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O Mundo é uma Grande Diversão e Bolsonaro é Nosso Showman

A palavra diversão veio do latim divertere, que significa desviar ou voltar-se em outra direção. Ou seja, virar a cabeça para outro lado que não olhar para suas preocupações. Os militares, por exemplo, usam a palavra diversão no sentido de mudar o foco de atenção do inimigo.

Em Roma, a expressão pão e circo (panem et circenses em latim) surgiu durante o período da República. O pão representa o suprimento dos bens materiais e o circo a diversão.

Jair Bolsonaro, nos seus tempos de deputado federal, sempre se posicionou de modo polêmico e usou estas polêmicas como forma de promoção pessoal. A maioria dos brasileiros imaginava que, como presidente, ele moderaria o tom das suas declarações, mas não é o estamos presenciando.

Eu poderia escrever uma longa lista de ações e frases do atual presidente do Brasil, mas isto seria exaustivo… Daria um livro infinitamente mais denso do que o satírico “Por Que Bolsonaro Merece Respeito, Confiança e Dignidade?”. Neste artigo, citarei apenas algumas para pontuar meu raciocínio.

Livro_Bolsonaro

 

As alterações propostas nas leis de trânsito foram consideradas absurdas por todos especialistas. Afinal aumentar a pontuação para cassação de CNH de 20 para 40 pontos e acabar com os radares móveis nas estradas só favorecem os maus motoristas. E o que falar sobre o fim da obrigatoriedade das cadeirinhas para condução de crianças em automóveis?

A liberação da posse e porte de armas já era um ponto esperado no governo Bolsonaro. Entre idas e vindas de emissões e revogações de decretos presidenciais, destacaria itens como o incrível aumento da quantidade permitida de munição a ser comprada anualmente, brechas legais para a compra de fuzis e a liberação para adolescentes entre 14 e 18 anos ter aulas de tiro.

E a grande celeuma em relação à Amazônia? O estopim foi a divulgação do aumento no ritmo do desmatamento na região, baseados em dados do Inpe (Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais). Bolsonaro disparou esta declaração, apresentada abaixo, sobre o Inpe.

“A questão do Inpe, eu tenho a convicção que os dados são mentirosos. Até mandei ver quem é o cara que está na frente do Inpe. Ele vai ter que vir se explicar aqui em Brasília esses dados aí que passaram pra imprensa do mundo todo, que pelo nosso sentimento não condiz com a verdade. Até parece que ele está à serviço de alguma ONG, que é muito comum.”

A resposta do ex-diretor do Inpe, Ricardo Galvão, foi contundente.

“A primeira coisa que eu posso dizer é que o sr. Jair Bolsonaro precisa entender que um presidente da República não pode falar em público, principalmente em uma entrevista coletiva para a imprensa, como se estivesse em uma conversa de botequim. Ele fez comentários impróprios e sem nenhum embasamento e fez ataques inaceitáveis não somente a mim, mas a pessoas que trabalham pela ciência desse País. Ele disse estar convicto de que os dados do Inpe são mentirosos. Mais do que ofensivo a mim, isso foi muito ofensivo à instituição. (…) Fiquei realmente aborrecido, porque na minha opinião ele fez comigo o mesmo jogo que fez com Joaquim Levy (que pediu demissão do BNDES após também ser criticado em público por Bolsonaro). Ele tomou uma atitude pusilânime, covarde, de fazer uma declaração em público talvez esperando que peça demissão, mas eu não vou fazer isso. Eu espero que ele me chame a Brasília para eu explicar o dado e que ele tenha coragem de repetir, olhando frente a frente, nos meus olhos. Eu sou um senhor de 71 anos, membro da Academia Brasileira de Ciências, não vou aceitar uma ofensa desse tipo. Ele que tenha coragem de, frente a frente, justificar o que ele está fazendo. É uma ofensa de botequim. Não vou responder a ele e ele que me chame pessoalmente e tenha coragem de me dizer cara a cara isso.”

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Ricardo Galvão

Bolsonaro despreza as questões ambientais, inclusive já afirmou que elas importam “só aos veganos que comem só vegetais”. Como resultado das ações (ou falta delas), a Alemanha e a Noruega congelaram suas contribuições ao Fundo Amazônia, totalizando um prejuízo de 288 milhões de reais. Só a Noruega, doou 3,2 bilhões de reais para a preservação da Amazônia nos últimos dez anos. Para coroar, Bolsonaro mandou a seguinte mensagem para a primeira-ministra alemã:

“Eu queria até mandar um recado para a senhora querida Angela Merkel, que suspendeu 80 milhões de dólares para a Amazônia. Pegue essa grana e refloreste a Alemanha, ok? Lá está precisando muito mais do que aqui”.

Alguns dias depois, também mandou um recado para a Noruega.

“A Noruega não é aquela que mata baleia lá em cima, no Polo Norte, não? Que explora petróleo também lá? Não tem nada a oferecer para nós. Pega a grana e ajuda a Angela Merkel a reflorestar a Alemanha.”

Vou pular a história do cocô…

Outra faceta (poderia ser “fasceta”) é o caráter autoritário e o culto à ditadura militar brasileira. Sobre este assunto, destaco duas frases recentes. A primeira é sobre o Coronel Brilhante Ustra, chefe do DOI-CODI no início dos anos 70 (período mais duro da ditadura), acusado de chefiar pessoalmente, de forma sádica, várias sessões de tortura.

“É um herói nacional que evitou que o Brasil caísse naquilo que a esquerda hoje em dia quer.”

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Eduardo Bolsonaro, vestindo uma camiseta em homenagem ao Coronel Brilhante Ustra.

Para atacar o atual presidente da OAB, Felipe Santa Cruz, fez uma frase em que deu a entender que sabe o que aconteceu com o pai de Felipe, desaparecido em 1974.

“Um dia, se o presidente da OAB quiser saber como é que o pai dele desapareceu durante o período militar, conto para ele.”

Vou pular também a indicação do seu filho, Eduardo Bolsonaro, para a embaixada do Brasil nos Estados Unidos…

Para concluir esta seleção de frases, no final do mês de julho, Bolsonaro fez a seguinte declaração:

“Sou assim mesmo. Não tem estratégia. Se eu estivesse preocupado com (a eleição de) 2022, não dava essas declarações.”

Talvez ele não tenha realmente uma estratégia. Ou talvez, sua estratégia seja continuar agradando seus fiéis eleitores. Eu, particularmente, acredito que ele, consciente ou inconscientemente, está inserido numa estratégia maior e mais elaborada. Ele é o responsável pela diversão para o que está acontecendo no país. Ele é o showman. A recuperação da economia patina. Reformas passam pelo Congresso Nacional com o rótulo de imprescindíveis para a salvação do país. Quem discutiu com a profundidade devida o impacto da reforma da Previdência Social sobre os mais pobres? Trabalhadores braçais com baixa escolaridade conseguirão se aposentar aos 65 anos? A viúvas pobres conseguirão sobreviver dignamente com pensões inferiores a um salário mínimo? Só ouvíamos que era preciso economizar um trilhão de reais. Por quê? Veremos milhões de idosos sem teto, morando nas ruas das cidades brasileiras, nos próximos dez ou vinte anos, se nada for feito. Mas só discutíamos as declarações e propostas absurdas de Bolsonaro.

Alguém sabe alguma coisa sobre a minirreforma trabalhista, contida na chamada Medida Provisória da Liberdade Econômica? E sobre a permissão de mineração nas terras indígenas? E assim por diante…

Para contrapor uma crítica direta à sua pessoa, ao seu governo ou a um resultado ruim de alguma política pública, Bolsonaro geralmente apoia sua resposta em, pelo menos, uma falácia lógica. E lá vem aquela ladainha de falar do Lula, do PT ou da esquerda…

Bolsonaro reiteradamente exprime uma opinião de que as minorias devem se submeter à vontade da maioria. Prega, desta forma, uma espécie de ditadura da maioria. Assim quer acabar com a esquerda (“esquerdalha”, segundo seu vocabulário) ou quer retirar direitos dos índios à demarcação de terras. O seu viés autoritarista lhe impede de compreender que, em regimes democráticos, as minorias desamparadas devem ser protegidas independentemente do desejo da maioria.

Não é sem motivo que Bolsonaro se autodefine como o personagem de desenhos animados Johnny Bravo. Eu assistia este desenho no canal Cartoon Network com meu filho Leonardo no início dos anos 2000. Johnny Bravo era um loiro musculoso, pouquíssimo inteligente e completamente “sem noção”. Está bem, Bolsonaro não é loiro, nem musculoso…

Bolsonaro_Johnny-Bravo

Eric Hobsbawm, no seu livro Era dos Extremos, apresenta uma associação da direita liberal com o fascismo entre as duas Grandes Guerras Mundiais para evitar a expansão do comunismo soviético em alguns países europeus. Na sequência a extrema direita traiu os liberais. Os nazistas de Hitler se apoderaram da Alemanha; e os fascistas de Mussolini, da Itália.

Desta vez, minha impressão é que os neoliberais usarão toda a força de Jair Bolsonaro para atrair os holofotes para seus disparates, enquanto fazem as reformas que julgam corretas. Se em um determinado momento, ele atrapalhar mais do que ajudar, será escolhido algum motivo para afastá-lo através de um processo de impeachment. Não tiraram Dilma devido a pedaladas fiscais?

Enquanto isso, assistiremos a ataques contra a universidade pública, aos órgãos de proteção ambientais, aos direitos dos trabalhadores mais pobres…

 

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Metade do Esgoto Sanitário do Brasil Não É Sequer Coletado

Este blog aborda todos os assuntos que interessam seus autores. Meu filho, Leonardo Klein Manera, é estudante de engenharia hídrica na Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) e escreveu uma análise muito interessante sobre a situação do saneamento básico no Brasil. Vale à pena a leitura nestes tempos em discutimos o tamanho e as atribuições do Estado.

O Brasil apresenta notória precariedade nos parâmetros que dizem respeito ao saneamento básico. Mesmo sendo serviço extremamente fundamental, segundo estudo do Instituto Trata Brasil divulgado em 2018, de todo o esgoto gerado no país, 55% não é tratado. Cerca de 48% do total do esgoto sequer é coletado (Fonte: Sistema Nacional de Informações Saneamento, 2016), tendo como destino fossas e rios. Concomitantemente, cerca de 35 milhões de habitantes ainda não possuem acesso a abastecimento de água potável. É evidente a necessidade nacional por melhorias nos serviços prestados.

Segundo a teoria sociológica do Estado de Bem-Estar Social, o governo é o provedor responsável por atender às necessidades básicas da população – saúde, educação, segurança, economia. O saneamento também é serviço que deve ser garantido satisfatoriamente pelo Estado, inclusive por tratar-se de questão de saúde pública e desenvolvimento econômico. Contudo, não é o que se constata ao observar cidades como a de Ananindeua no Pará. O município com meio milhão de habitantes possui um dos piores índices de saneamento no país, contando com 30% da população abastecida com água e apenas 0,75% do esgoto coletado.

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Esgoto a céu aberto em Ananindeua no Pará (Fonte: site G1)

Historicamente o esgoto não recebe a devida atenção dos governantes, talvez por falta de prioridade nas políticas públicas, por representar custo mais elevado de operação e maior dificuldade para se obter infraestrutura adequada. Por conseguinte, espera-se maior atenção para este serviço. A Lei 11.445/2007 determina as diretrizes do saneamento básico e estabelece que os municípios deverão apresentar plano de saneamento. A medida que passará a vigorar em 31 de dezembro de 2019 obriga os municípios a apresentarem o Plano Municipal de Saneamento Básico (PMSB) para terem acesso aos recursos destinados pela União.

O que se constata atualmente como propostas de melhorias são metas virtualmente utópicas. Em 2014, o Plano Nacional de Saneamento Básico (PLANSAB) determinou um conjunto de metas e objetivos que inclui alguns dos Objetivos do Milênio (ONU), como a redução da proporção de habitantes sem acesso a saneamento básico e água, a melhoria das condições de vida da população que vive em zonas degradadas e a universalização das estruturas de saneamento básico em todo o país. O Brasil vislumbrava a universalização dos precários serviços de saneamento para 2033. Essa meta fora readequada recentemente por não ser possível viabiliza-la. A nova meta já prevê que só após 2050 e com investimento superior a R$500 bilhões estes serviços seriam universais. Mas qual será a nova prorrogação e o novo acréscimo de custo para esta meta?

Atualmente – segundo pesquisa divulgada pelo IBGE em 2018 – 61,8% dos municípios do país não possuem políticas que envolvam saneamento. Acredito que através de estudos e planos em escalas pequenas (municípios) o Estado pode tornar viável o cumprimento de metas de curto, médio e longo prazos para que no futuro se possa atingir índices de saneamento básico que sejam o mais próximo possível de universal.

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Lula e Sérgio Moro Aplicam o Mesmo Modelo Ético

Muitas pessoas ao lerem o título deste artigo já ficaram tão injuriadas que não seguiram a leitura nem desta primeira frase. Claro que isto inclui os seguidores inquestionáveis de Lula e os de Sérgio Moro. Neste artigo, não defenderei os erros de nenhum dos lados. Apenas demonstrarei meu ponto de vista, tanto Lula, quanto Moro empregam o mesmo modelo de ética.

Recentemente assisti novamente ao filme Watchmen. Os principais personagens adotam diferentes modelos de ética. Recomendo que assistam ao filme (disponível no Netflix) dirigido por Zack Snyder ou leiam o livro em quadrinhos (romance gráfico), escrito por Alan Moore e ilustrado por Dave Gibbons. A Revista Time considerou este livro um dos cem melhores romances publicados em inglês desde 1923. A seguir apresento o modelo ético de alguns personagens do filme.

Rorschach segue o modelo da Deontologia, também conhecido como a ética de Kant. É o agir pelo dever. Pode parecer estranho, mas só pode ser atingida através do livre arbítrio. Só a vontade pode embasar a moralidade e suplantar os instintos. Para Rorschach, tudo é preto no branco; é olho por olho, dente por dente.

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Immanuel Kant

Ozymandias e Dr. Manhattan seguem o modelo teleológico, também conhecido como Utilitarismo. Foi defendido pelos filósofos e economistas britânicos Jeremy Bentham e John Stuart Mill. Pode ser resumida na frase “agir sempre de forma a produzir a maior quantidade de bem-estar”. Para Ozymandias, pessoas podem ser prejudicadas para o benefício da maioria.

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Jeremy Bentham e John Stuart Mill

Coruja II segue a ética da virtude clássica, a ética do filosofo grego Aristóteles. Ele busca o equilíbrio, o caminho do meio, entre os extremos.

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Aristóteles

Se já viu o filme ou não pretende vê-lo, siga a leitura. Caso contrário, os próximos parágrafos serão spoilers. Volte ao artigo após a foto dos super-heróis do filme. E quando for assistir ao filme, lembre-se de que é um filme de super-heróis só para adultos.

O filme se passa nos anos 80, onde uma guerra nuclear entre os Estados Unidos e a União Soviética é iminente. Ozymandias traça um plano para destruir algumas das principais cidades do planeta, usando uma tecnologia desenvolvida através dos poderes do Dr. Manhattan. Quando isto acontece os EUA e a URSS se unem contra um inimigo comum (Dr. Manhattan) e o mundo entra em um período de paz. Ou seja, Ozymandias mata milhões para salvar a vida de bilhões, seguindo o utilitarismo.

Rorschach e o Coruja tentam impedir o plano sem sucesso. Dr. Manhattan e Espectral aparecem e, ao verem na TV o discurso do presidente americano, Nixon, os heróis se dão conta que contar a verdade poderia destruir a paz obtida através do plano de Ozymandias. Rorschach não se conforma e, mesmo sabendo que provavelmente aquele seria o último ato de sua vida, diz que denunciaria o plano de Ozymandias, porque todos têm o direito de saber a verdade.

Temos então o seguinte diálogo:

Ozymandias – Será mesmo Rorschach, se me denunciar irá sacrificar a paz pela qual milhões morreram hoje.
Coruja II – Paz baseada em uma mentira.
Ozymandias – Mas é paz, apesar de tudo.
Dr. Manhattan – Ele está certo.
Espectral – Não, não podemos fazer isso!
Dr. Manhattan – Você me ensinou o valor da vida humana, se quisermos preservá-la aqui, temos que ficar em silêncio.
Rorschach – Fiquem vocês com suas mentiras! Não faço acordos, nem mesmo
diante do Armagedom.

Fora do palácio de Ozymandias, Rorschach encontra Dr. Manhattan e o diálogo prossegue.

Dr. Manhattan – Rorschach, você sabe que não posso permitir isso!
Rorschard – Se tivesse se importado desde o começo com a humanidade nada disso aconteceria.
Dr. Manhattan – Posso mudar quase tudo Rorschach, mas não posso mudar a natureza humana.
Rorschach – Claro, deve proteger a utopia de Veidt (nome verdadeiro de Ozymandias). Um cadáver a mais não faz diferença. Muito bem, o que está esperando, vai me mate, me mate…

Dr. Manhattan explode Rorschach, porque também aderiu ao utilitarismo. A morte de Rorschach garantiria a paz e, deste modo, as vidas de bilhões estariam salvas. Por outro lado, Rorschach seguiu a ética de Kant até o último instante de sua vida. A justiça e a verdade devem estar acima de tudo, não importam as consequências.

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Watchmen – da esquerda para direita: Ozymandias, Dr. Manhattan, Espectral II, Rorschach, Coruja II e Comediante

 

Voltando agora a Lula e Sérgio Moro…

No livro “Uma ovelha negra no poder”, dos jornalistas Andrés Danza e Ernesto Tulbovitz, lançado em 2015 sobre a vida do ex-presidente uruguaio, Pepe Mujica, há um trecho sobre o Mensalão, escândalo que assolou o primeiro mandato de Lula. Abaixo transcrevo a página do livro traduzida para o português.

Lula teve de enfrentar um dos maiores escândalos da história recente do Brasil: o mensalão, uma mensalidade cobrada por alguns parlamentares para aprovar os projetos mais importantes do Poder Executivo. Compra de votos, um dos mecanismos mais antigos da política. Até José Dirceu, um dos principais assessores de Lula, está processado por esse caso.

“Lula não é corrupto como era Collor de Mello e outros presidentes brasileiros”, disse Mujica, referindo-se ao caso. Contou também que Lula viveu aquele episódio com angústia e com um pouco de culpa. “Neste mundo tenho que lidar com muitas coisas imorais, chantagens”, disse Lula com pesar a Mujica e Astori, algumas semanas antes de assumirem o governo do Uruguai. “Essa era a única forma de governar o Brasil”, se justificou. Eles tinham ido visitá-lo em Brasília, Lula sentiu necessidade de esclarecer a situação. “O mensalão é como este país, tudo é enorme”, refletiu.

“O mensalão é mais velho do que o agujero del mate (expressão uruguaia que se refere a algo velho)”, opina Mujica. Grandes políticos da história tiveram de recorrer a mecanismos semelhantes. “Às vezes, este é o preço infame das grandes obras”, argumentou ao lembrar-se Abraham Lincoln, justo nos dias em que havia estreado um filme de Steven Spielberg sobre a vida do presidente dos Estados Unidos, no qual ele mostrou como ele tinha que entregar algo em troca de votação para seus projetos.

De acordo com Mujica, Lula aceita pagar o mensalão para viabilizar o seu governo. O pagamento a deputados para votarem a favor das leis propostas pelo governo é ilícito e imoral. Este ato vai contra a Deontologia (a ética de Kant), porque afronta a justiça e a verdade. Por outro lado, ao aprovar rapidamente essas leis, o governo obteve o que precisava para a execução do seu plano. Ou seja, a ética usada foi utilitarista.

O pior no utilitarismo é que pode seguir aquela máxima de que os fins justificam os meios. E isto fica claro nos escândalos de corrupção que visavam financiar a permanência do PT no governo, investigados pela Operação Lava-Jato.

Sérgio Moro cometeu um ato ilegal ao divulgar a escuta telefônica em que Lula conversava com a então presidente Dilma Rousseff. Ele despachou às 11:13 do dia 16/03/2016, suspendendo a escuta telefônica contra o ex-presidente Lula. No mesmo dia, às 13:32 foi gravada a conversa de Lula com Dilma, onde é combinada a assinatura do termo de posse de Lula como Ministro da Casa Civil. Apesar da escuta ser considerada ilegal, Moro derrubou o sigilo e liberou sua divulgação. Não estou nem discutindo a questão do foro para autorizar a divulgação de grampo telefônico de uma presidente no exercício do cargo.

Moro, no seu despacho que autoriza a divulgação dos áudios, arremata:

“A democracia em uma sociedade livre exige que os governados saibam o que fazem os governantes, mesmo quando estes buscam agir protegidos pelas sombras.”

Eu sei que você ficou em dúvida se Moro agiu como Rorschach, seguindo a ética kantiana numa luta para punir o mal, ou como Ozymandias, seguindo o utilitarismo em que os fins justificam os meios.

A condenação de Lula no caso do “Triplex do Guarujá” pode dirimir esta dúvida. Moro condenou Lula a 9 anos e meio de prisão por corrupção passiva e lavagem de dinheiro. O problema é que o triplex nunca saiu do nome da OAS, foi inclusive usado como garantia na Caixa. A condenação foi baseada em alguns depoimentos e mensagens, sem provas realmente concretas.

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Lula e Moro no interrogatório do Processo do Triplex do Guarujá  (Fonte: Folha de São Paulo).

Para Kant, o Estado não pode punir um cidadão para inibir os outros a cometerem ilícitos. Neste caso, o utilitarismo seria aplicado. A pena é uma retribuição ética que se justifica pela moral, fundamentando a pena tão somente pelo mal que o condenado já praticou e não como uma maneira utilitária de promover o bem de outros ou do próprio condenado.

Sérgio Moro agiu em relação à Lula de acordo com a perspectiva do utilitarismo. Mesmo sem provas suficientes para condená-lo, ele decidiu fazê-lo, removendo Lula do processo eleitoral brasileiro no ano passado.

Para completar, Moro suspendeu os novos interrogatórios de Lula para evitar exploração política que pudesse interferir nas eleições. Por outro lado, há seis dias do primeiro turno das eleições presidenciais, quebrou o sigilo da delação de Antônio Palocci que fazia acusações contra Lula. Assim Moro, mais uma vez, agiu de modo utilitarista, reduzindo as chances eleitorais do PT. Afinal, na sua visão, seu objetivo de combater a corrupção seria prejudicado com a volta de Lula, ou pelo menos de alguém do PT, à presidência de República.

E você segue qual perspectiva ética – kantiana, utilitarista ou aristotélica?

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I’m Not Dog No – A Servidão Voluntária

O cantor e humorista cearense Falcão ganhou destaque nacional, quando lançou uma música com o mesmo título deste artigo. A versão em inglês do antigo sucesso de Waldick Soriano não é o tema deste artigo, e sim o comportamento canino e sua semelhança com o de inúmeros grupos de humanos.

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Cantor cearense Falcão

Tenho passado, rotineiramente, os dias da semana em uma pequena cidade do interior de São Paulo, Orindiúva. Como adquiri nos últimos meses o hábito da corrida, pelo menos duas vezes por semana, saio do hotel para treinar antes das 6 horas da manhã. No percurso de quase sete quilômetros, percorro ruas e contorno praças da cidade. Nos últimos dois ou três meses, comecei a notar que o número de cães nas ruas da cidade está crescendo, servindo de base para minha observação sobre a etologia (comportamento) canina. A seguir listo minhas sete principais conclusões.

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Foto de satélite da cidade de Orindiúva

1. Cães gostam de estar junto às pessoas

Os trabalhadores das usinas da região costumam esperar nas praças da cidade os ônibus que os conduzem ao trabalho. Frequentemente os cachorros ficam junto com os trabalhadores que interagem e alimentam os animais.

2. Cães seguem uma rotina

Logo após as partidas dos ônibus com os trabalhadores, as praças esvaziam e as matilhas se deslocam para outro local, onde há outras pequenas aglomerações de pessoas. Esta rotina se repete até perto das 7 horas da manhã, quando vários cachorros ficam próximos de uma escola municipal.

3. Cães solitários normalmente são tímidos

Cães solitários não costumam latir para pessoas. Ao cruzar no caminho, pode-se notar uma certa tensão no olhar do animal.

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Cão solitário

4. Cães agem de forma parecida quando estão em grupo

Quando estão em grupo, os cachorros começam a homogeneizar suas ações e reações. Parecem um único indivíduo dividido em várias partes. Todos demonstram alegria, medo ou agressividade ao mesmo tempo.

5. Cães menores são os maiores influenciadores do comportamento da matilha

Invariavelmente são os cachorros menores que influenciam os maiores. Talvez por serem mais inquietos e ativos, os cães menores começam as brincadeiras, latem e atacam algum pedestre.

6. Cães gostam de atacar alvos em movimento

Cães adoram atacar ciclistas, motociclistas e “pessoas que correm pelas ruas às 6 horas da manhã”. Este é meu maior problema, quando corro ao redor de uma praça orindiuvense e uma matilha resolve me acuar.

7. A força do cão está na matilha e a fraqueza está no indivíduo

A prova que a matilha é forte e o cão solitário é fraco aconteceu em um dia que uma pequena matilha ficou me perseguindo e latindo ao meu redor. Após uns 50 metros, todos os cães desistiram de me seguir com exceção de um animal. Neste momento, eu comecei a correr atrás dele por uns 10 metros, antes de retomar minha rota. O cãozinho ficou apavorado e se escondeu atrás de uma estátua de onde ficou me espiando. Ou seja, ele era valente no grupo e ficou covarde sozinho.

Cachorro matilha

Matilha

Felizmente, até agora a cachorrada das ruas de Orindiúva não me mordeu. Só ficam latindo ao meu redor, quando passo perto de uma matilha. Como escreveu sabiamente o cantor Falcão, “dog’s au-au it’s not nhac-nhac” (ou em bom português, cão que late não morde).

Cachorros 2

Meus dois “melhores amigos” em Orindiúva

O ser humano tem a faculdade de pensar criticamente e agir de acordo com seus princípios, mas muitos abdicam da liberdade de discordarem de seu grupo e deixam-se levar pelo pensamento único. Agem como se só haveria força se seguissem sua “matilha”.

Não pensar criticamente é o caminho para servidão voluntária.

Escrevi três artigos sobre obediência baseado nos trabalhos de dois psicólogos americanos, Stanley Milgram e Philip Zimbardo. No trabalho de Milgram, as pessoas davam choques em outras simplesmente, porque alguém (a autoridade) assumia toda a responsabilidade. No experimento de Zimbardo, quem fazia o papel de guarda em uma penitenciária fictícia passou a humilhar quem fazia o papel de preso. E a maioria destes “presos” aceitou os desmandos e humilhações como se não houvesse alternativa.

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Stanley Milgram e Philip Zimbardo

Recentemente li o “Discurso sobre a Servidão Voluntária”, escrito pelo filósofo francês Étienne de La Boétie no século XVI. Fica claro que seguir ordens e não reagir contra elas, mesmo quando veementemente não se concorda com elas, é muito mais confortável. As pessoas podiam se rebelar e simplesmente desobedecer ao tirano, mas seguem atendendo suas ordens. Os submissos são responsáveis pela sustentação da tirania.

Étienne de La Boétie

Étienne de La Boétie

Hannah Arendt, filósofa alemã de origem judaica, acompanhou o julgamento do nazista Adolf Eichmann em Israel. Ela esperava encontrar um monstro, mas viu um homem absolutamente normal, um burocrata responsável pela logística de transporte de judeus até os campos de extermínio. Segundo Eichmann, ele simplesmente estava cumprindo a sua obrigação. Baseada nessa observação, Arendt cunhou o termo “Banalidade do Mal”.

Hannah Arendt

Hannah Arendt

Voltando a Philip Zimbardo, ele listou sete processos sociais que facilitam o escorregão para o mal no seu livro “O Efeito Lúcifer”:

– displicentemente dar o primeiro passo;
– desumanização dos outros;
– anonimato;
– responsabilidade individual difusa;
– obediência cega à autoridade;
– conformismo não crítico às regras do grupo;
– tolerância passiva ao mal pela inação ou indiferença.

O filósofo austríaco Karl Popper foi um grande defensor da tolerância, entretanto explicitou seus limites no livro “Sociedade Aberta e seus Inimigos” de 1945.

“Tolerância ilimitada leva ao desaparecimento da tolerância. Se estendermos tolerância ilimitada até mesmo para aqueles que são intolerantes, se não estivermos preparados para defender a sociedade tolerante contra a investida dos intolerantes, então os tolerantes serão destruídos, e a tolerância junto destes.”

Karl Popper

Karl Popper

Esta tolerância ilimitada poderia ser substituída por passividade – processo que transforma pessoas livres em zumbis ou simples cães de rua que só conseguem agir de acordo com a vontade da matilha que espera a iniciativa de seus mais insignificantes membros para sair da inércia.

P.S.: Aproveito para fazer um apelo ao prefeito da cidade de Orindiúva. A cidade apresenta ótima conservação de ruas, praças e prédios públicos, além de oferecer à população bons serviços nas áreas de educação e saúde. Está na hora de implantar um programa de castração dos cães de rua e oferecer este serviço para que os moradores possam esterilizar seus animais domésticos com baixo custo. Assim evitar-se-á a multiplicação de animais nas ruas e aumento de casos de zoonoses.

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A Sérvia e a Eleição Presidencial Brasileira

A primeira ideia, que vem à mente ao ler o título deste artigo, é a existência de uma conspiração do governo sérvio para interferir no resultado das eleições presidenciais brasileiras. Seria algo similar ao feito pelos russos no pleito que elegeu Donald Trump presidente dos Estados Unidos? De acordo com meu conhecimento, não existe atuação da Sérvia nas nossas eleições. Você deve estar pensando sobre o motivo deste título exótico.

No início de agosto, passei uma semana na Sérvia. Na medida que a intimidade e confiança mútuas começam a crescer, assuntos sensíveis como a Guerra dos Balcãs podem ser conversados. Fiquei surpreso quando descobri que a maioria das pessoas que eu conversava tinham suas origens em diferentes países da antiga Iugoslávia. Alguns tinham família na Croácia, outros na Bósnia ou Montenegro. A pergunta é óbvia, se não existem etnias puras sérvias, croatas ou montenegrinas, por que a rivalidade entre as regiões da antiga Iugoslávia cresceu aponto de acontecer uma guerra tão sangrenta?

Por um lado, líderes inescrupulosos almejaram consolidar seus poderes. Por outro lado, sempre existem interesses econômicos por trás de guerras. Um dos meus interlocutores na Sérvia contou-me que, como estava próximo à fronteira com a Croácia, assistia aos noticiários dos dois lados. Nos telejornais croatas, os sérvios eram bandidos assassinos; nos telejornais sérvios, os croatas eram os carniceiros. Assim o ódio foi crescendo nos dois lados, as atrocidades foram se acumulando, bem como o desejo de vingança de um lado em relação ao outro.

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Antiga Iugoslávia e as atuais repúblicas

Guardadas as devidas proporções, observamos algo parecido no Brasil. O ódio em relação aos políticos tradicionais e, principalmente, ao Partido dos Trabalhadores (Lula em especial) parece ter cegado e ensurdecido boa parcela da população brasileira. Não importam os argumentos racionais ou quaisquer bons e puros sentimentos, só o ódio e a vingança valem.

Como pode alguém que mais de uma vez insultou mulheres em público receber votos de mulheres? Como pode alguém que já minimizou perdas de vidas inocentes, prega o endurecimento da violência policial e fez elogios à tortura e torturadores receber votos de pessoas que vivem em zonas de risco? Como pode o companheiro de chapa de um candidato à presidência falar contra o décimo terceiro salário, entre outros direitos trabalhistas, receber votos de trabalhadores assalariados pobres?

O mesmo acontece em relação ao outro lado. Como pode alguém votar no candidato de um partido que se afundou na corrupção, que tanto criticava, para angariar fundos para se manter no poder? Como pode alguém votar no candidato de um partido que, apesar de todas as evidências, foi incapaz de fazer um mea-culpa e prometer que daqui para frente os procedimentos serão diferentes?

Diferente das últimas eleições presidenciais, não estamos escolhendo entre um projeto mais liberal e outro mais intervencionista, ou entre um projeto mais orientado ao econômico e outro mais voltado ao social. A questão nem está relacionada ao populismo.

Na verdade, temos um candidato que já criticou abertamente minorias (índios, quilombolas e gays) e cuidados na área ambiental, ameaçando os direitos humanos e a proteção ao meio ambiente. Alguém que já disse que vai acabar com o ativismo. Alguém que simpatiza com regimes de exceção, cercado por militares da reserva que também simpatizam. Alguém que já disse que vai propor o aumento do número de ministros do STF de 11 para 21, provavelmente para controlar as decisões desta corte. Alguém que está procurando um ministro da educação que tenha autoridade, expulse a filosofia de Paulo Freire das escolas e mude os currículos escolares. Alguém que defende a fusão do ministério da agricultura com o do meio ambiente. Este é Jair Bolsonaro que, se eleito, deverá ter o apoio do Congresso mais conservador dos últimos 30 anos. Ou seja, ele poderá aprovar suas propostas no Câmara dos Deputados e Senado.

No ano passado, escrevi um artigo, onde comentava o desequilíbrio pelo qual nosso mundo está passando. Abaixo transcrevo um trecho.

O economista britânico Guy Standing, no seu livro “O Precariado – A Nova Classe Perigosa” (The Precariat: The New Dangerous Class), descreve a formação e crescimento de uma nova classe, o “precariado”, com o avanço da globalização neoliberal. Segundo Standing:

“O precariado é definido pela visão de curto prazo e, induzida pela baixa probabilidade de progresso pessoal ou de construção de uma carreira, pode verificar-se uma evolução massificada no sentido da incapacidade de pensar a longo prazo.”

“Aqueles no precariado têm vidas dominadas por inseguranças, incertezas, dúvidas e humilhações.”

“As pessoas inseguras deixam as outras furiosas e as pessoas com raiva são voláteis, propensas a apoiar uma política de ódio e amargura.”

Precariat_Guy Standing

Esta explicação sobre o precariado justifica uma porção expressiva dos votos em Bolsonaro no primeiro turno.

Existe uma palavra em alemão, Weltanschauung, que pode ser livremente traduzida como visão de mundo. Segundo o Wikipédia,

Weltanschauung é um conjunto ordenado de valores, crenças, impressões, sentimentos e concepções de natureza intuitiva, anteriores à reflexão, a respeito da época ou do mundo em que se vive. Em outros termos, é a orientação cognitiva fundamental de um indivíduo, de uma coletividade ou de toda uma sociedade, num dado espaço-tempo e cultura, a respeito de tudo o que existe – sua gênese, sua natureza, suas propriedades. Uma visão de mundo pode incluir a filosofia natural, postulados fundamentais, existenciais e normativos, ou temas, valores, emoções e ética.

Os decepcionados, os enraivecidos e os desesperançados escolheram, sem refletir, Jair Bolsonaro como sua opção para presidente, segundo sua Weltanschauung.

Não votei no primeiro turno em Fernando Haddad, principalmente, devido ao envolvimento de seu partido, PT, em corrupção. Neste segundo turno, não vejo outra opção. Bolsonaro representa um retrocesso social e político perigoso. Só nos resta, nestas duas semanas antes das eleições, conversar com amigos, parentes e demais pessoas do nosso convívio. Devemos refletir sobre o que significa a vitória de projeto ultraconservador como o Bolsonaro. Este processo deve ser realizado na paz, sem ódio, porque o ódio só alimentará mais a certeza que Bolsonaro é a melhor alternativa neste momento do nosso país. Lembremos dos sérvios, croatas e bósnios…

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Bolsonaro e Haddad no domingo da votação. [Fonte: El País]

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Sun Tzu e a Intervenção Federal no Rio de Janeiro

O general chinês Sun Tzu escreveu há 2.500 anos o clássico “A Arte da Guerra”. Apesar de seu nome, este livro não é apenas sobre táticas de guerra, ele trata sobre conflitos e como superá-los, tanto que uma mensagem marcante é:

“A suprema arte da guerra é submeter o inimigo sem lutar.”

A intervenção federal na área da segurança pública no Rio de Janeiro completou um mês e a população prossegue na expectativa nos seus resultados.

Ministro_Raul_Jungmann_General_Walter_Braga_Netto

O ministro da Segurança Pública, Raul Jungmann, e o comandante Militar do Leste, General Braga Netto, em entrevista coletiva sobre o decreto de intervenção no Estado do Rio de Janeiro (Marcelo Camargo/Agência Brasil)

Sun Tzu foi enfático em um dos aspectos centrais das discussões sobre a intervenção – o respeito pelas leis e o comporta ético. Leia o trecho a seguir.

“Os que usam bem as armas cultivam o caminho e obedecem às leis. Assim podem governar, prevalecendo sobre os corruptos; usar a harmonia para desvanecer a oposição, não atacar um exército inocente, não fazer prisioneiros ou saquear por onde a tropa passar, não cortar as árvores, nem contaminar os poços; limpar e purificar os templos das cidades e montanhas por onde você passar, não repetir os erros de uma civilização decadente. Tudo isso está inserido na lei moral.”

Sun Tzu

Sun Tzu

Ou seja, violência contra a população das comunidades, onde houver conflitos entre grupos de criminosos com a polícia ou exército, deve ser evitada a qualquer custo. Desde modo, os mandados coletivos de busca e apreensão são inadmissíveis, por permitir que lares de moradores inocentes sejam invadidos sem indícios concretos.

Os líderes da intervenção militar explicam a aparente inatividade das forças policiais-militares por estarem em um período de planejamento e levantamento dos recursos humanos e materiais necessários para as operações. O planejamento é essencial para atingir o sucesso em qualquer atividade. Sun Tzu cita a importância desta etapa em várias passagens do seu livro.

“Informação é crucial. Nunca vá para a batalha sem saber o que pode estar contra você.”

“Compare, prudentemente, o exército inimigo com o seu próprio, de modo que você possa saber onde a força é superabundante e onde é deficiente.”

“Não ataque alguém só por estar magoado. Um general não deve colocar suas tropas em campo apenas para satisfazer seu próprio esplendor.”

“Um general não deve empreender uma guerra num ataque de ira, nem deve enviar suas tropas num momento de indignação. Entenda que um homem que está enfurecido voltará a ser feliz, e aquele que está indignado voltará a ser honrado, mas um Estado que pereceu nunca poderá ser reavivado, nem um homem que morreu poderá ser ressuscitado.”

“Nunca se deve atacar com cólera ou pressa, é aconselhável reservar um tempo para o planejamento e organização do plano. Um verdadeiro mestre das artes marciais vence um inimigo sem batalha, conquista outras cidades sem assaltá-las e destrói outros exércitos sem gastar muito tempo. Desfaz os planos dos inimigos, destrói suas relações e alianças, corta suas provisões ou bloqueia seu caminho.”

“Se não é vantajoso, nunca envie suas tropas; se não lhe rende ganhos, nunca utilize seus homens; se não é uma situação perigosa, nunca lute uma batalha precipitada.”

“A estratégia sem tática é o caminho mais lento para a vitória. Tática sem estratégia é o ruído antes da derrota.”

Em algum momento, o planejamento e a preparação para o conflito deverão ser colocados em prática, porque existe uma premência por resultados positivos neste ano em que temos eleições para os governos federal e estaduais. Em minha opinião, o maior obstáculo para a vitória reside na frase abaixo.

“Aquele que conhece o inimigo e a si mesmo lutará cem batalhas sem perder; para aquele que não conhece o inimigo, mas conhece a si mesmo, as chances para a vitória ou derrota serão iguais; aquele que não conhece nem o inimigo e nem a si próprio será derrotado em todas as batalhas.”

O problema é a relação entre o crime e a polícia. Se a polícia tem criminosos em seus quadros, qual seria a chance de “conhecer a si próprio”? Neste caso, o fracasso está garantido.

Outro ponto é a duração das operações, Sun Tzu recomenda que as operações sejam rápidas. Operações longas ou com várias campanhas também exaurem a energia das tropas e da população em geral, como pode ser confirmado nas seguintes frases.

“Ainda que você esteja vencendo, se a batalha continuar por muito tempo, deixará suas tropas desanimadas e cegará sua espada. Se estiver sitiando uma cidade, esgotarão suas forças.”

“Não há exemplos de uma nação beneficiando-se da guerra prolongada.”

“Deixar que uma operação militar se prolongue por muito tempo, nunca será benéfico para o país. Não se deve mobilizar o povo mais de uma vez por campanha.”

“Uma operação militar significa um grande esforço para o povo e uma guerra pode durar muitos anos até a obtenção da vitória.”

Se pensarmos nos moradores das comunidades atingidas pelos conflitos, o desgaste é desumano, especialmente quando admitimos que as chances de uma vitória militar são reduzidas, por causa das milícias que usam a própria estrutura da polícia para agirem nessas mesmas comunidades e dos espiões do crime organizado infiltrados na polícia e no Judiciário.

A primeira citação de Sun Tzu neste artigo foi a seguinte:

“A suprema arte da guerra é submeter o inimigo sem lutar.”

Como vencer criminosos bem armados sem luta? A principal fonte de receitas destes grupos é o tráfico de drogas ilícitas. Já escrevi um artigo sobre este assunto (Drogas – O Fim da Guerra), onde reproduzo dados apresentados em 2014 por Ethan Nadelmann, diretor e fundador da ONG Drug Policy Alliance. Em 40 anos de guerra, apenas os Estados Unidos gastaram US$ 1 trilhão para obtenção de um grande fracasso. A quem interessa prosseguir com esta longa guerra sem chance de sucesso? Sem dúvida, interessa aos corruptos que recebem propinas para manter o tráfico em atividade.

Ethan_Nadelmann

Ethan Nadelmann, durante o TEDGlobal 2014 no Rio de Janeiro.

Acredito que a liberação das drogas com menores potenciais de dano físico e dependência como, por exemplo, a maconha, seria um bom início. Outro ponto é o aumento da efetividade do combate à lavagem de dinheiro oriundo de atividades criminosas. Estas medidas reduziriam o poder de fogo dos grupos criminosos sem disparar um único tiro.

 

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Por que Chegamos a Este Ponto? Em Busca de um Novo Equilíbrio

Há quase dois séculos e meio, o escocês Adam Smith publicou um dos livros mais influentes da nossa era, “A Riqueza das Nações”. Neste livro, ele defende que as pessoas devem maximizar seu próprio proveito e existiria uma “mão invisível” que ajudaria a equilibrar as relações econômicas e sociais. Hoje Adam Smith é considerado o pai da moderna economia e do liberalismo.

Adam Smith_The Wealth of Nations

Praticamente um século depois, com a revolução industrial e a falha da “mão invisível” de Adam Smith, Karl Marx publica o primeiro volume de outra obra influente do nosso tempo, “O Capital”. Esta obra combinada com o “Manifesto Comunista”, publicado por Marx e Engels, duas décadas antes são a base do socialismo.

Karl Marx_Das Kapital

Aristóteles, dois mil anos antes de Adam Smith, afirmou que o homem é um animal político – político por viver em uma polis (cidade-estado grega), local em que poderia se desenvolver plenamente nas relações com os outros humanos, onde o bem comum seria traduzido em felicidade, justiça e bem-estar social.

Aristoteles

Aristóteles

Podemos dizer que, no liberalismo, o indivíduo predomina sobre a sociedade, enquanto, no socialismo, a sociedade predomina sobre o indivíduo. Precisa-se buscar o equilíbrio. Este verso de Rudolf Steiner representa este equilíbrio.

Salutar só é, quando
No espelho da alma humana
Forma-se toda a comunidade;
E na comunidade
Vive a força da alma individual.

steiner-1915

Rudolf Steiner

Atualmente estamos atingindo o auge do individualismo na nossa sociedade. Se este estado não for alterado em breve, teremos problemas irreversíveis para a humanidade.

O economista britânico Guy Standing, no seu livro “O Precariado – A Nova Classe Perigosa” (The Precariat: The New Dangerous Class), descreve a formação e crescimento de uma nova classe, o “precariado”, com o avanço da globalização neoliberal. Segundo Standing:

“O precariado é definido pela visão de curto prazo e, induzida pela baixa probabilidade de progresso pessoal ou de construção de uma carreira, pode verificar-se uma evolução massificada no sentido da incapacidade de pensar a longo prazo.”

“Aqueles no precariado têm vidas dominadas por inseguranças, incertezas, dúvidas e humilhações.”

“As pessoas inseguras deixam as outras furiosas e as pessoas com raiva são voláteis, propensas a apoiar uma política de ódio e amargura.”

Se aceitamos que os menos favorecidos sejam pouco protegidos pela legislação ou ameaçados por processos como terceirização ou contratos de trabalho temporários, estaremos também aceitando que os menos favorecidos sejam explorados e marginalizados. O problema é que os interesses econômicos se tornaram tão dominantes que as pessoas são convencidas que não existe outra forma de organizar a sociedade.

Precariat_Guy Standing

Podemos dividir a atividade humana em três setores: político-jurídico, econômico e cultural-social. Estes setores deveriam ser totalmente independentes. O setor econômico deve financiar os dois outros setores através dos impostos transparentemente. O que vemos hoje aqui no Brasil (e na maior parte do planeta) é a compra do setor político pelo setor econômico: leis são alteradas; isenções fiscais acertadas; grandes obras definidas, enquanto que os interesses da sociedade são relegados ao segundo plano. Simultaneamente a ideia de que a economia deve ser desregulamentada é vendida como se isto fosse bom para a sociedade, mas isto só beneficia os muito ricos, porque o setor econômico também compra a mídia e a cultura.

Devemos separar totalmente estes três setores para termos um futuro mais justo e sustentável. O problema é que, para obtermos sucesso, esta ação deve ser global. Seguindo o ideário da Revolução Francesa, queremos ter Liberdade na cultura, Igualdade na política e Fraternidade na economia.

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