O sábado iniciou com uma notícia impactante para os colorados – Fernando Lúcio da Costa, o Fernandão morreu devido a um acidente de helicóptero. Fiquei com uma sensação estranha, senti algo parecido quando Ayrton Senna morreu. Os ídolos têm uma espécie de onipresença em nossas vidas que muitas vezes não nos damos conta que o conhecemos profundamente apenas no âmbito profissional. Não os conhecemos realmente…
Fernandão chegou ao Inter em 2004 e, logo na estreia, marcou o milésimo gol da história dos Gre-Nais. Quando deixou o clube em 2008, havia conquistado vários títulos com destaque para a Copa Libertadores e o Mundial, ambos em 2006. Foi capitão do time, um líder dentro e fora de campo. Ele era um jogador de futebol muito acima da média – educado e bem articulado. Sempre atendia todos os fãs de forma atenciosa e simpática. Nunca vi frases deselegantes contra adversários ou jornalistas. Tudo isto explica a verdadeira comoção dos gaúchos com a sua morte.
Fernandão com meu filho Leonardo
Uma questão importante é a idade do ex-jogador colorado, 36 anos. Ou seja, ele era um jovem saudável, bem sucedido e, após a aposentadoria como jogador de futebol, tinha mais liberdade para aproveitar a vida com sua família. Além disto, estava iniciando uma nova carreira como comentarista esportivo do canal SporTV. Numa circunstância deste tipo, costumamos questionar:
– Como alguém pode morrer assim com todo um futuro pela frente?
Como diria a grande filósofa contemporânea Julinha, minha filha de 6 anos, “todos têm seu tempo neste mundo, o dele era este”. Felizmente ou infelizmente, dependendo do ponto de vista, não sabemos qual é a nossa hora.
Eu, sinceramente, acho ótimo não saber qual é a minha hora. Sinto que devemos equilibrar entre viver o hoje como se fosse o último dia e como se tivesse mais 50 anos pela frente. Equilíbrio difícil entre desfrutar e plantar… Esta é a beleza de nascer, viver e morrer…
Sobre a vida e o que acontece depois da morte, eu poderia pensar em alguma coisa, mas não chegaria aos pés desta verdadeira preciosidade escrita por Monteiro Lobato nesta passagem de “Memórias de Emília” de 1936.
– A vida, Senhor Visconde, é um pisca-pisca. A gente nasce, isto é, começa a piscar. Quem para de piscar, chegou ao fim, morreu. Piscar é abrir e fechar os olhos – viver é isso. É um dorme-e-acorda, dorme-e-acorda, até que dorme e não acorda mais.
[…] A vida das gentes neste mundo, senhor sabugo, é isso. Um rosário de piscadas. Cada pisco é um dia. Pisca e mama; pisca e anda; pisca e brinca; pisca e estuda; pisca e ama; pisca e cria filhos; pisca e geme os reumatismos, por fim pisca pela última vez e morre.
– E depois que morre? – perguntou o Visconde.
– Depois que morre, vira hipótese. É ou não é?
Visconde de Sabugosa e Emília
Eu e Visconde de Sabugosa só podemos dizer que isto faz muito sentido, Emília! Aproveite cada dia da vida, carpe diem, não deixe o essencial para amanhã, mas nunca se esqueça de semear para ter algo maravilhoso para colher amanhã, na próxima semana, daqui um ano ou cinquenta anos…
Fernandão, infelizmente, piscou pela última vez no sábado passado, mas, entre uma piscada e outra, fez a felicidade de milhões de pessoas…
Há muitos anos li um livro de um grande escritor gaúcho não muito popular do grande público, Dyonélio Machado. O livro “Os Ratos” trata do período de 24 horas da vida de um funcionário público a procura de dinheiro para pagar sua dívida com o leiteiro. Você pode achar o enredo meio bobo, mas o livro, publicado há quase 80 anos, é muito bom e sua leitura continua atual.
Se você não quiser saber o final do livro, volte a ler após a figura da capa do livro.
Depois de passar horas, tentando arrumar dinheiro com o chefe, colegas e agiotas, o personagem principal finalmente consegue a quantia que precisa para pagar sua dívida. Ele deixa a quantia sobre a mesa da cozinha da sua casa. Eram outros tempos, o leiteiro deixava as garrafas ou tarros cheios e levava os vazios. Durante a noite, ele imagina que vários ratos roem e destroem totalmente o dinheiro que ele havia deixado sobre a mesa. Mesmo assim, ele não se levanta para verificar se isto realmente está acontecendo, apenas sofre. E só consegue relaxar, quando o leiteiro chega no horário de sempre e entrega o leite que havia ameaçado suspender o fornecimento caso a dívida não fosse quitada. Veja a passagem onde a paranoia e angústia chega ao ponto máximo.
De repente, um barulho no forro… “Ratos… São ratos”. Fica esperando o barulho dos ratos na cozinha. O barulho aumentou: em vários pontos, no forro, o rufar… “A casa está cheia de ratos!” Há um roer ali perto. O que estarão comendo? É isto! “Os ratos vão roer – já roeram! – todo o dinheiro!…” Tem um grande desespero. É preciso levantar-se. Mas o barulho cessou. Há só o silêncio. Será que ratos roem dinheiro? É melhor perguntar à mulher. Absurdo. Claro que ratos não roem dinheiro! “Vê os ninhos, os papéis picados, miudinhos, picadinhos… uma poeira”.
Muitas vezes inventamos barreiras e problemas imaginários. Algumas pessoas criam conspirações complexas, onde todos querem prejudicá-las. Inimigos imaginários ganham vida. Ao invés de agir, a reação é uma paralisia, como aconteceu com o personagem principal do livro “Os Ratos”, onde a pessoa, após criar a fantasia, fica com medo de enfrentá-la.
Um caso mais sutil acontece, quando nos convencemos que somos incapazes de fazer algo. O pensamento típico desta forma de comportamento é a frase:
– Não adianta tentar! Eu não vou conseguir mesmo…
Outra forma de autossabotagem é acreditar que o simples desejo tem poder para conseguir alguma coisa. A máxima que resume isto é aquela frase do “O Alquimista” do Paulo Coelho:
– Quando você quer alguma coisa, todo o universo conspira para que você realize o seu desejo.
Concordo que o primeiro passo para se conseguir algo é acreditar, mas se você apenas confiar que isto basta e não trabalhar duro, não desenvolver suas aptidões, não perseverar, dificilmente chegará ao resultado almejado. Na hora do fracasso, o culpado é a sorte ou o destino.
Aqueles que alcançam seus objetivos depois de batalharem muito, ainda são classificados como sortudos ou, então, se diz que nasceu com certa parte do corpo virada para a lua.
Temos que nos vigiar permanentemente, porque nossa mente pode ser nosso maior aliado ou nosso maior inimigo. Nós somos os principais agentes dos nossos sucessos e fracassos.
Faz quase quatro anos que mantenho este blog ativo e tenho publicado artigos todas as terças-feiras desde julho do ano passado, incluindo até a terça de carnaval. Confesso que algumas vezes não foi fácil encontrar algum assunto interessante. No penúltimo domingo, a Claudia me perguntou qual seria o assunto do próximo artigo. Eu comentei que escreveria sobre o reciclo de fósforo. Na sequência, completei:
– O número de acessos diretos através das redes sociais será baixo. Este tipo de artigo mais técnico tem pouco acesso.
Eu tinha assistido a algumas apresentações em uma feira sobre sustentabilidade na Alemanha e queria compartilhar algumas informações interessantes sobre reciclagem. Estava certo, não tive dez acessos diretos ao artigo, somando Facebook, Twitter e Linkedin. Tudo bem, não tenho como saber quantos dos assinantes diretos do blog, além da própria Claudia, leram este artigo… Alguns ainda dirão maldosamente que a “coitada” da Claudia é obrigada a ler tudo que eu escrevo, mas é mentira! Eu só tenho que obrigá-la a ler os posts sobre futebol…
Desde que criei meu blog, decidi que me manteria fiel a sua missão e escreveria sobre tudo o que me interessa. Alguns artigos fizeram mais sucesso; outros, muito pouco… Sinceramente, gostaria de ter milhares de acessos diários, mas não deixaria de publicar artigos que nasceram de uma boa reflexão e, ao escrevê-los, consegui resolver as maiores (só as maiores) inconsistências do meu pensamento. Muitas vezes não consigo solucionar meus conflitos, em relação ao tema, em uma ou, pior, duas páginas. Se a pessoa não se sente atraída por determinado tema, como vai suportar a leitura de um longo artigo? Parece impossível resumir tudo a poucos “tweets” de 140 caracteres…
Meus sucessos (guardadas as devidas proporções) foram os artigos que tratavam de temas pessoais, como relacionamentos, ou os profissionais, como autorrealização e sucesso na carreira. Nesta hora, me dei conta de um dos motivos do sucesso da escritora Martha Medeiros.
Martha Medeiros
Não sou um leitor frequente de suas colunas no jornal, mas acho seu estilo muito interessante. Ela apresenta temas, aparentemente simples do dia a dia, com sua visão de mundo, chegando a uma conclusão que eu concordo integralmente – não se preocupe com os rótulos e não se estresse em seguir os modelos de sucesso dos livros e revistas, ache seu modelo e seja feliz do seu jeito. E mais, sofrer de vez em quando também é normal.
Apesar dos meus textos de maior sucesso seguirem esta linha, eu não sou o “Martho Medeiros”!
Quero ter a mais completa liberdade no meu blog de baixar a lenha no ex-prefeito de Novo Hamburgo por causa de seus desmandos, como se minha antiga cidade no Rio Grande do Sul fosse a Antares de Érico Veríssimo ou a Lagoa Branca do excelente “Tambores Silenciosos” de Josué Guimarães. Afinal a política de Novo Hamburgo era a representação do pior da política brasileira (sobre a qual também escrevi)…
Quero falar livremente das religiões! Por que não questionar o Islamismo, o Judaísmo e o Cristianismo? Pior do que seguir cegamente alguma coisa, é ser manipulado por um líder sem escrúpulos. As escrituras não devem ser usadas literalmente fora do contexto da época. Não se pode destacar as passagens que interessam e omitir as que não interessam.
Quero escrever sobre futebol, sem deslumbramentos, apesar da maravilha que é meu Internacional, nem com aquele surrado chavão de “ópio do povo”.
Quero falar sobre tecnologia, meio ambiente, sobre o futuro da humanidade… Sou um otimista, apesar de ter certeza que o caminho até este futuro radioso não será um passeio no parque.
Quero falar sobre a ética como algo absoluto, jamais relativo. As circunstâncias que explicam os desvios de comportamento devem ser discutidas sem preconceitos, entendidas e alteradas.
Sei que muitas pessoas buscam algum conforto para seus problemas imediatos. Ler uma coluna da Martha Medeiros que ajude a perceber que você não é o único do mundo que sofre com certo tipo de dor é bom. Talvez por isto, as mulheres são suas maiores fãs. Como já escrevi no meu blog, as mulheres são pressionadas atualmente para serem mães, esposas, amantes e profissionais perfeitas. Sejam as melhores de acordo com suas possibilidades, porque perfeição total não existe! Quando eu escrevo sobre este tipo de assunto, existe sempre uma motivação pessoal, nasce dentro de mim ou da observação de uma pessoa próxima. O diabo é que ainda tenho aquela ideia de querer ajudar a salvar o mundo, por isso também tenho que escrever sobre política, religião, economia, tecnologia, meio ambiente…
Eu e Martha, sem dúvida, concordamos que escrever liberta, como pode ser visto neste trecho de uma entrevista:
– Para mim, escrever é libertador sempre. Posso ter sofrimentos meus pessoais, mas que na hora que começo a escrever começam a se dissolver. O ato da escrita não é sofrido. Sofrida é a vida. O ato de escrever, para mim, é mais cura do que sofrimento.
No sábado passado, no voo entre New York e Munique, assisti ao filme “Ela” (título original Her) do diretor americano Spike Jonze. Neste trabalho, além de dirigir, ele escreveu o roteiro e produziu o filme.
A seguir faço um breve resumo do filme. A história acontece no futuro, onde todas as pessoas estão conectadas virtualmente. Theodore (atuação muito boa de Joaquin Phoenix) é um homem solitário e seu trabalho é escrever cartas a pedido de outras pessoas, normalmente entre casais. Ele não consegue iniciar novo relacionamento após o final do seu casamento. Para amenizar a sua solidão, ele compra um novo sistema operacional dotado de inteligência artificial (A.I.), Samantha (representada pela voz sexy de Scarlett Johansson). Samantha evolui rapidamente e a relação entre os dois passa pela amizade, cumplicidade, paixão e amor. Como toda relação humana, ela esquenta, esfria e tem crises. Já assisti a filmes bons com finais fracos ou, pelo menos, muito previsíveis. O final de “Ela” é inteligente e surpreendente. Sempre gosto de destacar uma frase do filme. Achei esta, de uma amiga de Theodore, muito boa, eu só trocaria a palavra amor por paixão:
– “O amor é uma forma de insanidade socialmente aceitável”.
Assista ao filme! Garanto que não é daquelas melosas comédias românticas. A história é ótima e nos faz pensar também o que se espera dos relacionamentos em uma era, onde existe muita conexão virtual, mas pouca compreensão e conversas reais. Por incrível que pareça, uma história possível que ganhou o Oscar de melhor roteiro original de 2014.
Outros filmes já trataram a questão da inteligência artificial. Em “A.I. – Inteligência Artificial” de Steven Spielberg, a história gira em torno de um androide menino que é comprado para amar seus pais e substituir o filho humano que está em estado vegetativo. Após um acidente, o “pai” resolve se livrar do androide para proteger o filho natural, mas a “mãe” o ajuda a fugir. Como na história de Pinóquio, o androide quer virar um menino de verdade.
Em outros filmes, computadores dotados de inteligência artificial escravizam os humanos como no “Exterminador do Futuro” e no brilhante “Matrix”. A questão ética é se os sistemas computacionais poderiam ser programados para aprender a desenvolver sentimentos? Como um ser humano, os computadores poderiam sentir amor, compaixão, medo, orgulho, raiva… Até que ponto isto seria seguro?
Lembro-me da declaração de Larry Page, fundador e atual presidente do Google, sobre a possibilidade dos sistemas lerem o cérebro humano. Assim não seriam mais necessárias interfaces de comunicação. Estaremos nus! Enquanto Samantha vasculhava os e-mails e arquivos de Theodore, os sistemas do futuro poderão explorar nossas mentes. Assustador…
Esta discussão pode parecer exótica, mas há pouco foi aprovado o marco civil da internet brasileira. A grande maioria dos países não tem regulação que garanta liberdade de expressão, privacidade e neutralidade da internet. Se hoje este é um assunto importante, há dez anos não tinha relevância. Assim, seria bom iniciar logo a discussão ética sobre a inteligência artificial, porque isto poderá ter grande impacto em nossas vidas no futuro.
Há pouco de um mês, todos funcionários do Brasil da área da empresa em que trabalho fizeram o teste MBTI (Myers-Briggs Type Indicator). O teste foi criado por Katharine Cook Briggs e sua filha Isabel Briggs Myers, com base nas teorias de Carl Jung sobre os Tipos Psicológicos.
O primeiro ponto do teste refere-se à atitude, a pessoa pode ser introvertida (I) ou extrovertida (E). A pergunta para determinar a sua classificação é simples:
– Como você recarrega suas baterias, sozinho ou com os amigos?
Os introvertidos precisam de um tempo sozinhos e são voltados para as ideias e pensamentos, enquanto os extrovertidos são voltados para a ação, não aguentam ficar parados sem fazer alguma coisa. Quanto mais introvertida, menos sociável será a pessoa. Por outro lado, as pessoas muito extrovertidas são aquelas que se sentem em casa até numa reunião com desconhecidos.
O próximo ponto tem a ver com a forma que enxergamos e interpretamos o mundo. A pessoa pode ser sensorial (S) ou intuitiva (N). Se você é sensorial, acreditará naquilo que vê e escuta ou em fatos e dados concretos. Os intuitivos interpretam os dados de acordo com seus valores e crenças, procuram enxergar o que está por trás dos fatos.
A próxima função diz respeito à forma como nossas decisões são tomadas. Se você usa a lógica e a razão, então é racional (T de Thinking), mas se você decide com base no sentimento, será sentimental (F de Feeling). O sentimental preocupa-se com o impacto da decisão nos outros. Quanto mais racional for a pessoa, menos sensível ela será ao sofrimento dos outros.
Katharine Briggs e Isabel Myers introduziram mais uma dimensão. A pessoa pode ser julgadora (J), se ficar confortável apenas quando as decisões são tomadas, ou perceptiva (P), se ficar tranquila com opções em aberto. Os julgadores são mais organizados, planejam melhor, mas não gostam de mudanças de última hora. Os perceptivos são mais adaptáveis e preferem mudanças ao invés de um ambiente estável,
O quadro abaixo resume as quatro dimensões e suas dicotomias.
Combinando estas quatro dimensões com suas dicotomias, teremos 16 tipos de personalidades, conforme a figura abaixo.
No meu grupo de trabalho, composto por nove pessoas, há sete tipos diferentes de personalidade. Sem dúvida, é uma belíssima diversidade… O importante de fazer este exercício juntos é reconhecer que somos diferentes, recarregamos as baterias de forma diferente, vemos o mundo de forma diferente, tomamos decisões de forma diferente e ficamos mais ou menos confortáveis com as mudanças. O tipo de personalidade não faz um profissional ser melhor ou pior, apenas diferente. A reunião de profissionais com tipos diferentes de personalidade pode trazer efeitos sinergéticos e evitar aquele consenso fácil que pode empurrar o grupo para um abismo.
Um ponto importante é que os tipos de personalidade não são estáticos. Muitas pessoas, por exigências profissionais, agem muitas vezes de forma diferente no trabalho do que na vida privada. Existe necessidade de decidir de forma mais racional (com base em dados e fatos) do que no feeling, ou trabalhar de forma mais planejada e estruturada do que improvisada.
Com o passar do tempo, nós também podemos ficar mais ou menos introvertidos, podemos confiar mais em nossa intuição e precisar de menos dados que apoiem nossas decisões.
É fundamental perceber que muitos conflitos entre irmãos, pais e filhos e casais, por exemplo, são causados por estas diferenças de personalidade. Muitas vezes esperamos dos outros a mesma resposta que nós mesmos daríamos, mas somos diferentes. Reconhecer estas diferenças aliviam as tensões e nos reaproximam da felicidade.
Para descontrair, veja como seriam as orações de cada tipo de personalidade.
Nestes últimos dias, Claudia e eu nos divertimos no cinema na quinta-feira e no teatro no sábado. No cinema, assistimos ao polêmico filme Noé do diretor Darren Aronofsky (seu trabalho anterior foi o intenso “Cisne Negro”). No sábado, foi a vez da peça “Meu Deus” da israelense Anat Gov com Dan Stulbach, no papel de Deus, e Irene Ravache como sua psicoterapeuta.
Começarei com um comentário sobre as polêmicas do filme. Não podemos esquecer que Noé, além de ser patriarca bíblico, é um dos profetas do islamismo. Assim as maiores críticas dos religiosos judaicos, cristãos e mulçumanos basearam-se nas inconsistências do filme em relação ao Gênesis e ao Al Corão. Aronofsky alega que, com as informações contidas sobre Noé e o dilúvio, seria impossível fazer um filme com duas horas de duração. Afinal todo o caso é tratado em apenas quatro capítulos curtos do Gênesis. A questão maior não se refere ao “recheio” de detalhes para preencher as lacunas, mas a algumas alterações em relação ao original. O diretor e roteirista, Aronofsky, deu um enfoque ecológico para a história, onde Deus teria decidido extinguir a espécie humana. Deste modo, nenhuma mulher fértil deveria entrar na arca para salvar-se do Dilúvio. A gravidez da esposa, supostamente estéril, de Sem, seu filho mais velho, gera um enorme dilema para Noé no filme. Os outros dois filhos, Cam e Jafé, na história original, entraram na arca com suas esposas, enquanto que no filme estavam sozinhos. A tensão entre Cam e Noé, por exemplo, é explicada no filme pela inexistência de uma esposa para Cam. Poderia comentar outros pontos, como a morte do pai de Noé, Lameque, a participação de Tubalcaim, um dos descendentes da sétima geração de Caim, mas não me estenderei, porque vale a pena ir ao cinema para assistir ao filme. Gosto de filmes que sejam persistentes na minha cabeça.
Na peça “Meu Deus”, um Deus amargurado e deprimido procura a ajuda de uma psicoterapeuta para achar a explicação para sua perda de poderes e para sua vontade de acabar com a própria vida. Temos que entender que o Deus da peça é o Deus do Velho Testamento, muito mais temido do que amado. No final, chega-se a conclusão que Deus ficou deprimido após tudo o que fez com Jó, um dos seus servos mais fiéis.
Farei a análise de algumas passagens da Bíblia, onde Deus tem algumas atitudes no mínimo interessantes. Após criar e colocar Adão e Eva no Jardim do Éden, Deus resolveu tentá-los através da árvore do conhecimento do bem e do mal, a única que não poderia ter seus frutos comidos. Todos sabem o final desta história; a serpente tenta Eva; Eva convence Adão; os dois experimentam o fruto proibido; Deus descobre, amaldiçoa a serpente, Adão e Eva e os expulsa do Paraíso. Por que colocar esta árvore bem no meio do Jardim do Éden? Parece uma mera provocação da curiosidade de dois jovens imaturos que cometeram apenas um erro e não foram perdoados.
O caso dos filhos mais velhos de Adão e Eva, Caim e Abel, nos mostra mais um teste de Deus. Abel era pastor e Caim agricultor. Abel ofertou um cordeiro ao Senhor; e Caim, frutos do seu trabalho na terra. Deus aceita apenas a oferenda de Abel, o que causa enorme irritação de Caim. Deus fala a Caim que ele tem que aprender a controlar sua ira. Não adianta, logo após Caim golpeia a cabeça do irmão com uma pedra e o mata. Deus descobre o assassinato, amaldiçoa Caim e o expulsa para uma terra no leste do Éden. Incrivelmente Ele protege Caim e diz que quem matá-lo sofrerá sete vezes a vingança. Caim constrói uma cidade, Enoque, tem vários descendentes, como os que moram em tendas e criam rebanhos, os que tocam harpa e flauta, e os que fabricavam todos os tipos de ferramentas de bronze e ferro. Por que Deus primeiro provoca a ira de Caim e depois de Caim matar o próprio irmão o protege? Será que Deus se sentiu culpado ou tinha alguma identificação com a ira de Caim?
“O Assassinato de Abel” de Tintoretto
Mais tarde arrependido da Criação, Deus resolve exterminar a humanidade através do dilúvio. Salva-se apenas a família de Noé, descendente de Set, filho mais novo de Adão e Eva. Todos os demais são mortos – homens, mulheres, crianças e animais que não entraram na arca. No final Deus diz a si mesmo:
– “Nunca mais amaldiçoarei a terra por causa do homem, porque seu coração é inteiramente inclinado para o mal desde a infância. E nunca mais destruirei todos os seres vivos como fiz desta vez”.
“A Construção da Arca” de Francesco Bassano
Interessante é que o homem foi criado por Deus “a sua imagem e semelhança”.
Mais adiante no Gênesis, tem uma das provações mais cruéis de toda a Bíblia. Deus pede para que Abraão ofereça a Ele, em sacrifício, Isaac, seu único filho com Sara. Abraão vai com o filho para um monte, prepara o altar para o sacrifício, amarra o filho, saca a faca e, no instante em que consumaria o ato, um anjo do Senhor aparece e o impede:
– “Não toque no rapaz. Não faça nada. Agora sei que você teme a Deus, porque não me negou seu filho, seu único filho”.
Por que fazer um teste de lealdade deste tipo? Forçar alguém a preparar a morte do próprio filho… Como se não pudesse amar simultaneamente o seu filho e a Deus? Como se Deus sempre exigisse estar acima de tudo?
“O Sacrifício de Isaac” de Caravaggio
Não vou falar da destruição de Sodoma e Gomorra ou dos conflitos entre irmãos como Ismael e Isaac ou Esaú e Jacó. Vou falar um pouco sobre Jó.
Jó era justo, temente a Deus, seu servo mais leal. Ele tinha dez filhos, possuía muitas posses – terras, servos e animais. Um dia Deus se encontra com Satanás e comenta sobre a lealdade de Jó. O Satanás comenta que é fácil ser fiel quando se é protegido por Deus com casa, família, propriedades. Para provar a fidelidade de Jó, Deus permite que Satanás lhe tire de uma só vez todos os bens, seus animais são mortos ou roubados, a maioria dos seus servos é assassinada e os dez filhos morrem no desabamento da casa do irmão mais velho atingida por um furacão. Ao saber de todas estas notícias, Jó desespera-se, rasga suas roupas, raspa a cabeça, cai por terra e, em adoração, diz:
– “Nu, saí do ventre de minha mãe e nu, voltarei para lá. O Senhor deu, o Senhor tirou; como foi do agrado do Senhor, assim aconteceu. Seja bendito o nome do Senhor!”
Deus reencontra-se com Satanás e mostra como, apesar de tudo, Jó manteve-se fiel a Ele. O Satanás diz que o que fizera até aquele momento era pouco. Se Jó fosse atingido na sua saúde, não permaneceria fiel a Deus. Deus pede apenas que a vida de Jó fosse poupada. O corpo do pobre homem fica coberto por feridas purulentas. Depois três amigos aparecem e ficam acusando Jó de ter feito algo errado para merecer isto. Jó somente quer que Deus lhe diga o que fez de errado para merecer tudo aquilo. No final, Deus enfim aparece e faz um discurso em mostra toda a grandeza de sua obra. Jó, no final daquele debate desigual, ainda desculpa-se. Deus restabelece seus bens e Jó tem mais dez filhos.
“A Paciência de Jó” de Gerard Seghers
Na peça “Meu Deus”, o Satanás que tenta Deus é apresentado pela psicanalista Ana como o lado ruim do próprio Deus. Na verdade, o Senhor faz mais um teste, desta vez com seu servo mais fiel, fazendo-o sofrer terrivelmente. Jó aceita todas as perdas e, quando sofre uma terrível doença, apenas quer saber o motivo de tanto sofrimento. Onde Jó havia errado?
O Deus do Velho Testamento nos passa a impressão de ser um jovem brilhante, mas orgulhoso de sua capacidade. Quando se sente contrariado, age de forma impulsiva e pune impiedosamente os faltosos. Não consegue perceber que a pessoa que cometeu o erro pode estar num estágio inferior ao Seu. Pune ao invés de educar. Não perdoa! Criou, como um cientista em um laboratório, muitas formas de vida e, simplesmente, as extermina se agiram de forma diversa das suas expectativas. Fez vários testes para provar que ninguém era mais temido do que Ele, basta lembrar-se dos casos de Adão, Caim, Abraão ou Jó. Afinal parecia melhor ser temido do que amado…
Lembra o Zeus grego, distribuindo sua ira santa. Apenas moralmente mais correto que seu “par” grego, pois não engana ou comete adultérios, por exemplo. Deus exige e cobra os acordos firmados, sem perdão.
Após uns 4 mil anos, considerando os períodos de tempo do Gênesis, Deus se mostra muito mais reservado e manda para a Terra, Jesus Cristo que prega o amor entre todos. Agora Deus é amor. Devemos amar Deus, não temê-lo. Deus perdoa a quem se arrepende, um novo paradigma…
“A Criação de Adão” de Michelangelo
A frase mais impactante da peça foi feita por Ana, após Deus revelar que queria se matar, ela conclui que seria impossível Ele fazer isto, porque Deus vive na cabeça das pessoas e, para Ele deixar de existir, teria que matar todas as pessoas. Enquanto houver uma pessoa viva, Deus permaneceria vivo…
Veja o filme, assista à peça, pense bem e decida qual Deus você quer que viva dentro de sua cabeça! Mas lembre-se de que talvez não sejamos tão importantes quanto imaginamos ou desejamos. Assista ao inesquecível final do “MIB – Homens de Preto 1”.
Neste final de semana, voltei a Porto Alegre para acompanhar as festividades de reinauguração do Gigante da Beira-Rio. Após mais de um ano fechado, o estádio do Internacional foi reaberto com uma linda e emocionante festa.
Nunca me apeguei a lugares, já comprei e vendi alguns apartamentos e terrenos. As boas recordações sempre eram carregadas por mim e o resto ficava para trás. Na minha infância, minha família mudou várias vezes de cidade devido ao trabalho do meu pai. No máximo a cada dois anos, tudo se repetia. Eu não criava raízes e me acostumei a ser “meio-cigano”. Eu me apegava à minha família, principalmente meus pais, depois à minha irmã. Os lugares eram descartáveis…
Revendo toda emoção que senti neste final de semana, em especial na noite de sábado, concluí que o meu lugar é o Beira-Rio. Como se ao entrar nele, depois de alguns anos de “exílio voluntário” em São Paulo, tudo voltasse a minha mente, um verdadeiro turbilhão de emoções.
Meu filho Leonardo e eu na frente do Beira no dia da festa de reinauguração.
Pude rever ídolos colorados de diferentes gerações e reviver os momentos dos anos 70 que passei ao lado do meu pai e meu tio nas conquistas dos campeonatos brasileiros. Os jogos dos anos 80 nos quais quase conquistamos títulos importantes. O sofrimento quase instransponível dos anos 90. E a redenção dos anos 2000, quando conquistamos os títulos mais importantes da história do clube, sempre ao lado do meu irmão e do meu filho. No momento da festa em que é mostrada a conquista do Mundial em 2006, na apresentação do gol do Gabiru, eu e meu filho nos abraçamos e choramos. Nossas lágrimas eram da mais pura alegria por estarmos vivendo aquele momento maravilhoso juntos naquele lugar especial.
Festa colorada em 05-04-2014.
Como brinde ainda pude cantar a plenos pulmões “Camila” com o Nenhum de Nós e “Deu Pra Ti” com Kleiton & Kledir. O encerramento da festa ficou por conta do músico e DJ britânico Fatboy Slim. Não gosto muito deste tipo de música, mas assisti a apresentação com atenção. Os telões, durante a segunda música, mostravam frases do comediante e músico americano Bill Hicks falecido em 1994 aos 32 anos de idade. Em minha opinião, Hicks é muito mais um crítico social do que comediante. A frase repetida várias vezes no telão era:
– “Is this real or is this just a ride?”
Esta questão sobre a vida é filosoficamente complexa. Isto é real ou isto é apenas um passeio? Vale a pena assistir ao vídeo feito no final de um dos shows de Bill Hicks.
Se tudo é real ou se não passa de um passeio em um parque de diversões, eu não sei, mas em qualquer das duas hipóteses eu diria:
– O Gigante da Beira-Rio é meu lugar e ele está lindo!
Interior do Beira-Rio antes do jogo contra o Peñarol em 06-04-2014.
Uma das sensações mais controversas que existe é o medo. Sem dúvida, a espécie humana só foi preservada até os dias de hoje devido a este sentimento. Provavelmente os humanos destemidos, que decidiram lutar sozinhos à unha com feras, morreram e não deixaram descendentes. Como diria Darwin, a seleção natural preservou uma característica útil para a sobrevivência da espécie – a habilidade de sentir medo.
Charles Darwin
O medo nos dá limites! Sabemos que não se pode entrar no mar agitado, porque temos o risco de morrer afogados. Sabemos que não devemos ficar do outro lado dos arrecifes na Praia da Boa Viagem em Pernambuco, porque um tubarão pode nos atacar. Sabemos que não podemos atravessar uma rua antes de ver se ela esta livre, porque podemos ser atropelados. O medo nos ajuda a evitar acidentes, lesões e mortes.
Por outro lado, quando este medo é excessivo, podemos ficar paralisados, o que é terrível. Muitas vezes, não se consegue tomar uma decisão simplesmente pelo medo de errar. Theodore Roosevelt, presidente americano nos primeiros anos do século XX, disse uma frase interessante:
– Em um momento de decisão, a melhor coisa que você pode fazer é a coisa certa; a segunda melhor é a coisa errada e a pior coisa é não fazer nada.
Theodore Roosevelt
Na universidade, lembro-me de uma professora da cadeira de Equações Diferenciais que era muito exigente e suas turmas sempre tinham um percentual alto de reprovações. Suas provas sempre tinham alguma frase “inspiradora” no cabeçário. A melhor de todas era baseada em outra frase famosa de Theodore Roosevelt:
– É melhor lutar em busca de triunfos gloriosos, mesmo expondo-se ao fracasso, do que viver em uma penumbra cinzenta sem conhecer vitória ou derrota.
Vi pessoas, que sabiam o que era o certo a fazer, ficarem paralisadas pelo medo de perder o emprego. No final, perdiam o emprego pela completa falta de ação. Isto vale para muitas situações na vida pessoal ou profissional. Casais se separam por medo de enfrentar suas diferenças. Pais e filhos brigam e, por medo da rejeição, não se reconciliam e lamentam amargamente quando a morte encerra qualquer chance de entendimento.
O certo é viver sem medo de perseguir nossos sonhos. Se algo der errado, vamos tentar de novo. Não podemos ser escravos do medo de fracassar, porque, neste caso, já teremos fracassado.
Ontem iniciou mais uma semana de testes na fria Saskatoon no Canadá. No café da manhã, conduzi a conversa com dois colegas da Polônia para a questão Putin e a Crimeia. Para nós brasileiros, esta questão pode parecer distante e sem importância, mas para os poloneses, que são vizinhos da Ucrânia, a coisa é bem mais séria.
Farei a seguir uma pequena retrospectiva para aqueles não estão acompanhando o caso. No final de 2013, o então presidente da Ucrânia, Viktor Yanukovytch, decidiu aproximar o país da Rússia ao invés de efetivar um acordo com a União Europeia. Este ato foi o estopim para os protestos populares que iniciaram pacíficos, mas tornaram-se violentos em fevereiro de 2014. Apenas os confrontos entre os dias 18 e 20 desse mês deixaram 98 mortos e milhares de feridos na capital Kiev. Logo após, Viktor Yanukovytch foi destituído da presidência e eleições foram convocadas para o mês de maio. Dias depois, a Crimeia, uma região autônoma da Ucrânia, divulgou sua intenção de desligar-se do país e anexar-se à Rússia. Vladimir Putin mandou exércitos para a região sob o pretexto de garantir a segurança da população de origem russa (cerca de 60% do total). Um plebiscito foi realizado neste final de semana com vitória esmagadora da proposta de anexação à Rússia e ontem Putin reconheceu o resultado.
Viktor Yanukovytch e Vladimir Putin
A crítica mais contundente até agora foi feita pela senadora e candidata à presidência dos Estados Unidos, Hillary Clinton. Ela comparou, segundo o “The Washington Post”, a atitude de Putin à de Adolf Hitler nos anos 30, ao invadir regiões da Tchecoslováquia e Romênia sob a justificativa de garantir os direitos dos cidadãos de origem alemã.
Placa em manifestação mostra Putin como Hitler
A questão é complexa, porque, por um lado, a União Europeia não pode aceitar este tipo de interferência da Rússia nos países vizinhos, mas, por outro lado, deve-se considerar a dependência da Europa em relação ao gás natural russo, as enormes reservas de petróleo do país e, principalmente, seu enorme poderio bélico herdado dos tempos da extinta União Soviética.
Perguntei para meus colegas poloneses se existe outra região da Europa Oriental, onde a população de origem russa seja a maioria. A resposta foi preocupante. Eles não sabiam, mas, no período de 1945 a 1989, houve muita movimentação dentro daquela zona e pode existir alguma região estratégica na mesma situação da Crimeia. Deste modo, o caso pode ser definido da seguinte forma. Hoje a anexação da Crimeia pela Rússia pode não ser uma grande agressão aos direitos de autodeterminação dos povos, mas é um importante precedente. Ontem foi a Chechênia; hoje, a Crimeia. Se ninguém fizer nada, amanhã será o quê?
Ucrânia com a península da Crimeia em verde
Não estou pedindo sansões terríveis contra a Rússia, porque provavelmente o povo pobre deste país será o mais atingido. No final, Putin poderia até sair fortalecido com este tipo de procedimento. Por outro lado, se tudo ficar como está, pode ser a senha para um próximo passo. Putin já fez várias – mandou prender políticos da oposição, as cantoras do Pussy Riot e ativistas do Green Peace. Poucas autoridades de outros países falaram contra. Durante a invasão de um teatro por terroristas chechenos, em Moscou, causou a morte de pelo menos 129 reféns devido à colocação de um gás tóxico desconhecido no sistema de ventilação do prédio. Ninguém se levantou contra o uso de armas químicas em civis. Vetou qualquer resolução mais forte da ONU contra o regime de seu aliado Bashar al-Assad na Síria, alegando o direito de autodeterminação dos povos. Todos terminaram engolindo a posição de Putin. Agora é a Crimeia…
Bashar al-Assad e Vladimir Putin
As grandes maldades geralmente começam por pequenas maldades. Isto vale também para nosso dia a dia. Aceitamos que os outros façam coisas erradas, cometemos pequenos delitos, não acontece nada, fazemos maiores. Se não tem blitz da “Lei Seca”, então está liberado dirigir depois de beber todas. Tapamos os olhos para os problemas que temos dentro de nossas casas, até que num dia eles se tornam grandes o suficiente para parecerem insolúveis, verdadeiros “Putins”. Nessa hora, perguntamos para nós mesmos:
– Como a situação chegou neste ponto? O que fizemos de errado?
A resposta é simples, agimos como avestruzes, fizemos de conta que o problema não era com a gente e o que antes seria uma simples correção de rumo, pode se tornar uma tragédia. Pode ser tarde…
Na sexta-feira, a Claudia me avisou que haveria uma reunião com os pais na escola da Júlia no dia seguinte. Sábado! E o início estava marcado para as 9 horas da manhã. Perguntou se participaríamos e eu respondi, quase com lágrimas nos olhos, que sim apesar de ser um dia de descanso.
A escola da Júlia segue a pedagogia Waldorf, a qual nós ainda não conhecemos profundamente. Então toda oportunidade para conversar com a professora do 1º ano e com a coordenadora pedagógica sempre é bem-vinda. Realmente foi uma manhã encantadora, a forma lúdica do ensino e o cuidado com todos os detalhes, incluindo até a alimentação, me chamaram a atenção.
Num certo momento, me dei conta de um ponto importante – o que eu espero do futuro da Júlia? Cada vez vejo mais pais ansiosos com o futuro dos filhos. Alguns pais entram em uma competição para mostrar como os filhos são inteligentes, estudam nos mais afamados colégios da região e, no futuro, deverão passar nos mais disputados vestibulares para os cursos que levam às carreiras mais prestigiadas. Se me perguntarem sobre a Júlia, acho que simplesmente responderia:
– A Ju é ótima. Tem muita energia, tem muita vontade de aprender e, principalmente, tem um lindo brilho no olhar.
– E seu futuro? Vai ser construído por ela de acordo com sua vontade. Só tenho que ajudá-la a ser uma pessoa íntegra.
Lembrei que muitas destas escolas de ponta, conhecidas por terem seus alunos nas listas de aprovados dos vestibulares, empurram goela abaixo dos seus alunos grande quantidade de conteúdo – teoremas matemáticos, leis da física, fórmulas químicas, datas de acontecimentos históricos, nomes de livros, classificação de orações…
A imagem que me vem à cabeça é daquele horrível processo para alimentar os gansos para a produção do foie gras, a gavagem. Como você pode ver na foto abaixo, o ganso é obrigado a comer. No final, ele é abatido e seu fígado gordo é vendido como uma especiaria, o foie gras.
Gavagem de gansos para a produção de foie gras
Será que a “gavagem” de conteúdos na criança não vai “engordar” seu cérebro, sem fortalecê-lo efetivamente? Será que as crianças e adolescentes que não suportarem a ingestão desta quantidade de conteúdos não entrarão em depressão por sentirem-se pior do que os outros colegas? Será que os pais não estão pressionando seus filhos além da conta?
Vivemos em um mundo repleto de fontes de informação. O mais importante seria a capacidade de entender criticamente o mundo que nos cerca, desenvolver a visão do todo, ver e entender os outros que estão ao redor e entender que somos diferentes, mas devemos respeitar e valorizar estas diferenças.
Não temos certeza se um caminho é melhor do que outro, mas devemos tentar oferecer aos nossos filhos as “ferramentas” – auto-confiança, amor, espaço para crescer, tempo para brincar – para viver em um futuro muito diferente do mundo em que nós vivemos.
Guardei a mala e a mochila no bagageiro sobre meu assento no avião. Tirei o tênis e coloquei aquela meia que vem no nécessaire das companhias aéreas. Acomodei-me na poltrona e resolvi conferir quais eram as opções disponíveis de filmes. Escolhi “Captain Phillips” como primeiro filme da noite, esperando mais uma convincente atuação de Tom Hanks. A surpresa ficou com seu antagonista no filme, o somali Barkhad Abdi.
“Captain Phillips” com Tom Hanks e Barkhad Abdi
Antes de o filme começar, passou um comercial do Bank of Singapore. Você pode assisti-lo abaixo.
Realmente, não há nada mais precioso em nossas vidas do que os relacionamentos que mantemos com as pessoas ao nosso redor, mas não é fácil se dar conta disto. Enquanto a moça da Columbia Pictures aparecia com aquela pose de Estátua da Liberdade, eu cheguei a uma importante conclusão:
– Eu sou um homem rico!
Mais importante do que casas, apartamentos, automóveis e investimentos que pudessem fazer parte do meu patrimônio, tenho três filhos e uma esposa que amo muito e que me amam. Todo o dia tenho uma troca intensa com eles e a cada reencontro parece que tudo se renova, me sinto feliz!
No ano passado, fiz um curso sobre finanças no INSEAD da França. A primeira parte do curso poderia ser resumida em três frases simples em inglês:
Cash is king!
Time is queen!
Risk matters!
Ou seja, o caixa é o rei, o tempo é a rainha e o risco importa. Os investidores procuram projetos que tornem o fluxo de caixa da empresa mais positivo do que projetos apenas lucrativos. Manter o fluxo de caixa positivo conserva a saúde da empresa. O tempo é importante, porque, ao comparar diferentes projetos, devemos trazer suas contribuições ao caixa da empresa para o tempo presente, para o dia de hoje. Finalmente, sempre que investimos em alguma coisa, olhamos para o retorno e para o risco associados ao investimento.
Paradoxalmente, pela minha nova definição de homem rico, o caixa deve estar sempre praticamente zerado. Devemos retornar tudo o que recebemos o mais rápido possível. Isto não significa que os fluxos de entrada e saída sejam pequenos, pelo contrário devemos circular grandes volumes de amor, carinho e compreensão. Vamos ser mais perdulários do que a caricata figura do “rei do camarote”, mas ao invés de focar nos bens materiais, vamos prestar atenção aos sentimentos.
O “rei do camarote”
Para finalizar, lembro-me de um presente que meu filho Léo me deu há um bom tempo, o saco do carinho. Estava escrito assim:
– Carinho – quanto mais se dá, mais se tem!
Este parece um daqueles círculos virtuosos. Quanto mais a gente dá e demonstra afeto, mais recebe, mais feliz e autoconfiante fica, mais a gente dá, mais recebe…
Como eu apresentei antes, a nova lógica é sempre devolver, no mínimo, tudo o que se recebeu e nosso “caixa” ficará zerado, mas nossos corações ficarão cada vez mais plenos em felicidade e alegria.
Os soldados feridos foram transportados para a Blue Spaceship. A colônia foi cercada, e as buscas começaram de casa em casa. Um dos oficiais da força de paz da ONU foi abordado por uma mulher visivelmente nervosa que queria saber o que houve na sede do conselho. O oficial contou que, quando os soldados invadiram o prédio, bombas incendiárias explodiram e todos que estavam dentro morreram. A mulher caiu de joelhos, e começou a chorar e disse que seu marido era um dos seguranças. O oficial consolou-a, mas procurou obter mais informações:
– Meus pêsames! Com certeza, seu marido não queria estar naquele prédio com apenas mais um colega…
– Não, eu até preferi que ele ficasse lá do que no meio da floresta, com os conselheiros e os outros seguranças. Achei que ele e o colega se entregariam e ficaria tudo bem, mas…
– Em qual floresta estão os outros?
– Na floresta da fonte da juventude.
O oficial desejou que a mulher se recuperasse da perda de seu marido e pediu ao soldado, que o acompanhava, a ajudasse no que fosse necessário. Em seguida, despediu-se e relatou imediatamente sua descoberta ao líder da operação. A tropa se reuniu e avançou até a floresta.
As sentinelas do conselho de Perennial entraram em combate com os primeiros soldados invasores da floresta. Ambos os lados sofreram baixas; contudo, a força de paz da ONU, mais numerosa e bem treinada, avançou rapidamente até o prédio onde o conselho do planeta estava escondido. Dessa vez, os soldados explodiram uma parede lateral para entrar no prédio. Quando chegaram à sala onde estava o conselheiro-mor, um soldado mirou em seu corpo e gritou para que ele se entregasse. O conselheiro-mor respondeu à ordem:
– Você quer me levar para a Terra como um troféu? Como a cabeça empalhada de um animal selvagem morto por um caçador em um daqueles antigos safáris na África? Todos nós já estamos mortos!
O soldado, assustado, disparou sua arma laser contra o peito do conselheiro-mor que, agonizando, apertou o botão do controle que estava em sua mão direita, acionando uma bomba térmica. A temperatura em toda a região da floresta da fonte da juventude superou os 3.000°C. Toda a vida da floresta foi destruída — nenhum humano, kwasha, inseto ou planta resistiu.
“A Apoteose da Guerra” de Vasily Vasilyevich Vereshchagin (1871)
A notícia gerou uma enorme comoção na Terra, afinal, dezenas de pessoas morreram. Além disso, a possibilidade de vida eterna foi inviabilizada com a destruição total da floresta da fonte da juventude.
No dia seguinte à tragédia, o secretário-geral convocou a imprensa para um comunicado oficial na sede da ONU. Bilhões de pessoas aguardavam ansiosamente o seu pronunciamento. No horário marcado, ele chegou ao plenário lotado, esperou que as autoridades e os repórteres se acomodassem e iniciou seu discurso:
– Há pouco mais de dois anos, uma incrível descoberta encheu a humanidade de esperança. As sementes de uma planta encontrada no planeta Perennial, apelidada de fonte da juventude, interrompiam o envelhecimento celular. Foram realizadas inúmeras tentativas de isolar o princípio ativo, sem sucesso. Tentou-se também cultivar a fonte da juventude, empregando as mais modernas técnicas agrícolas, mas as plantas resultantes não possuíam as mesmas propriedades. Decidiu-se, então, coletar suas sementes de forma controlada e distribuí-las aleatoriamente entre a população humana da Terra e das colônias espaciais.
– Os membros do conselho de Perennial sugeriram que fossem empregados para esta tarefa de coleta dóceis animais do planeta Arborea, os kwasha-kwashas. Essas pobres criaturas foram escravizadas, e nós permitimos isso devido à cegueira causada pela possibilidade da vida eterna. Será que a vida de um humano vale mais do que a de um kwasha?
– Posteriormente, os conselheiros de Perennial passaram a desviar as sementes para obter vantagens pessoais. Chegaram ao ponto de sequestrar e manter em cativeiro uma equipe da ONU que investigava o caso. Houve intransigência tanto por parte do conselheiro-mor de Perennial quanto da minha. Todos estavam cegos pela fonte da juventude.
– Em vez de diálogo ou negociação, partiu-se para um confronto sangrento. Eu deveria ter percebido que nossa vantagem poderia acuar os conselheiros de Perennial. Ao sentirem-se sem saída, partiram para atos extremos. A floresta que abrigava a fonte da juventude foi totalmente destruída por uma bomba acionada pelo conselheiro-mor de Perennial, em um momento de completo desespero. Eu errei! Meu erro causou a morte de mais de uma centena pessoas. Meu erro gerou o genocídio de aproximadamente dois terços da população de kwashas. Meu erro deve ter exterminado inúmeras espécies de plantas e animais que só existiam naquela floresta. Meu erro acabou com a única forma conhecida, até agora, de paralisar o envelhecimento dos homens.
– Hoje, penso que a fonte da juventude pode ter sido um teste que uma Entidade superior deste Universo fez conosco, humanos. Em vez de ouro ou pedras preciosas, foi-nos oferecida a vida eterna; mas, como não havia o suficiente para todos, não soubemos como compartilhar. Não demonstramos solidariedade nem compaixão! Deixamos aflorar nossos instintos mais vis: a ambição, a ira, a vingança. O sinal de alerta foi a permissão para escravizar os kwashas. Nenhuma maravilha pode ser construída sobre as bases da dor e da exploração. Só uns poucos lutaram contra a barbárie cometida contra aqueles animais inocentes. Devemos aprender a lição e não repetir mais estes erros. Espero que o dia de ontem seja lembrado, como a explosão da primeira bomba atômica, em Hiroshima, foi lembrada durante muito tempo, como algo que não deve se repetir.
Hiroshima após ser atingida pela bomba atômica (1945)
– Finalizo, renunciando ao posto de secretário-geral da ONU. Espero que um ser humano melhor, mais equilibrado, me suceda. Estou à disposição para receber a punição que acharem justa. Agradeço a atenção de todos.
A reação de todos que ouviram o pronunciamento do então ex-secretário-geral da ONU foi de profundo silêncio. Todos sabiam que ele não era o único culpado; muitos também erraram por omissão. Aquela tragédia serviu, pelo menos, para mostrar que a construção da humanidade ainda não estava completa e que todos deveriam permanecer vigilantes, pois nada poderia justificar as práticas adotadas no célebre caso da “fonte da juventude de Perennial”.
Havia duas proposições a serem votadas pela Assembleia Geral da ONU. A primeira, apresentada pelo embaixador de Perennial, solicitava a independência do planeta. A segunda, elaborada pelo próprio secretário-geral, concedia 24 horas para a libertação da equipe de auditoria detida em Perennial e a renúncia de todo o conselho do planeta, sob pena de invasão pelas forças de manutenção da paz da ONU, os capacetes azuis.
O secretário-geral expôs todos os fatos ocorridos: desde o desvio e contrabando de sementes da fonte da juventude, passando pelo sequestro da equipe de auditoria enviada ao planeta e chegando finalmente à barganha proposta pelo conselheiro-mor de Perennial — libertação da equipe em troca da independência do planeta.
Assembleia Geral da ONU
Em seguida, ele pediu que o embaixador de Perennial apresentasse suas explicações. Como esperado, os circunlóquios do diplomata não convenceram os demais participantes; provavelmente, nem ele mesmo acreditou na sua defesa. Os discursos de outros membros da assembleia foram acalorados. Todos pediam punição exemplar para o conselho de Perennial e, em especial, para seu líder.
Percebendo que o ambiente estava totalmente favorável, o secretário-geral anunciou uma pausa de uma hora para que os diplomatas conversassem com seus respectivos chefes de Estado. No reinício dos trabalhos, as duas proposições seriam votadas.
Após o intervalo, como já se esperava, a independência de Perennial foi rejeitada por unanimidade, e o ultimato do secretário-geral foi aprovado com apenas algumas abstenções e nenhum voto contrário. O Conselho de Segurança da ONU se reuniu em seguida e definiu a estratégia: a tropa partiria no início do dia seguinte. Graças a um buraco de minhoca (equivalente à dobra espacial da série Jornada nas Estrelas), era possível vencer os anos-luz que separam a Terra de Perennial em poucas horas. A nave espacial Blue Spaceship, das forças de manutenção da paz da ONU, ficaria em órbita do planeta até completar as 24 horas do prazo da resolução. Caso as condições não fossem atendidas, a sede do conselho seria invadida.
Forças de manutenção da paz da ONU, os capacetes azuis.
Tudo foi executado conforme o planejado. Quando faltava apenas uma hora, o secretário-geral da ONU enviou o ultimato ao conselheiro-mor e avisou a população do planeta:
– Caros irmãos de Perennial! O conselho deste planeta agiu de forma totalmente antiética – roubou, mentiu e acabou sequestrando funcionários da ONU que cumpriam missão oficial no planeta. Se dentro de uma hora, seu conselho não libertar os funcionários e renunciar pacificamente, invadiremos a sede do conselho. Não há motivos para pânico, peço que todos os cidadãos permaneçam em suas casas. Ninguém será ferido.
É óbvio que o aviso gerou uma grande correria na colônia, mas, vinte minutos antes do fim do prazo, as ruas estavam completamente desertas. O conselho e quase toda a equipe segurança de Perennial esperavam o desenrolar das ações no QG improvisado na floresta da fonte da juventude. Apenas dois seguranças permaneceram na sede do conselho para vigiar os prisioneiros e alertar sobre a chegada dos capacetes azuis na colônia.
No horário marcado, a invasão do planeta foi iniciada, a sede do conselho foi cercada, e o líder da operação exigiu que os reféns fossem libertados e que todos os demais se entregassem. Os seguranças, após avisarem o conselheiro-mor, libertaram todos os prisioneiros, com exceção do delegado e de seu assistente direto.
O líder da operação concedeu um prazo de 30 minutos para que os dois reféns fossem libertados; caso contrário, o prédio seria invadido. Ao término do prazo, os seguranças de Perennial acionaram suas armas laser contra os capacetes azuis. Alguns soldados ficaram gravemente feridos. A porta do prédio foi arrombada pelos soldados; entretanto, bombas incendiárias instaladas junto às entradas foram acionadas, e toda a instalação incendiou-se rapidamente.
O resultado foi trágico: sete mortes — três soldados capacetes azuis, dois seguranças do conselho de Perennial, o delegado da ONU e seu assistente. A Terra, que vivia um período de paz, testemunhou o ressurgimento dos horrores da guerra em uma de suas colônias espaciais.
O conselheiro-mor, ao ser informado sobre o resultado da primeira batalha, reuniu os demais membros do conselho:
– Iremos até o fim! Mostraremos a esses canalhas que não temos medo! Quem não estiver preparado para tudo pode sair agora.
Ninguém foi embora; vários gritaram frases de efeito, mas, no fundo, todos sabiam que dificilmente sairiam vivos daquele lugar.
O secretário-geral ficou revoltado com a notícia das mortes, especialmente a de seu amigo, o delegado. Suas ordens foram claras:
– A partir de agora, será olho por olho, dente por dente! Descubram onde esse verme está escondido e capturem-no junto com toda a sua corja. Se não for possível trazê-los vivos, não importa mais, mate-os!
A justiça não era mais importante; apenas a vingança…
A Execução dos Defensores de Madrid de Francisco Goya
O conselheiro-mor de Perennial conversou sobre a situação com seu par de Aquamundi na sala de reuniões virtual, onde eram representados por seus hologramas. Ao final, o líder de Aquamundi foi muito honesto e aconselhou-o a buscar uma solução negociada com a Terra:
– A colônia em nosso planeta ainda é relativamente recente. Precisamos dos recursos e do apoio da Terra, não resistiríamos a um bloqueio econômico. Vocês têm a fonte da juventude, uma moeda de troca muito interessante. Não comecem uma guerra, na qual todos sempre perdem.
O conselheiro-mor de Perennial, embora contrariado com o resultado da reunião e principalmente com o conselho final, agradeceu o tempo e a atenção dispensados. Em seguida, finalizou a reunião e solicitou o contato do conselheiro-mor de Arborea.
Reunião virtual com hologramas
A reunião com o conselheiro-mor de Arborea teve outro tom, porque ele estava claramente dividido. Uma verba considerável estava entrando no planeta por meio do tráfico de kwashas; contudo, a maior parte da população era formada por cientistas que pesquisavam fitoterápicos oriundos da enorme biodiversidade local. Caso seu planeta se alinhasse com Perennial, a torneira dos recursos terráqueos para as pesquisas seria lacrada. Desde a descoberta da fonte da juventude, alguns projetos com alta probabilidade de aprovação foram adiados. Se a Terra não tivesse mais acesso à fonte da juventude de Perennial, verbas generosas poderiam jorrar em Arborea para premiar sua fidelidade e acelerar a busca por novas alternativas na área de saúde e longevidade.
O conselheiro-mor de Perennial prometeu grandes vantagens a Arborea como parceiro preferencial, incluindo generosas quantidades de sementes da fonte da juventude. Quando questionado sobre se apoiaria Perennial na criação de uma nova federação de planetas independentes, o conselheiro-mor de Arborea mostrou-se reticente:
– Acredito que a proposta é muito interessante, mas não estou totalmente certo de que este seja o melhor momento para implementá-la. Talvez possamos conquistar mais autonomia por meio de negociações com a Terra… Solicitarei ao nosso conselho que analise as alternativas o mais rapidamente possível, conforme a situação exige, e retornarei com nossa decisão. Agradeço imensamente pelo amável convite.
O conselheiro-mor de Perennial sentiu que estavam sozinhos. O que fazer? Ele havia avançado demais ao prender o delegado da ONU e sua equipe. Mesmo que a negociação trouxesse vantagens para seu planeta, ele cairia em desgraça.
Seu assessor informou que o secretário-geral da ONU aguardava-o em uma sala de reuniões virtual para discutir sobre a delegação desaparecida. Ele pediu que a conexão fosse estabelecida. O secretário-geral fez uma saudação protocolar e perguntou como estavam as buscas por sua equipe. O conselheiro-mor respondeu que, apesar da grande mobilização, os progressos foram pequenos; ainda não havia pistas. A resposta do secretário-geral foi incisiva:
– Não esperava outra resposta! Qual é a próxima mentira? Não somos tolos ou ingênuos! Vocês inventaram histórias sobre a fonte da juventude, e nossa equipe desmascarou a farsa que vocês criaram. Eles foram mortos ou sequestrados para não revelar tudo o que descobriram? Exijo a verdade!
– Nenhum representante da Terra tem o direito de exigir algo de um cidadão de Perennial. A era do domínio e exploração acabou! O povo de Perennial agora está livre! Se quiserem seus espiões de volta, reconheçam nossa independência.
– Não negociamos com chantagistas. Perennial é uma colônia terráquea e permanecerá com este status. Liberte minha equipe e entregue-se imediatamente. Você terá um julgamento justo. Caso contrário, seremos obrigados a empregar a força!
– Se esta é a sua palavra final, nosso embaixador apresentará imediatamente o pedido de independência de Perennial. Caso tentem invadir nosso planeta, destruiremos a fonte da juventude.
– Convocarei uma reunião de emergência para hoje, e teremos a decisão sobre o futuro de Perennial até o fim do dia. Adeus!
O conselho aguardava o resultado das reuniões do conselheiro-mor para determinar qual plano seria adotado. Ele entrou na sala e foi direto ao assunto:
– A guerra é inevitável! Estamos sozinhos, e o secretário-geral da ONU já sabe de tudo. Seguiremos o plano “solução final”. Os dispositivos explosivos já foram instalados na área de extração de sementes da fonte da juventude. Caso tentem invadir este perímetro, detonaremos as bombas. Os prédios administrativos naquela área já estão preparados para ser nosso quartel-general. Iremos agora para lá!
Como observado muitas vezes na história da humanidade, inúmeras guerras poderiam ter sido evitadas, mas os interesses de uma minoria, combinados com o orgulho de líderes inescrupulosos, impediram negociações benéficas para todas as partes. No final, o prejuízo sempre foi repartido por todos, principalmente pelos menos favorecidos. Fica aquela sensação de déjà vu…
Após um ano de coleta de sementes, a população humana de Perennial começou a ficar descontente com aquela situação. Afinal, estavam enviando toneladas de sementes da fonte da juventude para a Terra e não recebiam praticamente nada em troca. Nesse período, apenas dois moradores do planeta foram sorteados na loteria. Por outro lado, o ônus de gerenciar toda a operação, incluindo os kwashas, recaiu sobre os ombros de Perennial.
Em determinado momento, a produção começou a declinar. O secretário-geral da ONU quis entender o que estava acontecendo, e o conselho de Perennial apresentou uma série de explicações:
– A produtividade das fontes da juventude caiu; cada planta estava gerando menos sementes.
– Os kwashas estavam mais preguiçosos e, como não se podia exagerar nos castigos, eles não temiam mais os humanos.
– Havia uma praga de insetos noturnos que obrigava a antecipar o fim das atividades diárias.
O secretário-geral solicitou um plano de ação e, sem avisar o conselho de Perennial, enviou um delegado com um grupo de auditores ao planeta para investigar mais profundamente os fatos.
Quando o grupo chegou a Perennial, foi fácil refutar a versão do conselho local. Não havia nada errado com as plantas. Os kwachas continuavam trabalhando da mesma forma, e um novo contingente havia chegado de Arborea há um mês. Além disso, a praga de insetos noturnos era mais uma mentira. Na verdade, parte da produção de sementes havia sido desviada e contrabandeada. Uma parte serviu de pagamento aos mercadores de kwachas de Arborea, e a maior parte foi vendida para pessoas ricas que não foram sorteadas na loteria.
Mercado de Escravos de Johann Moritz Rugendas
O delegado reuniu-se com o conselho para apresentar suas conclusões. Ao final, o conselheiro-mor ordenou para que seu serviço de segurança prendesse a comitiva da Terra e declarou a independência de Perennial:
– Basta de exploração! Basta de humilhações! O tempo de subserviência à Terra acabou hoje! A partir de agora, somos um planeta independente e, se os habitantes da Terra quiserem as sementes da fonte da juventude, deverão pagar o preço que nós determinarmos. Prendam estes canalhas e cortem toda a comunicação deles com a Terra!
Chegou a hora do motim, da revolução: algo que aconteceu inúmeras vezes na história da humanidade na Terra e já estava meio esquecido por seus habitantes.
“A Liberdade Guiando o Povo” de Eugène Delacroix.
O delegado havia enviado um relatório parcial da investigação para a ONU. Quando o secretário-geral leu o documento, tentou contatar imediatamente seu subordinado, mas não obteve sucesso. Então, decidiu convocar o embaixador de Perennial na ONU para obter esclarecimentos. Como todo bom diplomata, ele afirmou que deveria ser um engano e que, talvez, o delegado e sua comitiva estivessem perdidos nas florestas do planeta. E para concluir, disse:
– Entrarei imediatamente em contato com as autoridades de Perennial. Tenho certeza de que todos os esforços serão envidados para encontrar a delegação enviada por Vossa Excelência ao nosso modesto planeta.
O secretário-geral não acreditou naquela história e temia que o pior tivesse acontecido com sua equipe. Não havia tempo a perder!
Em Perennial, o conselho do planeta decidiu apoiar a ruptura dos vínculos com a Terra. Além disso, acharam que não poderiam ficar sozinhos e decidiram fazer uma aliança com os dois planetas mais próximos – Arborea e Aquamundi. Assim, pelo menos, esses planetas não serviriam de base terráquea em caso de ataque das tropas da ONU.
O conflito parecia inevitável. Desta vez, o motivo não era ideológico, nem reservas de petróleo ou metais nobres, nem mesmo territórios. Ironicamente, as pessoas estavam dispostas a morrer para conseguir a semente que prolongaria suas vidas.
Pela primeira vez em séculos, a população da Terra apresentou uma redução. A atividade econômica, apesar de certo dinamismo, apresentava crescimento global praticamente nulo. Havia fontes abundantes e baratas de energia e alimentos; vivia-se um período de paz e prosperidade. Seria este o Fim da História que alguns pensadores descreveram no passado? Como não havia mais alternativas para a economia mundial crescer na Terra, os olhos dos homens se voltaram para o espaço.
Novos planetas, onde existiam condições para o desenvolvimento de vida, foram descobertos. Sondas não tripuladas e naves espaciais foram enviadas para procurar formas de vida e recursos minerais nestes planetas, além de analisar a viabilidade da instalação de colônias de seres humanos.
Foram criados grupos de investidores públicos e privados para explorar os planetas mais promissores. Por coincidência ou não, os planetas mais interessantes possuíam ecossistemas mais desenvolvidos, mas não apresentavam formas de vidas tão evoluídas quanto o ser humano. Após grandes investimentos e muitos anos de planejamento, foram construídas as primeiras bases fora do Sistema Solar. A nova “Era das Grandes Navegações” iniciava-se pelo cosmos, em vez dos mares da Terra do século XV.
As Grandes Navegações do Século XV
Em um desses planetas, “Perennial”, foi encontrada uma planta cujas sementes possuem propriedades milagrosas – seu consumo interrompia o envelhecimento celular. A planta foi chamada de “Fonte da Juventude”. Muitas tentativas foram feitas para isolar a substância responsável por esse efeito, mas não houve sucesso. Também se tentou multiplicar as sementes e fazer grandes plantações na Terra e na própria Perennial, mas a produtividade foi baixa e não foi observado o efeito rejuvenescedor das sementes da planta selvagem. Restava apenas uma alternativa: coletar as sementes do ambiente natural, mas havia um grande problema. Os bilhões de habitantes da Terra e os milhões de humanos que viviam em outros planetas desejavam consumir a semente e viver por toda a eternidade. Após muito debate na sede das Nações Unidas em Nova York, foi definida a quantidade anual de sementes a ser coletada para evitar a extinção da fonte da juventude. Uma espécie de loteria foi criada para determinar quem seriam os felizardos a receber pequenas quantidades de sementes.
Quando se iniciou a coleta de sementes, surgiram as primeiras dificuldades. O ambiente não era amistoso aos humanos. Havia animais selvagens, plantas venenosas, novas doenças transmitidas por animais parecidos com os insetos terráqueos.
Como não havia como mecanizar essa atividade, alguém teve a ideia de usar uma espécie muito dócil de Arboreal, o planeta das árvores gigantes. Os kwasha-kwashas, ou simplesmente kwashas, pareciam com lêmures, mas eram mais altos. Um macho adulto, por exemplo, media 1,40 metros.
Lêmure
Um grupo de kwashas foi levado para Perennial com o objetivo de analisar a viabilidade de utilizá-los na coleta das sementes da fonte da juventude. Os resultados foram excelentes e se decidiu transferir um quarto da população dos simpáticos lêmures gigantes de Arboreal para Perennial.
No trajeto entre os dois planetas, muitos kwashas entraram em profunda depressão; um em cada dez morreu. Ao chegarem a Perennial, não encontraram boas condições de alojamento, e as florestas eram diferentes das de seu planeta natal. Também não havia alimento na quantidade e qualidade necessárias.
A adaptação foi difícil, mas, após alguns meses, os kwashas começaram a acostumar-se ao novo ambiente. A coleta das sementes era uma atividade árdua e perigosa, pois as plantas cresciam em áreas de difícil acesso. Os kwashas, contudo, demonstraram grande habilidade e eficiência na tarefa, superando as expectativas iniciais. Com o tempo, a demanda pelas sementes aumentou significativamente, e a pressão sobre os kwashas intensificou-se.
Não havia tempo a perder, o envio de sementes da fonte da juventude estava muito atrasado e apenas uma remessa fora despachada à Terra. Desta vez, não houve o mesmo cuidado que se teve com o primeiro grupo de kwashas. A situação estava prestes a atingir um ponto crítico que mudaria para sempre a relação entre humanos e kwashas. Eles foram expostos a longas jornadas de trabalho, com pouca água e comida. Quando os responsáveis por supervisionar o trabalho perceberam que os kwashas estavam comendo a fonte da juventude, espancaram e castigaram brutalmente os animais. Alguns não resistiram ao cansaço, aos ferimentos e morreram. Seus corpos ficaram atirados no meio da floresta.
A produção da fonte da juventude aumentou exponencialmente, atingindo finalmente a meta. Os kwashas não aguentavam mais os maus tratos e tentavam fugir. Para evitar perda expressiva de mão de obra, tornozeleiras com localizadores e máquinas de choque foram colocadas em todos kwashas. Algumas pessoas da Terra, de Arboreal e de Perennial se revoltaram com aquela forma antiética de tratamento a seres sencientes, mas eram chamados de loucos, idiotas ou românticos. A maioria das pessoas falava:
– O que é mais importante, a vida de uma pessoa ou de um kwasha? Você deixaria sua mãe morrer para salvar um kwasha?
A própria Igreja definiu que os kwashas não eram humanos e que seriam os instrumentos que Deus nos presenteou para coletar a fonte da juventude. Só se deveria cuidar para não castigar excessivamente os animais a ponto de mutilá-los ou matá-los.
Os interesses econômicos prevaleceram. E a Escravidão, que estava banida na Terra, ressurgia com toda força em Perennial.
Tenho fama de estar sempre de bom humor, mas quem convive mais diretamente comigo sabe que isto não é verdade. Tenho meus momentos de rabugice, aliás, supervalorizados pelos meus irmãos, mas não sou como os personagens vividos por Walter Matthau!
Walter Matthau
No ano passado, li uma reportagem sobre o inglês Malcolm Myatt, ele sofreu um AVC há dez anos. Depois de meses de tratamento hospitalar e fisioterapia, Malcolm recuperou-se fisicamente, mas algumas coisas mudaram. Sua memória recente foi afetada, ele recorda-se perfeitamente do que ocorreu há vinte anos, mas não se lembra dos acontecimentos da semana passada. A habilidade de comportar-se de acordo com a situação também foi irreversivelmente prejudicada, agora ele sempre diz o que pensa, gerando às vezes embaraços. E, acima de tudo, ele não sente mais tristeza, passa os dias rindo de tudo.
Malcolm Myatt com sua esposa Kath
Sua esposa Kath teve que adaptar-se a esta nova rotina, admite que as questões da memória e da inconveniência causam alguns problemas, mas, em relação às risadas do marido, sua avaliação é totalmente diferente:
– Ele é muito infantil agora. Quando ele começa a rir, todo mundo na sala ri também. Ele alegra qualquer ambiente, todo mundo sente falta quando ele não está.
A palavra “infantil” é muito importante na resposta da esposa de Malcolm. As crianças riem de tudo e têm o assombro da descoberta. Nós adultos temos vergonha de ter estes comportamentos. Afinal quem já não ouviu a expressão:
– Já está na hora de ser mais sério!
O que quer dizer “ser mais sério”? Perder o bom humor? Ser carrancudo?
Assista ao vídeo abaixo e comprove como rir é contagioso.
A neurociência explica que temos os chamados “neurônios espelho”, localizados em duas áreas do cérebro, uma das quais é envolvida diretamente no desenvolvimento da linguagem, onde a repetição é muito útil. Voltando para as risadas, o que seria melhor ver as pessoas imitando rabugices ou gostosas gargalhadas?
Vamos seguir aquela expressão “sorria e o mundo inteiro vai sorrir com você”!
Em 2014, completará 25 anos da publicação do polêmico ensaio “The End of History?” do cientista político americano Francis Fukuyama na revista National Interest. Depois, no final daquele ano, aconteceu a queda do Muro de Berlim, o que levou muita gente a afirmar que a História havia terminado, porque a democracia liberal triunfara e não surgiria outro sistema para disputar a hegemonia, como foram os casos do fascismo e do socialismo no século XX.
Francis Fukuyama
No último parágrafo deste ensaio, Fukuyama fala do fim das disputas ideológicas e da “estagnação” que tomará conta da humanidade após o fim da História:
– “O fim da história será um momento muito triste. A luta pelo reconhecimento, a vontade de arriscar a própria vida por um objetivo puramente abstrato, a luta ideológica mundial que suscitou ousadia, coragem, imaginação e idealismo, será substituída pelo cálculo econômico, pela solução interminável de problemas técnicos, por preocupações ambientais, e pela satisfação de exigências sofisticadas dos consumidores. No período pós-histórico não haverá nem arte nem filosofia, apenas a guarda perpétua do museu da história humana. Eu posso sentir em mim mesmo, e ver nos outros ao meu redor, uma nostalgia poderosa para o momento em que a história existia. Essa nostalgia, de fato, continuará a alimentar competição e conflito, mesmo no mundo pós-histórico por algum tempo. Apesar de eu reconhecer a sua inevitabilidade, eu tenho os sentimentos mais ambivalentes para a civilização que foi criado na Europa desde 1945, com suas ramificações pelo Atlântico Norte e Ásia. Talvez esta perspectiva de séculos de tédio no final da história servirá para iniciar a história mais uma vez.”
Para começar, não acredito no fim da arte ou da filosofia e prefiro a guerra trancafiada no Musée de l’Armée de Paris. Você pode acessar a íntegra do ensaio através do link abaixo.
Em 1992, Fukuyama lançou o livro “The End of History and the Last Man”, onde desenvolveu melhor os pressupostos de seu ensaio de 1989. Com o fim da Guerra Fria devido ao dilaceramento do bloco socialista, a democracia liberal tornou-se, segundo ele, a forma final de governo para todas as nações. Não poderia haver progressão da democracia liberal para um sistema alternativo. Como a História deve ser vista como um processo evolutivo, poderíamos concluir que a História chegou ao fim, mesmo que eventos ainda ocorram.
Não acredito que esta seria uma boa definição do “fim da História”. Atualmente temos uma série de revoluções acontecendo de forma pacífica no mundo. Estamos entrando em uma era de informação, nunca as pessoas tiveram informação com a abundância de hoje. Figuras como Assis Chateaubriand, o poderoso dono dos Diários Associados entre as décadas de 40 e 60, ou Roberto Marinho, dono das Organizações Globo que chegou ao auge da sua influência entre as décadas de 60 e 90, teriam hoje como principal limitador a Internet. Qualquer um pode dar sua versão dos fatos ou publicar fotos e documentos comprometedores que derrubam versões da grande imprensa.
Assis Chateaubriand (esq.) e Roberto Marinho (dir.)
A tecnologia, em todas as áreas, avança e sinaliza um futuro de maior longevidade e abundância. A biotecnologia é outra revolução deste século. Fukuyama demonstrava pessimismo sobre o futuro da humanidade devido à incapacidade humana de controlar a tecnologia. Em minha opinião, as discussões éticas acontecem depois do desenvolvimento tecnológico, o que evidentemente pode causar sérios problemas, mas dificilmente ocorrerão problemas irreversíveis. Os erros fazem parte do processo de aprendizado.
Voltando para o “fim da História”, o capitalismo, o neoliberalismo e a globalização atacam em duas frentes para garantir a manutenção da sua expansão:
– estímulo ao consumismo das populações mais ricas;
– busca e desenvolvimento de novos mercados.
Atualmente pode-se citar os países pobres ou emergentes da África, Ásia, América Latina e do próprio leste europeu como exemplos destes novos mercados-alvo da globalização. Há quase dois anos escrevi o artigo “Malditas Multinacionais”, onde faço uma análise do binômio lucro e risco. Na África, por exemplo, as instituições dos países estão ficando mais estáveis, atraindo novos investimentos, porque os riscos estão menores ou, pelo menos, administráveis. Como consequência, há uma melhoria considerável nos padrões sociais destes países. O número de filhos por casal cai, o crescimento demográfico declina e a expansão econômica perde velocidade. Outros novos mercados serão procurados e o ciclo se repete.
Conforme minha visão, o “Fim da História” acontecerá quando houver igualdade entre as pessoas e povos. Isto não significa que não existirão pessoas e povos mais ricos ou mais pobres, mas todos terão liberdade e acesso à alimentação de qualidade, moradia digna, saúde e educação. Continuará a haver mobilidade interna entre pessoas e povos, mas isto não será o suficiente para estimular o crescimento da atividade econômica. Assim o neoliberalismo e a globalização perderão fôlego. O que vai acontecer em um mundo com redução de população, com fontes de energia alternativas baratas e confiáveis, com abundância de alimentos de qualidade, onde não será preciso trabalhar mais do que 20 ou 24 horas semanais?
Talvez só exista uma alternativa para o capitalismo, a expansão espacial – a conquista e colonização de novos planetas. Neste caso, se tornará realidade aquela frase do seriado de TV “Jornada nas Estrelas” (“Star Trek” no original em inglês):
– “Espaço – a fronteira final”.
Para os fãs da série, grupo no qual me incluo, matem ou alimentem a saudade, assistindo a abertura original da segunda temporada.
No meu último check-up, os resultados de modo geral foram bons apesar das medições da pressão arterial mais altas do que o normal. Existia ainda a possibilidade de ser a chamada “hipertensão do avental branco”, onde a pressão arterial aumenta consideravelmente quando é medida dentro de um consultório médico.
Para tirar a dúvida, o cardiologista do Sírio Libanês pediu que eu fizesse o MAPA (monitorização ambulatorial da pressão arterial). Neste exame, a pressão arterial é medida a cada 20 minutos, durante 24 horas. Você pode imaginar com é desagradável ficar um dia com aquela braçadeira inflando até quase esmagar seu braço! Na cintura, você carrega uma caixinha responsável por enviar o ar para a braçadeira, medir e arquivar os resultados. O dia deveria ser o mais normal possível: dirigi no complicado trânsito paulistano, trabalhei, participei de reuniões, almocei num restaurante próximo ao escritório… De noite, tentei dormir normalmente, mas não foi muito fácil. O resultado final confirmou a suspeita inicial, eu estou ou sou hipertenso.
Aparelho para o MAPA
Na sequência, fui a um cardiologista clínico próximo da nossa nova casa. Ele conversou comigo, me examinou, auscultou coração e pulmões, mediu pressão e viu os resultados dos exames de imagem e laboratoriais do check-up. No final, fez um comentário que, apesar de elogioso, não me deixou muito feliz:
– Seus exames e condição física são muito bons para alguém da tua idade.
Este é aquele momento no qual lembramos que não somos mais garotões. É o peso dos 47 anos de vida…
Fiz uma pergunta que meu médico disse que todos os diagnosticados como hipertensos fazem:
– Por que eu fiquei hipertenso de uma hora para outra? Minha pressão foi sempre 12 por 8.
Ele sorriu e disse que todos fazem a mesma pergunta e comentou que 90 a 95% dos casos de hipertensão não têm uma causa claramente definida. Citou alguns exemplos, como os casos ligados à obesidade, mas meus 6 quilos de sobrepeso não se enquadravam nesta justificativa. Parece que a genética (pais hipertensos) me levou para este caminho…
Na sequência, perguntei se havia chance de eu deixar de ser hipertenso e não precisar mais tomar remédio. Ele disse que mais de 90% daqueles que se tornaram hipertensos, sem uma causa clara definida, continuavam consumindo remédios até o final da vida. Má notícia…
Como ouvimos toda hora nos meios de comunicação, mas normalmente não prestamos a atenção devida, a hipertensão é uma doença crônica. Hoje não tem cura e, se não for controlada com dieta sem sal e medicamentos, vai danificando aos poucos órgãos importantes do nosso organismo. No meu caso, o corpo se adaptou ao novo patamar de pressão e eu não sentia sintomas como dores de cabeça ou tonturas. É exatamente aí que mora o perigo! Em um “belo” dia, acontece um infarto ou um AVC, por isso devemos controlar e monitorar nossa pressão arterial.
Agora recebi o cartão do “Programa Saúde Fácil” do laboratório fabricante do meu remédio para controle da pressão com o qual consigo 50% de desconto e, depois de dois meses, já adquiri o hábito de tomar um comprimido todas as manhãs.
Basicamente temos três opções – morrer jovem, envelhecer doente ou envelhecer com saúde. O melhor é optar pela última alternativa e fazer o melhor possível para atingir este objetivo, sem exageros e sem dramas…
Quem inventou o calendário fez um gol de placa! Imagina se não contássemos os anos e simplesmente tivéssemos uma contagem interminável de dias? Neste caso, 31 de dezembro de 2013 poderia ser o dia 735248 da era cristã… A graça da contagem de anos é a vontade de fazer aquele balanço dos nossos sucessos e fracassos no final de cada período. Como consequência, muitas vezes elaboramos os famosos “propósitos de final de ano”. Infelizmente a maioria destes propósitos não se concretiza e muitos não são, ao menos, perseguidos…
Não é muito fácil analisar com distanciamento suficiente o que fizemos durante um ano. Às vezes é melhor confiar mais na intuição do que na razão. Este ano de 2013, por exemplo, me gerou um turbilhão de sensações, muitas delas antagônicas.
Estes últimos dias me trouxeram vários pensamentos. Por exemplo, há pouco mais de três anos, compramos um terreno com muitas árvores na cidade de Ivoti no Rio Grande do Sul para construir nossa nova casa. Logo depois, mudei de trabalho e havia a iminente possibilidade de mudança de estado. Faz dois anos, fui transferido para a cidade de São Paulo. No segundo semestre deste ano, eu e a Claudia decidimos vender o terreno de Ivoti e comprar uma casa em São Paulo. Esta semana, fomos ao cartório em Ivoti para transferir o terreno ao novo proprietário. Na saída da cidade, eu estava calado e a Claudia perguntou:
– Está se despedindo de Ivoti?
Eu concordei e complementei:
– Talvez a gente nunca mais entre nesta cidade. Estranho que há três anos nós estávamos fazendo planos para morar o resto de nossas vidas aqui. Incrível como as coisas mudam…
No mesmo dia, depois do almoço em Novo Hamburgo, resolvemos ir a um hospital local para que um pediatra examinasse nossa filha caçula, Luiza. Ela já estava há três dias com um pouco de febre, sem se alimentar direito e muito mais chorosa do que seu normal. Nossa espera no hospital foi muito maior do que o esperado devido ao número reduzido de pediatras, ao número elevado de crianças e aos exames laboratoriais complementares que a médica solicitou, incluindo uma análise adicional. Felizmente nossa filha não tinha nada grave, só deveríamos controlar sua febre com paracetamol.
Quando fomos ao restaurante do hospital para fazer um lanche, vimos que havia preparativos para uma cerimônia no jardim em frente da capela. Uma mulher estava vestida de noiva e deduzimos que ela casaria com um paciente. A Claudia me contou depois que o noivo era um doente em estado grave, provavelmente terminal, do setor de oncologia do hospital. Seu leito foi levado até o jardim onde a noiva e um seleto grupo de convidados esperavam por ele. Os convidados pareciam felizes, apesar da situação do noivo, era um pequeno oásis no meio de um deserto de sofrimento, um instante de reconforto. Com certeza não era a felicidade planejada, mas era a possível…
Nossas oito horas de espera no hospital ganharam sua dimensão real, um quase nada!
Passamos a vida planejando o que vamos comprar, em qual posição queremos trabalhar e a renda que teremos, onde passaremos as férias. Os planos parecem centrados no material ou nos modelos de felicidade que a mídia nos apresenta. Neste Natal e final de ano, ao invés de seguir o ícone consumista Papai Noel, deveríamos mergulhar na parte mais escondida do nosso ser e entender o que somos e no que queremos nos transformar. Neste processo, uma frase do Dalai Lama pode ajudar muito:
– “Grande parte do sofrimento é criada por nós mesmos.”