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Privacidade, Intromissão e Exibicionismo

No penúltimo post, comentei rapidamente sobre dois livros importantes da literatura mundial, Admirável Mundo Novo de Aldous Huxley e 1984 de George Orwell. Quem acompanha meu blog já conhece meu otimismo em relação ao futuro da humanidade, mas atualmente a quantidade de informações disponíveis sobre os indivíduos na rede é tão grande que me leva a fazer algumas considerações.

Hoje, sob a justificativa de que a segurança dos indivíduos e comunidades deve ser garantida, uma série de ações para rastrear as atividades já é executada normalmente com o consentimento da maioria das pessoas:

– a Internet é monitorada para evitar ações criminosas como pedofilia, fraudes, lavagem de dinheiro, etc.;
– as movimentações bancárias são vasculhadas e avalia-se a compatibilidade com a evolução do patrimônio;
– as compras no cartão de crédito são registradas; e as tendências, analisadas.

Nunca os Estados tiveram tantos recursos para monitorar a vida dos seus cidadãos. Infelizmente apenas os aspectos positivos destas ações são percebidos. Sem dúvida alguns procedimentos podem ameaçar as democracias, especialmente se forem conjugadas com a apatia das pessoas. Já ouvi apoio para a colocação de chips em pessoas e para sistemas de leitura da mente. No primeiro caso, sequestros poderiam ser inibidos, mas o chip daria a localização exata de cada indivíduo para os Serviços de Inteligência do país. Os sistemas de leitura da mente seriam ótimos para dar mais autonomia aos tetraplégicos, também poderiam ser o canal de comunicação com pessoas em estado vegetativo, mas os mesmos Serviços de Inteligência poderiam usá-los para descobrir as ideias e opiniões das pessoas.

Big Brother de George Orwell

Big Brother de George Orwell

A grande maioria das pessoas não deseja que suas preferências sejam gravadas por sites de busca como o Google. Afinal onde está a privacidade? Queixa-se também quando recebem E-mails comerciais baseados em cadastros de clubes sociais, clubes esportivos ou cadastro dos cartões de crédito. Por outro lado, as mesmas pessoas que reclamam ao ter a privacidade “violada”, postam fotos, vídeos e opiniões comprometedoras em redes sociais.

redes-sociais

O que leva a este tipo de comportamento? Parece que muitas pessoas buscam aceitação, reconhecimento social e fama a qualquer custo. Abraham Maslow há 70 anos formulou sua Teoria da Hierarquia das Necessidades, conhecida popularmente como a Pirâmide de Maslow. Existem críticas que dizem ser impossível criar um modelo universal, por outro lado as necessidades variam de acordo com as circunstâncias, mas acredito que este modelo é um bom ponto de partida para esta análise.

Piramide de Maslow

Pirâmide de Maslow

Os dois primeiros níveis da pirâmide (fisiológico e segurança) são os mais objetivos. Dizem respeito à alimentação, saúde, moradia, emprego, renda mínima e paz. O terceiro nível (social) refere-se aos relacionamentos, amizades, amor e família. Nestas épocas digitais, onde as pessoas se esforçam para ter mais amigos no Facebook, até mesmo o conceito de amizade mudou. Os amigos de carne e osso reais, que oferecem o ombro nos momentos difíceis e nos dizem o que devemos ouvir, foram substituídos por outros que curtem tudo o que postamos, mas isto satisfaz muita gente…

O nível da pirâmide relativo ao status e a autoestima é mais fácil de ser compreendido. Muitas pessoas acreditam que o importante é aparecer, não importa a forma. Ou seja, não importa o que falam, bem ou mal, o essencial para o ego é ser visto e comentado por muitos. Toda esta leva de subcelebridades e pseudomodelos se encaixa nesta forma de agir. Neste momento, percebo que é praticamente impossível para estas pessoas atingirem a autorrealização, porque não têm a mínima ideia do que realmente tem valor, é importante ou quais seriam os propósitos das suas vidas.

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O “Não” Heroico da História Brasileira

Faz mais de 30 anos que eu li o livro “Admirável Mundo Novo” (título original “Brave New World”) de Aldous Huxley. Foi a primeira vez que li sobre um sistema político autoritário baseado na estabilidade política e social. A sociedade criada por Huxley era dividida em castas determinadas através de seleção genética e controle do processo da gestação e educação.

Mais tarde, li dois livros de George Orwell , “A Revolução dos Bichos” (título original “Animal Farm”) e “1984”. No primeiro livro, os animais se rebelam contra os donos da fazenda devido à exploração e aos maus-tratos a que eram submetidos. Com o passar do tempo, uma nova classe dominante de porcos é criada e as condições dos outros animais ficam até piores do que antes. No livro 1984, o mundo estava dividido em três grandes países em conflito. O sistema era muito autoritário e os cidadãos eram controlados por telas e câmeras instaladas nas casas. Quem via e controlava tudo era o Grande Irmão (o famoso Big Brother).

Aldous-Huxley_George-Orwell

Nestes três livros, tínhamos uma série de coincidências:

– havia um grupo dominante que se instalou no poder;
– a propaganda oficial era muito forte para convencer a população;
– os dissidentes eram tratados brutalmente – banidos, presos, torturados e mortos;
– inimigos externos e internos eram criados ou, pelo menos, maximizados para desviar a atenção do povo.

Este é manual de qualquer sistema ditatorial. Lembro um caso ocorrido no Brasil em 1968 na época da ditadura militar. O brigadeiro João Paulo Burnier criou um plano de criar uma série de atentados para responsabilizar a oposição ao regime. Inicialmente seriam colocadas bombas nas portas de agências do Citibank, de lojas da Sears e da Embaixada dos Estados Unidos para parecer que eram ações de comunistas contra alvos americanos. Na sequência, seriam realizadas duas grandes ações simultâneas, as explosões da Represa de Ribeirão das Lajes e do Gasômetro de São Cristóvão no Rio de Janeiro. O primeiro alvo deixaria o Rio sem abastecimento de água e, muito pior, a explosão do gasômetro deveria ser feita na hora do rush às 18 horas para causar milhares de vítimas. Para finalizar, aproveitando o caos que se instalaria após os atentados, 40 personalidades seriam sequestradas e assassinadas.

Brigadeiro João Paulo Burnier

Brigadeiro João Paulo Burnier

Burnier escolheu o Para-Sar (paraquedistas do Esquadrão Aeroterrestre de Salvamento) da Aeronáutica e contou o plano para seu comandante, Sérgio Ribeiro Miranda de Carvalho, mais conhecido como Sérgio Macaco. Ele rejeitou imediatamente a missão, mas o brigadeiro convocou uma nova reunião com a presença de outros oficiais que participariam da execução do plano, quando explicou que em três casos eles deveriam matar:

– na guerra para cumprir uma missão;
– na guerra civil contra revolucionários;
– em tempos de paz para cumprir missões contra os adversários.

Sérgio Macaco com seus colegas da Aeronáutica

Sérgio Macaco com seus colegas da Aeronáutica

Burnier perguntou aos oficiais se concordaram com a missão. Os quatro primeiros disseram que “sim”. Sérgio Macaco disse que concordava com os dois primeiros casos, mas que considerava o terceiro “imoral, inadmissível a um militar de carreira”. Só não foi preso ou morto naquele momento devido aos seus subordinados que estavam presentes e neutralizaram os demais soldados armados na sala. Ele denunciou o esquema para as maiores autoridades militares do país. O atentado não foi realizado, mas Sérgio Macaco foi exonerado, perdendo seu emprego na Aeronáutica.

No Panteão da Pátria e da Liberdade localizado em Brasília, existe o chamado “Livro dos Heróis da Pátria”. Com certeza, Sérgio Ribeiro Miranda de Carvalho deveria ter seu nome gravado neste livro, porque ele agiu dentro de uma ética e de patriotismo irretocáveis. O número de vítimas evitadas devido a sua posição firme foi enorme e o Brasil poderia ser sofrido uma ditadura muito mais sangrenta aos moldes do que aconteceu, por exemplo, na Argentina.

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