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A Máquina Fotográfica Digital, o Sexo e a Concordata de um Gigante

Confesso que até hoje tenho certo trauma em relação à atividade de tirar fotografias, talvez porque, no passado, havia um verdadeiro rito processual. Tudo começava com o ato de tirar a foto e aguardar que todo o filme fosse usado, depois se deixava o filme em um laboratório para ser revelado e, finalmente, as fotos eram pagas, retiradas e surgia o resultado. Muitas fotos “queimavam”, porque eram tiradas contra o sol. Algumas eram tortas ou mal enquadradas, cabeças eram cortadas com a mesma eficiência das guilhotinas da Revolução Francesa. Outras ainda saiam “tremidas” ou desfocadas. Existia muita expectativa sobre algumas fotos, podiam ser reuniões de famílias ou amigos, belas paisagens, alguma celebridade. Muitas vezes havia decepção com o resultado…

Assim se procurava minimizar os riscos de “perder” fotos, a atividade era quase exclusiva de adultos. Alguns casais pediam para o filho mais velho tirar uma fotografia deles, mas normalmente com baixa expectativa de sucesso. Lembro que, quando moramos em Passo Fundo, fizemos um passeio na cidade de Vacaria. Eu devia ter seis anos e meus pais se sentaram em um banco da praça principal da cidade e pediram para eu tirar uma foto deles. Quando o filme foi revelado, não apareceu a foto deles, no lugar dela havia uma linda foto das árvores da praça. Minha mira falhou…

As coisas melhoraram um pouco quando ganhei de presente alguns anos depois uma Kodak Instamatic.

Kodak Instamatic

Era mais fácil de colocar o filme e tirar fotos, mas as fotos eram quadradas e era difícil tirar uma foto realmente boa. Abaixo uma foto histórica tirada com esta máquina onde apareço com minha irmã e meus primos de Pelotas.

Primo Éverton (esquerda), eu, prima Simone e mana Flávia

Primo Éverton (esquerda), eu, prima Simone e mana Flávia

Tem algumas invenções que alteram nosso modo de se relacionar com o mundo e favorecem o aparecimento de novos talentos. Uma destas invenções é a máquina fotográfica digital.

Na metade da década de 70, aconteceram os primeiros desenvolvimentos nos laboratórios da Kodak, mas somente no final dos anos 80 e início dos 90 se iniciou a comercialização dos primeiros modelos. O preço inicialmente era muito mais alto do que as câmeras convencionais com filme. A resolução das fotos digitais também era muito inferior. As agências jornalísticas foram os primeiros a perceberem o potencial desta nova invenção, onde um repórter fotográfico podia tirar uma foto e transmiti-la pela linha telefônica para a redação do jornal. Depois surgiram as câmeras com visor de LCD, onde instantaneamente a qualidade da foto poderia ser conferida. O medo de desperdiçar fotos sumiu, poderiam ser tiradas quantas fotos cada um quisesse e só seriam preservadas as que ficassem boas. As crianças ganharam a permissão de experimentar. Uma revolução! Quando o preço caiu, as máquinas fotográficas com filme ficaram restritas a um nicho de mercado, os amadores migraram maciçamente para a novidade.

Até o grande fotógrafo brasileiro Sebastião Salgado aderiu à novidade durante seu último trabalho, Genesis, que traz imagens das regiões mais remotas da Terra. Assista ao vídeo sobre a abertura da turnê da exposição que ocorreu no Museu de História Natural de Londres.

Aqui em casa, nossa filha Júlia tira fotos e faz vídeos com a máquina fotográfica e, principalmente, com o smartphone da mãe. Alguns destes vídeos são bem interessantes! Parece que os smartphones já substituíram a maioria das máquinas fotográficas digitais. A tecnologia avança de forma cada vez mais rápida. Quando algo novo cai nas graças dos consumidores, a migração é muito rápida, abandonando-se a tecnologia anterior.

Agora um aspecto mais “quente” desta evolução tecnológica! As fotos digitais facilitaram outras atividades, como o sexo e a pornografia. Imagine a seguinte situação: um casal se inscreve num site de swing (troca de parceiros) e precisa anexar fotos desinibidas neste site. No caso das máquinas fotográficas com filme, eles tirariam fotos caseiras, iriam para um laboratório para solicitar a revelação, onde provavelmente todos os funcionários olhariam as fotos. Evidentemente, haveria uma “negociação” do casal para decidir qual dos dois retiraria as fotos, onde, certamente, o marido seria o perdedor. Ele entraria na loja, usando a sua melhor cara de pau, e entregaria o recibo para algum atendente. O marido pegaria o envelope, louco para sumir o mais rápido possível, mas uma atendente diria:

– O senhor tem direito a uma ampliação.

Neste momento, o homem poderia interpretar mal, ficar feliz e dizer:

– Que beleza! Vocês têm convênio com alguma clínica especializada?

Ou poderia se irritar e dizer:

– Achou pequeno, hein? Posso te mostrar ao vivo…

censurado

Deixando a palhaçada de lado, eu realmente acho incrível como um gigante como a Eastman Kodak, em apenas vinte anos, perdeu a liderança do negócio de fotografia e pediu concordata na metade de 2012. Na sequência, para evitar a falência, se desfez de negócios e vendeu suas patentes no segmento de imagens digitais. Parece que esta empresa, como tantas outras grandes corporações, não conseguiu perceber a ameaça que novas tecnologias emergentes representam para seu negócio e não se reinventou a tempo. No caso específico da Kodak, ainda existe o agravante de que o primeiro protótipo da nova invenção nasceu no interior de seus laboratórios de P&D. O orgulho da sua grandeza gerou a arrogância e a cegueira que despedaçaram a empresa, como acontece também com várias pessoas.

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Pra Não Dizer que Não Falei das Flores

Há pouco mais de dois anos, eu e a Claudia passamos nossas férias em Paris. Logo após a visita ao Museu Rodin, nos dirigimos ao Hotel dos Inválidos que fica ao lado. Exploramos apenas o lado externo, porque a Claudia não quis entrar para ver o Museu do Exército ou a tumba de Napoleão Bonaparte. Eu aceitei a decisão e falei para ela que na primeira vez que eu estivesse sozinho em Paris faria esta visita.

Hotel dos Inválidos - Paris

Hotel dos Inválidos – Paris

O dia chegou! Estou fazendo um treinamento esta semana em Fontainebleau e aproveitei para passar o final de semana passado em Paris. Cheguei ao “Les Invalides” no final da manhã de domingo e comecei pelo museu que conta a história das guerras em que o exército francês participou no final do século XIX, Primeira e Segunda Guerras Mundiais. Na sequência visitei a tumba de Napoleão Bonaparte, ou Napoleão I. Depois passei pelas alas dedicadas ao exército francês e suas guerras desde a monarquia, passando pela Revolução Francesa, por Napoleão, pela restauração da monarquia, por uma nova tentativa de república, por uma nova tentativa de império com Napoleão III e enfim a chamada Terceira República.

Tumba de Napoleão Bonaparte

Tumba de Napoleão Bonaparte

Foi muito deprimente ver todo o esforço e dispêndio de recursos dedicados para a guerra, onde o resultado final é sempre mortes, destruição e sofrimento. E todas as histórias, neste museu, eram basicamente variações sobre o mesmo tema:

– o líder de um país queria mais poder e resolvia invadir o vizinho. Não ficava satisfeito e invadia seu novo vizinho, mas ainda queria mais, e invadia mais um e continuava até perder feio alguma batalha. Depois desta derrota, várias outras viriam até a destruição do país e a destituição do seu antigo líder.

– os vencedores finais, que foram originalmente agredidos, vingavam-se através de tratados de paz que levavam humilhação e miséria aos perdedores.

– os países perdedores, depois de algum tempo tentando sair do buraco, ficavam instáveis social, econômica e politicamente. Nesta hora, aparecia um líder carismático que prometia a solução de todos os problemas. Foi assim após a Revolução Francesa com Napoleão ou, na Alemanha, após a Primeira Guerra Mundial com Hitler.

– estes líderes faziam muita coisa boa, como resultado, eles aumentavam seu poder até ficar absoluto, mas, sob o pretexto de se defender dos vizinhos ou vingar-se dos vencedores da guerra anterior, iniciavam novas guerras e o ciclo se repetia.

Incrível como a espécie humana que cria maravilhosas obras de arte, desenvolve técnicas para curar todas as doenças, decifra segredos das ciências, faz grandes obras de engenharia, também faz a guerra, o horror, a antítese de toda a beleza. Na Primeira Guerra Mundial, milhares morreram dentro de trincheiras, por ação de bombas ou gases tóxicos. No final da Segunda Guerra, os americanos testaram um novo armamento, a bomba atômica, com destruição total de Hiroshima e Nagasaki.

Bomba Atômica lançada em Nagasaki (06-08-1945)

Bomba Atômica lançada em Nagasaki  (06-08-1945)

Shakespeare apresenta, em suas peças, várias histórias de guerra que mostram a futilidade dos motivos da guerra. Na peça histórica sobre o rei da Inglaterra Henrique V, ele inicia uma guerra contra a França por acreditar que tem direito ao trono daquele país. Em Hamlet, um capitão do exército norueguês, em nome de um príncipe, pede permissão para uma tropa de seu exército cruzar o território dinamarquês. Hamlet surpreende-se quando recebe a explicação que o motivo da guerra é um pequeno território sem valor na Polônia. Quando o capitão do exército norueguês sai, ele tem um de seus monólogos e, em certo momento, define bem aquela guerra:

Vejo a morte iminente de vinte mil homens que, por um capricho, uma ilusão de glória, caminham para a cova como quem vai pro leito, combatendo por um terreno no qual não há espaço para lutarem todos; nem dá tumba suficiente pra esconder os mortos…

A estupidez dos motivos da guerra persiste até hoje, pode ser petróleo, ideologia, religião, etnia, um pedaço de terra qualquer…

Mas afinal qual é a relação entre o título deste artigo e seu conteúdo? O que flores têm a ver com a guerra? Pela manhã, antes de pegar o metrô para “Les Invalides”, passeei no “Jardin des Plantes”, um daqueles lugares com energia boa que revigoram qualquer um. Talvez por isso eu não saí de “Les Invalides” deprimido, porque o ser humano que cria um lugar como “Jardin des Plantes”, não pode soltar bombas ou gases tóxicos em cima dos outros seres humanos. E aí estão algumas das belas flores que fotografei na manhã deste domingo, pra não dizer que não falei das flores…

Flores_Jardin-des-Plantes

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Deus nos Livre do Politicamente Correto!

Ontem revi a comédia dramática francesa “Intocáveis” (Intouchables). O filme mostra o relacionamento entre o milionário tetraplégico Phillippe, vivido por François Cluzet, e seu ajudante, o negro senegalês Driss, atuação sensacional de Omar Sy.

Intocaveis

O melhor do filme é o humor politicamente incorreto de Driss ao fazer piadas, todo tempo, sobre as limitações de Phillippe. Você pode ver abaixo algumas situações no trailer do filme.

Muitas vezes o politicamente correto confunde-se com educação. Sinceramente eu não gosto desta tendência. Todos nós temos diferenças e semelhanças. Deste modo, devemos tratar todos com educação, entendendo que os direitos são os mesmos, apesar das diferenças e limitações de cada um. O que seria melhor, em termos de educação, chamar de negro ou afrodescendente? Em minha opinião, não é preciso criar outra designação para o negro, porque dizer que um negro é negro, não representa um desrespeito.

O humorista brasileiro Geraldo Magela, por exemplo, sempre diz que não é deficiente visual, na verdade ele é cego! Do mesmo modo, não vejo problema de chamar um surdo de surdo, ao invés de deficiente auditivo.

O ceguinho Geraldo Magela

O ceguinho Geraldo Magela

Eu sempre brinco que o Saci Pererê seria descrito, de acordo com esta onda, como um jovem afrodescendente com necessidades especiais.

Acho que fui vacinado contra esta forma de agir no segundo grau, quando tive um colega paraplégico, o Éden. Nós fazíamos tudo junto com ele. Muitas vezes ele era o goleiro do nosso time de futsal. Lembro-me de um jogo no qual uma bola chutada de fora da área acertou a roda da sua cadeira e foi encaminhando-se lentamente para o gol. O Éden não hesitou, saltou no chão para fazer a defesa, alcançou a bola logo após ela ter cruzado a linha do gol, mas o juiz não confirmou o gol, nem os adversários reclamaram. Nosso time vibrava, enquanto o outro time manteve um silencioso respeitoso. Afinal seria injusto não premiar aquele esforço…

A nossa festa de formatura foi realizada em um clube de Porto Alegre. No final da noite, a galera começou a pular na piscina. Alguém encostou no Éden e perguntou se ele sabia nadar. Como a resposta foi afirmativa, imediatamente ele foi arremessado na água.

Foto da Formatura de  2º grau do Colégio Sévigné (Éden está de terno e gravata no centro)

Foto da Formatura de 2º grau do Colégio Sévigné (Éden está de terno e gravata no centro)

Edén era levado para todos os lados, numa época que ninguém falava em acessibilidade, sempre havia escadas a serem vencidas, e ele normalmente participava de todas nossas festas e atividades extraclasse. Da mesma forma, Driss fazia Phillippe sentir-se integrado e vivo apesar das suas limitações. Esta é uma das graças da vida, ser natural com todas as pessoas, ter educação sem criar o distanciamento do politicamente correto e ter um sorriso para todos. Em troca, receberemos aquela energia positiva que as pessoas nos transmitem quando gostam da nossa presença. Todos ganham!

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A Gambiarra

Na engenharia, ou em nossas vidas, muitos problemas são solucionados através de soluções técnicas provisórias, mais conhecidas como gambiarras. O problema é que muitas vezes elas não atendem os mínimos requisitos de segurança e, pior, acabam se tornando definitivas. Geralmente as gambiarras são feitas, porque seu autor não tem recursos, tempo ou disposição para buscar a solução definitiva. Deste modo, o problema é contornado sem pessoal competente, sem as ferramentas corretas, sem o material apropriado. Por outro lado, as gambiarras são também expressões de criatividade do seu autor.

"bela" churrasqueira

“bela” churrasqueira

O artista plástico e cineasta mineiro Cao Guimarães, autor das fotos deste post, já fez um filme sobre esta verdadeira instituição nacional, a gambiarra. Assista ao vídeo abaixo sobre mestres desta prática.

Na sequência, você pode ver outras fotos com gambiarras incríveis. Olhe esta tábua de carne, servindo como suporte nesta janela! Imagine esta tábua despencando do décimo andar de um prédio…

suporte "seguro" para janela

suporte “seguro” para janela

E agora você pode ver uma solução interessante, um CD usado como refletor de uma lâmpada. Ideia bem criativa…

novo uso para CD

novo uso para CD

A gambiarra ainda pode apresentar vários efeitos colaterais. Alguns “gambiarristas” passam a se orgulhar de suas criações e rejeitam as soluções convencionais. Afinal gambiarra vicia, dá prazer! Todos conhecem sucateiros que criam soluções baratas, onde segurança e eficácia são colocadas em segundo plano. No final, o barato sai caro…

Outro problema tem a ver com as restrições causadas pela falta de recursos ou de tempo, por exemplo. As gambiarras são boladas quando existe algum tipo de restrição. A situação pode melhorar, as restrições desaparecerem, mas as pessoas continuam agindo como se elas existissem. E lá vêm novas gambiarras…

Normalmente falta senso crítico para analisar a necessidade de “gambiarrar” e seus impactos sobre a segurança e a implantação de uma solução definitiva do problema.

O pior mesmo é quando a gambiarra vira uma filosofia de vida e passa a ser empregada também nas relações pessoais. Assim ao invés de resolver os problemas, são adotados subterfúgios que só geram sofrimentos futuros. As questões não são solucionadas de modo sustentável, por exemplo no âmbito familiar, e para resolvê-las são escolhidas alternativas como mudar de casa, comprar um automóvel novo, fazer uma viagem ou, muito pior, ter um filho. Gambiarras não são coisas feitas só por pobres. Todos fazem gambiarras quando não sabem como resolver um problema de acordo com as boas técnicas.

Mas, apesar de todos os pontos negativos, nós brasileiros não conseguimos viver sem gambiarra, assim, para finalizar, proponho um brinde em sua homenagem com uma cerveja bem gelada…

gambiarra_cerveja

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O Papa é Pop – O Carisma e a Mensagem

No dia 22 de julho, o Papa Francisco chegou ao Rio de Janeiro para participar, entre outros eventos, da Jornada Mundial da Juventude. Impressionou a agenda dura que o papa cumpriu em apenas uma semana. Pareceu exagerada para um senhor de 76 anos. Bastava ligar a televisão na semana passada e lá estava ele, esbanjando simplicidade e simpatia.

Papa Francisco

Papa Francisco

O atual papa possui um carisma invejável, é quase impossível não simpatizar com ele, a forma como sorri, o carinho com as crianças e a paciência com as brincadeiras e presentes de gosto duvidoso. Por outro lado, tenho receio quando as pessoas são julgadas somente por suas imagens. Por exemplo, o governo Médici foi o mais duro do período de ditadura militar no Brasil, mas para as pessoas comuns Geisel foi pior. Este julgamento é baseado nos sorrisos do Médici e na “carranca” do Geisel, não importa que a tortura corresse solta no período Médici e que, no período Geisel, as denúncias a respeito da morte, tortura e desaparecimento de presos políticos reduziram muito.

General Emílio Garrastazu Médici com Pelé

General Emílio Garrastazu Médici com Pelé

   

General Ernesto Geisel e sua tradicional "carranca"

General Ernesto Geisel e sua tradicional “carranca”

Como o tempo do Papa Francisco para fazer alguma coisa prática ainda é curto desde sua posse, procurei ouvir suas mensagens. Minha percepção é que, ao falar para os jovens, ele buscou tocar o coração de cada um. A ideia é que para mudar a Igreja e o mundo, comece por você. Mário Quintana disse certa vez esta frase simples e verdadeira:

Livros não mudam o mundo, quem muda o mundo são as pessoas. Os livros só mudam as pessoas.

o poeta Mário Quintana

o poeta Mário Quintana

Ou seja, o Papa Francisco, através de suas mensagens, quer inicialmente mudar as pessoas. Assim ele incentivou a juventude a largar o egoísmo e comodismo e se tornar agente da mudança na Igreja e no mundo. Isto fica claro nesta mensagem:

Sigo as notícias do mundo e vejo que tantos jovens de muitas partes do mundo têm saído pelas ruas para expressar o desejo de uma civilização mais justa e fraterna. Os jovens nas ruas são jovens que querem ser protagonistas da mudança. Por favor, não deixem que outros sejam protagonistas da mudança, vocês jovens são os que têm o futuro. Através de vocês o futuro chega ao mundo…

Vi na noite de domingo uma entrevista do papa ao programa Fantástico da Rede Globo. Fora a parte “festiva” da entrevista com questões sobre clima, rivalidade Brasil-Argentina, segurança pessoal, gostei especialmente da análise do papa sobre o momento atual da economia. Ele citou que a globalização com o “protagonismo do dinheiro, economicista, sem qualquer controle ético”, acaba por marginalizar expressivas parcelas da população, como os mais velhos e os mais novos nos mais variados locais do planeta. Ele exemplificou que oscilações nas bolsas de valores são mais importantes do que pessoas sem comida ou educação:

Hoje em dia há crianças que não têm o que comer no mundo. Crianças que morrem de fome, de desnutrição. Há doentes que não têm acesso a tratamento. Há homens e mulheres que são mendigos de rua e morrem de frio no inverno. Há crianças que não têm educação. Nada disso é notícia. Mas quando as bolsas de algumas capitais caem três ou quatro pontos, isso é tratado como uma grande catástrofe mundial. Esse é o drama do humanismo desumano que estamos vivendo. Por isso, é preciso recuperar crianças e jovens, e não cair numa globalização da indiferença.

O papa ainda incentivou os jovens a expressarem seus descontentamentos e as pessoas a ajudarem os mais necessitados, se doando. Entendo que esta ajuda não deveria ser apenas monetária, por exemplo, uma esmola, um dízimo ou uma contribuição em dinheiro para uma entidade assistencial. A definição de Gibran Khalil Gibran, no seu livro “O Profeta” sobre a doação deveria ser seguida por todos:

Vós pouco dais quando doais de vossas posses. É quando doais de vós próprios que realmente dais.

Gibran Khalil Gibran

Gibran Khalil Gibran

Assim, quando usamos nosso tempo, nossa energia, nossa sabedoria ou nossos conhecimentos para ajudar os mais necessitados, estaremos realmente nos doando. Esta não é uma missão fácil, a inércia a que nossas vidas estão submetidas só pode ser quebrada com muito esforço, senão o comodismo vai nos levar a assistir passivamente o que está ao nosso redor.

Acredito que foi um bom início do pontificado de Francisco, mas é melhor aguardar seus próximos passos. João Paulo II também era popular e carismático, mas seu conservadorismo dogmático foi um dos motivos do afastamento da Igreja Católica das reais necessidades do povo.

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De Onde Vem a Inspiração?

Na última edição da revista IstoÉ, tem uma interessante entrevista com o escritor Luís Fernando Veríssimo. Como antídoto contra a reconhecida timidez do escritor, a entrevista foi feita através de E-mails. Quem quiser lê-la na íntegra basta clicar no link abaixo.

http://www.istoe.com.br/assuntos/entrevista/detalhe/312972_O+INIMIGO+E+TUDO+INCLUSIVE+A+IDEOLOGIA+

Além das perguntas sobre a política brasileira e os recentes protestos populares, curiosidades sobre a vida atual do escritor, eu tive especial interesse na questão sobre qual tipo de situação ainda o inspira. A resposta foi a princípio decepcionante:

– Para quem escreve com regularidade, qualquer assunto é assunto. Eu sempre digo que a minha musa inspiradora é o prazo de entrega. E a crônica, sendo um gênero indefinido, comporta essa variedade de assuntos e de estilos.

Luís Fernado Verissimo

Luís Fernado Verissimo

Como dono deste blog, sofro com alguns períodos de “estiagem” criativa. Por outro lado, às vezes escrevo um artigo com rapidez. Certa vez, em um voo diurno entre New York e São Paulo, escrevi três posts. Na semana seguinte, refinei e publiquei no blog dois desses posts e o terceiro permanece inédito, fazendo companhia a uma coleção de artigos renegados. Este destino pode ser injusto para alguns destes artigos, mas, para outros, foi exemplar.

Algumas vezes, começo a escrever e reescrever dois ou três artigos ao mesmo tempo. Depois de uma ou duas semanas, nenhum destes artigos passou no meu controle de qualidade e foi publicado, entretanto, num certo dia, trabalho e finalizo todos. Sempre publico aquele que trata do assunto do momento e deixo os outros para os dias seguintes.

Hoje rendo-me ao grande Luís Fernando Veríssimo. Como sou um blogueiro amador, não tenho obrigações com o calendário. Caso contrário, trabalharia sobre um destes artigos até ficar pronto. Já percebi que escrever, como outros exercícios físicos ou intelectuais, depende de treino frequente e de muita persistência. No meu caso, sempre que fui assíduo ao escrever, senti um prazer viciante. Talvez o melhor seja eu me render a mesma musa inspiradora deste grande escritor gaúcho e criar uma obrigação clara e definida. A partir de hoje, meu blog passará a ter uma publicação semanal num dia específico da semana. A alteração do dia só será tolerada, se for uma antecipação por conta de uma atualidade realmente importante. A ausência de publicações será aceita apenas em caso de férias ou impossibilidades realmente relevantes.

Resta agora, escolher o dia da publicação… Muitas pessoas não gostam da segunda-feira, parecem repetir mentalmente aquele refrão do maior sucesso da banda Boomtown Rats do vocalista Bob Geldof, “I Don’t Like Mondays”. Sim, esta música não é do Rolling Stones de  Mick Jagger! Sexta, sábado e domingo são os dias das festas para uns, viagens para outros e descanso para os demais. Quarta-feira é o dia do futebol na TV… Entre terça e quinta-feira, escolho a primeira!

Assim espero aumentar a quantidade e melhorar a qualidade dos artigos deste blog, onde os leitores serão sempre os juízes. Até a próxima terça-feira!

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Amour – Os Limites Extremos do Amor, da Vida e da Morte

Há uns três meses, eu estava de noite em um restaurante de uma cidade do estado americano do Illinois. Após fazer o pedido da janta, dei uma passada no banheiro. Na volta, notei que uma mesa próxima do nosso grupo foi ocupada por um casal jovem, ele tinha uma longa barba negra e ela era ruiva com um corte de cabelo curto.

Quando o pedido deles chegou, a moça puxou o prato do rapaz para o seu lado e começou a cortar o carne que havia no prato. Pensei que eles fariam aquela prática comum entre casais de provar os dois pratos e ela seria a responsável pela divisão. Desviei minha atenção da mesa da frente e, quando dei uma nova espiada, achei estranho que ela estava picando a carne em pedaços pequenos, enquanto o rapaz olhava para o prato com aquele mesmo olhar de uma criança para um sorvete na expectativa de comê-lo. Somente neste momento, prestei mais atenção e percebi que ele não estava sentado numa cadeira normal do restaurante, estava numa cadeira de rodas motorizada, ele era tetraplégico.

Tetraplégico

Tetraplégico

Depois do jantar, a caminho do hotel, a imagem do rapaz não saía da minha cabeça. Tentei me imaginar no lugar dele, como eu reagiria numa situação destas? Totalmente dependente dos outros para atender as necessidades mais básicas, como ir ao banheiro, tomar banho, se alimentar ou se vestir… Como tudo que é desagradável, achamos melhor botar uma pedra em cima e fazemos uma racionalização simples:

– Por que criar um problema que não existe?

Ontem assisti ao filme francês “Amour”, vencedor da Palma de Ouro em Cannes e do Oscar de Melhor Filme Estrangeiro. Se você busca um filme leve e romântico com final feliz, não assista a esta impactante obra cinematográfica. A densidade dramática deste filme pode ser comparada àquelas estrelas de nêutrons, cuja gravidade suga tudo ao seu redor, inclusive a luz.

No filme, são mostrados os dias finais da vida de um casal de professores de música aposentados, Georges e Anne, interpretados magistralmente por Jean-Louis Trintignant e Emmanuelle Riva. Assista ao trailer abaixo.

No início do filme, o casal tinha uma vida normal, morava num amplo apartamento em Paris e aparentemente ambos nutriam sentimento de amor e respeito mútuos. A situação começa a mudar, quando Anne sofre um “apagão” no momento em que tomavam café da manhã. Detecta-se uma obstrução na artéria carótida. Esta seria uma operação de baixo risco, mas ocorre uma complicação e Anne fica com um lado do corpo paralisado e, quando volta para casa, passa a usar cadeira de rodas. Neste momento, acontece uma cena que sela o destino dos protagonistas, Anne obriga Georges a prometer que não a internaria mais. A partir deste momento, ele tenta várias alternativas para tornar a vida do casal melhor, mas a saúde de Anne vai se deteriorando. Ela sofre outro derrame, não consegue mais se comunicar razoavelmente, passa a usar fralda geriátrica e conclui que não quer mais viver. Georges, por seu lado, suporta sozinho um fardo pesadíssimo em nome da lealdade por sua esposa e leva seu compromisso até as últimas consequências.

Cena do "apagão de Anne no filme Amour

Cena do “apagão” de Anne no filme Amour

O diretor Michael Haneke, após pouco mais de duas horas de filme, nos leva a pensar sobre a velhice e seus problemas, sobre os limites do amor, sobre o que esperamos dos nossos relacionamentos e o que aceitamos dar em troca, sobre a vida e a morte…

Neste momento, volto para minha pergunta-chave deste post:

– Como eu reagiria numa situação destas?

O caso do rapaz de Illinois parece mais fácil para mim hoje. Quando se é jovem e se tem toda a vida pela frente, um “acidente” de percurso como ficar tetraplégico, apesar de extremamente traumático pelas limitações impostas, pode se transformar na força motriz para encontrar novas vocações e propósitos para a vida. Como me considero um jovem de 47 anos, acredito que conseguiria ir em frente.

O caso de Georges, apesar da dor de ver a pessoa amada naquele estado, também diria que seguiria em frente. Acredito que meu amor pela Claudia me transformaria no seu serviçal fiel. Mas meu Amorzin, já te disse que tu vais ser uma viúva linda. Então não deverei passar por isto.

O caso da Anne me assusta! Não quero me tornar um fardo para as pessoas que eu amo. Seria muito cruel…

Apesar de muita gente não acreditar, temos poder para conduzir nossas vidas, mas ainda há uma parcela expressiva que não controlamos. Podemos ter uma vida saudável, fazer exercícios físicos regularmente, manter a mente ativa, mas a “maldita” genética pode nos fulminar na esquina. Se este avião no qual estou voando para Saskatoon, enquanto escrevo este post, cair provavelmente ninguém irá lê-lo, ficará eternamente inédito. No caso do filme “Amour”, Anne escolheu seu destino e Georges usou seu livre arbítrio para aceitá-lo, com todas as consequências para si. Ou seja, ao tomarmos uma decisão devemos analisar se não haverá desequilíbrios para um dos lados, porque não é justo submeter as pessoas a quem amamos a um ônus demasiadamente pesado e o contrário também vale, não podemos simplesmente nos anular por causa de quem amamos.

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A Vida de Pi

Fui assistir no cinema ao filme “As Aventuras de Pi” de Ang Lee nesta semana. Além de uma belíssima fotografia realçada pela profundidade obtida pelo efeito 3D, a história é incrível. Este é daqueles filmes em que as pessoas saem silenciosas, pensando no que viram… Veja o trailer abaixo.

Life of Pi

Vou começar pelo início, o título é mais uma destas versões infelizes, o original está muito mais adequado “Life of Pi”, porque apresenta a visão autobiográfica do protagonista da infância até a entrevista com a empresa japonesa que investigava as razões do naufrágio do navio em que ele viajaria da Índia ao Canadá.

Cartaz do Filme

Cartaz do Filme

Piscine Molitor Patel (Pi Patel) cresce com os pais e o irmão mais velho em um zoológico no interior da Índia. Neste período, através da sua mãe, ele tem contato e se torna adepto do Hinduísmo, cultuando em especial Brahma, o criador do universo, e Vishnu, seu conservador. Na sequência, tem contato com o Cristianismo, através de um padre, e passa a ter admiração por Jesus. Depois se torna mulçumano sem abandonar a fé pelas duas outras religiões. Seu pai é racionalista e diz que as religiões são trevas, esta opinião foi forjada quando, na infância, ele teve poliomielite e não foi curado por Deus e sim pela medicina ocidental. Durante um jantar, diz que a humanidade evoluiu muito mais por causa da tecnologia do que pela religião. Sua mãe contra-argumentou que a tecnologia explica o que acontece fora das pessoas, mas a fé ajuda a entender o que acontece no coração de cada um.

Vishnu

Vishnu

Quando recebem um tigre para o zoológico, chamado Richard Parker, Pi resolve alimentá-lo, segurando na mão um pedaço de carne. O tigre aproxima-se, enquanto Pi olha fixamente nos olhos da fera. Na hora “h”, seu pai chega e o puxa para longe da jaula. Pi argumenta que os animais tem alma e ele tinha visto isto olhos do tigre. Seu pai fala que os animais agem diferentemente dos humanos e que seu filho tinha visto apenas o reflexo de seus próprios sentimentos. Reflexo é uma palavra chave no filme!

Seu pai resolve emigrar para o Canadá, vendendo todos seus animais neste país. Na viagem, o navio afunda durante uma forte tempestade e os únicos sobreviventes em um bote salva-vidas são Pi, uma zebra com a pata quebrada, uma hiena, uma orangotango fêmea e o tigre Richard Parker. O nome do navio, Tsimtsum, também não foi escolhido ao acaso, na cabala judaica, significa a contração da luz infinita de Deus, formando um “espaço vazio” em que um mundo finito e aparentemente independente poderia existir. No filme, o naufrágio do Tsimtsum criou um espaço para o mundo finito (bote) de Pi.

Pi e Richard Parker no bote

Pi e Richard Parker no bote

O vegetariano Pi se obriga a matar e comer peixes, passa por inúmeras privações junto com o tigre Richard Parker que é dessedentado e alimentado por ele. Mesmo assim eles nunca se tornaram amigos, mas Pi credita ao tigre uma parcela importante da sua sobrevivência por tê-lo mantido alerta durante todo o tempo.

Ao enfrentar uma grande tempestade no bote, ele tem um momento de deslumbramento e terror. Nesta ocasião e depois de um tempo, quando já estava cansado e desnutrido, ele sente a morte aproximando-se e oferece sua alma a Vishnu. Finalmente chega a uma praia mexicana, o tigre desce do bote, caminha em direção de uma floresta e simplesmente desaparece.

Tigre Richard Parker indo embora...

Tigre Richard Parker indo embora…

A segunda versão da história relatada por PI para os japoneses responsáveis pela investigação do acidente nos faz compreender o que realmente aconteceu. A conclusão sobre o filme pode ser superficial ou profunda, simples ou complexa, conforme a interpretação de cada um. Todos temos dentro de nós um tigre e podemos desempenhar inúmeros papéis, dependendo da situação. Não nos orgulhamos, ou até mesmo nos arrependemos, de alguns destes papéis, por isso tentamos enjaular nossos tigres. Por outro lado, o exterior (céu, oceano ou um ente supremo) não trouxe respostas ou alimentou o divino para Pi. Nenhuma das três religiões que ele seguia lhe mostrou um caminho, apenas sua força e fé internas lhe mantiveram vivo. Em determinado momento do filme, Pi Patel já adulto disse:

– A fé é uma casa de muitos quartos.

Ou seja, o importante é cultivar uma espiritualidade, independente de religião, etnia e influência política ou social. Deve ser autêntico e genuíno de cada pessoa! E como aconselhou Santosh Patel, o pai do Pi, ao seu filho:

– Não siga nada cegamente!

Eu completaria ainda, nem nossos próprios pensamentos devem ser seguidos cegamente…

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Quando nos sentimos pais

No curso sobre parto humanizado, todos os homens eram marinheiros de primeira viagem com exceção deste blogueiro. Ouvi os comentários deles sobre os filhos que nasceriam brevemente e ninguém estava seguro de como seria a vida pós-parto.

No alto da minha experiência de pai por duas vezes a espera de uma nova filha, fiz alguns comentários. Em primeiro lugar, a maior mudança na vida dos casais não é o casamento; são os filhos! A partir do nascimento, perdemos aquela irresponsabilidade gostosa de fazer o que passar pela cabeça:

– Praia deserta? Com o bebê, nem pensar…
– Balada de noite? Onde deixar o bebê?
– Viagens? Tem que levar tanta coisa…
– Restaurante? E se o choro incomodar os outros clientes?

Não falei outra coisa para o pessoal naquele dia, porque alguém poderia estar nesta situação:

– Filho não salva casamento! Por sinal, normalmente filhos aceleram o fim dos casamentos problemáticos…

Na sequência, copiei o Poema Enjoadinho do “Poetinha” Vinicius De Moraes sobre filhos, assunto que ele afinal entendia bem (teve 5 filhos). Você pode assistir à apresentação do inesquecível Paulo Autran.

Filhos… Filhos?
Melhor não tê-los!
Mas se não os temos
Como sabê-los?
Se não os temos
Que de consulta
Quanto silêncio
Como os queremos!
Banho de mar
Diz que é um porrete…
Cônjuge voa
Transpõe o espaço
Engole água
Fica salgada
Se iodifica
Depois, que boa
Que morenaço
Que a esposa fica!
Resultado: filho.
E então começa
A aporrinhação:
Cocô está branco
Cocô está preto
Bebe amoníaco
Comeu botão.
Filhos? Filhos
Melhor não tê-los
Noites de insônia
Cãs prematuras
Prantos convulsos
Meu Deus, salvai-o!
Filhos são o demo
Melhor não tê-los…
Mas se não os temos
Como sabê-los?
Como saber
Que macieza
Nos seus cabelos
Que cheiro morno
Na sua carne
Que gosto doce
Na sua boca!
Chupam gilete
Bebem xampu
Ateiam fogo
No quarteirão
Porém, que coisa
Que coisa louca
Que coisa linda
Que os filhos são!

Vinícius de Moraes

Vinícius de Moraes

O segundo ponto, que comentei com os homens do curso, é mais polêmico. Quando nos sentimos pais? Os bebês estão no ventre materno durante nove meses. A futura mãe, na verdade, já se sente mãe desde o momento em que sabe que está grávida. No caso do pai, é bem diferente… O feto está se desenvolvendo externamente, sem contato direto com o pai e, na verdade, nós homens só os reconhecemos como nossos filhos quando eles nascem. E pior, nosso amor por eles não é instantâneo, cresce progressivamente. O sentimento fica cada dia mais forte, até nós não termos dúvidas que a vida do nosso filho é mais importante do que a nossa própria. É o amor incondicional do final do poema do Vinicius:

Que coisa louca
Que coisa linda
Que os filhos são!

Colegas pais, não sintam culpa por construirmos nosso amor pelos filhos de forma diferente do que nossas mulheres! Nossa natureza é diferente, nosso ritmo é diferente, percebemos o mundo de forma diferente… Mas ninguém nos acuse de amar menos nossos filhos…

Meus amorzinhos Júlia e Luiza

Meus amorzinhos Júlia e Luiza

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Como a Matrix de Neo e a Caverna de Platão nos Mostram a Realidade

Há duas semanas participei de um treinamento sobre os princípios que regem nossos pensamentos, realizado em um hotel em Miami Beach. Muito além do belo visual da praia, passei dias intensos nos quais refleti profundamente sobre minhas ideias e modo de agir.

Tudo começou com a ideia de que a realidade está na cabeça de cada um. Ou seja, cada um tem a sua realidade percebida. Este conceito parece óbvio, mas muita gente não o aceita. No sensacional primeiro filme da série Matrix, Neo é abordado por Morpheus que lhe oferece a pílula vermelha para enxergar uma nova realidade ou uma azul para permanecer na mesma situação. Ele opta pela alternativa mais arriscada e opta pela vermelha. Infelizmente, em nossas vidas, a escolha não aparece de modo tão claro e direto…

matrix neo morpheus red blue pill
Morpheus oferece a Neo as pílulas vermelha e azul.

Esta passagem lembra a história da “Caverna” de Platão, presente no livro “A República”. Nesta história homens estão acorrentados no interior de uma caverna, vendo apenas sombras projetadas no seu fundo. Este era o mundo real para eles. Um dos membros daquele grupo resolve fugir para ver se existe alguma coisa além daquelas imagens. Ele se liberta, enfrenta uma jornada difícil, fica quase cego por causa da luz intensa do dia, sente dor, pensa em voltar, mas resiste, passa a entender que aquela é uma realidade totalmente nova. Finalmente resolve voltar para libertar seus companheiros. Chega à caverna e conta o que viu. Então, no início, ele é ridicularizado e depois considerado louco. Como ele insiste em manter seu pensamento, é agredido e morto pelos seus antigos colegas. Apesar do seu final triste, provavelmente ele plantou sementes que florescerão na mente de alguns dos seus algozes que se libertarão e perceberão uma nova realidade.

A Caverna de Platão
A Caverna de Platão

Podemos dizer que não agimos assim, mas quantas vezes criticamos, ridicularizamos, isolamos e, até mesmo, somos agressivos com aqueles que têm pensamento diferente dos nossos? Dentro de casa mesmo, como tratamos nossos pais, filhos e companheiros?

Fizemos um exercício interessante em trios, durante o treinamento, onde duas pessoas discutiam de forma reflexiva o problema do terceiro componente do grupo. O “dono” da questão explicava o caso e depois ouvia as reflexões e fazia comentários somente após a conclusão da conversa. Todos ficaram impressionados com os resultados obtidos, porque, sem exceção, receberam insights úteis para resolver seus problemas. Por que isto não acontece normalmente em nossas vidas?

Um dos motivos é que não ouvimos com atenção os outros. Muitas vezes cortamos a fala do nosso interlocutor para “ajudar” ou rebatê-lo, prejudicando o desenvolvimento das ideias. Por outro lado, também amamos nossas ideias e nossos egos não aceitam qualquer crítica ou desafio. Parece que nos apegamos a elas como se fossem partes inseparáveis de nosso ser. Deveríamos ter desapego pelos nossos pensamentos e imaginar que, após compartilhá-los, eles são públicos e todos têm liberdade para usá-los, desenvolvê-los e aperfeiçoá-los. Não existe ideia perfeita, porque somos criadores imperfeitos…

Não quero ouvir

Os três princípios apresentados no treinamento estão apresentados abaixo: 

  1. Nós vivenciamos nossos pensamentos a cada momento.
  2. Nós sentimos nossos pensamentos.
  3. Nós podemos sempre ter novos pensamentos.

 Ou seja, devemos sentir se devemos ou não ter certos pensamentos e atitudes e, se sentimos que não é o melhor, podemos pensar e agir diferentemente. Claro que não é fácil, mas vale a pena tentar e praticar.

Para finalizar, lembro-me de outra cena do Matrix, quando Neo vai consultar o Oráculo para saber se ele é o escolhido. A mulher pergunta se ele leu a frase que estava escrita na entrada da casa:

– Conhece a ti mesmo!

Insistimos em achar que, como diria Sartre, o inferno são os outros e que estamos infelizes por causa da família, do nosso emprego, do local onde moramos, do clima… Na verdade, nós temos a capacidade de alterar nossa percepção da realidade e analisar o que é importante e o que é acessório ou supérfluo nas nossas vidas. E muito importante: felicidade ou equilíbrio não são sinônimos de passividade e alienação!

temet nosce
“Conhece a ti mesmo” em latim.

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Che Guevara: Anjo ou Demônio?

Esta é minha terceira viagem ao Canadá em 2012. Desta vez escolhi o filme “Diários de Motocicleta” para meu entretenimento durante o jantar. O filme trata de uma viagem que Ernesto Che Guevara e seu amigo Alberto Granado fizeram pela América Latina em 1952.

Che Guevara é daquelas figuras que a maioria das pessoas ama ou odeia. Todos os grandes líderes revolucionários de esquerda fazem parte deste clube como Lenin, Mao Tse Tung e Fidel Castro. Na política brasileira, o grande nome, sem dúvida, é Getúlio Vargas: endeusado pela maioria dos gaúchos e odiado pela maioria dos paulistas.

Ernesto Che Guevara

Ernesto Che Guevara

Voltando ao filme, Guevara tinha uma vida tranquila em Buenos Aires. Ele estava praticamente se formando em medicina aos 23 anos de idade e seu hobby preferido era jogar rúgbi. Na sua viagem de moto, ele se confronta com uma realidade totalmente diferente da sua vida “pasteurizada”. Ele vê, convive e sofre com a miséria extrema que colonos, índios e mestiços sem posses são submetidos no interior da América Latina. Na parte final do filme, ele e Alberto trabalham como voluntários em uma colônia de leprosos na Amazônia peruana. Fica chocado com a separação dos doentes das outras pessoas – médicos, religiosas, enfermeiras – feita através de um grande rio.

A questão básica é se as motivações de Ernesto Guevara eram justas. Minha resposta é sim! Não devemos ser insensíveis à miséria e às injustiças. Neste momento, chegamos à pergunta cuja resposta torna Che Guevara e outras figuras históricas tão polêmicas:

– Se a causa é justa, vale qualquer método para torná-la realidade?

Ernesto Che Guevara acreditava que apenas a luta armada mudaria aquela situação que ele vivenciou em sua viagem pela América Latina. Por outro lado, em todas as guerras, inocentes são mortos, crimes são cometidos e injustiças imperdoáveis são justificadas. Para ele estas perdas seriam aceitáveis, o que eu não concordo. Certa vez li, não me recordo onde, a seguinte frase:

– Até os mais nobres fins são conspurcados pelos meios empregados para obtê-los.

Isto explica a polêmica em torno da maioria dos grandes líderes da história da humanidade. Todos tinham defeitos e virtudes como cada um de nós, mas suas qualidades foram decisivas dentro de determinado contexto histórico. Muitos lutaram contra o Apartheid na África do Sul, mas Gandhi e Mandela optaram por não usar violência. Isto os coloca acima dos demais! Muitos lutaram contra a discriminação racial nos Estados Unidos, Martin Luther King escolheu a não violência como forma de ação e ajudou a melhorar situação dos negros sem derramamento de sangue, com exceção do seu próprio.

Martin Luther King - Nelson Mandela - Mahatma Gandhi

Martin Luther King (esquerda), Nelson Mandela (direita acima) e Mahatma Gandhi (direita abaixo)

Che Guevara decidiu agir com 24 anos para melhorar a vidas dos oprimidos da América Latina. Sua opção pela luta armada, em minha opinião, deve ser criticada, mas, por outro lado, devemos entender que foi tomada por um jovem idealista num contexto muito diferente do atual. Não devemos ser maniqueístas em relação a pessoas, países, religiões, culturas… Devemos analisar sempre nossos atos e nunca seguir líderes cegamente (como apresentei na série de posts sobre o Efeito Lúcifer), porque, como todos os seres humanos, eles acertam e erram.

Assista ao filme! Vale pela história, pelas atuações de Gael Garcia Bernal como Che Guevara e de Rodrigo de La Serna como Alberto Granado, pela música em especial “Al outro lado do rio” do uruguaio Jorge Drexler. Escute esta bela música com imagens de diversas cenas do filme. Como assisti ao filme em espanhol com legendas em inglês, o lado cômico foi a tradução dos palavrões que Alberto Granado volta e meia lançava sobre Ernesto Guevara, até aprendi uns novos de baixíssimo nível.

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A Reinvenção – Veja “O Artista”

Ocupar as dez horas que separam New York de São Paulo pode ser um tremendo desafio para alguns ou uma tortura terrível para outros. Sinceramente, não tenho muita dificuldade para preencher o tempo. Gosto de ver filmes, ler e, se tiver alguma inspiração, escrever.

O primeiro filme que assisti nesta última viagem foi surpreendente. Afinal qual é o louco que faz um filme mudo com fotografia em preto & branco no século XXI? O diretor Michael Hazanavicius foi realmente muito ousado! Onde estão os efeitos especiais e o 3D tão propícios para as modernas salas IMAX?

O Artista

O filme apresenta a única verdade absoluta que eu conheço – o mundo não para e temos que nos reinventar a cada dia. Se hoje somos os melhores, amanhã poderemos estar no ostracismo, porque a área que dominamos pode não ter mais a mesma importância ou destaque. Foi o que aconteceu com George Valentin, interpretado magistralmente por Jean Dujardin, ao acreditar que sua posição de ídolo do cinema mudo não se alteraria jamais. Não percebeu que o cinema falado sucederia o cinema mudo e insistiu em oferecer um produto que o público não desejava mais.

O filme se chama “O Artista”, mas poderia ser “O Engenheiro”, “O Médico”, “O Empresário”, “O CEO”, “O Político”, “O Cidadão”, “O Pai”, “O Filho” ou “O Marido”. Todos temos que nos reinventar nos diversos papeis que exercemos.

No final, como no grande cinema de Hollywood e em nossas vidas, apesar de frequentemente duvidarmos, o protagonista consegue dar a volta e se reinventa, fazendo um musical com muita dança e sapateado. Acredito que não foi à toa que as duas únicas palavras audíveis de George Valentin no filme foram “with pleasure”.

O Artista cena final

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Bruna Surfistinha – Um Filme Desinspirador

Ontem eu e a Cláudia assistimos no Telecine ao filme baseado na vida da ex-prostituta brasileira Raquel Pacheco, a Bruna Surfistinha, estrelado pela bela Deborah Secco.

No início do filme, ela é uma adolescente que vive com os pais e estuda em um bom colégio, mas comete delitos em casa como roubo de dinheiro e das joias da mãe. Foge de casa e resolve ganhar a vida na prostituição. Começa a gostar dessa vida e, aparentemente, não se importa em se relacionar sexualmente com homens jovens ou velhos, gordos ou magros. Começa a se envolver com drogas e é expulsa do local onde trabalha. Aluga um apartamento de alto nível, monta um blog, que a torna famosa, vê o número de clientes e os lucros aumentarem. Ao mesmo tempo, aumenta o envolvimento com drogas, o que a leva à decadência. Chega ao fundo do poço quando passa a trabalhar na rua e depois num prostíbulo que cobra R$ 20,00 por programa. Quase morre de overdose e é ajudada por um cliente apaixonado por ela. Ele propõe uma nova vida melhor, mas ela rejeita. Volta ao apartamento e cria uma meta de fazer 800 programas e, depois disto, iniciar uma nova vida.

Não serei moralista e condenar a temática do filme, mas achei o filme em si chato e fraco. O número de cenas onde a Deborah Secco aparece em programas com clientes é excessiva. Se o objetivo foi mostrar que ela não recusava ninguém, então foi atingido, mas quase não sobrou tempo para discutir outros aspectos da vida como garota de programa, como violência e exploração.

Fiquei impressionado com a mensagem final que o filme passa. Se você é jovem e bonita, estiver precisando de dinheiro, ganhar a vida como garota de programa é uma opção. Como a personagem fala num certo momento, ela ganhava mais do muitas médicas e advogadas. Em outro momento, ela diz uma frase boba sobre acreditar e perseguir os sonhos. No caso, quais seriam estes sonhos? No filme nada é mencionado. E, no final, ela larga as drogas e decide fazer mais 800 programas antes de mudar de vida. Ou seja, você pode se prostituir, mas não se envolva com drogas.

Não li, nem tenho planos para ler, o livro autobiográfico da Raquel Pacheco, “O Doce Veneno do Escorpião”, talvez estas questões sejam apresentadas no livro, mas no filme nada foi visto. Apenas uma vida sem propósitos é mostrada até com certo glamour…

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Rei Lear – A Velhice e a Sabedoria

Desde comprei e li Hamlet de William Shakespeare, fui arrebatado pelas obras do grande escritor inglês. Parece que não consigo ou quero me afastar de seus livros. Nas últimas semanas, devorei Otelo e Rei Lear e agora começarei Júlio César.

Como já falei nos dois últimos posts sobre Hamlet e Otelo, darei breves pinceladas na tragédia Rei Lear.

Rei Lear

"Rei Lear e o Bobo na Tempestade" de William Dyce (1806-1864)

O Rei Lear resolve repartir seu reino pelas suas três filhas no início da história. As duas mais velhas, Goneril e Regana, fazem juras de amor e recebem seus quinhões, enquanto que a filha mais nova, Cordélia, mais sincera e honesta, não se derrama em elogios ao pai, só afirma seu desejo de cuidá-lo, e mesmo assim é deserdada. Após a renúncia, Goneril e Regana desprezam o pai que passa por uma série de sofrimentos e privações. Ele praticamente enlouquece ao se dar conta de suas escolhas erradas.

Um dos grandes personagens do livro é o Bobo da Corte que segue junto com Lear. De fato, de bobo ele não tinha nada e, dos mais variados modos, diz as verdades, com música ou rimas ou de forma crua, como nesta brilhante frase dita para Lear:

– Tu não devias ter ficado velho antes de ter ficado sábio.

Esta frase é uma verdadeira pedrada. Realmente parece que a sabedoria traz a compreensão ou aceitação do que é diferente. A pergunta definitiva que sempre volta à cabeça não poderia ser outra neste caso. O que é ser sábio? Encontrei esta joia no livro “Trabalhos de Amor Perdidos” de Jorge Furtado da coleção “Devorando Shakespeare” da Editora Objetiva:

“A cada dia eu sei de mais coisas sobre as quais nunca saberei, os livros que me fariam um ser humano melhor, os filmes que mudariam minha vida, a melhor de todas as músicas, que nunca ouvirei. Quanto mais estudo, mais descubro a vastidão da minha ignorância. Minha burrice é uma África, minha ingenuidade é uma Ásia, minha estupidez, três Américas. Já minha sabedoria, esta é uma ilha da Páscoa, um pingo de terra firme batido sem piedade pelas ondas da incerteza e fustigado pelos ventos da amnésia, a milhares de quilômetros de qualquer porto seguro. Nem mesmo sei ao certo se ‘a milhares de quilômetros’ se escreve assim, ou se este tem agá ou crase”.

Jorge Furtado

Jorge Furtado, cineasta, roteirista e escritor

Eu já estou caminhando pela segunda metade da minha vida. Preciso forjar um pensamento nesta linha do texto do Jorge Furtado. Não quero envelhecer preso a paradigmas. Não quero ser aquela pessoa que pensa que sabe tudo e vai construindo muros e fossos ao seu redor. Ninguém chega perto de pessoas assim, porque elas não aceitam nada diferente dos seus espelhos. O resultado final é a solidão! Quero, até o meu derradeiro suspiro, ter a consciência que minha ignorância é um universo, enquanto que minha sabedoria é uma poeira vagando pelo cosmos. Quero trocar experiências e conhecimentos com todos, do mais culto ao mais humildade, do mais experiente ao mais novo…

Continuarei nesta minha trilha shakespeariana. Espero que cada livro me traga novos conhecimentos e a certeza que existe muito mais para aprender.

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Ciúmes – Como Não se Transformar no Shakespeariano Otelo

Eu assumo que já fui um cara muito ciumento. Já tive crises em que este sentimento vil teve contornos doentios. Hoje eu controlo-o da forma mais eficiente que minha capacidade permite. Talvez a Cláudia ache que eu não demonstre mais hoje, mas confesso que, quando ela me conta de caronas para colegas de trabalho, lá no fundo eu não gosto.

Nesta semana, eu li Otelo de Shakespeare, um grande clássico sobre o ciúmes. Óbvio que o ciúmes extremado que Otelo sentia em relação a Desdêmona é um paradigma do limite máximo atingível por este sentimento.

Otelo e Desdêmona de Adolphe Weisz

O que poderia explicar o ciúmes é a sensação de posse. Não somos donos de nossos companheiros. Se o amor for revestido de confiança, respeito, liberdade e transparência, não haveria necessidade de nos sentirmos proprietários de nossas “caras metades”. Assim não seríamos inseguros, não imaginaríamos que alguém melhor do que nós nos substituiria ou não teríamos o medo da perda.

O ciúmes e a posse

Como eu sempre digo, se formos autênticos e sinceros e agirmos da mesma forma com os outros como desejamos ser tratados, não existiria motivos para insegurança e ciúmes.

No caso de Otelo, Iago percebeu a insegurança de seu chefe e minou a confiança que ele tinha pela esposa. Talvez Otelo não sentia-se suficientemente confiante, porque era mouro, negro e bem mais velho do que Desdêmona, enquanto ela era filha de um respeitável senador veneziano, linda, culta, inteligente e articulada.

Resumindo, o importante é amar e ser amado, respeitar e ser respeitado, acreditar e ser acreditado. Assim venenos plantados por outros ou por nossas próprias mentes sempre serão neutralizados por antídotos poderosos. A melhor descrição sobre o amor aparece na primeira carta de São Paulo aos Coríntios. Para encerrar, transcrevo um pequeno trecho.

São Paulo pintado por Valentin de Boulogne ou Nicolas Tournier

O Amor é paciente, é benigno; o Amor não é invejoso, não trata com leviandade, não se ensoberbece, não se porta com indecência, não busca os seus interesses, não se irrita, não suspeita mal, não folga com a injustiça, mas folga com a verdade. Tudo tolera, tudo crê, tudo espera e tudo suporta. O Amor nunca falha.

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Claude Monet e as Ninfeias

Nas nossas férias na França em agosto, visitamos belos museus, palácios e jardins. Se alguém me perguntar qual foi o lugar mais inspirador que eu e a Cláudia visitamos, eu responderei que não foram os Palácios de Versalhes, residência dos reis Luís XV e Luís XVI ou Fontainebleau, morada de Napoleão Bonaparte. O jardim da casa de Claude Monet em Giverny foi um destes lugares inspiradores que jamais esquecerei.

Viajamos de trem de Paris a Vernon e, como não conseguimos lugar no ônibus, pegamos uma van até a Fundação Monet. Ficamos a manhã na casa e nos jardins, almoçamos uns crepes deliciosos em um restaurante próximo. Voltamos a Paris e completamos nosso dia impressionista no Museu L’Orangerie situado na frente da praça Concorde, no interior do Jardin des Tuileries.

Casa de Monet em Giverny

O jardim da casa em Giverny, incluindo o lago das ninfeias (plantas aquáticas), a ponte japonesa sobre este lago e tudo que orna suas margens como árvores, flores e plantas, foi criado pelo próprio Monet e inspirou a maioria das obras impressionistas nos últimos trinta anos da sua vida.

As fotos foram tiradas pela Cláudia, com exceção de duas telas: ponte japonesa e ninfeias. Vocês podem ver a beleza do lugar onde Monet pintava, literalmente dentro do cenário, do amanhecer ao por do sol nas quatro estações do ano. Começo mostrando a famosa ponte japonesa.

Ponte Japonesa

  

Lagoa de Ninfeias com a Ponte Japonesa ao fundo

A seguir podemos ver as ninfeias na pintura de Monet e “ao vivo” em foto.

Ninfeias de Monet

  

Lagoa da Ninfeias

As duas próximas fotos nos fazem entender porque Monet se tornou o mestre dos reflexos.

Reflexos na Lagoa das Ninfeias

  

Mais reflexos na Lagoa das Ninfeias

Após o final da Primeira Grande Guerra Mundial em 1918, Monet decidiu doar para a França os enormes paineis que retratam as ninfeias de seu jardim. O governo francês reformou a L’Orangerie para recebê-los, criando duas grandes salas elípticas com um banco no centro de cada uma.

Um dos paineis das Ninfeias no Museu L'Orangerie

Este é um dos lugares que eu gostaria de passar um bom tempo sozinho, em silêncio, apenas admirando estas obra única na história da arte. Achei este pequeno vídeo no YouTube que dá uma boa ideia sobre o museu e os maravilhosos paineis pintados por Monet.

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Nenhuma Conquista Importante vem sem Persistência – o Exemplo de Rodin

Nesta semana, eu e a Cláudia voltamos de duas semanas de férias em Paris. Poderia escrever sobre várias observações que fizemos ao longo da viagem, mas escolhi, para começar, o exemplo de persistência do grande escultor francês Auguste Rodin. Visitamos o excelente Museu Rodin em Paris na semana passada e todas as fotos apresentadas neste post foram tiradas pela Cláudia.

Musée Rodin – Hotel Biron – Paris

Todos conhecem pelo menos duas obras deste artista: “O Pensador” e “O Beijo”, mas sua produção artística foi muito maior e as dificuldades enfrentadas na sua vida são um exemplo. Quem observa as duas obras apresentadas abaixo, pode pensar que Rodin teve uma vida maravilhosa rodeado de sucesso e glamour, entretanto ele só atingiu o sucesso após os 40 anos e, mesmo assim, nunca ficou imune às críticas.

O Pensador

O Beijo

Rodin nasceu em uma família pobre. Tentou entrar três vezes na principal Escola de Belas Artes da França e foi recusado. Após a morte da irmã, resolveu entrar para a vida religiosa. Felizmente o padre Eymard, reconhecendo seu talento, orientou-o a seguir a carreira artística. Por sinal Eymard foi canonizado pelo para João XXIII, como São Pedro Julião Eymard.

Padre Eymard

Para obter o sustento da família, trabalhou até os 35 anos em ateliês de arte decorativa na França e na Bélgica. Mais tarde considerou fundamental o conhecimento técnico adquirido nestes empregos. Conseguiu juntar algum dinheiro e investiu em uma viagem à Itália, onde interessou pelas esculturas de Donatello e Michelângelo. Esta viagem influenciou decisivamente seu estilo e toda sua obra.

No ano seguinte, expôs sua primeira escultura de destaque, o nu “A Idade do Bronze” apresentada abaixo. Apesar de todos admirarem seu trabalho, foi acusado de fraude, porque teria feito o molde diretamente sobre o corpo do modelo.

A Idade do Bronze

Levou anos para provar o contrário e quase desistiu por causa das críticas injustas e das dificuldades financeiras. Foi em frente e recebeu convite para fazer a obra “Porta do Inferno” baseada na Divina Comédia de Dante. Nunca concluiu a obra (foto abaixo), mas vários elementos, como “O Pensador” e “O Beijo”, ganharam vida própria.

Porta do Inferno

No mesmo período fez a obra “Os Burgueses de Calais”, apresentada na sequência, em que cada um dos seis personagens ganharam vida separadamente em outras esculturas.

Os Burgueses de Calais

Mesmo com todo o sucesso, foi duramente criticado pela escultura em homenagem ao escritor Honoré de Balzac. Pediu desculpas e recolheu a estátua para seu acervo próprio. O belíssimo bronze fotografado abaixo só foi fundido décadas após sua morte.

Honoré de Balzac

O resumo deste post poderia ser o seguinte: mesmo para um gênio como Rodin, o sucesso não chega, se não houver muito estudo e determinação. Ele aproveitou os dez anos de trabalho para aprender as mais diversas técnicas artísticas. Não hesitou em investir o dinheiro duramente amelhado naqueles anos em uma viagem à Itália que lhe traria conhecimento e inspiração. Resistiu a toda a espécie de críticas e prosseguiu com firmeza, realizando uma produção artística inovadora de alta qualidade. Quando percebeu que o público e a crítica não estavam preparados para certas obras, apenas as afastou dos olhos da maioria e as conservou para as futuras gerações.

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O Cisne Negro entre a Loucura e a Genialidade

 

Na semana passada, assisti ao filme Cisne Negro no voo entre São Paulo e Munique. Este é daqueles filmes que mexem com a gente, é impossível ficar indiferente ao que se passa com a protagonista da trama, a bailarina Nina, interpretada de forma brilhante por Natalie Portman.

 

A arte não é simplesmente técnica. Se assim fosse, um supercomputador poderia criar obras de Michelângelo ou Van Gogh. O artista excepcional consegue transmitir emoção e, que eu saiba, não há ciência exata que ensine isto. Certa vez, no Metropolitan Museum, eu e a Cláudia sentamos na frente de uma enorme tela de Jackson Pollock. Alguns poderiam dizer que aquilo se resumia a borrões de tinta, mas eu juro que aquela tela era uma verdadeira explosão de emoções e insanidade.

Autumn Rhythm nr. 30 de Jackson Pollock

 

Sempre penso que alguém brilhante tecnicamente que consiga transmitir toda esta carga de sentimento em seus trabalhos possa ser um “borderline”. É alguém no limite entre a razão e a loucura. Como se existisse uma fronteira definida…

No filme, parece claro que a bailarina Nina ultrapassou com folga esta fronteira na sua busca de representar com perfeição a maldade do cisne negro e o sofrimento do cisne branco. Como ela mesmo afirma na sua derradeira fala… Para superar ou ter outro momento de igual brilho, somente ultrapassando novamente ou, quem sabe, tangenciando esta fronteira.

Quantas pessoas buscam a perfeição a qualquer custo? Parece que a perfeição de sua obra é mais importante do que a própria vida! Será possível atenuar o sofrimento causado por esta busca sem fim? Será possível manter-se psicologicamente sadio?

No filme. Nina, apesar de brilhante tecnicamente, somente se tornou genial quando rompeu a fronteira e passou a misturar a realidade com a loucura. Assista a este excelente filme e pense a respeito disto tudo…

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