O Efeito Lúcifer – O Homem é o Homem e sua Circunstância (parte 1)

Na semana passada, participei de um programa de treinamento na renomada Harvard Business School sobre a construção de novos negócios em organizações consolidadas. Entre os vários estudos de casos e discussões sobre as diversas dimensões que influenciam este assunto, achei muito interessante a aula sobre cultura empresarial.

A ideia geral é que o contexto influencia decisivamente na atitude das pessoas, determinando seus comportamentos. Se a empresa tem uma forte cultura tradicional e anti-inovadora, os comportamentos de seus colaboradores seguirão esta cultura, mesmo que suas personalidades sejam distintas dela. Ou seja, se a empresa quer inovar, tem que primeiro ajustar sua cultura. O instrutor desta aula comentou rapidamente o trabalho de dois pesquisadores, Stanley Milgram e Phil Zimbardo. Suas experiências me causaram um impacto no meu entendimento sobre as pessoas. Usei o tempo de espera nos aeroportos na volta para estudar mais sobre os métodos e conclusões dos experimentos destes dois psicólogos.

Stanley Milgram

Stanley Milgram

O teste de Milgram foi realizado no início dos ano 60, inicialmente na Universidade de Yale. Sob a falsa alegação de que participariam de um teste sobre melhoria de memória, voluntários foram atraídos e selecionados. Na verdade o teste era sobre a obediência das pessoas em relação a ordens e apenas uma pessoa era testada (o “professor”), as outras duas (o “experimentador” e o “aluno”) eram atores. A figura abaixo apresenta o esquema básico do experimento.

Experimento de Milgram

O “professor” (T) lia uma série de pares de palavras, depois dizia uma destas palavras e as opções que completariam o par. O “aluno” (L) escolhia uma das opções. Se estivesse certa, o teste seguiria normalmente. Em caso de erro o “professor” aplicaria um choque elétrico no aluno, antes de prosseguir a leitura. O primeiro choque era de 15 volts, cada choque na sequência era acrescido de 15 volts até chegar a incríveis 450 volts! É importante salientar que ninguém sofria os choques, porque o “professor” não tinha contato visual com “aluno” que era substituído por uma gravação.

Num certo momento, após um choque, o “aluno” gritava de dor e pedia para sair. Os “professores” se viravam para o “experimentador” (E) e pediam para encerrar o teste, mas este ordenava a sua continuação, argumentando que o “aluno” não corria risco e que o teste era importante. Em um dos experimentos,  o “professor” realmente sofria a cada resposta errada do “aluno” e disse para o “experimentador” que não queria ser o responsável pela morte do “aluno”. O “experimentador” repetiu as ordens e completou que era o responsável pela integridade do “aluno”. Como não tinha mais responsabilidade, este “professor” continuou o teste, mesmo quanto o “aluno” parou de responder ou reclamar, ele prosseguiu com os choques até repetir três vezes os 450 volts, quando o teste foi finalmente encerrado.

No final, o teste era explicado para o “professor” e um ambiente mais leve era criado para atenuar o clima pesado durante o experimento. Por incrível que pareça dois terços dos testados foram até o final, conforme o gráfico apresentado abaixo. Ou seja, deram três choques de 450 volts! Nenhum dos testados, mesmos os que pararam antes, insistiu para ver o real estado dos “alunos”.

Resultado do Experimento de Milgram

Fica claro que em uma situação completamente fora do normal e do controle, ao receber as ordens, foi mais cômodo segui-las mesmo não concordando com a ação realizada. Ficou ainda mais fácil, quando a responsabilidade foi completamente removida dos ombros. Como se fosse aceitável puxar o gatilho do revólver e matar alguém, só porque alguém assumiu toda a responsabilidade.

Estas situações podem acontecer de modo mais sútil. O gerente ordena uma ação que você não concorda, mas realiza sem questionar. Esta forma é o popular “manda quem pode e obedece quem tem juízo”. Será que tem mesmo?  Outra, mais sútil ainda, é a do “expert” profundo conhecedor de determinada técnica. Ele fala alguma coisa sobre este assunto e todos concordam sem pensar ou questionar. Como se existisse alguém infalível…

Se você quiser saber mais sobre o experimento de Stanley Milgram, veja o filme abaixo. No próximo post, falarei sobre o Experimento da Prisão de Stanford desenvolvido por Phil Zimbardo.

 

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3 Comentários

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3 Respostas para “O Efeito Lúcifer – O Homem é o Homem e sua Circunstância (parte 1)

  1. Pingback: Che Guevara: Anjo ou Demônio? | World Observer by Vicente

  2. Simone

    Pois é Vicente, que interessante esse teu curso. Sabe que vi um documentário na TV sobre o Nazismo que falava algo parecido. Mostrando experiências com pessoas na rua onde uma ordem era dada por alguém comum e não eram obedecidas e a mesma ordem dada por pessoas uniformizadas de policiais ou autoridades sim. Com esses ordens absurdas eram executadas sem questionamento. E o documentário tentava mostrar como milhares de pessoas deixaram acontecer o massacre nos campos de concentração sem fazer nada… Ficaria filosofando horas sobre o comportamento as vezes tão animal e tão pouco humano do ser humano. Mas em fim penso que o ser humano deve SER algo para além das circunstâncias.

    Grande abraço
    Simone Palmeiro

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    • Simone,

      Vou adiantar neste comentário a terceira parte deste artigo. Zimbardo listou sete processos sociais que facilitam o escorregão para o mal:
      – displicentemente dar o primeiro passo;
      – desumanização dos outros;
      – anonimato;
      – responsabilidade individual difusa;
      – obediência cega à autoridade;
      – conformismo não crítico às regras do grupo;
      – tolerância passiva ao mal pela inação ou indiferença.

      O grande problema que atinge a maioria das pessoas é o conformismo, a passividade e aquele sentimento que os outros são os responsáveis. Na verdade devemos ser críticos e ter tolerância zero contra o que está errado ao nosso redor.

      Grande abraço,
      Vicente

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