.

Por outro lado, quando este medo é excessivo, podemos ficar paralisados, o que é terrível. Muitas vezes, não se consegue tomar uma decisão simplesmente pelo medo de errar. Theodore Roosevelt, presidente americano nos primeiros anos do século XX, disse uma frase interessante:

– Em um momento de decisão, a melhor coisa que você pode fazer é a coisa certa; a segunda melhor é a coisa errada e a pior coisa é não fazer nada.

Theodore Roosevelt

Theodore Roosevelt

Na universidade, lembro-me de uma professora da cadeira de Equações Diferenciais que era muito exigente e suas turmas sempre tinham um percentual alto de reprovações. Suas provas sempre tinham alguma frase “inspiradora” no cabeçário. A melhor de todas era baseada em outra frase famosa de Theodore Roosevelt:

– É melhor lutar em busca de triunfos gloriosos, mesmo expondo-se ao fracasso, do que viver em uma penumbra cinzenta sem conhecer vitória ou derrota.

Vi pessoas, que sabiam o que era o certo a fazer, ficarem paralisadas pelo medo de perder o emprego. No final, perdiam o emprego pela completa falta de ação. Isto vale para muitas situações na vida pessoal ou profissional. Casais se separam por medo de enfrentar suas diferenças. Pais e filhos brigam e, por medo da rejeição, não se reconciliam e lamentam amargamente quando a morte encerra qualquer chance de entendimento.

O certo é viver sem medo de perseguir nossos sonhos. Se algo der errado, vamos tentar de novo. Não podemos ser escravos do medo de fracassar, porque, neste caso, já teremos fracassado.

medo

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Putin e a Crimeia – Como o que Começa Pequeno Pode Tornar-se Insolúvel

Ontem iniciou mais uma semana de testes na fria Saskatoon no Canadá. No café da manhã, conduzi a conversa com dois colegas da Polônia para a questão Putin e a Crimeia. Para nós brasileiros, esta questão pode parecer distante e sem importância, mas para os poloneses, que são vizinhos da Ucrânia, a coisa é bem mais séria.

Farei a seguir uma pequena retrospectiva para aqueles não estão acompanhando o caso. No final de 2013, o então presidente da Ucrânia, Viktor Yanukovytch, decidiu aproximar o país da Rússia ao invés de efetivar um acordo com a União Europeia. Este ato foi o estopim para os protestos populares que iniciaram pacíficos, mas tornaram-se violentos em fevereiro de 2014. Apenas os confrontos entre os dias 18 e 20 desse mês deixaram 98 mortos e milhares de feridos na capital Kiev. Logo após, Viktor Yanukovytch foi destituído da presidência e eleições foram convocadas para o mês de maio. Dias depois, a Crimeia, uma região autônoma da Ucrânia, divulgou sua intenção de desligar-se do país e anexar-se à Rússia. Vladimir Putin mandou exércitos para a região sob o pretexto de garantir a segurança da população de origem russa (cerca de 60% do total). Um plebiscito foi realizado neste final de semana com vitória esmagadora da proposta de anexação à Rússia e ontem Putin reconheceu o resultado.

Viktor Yanukovytch e Vladimir Putin

Viktor Yanukovytch e Vladimir Putin

A crítica mais contundente até agora foi feita pela senadora e candidata à presidência dos Estados Unidos, Hillary Clinton. Ela comparou, segundo o “The Washington Post”, a atitude de Putin à de Adolf Hitler nos anos 30, ao invadir regiões da Tchecoslováquia e Romênia sob a justificativa de garantir os direitos dos cidadãos de origem alemã.

Placa em manifestação mostra Putin como Hitler

Placa em manifestação mostra Putin como Hitler

A questão é complexa, porque, por um lado, a União Europeia não pode aceitar este tipo de interferência da Rússia nos países vizinhos, mas, por outro lado, deve-se considerar a dependência da Europa em relação ao gás natural russo, as enormes reservas de petróleo do país e, principalmente, seu enorme poderio bélico herdado dos tempos da extinta União Soviética.

Perguntei para meus colegas poloneses se existe outra região da Europa Oriental, onde a população de origem russa seja a maioria. A resposta foi preocupante. Eles não sabiam, mas, no período de 1945 a 1989, houve muita movimentação dentro daquela zona e pode existir alguma região estratégica na mesma situação da Crimeia. Deste modo, o caso pode ser definido da seguinte forma. Hoje a anexação da Crimeia pela Rússia pode não ser uma grande agressão aos direitos de autodeterminação dos povos, mas é um importante precedente. Ontem foi a Chechênia; hoje, a Crimeia. Se ninguém fizer nada, amanhã será o quê?

Ucrânia com a península da Crimeia em verde

Ucrânia com a península da Crimeia em verde

Não estou pedindo sansões terríveis contra a Rússia, porque provavelmente o povo pobre deste país será o mais atingido. No final, Putin poderia até sair fortalecido com este tipo de procedimento. Por outro lado, se tudo ficar como está, pode ser a senha para um próximo passo. Putin já fez várias – mandou prender políticos da oposição, as cantoras do Pussy Riot e ativistas do Green Peace. Poucas autoridades de outros países falaram contra. Durante a invasão de um teatro por terroristas chechenos, em Moscou, causou a morte de pelo menos 129 reféns devido à colocação de um gás tóxico desconhecido no sistema de ventilação do prédio. Ninguém se levantou contra o uso de armas químicas em civis. Vetou qualquer resolução mais forte da ONU contra o regime de seu aliado Bashar al-Assad na Síria, alegando o direito de autodeterminação dos povos. Todos terminaram engolindo a posição de Putin. Agora é a Crimeia…

Bashar al-Assad e Vladimir Putin

Bashar al-Assad e Vladimir Putin

As grandes maldades geralmente começam por pequenas maldades. Isto vale também para nosso dia a dia. Aceitamos que os outros façam coisas erradas, cometemos pequenos delitos, não acontece nada, fazemos maiores. Se não tem blitz da “Lei Seca”, então está liberado dirigir depois de beber todas. Tapamos os olhos para os problemas que temos dentro de nossas casas, até que num dia eles se tornam grandes o suficiente para parecerem insolúveis, verdadeiros “Putins”. Nessa hora, perguntamos para nós mesmos:

– Como a situação chegou neste ponto? O que fizemos de errado?

A resposta é simples, agimos como avestruzes, fizemos de conta que o problema não era com a gente e o que antes seria uma simples correção de rumo, pode se tornar uma tragédia. Pode ser tarde…

dúvidas

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O que Dar e o que Esperar do Futuro de Nossos Filhos

Na sexta-feira, a Claudia me avisou que haveria uma reunião com os pais na escola da Júlia no dia seguinte. Sábado! E o início estava marcado para as 9 horas da manhã. Perguntou se participaríamos e eu respondi, quase com lágrimas nos olhos, que sim apesar de ser um dia de descanso.

A escola da Júlia segue a pedagogia Waldorf, a qual nós ainda não conhecemos profundamente. Então toda oportunidade para conversar com a professora do 1º ano e com a coordenadora pedagógica sempre é bem-vinda. Realmente foi uma manhã encantadora, a forma lúdica do ensino e o cuidado com todos os detalhes, incluindo até a alimentação, me chamaram a atenção.

Num certo momento, me dei conta de um ponto importante – o que eu espero do futuro da Júlia? Cada vez vejo mais pais ansiosos com o futuro dos filhos. Alguns pais entram em uma competição para mostrar como os filhos são inteligentes, estudam nos mais afamados colégios da região e, no futuro, deverão passar nos mais disputados vestibulares para os cursos que levam às carreiras mais prestigiadas. Se me perguntarem sobre a Júlia, acho que simplesmente responderia:

– A Ju é ótima. Tem muita energia, tem muita vontade de aprender e, principalmente, tem um lindo brilho no olhar.

– E seu futuro? Vai ser construído por ela de acordo com sua vontade. Só tenho que ajudá-la a ser uma pessoa íntegra.

Lembrei que muitas destas escolas de ponta, conhecidas por terem seus alunos nas listas de aprovados dos vestibulares, empurram goela abaixo dos seus alunos grande quantidade de conteúdo – teoremas matemáticos, leis da física, fórmulas químicas, datas de acontecimentos históricos, nomes de livros, classificação de orações…

A imagem que me vem à cabeça é daquele horrível processo para alimentar os gansos para a produção do foie gras, a gavagem. Como você pode ver na foto abaixo, o ganso é obrigado a comer. No final, ele é abatido e seu fígado gordo é vendido como uma especiaria, o foie gras.

Gavagem de gansos para a produção de foie gras

Gavagem de gansos para a produção de foie gras

Será que a “gavagem” de conteúdos na criança não vai “engordar” seu cérebro, sem fortalecê-lo efetivamente? Será que as crianças e adolescentes que não suportarem a ingestão desta quantidade de conteúdos não entrarão em depressão por sentirem-se pior do que os outros colegas? Será que os pais não estão pressionando seus filhos além da conta?

Vivemos em um mundo repleto de fontes de informação. O mais importante seria a capacidade de entender criticamente o mundo que nos cerca, desenvolver a visão do todo, ver e entender os outros que estão ao redor e entender que somos diferentes, mas devemos respeitar e valorizar estas diferenças.

Não temos certeza se um caminho é melhor do que outro, mas devemos tentar oferecer aos nossos filhos as “ferramentas” – auto-confiança, amor, espaço para crescer, tempo para brincar – para viver em um futuro muito diferente do mundo em que nós vivemos.

Valeu a pena acordar cedo no sábado…

Futuro

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Eu Sou um Homem Rico

Guardei a mala e a mochila no bagageiro sobre meu assento no avião. Tirei o tênis e coloquei aquela meia que vem no nécessaire das companhias aéreas. Acomodei-me na poltrona e resolvi conferir quais eram as opções disponíveis de filmes. Escolhi “Captain Phillips” como primeiro filme da noite, esperando mais uma convincente atuação de Tom Hanks. A surpresa ficou com seu antagonista no filme, o somali Barkhad Abdi.

Capitão Phillips

“Captain Phillips” com Tom Hanks e Barkhad Abdi

Antes de o filme começar, passou um comercial do Bank of Singapore. Você pode assisti-lo abaixo.

Realmente, não há nada mais precioso em nossas vidas do que os relacionamentos que mantemos com as pessoas ao nosso redor, mas não é fácil se dar conta disto. Enquanto a moça da Columbia Pictures aparecia com aquela pose de Estátua da Liberdade, eu cheguei a uma importante conclusão:

– Eu sou um homem rico!

Mais importante do que casas, apartamentos, automóveis e investimentos que pudessem fazer parte do meu patrimônio, tenho três filhos e uma esposa que amo muito e que me amam. Todo o dia tenho uma troca intensa com eles e a cada reencontro parece que tudo se renova, me sinto feliz!

No ano passado, fiz um curso sobre finanças no INSEAD da França. A primeira parte do curso poderia ser resumida em três frases simples em inglês:

Cash is king!

Time is queen!

Risk matters!

Ou seja, o caixa é o rei, o tempo é a rainha e o risco importa. Os investidores procuram projetos que tornem o fluxo de caixa da empresa mais positivo do que projetos apenas lucrativos. Manter o fluxo de caixa positivo conserva a saúde da empresa. O tempo é importante, porque, ao comparar diferentes projetos, devemos trazer suas contribuições ao caixa da empresa para o tempo presente, para o dia de hoje. Finalmente, sempre que investimos em alguma coisa, olhamos para o retorno e para o risco associados ao investimento.

Paradoxalmente, pela minha nova definição de homem rico, o caixa deve estar sempre praticamente zerado. Devemos retornar tudo o que recebemos o mais rápido possível. Isto não significa que os fluxos de entrada e saída sejam pequenos, pelo contrário devemos circular grandes volumes de amor, carinho e compreensão. Vamos ser mais perdulários do que a caricata figura do “rei do camarote”, mas ao invés de focar nos bens materiais, vamos prestar atenção aos sentimentos.

O "rei do camarote"

O “rei do camarote”

Para finalizar, lembro-me de um presente que meu filho Léo me deu há um bom tempo, o saco do carinho. Estava escrito assim:

– Carinho – quanto mais se dá, mais se tem!

Este parece um daqueles círculos virtuosos. Quanto mais a gente dá e demonstra afeto, mais recebe, mais feliz e autoconfiante fica, mais a gente dá, mais recebe…

Como eu apresentei antes, a nova lógica é sempre devolver, no mínimo, tudo o que se recebeu e nosso “caixa” ficará zerado, mas nossos corações ficarão cada vez mais plenos em felicidade e alegria.

Foto da minha família (São Paulo, julho de 2013)

Foto da minha família (São Paulo, julho de 2013)

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