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Pra Não Dizer que Não Falei das Flores

Há pouco mais de dois anos, eu e a Claudia passamos nossas férias em Paris. Logo após a visita ao Museu Rodin, nos dirigimos ao Hotel dos Inválidos que fica ao lado. Exploramos apenas o lado externo, porque a Claudia não quis entrar para ver o Museu do Exército ou a tumba de Napoleão Bonaparte. Eu aceitei a decisão e falei para ela que na primeira vez que eu estivesse sozinho em Paris faria esta visita.

Hotel dos Inválidos - Paris

Hotel dos Inválidos – Paris

O dia chegou! Estou fazendo um treinamento esta semana em Fontainebleau e aproveitei para passar o final de semana passado em Paris. Cheguei ao “Les Invalides” no final da manhã de domingo e comecei pelo museu que conta a história das guerras em que o exército francês participou no final do século XIX, Primeira e Segunda Guerras Mundiais. Na sequência visitei a tumba de Napoleão Bonaparte, ou Napoleão I. Depois passei pelas alas dedicadas ao exército francês e suas guerras desde a monarquia, passando pela Revolução Francesa, por Napoleão, pela restauração da monarquia, por uma nova tentativa de república, por uma nova tentativa de império com Napoleão III e enfim a chamada Terceira República.

Tumba de Napoleão Bonaparte

Tumba de Napoleão Bonaparte

Foi muito deprimente ver todo o esforço e dispêndio de recursos dedicados para a guerra, onde o resultado final é sempre mortes, destruição e sofrimento. E todas as histórias, neste museu, eram basicamente variações sobre o mesmo tema:

– o líder de um país queria mais poder e resolvia invadir o vizinho. Não ficava satisfeito e invadia seu novo vizinho, mas ainda queria mais, e invadia mais um e continuava até perder feio alguma batalha. Depois desta derrota, várias outras viriam até a destruição do país e a destituição do seu antigo líder.

– os vencedores finais, que foram originalmente agredidos, vingavam-se através de tratados de paz que levavam humilhação e miséria aos perdedores.

– os países perdedores, depois de algum tempo tentando sair do buraco, ficavam instáveis social, econômica e politicamente. Nesta hora, aparecia um líder carismático que prometia a solução de todos os problemas. Foi assim após a Revolução Francesa com Napoleão ou, na Alemanha, após a Primeira Guerra Mundial com Hitler.

– estes líderes faziam muita coisa boa, como resultado, eles aumentavam seu poder até ficar absoluto, mas, sob o pretexto de se defender dos vizinhos ou vingar-se dos vencedores da guerra anterior, iniciavam novas guerras e o ciclo se repetia.

Incrível como a espécie humana que cria maravilhosas obras de arte, desenvolve técnicas para curar todas as doenças, decifra segredos das ciências, faz grandes obras de engenharia, também faz a guerra, o horror, a antítese de toda a beleza. Na Primeira Guerra Mundial, milhares morreram dentro de trincheiras, por ação de bombas ou gases tóxicos. No final da Segunda Guerra, os americanos testaram um novo armamento, a bomba atômica, com destruição total de Hiroshima e Nagasaki.

Bomba Atômica lançada em Nagasaki (06-08-1945)

Bomba Atômica lançada em Nagasaki  (06-08-1945)

Shakespeare apresenta, em suas peças, várias histórias de guerra que mostram a futilidade dos motivos da guerra. Na peça histórica sobre o rei da Inglaterra Henrique V, ele inicia uma guerra contra a França por acreditar que tem direito ao trono daquele país. Em Hamlet, um capitão do exército norueguês, em nome de um príncipe, pede permissão para uma tropa de seu exército cruzar o território dinamarquês. Hamlet surpreende-se quando recebe a explicação que o motivo da guerra é um pequeno território sem valor na Polônia. Quando o capitão do exército norueguês sai, ele tem um de seus monólogos e, em certo momento, define bem aquela guerra:

Vejo a morte iminente de vinte mil homens que, por um capricho, uma ilusão de glória, caminham para a cova como quem vai pro leito, combatendo por um terreno no qual não há espaço para lutarem todos; nem dá tumba suficiente pra esconder os mortos…

A estupidez dos motivos da guerra persiste até hoje, pode ser petróleo, ideologia, religião, etnia, um pedaço de terra qualquer…

Mas afinal qual é a relação entre o título deste artigo e seu conteúdo? O que flores têm a ver com a guerra? Pela manhã, antes de pegar o metrô para “Les Invalides”, passeei no “Jardin des Plantes”, um daqueles lugares com energia boa que revigoram qualquer um. Talvez por isso eu não saí de “Les Invalides” deprimido, porque o ser humano que cria um lugar como “Jardin des Plantes”, não pode soltar bombas ou gases tóxicos em cima dos outros seres humanos. E aí estão algumas das belas flores que fotografei na manhã deste domingo, pra não dizer que não falei das flores…

Flores_Jardin-des-Plantes

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Nenhuma Conquista Importante vem sem Persistência – o Exemplo de Rodin

Nesta semana, eu e a Cláudia voltamos de duas semanas de férias em Paris. Poderia escrever sobre várias observações que fizemos ao longo da viagem, mas escolhi, para começar, o exemplo de persistência do grande escultor francês Auguste Rodin. Visitamos o excelente Museu Rodin em Paris na semana passada e todas as fotos apresentadas neste post foram tiradas pela Cláudia.

Musée Rodin – Hotel Biron – Paris

Todos conhecem pelo menos duas obras deste artista: “O Pensador” e “O Beijo”, mas sua produção artística foi muito maior e as dificuldades enfrentadas na sua vida são um exemplo. Quem observa as duas obras apresentadas abaixo, pode pensar que Rodin teve uma vida maravilhosa rodeado de sucesso e glamour, entretanto ele só atingiu o sucesso após os 40 anos e, mesmo assim, nunca ficou imune às críticas.

O Pensador

O Beijo

Rodin nasceu em uma família pobre. Tentou entrar três vezes na principal Escola de Belas Artes da França e foi recusado. Após a morte da irmã, resolveu entrar para a vida religiosa. Felizmente o padre Eymard, reconhecendo seu talento, orientou-o a seguir a carreira artística. Por sinal Eymard foi canonizado pelo para João XXIII, como São Pedro Julião Eymard.

Padre Eymard

Para obter o sustento da família, trabalhou até os 35 anos em ateliês de arte decorativa na França e na Bélgica. Mais tarde considerou fundamental o conhecimento técnico adquirido nestes empregos. Conseguiu juntar algum dinheiro e investiu em uma viagem à Itália, onde interessou pelas esculturas de Donatello e Michelângelo. Esta viagem influenciou decisivamente seu estilo e toda sua obra.

No ano seguinte, expôs sua primeira escultura de destaque, o nu “A Idade do Bronze” apresentada abaixo. Apesar de todos admirarem seu trabalho, foi acusado de fraude, porque teria feito o molde diretamente sobre o corpo do modelo.

A Idade do Bronze

Levou anos para provar o contrário e quase desistiu por causa das críticas injustas e das dificuldades financeiras. Foi em frente e recebeu convite para fazer a obra “Porta do Inferno” baseada na Divina Comédia de Dante. Nunca concluiu a obra (foto abaixo), mas vários elementos, como “O Pensador” e “O Beijo”, ganharam vida própria.

Porta do Inferno

No mesmo período fez a obra “Os Burgueses de Calais”, apresentada na sequência, em que cada um dos seis personagens ganharam vida separadamente em outras esculturas.

Os Burgueses de Calais

Mesmo com todo o sucesso, foi duramente criticado pela escultura em homenagem ao escritor Honoré de Balzac. Pediu desculpas e recolheu a estátua para seu acervo próprio. O belíssimo bronze fotografado abaixo só foi fundido décadas após sua morte.

Honoré de Balzac

O resumo deste post poderia ser o seguinte: mesmo para um gênio como Rodin, o sucesso não chega, se não houver muito estudo e determinação. Ele aproveitou os dez anos de trabalho para aprender as mais diversas técnicas artísticas. Não hesitou em investir o dinheiro duramente amelhado naqueles anos em uma viagem à Itália que lhe traria conhecimento e inspiração. Resistiu a toda a espécie de críticas e prosseguiu com firmeza, realizando uma produção artística inovadora de alta qualidade. Quando percebeu que o público e a crítica não estavam preparados para certas obras, apenas as afastou dos olhos da maioria e as conservou para as futuras gerações.

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