As Lições de Alex Ferguson

No mês de agosto, começa um dos principais campeonatos nacionais de futebol da Europa, a Premier League inglesa. Uma das maiores novidades do início desta nova temporada é uma ausência. Alex Ferguson, após quase 27 anos como treinador do Manchester United, se aposentou e não estará no banco de reservas dos Red Devils.

Alex Ferguson

Alex Ferguson

Os números de Ferguson no Manchester são impressionantes. Foram 1.500 jogos, com 895 vitórias, 13 títulos da Premier League, 5 Copas da Inglaterra, 4 Copas da Liga Inglesa, duas Champions League, uma Copa Intercontinental e uma Copa do Mundo Interclubes.

Muitas histórias já foram contadas sobre o ex-treinador do Manchester United. Uma das mais “interessantes” é sobre o controle da disciplina e respeito no grupo de jogadores, aspecto que Ferguson considerava fundamental. Ele acreditava que não havia espaço para broncas durante os treinamentos, mas no vestiário era diferente. O atacante galês Mark Hughes, o “Sparky”, que foi comandado pelo treinador entre 1988 e 1995, criou a expressão “tratamento do secador de cabelo” (hairdryer treatment) para as temíveis brocas com altos decibéis proferidas pelo seu chefe no Manchester United. Ferguson ficava cara a cara com seu jogador e gritava, seu comandado acabava com o cabelo atrás da cabeça (como se usasse um secador de cabelo).

Mark Hughes, o "Sparky"

Mark Hughes, o “Sparky”

Sobre seus métodos de disciplina Ferguson comenta:

Você não pode sempre vir e gritar e gritar. Isso não funciona. Ninguém gosta de ser criticado. Mas, no vestiário, é necessário que você aponte os erros de seus jogadores. Faço logo após o jogo para não esperar até segunda-feira, eu faço isso, e está acabado. Estou pronto para a próxima partida. Não há nenhuma vantagem em criticar sempre um jogador.

Mesmo assim ele admitiu que passava do ponto:

Eu era muito agressivo naqueles tempos, eu sou apaixonado e quero ganhar o tempo todo, mas hoje estou mais amadurecido… A idade faz isso com você e agora eu posso lidar melhor com os jogadores mais frágeis.

Anita Elberse, professora de Administração de Negócios na unidade de Marketing da Harvard Business School fez um interessante trabalho com Alex Ferguson e, no ano passado, deu uma entrevista sobre o sucesso de longo prazo do ex-treinador. Em sua opinião, este sucesso está centrado na sua vontade de desenvolver jovens talentos. Ferguson fala sobre a diferença entre “construir uma equipe e construir um clube.” Quando ele começou no Manchester United, imediatamente começou a reestruturar as categorias de base do clube. Ele também as tornou mais visíveis no clube, por exemplo, garantindo que os jogadores da base aquecessem ao lado de jogadores profissionais diariamente a fim de promover uma atitude de “um único clube”. E, mesmo no início, apesar das opiniões de muitos observadores para ser mais conservador (um comentarista de televisão respeitado disse naquela época que “não se pode ganhar nada com crianças”), ele deu aos jovens jogadores uma chance de ganhar um lugar no time principal. Muitos dos jogadores que ele desenvolveu – Ryan Giggs, David Beckham, Gary Neville, Paul Scholes – se tornaram verdadeiros destaques em sua geração, proporcionando ao clube uma base sólida.

Ryan Giggs (acima à esq.), David Beckham (acima à dir.), Gary Neville (abaixo à esq.), Paul Scholes (abaixo à dir.)

Ryan Giggs (acima à esq.), David Beckham (acima à dir.), Gary Neville (abaixo à esq.), Paul Scholes (abaixo à dir.)

A boa gestão deste processo durante um longo período, inevitavelmente, envolve cortar os jogadores mais velhos que já não podem dar uma boa resposta para a equipe, o que pode ser desgastante emocionalmente. Segundo Ferguson, “a coisa mais difícil de fazer é permitir a saída um jogador que foi um grande cara”.

Muitos outros fatores também contribuíram para o seu sucesso. Um fator particularmente impressionante foi a sua capacidade de se adaptar aos novos tempos. O mundo do futebol hoje em dia não se parece em nada com o que encontrou Ferguson quando começou como treinador no Manchester United há 27 anos. Ele adotou novas tecnologias e novas abordagens, como a contratação de cientistas do esporte na sua equipe, buscando novas formas de medir e melhorar o desempenho dos jogadores. Isso parece simples, mas se você tem sido tão bem sucedido quanto ele foi, é muito fácil ficar preso nos seus próprios caminhos.

Como muitos treinadores, Ferguson devia gerenciar para o curto prazo (durante uma partida e de jogo para jogo), médio prazo (na temporada), e longo prazo (ao longo dos anos). Estes requisitos também deveriam ser equilibrados por executivos de outras áreas, porque há uma troca constante entre a gestão do curto e longo prazo. Alex Ferguson considerou que, dentro da temporada, o truque é pensar no futuro, assumindo riscos calculados:

Eu poderia descansar jogadores chave para um jogo menos importante, mas há um elemento de risco em fazer isso, e o tiro pode sair pela culatra, mas você tem que aceitá-lo. Você tem que confiar no seu plantel.

Quando se trata de gerenciar para o sucesso em diferentes temporadas, a importância de apostar na juventude, como já foi apresentado, é crítica. Há um grande comentário de Ferguson sobre esta questão:

O primeiro pensamento para 99% dos treinadores recém-nomeados é ter certeza de que ganharão logo para sobreviver. Eles trazem jogadores experientes, muitas vezes de seus clubes anteriores. Mas eu acho que é importante construir uma estrutura para o clube de futebol, e não apenas um time de futebol. Você precisa de um alicerce. E não há nada melhor do que ver um jovem jogador atuando para sua primeira equipe.

As lições de Alex Ferguson, especialmente, em relação à importância dos objetivos de longo prazo e do apoio aos jovens talentos não valem apenas para treinadores de futebol. Muitos executivos de empresas também olham apenas o curto prazo, não apostam nos jovens, levam amigos e ex-colegas para trabalhar com eles nos novos empregos. Agindo desta forma, tanto os treinadores, quanto os executivos acreditam que garantirão o resultado do ano, ganharão suas gratificações e permanecerão nos seus cargos. Será que os clubes e as empresas terão resultados sustentáveis administrados por este tipo de treinadores e executivos?

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O Individual e o Coletivo

Desde o início dos protestos pelo Brasil, tenho pensado muito nas principais reivindicações dos manifestantes. Acredito que a educação de qualidade seja o processo que realmente tem o poder de mudar o Brasil. A própria saúde pública também é função da educação do povo. Afinal sempre será melhor ensinar e promover a adoção de atitudes saudáveis do que tratar as doenças decorrentes de práticas de higiene e alimentação deficientes.

No ano passado, assisti a uma palestra da pesquisadora da Universidade Federal do Tocantins, Fernanda Dias Abadio Finco, contemplada com o Prêmio da Fundação Bunge 2012 na categoria “Juventude”, no tema Segurança Alimentar e Nutricional. Ela apresentou um dado que me chamou a atenção na época. O percentual de pessoas com peso abaixo do normal em comunidades carentes do estado do Tocantins era pequeno, enquanto que a parcela de pessoas com sobrepeso e obesidade era muito maior e crescia rapidamente. Por outro lado, muitas pessoas tinham deficiências de nutrientes. Ou seja, o principal problema não era a quantidade de calorias ingeridas e sim a variedade e qualidade dos alimentos. A proposta da pesquisadora era aproveitar a rica biodiversidade disponível no Brasil, através do uso de vegetais com propriedades funcionais. O conhecimento dessas propriedades seria obtido por meio de pesquisa científica. Como resultado, teríamos a melhoria da nutrição e saúde das comunidades locais, a agregação de valor em produtos tradicionais da região, colaborando para geração de renda da agricultura familiar, preservação das florestas nativas e, consequentemente, promovendo uma relação ganha-ganha.

Assim trocaríamos o paradigma do tratamento de doenças pela promoção da saúde, através da orientação próxima de profissionais da saúde sobre boas práticas de higiene e nutrição. Tenho certeza que se evitariam muitas doenças ou a recuperação seria mais simples e rápida.

Mais-Medicos

Os governos brasileiros, incluindo o atual e os anteriores independentemente dos partidos, não fizeram muito pela educação e saúde pública nas décadas passadas. O governo atual, pressionado pelas ruas, lançou o programa “Mais Médicos” com o objetivo de levar médicos para as periferias das grandes cidades e para as pequenas cidades do interior do Brasil. O problema principal recai na queda de braço entre o governo federal e as associações que representam a classe médica. O governo alega que não existem médicos brasileiros interessados em trabalhar nos confins do Brasil, longe do conforto dos grandes centros, sem as melhores condições de trabalho. A solução para este problema seria a contratação de médicos no exterior, principalmente, cubanos, portugueses e espanhóis. Os médicos brasileiros, por sua vez, exigem a revalidação dos diplomas dos médicos estrangeiros e afirmam também que não faltam médicos, mas sim condições para exercer suas atividades. Ou seja, o problema principal é referente à administração do SUS (Sistema Único de Saúde).

Parece que os dois lados têm alguma razão nesta discussão. Por tudo que eu vi e li até agora, na maioria das cidades brasileiras, a situação dos hospitais e postos de saúde realmente é ruim, mas faltam médicos especialmente nas regiões Norte e Nordeste do país. Veja o quadro abaixo.

Distribuiçao geográfica dos médicos no Brasil (Fonte: Blog do Dr. Dráuzio Varella)

Distribuiçao geográfica dos médicos no Brasil   (Fonte: Blog do Dr. Dráuzio Varella)

Outra medida proposta pelo governo é um estágio remunerado de dois anos no SUS para os estudantes de medicina a ser realizado no final do curso. Obviamente os médicos são contra!

Em minha opinião, todos os profissionais egressos de universidades públicas, independente da profissão, deveriam realizar atividades deste tipo ao encerrar o curso. Afinal, todo o curso foi custeado através de verbas públicas obtidas através de impostos pagos por toda a sociedade brasileira, incluindo pessoas pobres. Desta forma, nada mais justo do que retribuir à sociedade com um estágio remunerado em áreas críticas do país, como educação, saúde, saneamento básico e infraestrutura.

Minha impressão é que os médicos estão cuidando muito mais dos seus interesses pessoais do que das necessidades dos cidadãos que vivem nas zonas mais pobres e remotas do país. A maioria dos médicos em atividade ou dos estudantes de medicina estudou nas melhores escolas particulares de ensino médio, senão não teriam passado nos vestibulares mais concorridos do país. Desta forma, são oriundos predominantemente das classes A e B, estão acostumados com uma série de confortos e não querem abrir mão deles, mesmo recebendo bons salários para trabalhar no interior do Brasil.

O primeiro grande teórico do Liberalismo Econômico, Adam Smith, em seu livro a “Riqueza das Nações”, criou o termo “mão invisível” para descrever como numa economia de mercado, apesar da inexistência de uma entidade coordenadora do interesse comum, a interação dos indivíduos parece resultar numa determinada ordem, como se houvesse uma “mão invisível” que os orientasse. Dois séculos depois, o americano Eric Maskin, um dos três vencedores do Prêmio Nobel de Economia de 2007, afirmou que “o mercado não funciona muito bem quando se trata de bens públicos” e completou:

– Sociedades não devem contar com as forças do mercado para proteger o ambiente ou fornecer um sistema de saúde de qualidade para todos os cidadãos.

Adam Smith x Eric Maskin

Adam Smith x Eric Maskin

Ou seja, o Estado deve interferir para garantir que a população tenha à disposição serviços públicos de boa qualidade, seja fornecendo-os diretamente ou através de fiscalização permanente sobre a empresa privada que o executa. No momento, a importação de médicos pode ser uma boa medida emergencial, se até o final de julho não houver candidatos brasileiros em número suficiente para cobrir a demanda. No futuro, o problema só será resolvido se houver novas escolas de medicina localizadas no interior do Brasil, suportadas por postos saúde e hospitais públicos com boas condições de trabalho para os profissionais da saúde e por escolas de ensino fundamental e médio de boa qualidade. Estas escolas serão as responsáveis por levar o desenvolvimento humano para estas regiões do país.

Parece que comecei e terminei falando de educação…

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De Onde Vem a Inspiração?

Na última edição da revista IstoÉ, tem uma interessante entrevista com o escritor Luís Fernando Veríssimo. Como antídoto contra a reconhecida timidez do escritor, a entrevista foi feita através de E-mails. Quem quiser lê-la na íntegra basta clicar no link abaixo.

http://www.istoe.com.br/assuntos/entrevista/detalhe/312972_O+INIMIGO+E+TUDO+INCLUSIVE+A+IDEOLOGIA+

Além das perguntas sobre a política brasileira e os recentes protestos populares, curiosidades sobre a vida atual do escritor, eu tive especial interesse na questão sobre qual tipo de situação ainda o inspira. A resposta foi a princípio decepcionante:

– Para quem escreve com regularidade, qualquer assunto é assunto. Eu sempre digo que a minha musa inspiradora é o prazo de entrega. E a crônica, sendo um gênero indefinido, comporta essa variedade de assuntos e de estilos.

Luís Fernado Verissimo

Luís Fernado Verissimo

Como dono deste blog, sofro com alguns períodos de “estiagem” criativa. Por outro lado, às vezes escrevo um artigo com rapidez. Certa vez, em um voo diurno entre New York e São Paulo, escrevi três posts. Na semana seguinte, refinei e publiquei no blog dois desses posts e o terceiro permanece inédito, fazendo companhia a uma coleção de artigos renegados. Este destino pode ser injusto para alguns destes artigos, mas, para outros, foi exemplar.

Algumas vezes, começo a escrever e reescrever dois ou três artigos ao mesmo tempo. Depois de uma ou duas semanas, nenhum destes artigos passou no meu controle de qualidade e foi publicado, entretanto, num certo dia, trabalho e finalizo todos. Sempre publico aquele que trata do assunto do momento e deixo os outros para os dias seguintes.

Hoje rendo-me ao grande Luís Fernando Veríssimo. Como sou um blogueiro amador, não tenho obrigações com o calendário. Caso contrário, trabalharia sobre um destes artigos até ficar pronto. Já percebi que escrever, como outros exercícios físicos ou intelectuais, depende de treino frequente e de muita persistência. No meu caso, sempre que fui assíduo ao escrever, senti um prazer viciante. Talvez o melhor seja eu me render a mesma musa inspiradora deste grande escritor gaúcho e criar uma obrigação clara e definida. A partir de hoje, meu blog passará a ter uma publicação semanal num dia específico da semana. A alteração do dia só será tolerada, se for uma antecipação por conta de uma atualidade realmente importante. A ausência de publicações será aceita apenas em caso de férias ou impossibilidades realmente relevantes.

Resta agora, escolher o dia da publicação… Muitas pessoas não gostam da segunda-feira, parecem repetir mentalmente aquele refrão do maior sucesso da banda Boomtown Rats do vocalista Bob Geldof, “I Don’t Like Mondays”. Sim, esta música não é do Rolling Stones de  Mick Jagger! Sexta, sábado e domingo são os dias das festas para uns, viagens para outros e descanso para os demais. Quarta-feira é o dia do futebol na TV… Entre terça e quinta-feira, escolho a primeira!

Assim espero aumentar a quantidade e melhorar a qualidade dos artigos deste blog, onde os leitores serão sempre os juízes. Até a próxima terça-feira!

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O Passado e o Futuro

No ótimo filme de Woody Allen, Meia-Noite em Paris, o personagem principal Gil Pender – interpretado por Owen Wilson, cita uma frase do escritor americano William Faulkner:

– “O passado não está morto! Na verdade, nem é mesmo passado.”

A frase cai como uma luva para este filme. Por incrível que pareça, os detentores do patrimônio do escritor processaram a Sony por violação de direitos autorais…

midnight_in_paris

No filme, Gil Pender sonha em morar em Paris nos anos 20, época na qual seus escritores favoritos viveram. Na sua viagem ao passado, conhece e se apaixona por Adriana, interpretada por Marion Cotillard, mas ela também deseja viver no seu passado, a Belle Époque parisiense, caracterizando uma sequência de “Síndrome da Época de Ouro”.

Quem já não disse que no tempo da sua juventude era melhor? Ou ninguém faz mais músicas ou filmes como no seu tempo? Nada representa melhor esta postura do que a extraordinária música de Belchior “Como Nossos Pais”, imortalizada por Elis Regina. Assista ao vídeo abaixo.

Este trecho da música que transcrevi abaixo descreve esta postura de apego ao passado.

Já faz tempo
E eu vi você na rua
Cabelo ao vento
Gente jovem reunida
Na parede da memória
Esta lembrança
É o quadro que dói mais…

Minha dor é perceber
Que apesar de termos
Feito tudo, tudo, tudo
Tudo o que fizemos
Ainda somos os mesmos
E vivemos
Ainda somos os mesmos
E vivemos
Como Os Nossos Pais…

Nossos ídolos
Ainda são os mesmos
E as aparências
As aparências
Não enganam não
Você diz que depois deles
Não apareceu mais ninguém
Você pode até dizer
Que eu estou por fora
Ou então
Que eu estou inventando…

Mas é você
Que ama o passado
E que não vê
É você
Que ama o passado
E que não vê
Que o novo sempre vem…

Considerando que “o novo sempre vem”, a seguir apresento algumas “obviedades” sobre passado e futuro.

Não é possível criar um novo futuro com base apenas no passado. Seria como dirigir um automóvel, olhando apenas para o espelho retrovisor.

Por outro lado, corremos risco de fracassar, se tentarmos criar um futuro sem entender criticamente o passado. Neste caso, poderemos repetir os mesmos erros. Como eu sempre digo, errar faz parte da vida, mas vamos ser originais e errar de forma criativa.

O que funcionou no passado, talvez não funcione no futuro. O resultado final será no máximo igual. Afinal o mundo evoluiu!

O contrário também vale! Não podemos concluir que algo não funcionará no futuro, porque não funcionou no passado. Afinal agora o mundo pode estar preparado para esta novidade…

Finalmente, devemos sempre planejar o futuro, mas o imponderável ou o inesperado pode derrubar nosso planejamento. Nestas horas, devemos manter nossas mentes abertas, porque muitas vezes as oportunidades que aparecem são melhores do que nosso plano original.

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Sofrer e Amar não são Exclusividades dos Humanos

O voo originado em São José do Rio Preto aterrissou no Aeroporto de Congonhas no início da noite do Dia dos Namorados. Fui rápido para o ponto de táxi, mas, quando cheguei lá, senti que a espera não seria breve, a fila era grande e não havia táxis. Quando finalmente estava chegando minha vez, o responsável pela organização dos táxis gritou no lado da fila:

– Deu um nó no trânsito de São Paulo! A cidade inteira está parada e os táxis não estão conseguindo entrar no aeroporto. Como vocês podem ver, a saída do aeroporto já está trancada…

Realmente a coisa não estava fácil, demoraram mais uns dez minutos para eu embarcar num táxi e mais uma meia hora para o táxi entrar na Avenida Washington Luís. Para percorrer os quinze quilômetros entre o aeroporto e minha residência foram necessárias duas horas e meia.

Congestionamento recorde de 279 km no dia 12-06-2013 em São Paulo

Congestionamento recorde de 279 km no dia 12-06-2013 em São Paulo

Com todo este tempo juntos, eu e o motorista conversamos sobre os mais variados assuntos: trânsito, os protestos em São Paulo, impostos, combustíveis alternativos, produção de etanol, histórias de família (especialmente sobre as sogras). Quando estávamos relativamente perto da minha casa, o motorista iniciou o seguinte diálogo:

– O senhor é do Sul?
– Sim, sou gaúcho.
– Então, deve gostar muito de churrasco…
– Gostava, mas agora não como mais.
– Você é vegetariano?
– Quase! Às vezes eu como peixe. Como eu viajo muito, em alguns lugares, é muito difícil achar boas opções vegetarianas.
– Eu sou vegetariano!

Fiquei surpreso e perguntei o motivo que o levou a tomar aquela decisão. Ele me contou que adotou uma cachorrinha e se afeiçoou muito a ela. Depois de um tempo, o animal ficou doente e o veterinário descobriu que estava com câncer. Ela foi operada, mas o câncer apareceu novamente. O veterinário alertou que poderia operar de novo, mas as chances de recuperação seriam baixas e a dedicação ao animal de estimação deveria ser grande, porque ela não teria condições de alimentar-se sozinha. O dono aceitou o desafio e a cadelinha foi novamente operada, mas ela não conseguiu recuperar as forças. O dono dedicou-se ao máximo, preparava e dava a comida para a cachorrinha algumas vezes ao dia, usando uma seringa. A partir de certo momento, percebeu que ela não queria mais se alimentar, mesmo assim ele forçava para que ela não se enfraquecesse ainda mais e morresse. A cada contato, ela sempre abanava o rabinho para ele.

cãozinho

Na hora da ceia de Natal, a cachorrinha se levantou de sua caminha, coisa que não fazia há muito tempo, deu alguns passos na direção dele e caiu morta. O dono não resistiu e chorou. Quando a família iniciou a celebração do Natal, ele tentou comer um pedaço de carne de peru, mas não conseguia engolir. Decidiu naquele momento que não comeria mais carne, porque todos os animais tinham sentimentos, como sua querida cachorrinha, e não era certo continuar se alimentando de carne, porque havia um animal que sofreu por trás daquele ato. Escondeu da família por um tempo, até ser descoberto, porque estava dando a carne para outros cães adotados que passaram “estranhamente” a rodeá-lo durante as refeições.

Finalizou dizendo que isto aconteceu há um ano e meio. Hoje ele se sente melhor e existem ótimas opções além da salada e do feijão com arroz. Chegamos à frente do meu prédio. Paguei a corrida do táxi, peguei minha mala e me despedi dele, parabenizando-o pela sua decisão.

Contei esta história para Cláudia e conversamos sobre o assunto. Hoje as pessoas estão se dando conta que os animais, não só os humanos, têm inteligência e sentimentos. Alguns deles. na idade adulta, têm a inteligência de uma criança humana, por exemplo. O que nos leva a pensar que temos o direito de criá-los para depois serem mortos apenas para nos servir de alimentos, especialmente quando existem boas opções vegetarianas? Lembro-me daqueles filmes em que alienígenas maus e tecnologicamente mais desenvolvidos invadem a Terra e querem usar os humanos como alimento. Quem assiste a um filme deste normalmente pensa:

– Como estes alienígenas podem ser mais evoluídos se não respeitam os direitos dos humanos e querem escravizá-los, matá-los e usar os corpos como alimento?

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Parece que nós humanos agimos como os alienígenas dos filmes frente aos animais terráqueos. E ainda conseguimos abstrair que a picanha era parte de um boi, a linguiça foi feita da carne de um porco e que o coraçãozinho do aperitivo do churrasco era de uma galinha. O dono da cachorrinha, assim como milhares de pessoas que deixaram de comer carne, percebeu não tem lógica amar uns animais e comer outros, causando indiretamente sofrimento a estes animais.

Após escrever este artigo fiquei com mais vontade ainda de poupar os peixes…

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Qual será o Próximo Alvo dos Protestos?

Após uma série de manifestações nas maiores cidades do Brasil, onde o principal objetivo era a redução das tarifas do transporte coletivo, fica uma importante questão no ar:

– Qual será o próximo objetivo deste grande movimento popular?

A força popular do movimento ficou claramente comprovada com a redução das tarifas em várias cidades brasileiras. Faço um paralelo entre os manifestantes brasileiros e o movimento de protesto “Occupy Wall Street” (OWS). Em setembro de 2011, milhares de pessoas ocuparam ruas próximas a Wall Street, acampando no Zuccotti Park (antigo Liberty Park).

Um dos lemas do movimento Occupy Wall Street

Um dos lemas do movimento Occupy Wall Street

As principais questões levantadas pelo OWS foram a desigualdade social e econômica, a ganância, a corrupção e a influência indevida das empresas sobre o governo, particularmente do setor de serviços financeiros. Passados dois anos do início deste movimento, o resultado prático foi insignificante. Entre as causas do fracasso, eu destaco a falta de foco em ações específicas para solucionar as questões justas levantadas pelo movimento.

Na semana passada, a população brasileira mudou rapidamente a percepção sobre movimento local. Como exemplo, vocês podem assistir a este comentário do Arnaldo Jabor no Jornal da Globo do dia 12 de junho.

Como comentei no artigo da última sexta-feira, Os Protestos e a Verdadeira Democracia, muita gente era contra o movimento, influenciada pelas imagens de vandalismo apresentadas na televisão. Após o lamentável confronto em São Paulo entre PM e manifestantes no dia 13 de junho, a maioria da população passou a apoiar as manifestações, desde que não haja vandalismo. Você pode escutar o pedido de desculpas do Arnaldo Jabor na Rádio CBN.

Sem dúvida, se o movimento flanar entre objetivos estratosféricos ou mal definidos, suas conquistas serão tão pífias quanto as obtidas pelo OWS americano. O próximo objetivo escolhido, até pela premência do prazo, deveria ser a PEC 37 que será votada na Câmara dos Deputados na próxima semana.

Para quem não sabe o que é este Projeto de Emenda Constitucional, explicarei sucintamente. Este projeto de lei inclui um parágrafo no Artigo 144 da Constituição. Se for aprovado pelo Congresso Nacional, o Ministério Público não poderá mais apurar infrações penais contra a ordem política e social ou em detrimento de bens, serviços e interesses da União ou de suas entidades autárquicas e empresas públicas, assim como outras infrações cuja prática tenha repercussão interestadual ou internacional e exija repressão uniforme, segundo se dispuser em lei.

Ou seja, apenas a polícia poderá investigar os crimes praticados pelos políticos como corrupção ou prevaricação (retardar ou deixar de praticar indevidamente ato de ofício, ou praticá-lo contra disposição expressa de lei, para satisfazer interesse pessoal). O Ministério Público, que faz um trabalho muito bom em defesa dos direitos do cidadão, ficará de fora da apuração deste tipo de crime. Esta lei tem o objetivo claro de favorecer a impunidade. Se quisermos combater a corrupção no Brasil, não podemos permitir que esta alteração da Constituição seja aprovada. Preparei a tabela abaixo com a distribuição das assinaturas na proposição da lei por partido.

PEC 37 - partidos

É interessante notar que os percentuais de adesão nos principais partidos de oposição (PSDB, DEM e PPS) são parecidos aos dos partidos da base governista. Isto evidencia, em minha opinião, que a preocupação em não ser investigado pelo Ministério Público depende mais do caráter de cada deputado do que de sua posição política. Se você quiser verificar se seu deputado assinou esta proposição, basta clicar no link abaixo.

Proposição PEC 37

Talvez os melhores versos para descrever este momento é o refrão da música de Geraldo Vandré, Pra Não Dizer Que Não Falei Das Flores, verdadeiro hino contra a ditadura militar brasileira do final dos anos 60 e 70:

Vem, vamos embora
Que esperar não é saber
Quem sabe faz a hora
Não espera acontecer

Esta é a hora da população buscar o atendimento das necessidades básicas, como educação e saúde, além do fim da corrupção e da redução  dos impostos, e exigir melhorias no nosso sistema político para criarmos um país mais eficiente e justo. E melhor, tudo poderá ser conquistado na paz desta vez!

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Salário Motiva os Funcionários?

No início da minha carreira profissional, houve um momento em que meu salário não dava para quase nada, o clima na empresa não era bom, meu chefe não me valorizava e, quando surgiu uma oportunidade de transferência para outra unidade da empresa, ele não permitiu minha saída. Estava insatisfeito com esta situação! Por outro lado, durante um ano, trabalhei com entusiasmo e saia feliz de casa todos os dias, porque consegui fazer muitas atividades que trouxeram bons resultados para minha área, além de aprender muito.

Por muito tempo, não entendi aquele meu estado de espírito, porque eu estava satisfeito e insatisfeito simultaneamente com meu trabalho. Além disto, via outros colegas que focavam apenas no dinheiro ou título do cargo, independente das atividades desempenhadas. Há um mês, finalmente consegui a explicação através da “Teoria dos Dois Fatores” de Frederick Herzberg.

Fredrick Herzberg

Fredrick Herzberg

O primeiro grupo é formado pelos “fatores motivadores”, são aqueles que nos levam à satisfação. Esta satisfação no cargo é função das atividades desafiadoras e estimulantes e nos trazem novos conhecimentos, desenvolvimento, crescimento profissional, aumento de responsabilidades e, finalmente, autorrealização.

O segundo grupo são os “fatores higiênicos”, são aqueles que nos levam à insatisfação. Esta insatisfação no cargo é função do ambiente, da segurança, do salário, da supervisão e do relacionamento com colegas. Você pode ver o esquema na figura abaixo.

teoria-herzberg

Ou seja, eu estava satisfeito com meu trabalho, porque estava me desenvolvendo ao mesmo tempo em que fazia atividades desafiadoras e atingia bons resultados. Por outro lado, estava insatisfeito, porque meu salário era baixo, havia muita politicagem interna e meu chefe gerenciava o setor de uma forma que eu não concordava.

O ideal é procurar um trabalho alinhado com a vocação de cada um e que supra os fatores higiênicos. Ou seja, o salário e os benefícios do cargo devem ser a consequência, jamais o objetivo principal do profissional. Deste modo, se os fatores higiênicos estão supridos e você está motivado com seu desenvolvimento profissional, não mude de emprego somente para ganhar um salário melhor.

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Os Protestos e a Verdadeira Democracia

Após o primeiro protesto contra os aumentos das tarifas do transporte público na cidade de São Paulo, fiquei com uma sensação estranha. A Grande Imprensa em todos os jornais e telejornais apresentou os manifestantes como vândalos ou baderneiros, mas em nenhum lugar aparecia a origem do conflito. As barricadas foram montadas antes ou depois dos policias avançarem sobre a multidão? A manifestação era pacífica no momento em que os policiais lançaram as primeiras bombas de gás lacrimogêneo e deram os primeiros tiros com balas de borracha? As imagens só mostraram policias feridos, nenhum manifestante ficou machucado?

Início dos protestos em frente ao Theatro Municipal de São Paulo

Início dos protestos em frente ao Theatro Municipal de São Paulo

Depois disto houve o segundo protesto. A cobertura foi muito parecida com a anterior. Nenhuma das pessoas que comentaram as ocorrências comigo teve alguma palavra de apoio ao movimento. Sinceramente eu achei bom que havia alguém lutando por alguma coisa, porque a acomodação do povo brasileiro é algo incrível. Os políticos prometem o céu a cada eleição e ganhamos, no máximo, o purgatório e nós ainda fazemos piadas… Somos enganados, nos vendem gato por lebre e não reagimos. A classe estudantil e a classe média que lutaram na época da ditadura militar, hoje, na sua maioria, assistem a tudo com total apatia e indiferença. As pessoas são incentivadas a olhar para seu umbigo ao invés de se preocuparem com suas comunidades.

Ontem saí do trabalho pouco depois das 19 horas, estava dirigindo meu automóvel e ouvindo a Band News. Uma repórter entrou no ar para dar o boletim sobre a manifestação do dia. Ela disse basicamente que a passeata era pacífica e que as pessoas pediam por paz e “violência não”. Acho que menos de dez minutos depois ela voltou ao ar para dizer que o Tropa de Choque da PM havia bloqueado a Rua da Consolação para impedir que a passeata chegasse à Avenida Paulista. No meio deste boletim, iniciaram as explosões das bombas de gás lacrimogêneo e os tiros. Depois de um tempo, ela voltou para tentar continuar com o boletim, mas era praticamente impossível ouvir a sua voz.

Ficou claro que a iniciativa deste confronto coube à PM, mas desta vez a Grande Imprensa, ao ter diversos de seus membros feridos ou presos, também apresentou o outro lado da moeda. Abaixo estão as fotos do fotógrafo Sérgio Silva da agência de fotografia Futura Press e da repórter Giuliana Vallone da TV Folha atingidos por balas de borracha da PM.

Sergio Silva e Giuliana Vallone feridos por balas de borracha

Sergio Silva e Giuliana Vallone feridos por balas de borracha

Para que haja uma verdadeira democracia com avanços sociais, é necessária a efetiva participação da sociedade. Isto não significa o simples comparecimento obrigado às urnas a cada dois anos, significa sim lutar pelos direitos como transporte público, saúde ou educação. Só desta forma construiremos uma grande nação, mas para isto acontecer é fundamental respeitar e tentar entender os pontos de vista divergentes. Se o brasileiro discutisse política e economia, como discute futebol ou novelas, provavelmente estaríamos em um estágio muito melhor. Talvez um bom início seja o cartaz que a jovem está segurando na foto abaixo.

desculpe-o-transtorno

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Amour – Os Limites Extremos do Amor, da Vida e da Morte

Há uns três meses, eu estava de noite em um restaurante de uma cidade do estado americano do Illinois. Após fazer o pedido da janta, dei uma passada no banheiro. Na volta, notei que uma mesa próxima do nosso grupo foi ocupada por um casal jovem, ele tinha uma longa barba negra e ela era ruiva com um corte de cabelo curto.

Quando o pedido deles chegou, a moça puxou o prato do rapaz para o seu lado e começou a cortar o carne que havia no prato. Pensei que eles fariam aquela prática comum entre casais de provar os dois pratos e ela seria a responsável pela divisão. Desviei minha atenção da mesa da frente e, quando dei uma nova espiada, achei estranho que ela estava picando a carne em pedaços pequenos, enquanto o rapaz olhava para o prato com aquele mesmo olhar de uma criança para um sorvete na expectativa de comê-lo. Somente neste momento, prestei mais atenção e percebi que ele não estava sentado numa cadeira normal do restaurante, estava numa cadeira de rodas motorizada, ele era tetraplégico.

Tetraplégico

Tetraplégico

Depois do jantar, a caminho do hotel, a imagem do rapaz não saía da minha cabeça. Tentei me imaginar no lugar dele, como eu reagiria numa situação destas? Totalmente dependente dos outros para atender as necessidades mais básicas, como ir ao banheiro, tomar banho, se alimentar ou se vestir… Como tudo que é desagradável, achamos melhor botar uma pedra em cima e fazemos uma racionalização simples:

– Por que criar um problema que não existe?

Ontem assisti ao filme francês “Amour”, vencedor da Palma de Ouro em Cannes e do Oscar de Melhor Filme Estrangeiro. Se você busca um filme leve e romântico com final feliz, não assista a esta impactante obra cinematográfica. A densidade dramática deste filme pode ser comparada àquelas estrelas de nêutrons, cuja gravidade suga tudo ao seu redor, inclusive a luz.

No filme, são mostrados os dias finais da vida de um casal de professores de música aposentados, Georges e Anne, interpretados magistralmente por Jean-Louis Trintignant e Emmanuelle Riva. Assista ao trailer abaixo.

No início do filme, o casal tinha uma vida normal, morava num amplo apartamento em Paris e aparentemente ambos nutriam sentimento de amor e respeito mútuos. A situação começa a mudar, quando Anne sofre um “apagão” no momento em que tomavam café da manhã. Detecta-se uma obstrução na artéria carótida. Esta seria uma operação de baixo risco, mas ocorre uma complicação e Anne fica com um lado do corpo paralisado e, quando volta para casa, passa a usar cadeira de rodas. Neste momento, acontece uma cena que sela o destino dos protagonistas, Anne obriga Georges a prometer que não a internaria mais. A partir deste momento, ele tenta várias alternativas para tornar a vida do casal melhor, mas a saúde de Anne vai se deteriorando. Ela sofre outro derrame, não consegue mais se comunicar razoavelmente, passa a usar fralda geriátrica e conclui que não quer mais viver. Georges, por seu lado, suporta sozinho um fardo pesadíssimo em nome da lealdade por sua esposa e leva seu compromisso até as últimas consequências.

Cena do "apagão de Anne no filme Amour

Cena do “apagão” de Anne no filme Amour

O diretor Michael Haneke, após pouco mais de duas horas de filme, nos leva a pensar sobre a velhice e seus problemas, sobre os limites do amor, sobre o que esperamos dos nossos relacionamentos e o que aceitamos dar em troca, sobre a vida e a morte…

Neste momento, volto para minha pergunta-chave deste post:

– Como eu reagiria numa situação destas?

O caso do rapaz de Illinois parece mais fácil para mim hoje. Quando se é jovem e se tem toda a vida pela frente, um “acidente” de percurso como ficar tetraplégico, apesar de extremamente traumático pelas limitações impostas, pode se transformar na força motriz para encontrar novas vocações e propósitos para a vida. Como me considero um jovem de 47 anos, acredito que conseguiria ir em frente.

O caso de Georges, apesar da dor de ver a pessoa amada naquele estado, também diria que seguiria em frente. Acredito que meu amor pela Claudia me transformaria no seu serviçal fiel. Mas meu Amorzin, já te disse que tu vais ser uma viúva linda. Então não deverei passar por isto.

O caso da Anne me assusta! Não quero me tornar um fardo para as pessoas que eu amo. Seria muito cruel…

Apesar de muita gente não acreditar, temos poder para conduzir nossas vidas, mas ainda há uma parcela expressiva que não controlamos. Podemos ter uma vida saudável, fazer exercícios físicos regularmente, manter a mente ativa, mas a “maldita” genética pode nos fulminar na esquina. Se este avião no qual estou voando para Saskatoon, enquanto escrevo este post, cair provavelmente ninguém irá lê-lo, ficará eternamente inédito. No caso do filme “Amour”, Anne escolheu seu destino e Georges usou seu livre arbítrio para aceitá-lo, com todas as consequências para si. Ou seja, ao tomarmos uma decisão devemos analisar se não haverá desequilíbrios para um dos lados, porque não é justo submeter as pessoas a quem amamos a um ônus demasiadamente pesado e o contrário também vale, não podemos simplesmente nos anular por causa de quem amamos.

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Os Psicopatas, os Hiperativos, os Estranhos e os Normais

Na semana passada, no mural do Facebook do Nilson, companheiro de tantas jornadas importantes do nosso Inter no Beira-Rio, havia uma interessante palestra do jornalista e documentarista britânico Jon Ronson sobre psicopatia. Se quiser assisti-la, com legendas em português, basta clicar abaixo.

Com é difícil provar a normalidade! Parece que todos somos anormais, psicopatas ou, pelo menos, temos alguns transtornos de personalidade ou de comportamento. Por incrível que pareça, há mais de um século, nosso maior escritor, Machado de Assis, tratou deste assunto na grande obra “O Alienista” (leia o post sobre este conto ou novela).

No início do mês, li uma reportagem na Folha de São Paulo, originalmente publicada no New York Times, cuja manchete era “Nos Estados Unidos, 11% dos estudantes têm transtorno de deficit de atenção”. Fui atraído pela manchete, li a matéria e fui atrás da fonte (jornal americano) para obter mais informações. Abaixo você pode ver o gráfico com a distribuição deste distúrbio por faixa etária e sexo nos Estados Unidos.

Distribuição das crianças diagnosticadas comTDAH nos Estados Unidos. [Fonte: New York Times]

Distribuição das crianças diagnosticadas com TDAH nos Estados Unidos. [Fonte: New York Times]

O transtorno de déficit de atenção e hiperatividade (TDAH ou ADHD em inglês) caracteriza-se pela desatenção, dificuldade de manter o foco em uma atividade específica, hiperatividade e impulsividade. Esta síndrome pode causar problemas e dificuldades na escola, durante a infância e juventude, e nas atividades profissionais na idade adulta.

O primeiro questionamento que faço a respeito do aumento da ocorrência deste tipo de problema entre os estudantes americanos é a mudança do ambiente atual em comparação com algumas décadas atrás. Hoje existem muito mais estímulos para as crianças e jovens, temos TV a cabo, Internet, videogames, notebooks, celulares, iPods, iPhones, iPads… Por outro lado, as aulas mudaram pouco nos últimos quarenta anos, predominantemente são expositivas. Só houve evolução na tecnologia para apresentar as informações, do quadro negro e giz, passando pelas lâminas de retro-projetor, até chegar às apresentações preparadas em PowerPoint e projetadas através de um data show. A essência continua a mesma, o professor passa o conhecimento, enquanto os alunos deveriam absorvê-lo. A questão básica é como alguém que vive em um ambiente com alta interatividade se interessará por uma aula com este formato?

Não existe um teste laboratorial para medir o TDAH, como acontece, por exemplo, no caso de suspeita de anemia no qual um simples exame de sangue define a questão. O diagnóstico da TDAH é feito através de questionários aplicados ao paciente (ou seria impaciente) e aos que o cercam, pais, professores, irmãos, colegas… Ou seja, tudo é muito subjetivo, porque depende da percepção de cada um.

A Folha de São Paulo, ao resumir a reportagem do New York Times, omitiu uma parte muito importante da reportagem do jornal americano – o uso de medicamentos e as ações de seus fabricantes. Hoje os pais têm se preocupado cada vez mais com o desempenho escolar dos filhos. Em um ambiente de alta competição, como o americano, a necessidade de ter um alto desempenho na escola para garantir uma vaga em uma universidade de ponta é fundamental para o sucesso na carreira. Percebendo este filão, os laboratórios de medicamentos iniciaram campanhas maciças para estimular os diagnósticos de TDAH e o uso de medicamentos para reduzir a hiperatividade e aumentar o foco das crianças e jovens. Cerca de dois terços dos que receberam diagnóstico positivo passaram a consumir estimulantes como Ritalina, Adderall, Concerta e Vyvanse. Para se ter uma ideia o faturamento com a venda destes remédios passou de US$ 4 bilhões em 2007 para US$ 9 bilhões em 2012.

A reportagem do NYT, por example,cita um panfleto da Shire fabricante do Vyvanse (dimesilato de lisdexanfetamina), vendido no Brasil com a marca Venvanse, que mostra uma mãe olhando para seu filho e dizendo:

– Eu quero fazer tudo que eu posso para ajudá-lo a ter sucesso.

Bela mensagem! Eu poderia escrever diferente:

– Sou uma boa mãe, me preocupo com meu filho e vou dar um estimulante, uma anfetamina, que pode causar vício, mas estarei ajudando-o a melhorar seu desempenho escolar e ter um futuro melhor.

Outro panfleto do Laboratório Shire sobre o Vyvanse

Outro panfleto do Laboratório Shire sobre o Vyvanse

Se você acha que esta é mais uma invenção restrita apenas ao território norte-americano, está enganado. Segundo site do Dr. Drauzio Varella, o Brasil é o segundo mercado do mundo da Ritalina (metilfenidato) produzido pela Novartis. Este remédio tem o apelido de “droga da obediência”, devido ao efeito zumbi que pode causar uma espécie de apatia ou letargia.

A discussão agora é ser mais severo no diagnóstico do TDAH. Assim, cada vez mais crianças, adolescentes e jovens serão tratadas com estas drogas. Meu maior receio é a padronização do comportamento das pessoas que passam a agir como robôs. Como disse Jon Ronson, no final da sua palestra, você não deve rotular as pessoas pelos seus limites mais loucos. O mundo não gosta de áreas cinzas, mas, nestas áreas, encontramos a complexidade, é onde a gente encontra a humanidade e é onde encontramos a verdade. Eu diria mais, encontramos a diversidade, talento, criatividade e a inovação.

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A Bruxinha Totute

Clara era uma menina que não tinha amigos. Sua família havia mudado de uma pequena cidade do interior para a capital do estado. Como Clara era muito tímida, não conversava com seus novos colegas na escola.

Todos os colegas da escola pegavam no pé dela, debochavam do jeito que ela falava. Quando fazia desenhos, todos falavam que os trabalhos eram feios. Quando cantava, todos tapavam os ouvidos e diziam que ela desafinava. Ninguém brincava com ela na hora do recreio.

Ela foi crescendo e a situação não mudava… Cada dia ficava mais triste com aquela solidão. Com o passar do tempo, começou a se revoltar. Jurou que se transformaria numa bruxa e usaria os mais poderosos feitiços para se vingar de todos que a desprezavam.

Procurou livros com palavras mágicas para enfeitiçar os colegas, mas todos os termos eram tão difíceis de pronunciar… E se ela dissesse alguma palavra errada e a praga se voltasse contra ela mesma? Melhor achar outra forma para se vingar…

Depois Clara se lembrou da história da Branca de Neve e de sua madrasta, a bruxa má, que fazia poções mágicas e venenos poderosos. Ela acabou desistindo também, porque precisava de tantos ingredientes complicados. Onde encontrar asa de morcego, baba de sapo, pelo do rabo de mula-sem-cabeça? Esquece…

E aqueles bonequinhos de vodu? Parece bem mais fácil de aprender a fazer o feitiço. Afinal é só fazer um bonequinho e espetar alfinetes. O problema é que Clara nunca foi boa em artes e o boneco poderia ficar muito diferente dos seus inimigos. Imagina se um inocente leva a espetada por causa de um bonequinho de vodu malfeito? Tem que haver mais alternativas…

Clara ainda não tinha descoberto qual feitiço usaria para se vingar dos colegas insensíveis. Um dia ela viu um pai passeando com sua linda filha. A menina falava para seu pai assim:

– Pai, você não vai me pegar para fazer “totutes”…

A menina saiu correndo, mas o pai alcançou-a e começou a fazer cócegas na barriguinha dela. Ela gritava desesperada e o pai sorria sadicamente…

Clara pensou que este tal de “totute” poderia ser o feitiço para a realização da sua grande vingança. Ela não sabia o que aquela pobre menina tinha feito para sofrer aquela tortura impiedosa. Hummm, “totute” deveria significar tortura em alguma língua antiga. A partir daquele dia ela passaria a ter um nome secreto – Bruxa Totute, e se vingaria de todos seus colegas através deste terrível feitiço…

Mas antes de começar a usar este novo feitiço, ela decidiu treinar alguns dias nas suas bonecas. Clara fazia “totutes” nas barriguinhas, nas axilas, nas coxinhas, nas solas dos pezinhos, nos pescocinhos…

Depois testou suas novas técnicas no seu gatinho Mingau. Que estranho, parecia que Mingau gostava, mas gatos e pessoas são tão diferentes…

Finalmente chegou o grande dia! Clara decidiu atacar o colega que ficasse sozinho com ela na sala de aula. Todos saíram para o recreio e Clara, como sempre, ficou na sala sozinha. De repente, o colega Guilherme, mais conhecido como Gui, voltou para a sala, porque ele tinha se esquecido de pegar seu lanche. Chegou a hora da Bruxa Totute. Enquanto ele procurava o lanche na sua mochila, Clara veio sorrateiramente por trás e começou a fazer cócegas no pescoço do Gui. Depois fez nas axilas. Gui riu até perder as forças e cair no chão. Ele pedia para parar, mas Clara impiedosa partiu para cima dele e atacou a barriga com cócegas frenéticas. Depois de alguns minutos, tocou o sinal do final do recreio e Clara fugiu correndo e deixou Gui estirado no chão da sala.

Clara, a Bruxinha Totute em ação. Figura feita com uso de inteligência artificial do Dall-E-3.

Os colegas voltaram para a sala e viram Guilherme no chão, tentando se levantar. Correram em direção da mesa do Gui para saber o que havia acontecido com o colega. Após sentar na sua cadeira, ele recuperou o fôlego e disse:

– Fui atacado por alguém que fez cócegas até eu perder a força e cair no chão.

Carol, curiosa como sempre, perguntou:

– Gui, você viu quem te atacou?

Guilherme pensou um pouco e respondeu:

– Quando entrei na sala, só a Clara estava sentada na mesa dela. Depois fui pegar um sanduíche na minha mochila e não vi se a Clara saiu da sala. Aí fui atacado por trás e não vi quem foi.

Tiago, o Ti, que ouvia atentamente tudo, comentou:

– Não consigo imaginar a Clara fazendo brincadeira com alguém da turma. Não foi ela, foi alguém de outra turma…

A professora entrou na sala conversando com a Clara e todos foram para suas mesas. Carol levantou o braço e a professora fez sinal para ela falar:

– Profe, alguém invadiu nossa sala e atacou o Gui.

A professora preocupada olhou para o Guilherme e perguntou:

– Tudo bem contigo, Gui?

Guilherme procurou tranquilizar sua professora:

– Tudo bem! Não foi nada!

Depois disto a aula recomeçou, mas todos estavam inquietos com o incidente ocorrido. Por outro lado, Clara estava feliz, porque a primeira etapa de sua vingança teve sucesso.

Na semana seguinte, o episódio já estava praticamente esquecido e Clara decidiu que estava na hora da Bruxa Totute voltar ao ataque.

Na hora do recreio, Carol disse para os outros colegas que ficaria na sala, porque estava com sono e queria descansar um pouco. Na noite anterior, seu irmãozinho havia chorado várias vezes e ela não dormiu bem.

Todos saíram da sala, deixando Carol sozinha. Depois de dez minutos, Clara espiou e viu que Carol estava quase dormindo. Então decidiu que a Bruxa Totute devia aproveitar a oportunidade. Entrou na sala sem ser percebida e atacou Carol, fazendo cócegas em várias partes do corpo ao mesmo tempo. Ela não tinha força para reagir ou falar, apenas chorava de forma estranha.

Com medo de que aparecesse alguém, Clara parou e saiu correndo da sala. Foi a sua sorte, porque a professora resolveu voltar um pouco antes para preparar a próxima atividade. Ao ver a Carol no chão, assustou-se e correu para ver o que aconteceu com sua aluna. Abaixou-se ao lado da menina, segurou no seu ombro e perguntou:

– Carol, o que houve? Está tudo bem contigo? Você está sentindo alguma coisa?

Carol abriu os olhos e disse:

– Profe, que bom que você está aqui! Fui atacada! Deve ter sido a mesma pessoa que atacou o Gui…

Neste instante, tocou a sirene, anunciando o final de mais um recreio. Os colegas começaram a voltar para a sala e viram a professora ajudando Carol a sentar-se na sua cadeira. Todos cercaram as duas e queriam saber o que havia acontecido. Quando Carol contou a história, a preocupação tomou conta de todos. Afinal este já era o segundo ataque. No resto da manhã, não houve mais aula. A professora chamou a pedagoga responsável que chamou a diretora. Todos, incluindo Clara, disseram que não viram nada. Por outro lado, havia muitas perguntas no ar:

– Quem estava por trás destes ataques? Qual era seu objetivo?  Quando seria o próximo ataque? Quem seria a próxima vítima?

Como fazia frequentemente, Tiago criou uma teoria surpreendente para explicar o que estava acontecendo:

– Pessoal, já sei! Um fantasma está atacando quem fica na sala na hora do recreio, por isso ninguém enxerga ele.

Guilherme não concordou com Tiago:

– Mas que bobagem, Ti! Meu pai disse para mim que fantasmas não existem. Além disso, por que este fantasma nunca atacou a Clara que fica quase todos os recreios na sala?

Tiago não se deu por vencido e retrucou:

– Gui, nem este fantasma quer brincar com a Clara!

Neste momento, a professora interferiu na discussão:

– Amigos, por favor, mais respeito! Vocês podem conversar, mas não vamos ofender os colegas, certo?

As semanas passaram e ninguém mais ficava sozinho na sala de aula durante o recreio. Se alguém precisasse pegar alguma coisa na mochila, outro colega o acompanharia. Assim Clara não teve nova oportunidade de usar o feitiço totute contra seus colegas.

Um dia Tiago teve uma ideia e chamou seu amigo Guilherme para contá-la:

– Gui, já sei como pegar o fantasma “cosquento”. Num recreio, fico na sala sozinho e você fica escondido e aparece na sala de surpresa para ver o que está acontecendo…

Guilherme ficou admirado com a coragem do amigo e aceitou a missão na mesma hora. Combinaram que no dia seguinte colocariam o plano em prática.

No dia seguinte, conforme o combinado, Tiago voltou para a sala na metade do recreio. Quando Clara viu o colega voltando sozinho para a sala quase não acreditou. Será que a Bruxa Totute teria chance de executar mais uma etapa da sua vingança? Quando ela espiou pela porta da sala de aula, viu Tiago com a cabeça dentro da mochila, procurando alguma coisa. Ela chegou silenciosamente e começou mais uma sessão de cócegas. Ele tentava chamar o Guilherme, mas não conseguia. Clara estava tão empolgada com suas “totutes” que não percebeu que Guilherme estava na porta vendo tudo. Quando ele viu quem era o “fantasma” deu um grito:

– Clara, eu não acredito!!! Você! Não pode ser!

Clara ficou paralisada, não conseguia fazer mais nada… Foi descoberta e agora o que seria dela?

Os outros colegas e a professora, quando ouviram o grito de Guilherme, foram correndo para a sala e viram a cena. Tiago estava finalmente com a cabeça fora da mochila, recuperando o fôlego. Clara estava mais branca do que aquelas camisetas de propaganda de sabão em pó. Todos gritavam… A professora pediu calma, olhou para Clara e perguntou por que ela havia feito aquilo com seus colegas. Ela tentou responder, mas não conseguiu, começou a chorar e saiu correndo da sala. Entrou no banheiro e trancou a porta. A professora pediu que todos ficassem na sala, enquanto foi conversar com a desesperada Clara. Bateu na porta do banheiro e disse:

– Clara, estou sozinha. Por favor, abre a porta para conversarmos!

Após alguns segundos de hesitação, a menina abriu a porta com os olhos vermelhos e soluçando. A professora abraçou-a, ajeitou seu cabelo, fez um carinho no rosto e falou com uma voz doce:

– Clarinha, você é uma menina tão bem comportada. Nunca se meteu em brigas ou confusões. Por que você fez isto com seus colegas? Você não gosta deles?

Clara, entre soluços e lágrimas, respondeu:

– Profe, ninguém gosta de mim! Ninguém brinca comigo! Sou desprezada por todos desde que cheguei aqui.

A professora conteve o impulso inicial de dizer que aquilo não era verdade e pensou um pouco. Realmente ela não se lembrava de ter visto Clara brincando com os outros colegas. A menina raramente sorria ou expressava suas opiniões durante as aulas. Como ela não havia percebido isto antes? Agora não era mais hora de chorar sobre o leite derramado, era hora de resolver esta situação definitivamente. Ela perguntou para Clara se ela gostaria de ir para casa mais cedo.

Clara disse que sim. A professora falou que a condição seria ela vir normalmente à escola no dia seguinte. Depois levou Clara até a pedagoga que ficou conversando com ela, enquanto a professora telefonava para a mãe da menina. Inicialmente ela ficou muito preocupada, mas foi tranquilizada pela professora que disse que naquela hora Clara precisava de muita compreensão e de todo o carinho. A mãe da menina entendeu a mensagem e foi imediatamente à escola para levá-la para casa.

Quando a professora voltou para a sala, todos queriam saber o que aconteceu com a Clara, se ela voltaria ou sairia da escola. A professora pediu silêncio e perguntou se alguém sabia o que era “bullying”. Como ninguém conhecia a palavra, ela explicou:

– “Bullying” é uma palavra inglesa que significa o tratamento ruim que uma pessoa sofre todos os dias de seus colegas ou, no caso de uma escola, dos seus professores.

Carol levantou o braço e perguntou:

– Por que tratam mal esta pessoa? O que ela fez de errado?

A professora sorriu e respondeu:

– Boa pergunta, Carol! Geralmente a pessoa não fez nada errado, apenas é diferente, pode ser a altura, o peso, a cor da pele, o local onde nasceu, a religião que segue… Outras vezes, a pessoa tem mais dificuldade para aprender, ou troca algumas letras para falar, ou é gaga, ou o sotaque é diferente. E, às vezes, a pessoa apenas mudou de escola e não fala com os outros colegas porque é tímida.

A maioria da turma entendeu o que a professora queria dizer. Clara foi isolada, desprezada e sofreu com o deboche da turma. Eles fizeram “bullying” só porque Clara era tímida. Aqueles ataques foram a forma que ela encontrou para vingar-se deles. Desta vez, foi Tiago que levantou o braço e falou:

– Profe, a gente não sabia que estava maltratando a Clara. Agora nós entendemos e não vamos repetir, mas o jeito que ela encontrou para se vingar foi muito engraçado.

Todos começaram a rir. A professora então perguntou como poderiam resolver este problema. Guilherme foi o primeiro a falar:

– Eu quero ir até a casa da Clara para pedir desculpas e dizer que queremos que ela volte.

Carol e Tiago se ofereceram para acompanhar Guilherme. A professora disse que telefonaria para a mãe de Clara para combinar a visita.

Depois de acertar tudo, os três visitaram Clara na tarde daquele dia. Ela pediu desculpa pelos ataques. Os colegas disseram que estava tudo bem e, da mesma forma, pediram desculpas pelo modo que a tratavam na escola. Depois disso, conversaram animadamente e brincaram durante toda tarde. Clara explicou o que eram as “totutes” e os quatro riram muito…

Este foi o primeiro dia de uma grande amizade que durou por todas as vidas de Gui, Ti, Carol e Clara, a Fada Totute.

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Não Esqueçam seus Objetivos Pessoais no Avião

Quando viajo para fora do Brasil, através de uma empresa aérea estrangeira, costumo prestar a atenção na comunicação em português feita pelos comissários de bordo. Às vezes o funcionário é brasileiro e o aviso, evidentemente, fica perfeito. Noutras ocasiões, o comissário estrangeiro domina bem a língua de Camões e Machado de Assis. Finalmente existem os casos onde o comissário tem muitas dificuldades com nosso idioma e hesitações, erros e confusões acontecem. Ontem, logo após a aterrissagem em São Paulo do voo originário de Toronto, aconteceu a terceira alternativa. Após os avisos em inglês e francês, veio uma enrolada comunicação em português:

– Não esqueçam seus objetivos pessoais no avião!

Comissária de bordo

Comissária de bordo

Claro que ele se referia aos objetos pessoais… Tive aquela vontade de dar boas risadas, olhei para o lado e outro passageiro estava com a mesma expressão irônica. Balancei a cabeça afirmativamente para ele que sorriu para mim. Voltei a me acomodar normalmente no meu assento, enquanto o avião taxiava na pista do Aeroporto de Guarulhos, mas a frase do comissário da Air Canada voltava logo na minha cabeça. Inicialmente dei algumas risadas, depois um pensamento perturbador me atingiu. Havia sentido na frase do canadense. Não esquecemos nossos objetivos pessoais apenas nos aviões, também os deixamos para trás no trânsito, nos nossos lares, nos nossos locais de trabalho, enfim, em todos os lugares.

Na maior parte do tempo, seguimos como no refrão daquele samba do Zeca Pagodinho:

– Deixa a vida me levar…

Zeca Pagodinho

Zeca Pagodinho

Claro que nossos valores são a base de tudo. Eles nos dão as balizas do que pode e do que não deve ser feito na busca dos nossos objetivos pessoais. Isto não quer dizer que eles sejam imutáveis, porque podemos modificar nossa visão em relação a tudo – ética, família, religião, natureza, animais… De qualquer forma, os valores deverão ser sempre respeitados na busca de nossos objetivos, porque os fins não podem justificar os meios!

Quais são objetivos pessoais a seguir?

Quais são objetivos pessoais a seguir?

Do mesmo modo, os objetivos pessoais vão mudando ao longo da vida, porque dependem dos valores, da maturidade e dos conhecimentos de cada um. O que não é admissível é viver sem propósitos ou passar anos fazendo alguma coisa que não ajude a aproximar-se dos objetivos. Nesta hora, precisamos de atenção para não esquecer nossos objetivos pessoais “em qualquer lugar” e virar passageiro da própria vida. Se os objetivos ainda são válidos e não estamos agindo proativamente para atingi-los, devemos nos munir de coragem para reverter a situação. Afinal a vida é um dom precioso demais para ser displicentemente desperdiçada.

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Ratatouille

Uma das cenas mais tocantes, que eu já assisti no cinema, é aquela em que o crítico de culinária Anton Ego, no filme de animação Ratatouille, prova o prato de mesmo nome no Restaurante Gusteau’s. Sem dúvida, a magia da viagem para a sua infância remota, quando come o mesmo prato preparado por sua mãe, e a redescoberta da alegria de desfrutar as coisas simples da vida são de uma singeleza cativante. Abaixo você pode ver ou rever esta bela cena.

Lembro este momento mágico do cinema, porque a Claudia incluiu no menu vegetariano da família um maravilhoso ratatouille. Voltarei no final deste post para comentar o final do filme, quando Anton Ego faz um depoimento sobre os críticos e suas críticas. Agora passo o bastão para a Claudia.

Ratatouille

Ratatouille – foto do prato antes de ser assado no forno

Ingredientes:

1 cebola média roxa
1 dente de alho
5 tomates italianos maduros
1 abobrinha
1 berinjela
1 pimentão amarelo pequeno
1 bandeja de cogumelos shitake
1 vidro de molho vermelho pronto (sugestão: molho de manjericão De Cecco)
sal, pimenta e azeite de oliva.

Se você não quiser usar o molho pronto, é só usar mais tomates vermelhos sem a pele e sem as sementes e temperos a gosto.

Modo de preparo:

1. Molho

Picar a cebola, o pimentão e o alho em pedaços pequenos.
Picar um tomate grosseiramente (sem pele e sem sementes).
Picar os cogumelos em fatias largas (1 cm).
Refogar a cebola e o alho.
Assim que a cebola murchar, acrescentar os cogumelos e o pimentão.
Refogar pouco, os cogumelos não precisam ficar no ponto, pois o prato ainda irá para o forno.
Acrescentar o molho de tomate e acertar o tempero a gosto.

Este molho vai no fundo da forma pequena (aproximadamente 20 x 30 cm).

2. Montagem e Finalização do Prato

Fatiar a berinjela, a abobrinha e os outros tomates em rodelas com espessura de em torno de 0,5 cm. Escolha legumes com diâmetros parecidos, o prato fica mais bonito após a montagem.
Sobre o molho disponha as rodelas de berinjela, abobrinha e tomate, como na foto. Depois de preencher toda a forma, polvilhar sal e pimenta e regar com bastante azeite de oliva.
Assar até a berinjela ficar “marronzinha” e murcha. Costumo assar a 200°C por uns 30 a 40 min.

Se quiserem assistir uma receita parecida, recomendo o vídeo abaixo.

Para acompanhar o prato, no domingo passado, degustamos o ótimo vinho gaúcho Boscato Reserva Merlot, safra 2007.

Para concluir, assista ao final do Ratatouille, vencedor do Oscar de Melhor Filme de Animação de 2008.

“A mais simples porcaria talvez seja mais significativa do que nossa crítica.” Esta é uma grande frase, a presunção de superioridade, muitas vezes nos impede de perceber o valor nas coisas e ações mais simples. Como dizia o chef Auguste Gusteau, “todos podem cozinhar”. Todos podem cozinhar, desenhar, escrever, fazer o que tiverem vontade… Isto não significa que todos serão gênios, mas podem fazer o suficiente para propiciar felicidade para si e para as pessoas que o cercam. Neste momento, o excesso de rigor na crítica, ao invés de ajudar, pode levar a pessoa simplesmente a desistir de uma atividade prazerosa.

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As Boas Derrotas da Vida

Li na sexta-feira no LinkedIn um texto aparentemente despretensioso de Peter Guber. Aqueles que nunca ouviram falar nele, por gentileza, juntaram-se a mim, porque também nunca tinha ouvido nele anteriormente. Guber é o fundador e CEO da Mandalay Entertainment, que produz filmes para o cinema, séries para a TV, além de ser proprietário de várias franquias de esportivas, sendo as principais o Golden State Warriors (time de basquete da NBA) e Los Angeles Dodgers (time de beisebol da MLB). Por que resolvi comentar este texto aqui no blog? Simplesmente enxergamos o que nos cerca através dos filtros que usamos no momento.

Peter Guber

Peter Guber

No final de semana passado, perdi para mim mesmo. Tive algumas reações que eu deveria controlar, mas não consegui… Muitas vezes enfrentamos casos assim, achamos que estamos dominando tudo e de repente, algo nos derruba. Nestes momentos, temos duas opções para encarar a situação:

1. O problema está no exterior – outras pessoas, azar, ambiente;
2. O problema está dentro de nós.

Claro que acontecem muitas coisas que nos atingem que não temos controle algum. Não tenho a visão ingênua de que tudo depende exclusivamente de mim, mas não podemos acreditar que somos uma vítima da sociedade, dos governos e das corporações e, por não termos poder comparável, nada podemos fazer. Por outro lado, devemos ter auto-controle e não revidar simplesmente uma agressão com outra, porque perdemos assim todo nosso equilíbrio.

Guber cita a declaração do maior jogador de basquete de todos os tempos, Michael Jordan, quando foi homenageado por ocasião do seu aniversário de 50 anos:

– Já perdi mais de 9.000 arremessos em minha carreira. Eu perdi quase 300 jogos. Em 26 ocasiões me foi confiada a oportunidade de vencer o jogo, acertando um arremesso e eu perdi. Eu falhei uma e outra e outra vez na minha vida. E é por isso que eu consegui.

Michael Jordan

Michael Jordan

Se Jordan entrasse em depressão após cada um destes fracassos, ele jamais teria atingido os níveis de excelência superados durante sua exitosa carreira. Cada erro se tornava um estímulo para seguir em frente e fazer cada vez melhor. Após minha péssima noite de domingo, no dia seguinte já tinha pensado em tudo que poderia fazer para evitar a repetição daqueles erros. Da mesma forma, usando uma gíria esportiva, não podemos usar “salto alto”, porque todas as vezes em que acreditamos que nada nos derrubará, acabamos caindo sozinhos. Nestas horas, a dor, a vergonha e a tristeza de não ter feito o que devíamos será nossa maior derrota.

Encerro o post, comentando uma frase realista de Guber:

– Você como um líder deve reconhecer que o sucesso tem muitos pais e fracasso é órfão. E é no fracasso que a sua liderança é mais necessária.

Ou seja, o fracasso deve ser encarado de frente, as causas devem ser analisadas e ações devem ser efetivadas para evitar a repetição. Quando temos uma postura positiva, atingimos novos níveis de excelência. Nesta hora, tentaremos fazer coisas mais complexas e, eventualmente, falharemos de novo. Nesta hora, devemos repetir o mesmo processo, ter a mesma atitude e seguir em frente.

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Agnus Dei, Agnus Homines

Um velhinho octogenário, baixo, cabelos brancos está sentado na mesa de trabalho no interior dos seus aposentos. Seu mordomo anuncia a chegada e pergunta no que pode servi-lo. O velhinho retira seus óculos de leitura, encara seu interlocutor e após longos segundos fala:

– Paolo, você se lembra de nossa conversa sobre a missão espinhosa que estou enfrentando? Você tem certeza de que deseja sacrificar sua vida por esta causa?

O mordomo sem titubear responde:

– Claro Vossa Santidade! O que sinto mais fortemente dentro de mim é a convicção de que agirei exclusivamente por amor, eu diria um amor visceral, pela Igreja de Cristo e seu representante!

Ao ouvir isto, o Papa deschaveou a segunda gaveta do lado direito da mesa, ergueu-se lentamente e disse:

– Então você sabe o que fazer! Que Deus te projeta e tenha misericórdia de nossas almas…

Vagarosamente Bento XVI caminhou até a peça ao lado, onde se ajoelhou no oratório e começou a rezar. Enquanto isso, Paolo retirava da gaveta uma série de cartas e documentos, colocou-os dentro de uma fronha, depois enrolou tudo com uma toalha. Desceu as escadas até o vestiário, trancando o material precioso em seu armário.

Papa Bento XVI com seu mordomo Paolo Gabriele

Papa Bento XVI com seu ex-mordomo Paolo Gabriele

O resto da história todo mundo já sabe. Era janeiro de 2012, Paolo Gabriele, mordomo pessoal do Papa há seis anos, entregou os documentos jornalista italiano Gianluigi Nuzzi. Estava criado o Vatileaks, escândalo que escancarou as lutas pelo poder no Vaticano, corrupção, nepotismo e lavagem de dinheiro no IOR (Istituto per le Opere di Religione, vulgo Banco do Vaticano).

Atenção - Aviso Importante

Claro que o início deste post é uma obra de ficção, mas poderia ter acontecido da forma que descrevi acima. Se nos aprofundarmos nas teorias conspiratórias, lembro-me do caso de Albino Luciani, o Papa João Paulo I, popularmente conhecido como “Papa Sorriso”. Em 1978, ele foi escolhido para substituir Paulo VI, mas seu pontificado durou apenas 34 dias. Oficialmente ele teve morte natural, provavelmente ataque cardíaco, mas não foi feita autópsia. O jornalista britânico David Yallop afirma em seu livro ”Em Nome de Deus” que o Papa morreu envenenado, porque no dia seguinte ele excluiria toda a cúpula do IOR. Se esta versão é verdadeira ou fantasiosa, não sabemos, mas talvez Bento XVI tenha decidido não arriscar…

Papa João Paulo I, o Papa Sorriso

Papa João Paulo I, o Papa Sorriso

Voltando para minha versão sobre o mentor do Vatileaks, o Papa atual não contava com a passividade do rebanho dos católicos. Parece que houve mais indignação com o vazamento dos documentos do que com o conteúdo em si. Deste modo, Bento XVI preocupou-se em “limpar a barra” de seu mordomo Paolo da melhor forma possível, perdoando-o e libertando-o no final do ano passado. Na sequência tomou uma decisão surpreendente, optou pela renúncia, voltando a iluminar, com uma potência ainda maior desta vez, todos os escândalos e mazelas da Igreja Católica. Todas suas manifestações a partir da divulgação da sua decisão de renunciar foram contundentes como esta:

– É preciso superar individualismos e rivalidades que deturpam a face da Igreja.

Tenho um desejo utópico que a Igreja Católica se refundasse neste conclave e retornasse à sua origem baseada nos ensinamentos de Jesus, no amor e na compaixão. Por outro lado, gostaria que assuntos onde a Igreja tem sido retrógrada como, por exemplo, contracepção, pesquisa com células tronco, eutanásia e homossexualismo fossem discutidos abertamente e houvesse expressivos avanços nos próximos anos.

Para não ficar restrito apenas aos escândalos da Igreja Católica, não podemos aceitar que, em nome da religião, haja enriquecimento ilícito de “Ministros de Deus”, como lemos recentemente em um artigo da Revista Forbes sobre os pastores evangélicos mais ricos do Brasil (link abaixo).

http://forbesbrasil.br.msn.com/negocios/bispo-edir-macedo-%C3%A9-o-pastor-mais-rico-do-brasil-com-uma-fortuna-de-usdollar-950-milh%C3%B5es

Principalmente eu desejaria que todos se tornassem Papas de sua própria fé, sem intermediários como já apresentei no post Descoberta a Nova Redação do Primeiro Mandamento. Cada pessoa estaria livre para criar sua ligação com o Ente Supremo da forma que julgar melhor para si. Isto parece ser um ato egoísta, mas nada é mais individual, em minha opinião, do que a espiritualidade. Quanto ao dízimo, um empresário, ao invés de pagar 10% do seu lucro a uma Igreja qualquer, poderia criar um negócio social, onde seriam gerados empregos e renda para comunidades carentes. Um trabalhador poderia doar 10% do seu salário para as entidades de sua confiança e auxiliar o segmento que ele se identifica mais como crianças, idosos, deficientes físicos ou mentais, animais abandonados, meio ambiente. Além disto, obviamente, todos deveriam “botar as mãos na massa” para fazer um mundo melhor. Desta forma, quem acredita em Deus será um agnus Dei (cordeiro de Deus), ao invés de ser um agnus homines (cordeiro dos homens) e simplesmente seguir as orientações de pessoas que se colocam como intermediários entre o Céu e a Terra.

Agnus Dei, o cordeiro de Deus

Agnus Dei, o cordeiro de Deus

Se “meu latim” estiver errado, por gentileza, corrijam…

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Privacidade, Intromissão e Exibicionismo

No penúltimo post, comentei rapidamente sobre dois livros importantes da literatura mundial, Admirável Mundo Novo de Aldous Huxley e 1984 de George Orwell. Quem acompanha meu blog já conhece meu otimismo em relação ao futuro da humanidade, mas atualmente a quantidade de informações disponíveis sobre os indivíduos na rede é tão grande que me leva a fazer algumas considerações.

Hoje, sob a justificativa de que a segurança dos indivíduos e comunidades deve ser garantida, uma série de ações para rastrear as atividades já é executada normalmente com o consentimento da maioria das pessoas:

– a Internet é monitorada para evitar ações criminosas como pedofilia, fraudes, lavagem de dinheiro, etc.;
– as movimentações bancárias são vasculhadas e avalia-se a compatibilidade com a evolução do patrimônio;
– as compras no cartão de crédito são registradas; e as tendências, analisadas.

Nunca os Estados tiveram tantos recursos para monitorar a vida dos seus cidadãos. Infelizmente apenas os aspectos positivos destas ações são percebidos. Sem dúvida alguns procedimentos podem ameaçar as democracias, especialmente se forem conjugadas com a apatia das pessoas. Já ouvi apoio para a colocação de chips em pessoas e para sistemas de leitura da mente. No primeiro caso, sequestros poderiam ser inibidos, mas o chip daria a localização exata de cada indivíduo para os Serviços de Inteligência do país. Os sistemas de leitura da mente seriam ótimos para dar mais autonomia aos tetraplégicos, também poderiam ser o canal de comunicação com pessoas em estado vegetativo, mas os mesmos Serviços de Inteligência poderiam usá-los para descobrir as ideias e opiniões das pessoas.

Big Brother de George Orwell

Big Brother de George Orwell

A grande maioria das pessoas não deseja que suas preferências sejam gravadas por sites de busca como o Google. Afinal onde está a privacidade? Queixa-se também quando recebem E-mails comerciais baseados em cadastros de clubes sociais, clubes esportivos ou cadastro dos cartões de crédito. Por outro lado, as mesmas pessoas que reclamam ao ter a privacidade “violada”, postam fotos, vídeos e opiniões comprometedoras em redes sociais.

redes-sociais

O que leva a este tipo de comportamento? Parece que muitas pessoas buscam aceitação, reconhecimento social e fama a qualquer custo. Abraham Maslow há 70 anos formulou sua Teoria da Hierarquia das Necessidades, conhecida popularmente como a Pirâmide de Maslow. Existem críticas que dizem ser impossível criar um modelo universal, por outro lado as necessidades variam de acordo com as circunstâncias, mas acredito que este modelo é um bom ponto de partida para esta análise.

Piramide de Maslow

Pirâmide de Maslow

Os dois primeiros níveis da pirâmide (fisiológico e segurança) são os mais objetivos. Dizem respeito à alimentação, saúde, moradia, emprego, renda mínima e paz. O terceiro nível (social) refere-se aos relacionamentos, amizades, amor e família. Nestas épocas digitais, onde as pessoas se esforçam para ter mais amigos no Facebook, até mesmo o conceito de amizade mudou. Os amigos de carne e osso reais, que oferecem o ombro nos momentos difíceis e nos dizem o que devemos ouvir, foram substituídos por outros que curtem tudo o que postamos, mas isto satisfaz muita gente…

O nível da pirâmide relativo ao status e a autoestima é mais fácil de ser compreendido. Muitas pessoas acreditam que o importante é aparecer, não importa a forma. Ou seja, não importa o que falam, bem ou mal, o essencial para o ego é ser visto e comentado por muitos. Toda esta leva de subcelebridades e pseudomodelos se encaixa nesta forma de agir. Neste momento, percebo que é praticamente impossível para estas pessoas atingirem a autorrealização, porque não têm a mínima ideia do que realmente tem valor, é importante ou quais seriam os propósitos das suas vidas.

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A Vida de Pi

Fui assistir no cinema ao filme “As Aventuras de Pi” de Ang Lee nesta semana. Além de uma belíssima fotografia realçada pela profundidade obtida pelo efeito 3D, a história é incrível. Este é daqueles filmes em que as pessoas saem silenciosas, pensando no que viram… Veja o trailer abaixo.

Life of Pi

Vou começar pelo início, o título é mais uma destas versões infelizes, o original está muito mais adequado “Life of Pi”, porque apresenta a visão autobiográfica do protagonista da infância até a entrevista com a empresa japonesa que investigava as razões do naufrágio do navio em que ele viajaria da Índia ao Canadá.

Cartaz do Filme

Cartaz do Filme

Piscine Molitor Patel (Pi Patel) cresce com os pais e o irmão mais velho em um zoológico no interior da Índia. Neste período, através da sua mãe, ele tem contato e se torna adepto do Hinduísmo, cultuando em especial Brahma, o criador do universo, e Vishnu, seu conservador. Na sequência, tem contato com o Cristianismo, através de um padre, e passa a ter admiração por Jesus. Depois se torna mulçumano sem abandonar a fé pelas duas outras religiões. Seu pai é racionalista e diz que as religiões são trevas, esta opinião foi forjada quando, na infância, ele teve poliomielite e não foi curado por Deus e sim pela medicina ocidental. Durante um jantar, diz que a humanidade evoluiu muito mais por causa da tecnologia do que pela religião. Sua mãe contra-argumentou que a tecnologia explica o que acontece fora das pessoas, mas a fé ajuda a entender o que acontece no coração de cada um.

Vishnu

Vishnu

Quando recebem um tigre para o zoológico, chamado Richard Parker, Pi resolve alimentá-lo, segurando na mão um pedaço de carne. O tigre aproxima-se, enquanto Pi olha fixamente nos olhos da fera. Na hora “h”, seu pai chega e o puxa para longe da jaula. Pi argumenta que os animais tem alma e ele tinha visto isto olhos do tigre. Seu pai fala que os animais agem diferentemente dos humanos e que seu filho tinha visto apenas o reflexo de seus próprios sentimentos. Reflexo é uma palavra chave no filme!

Seu pai resolve emigrar para o Canadá, vendendo todos seus animais neste país. Na viagem, o navio afunda durante uma forte tempestade e os únicos sobreviventes em um bote salva-vidas são Pi, uma zebra com a pata quebrada, uma hiena, uma orangotango fêmea e o tigre Richard Parker. O nome do navio, Tsimtsum, também não foi escolhido ao acaso, na cabala judaica, significa a contração da luz infinita de Deus, formando um “espaço vazio” em que um mundo finito e aparentemente independente poderia existir. No filme, o naufrágio do Tsimtsum criou um espaço para o mundo finito (bote) de Pi.

Pi e Richard Parker no bote

Pi e Richard Parker no bote

O vegetariano Pi se obriga a matar e comer peixes, passa por inúmeras privações junto com o tigre Richard Parker que é dessedentado e alimentado por ele. Mesmo assim eles nunca se tornaram amigos, mas Pi credita ao tigre uma parcela importante da sua sobrevivência por tê-lo mantido alerta durante todo o tempo.

Ao enfrentar uma grande tempestade no bote, ele tem um momento de deslumbramento e terror. Nesta ocasião e depois de um tempo, quando já estava cansado e desnutrido, ele sente a morte aproximando-se e oferece sua alma a Vishnu. Finalmente chega a uma praia mexicana, o tigre desce do bote, caminha em direção de uma floresta e simplesmente desaparece.

Tigre Richard Parker indo embora...

Tigre Richard Parker indo embora…

A segunda versão da história relatada por PI para os japoneses responsáveis pela investigação do acidente nos faz compreender o que realmente aconteceu. A conclusão sobre o filme pode ser superficial ou profunda, simples ou complexa, conforme a interpretação de cada um. Todos temos dentro de nós um tigre e podemos desempenhar inúmeros papéis, dependendo da situação. Não nos orgulhamos, ou até mesmo nos arrependemos, de alguns destes papéis, por isso tentamos enjaular nossos tigres. Por outro lado, o exterior (céu, oceano ou um ente supremo) não trouxe respostas ou alimentou o divino para Pi. Nenhuma das três religiões que ele seguia lhe mostrou um caminho, apenas sua força e fé internas lhe mantiveram vivo. Em determinado momento do filme, Pi Patel já adulto disse:

– A fé é uma casa de muitos quartos.

Ou seja, o importante é cultivar uma espiritualidade, independente de religião, etnia e influência política ou social. Deve ser autêntico e genuíno de cada pessoa! E como aconselhou Santosh Patel, o pai do Pi, ao seu filho:

– Não siga nada cegamente!

Eu completaria ainda, nem nossos próprios pensamentos devem ser seguidos cegamente…

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O “Não” Heroico da História Brasileira

Faz mais de 30 anos que eu li o livro “Admirável Mundo Novo” (título original “Brave New World”) de Aldous Huxley. Foi a primeira vez que li sobre um sistema político autoritário baseado na estabilidade política e social. A sociedade criada por Huxley era dividida em castas determinadas através de seleção genética e controle do processo da gestação e educação.

Mais tarde, li dois livros de George Orwell , “A Revolução dos Bichos” (título original “Animal Farm”) e “1984”. No primeiro livro, os animais se rebelam contra os donos da fazenda devido à exploração e aos maus-tratos a que eram submetidos. Com o passar do tempo, uma nova classe dominante de porcos é criada e as condições dos outros animais ficam até piores do que antes. No livro 1984, o mundo estava dividido em três grandes países em conflito. O sistema era muito autoritário e os cidadãos eram controlados por telas e câmeras instaladas nas casas. Quem via e controlava tudo era o Grande Irmão (o famoso Big Brother).

Aldous-Huxley_George-Orwell

Nestes três livros, tínhamos uma série de coincidências:

– havia um grupo dominante que se instalou no poder;
– a propaganda oficial era muito forte para convencer a população;
– os dissidentes eram tratados brutalmente – banidos, presos, torturados e mortos;
– inimigos externos e internos eram criados ou, pelo menos, maximizados para desviar a atenção do povo.

Este é manual de qualquer sistema ditatorial. Lembro um caso ocorrido no Brasil em 1968 na época da ditadura militar. O brigadeiro João Paulo Burnier criou um plano de criar uma série de atentados para responsabilizar a oposição ao regime. Inicialmente seriam colocadas bombas nas portas de agências do Citibank, de lojas da Sears e da Embaixada dos Estados Unidos para parecer que eram ações de comunistas contra alvos americanos. Na sequência, seriam realizadas duas grandes ações simultâneas, as explosões da Represa de Ribeirão das Lajes e do Gasômetro de São Cristóvão no Rio de Janeiro. O primeiro alvo deixaria o Rio sem abastecimento de água e, muito pior, a explosão do gasômetro deveria ser feita na hora do rush às 18 horas para causar milhares de vítimas. Para finalizar, aproveitando o caos que se instalaria após os atentados, 40 personalidades seriam sequestradas e assassinadas.

Brigadeiro João Paulo Burnier

Brigadeiro João Paulo Burnier

Burnier escolheu o Para-Sar (paraquedistas do Esquadrão Aeroterrestre de Salvamento) da Aeronáutica e contou o plano para seu comandante, Sérgio Ribeiro Miranda de Carvalho, mais conhecido como Sérgio Macaco. Ele rejeitou imediatamente a missão, mas o brigadeiro convocou uma nova reunião com a presença de outros oficiais que participariam da execução do plano, quando explicou que em três casos eles deveriam matar:

– na guerra para cumprir uma missão;
– na guerra civil contra revolucionários;
– em tempos de paz para cumprir missões contra os adversários.

Sérgio Macaco com seus colegas da Aeronáutica

Sérgio Macaco com seus colegas da Aeronáutica

Burnier perguntou aos oficiais se concordaram com a missão. Os quatro primeiros disseram que “sim”. Sérgio Macaco disse que concordava com os dois primeiros casos, mas que considerava o terceiro “imoral, inadmissível a um militar de carreira”. Só não foi preso ou morto naquele momento devido aos seus subordinados que estavam presentes e neutralizaram os demais soldados armados na sala. Ele denunciou o esquema para as maiores autoridades militares do país. O atentado não foi realizado, mas Sérgio Macaco foi exonerado, perdendo seu emprego na Aeronáutica.

No Panteão da Pátria e da Liberdade localizado em Brasília, existe o chamado “Livro dos Heróis da Pátria”. Com certeza, Sérgio Ribeiro Miranda de Carvalho deveria ter seu nome gravado neste livro, porque ele agiu dentro de uma ética e de patriotismo irretocáveis. O número de vítimas evitadas devido a sua posição firme foi enorme e o Brasil poderia ser sofrido uma ditadura muito mais sangrenta aos moldes do que aconteceu, por exemplo, na Argentina.

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Os Heróis da Casa Mais Vigiada do Brasil

Ontem começou mais uma edição do reality show de maior sucesso da televisão brasileira, o BBB, Big Brother Brasil. Por incrível que possa parecer, a edição atual já é a 13ª deste programa! Confesso que minha opinião sobre a estreia de ontem segue aquela linha de Oswald de Andrade:

– Não vi e não gostei!

Assisti ao primeiro BBB em 2002 por ser uma novidade que julguei ter potencial para ser interessante. Naquele programa, houve um momento hilário, no qual o participante Bambam entra em desespero após o desaparecimento de uma boneca que ele construiu, a Maria Eugênia.

Bambam e sua boneca Maria Eugênia

Bambam e sua boneca Maria Eugênia

Vi pouca coisa do segundo programa da série e não gostei de praticamente nada. Então decidi não assistir mais os próximos BBB’s. Me senti um alienado do mundo, porque na hora do almoço ou no café do meu trabalho só se falava nisto e eu ficava com aquela cara de “paisagem”…

Poderiam ter explorado melhor o conceito interessante de manter um grupo de pessoas desconhecidas confinadas em uma casa sem informação do mundo exterior. Seriam criados testes e situações para serem estopins de diferentes reações dos participantes. No final, psicólogos analisariam os resultados.

Agora inventaram uma tal de casa de vidro, que foi instalada em um Shopping de São Paulo, onde seis pessoas estão expostas à curiosidade do público. Duas destas pessoas receberão como prêmio a classificação para a edição atual do BBB. Em cada inserção na programação da Globo, a tal casa aparece cercada por jovens, adolescentes e crianças e dentro dela o tradicional padrão do programa, garotões sarados e belas mulheres.

Casa de vidro do BBB

Casa de vidro do BBB

Dentro da casa, a audiência é garantida, além dos belos corpos, através de muita briga, fofoca, intriga e festas regadas a bebidas alcoólicas à vontade. Apesar destes aspectos negativos que o programa inspira, o pior mesmo é o apresentador Pedro Bial chamar os “brothers” de heróis. O que é ser herói afinal?

Apresentador Pedro Bial

Apresentador Pedro Bial

O heroísmo, em minha opinião, carrega um lado de autossacrifício em prol dos outros. Estes participantes do BBB estão agindo com “heróis” dos próprios egos, na busca do prêmio de R$ 1,5 milhões. A maioria das mulheres ainda consegue contratos para posarem nuas em revistas masculinas após serem eliminadas do programa. Onde está o heroísmo? Cada “brother” não está jogando de forma egoísta para si?

Alguém conhece Clodomiro Ferreira? Ele provavelmente ainda trabalha como servente de limpeza no Aeroporto Salgado Filho, em Porto Alegre. Há um ano, ele encontrou, no banheiro do aeroporto, uma pochete com documentos, dinheiro e a câmera de um casal chileno. Não hesitou em devolver, após pedir ao sistema de som do aeroporto chamar o casal.

Clodomiro devolve a pochete para o casal chileno

Clodomiro devolve a pochete para o casal chileno

No mesmo aeroporto, aconteceu, mais ou menos na mesma época, o caso do servente de limpeza Davi dos Santos Pereira que encontrou uma nécessaire com R$ 24 mil e encaminhou imediatamente ao balcão da Infraero. O dono acabou recuperando o dinheiro. Estes casos acontecem com “surpreendente” frequência e as atitudes destes serventes não parecem muito mais heroicas do que as pseudo-celebridades do BBB?

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Quando nos sentimos pais

No curso sobre parto humanizado, todos os homens eram marinheiros de primeira viagem com exceção deste blogueiro. Ouvi os comentários deles sobre os filhos que nasceriam brevemente e ninguém estava seguro de como seria a vida pós-parto.

No alto da minha experiência de pai por duas vezes a espera de uma nova filha, fiz alguns comentários. Em primeiro lugar, a maior mudança na vida dos casais não é o casamento; são os filhos! A partir do nascimento, perdemos aquela irresponsabilidade gostosa de fazer o que passar pela cabeça:

– Praia deserta? Com o bebê, nem pensar…
– Balada de noite? Onde deixar o bebê?
– Viagens? Tem que levar tanta coisa…
– Restaurante? E se o choro incomodar os outros clientes?

Não falei outra coisa para o pessoal naquele dia, porque alguém poderia estar nesta situação:

– Filho não salva casamento! Por sinal, normalmente filhos aceleram o fim dos casamentos problemáticos…

Na sequência, copiei o Poema Enjoadinho do “Poetinha” Vinicius De Moraes sobre filhos, assunto que ele afinal entendia bem (teve 5 filhos). Você pode assistir à apresentação do inesquecível Paulo Autran.

Filhos… Filhos?
Melhor não tê-los!
Mas se não os temos
Como sabê-los?
Se não os temos
Que de consulta
Quanto silêncio
Como os queremos!
Banho de mar
Diz que é um porrete…
Cônjuge voa
Transpõe o espaço
Engole água
Fica salgada
Se iodifica
Depois, que boa
Que morenaço
Que a esposa fica!
Resultado: filho.
E então começa
A aporrinhação:
Cocô está branco
Cocô está preto
Bebe amoníaco
Comeu botão.
Filhos? Filhos
Melhor não tê-los
Noites de insônia
Cãs prematuras
Prantos convulsos
Meu Deus, salvai-o!
Filhos são o demo
Melhor não tê-los…
Mas se não os temos
Como sabê-los?
Como saber
Que macieza
Nos seus cabelos
Que cheiro morno
Na sua carne
Que gosto doce
Na sua boca!
Chupam gilete
Bebem xampu
Ateiam fogo
No quarteirão
Porém, que coisa
Que coisa louca
Que coisa linda
Que os filhos são!

Vinícius de Moraes

Vinícius de Moraes

O segundo ponto, que comentei com os homens do curso, é mais polêmico. Quando nos sentimos pais? Os bebês estão no ventre materno durante nove meses. A futura mãe, na verdade, já se sente mãe desde o momento em que sabe que está grávida. No caso do pai, é bem diferente… O feto está se desenvolvendo externamente, sem contato direto com o pai e, na verdade, nós homens só os reconhecemos como nossos filhos quando eles nascem. E pior, nosso amor por eles não é instantâneo, cresce progressivamente. O sentimento fica cada dia mais forte, até nós não termos dúvidas que a vida do nosso filho é mais importante do que a nossa própria. É o amor incondicional do final do poema do Vinicius:

Que coisa louca
Que coisa linda
Que os filhos são!

Colegas pais, não sintam culpa por construirmos nosso amor pelos filhos de forma diferente do que nossas mulheres! Nossa natureza é diferente, nosso ritmo é diferente, percebemos o mundo de forma diferente… Mas ninguém nos acuse de amar menos nossos filhos…

Meus amorzinhos Júlia e Luiza

Meus amorzinhos Júlia e Luiza

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