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O Novo Fim da História – A Fonte da Juventude de Perennial (Parte 5)

CONTINUANDO…

Os soldados feridos foram transportados para a Blue Spaceship. A colônia foi cercada e as buscas começaram de casa em casa. Um dos oficiais da força de paz da ONU foi abordado por uma mulher visivelmente nervosa que queria saber o que houve na sede do conselho. O oficial contou que, quando os soldados invadiram o prédio, bombas incendiárias explodiram e todos que estavam dentro morreram. A mulher caiu ajoelhada e começou a chorar e disse que seu marido era um dos seguranças. O oficial consolou-a, mas procurou descobrir mais informações:

– Meus pêsames! Com certeza seu marido não queria estar naquele prédio com apenas mais um colega…

– Não, eu até preferi que ele ficasse lá do que no meio da floresta com os conselheiros e os outros seguranças. Achei que ele e o colega se entregariam e ficaria tudo bem, mas…

– Em qual floresta estão os outros?

– Na floresta da fonte da juventude.

O oficial desejou que a mulher se recuperasse da perda de seu marido e pediu ao soldado, que o acompanhava, a ajudasse no que fosse necessário. Na sequência, despediu-se e contou imediatamente sua descoberta para o líder da operação. A tropa se reuniu e avançou até a floresta.

As sentinelas do lado do conselho de Perennial entraram em combate com os primeiros soldados invasores da floresta. Os dois lados tiveram baixas, mas a força de paz da ONU, mais numerosa e bem treinada, avançou rapidamente até o prédio onde o conselho do planeta estava escondido. Desta vez, os soldados explodiram uma parede lateral para entrar no prédio. Quando chegaram na sala onde estava o conselheiro-mor, um soldado mirou no seu corpo e gritou que ele se entregasse. O conselheiro-mor respondeu à ordem:

– Você quer me levar para a Terra como um troféu? Como a cabeça empalhada de um animal selvagem morto por um caçador em um daqueles antigos safáris na África? Todos nós já estamos mortos!

O soldado assustado disparou sua arma laser contra o peito do conselheiro-mor que, agonizando, apertou o botão do controle que estava na sua mão direita, acionando uma bomba térmica. A temperatura em toda a região da floresta da fonte da juventude superou os 3.000°C. Toda a vida da floresta foi destruída – nenhum humano, kwacha, inseto ou planta resistiu…

“A Apoteose da Guerra” de Vasily Vasilyevich Vereshchagin (1871)

“A Apoteose da Guerra” de Vasily Vasilyevich Vereshchagin (1871)

A notícia gerou uma enorme comoção na Terra, afinal dezenas de pessoas morreram. Além disto, aquela possibilidade de vida eterna foi inviabilizada com a destruição total da floresta da fonte da juventude.

No dia seguinte à tragédia, o secretário-geral convocou a imprensa para um comunicado oficial na sede da ONU. Bilhões de pessoas aguardavam ansiosamente seu pronunciamento. No horário marcado, ele chegou ao plenário lotado, esperou as autoridades e os repórteres acomodarem-se e iniciou seu discurso:

– Há pouco mais de dois anos, uma incrível descoberta encheu a humanidade de esperança. As sementes de uma planta encontrada no planeta Perennial, apelidada de fonte da juventude, interrompia o envelhecimento celular. Foram realizadas inúmeras tentativas de isolamento do princípio ativo, sem sucesso. Também se tentou plantar a fonte da juventude, empregando as mais modernas técnicas da agricultura, mas as plantas resultantes não possuíam as mesmas propriedades. Decidiu-se então coletar suas sementes de forma controlada e distribuir aleatoriamente pela população humana da Terra e das colônias espaciais.

– Os membros do conselho de Perennial sugeriram que fossem empregados para esta tarefa de coleta dóceis animais do planeta Arborea, os kwacha-kwachas. Estas pobres criaturas foram escravizadas e nós permitimos isto devido à cegueira causada pela possibilidade da vida eterna. Será que a vida de um humano vale mais do que a vida de um kwacha?

– Depois os conselheiros de Perennial passaram a desviar as sementes a fim de obter vantagens pessoais. Chegaram ao ponto de sequestrar e manter em cativeiro uma equipe da ONU que foi investigar o caso. Houve intransigência, tanto do conselheiro-mor de Perennial, quanto de minha parte. Todos estavam cegos por causa da fonte da juventude.

– Ao invés de diálogo ou de negociação, se partiu para um confronto sangrento. Eu deveria ter percebido que nossa vantagem poderia acuar os conselheiros de Perennial. Ao sentirem-se sem saída partiram para atos extremos. A floresta onde havia a fonte da juventude foi totalmente destruída por uma bomba acionada pelo conselheiro-mor de Perennial em um momento de completo desespero. Eu errei! Meu erro causou a morte de mais de cem pessoas. Meu erro gerou o genocídio de aproximadamente dois terços da população de kwachas. Meu erro deve ter exterminado inúmeras espécies de plantas e animais que só existiam naquela floresta. Meu erro acabou com a única forma conhecida até agora de paralisar o envelhecimento dos homens.

– Hoje penso que a fonte da juventude pode ter sido um teste que uma Criatura maior deste Universo fez com nós humanos. Ao invés de ouro ou pedras preciosas, foi nos oferecida a vida eterna, mas como não havia o suficiente para todos, não soubemos como compartilhar. Não demostramos solidariedade, nem compaixão! Deixamos aflorar nossos sentimentos mais baixos – a ambição, a ira, a vingança! O sinal de alerta foi a permissão para a escravidão dos kwachas. Nenhuma maravilha pode ser construída sobre as bases da dor e da exploração. Só uns poucos lutaram contra a barbárie cometida contra aqueles animais inocentes. Devemos aprender a lição e não repetir mais estes erros. Espero que o dia de ontem seja lembrado, como a explosão da primeira bomba atômica, em Hiroshima, foi lembrada durante muito tempo, como algo que não deve se repetir.

Hiroshima após ser atingida pela bomba atômica (1945)

Hiroshima após ser atingida pela bomba atômica (1945)

– Finalizo, renunciando ao posto de secretário-geral da ONU. Espero que um ser humano melhor, mais equilibrado me suceda. Estou à disposição para receber a punição que acharem justa. Agradeço a atenção de todos.

A reação de todos que ouviram o pronunciamento do então ex-secretário-geral da ONU foi o de um profundo silêncio. Todos sabiam que ele não era o único culpado, muitos erraram também por omissão. Aquela tragédia serviu, pelo menos, para mostrar que a construção da humanidade ainda não estava completa e que todos deveriam permanecer vigilantes, porque nada poderia justificar as práticas adotadas no célebre caso da “fonte da juventude de Perennial”.

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História Sangrenta – A Fonte da Juventude de Perennial (Parte 4)

CONTINUANDO…

Havia duas proposições a serem votadas pela Assembleia Geral da ONU. A primeira foi levada pelo embaixador de Perennial e pedia a independência do planeta. A segunda foi elaborada pelo próprio secretário-geral e dava 24 horas para a libertação da equipe auditora presa em Perennial e renúncia de todo o conselho do planeta, sob pena de invasão pelas forças de manutenção da paz da ONU, os capacetes azuis.

O secretário-geral expôs todos os fatos ocorridos desde o desvio e contrabando de sementes da fonte da juventude, passando pelo sequestro da equipe de auditoria enviada ao planeta e chegando finalmente à barganha proposta pelo conselheiro-mor de Perennial – libertação da equipe em troca da independência do planeta.

Assembleia Geral da ONU

Assembleia Geral da ONU

Na sequência, ele pediu que o embaixador de Perennial apresentasse suas explicações. Como esperado os circunlóquios do diplomata não convenceram os demais participantes, provavelmente nem ele mesmo acreditou na sua defesa. Os discursos de outros membros da assembleia foram quentes, todos pediam punição exemplar para o conselho de Perennial e, em especial, para seu líder.

Ao ver que o ambiente estava totalmente favorável, o secretário-geral anunciou uma pausa de uma hora para que os diplomatas conversassem com seus respectivos chefes de estado e no reinício dos trabalhos as duas proposições seriam votadas.

Na volta, como já se esperava, a independência de Perennial foi rejeitada por unanimidade e o ultimato do secretário-geral foi aprovado com apenas algumas abstenções e nenhum voto contra. O conselho de segurança da ONU se reuniu na sequência e definiu a estratégia. A tropa partiria no início no início do dia seguinte. Graças a um buraco de minhoca (equivalente a dobra espacial da série “Jornada nas Estrelas”) era possível vencer os anos-luz que separam a Terra de Perennial em poucas horas. A nave espacial , “Blue Spaceship”, das forças de manutenção da paz da ONU ficaria em órbita do planeta até completar as 24 horas do prazo da resolução. Se as condições não fossem atendidas, a sede do conselho seria invadida.

Forças de manutenção da paz da ONU, os capacetes azuis.

Forças de manutenção da paz da ONU, os capacetes azuis.

Tudo foi executado, conforme o planejado. Quando faltava apenas uma hora, o secretário-geral da ONU enviou o ultimato para o conselheiro-mor e avisou a população do planeta:

– Caros irmãos de Perennial! O conselho deste planeta agiu de forma totalmente antiética – roubou, mentiu e acabou sequestrando funcionários da ONU que cumpriam missão oficial no planeta. Se dentro de uma hora, seu conselho não libertar os funcionários e renunciar pacificamente, invadiremos a sede do conselho. Não há motivos para pânico, peço que todos os cidadãos permaneçam em suas casas. Ninguém será ferido.

Óbvio que o aviso gerou uma grande correria na colônia, mas vinte minutos antes do fim do prazo as ruas estavam completamente desertas. O conselho e quase toda a equipe segurança de Perennial esperavam o desenrolar das ações no QG improvisado na floresta da fonte da juventude. Apenas dois seguranças ficaram na sede do conselho para vigiar os prisioneiros e dar o alerta da chegada dos capacetes azuis na colônia.

No horário marcado, a invasão do planeta foi iniciada, a sede do conselho foi cercada e o líder da operação exigiu que os reféns fossem libertados e todos os demais se entregassem. Os seguranças, após avisar o conselheiro-mor, libertaram todos os prisioneiros com exceção do delegado e seu assistente direto.

O líder da operação deu um prazo de 30 minutos para que os dois reféns fossem libertados, senão o prédio seria invadido. No final do prazo, os seguranças de Perennial acionaram suas armas de laser contra os capacetes azuis. Alguns soldados ficaram gravemente feridos. A porta do prédio foi arrombada pelos soldados, mas bombas incendiárias instaladas junto às portas foram acionadas e toda instalação ficou em chamas rapidamente.

O resultado foi trágico, sete mortes – três soldados capacetes azuis, dois seguranças do conselho de Perennial, o delegado da ONU e seu assistente. A Terra, que vivia um momento de paz, viu a guerra com seu horror ressurgir em uma de suas colônias espaciais.

O conselheiro-mor, ao ser informado do resultado da primeira batalha, reuniu os demais membros do conselho:

– Iremos até o fim! Mostraremos a estes canalhas que não temos medo! Quem não estiver preparado para tudo, pode sair agora.

Ninguém foi embora, vários gritaram frases de efeito, mas, no fundo, todos sabiam que dificilmente sairiam vivos daquele lugar.

O secretário-geral ficou revoltado com a notícia das mortes, em especial de seu amigo, o delegado. Suas ordens foram claras:

– A partir de agora será olho por olho, dente por dente! Descubram onde este verme está escondido e capturem-no junto com toda a sua corja. Se não for possível trazê-los vivos, não importa mais, mate-os!

A justiça não era mais importante, só a vingança…

A Execução dos Defensores de Madrid [Francisco Goya]

A Execução dos Defensores de Madrid  de Francisco Goya

CONTINUA…

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História Déjà Vu – A Fonte da Juventude de Perennial (Parte 3)

CONTINUANDO…

O conselheiro-mor de Perennial conversou sobre a situação com seu par de Aquamundi na sala de reuniões virtual onde eram representados por seus hologramas. No final, o líder de Aquamundi foi muito honesto e aconselhou-o a buscar uma solução negociada com a Terra:

– A colônia em nosso planeta ainda é relativamente recente. Precisamos dos recursos e apoio da Terra, não resistiríamos a um bloqueio econômico. Vocês têm a fonte da juventude, uma moeda de troca muito interessante, não comecem uma guerra, onde todos sempre perdem.

O conselheiro-mor de Perennial, apesar de ficar contrariado com o resultado da reunião e principalmente com o conselho final, agradeceu o tempo e a atenção dispensada. Na sequência, finalizou a reunião e pediu para contatar o conselheiro-mor de Arborea.

Reunião virtual com hologramas

Reunião virtual com hologramas

A reunião com o conselheiro-mor de Arborea teve outro tom, porque ele estava claramente dividido. Uma verba interessante estava entrando no planeta através do tráfico de kwachas, mas, por outro lado, a maior parte da população era formada por cientistas que pesquisavam fitoterápicos oriundos da enorme biodiversidade do planeta. Se seu planeta se alinhasse com Perennial, a torneira dos recursos terráqueos para as pesquisas seria lacrada. Desde a descoberta da fonte da juventude, alguns projetos com alta chance de aprovação foram adiados. Se a Terra não tivesse mais acesso à fonte da juventude de Perennial, verbas generosas poderiam jorrar em Arborea para premiar sua fidelidade e acelerar a busca por novas alternativas na área de saúde e longevidade.

O conselheiro-mor de Perennial prometeu grandes vantagens para Arborea como parceiro preferencial, incluindo generosas quantidades de sementes da fonte da juventude. Ao ser questionado se ficaria ao lado de Perennial para a criação de uma nova federação de planetas independentes, o conselheiro-mor de Arborea foi reticente:

– Acredito que a proposta é muito interessante, mas não estou 100% certo que este é o melhor momento para implementá-la. Talvez possamos ganhar mais autonomia, negociando com a Terra… Vou pedir ao nosso conselho analisar as alternativas o mais rápido possível, como a situação exige, e retornarei com nossa decisão. Agradeço imensamente o amável convite.

O conselheiro-mor de Perennial sentiu que estavam sozinhos. O que fazer? Ele havia avançado demais ao prender o delegado da ONU e sua equipe. Mesmo que a negociação trouxesse vantagens para seu planeta, ele cairia em desgraça.

Seu assessor avisou que o secretário-geral da ONU estava esperando por ele em uma sala de reuniões virtual para conversarem sobre a delegação desaparecida. Ele pediu que a conexão fosse estabelecida. O secretário-geral fez uma saudação protocolar e perguntou como estavam as buscas à sua equipe. O conselheiro-mor respondeu que apesar da grande mobilização, os progressos foram pequenos, ainda não havia pistas. A resposta do secretário-geral foi dura:

– Não esperava outra resposta! Qual é a próxima mentira? Não somos tolos ou ingênuos! Vocês inventaram histórias sobre a fonte da juventude e nossa equipe desmascarou a farsa que vocês criaram. Eles foram mortos ou sequestrados para não revelar tudo que descobriram? Exijo a verdade!

– Nenhum representante da Terra tem o direito de exigir algo de um cidadão de Perennial. A era do domínio e exploração acabou! O povo de Perennial agora está livre! Se quiserem seus espiões de volta, reconheçam nossa independência.

– Não negociamos com chantagistas. Perennial é uma colônia terráquea e permanecerá com este status. Liberte minha equipe e se entregue imediatamente. Você terá um julgamento justo. Caso contrário, seremos obrigados a empregar a força!

– Se esta é a sua palavra final, nosso embaixador entrará imediatamente com o pedido de independência de Perennial. Se tentarem invadir nosso planeta, destruiremos a fonte da juventude.

– Convocarei uma reunião de emergência para hoje e teremos a decisão sobre o futuro de Perennial até o fim do dia. Adeus!

O conselho esperava o resultado das reuniões do conselheiro-mor para saber qual plano seria adotado. Ele entrou na sala e foi direto ao assunto:

– A guerra é inevitável! Estamos sozinhos e o secretário-geral da ONU já sabe de tudo. Seguiremos o plano “solução final”. Os dispositivos explosivos já foram instalados na área de extração de sementes da fonte da juventude. Se tentarem invadir este perímetro, detonaremos as bombas. Os prédios administrativos naquela área já estão preparados para ser nosso quartel general. Iremos agora para lá!

Como foi visto muitas vezes na história da humanidade, quantas guerras poderiam ser evitadas, mas os interesses de uma minoria combinados com o orgulho de líderes inescrupulosos impediram que houvesse negociações benéficas para todos os lados? No final, o prejuízo sempre foi repartido por todos, principalmente pelos menos favorecidos. Fica aquela sensação déjà vu…

Guernica de Pablo Picasso

Guernica de Pablo Picasso

CONTINUA…

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A “Evolução” da História – A Fonte da Juventude de Perennial (Parte 2)

CONTINUANDO…

Após um ano de coleta de sementes, a população humana de Perennial começou a ficar descontente com aquela situação. Afinal estavam enviando toneladas de sementes da fonte da juventude para a Terra e não recebiam praticamente nada em troca. Neste período, apenas dois moradores do planeta foram sorteados na loteria. Por outro lado, o ônus de gerenciar toda a operação, incluindo os kwashas, ficou sobre os ombros de Perennial.

A partir de certo momento, a produção começou a declinar. O secretário-geral da ONU quis entender o que estava acontecendo e o conselho de Perennial deu uma série de explicações:

– A produtividade das fontes da juventude caiu – cada planta estava gerando menos sementes.

– Os kwachas estavam mais preguiçosos e como não se podia exagerar nos castigos, eles não estavam mais temendo os humanos.

– Havia uma praga de insetos noturnos que forçava a antecipação do fim das atividades diárias.

O secretário pediu um plano de ação e, sem avisar o conselho de Perennial, enviou um delegado com um grupo de auditores ao planeta para investigar com maior profundidade os fatos.

Quando o grupo chegou a Perennial, foi muito fácil destruir a versão do conselho local. Não havia nada errado com as plantas. Os kwachas continuavam trabalhando da mesma forma e um novo contingente chegara de Arborea há um mês. E a praga de insetos noturnos era mais uma mentira. Na verdade, parte da produção de sementes foi desviada e contrabandeada. Uma parte serviu de pagamento aos mercadores de kwachas de Arborea e a maior parte foi vendida para as pessoas ricas que não foram sorteadas na loteria.

Mercado de Escravos

Mercado de Escravos de Johann Moritz Rugendas

O delegado se reuniu com o conselho para apresentar suas conclusões. No final, o conselheiro-mor deu ordem para seu serviço de segurança prender a comitiva da Terra e declarou a independência de Perennial:

– Basta de exploração! Basta de humilhações! O tempo de subserviência à Terra acabou hoje! A partir de agora somos um planeta independente e se os habitantes da Terra quiserem as sementes da fonte da juventude, deverão pagar o preço que nós determinarmos. Prendam estes canalhas e cortem toda a comunicação deles com a Terra!

Chegou a hora do motim, da revolução. Algo que aconteceu inúmeras vezes na história do homem na Terra e já estava meio esquecido por seus habitantes.

Revolução Francesa

“A Liberdade Guiando o Povo” de Eugène Delacroix.

Claro que o delegado havia enviado um relatório parcial da investigação para a ONU. Quando o secretário-geral leu o documento, tentou contatar imediatamente seu subordinado, mas não obteve sucesso. Então decidiu chamar o embaixador de Perennial na ONU para obter esclarecimentos. Como todo bom diplomata, ele disse que deveria ser engano e que, talvez, o delegado e sua comitiva estivessem perdidos na floresta do planeta. E para concluir disse:

– Entrarei imediatamente em contato com as autoridades de Perennial. Tenho certeza que todos os esforços serão envidados para encontrar a delegação enviada por Vossa Excelência ao nosso modesto planeta.

O secretário geral não acreditou naquela história e temia que o pior tivesse acontecido com seu pessoal. Não havia tempo a perder!

Em Perennial, o conselho do planeta decidiu apoiar a ruptura dos vínculos com a Terra. Por outro lado, acharam que não poderiam ficar sozinhos e decidiram fazer uma aliança com os dois planetas mais próximos – Arborea e Aquamundi. Assim, pelo menos, estes planetas não serviriam de base terráquea em caso de ataque das tropas da ONU.

O conflito parecia inevitável, desta vez o motivo não era ideológico, nem reservas de petróleo ou metais nobres, nem mesmo territórios. Ironicamente as pessoas estavam dispostas a morrer para conseguir a semente que prolongaria suas vidas.

Guerra por petróleo

Guerra por petróleo

CONTINUA…

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O que Eike Batista e Napoleão Bonaparte Têm em Comum?

Napoleão Bonaparte, sem dúvida, é uma das figuras mais polêmicas da história da humanidade. Como pude perceber recentemente no Hôtel des Invalides em Paris, o culto à memória do Imperador da França continua vivo. Sua tumba majestosa é cercada por uma série de painéis que apresentam suas contribuições para a França, começando pela centralização administrativa e pacificação interna do país, passando pelo chamado Código Napoleônico para o direito civil em vigor até hoje, chegando às inúmeras benfeitorias implementadas no país, especialmente em Paris. Abaixo você pode ver um destes painéis, onde o baixinho Napoleão parece um daqueles heróis gregos ou romanos…

Napoleão_painel_tumba

Napoleão tinha o sonho de acabar com as tradicionais monarquias europeias. Teve sucesso em várias batalhas, mesmo naquelas em que seu exército estava com inferioridade numérica, o que aumentou sua fama de grande estrategista militar, um gênio invencível. Em junho de 1812, as tropas francesas invadiram a Rússia e após cinco meses se retiraram, deixando para trás aproximadamente 550 mil soldados mortos. Após esta grande derrota, os povos das áreas conquistadas por Napoleão se revoltaram e, em março de 1814, atacaram Paris. Napoleão abdicou do trono de imperador, foi preso e enviado para o exílio na ilha de Elba, na costa italiana. No Museu do Exército (Musée de l’Armée), vi estes quadros que mostram um Napoleão derrotado, muito diferente das telas que estamos acostumados.

Napoleão montado no seu cavalo após prder uma batalha (quadro de Jean-Louis Ernest Meissonier)

Napoleão montado no seu cavalo após perder uma batalha (quadro de Jean-Louis Ernest Meissonier)

Napoleão em Fontainebeau 31-03-1814 (quadro de Paul Delaroche)

Napoleão em Fontainebeau 31-03-1814 (quadro de Paul Delaroche)

Um ano depois, ele fugiu de Elba, voltou para França, foi novamente aclamado imperador. Desta vez seu reinado durou apenas 100 dias, quando foi derrotado na Batalha de Waterloo na Bélgica. Foi novamente preso e enviado desta vez para a Ilha de Santa Helena, distante 2 mil km do sudoeste da África, onde morreu seis anos depois.

Há duas semanas, o semanário econômico Businessweek da Bloomberg, um dos principais provedores de informação para o mercado financeiro mundial, botou na sua capa o brasileiro Eike Batista. A manchete era muito desabonadora – “como perder uma fortuna de 34,5 bilhões de dólares em um ano”. Veja a capa da revista abaixo.

Eike_Batista_Businessweek

Eike Batista é o empresário brasileiro que criou há alguns anos o grupo EBX com atuação em diversos setores como petróleo, carvão mineral, energia, mineração, logística e indústria naval. Para expandir agressivamente seus negócios, captou recursos , entre 2004 e 2012, através de uma série de IPO’s (oferta pública inicial) no mercado acionário brasileiro. A estratégia foi um sucesso e ele se tornou bilionário. Naquele momento, ele passou a ter como meta ser o homem mais rico do mundo. No segundo semestre do ano passado, o mercado começou a desconfiar da capacidade de Eike cumprir suas promessas e as cotações das ações das suas empresas começaram a cair. Em 2013, ficou claro que estas promessas não seriam cumpridas. Para evitar a bancarrota do seu grupo, ele começou a se desfazer do seu patrimônio, já vendeu controle de algumas de suas empresas e a OGX, sua petrolífera, corre grande risco de entrar em concordata. Eike que já foi o sétimo no ranking dos mais ricos do mundo, atualmente deixou de ser bilionário.

Parece que tanto Eike Batista, como Napoleão Bonaparte, guardadas as devidas proporções, sofreram do mesmo mal. Após um período de sucesso, passaram a acreditar que podiam fazer qualquer coisa. Tudo daria certo! Napoleão quis conquistar a Europa e Eike quis ser o homem mais rico do mundo. Napoleão achou que era possível conquistar a Rússia durante seu curto verão e Eike achou que era possível gerenciar a implantação simultânea de vários megaprojetos em poucos anos. O orgulho, em relação às suas capacidades, os fez minimizarem os riscos de insucesso. Assim, ao invés de consolidarem suas posições, eles arriscaram e perderam praticamente tudo o que tinham.

Antes de jogar pedras, temos que compreender que esta é uma armadilha fácil de cair. Quando nos acostumamos apenas com vitórias, passamos a sentir orgulho da nossa capacidade e facilmente podemos nos tornar arrogantes. Neste momento, surdez e cegueira nos fazem ouvir e ver apenas o que apoia nossos pensamentos. Está tudo pronto para o fracasso, a queda é iminente! Cada um de nós deve ter inúmeros exemplos destes casos. Devemos ficar atentos aos sinais que nos cercam, porque isto acontece em todas as esferas de nossas vidas – profissional, casamento, família…

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Pra Não Dizer que Não Falei das Flores

Há pouco mais de dois anos, eu e a Claudia passamos nossas férias em Paris. Logo após a visita ao Museu Rodin, nos dirigimos ao Hotel dos Inválidos que fica ao lado. Exploramos apenas o lado externo, porque a Claudia não quis entrar para ver o Museu do Exército ou a tumba de Napoleão Bonaparte. Eu aceitei a decisão e falei para ela que na primeira vez que eu estivesse sozinho em Paris faria esta visita.

Hotel dos Inválidos - Paris

Hotel dos Inválidos – Paris

O dia chegou! Estou fazendo um treinamento esta semana em Fontainebleau e aproveitei para passar o final de semana passado em Paris. Cheguei ao “Les Invalides” no final da manhã de domingo e comecei pelo museu que conta a história das guerras em que o exército francês participou no final do século XIX, Primeira e Segunda Guerras Mundiais. Na sequência visitei a tumba de Napoleão Bonaparte, ou Napoleão I. Depois passei pelas alas dedicadas ao exército francês e suas guerras desde a monarquia, passando pela Revolução Francesa, por Napoleão, pela restauração da monarquia, por uma nova tentativa de república, por uma nova tentativa de império com Napoleão III e enfim a chamada Terceira República.

Tumba de Napoleão Bonaparte

Tumba de Napoleão Bonaparte

Foi muito deprimente ver todo o esforço e dispêndio de recursos dedicados para a guerra, onde o resultado final é sempre mortes, destruição e sofrimento. E todas as histórias, neste museu, eram basicamente variações sobre o mesmo tema:

– o líder de um país queria mais poder e resolvia invadir o vizinho. Não ficava satisfeito e invadia seu novo vizinho, mas ainda queria mais, e invadia mais um e continuava até perder feio alguma batalha. Depois desta derrota, várias outras viriam até a destruição do país e a destituição do seu antigo líder.

– os vencedores finais, que foram originalmente agredidos, vingavam-se através de tratados de paz que levavam humilhação e miséria aos perdedores.

– os países perdedores, depois de algum tempo tentando sair do buraco, ficavam instáveis social, econômica e politicamente. Nesta hora, aparecia um líder carismático que prometia a solução de todos os problemas. Foi assim após a Revolução Francesa com Napoleão ou, na Alemanha, após a Primeira Guerra Mundial com Hitler.

– estes líderes faziam muita coisa boa, como resultado, eles aumentavam seu poder até ficar absoluto, mas, sob o pretexto de se defender dos vizinhos ou vingar-se dos vencedores da guerra anterior, iniciavam novas guerras e o ciclo se repetia.

Incrível como a espécie humana que cria maravilhosas obras de arte, desenvolve técnicas para curar todas as doenças, decifra segredos das ciências, faz grandes obras de engenharia, também faz a guerra, o horror, a antítese de toda a beleza. Na Primeira Guerra Mundial, milhares morreram dentro de trincheiras, por ação de bombas ou gases tóxicos. No final da Segunda Guerra, os americanos testaram um novo armamento, a bomba atômica, com destruição total de Hiroshima e Nagasaki.

Bomba Atômica lançada em Nagasaki (06-08-1945)

Bomba Atômica lançada em Nagasaki  (06-08-1945)

Shakespeare apresenta, em suas peças, várias histórias de guerra que mostram a futilidade dos motivos da guerra. Na peça histórica sobre o rei da Inglaterra Henrique V, ele inicia uma guerra contra a França por acreditar que tem direito ao trono daquele país. Em Hamlet, um capitão do exército norueguês, em nome de um príncipe, pede permissão para uma tropa de seu exército cruzar o território dinamarquês. Hamlet surpreende-se quando recebe a explicação que o motivo da guerra é um pequeno território sem valor na Polônia. Quando o capitão do exército norueguês sai, ele tem um de seus monólogos e, em certo momento, define bem aquela guerra:

Vejo a morte iminente de vinte mil homens que, por um capricho, uma ilusão de glória, caminham para a cova como quem vai pro leito, combatendo por um terreno no qual não há espaço para lutarem todos; nem dá tumba suficiente pra esconder os mortos…

A estupidez dos motivos da guerra persiste até hoje, pode ser petróleo, ideologia, religião, etnia, um pedaço de terra qualquer…

Mas afinal qual é a relação entre o título deste artigo e seu conteúdo? O que flores têm a ver com a guerra? Pela manhã, antes de pegar o metrô para “Les Invalides”, passeei no “Jardin des Plantes”, um daqueles lugares com energia boa que revigoram qualquer um. Talvez por isso eu não saí de “Les Invalides” deprimido, porque o ser humano que cria um lugar como “Jardin des Plantes”, não pode soltar bombas ou gases tóxicos em cima dos outros seres humanos. E aí estão algumas das belas flores que fotografei na manhã deste domingo, pra não dizer que não falei das flores…

Flores_Jardin-des-Plantes

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