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O que Eike Batista e Napoleão Bonaparte Têm em Comum?

Napoleão Bonaparte, sem dúvida, é uma das figuras mais polêmicas da história da humanidade. Como pude perceber recentemente no Hôtel des Invalides em Paris, o culto à memória do Imperador da França continua vivo. Sua tumba majestosa é cercada por uma série de painéis que apresentam suas contribuições para a França, começando pela centralização administrativa e pacificação interna do país, passando pelo chamado Código Napoleônico para o direito civil em vigor até hoje, chegando às inúmeras benfeitorias implementadas no país, especialmente em Paris. Abaixo você pode ver um destes painéis, onde o baixinho Napoleão parece um daqueles heróis gregos ou romanos…

Napoleão_painel_tumba

Napoleão tinha o sonho de acabar com as tradicionais monarquias europeias. Teve sucesso em várias batalhas, mesmo naquelas em que seu exército estava com inferioridade numérica, o que aumentou sua fama de grande estrategista militar, um gênio invencível. Em junho de 1812, as tropas francesas invadiram a Rússia e após cinco meses se retiraram, deixando para trás aproximadamente 550 mil soldados mortos. Após esta grande derrota, os povos das áreas conquistadas por Napoleão se revoltaram e, em março de 1814, atacaram Paris. Napoleão abdicou do trono de imperador, foi preso e enviado para o exílio na ilha de Elba, na costa italiana. No Museu do Exército (Musée de l’Armée), vi estes quadros que mostram um Napoleão derrotado, muito diferente das telas que estamos acostumados.

Napoleão montado no seu cavalo após prder uma batalha (quadro de Jean-Louis Ernest Meissonier)

Napoleão montado no seu cavalo após perder uma batalha (quadro de Jean-Louis Ernest Meissonier)

Napoleão em Fontainebeau 31-03-1814 (quadro de Paul Delaroche)

Napoleão em Fontainebeau 31-03-1814 (quadro de Paul Delaroche)

Um ano depois, ele fugiu de Elba, voltou para França, foi novamente aclamado imperador. Desta vez seu reinado durou apenas 100 dias, quando foi derrotado na Batalha de Waterloo na Bélgica. Foi novamente preso e enviado desta vez para a Ilha de Santa Helena, distante 2 mil km do sudoeste da África, onde morreu seis anos depois.

Há duas semanas, o semanário econômico Businessweek da Bloomberg, um dos principais provedores de informação para o mercado financeiro mundial, botou na sua capa o brasileiro Eike Batista. A manchete era muito desabonadora – “como perder uma fortuna de 34,5 bilhões de dólares em um ano”. Veja a capa da revista abaixo.

Eike_Batista_Businessweek

Eike Batista é o empresário brasileiro que criou há alguns anos o grupo EBX com atuação em diversos setores como petróleo, carvão mineral, energia, mineração, logística e indústria naval. Para expandir agressivamente seus negócios, captou recursos , entre 2004 e 2012, através de uma série de IPO’s (oferta pública inicial) no mercado acionário brasileiro. A estratégia foi um sucesso e ele se tornou bilionário. Naquele momento, ele passou a ter como meta ser o homem mais rico do mundo. No segundo semestre do ano passado, o mercado começou a desconfiar da capacidade de Eike cumprir suas promessas e as cotações das ações das suas empresas começaram a cair. Em 2013, ficou claro que estas promessas não seriam cumpridas. Para evitar a bancarrota do seu grupo, ele começou a se desfazer do seu patrimônio, já vendeu controle de algumas de suas empresas e a OGX, sua petrolífera, corre grande risco de entrar em concordata. Eike que já foi o sétimo no ranking dos mais ricos do mundo, atualmente deixou de ser bilionário.

Parece que tanto Eike Batista, como Napoleão Bonaparte, guardadas as devidas proporções, sofreram do mesmo mal. Após um período de sucesso, passaram a acreditar que podiam fazer qualquer coisa. Tudo daria certo! Napoleão quis conquistar a Europa e Eike quis ser o homem mais rico do mundo. Napoleão achou que era possível conquistar a Rússia durante seu curto verão e Eike achou que era possível gerenciar a implantação simultânea de vários megaprojetos em poucos anos. O orgulho, em relação às suas capacidades, os fez minimizarem os riscos de insucesso. Assim, ao invés de consolidarem suas posições, eles arriscaram e perderam praticamente tudo o que tinham.

Antes de jogar pedras, temos que compreender que esta é uma armadilha fácil de cair. Quando nos acostumamos apenas com vitórias, passamos a sentir orgulho da nossa capacidade e facilmente podemos nos tornar arrogantes. Neste momento, surdez e cegueira nos fazem ouvir e ver apenas o que apoia nossos pensamentos. Está tudo pronto para o fracasso, a queda é iminente! Cada um de nós deve ter inúmeros exemplos destes casos. Devemos ficar atentos aos sinais que nos cercam, porque isto acontece em todas as esferas de nossas vidas – profissional, casamento, família…

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Pra Não Dizer que Não Falei das Flores

Há pouco mais de dois anos, eu e a Claudia passamos nossas férias em Paris. Logo após a visita ao Museu Rodin, nos dirigimos ao Hotel dos Inválidos que fica ao lado. Exploramos apenas o lado externo, porque a Claudia não quis entrar para ver o Museu do Exército ou a tumba de Napoleão Bonaparte. Eu aceitei a decisão e falei para ela que na primeira vez que eu estivesse sozinho em Paris faria esta visita.

Hotel dos Inválidos - Paris

Hotel dos Inválidos – Paris

O dia chegou! Estou fazendo um treinamento esta semana em Fontainebleau e aproveitei para passar o final de semana passado em Paris. Cheguei ao “Les Invalides” no final da manhã de domingo e comecei pelo museu que conta a história das guerras em que o exército francês participou no final do século XIX, Primeira e Segunda Guerras Mundiais. Na sequência visitei a tumba de Napoleão Bonaparte, ou Napoleão I. Depois passei pelas alas dedicadas ao exército francês e suas guerras desde a monarquia, passando pela Revolução Francesa, por Napoleão, pela restauração da monarquia, por uma nova tentativa de república, por uma nova tentativa de império com Napoleão III e enfim a chamada Terceira República.

Tumba de Napoleão Bonaparte

Tumba de Napoleão Bonaparte

Foi muito deprimente ver todo o esforço e dispêndio de recursos dedicados para a guerra, onde o resultado final é sempre mortes, destruição e sofrimento. E todas as histórias, neste museu, eram basicamente variações sobre o mesmo tema:

– o líder de um país queria mais poder e resolvia invadir o vizinho. Não ficava satisfeito e invadia seu novo vizinho, mas ainda queria mais, e invadia mais um e continuava até perder feio alguma batalha. Depois desta derrota, várias outras viriam até a destruição do país e a destituição do seu antigo líder.

– os vencedores finais, que foram originalmente agredidos, vingavam-se através de tratados de paz que levavam humilhação e miséria aos perdedores.

– os países perdedores, depois de algum tempo tentando sair do buraco, ficavam instáveis social, econômica e politicamente. Nesta hora, aparecia um líder carismático que prometia a solução de todos os problemas. Foi assim após a Revolução Francesa com Napoleão ou, na Alemanha, após a Primeira Guerra Mundial com Hitler.

– estes líderes faziam muita coisa boa, como resultado, eles aumentavam seu poder até ficar absoluto, mas, sob o pretexto de se defender dos vizinhos ou vingar-se dos vencedores da guerra anterior, iniciavam novas guerras e o ciclo se repetia.

Incrível como a espécie humana que cria maravilhosas obras de arte, desenvolve técnicas para curar todas as doenças, decifra segredos das ciências, faz grandes obras de engenharia, também faz a guerra, o horror, a antítese de toda a beleza. Na Primeira Guerra Mundial, milhares morreram dentro de trincheiras, por ação de bombas ou gases tóxicos. No final da Segunda Guerra, os americanos testaram um novo armamento, a bomba atômica, com destruição total de Hiroshima e Nagasaki.

Bomba Atômica lançada em Nagasaki (06-08-1945)

Bomba Atômica lançada em Nagasaki  (06-08-1945)

Shakespeare apresenta, em suas peças, várias histórias de guerra que mostram a futilidade dos motivos da guerra. Na peça histórica sobre o rei da Inglaterra Henrique V, ele inicia uma guerra contra a França por acreditar que tem direito ao trono daquele país. Em Hamlet, um capitão do exército norueguês, em nome de um príncipe, pede permissão para uma tropa de seu exército cruzar o território dinamarquês. Hamlet surpreende-se quando recebe a explicação que o motivo da guerra é um pequeno território sem valor na Polônia. Quando o capitão do exército norueguês sai, ele tem um de seus monólogos e, em certo momento, define bem aquela guerra:

Vejo a morte iminente de vinte mil homens que, por um capricho, uma ilusão de glória, caminham para a cova como quem vai pro leito, combatendo por um terreno no qual não há espaço para lutarem todos; nem dá tumba suficiente pra esconder os mortos…

A estupidez dos motivos da guerra persiste até hoje, pode ser petróleo, ideologia, religião, etnia, um pedaço de terra qualquer…

Mas afinal qual é a relação entre o título deste artigo e seu conteúdo? O que flores têm a ver com a guerra? Pela manhã, antes de pegar o metrô para “Les Invalides”, passeei no “Jardin des Plantes”, um daqueles lugares com energia boa que revigoram qualquer um. Talvez por isso eu não saí de “Les Invalides” deprimido, porque o ser humano que cria um lugar como “Jardin des Plantes”, não pode soltar bombas ou gases tóxicos em cima dos outros seres humanos. E aí estão algumas das belas flores que fotografei na manhã deste domingo, pra não dizer que não falei das flores…

Flores_Jardin-des-Plantes

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