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Carta Aberta para a Nova Esquerda Brasileira

A esquerda brasileira perdeu o rumo e morreu. Foi soterrada pela avalanche causada pela chegada ao poder da aliança dos neoliberais com a ultradireita. Por outro lado, engana-se quem pensa que este processo é irreversível. A esquerda brasileira pode voltar a ter um papel importante na política brasileira desde que faça as escolhas corretas.

Quando Karl Marx escreveu “O Capital”, estava clara a ascensão do proletariado industrial na Europa. Formou-se uma grande massa operária, trabalhando longas jornadas, muitas vezes em condições insalubres, sem direitos e com baixa remuneração.

A esquerda apresentou-se como uma alternativa aos explorados do século XIX e início do século XX. Uma série de revoluções levaram a esquerda ao poder em diversos países antes da metade do século passado, sendo a União Soviética a maior referência.

Meninos trabalhadores em uma mina de carvão nos Estados Unidos em 1900 (Fonte: www.motherjones.com)

O Comunismo Soviético morreu no final dos anos 80. Simbolicamente a data que aparece na sua lápide é 9 de novembro de 1989, quando o Muro de Berlim foi derrubado pelo povo.

Por outro lado, o Liberalismo também está morto! Morreu entre as duas Grandes Guerras Mundiais do século passado. Na sua lápide, aparece a data da morte – 24 de outubro de 1929, dia conhecido como Black Thursday, quando a Bolsa de New York quebrou.

Até os anos 70, antes da crise do petróleo, ninguém voltou a falar seriamente em liberalismo. O Estado tinha um papel importante na regulação da economia. Com a ascensão de Thatcher no Reino Unido e Reagan nos Estados Unidos, a direita e os neoliberais se fortalecem e começa o processo de desregulamentação da economia com o favorecimento de grandes conglomerados econômicos. Assim, o capitalismo financeiro e grandes empresas multinacionais tornam-se, muitas vezes, mais poderosos do que Estados.

O que vemos hoje aqui no Brasil (e na maior parte do planeta) é a compra do setor político pelo setor econômico: leis são alteradas, isenções fiscais acertadas, grandes obras definidas, enquanto que os interesses da sociedade são relegados ao segundo plano. Simultaneamente, as ideias de que a economia deve ser desregulamentada e direitos previdenciários e trabalhistas suprimidos são vendidas como se fossem benéficas para a sociedade, mas só favorecem os muito ricos, porque o setor econômico também compra a mídia e a cultura.

Atualmente há mais informação disponível do jamais se sonhou durante a história da humanidade. Por outro lado, analisa-se menos e pensa-se menos sobre estas informações. Primeiro compartilha-se, depois ofende-se com quem argumentou contra. E nunca a veracidade das informações é verificada antes do compartilhamento, simplesmente porque apoiam convicções pessoais.

Se a proposta da esquerda brasileira for retirar a família Bolsonaro do poder, só posso afirmar que isso é muito pouco. Setores liberais e lavajatistas da extrema direita também podem defender a mesma bandeira.

A Nova Esquerda brasileira deve unir-se e preparar uma proposta clara para o país.

Antes de mais nada, deve-se ter ampla liberdade e proteção para as minorias. A democracia não é a ditadura da maioria. Na democracia, diferentemente da ditadura, quem é ou pensa diferente tem seus direitos garantidos.

O Brasil já oferece a universalização da educação até os 17 anos às crianças e jovens. É chegado o momento de universalizar a educação de qualidade que forme seres humanos livres. Servos acreditam que só há um modo de pensar ou expressar-se através da cultura, rejeitam a diversidade. Quem é livre não precisa de líderes messiânicos na política ou na religião. Além disto, saúde também se aprende, educação é que realmente cura. A medicina atual busca prioritariamente a cura das doenças e menos a salutogênese ou promoção da saúde. Pessoas educadas, com hábitos saudáveis, reduzem a demanda aos serviços de saúde.

A busca pela economia circular pode colocar o Brasil na vanguarda do mundo pela abundância de recursos naturais disponíveis. Por exemplo, o Brasil possui uma baixa geração de energia elétrica através de painéis solares apesar de contar com um potencial incrível. Se compararmos com a Alemanha, a pior região do Brasil é melhor do que a região mais favorável da Alemanha, país europeu líder na aplicação desta tecnologia. Através de investimentos em tecnologia, poder-se-ia fazer o ciclo completo: produção, uso, desmontagem, recuperação de metais e componentes para a produção de novos painéis. Veja a figura abaixo.

Economia circular (Fonte: Parlamento Europeu)

Outro ponto importante é o auxílio às comunidades em áreas de preservação para o desenvolvimento de negócios sustentáveis (econômica, social e ambientalmente). Assim estas comunidades ajudariam na preservação dos ecossistemas, através do ecoturismo, artesanato e atividades extrativas sustentáveis.

Iniciativas sociais, cooperativas e pequenas empresas devem ser incentivadas e protegidas. Treinamentos específicos devem ser oferecidos para empreendedores e cooperativados. Deste modo, poder-se-ia criar uma porta de saída digna para os beneficiários do Bolsa Família.

O desenvolvimento econômico não deve ser jamais dissociado do desenvolvimento social e da preservação ou recuperação do meio ambiente!

A segurança pública é uma das maiores preocupações da população, especialmente nos grandes centros urbanos do país. Deve haver uma discussão profunda de como mitigar suas consequências. Não se pode simplesmente dizer que é uma questão social e será resolvida somente por esta via.

Para finalizar, a Nova Esquerda deve evitar práticas nefastas como o clientelismo e fisiologismo político. A transparência deve ser uma das posturas mais importantes da administração pública. Como diz o velho provérbio romano:

– “À mulher de César não basta ser honesta, deve parecer honesta”.

Como a mulher de César, um político (especialmente de esquerda) deveria estar acima de qualquer suspeita. Relações não ortodoxas entre o público e o privado devem ser evitadas.

Podemos dividir a atividade humana em três setores: político-jurídico, econômico e cultural-social. Estes setores deveriam ser totalmente independentes. O setor econômico deve financiar os dois outros setores através dos impostos transparentemente.

Devemos separar totalmente estes três setores para termos um futuro mais justo e sustentável. Seguindo o ideário da Revolução Francesa, queremos ter Liberdade na cultura, Igualdade na política e Fraternidade na economia.

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A Estranha Educação da Língua Portuguesa

Queremos que as pessoas tratem umas às outras com educação. Deste modo, é importante pedir com cordialidade, agradecer e retribuir. A língua portuguesa usa algumas expressões consagradas pelo uso diário que eu considero ruins.

porfavor_obrigado_denada

Se queremos, por exemplo, alguma informação, começamos a frase por um educado “por favor”. Como se a pessoa que pede a informação passasse a dever a retribuição deste “favor”. E isto fica muito claro, quando, após receber a informação solicitada, a pessoa diz obrigado (ou obrigada). Ou seja, ela confirma categoricamente que está obrigada a retribuir o “favor”. Ela ficou com uma dívida com a outra.

O Profeta Gentileza, no Rio de Janeiro ensinava que “em lugar de ‘muito obrigado’ devemos dizer ‘agradecido’ e ao invés de ‘por favor’ devemos usar ‘por gentileza’, porque ninguém é obrigado a nada e devemos ser gentis uns para com os outros e relacionarmo-nos por amor e não por favor”.

profeta_gentileza

José Datrino, o Profeta Gentileza.

A terceira expressão é a resposta educada para o “obrigado”, “de nada”. Neste contexto, o “de nada” soa como uma desobrigação de retribuir o “favor”.

Em Pelotas, no Rio Grande do Sul, os habitantes locais substituíram o “de nada” pelo “merece”. Assim fica a mensagem que a pessoa “merece” a “gentileza” recebida.

Se unirmos os ensinamentos do Profeta Gentileza à forma pelotense de retribuir um agradecimento, teríamos o seguinte diálogo:

– Por gentileza…
– Agradecido (ou grato)!
– Merece!

Podíamos encerrar 2017 e seguir 2018, sendo educados e exercitando esta forma de pedir e agradecer, porque como dizia o Profeta:

– Gentileza gera gentileza.

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