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Reciclar é Preciso, Extrair não é Preciso

Depois de alguns dias em uma das maiores feiras ambientais do mundo, a IFAT, na bela e sempre agradável Munique, eu passei a dar mais importância para a análise do ciclo de vida dos produtos do que dava anteriormente.

Achei os dois gráficos abaixo na internet, vi um similar em uma apresentação sobre a necessidade de buscar modos de vida mais sustentáveis. Por muito tempo, se pensou que os recursos naturais eram abundantes e infindáveis, mas atualmente o ser humano começa a se dar conta que a história não é bem assim. Apesar disto, muito pouco de prático é feito. Veja os incríveis crescimentos da população humana, da economia e da produção de bens de consumo.

Crescimento da Economia Mundial

Crescimento da Economia Mundial

Com o crescimento da economia mundial, a extração de recursos naturais cresceu exponencialmente, afetando a disponibilidade de água, a fauna e a flora de muitas regiões da Terra.

Crescimento Econômico – Recursos e Meio Ambiente

Crescimento Econômico – Recursos e Meio Ambiente

Para agravar mais a situação apresentada no gráfico anterior, ainda temos o aparecimentos de novos produtos eletrônicos – celulares, notebooks, tablets – que empregam novas matérias primas. A figura abaixo apresenta alguns metais empregados na fabricação de aparelhos celulares.

Celular_Tesouros

O Índio, junto com o Estanho, é responsável pelo desempenho da tela touch screen. Você já pode deduzir que o consumo aumentou muito com a onda de smartphones e tablets.

O Neodímio é um dos “misteriosos” elementos da tabela periódica que ficam naquelas duas linhas debaixo, os Terras Raras. Ele é usado para fazer os minúsculos e poderosos ímãs dos autofalantes.

O Tântalo é matéria prima para a produção de microcapacitores. A maior reserva do mineral Coltan, de onde este metal é extraído, está localizada na República Democrática do Congo (ex-Zaire) no centro da África. Este país sofre com uma terrível guerra civil, abastecida pelo contrabando deste valioso minério através da vizinha Ruanda.

As baterias têm Lítio. Os contatos das placas do circuito do celular são de cobre. E na placa e no chip tem Ouro! Sim, a cada tonelada de celulares devem ter umas 300 gramas de Ouro!

Então temos em nossas casas tesouros esquecidos, atirados em gavetas ou, pior ainda, lançados em algum lixão. Se você acha que na rica e esclarecida Alemanha é muito diferente, está enganado… Eles agora estão discutindo a obrigatoriedade de devolver o celular velho para a compra de um novo. O consumismo obriga muitas pessoas a trocar todo ano de celular e o anterior não tem mercado. Para agravar a situação, o índice de reciclagem é muito baixo. Matem a saudade e observem a tabela periódica abaixo. Ela é muito especial, porque mostra o índice de reciclagem de cada elemento metálico.

Tabela Periódica - Índice de reciclagem de metais

Tabela Periódica – Índice de reciclagem de metais

Em nosso exemplo do celular, temos o Índio (In), o Tântalo (Tl), o Neodímio (Nd) e o Lítio (Li) com índice de reciclagem inferior a 1%. Apenas o Cobre (Cu) e o Ouro (Au) têm índice de reciclagem superior a 50%.

Hoje todos nós falamos sobre como o ser humano poderá evitar o aumento da emissão de gases de efeito estufa. Desejamos energias limpas como a solar e a eólica. O carro elétrico está se tornando uma realidade concreta. Por outro lado, muitos metais, entre eles o Índio, entram na constituição dos painéis solares. As baterias, além de outros metais, têm Lítio que, como já vimos, apresenta um índice de reciclagem menor do que 1%. Se não houver reciclagem, o dano ambiental causado pela mineração será enorme.

Ao invés de se pensar apenas nos efeitos diretos das ditas soluções sustentáveis, os cientistas, os engenheiros e os políticos deveriam pensar e trabalhar no plano completo. Todas as etapas deveriam ser consideradas – a mineração, a purificação dos metais, a produção dos bens e sua reciclagem e disposição final. Só assim teríamos um mundo realmente sustentável.

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O Verdadeiro Fim da História

Em 2014, completará 25 anos da publicação do polêmico ensaio “The End of History?” do cientista político americano Francis Fukuyama na revista National Interest. Depois, no final daquele ano, aconteceu a queda do Muro de Berlim, o que levou muita gente a afirmar que a História havia terminado, porque a democracia liberal triunfara e não surgiria outro sistema para disputar a hegemonia, como foram os casos do fascismo e do socialismo no século XX.

Francis Fukuyama

Francis Fukuyama

No último parágrafo deste ensaio, Fukuyama fala do fim das disputas ideológicas e da “estagnação” que tomará conta da humanidade após o fim da História:

“O fim da história será um momento muito triste. A luta pelo reconhecimento, a vontade de arriscar a própria vida por um objetivo puramente abstrato, a luta ideológica mundial que suscitou ousadia, coragem, imaginação e idealismo, será substituída pelo cálculo econômico, pela solução interminável de problemas técnicos, por preocupações ambientais, e pela satisfação de exigências sofisticadas dos consumidores. No período pós-histórico não haverá nem arte nem filosofia, apenas a guarda perpétua do museu da história humana. Eu posso sentir em mim mesmo, e ver nos outros ao meu redor, uma nostalgia poderosa para o momento em que a história existia. Essa nostalgia, de fato, continuará a alimentar competição e conflito, mesmo no mundo pós-histórico por algum tempo. Apesar de eu reconhecer a sua inevitabilidade, eu tenho os sentimentos mais ambivalentes para a civilização que foi criado na Europa desde 1945, com suas ramificações pelo Atlântico Norte e Ásia. Talvez esta perspectiva de séculos de tédio no final da história servirá para iniciar a história mais uma vez.”

Para começar, não acredito no fim da arte ou da filosofia e prefiro a guerra trancafiada no Musée de l’Armée de Paris. Você pode acessar a íntegra do ensaio através do link abaixo.

http://www.wesjones.com/eoh.htm

Em 1992, Fukuyama lançou o livro “The End of History and the Last Man”, onde desenvolveu melhor os pressupostos de seu ensaio de 1989. Com o fim da Guerra Fria devido ao dilaceramento do bloco socialista, a democracia liberal tornou-se, segundo ele, a forma final de governo para todas as nações. Não poderia haver progressão da democracia liberal para um sistema alternativo. Como a História deve ser vista como um processo evolutivo, poderíamos concluir que a História chegou ao fim, mesmo que eventos ainda ocorram.

Não acredito que esta seria uma boa definição do “fim da História”. Atualmente temos uma série de revoluções acontecendo de forma pacífica no mundo. Estamos entrando em uma era de informação, nunca as pessoas tiveram informação com a abundância de hoje. Figuras como Assis Chateaubriand, o poderoso dono dos Diários Associados entre as décadas de 40 e 60, ou Roberto Marinho, dono das Organizações Globo que chegou ao auge da sua influência entre as décadas de 60 e 90, teriam hoje como principal limitador a Internet. Qualquer um pode dar sua versão dos fatos ou publicar fotos e documentos comprometedores que derrubam versões da grande imprensa.

Assis Chateaubriand (esq.) e Roberto Marinho (dir.)

Assis Chateaubriand (esq.) e Roberto Marinho (dir.)

A tecnologia, em todas as áreas, avança e sinaliza um futuro de maior longevidade e abundância. A biotecnologia é outra revolução deste século. Fukuyama demonstrava pessimismo sobre o futuro da humanidade devido à incapacidade humana de controlar a tecnologia. Em minha opinião, as discussões éticas acontecem depois do desenvolvimento tecnológico, o que evidentemente pode causar sérios problemas, mas dificilmente ocorrerão problemas irreversíveis. Os erros fazem parte do processo de aprendizado.

Voltando para o “fim da História”, o capitalismo, o neoliberalismo e a globalização atacam em duas frentes para garantir a manutenção da sua expansão:

– estímulo ao consumismo das populações mais ricas;
– busca e desenvolvimento de novos mercados.

Atualmente pode-se citar os países pobres ou emergentes da África, Ásia, América Latina e do próprio leste europeu como exemplos destes novos mercados-alvo da globalização. Há quase dois anos escrevi o artigo “Malditas Multinacionais”, onde faço uma análise do binômio lucro e risco. Na África, por exemplo, as instituições dos países estão ficando mais estáveis, atraindo novos investimentos, porque os riscos estão menores ou, pelo menos, administráveis. Como consequência, há uma melhoria considerável nos padrões sociais destes países. O número de filhos por casal cai, o crescimento demográfico declina e a expansão econômica perde velocidade. Outros novos mercados serão procurados e o ciclo se repete.

Conforme minha visão, o “Fim da História” acontecerá quando houver igualdade entre as pessoas e povos. Isto não significa que não existirão pessoas e povos mais ricos ou mais pobres, mas todos terão liberdade e acesso à alimentação de qualidade, moradia digna, saúde e educação. Continuará a haver mobilidade interna entre pessoas e povos, mas isto não será o suficiente para estimular o crescimento da atividade econômica. Assim o neoliberalismo e a globalização perderão fôlego. O que vai acontecer em um mundo com redução de população, com fontes de energia alternativas baratas e confiáveis, com abundância de alimentos de qualidade, onde não será preciso trabalhar mais do que 20 ou 24 horas semanais?

Talvez só exista uma alternativa para o capitalismo, a expansão espacial – a conquista e colonização de novos planetas. Neste caso, se tornará realidade aquela frase do seriado de TV “Jornada nas Estrelas” (“Star Trek” no original em inglês):

– “Espaço – a fronteira final”.

Para os fãs da série, grupo no qual me incluo, matem ou alimentem a saudade, assistindo a abertura original da segunda temporada.

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Há dois Mil Anos Atrás – O Genial Heron de Alexandria

Muitas vezes fazemos conjecturas sobre como as coisas teriam evoluído, se tivéssemos optado por um caminho diferente do escolhido. Os pensamentos ou diálogos sempre começam da mesma forma:

– Se isto tivesse acontecido, tudo seria diferente…

Normalmente alguém responde:

– Pois é, mas “se” não existe!

Isto ocorre nas mais diversas esferas – pessoal, profissional ou, até mesmo, na história da humanidade. Todo este preâmbulo serviu apenas para introduzir o assunto do artigo de hoje, falarei sobre um dos meus ídolos, o grande engenheiro da antiguidade Heron de Alexandria.

Heron de Alexandria

Heron de Alexandria

Heron foi um grande matemático, engenheiro e inventor da antiguidade. Viveu em Alexandria no século I e, hoje, sua produção é conhecida através dos vários livros que escreveu.

Em geometria, por exemplo, fez vários cálculos de superfície e volume de figuras tridimensionais como esferas, pirâmides, cubos e outras. Desenvolveu a fórmula, que leva seu nome, na qual se obtém a área de qualquer triângulo a partir apenas das medidas dos seus lados.

Apesar da sua obra nas áreas de matemática e geometria ser consistente, sinto-me muito mais atraído por seus inventos. Heron projetou o primeiro dispositivo acionado por um moinho de vento, um órgão musical.

Heron's_Windwheel

Órgão musical acionado por um moinho de vento

Em outro livro, Heron descreve o uso da dioptra (a avô do teodolito) e do odômetro para medição da área de terrenos, sendo um dos pioneiros em Topografia. Também inventou seringas, bombas para combater incêndios e robôs mecânicos. Dentre suas criações mais curiosas, destaco a primeira máquina de venda automática com moedas. No modelo de Heron, o usuário colocava uma moeda na fenda superior que acionava uma alavanca que liberava uma quantidade de Coca-Cola, ou melhor, água benta. Esta era uma forma dos templos conseguirem oferendas…

Máquina para venda de água

Máquina para venda de água

Mas a mais impressionante de todas as suas invenções foi a eolípila, uma máquina a vapor. Como você pode ver na figura abaixo, a água adicionada à caldeira era aquecida com fogo. O vapor formado na caldeira alimentava a esfera através de um tubo que também servia de eixo. O vapor saia da esfera através de dois tubos curvos localizados em lados diametralmente opostos, gerando movimento. Heron inventou a máquina a vapor mil e setecentos anos antes da Revolução Industrial do século XVIII.

Eolípila - máquina a vapor de Heron

Eolípila – máquina a vapor de Heron

Uma história, provavelmente uma lenda, diz que Heron mostrou com empolgação sua invenção ao rei que reagiu dizendo:

– O que vamos fazer com os nossos escravos?

Agora retorno a minha indagação inicial. Como seria o mundo se a eolípila fosse usada como ponto de partida para o desenvolvimento de uma revolução industrial na antiguidade? Acho difícil prever, talvez estivéssemos em um nível de desenvolvimento muito superior ao atual ou talvez os humanos já estivessem extintos devido a guerras. Quem pode prever? O “se” não existe…

Segundo estimativas, a população na época de Heron, século I, era apenas 250 milhões, enquanto que na época da Revolução Industrial já caminhava para o primeiro bilhão. Isto aumenta a necessidade da criação de formas mais eficientes de produção de bens e de transporte, favorecendo o desenvolvimento e uso da máquina a vapor no século XVIII.

O documentário abaixo mostra um pouco da história de Heron de Alexandria e suas invenções. Você verá que Heron não abandonou a eolípia e empregou seus princípios para automatizar a abertura e fechamento de portas em templos de Alexandria. As pessoas acreditavam que as portas abriam através da magia dos deuses, mas as verdadeiras responsáveis eram a ciência e a engenharia de Heron.

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A Máquina Fotográfica Digital, o Sexo e a Concordata de um Gigante

Confesso que até hoje tenho certo trauma em relação à atividade de tirar fotografias, talvez porque, no passado, havia um verdadeiro rito processual. Tudo começava com o ato de tirar a foto e aguardar que todo o filme fosse usado, depois se deixava o filme em um laboratório para ser revelado e, finalmente, as fotos eram pagas, retiradas e surgia o resultado. Muitas fotos “queimavam”, porque eram tiradas contra o sol. Algumas eram tortas ou mal enquadradas, cabeças eram cortadas com a mesma eficiência das guilhotinas da Revolução Francesa. Outras ainda saiam “tremidas” ou desfocadas. Existia muita expectativa sobre algumas fotos, podiam ser reuniões de famílias ou amigos, belas paisagens, alguma celebridade. Muitas vezes havia decepção com o resultado…

Assim se procurava minimizar os riscos de “perder” fotos, a atividade era quase exclusiva de adultos. Alguns casais pediam para o filho mais velho tirar uma fotografia deles, mas normalmente com baixa expectativa de sucesso. Lembro que, quando moramos em Passo Fundo, fizemos um passeio na cidade de Vacaria. Eu devia ter seis anos e meus pais se sentaram em um banco da praça principal da cidade e pediram para eu tirar uma foto deles. Quando o filme foi revelado, não apareceu a foto deles, no lugar dela havia uma linda foto das árvores da praça. Minha mira falhou…

As coisas melhoraram um pouco quando ganhei de presente alguns anos depois uma Kodak Instamatic.

Kodak Instamatic

Era mais fácil de colocar o filme e tirar fotos, mas as fotos eram quadradas e era difícil tirar uma foto realmente boa. Abaixo uma foto histórica tirada com esta máquina onde apareço com minha irmã e meus primos de Pelotas.

Primo Éverton (esquerda), eu, prima Simone e mana Flávia

Primo Éverton (esquerda), eu, prima Simone e mana Flávia

Tem algumas invenções que alteram nosso modo de se relacionar com o mundo e favorecem o aparecimento de novos talentos. Uma destas invenções é a máquina fotográfica digital.

Na metade da década de 70, aconteceram os primeiros desenvolvimentos nos laboratórios da Kodak, mas somente no final dos anos 80 e início dos 90 se iniciou a comercialização dos primeiros modelos. O preço inicialmente era muito mais alto do que as câmeras convencionais com filme. A resolução das fotos digitais também era muito inferior. As agências jornalísticas foram os primeiros a perceberem o potencial desta nova invenção, onde um repórter fotográfico podia tirar uma foto e transmiti-la pela linha telefônica para a redação do jornal. Depois surgiram as câmeras com visor de LCD, onde instantaneamente a qualidade da foto poderia ser conferida. O medo de desperdiçar fotos sumiu, poderiam ser tiradas quantas fotos cada um quisesse e só seriam preservadas as que ficassem boas. As crianças ganharam a permissão de experimentar. Uma revolução! Quando o preço caiu, as máquinas fotográficas com filme ficaram restritas a um nicho de mercado, os amadores migraram maciçamente para a novidade.

Até o grande fotógrafo brasileiro Sebastião Salgado aderiu à novidade durante seu último trabalho, Genesis, que traz imagens das regiões mais remotas da Terra. Assista ao vídeo sobre a abertura da turnê da exposição que ocorreu no Museu de História Natural de Londres.

Aqui em casa, nossa filha Júlia tira fotos e faz vídeos com a máquina fotográfica e, principalmente, com o smartphone da mãe. Alguns destes vídeos são bem interessantes! Parece que os smartphones já substituíram a maioria das máquinas fotográficas digitais. A tecnologia avança de forma cada vez mais rápida. Quando algo novo cai nas graças dos consumidores, a migração é muito rápida, abandonando-se a tecnologia anterior.

Agora um aspecto mais “quente” desta evolução tecnológica! As fotos digitais facilitaram outras atividades, como o sexo e a pornografia. Imagine a seguinte situação: um casal se inscreve num site de swing (troca de parceiros) e precisa anexar fotos desinibidas neste site. No caso das máquinas fotográficas com filme, eles tirariam fotos caseiras, iriam para um laboratório para solicitar a revelação, onde provavelmente todos os funcionários olhariam as fotos. Evidentemente, haveria uma “negociação” do casal para decidir qual dos dois retiraria as fotos, onde, certamente, o marido seria o perdedor. Ele entraria na loja, usando a sua melhor cara de pau, e entregaria o recibo para algum atendente. O marido pegaria o envelope, louco para sumir o mais rápido possível, mas uma atendente diria:

– O senhor tem direito a uma ampliação.

Neste momento, o homem poderia interpretar mal, ficar feliz e dizer:

– Que beleza! Vocês têm convênio com alguma clínica especializada?

Ou poderia se irritar e dizer:

– Achou pequeno, hein? Posso te mostrar ao vivo…

censurado

Deixando a palhaçada de lado, eu realmente acho incrível como um gigante como a Eastman Kodak, em apenas vinte anos, perdeu a liderança do negócio de fotografia e pediu concordata na metade de 2012. Na sequência, para evitar a falência, se desfez de negócios e vendeu suas patentes no segmento de imagens digitais. Parece que esta empresa, como tantas outras grandes corporações, não conseguiu perceber a ameaça que novas tecnologias emergentes representam para seu negócio e não se reinventou a tempo. No caso específico da Kodak, ainda existe o agravante de que o primeiro protótipo da nova invenção nasceu no interior de seus laboratórios de P&D. O orgulho da sua grandeza gerou a arrogância e a cegueira que despedaçaram a empresa, como acontece também com várias pessoas.

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A Gambiarra

Na engenharia, ou em nossas vidas, muitos problemas são solucionados através de soluções técnicas provisórias, mais conhecidas como gambiarras. O problema é que muitas vezes elas não atendem os mínimos requisitos de segurança e, pior, acabam se tornando definitivas. Geralmente as gambiarras são feitas, porque seu autor não tem recursos, tempo ou disposição para buscar a solução definitiva. Deste modo, o problema é contornado sem pessoal competente, sem as ferramentas corretas, sem o material apropriado. Por outro lado, as gambiarras são também expressões de criatividade do seu autor.

"bela" churrasqueira

“bela” churrasqueira

O artista plástico e cineasta mineiro Cao Guimarães, autor das fotos deste post, já fez um filme sobre esta verdadeira instituição nacional, a gambiarra. Assista ao vídeo abaixo sobre mestres desta prática.

Na sequência, você pode ver outras fotos com gambiarras incríveis. Olhe esta tábua de carne, servindo como suporte nesta janela! Imagine esta tábua despencando do décimo andar de um prédio…

suporte "seguro" para janela

suporte “seguro” para janela

E agora você pode ver uma solução interessante, um CD usado como refletor de uma lâmpada. Ideia bem criativa…

novo uso para CD

novo uso para CD

A gambiarra ainda pode apresentar vários efeitos colaterais. Alguns “gambiarristas” passam a se orgulhar de suas criações e rejeitam as soluções convencionais. Afinal gambiarra vicia, dá prazer! Todos conhecem sucateiros que criam soluções baratas, onde segurança e eficácia são colocadas em segundo plano. No final, o barato sai caro…

Outro problema tem a ver com as restrições causadas pela falta de recursos ou de tempo, por exemplo. As gambiarras são boladas quando existe algum tipo de restrição. A situação pode melhorar, as restrições desaparecerem, mas as pessoas continuam agindo como se elas existissem. E lá vêm novas gambiarras…

Normalmente falta senso crítico para analisar a necessidade de “gambiarrar” e seus impactos sobre a segurança e a implantação de uma solução definitiva do problema.

O pior mesmo é quando a gambiarra vira uma filosofia de vida e passa a ser empregada também nas relações pessoais. Assim ao invés de resolver os problemas, são adotados subterfúgios que só geram sofrimentos futuros. As questões não são solucionadas de modo sustentável, por exemplo no âmbito familiar, e para resolvê-las são escolhidas alternativas como mudar de casa, comprar um automóvel novo, fazer uma viagem ou, muito pior, ter um filho. Gambiarras não são coisas feitas só por pobres. Todos fazem gambiarras quando não sabem como resolver um problema de acordo com as boas técnicas.

Mas, apesar de todos os pontos negativos, nós brasileiros não conseguimos viver sem gambiarra, assim, para finalizar, proponho um brinde em sua homenagem com uma cerveja bem gelada…

gambiarra_cerveja

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O Passado e o Futuro

No ótimo filme de Woody Allen, Meia-Noite em Paris, o personagem principal Gil Pender – interpretado por Owen Wilson, cita uma frase do escritor americano William Faulkner:

– “O passado não está morto! Na verdade, nem é mesmo passado.”

A frase cai como uma luva para este filme. Por incrível que pareça, os detentores do patrimônio do escritor processaram a Sony por violação de direitos autorais…

midnight_in_paris

No filme, Gil Pender sonha em morar em Paris nos anos 20, época na qual seus escritores favoritos viveram. Na sua viagem ao passado, conhece e se apaixona por Adriana, interpretada por Marion Cotillard, mas ela também deseja viver no seu passado, a Belle Époque parisiense, caracterizando uma sequência de “Síndrome da Época de Ouro”.

Quem já não disse que no tempo da sua juventude era melhor? Ou ninguém faz mais músicas ou filmes como no seu tempo? Nada representa melhor esta postura do que a extraordinária música de Belchior “Como Nossos Pais”, imortalizada por Elis Regina. Assista ao vídeo abaixo.

Este trecho da música que transcrevi abaixo descreve esta postura de apego ao passado.

Já faz tempo
E eu vi você na rua
Cabelo ao vento
Gente jovem reunida
Na parede da memória
Esta lembrança
É o quadro que dói mais…

Minha dor é perceber
Que apesar de termos
Feito tudo, tudo, tudo
Tudo o que fizemos
Ainda somos os mesmos
E vivemos
Ainda somos os mesmos
E vivemos
Como Os Nossos Pais…

Nossos ídolos
Ainda são os mesmos
E as aparências
As aparências
Não enganam não
Você diz que depois deles
Não apareceu mais ninguém
Você pode até dizer
Que eu estou por fora
Ou então
Que eu estou inventando…

Mas é você
Que ama o passado
E que não vê
É você
Que ama o passado
E que não vê
Que o novo sempre vem…

Considerando que “o novo sempre vem”, a seguir apresento algumas “obviedades” sobre passado e futuro.

Não é possível criar um novo futuro com base apenas no passado. Seria como dirigir um automóvel, olhando apenas para o espelho retrovisor.

Por outro lado, corremos risco de fracassar, se tentarmos criar um futuro sem entender criticamente o passado. Neste caso, poderemos repetir os mesmos erros. Como eu sempre digo, errar faz parte da vida, mas vamos ser originais e errar de forma criativa.

O que funcionou no passado, talvez não funcione no futuro. O resultado final será no máximo igual. Afinal o mundo evoluiu!

O contrário também vale! Não podemos concluir que algo não funcionará no futuro, porque não funcionou no passado. Afinal agora o mundo pode estar preparado para esta novidade…

Finalmente, devemos sempre planejar o futuro, mas o imponderável ou o inesperado pode derrubar nosso planejamento. Nestas horas, devemos manter nossas mentes abertas, porque muitas vezes as oportunidades que aparecem são melhores do que nosso plano original.

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Os Psicopatas, os Hiperativos, os Estranhos e os Normais

Na semana passada, no mural do Facebook do Nilson, companheiro de tantas jornadas importantes do nosso Inter no Beira-Rio, havia uma interessante palestra do jornalista e documentarista britânico Jon Ronson sobre psicopatia. Se quiser assisti-la, com legendas em português, basta clicar abaixo.

Com é difícil provar a normalidade! Parece que todos somos anormais, psicopatas ou, pelo menos, temos alguns transtornos de personalidade ou de comportamento. Por incrível que pareça, há mais de um século, nosso maior escritor, Machado de Assis, tratou deste assunto na grande obra “O Alienista” (leia o post sobre este conto ou novela).

No início do mês, li uma reportagem na Folha de São Paulo, originalmente publicada no New York Times, cuja manchete era “Nos Estados Unidos, 11% dos estudantes têm transtorno de deficit de atenção”. Fui atraído pela manchete, li a matéria e fui atrás da fonte (jornal americano) para obter mais informações. Abaixo você pode ver o gráfico com a distribuição deste distúrbio por faixa etária e sexo nos Estados Unidos.

Distribuição das crianças diagnosticadas comTDAH nos Estados Unidos. [Fonte: New York Times]

Distribuição das crianças diagnosticadas com TDAH nos Estados Unidos. [Fonte: New York Times]

O transtorno de déficit de atenção e hiperatividade (TDAH ou ADHD em inglês) caracteriza-se pela desatenção, dificuldade de manter o foco em uma atividade específica, hiperatividade e impulsividade. Esta síndrome pode causar problemas e dificuldades na escola, durante a infância e juventude, e nas atividades profissionais na idade adulta.

O primeiro questionamento que faço a respeito do aumento da ocorrência deste tipo de problema entre os estudantes americanos é a mudança do ambiente atual em comparação com algumas décadas atrás. Hoje existem muito mais estímulos para as crianças e jovens, temos TV a cabo, Internet, videogames, notebooks, celulares, iPods, iPhones, iPads… Por outro lado, as aulas mudaram pouco nos últimos quarenta anos, predominantemente são expositivas. Só houve evolução na tecnologia para apresentar as informações, do quadro negro e giz, passando pelas lâminas de retro-projetor, até chegar às apresentações preparadas em PowerPoint e projetadas através de um data show. A essência continua a mesma, o professor passa o conhecimento, enquanto os alunos deveriam absorvê-lo. A questão básica é como alguém que vive em um ambiente com alta interatividade se interessará por uma aula com este formato?

Não existe um teste laboratorial para medir o TDAH, como acontece, por exemplo, no caso de suspeita de anemia no qual um simples exame de sangue define a questão. O diagnóstico da TDAH é feito através de questionários aplicados ao paciente (ou seria impaciente) e aos que o cercam, pais, professores, irmãos, colegas… Ou seja, tudo é muito subjetivo, porque depende da percepção de cada um.

A Folha de São Paulo, ao resumir a reportagem do New York Times, omitiu uma parte muito importante da reportagem do jornal americano – o uso de medicamentos e as ações de seus fabricantes. Hoje os pais têm se preocupado cada vez mais com o desempenho escolar dos filhos. Em um ambiente de alta competição, como o americano, a necessidade de ter um alto desempenho na escola para garantir uma vaga em uma universidade de ponta é fundamental para o sucesso na carreira. Percebendo este filão, os laboratórios de medicamentos iniciaram campanhas maciças para estimular os diagnósticos de TDAH e o uso de medicamentos para reduzir a hiperatividade e aumentar o foco das crianças e jovens. Cerca de dois terços dos que receberam diagnóstico positivo passaram a consumir estimulantes como Ritalina, Adderall, Concerta e Vyvanse. Para se ter uma ideia o faturamento com a venda destes remédios passou de US$ 4 bilhões em 2007 para US$ 9 bilhões em 2012.

A reportagem do NYT, por example,cita um panfleto da Shire fabricante do Vyvanse (dimesilato de lisdexanfetamina), vendido no Brasil com a marca Venvanse, que mostra uma mãe olhando para seu filho e dizendo:

– Eu quero fazer tudo que eu posso para ajudá-lo a ter sucesso.

Bela mensagem! Eu poderia escrever diferente:

– Sou uma boa mãe, me preocupo com meu filho e vou dar um estimulante, uma anfetamina, que pode causar vício, mas estarei ajudando-o a melhorar seu desempenho escolar e ter um futuro melhor.

Outro panfleto do Laboratório Shire sobre o Vyvanse

Outro panfleto do Laboratório Shire sobre o Vyvanse

Se você acha que esta é mais uma invenção restrita apenas ao território norte-americano, está enganado. Segundo site do Dr. Drauzio Varella, o Brasil é o segundo mercado do mundo da Ritalina (metilfenidato) produzido pela Novartis. Este remédio tem o apelido de “droga da obediência”, devido ao efeito zumbi que pode causar uma espécie de apatia ou letargia.

A discussão agora é ser mais severo no diagnóstico do TDAH. Assim, cada vez mais crianças, adolescentes e jovens serão tratadas com estas drogas. Meu maior receio é a padronização do comportamento das pessoas que passam a agir como robôs. Como disse Jon Ronson, no final da sua palestra, você não deve rotular as pessoas pelos seus limites mais loucos. O mundo não gosta de áreas cinzas, mas, nestas áreas, encontramos a complexidade, é onde a gente encontra a humanidade e é onde encontramos a verdade. Eu diria mais, encontramos a diversidade, talento, criatividade e a inovação.

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Como Assassinamos Nossos Insights

Vou prosseguir na minha excursão pela mente humana. Nos posts anteriores, comentei um pouco sobre a percepção da realidade e sobre as lembranças. Hoje comentarei sobre uma palavra que em português não tem uma boa equivalência: insight.

O insight é aquela ideia que surge em nossas mentes, aparentemente do nada, e temos a sensação de que alguém a soprou em nossos ouvidos. Parece uma centelha divina. Ou seja, alguns diriam que são enviados por um Ente Supremo, outros diriam que são as vozes de uma consciência universal… Os mais céticos ou egocêntricos afirmariam que sempre estiveram dentro de nossas cabeças, esperando a hora certa para aflorar. Tem outros ainda que acreditam que só acontecem graças aos estímulos externos: ambiente, leituras inspiradoras, companhias, música ou silêncio…

insight

Embora muitos não acreditem, temos estes insights toda a hora, mas nem sempre percebemos, porque nossas cabeças estão ocupadas com outros pensamentos. E o que causa este “congestionamento” mental? Parece que procuramos motivos para sofrer, ressuscitamos fatos do passado, maximizamos problemas do presente e antecipamos tragédias futuras.

Como no artigo anterior, já escrevi sobre as lembranças do passado, desta vez falarei mais sobre o presente e o futuro.

Todo mundo me pergunta como está minha vida neste primeiro ano em São Paulo depois de viver 45 anos no Rio Grande do Sul. Percebo que minha resposta surpreende as pessoas. Respondo com sinceridade que estou gostando de morar na capital paulista e o único aspecto negativo é o trânsito, mas não me estresso com isto. Aproveito aquela hora (às vezes mais do que uma) na solidão do carro na lentidão da Marginal Pinheiros para relaxar, ouvir música ou alguma entrevista interessante no rádio e pensar…  Muitas vezes surgem os mais variados tipos de insights, alguns muito engraçados que me levam às gargalhadas. Se eu ficasse todos os dias tenso e irritado com estes congestionamentos, será que eu ouviria meus insights que me conduzem a boas reflexões e garantem humor, no mínimo, razoável na chegada ao meu lar?

Engarrafamento na Marginal Pinheiros em São Paulo

Engarrafamento na Marginal Pinheiros em São Paulo

Evidentemente podemos interpretar as situações em que estamos inseridos das mais diversas formas. Percebemos a realidade, a criamos e a recriamos do nosso jeito dentro de nossas cabeças. Nesta semana, ouvi uma história sobre um colega de um prestador de serviço que vai ao encontro da minha. Ele gostava do trânsito intenso entre São Paulo e Santos no início dos feriadões, porque tinha a oportunidade de conviver por algumas horas com sua família. Para muita gente isto seria absurdo!

Outra armadilha é viver em um futuro que não existe e, se não nos dedicarmos no presente, jamais existirá. Acho importante construir castelos nas nuvens, porque nos mostram como pode ser nosso futuro, mas não podemos viver neles.

CastleInTheClouds03

Um comportamento comum, quando o tempo passa e nada acontece, é a criação de conspirações ilusórias onde todos estão contra e os outros são beneficiados por razões escusas. Neste momento, a pessoa se passa por vítima e acredita que tudo sempre vai dar errado com ela, apesar de fazer tudo certo (na perspectiva dela, é claro!). Ela deve vencer a batalha no interior da sua cabeça, onde os verdadeiros combates são travados. Só após esta vitória, será possível conquistar o mundo e construir seu castelo.

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Obama e o Dilema Capitalista

Nesta semana, a principal notícia foi a reeleição de Barack Obama como presidente dos Estados Unidos, o país mais poderoso do mundo. Um dos pontos mais importantes debatidos, durante toda a campanha, foi a lenta recuperação da economia americana. Na segunda-feira, li um artigo muito interessante no The New York Times escrito por um professor de Harvard, Clayton Christensen, que iniciava com a seguinte constatação:

– Independente do que acontecerá no Dia das Eleições, os americanos continuarão perguntando: quando a economia melhorará?

Um dos recados transmitidos é que a influência do presidente eleito, Obama ou mesmo Romney, na retomada da economia seria pequena. Você pode ler o artigo na íntegra, clicando no link abaixo.

http://www.nytimes.com/2012/11/04/business/a-capitalists-dilemma-whoever-becomes-president.html?pagewanted=all

Romney e Obama

Um dos debates entre Romney e Obama

Segundo o autor, existem três tipos de inovação:

  1. Inovação capacitante (“empowering innovation”)
  2. Inovação de sustentação (“sustaining innovation”)
  3. Inovação de eficiência (“efficiency innovation”)

O primeiro tipo de inovação supre uma demanda do mercado ainda não atendida. Ela transforma produtos caros disponíveis apenas para um pequeno grupo de pessoas em produtos mais baratos para a maioria da população. Ele cita os exemplos do Ford Modelo T e dos computadores pessoais. Esta forma de inovação cria empregos e usa capital para estruturação da nova cadeia produtiva. Ou seja, estimula o crescimento econômico.

Linha de produção do Ford modelo T

Linha de produção do Ford modelo T

A inovação de sustentação substitui os velhos produtos por novos modelos. Por exemplo, os carros híbridos possuem tecnologia mais avançada do que os convencionais, entretanto o número total de automóveis vendidos não crescerá devido à sua introdução no mercado, porque o público-alvo é exatamente o mesmo dos modelos tradicionais. Esta forma de inovação, apesar de criar poucos empregos novos, mantém o dinamismo da economia.

Automóvel híbrido Toyota Prius

Automóvel híbrido Toyota Prius

A inovação de eficiência, como o próprio nome sugere, busca a redução dos custos de geração de um produto ou serviço. Assim o número de empregos sempre é reduzido com a aplicação deste terceiro tipo de inovação. Por outro lado, a empresa recupera o capital investido que poderá ser o combustível para o próximo ciclo de inovação capacitante.

Estas três formas de inovação devem operar de modo cíclico, onde as inovações capacitantes são essenciais, porque criam novos consumos e mais empregos do que as inovações de eficiência conseguem eliminar posteriormente.

Segundo Christensen, nos últimos 150 anos, a economia americana operou desta forma e conseguiu manter-se distante dos longos períodos de recessão. De 1948 a 1981, o nível de emprego anterior à recessão era recuperado em apenas 6 meses. Na recessão de 1990, demorou 15 meses; na de 2001, 39 meses. E agora já são 60 meses, lutando para voltar ao nível anterior a esta recessão.

O que está havendo? O autor explica que as inovações de eficiência estão gerando capital que é reinvestido em novas inovações de eficiência ao invés das capacitantes. Desta forma, gera-se mais capital, mas não são gerados novos empregos. O capitalismo trata com carinho os bens escassos e “despreza” os bens abundantes. Hoje capital não representa mais uma restrição, porque existem abundantes linhas de financiamento com baixas taxas de juros no mundo. O problema é que os líderes das empresas estão seguindo fielmente os ensinamentos que receberam no passado. Ao analisar a taxa interna de retorno (I.R.R. em inglês) de dois investimentos, uma inovação capacitante com retorno em 8 anos e uma inovação de eficiência que retorna na metade deste período, a opção pelo ganho mais fácil e garantido tem sido a escolhida na grande maioria dos casos.

Eu diria que os capitalistas se viciaram no capital. Ou, em inglês, deixaram de ser capitalist e viraram capital addict.

Dilema capitalista

O Dilema Capitalista

O autor sugere que existe um problema educacional nos Estados Unidos, porque as habilidades para a criação de inovações capacitantes estão escassas atualmente. As universidades deveriam treinar os estudantes para estes tipos de desenvolvimentos, passando a mirar no longo prazo. Em paralelo, o governo americano deveria criar um sistema para incentivar este tipo de investimento.

Clayton Christensen

Clayton Christensen

O Brasil experimentou um crescimento baseado no aumento do consumo interno nos últimos anos. Este modelo parece ter se esgotado. Parece que este artigo dá uma pista sobre o que deve ser feito para que nosso país dê um novo salto de desenvolvimento, mas para que isto ocorra, investimentos em inovação e educação são fundamentais.

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O Artificialismo – A Melhor Forma de Proteger o Ambiente Natural

Segundo, The Wall Street Journal, uma onda de tempo ruim – seca nos Estados Unidos, verão quente demais na Rússia, muita chuva no Brasil – está prejudicando a cadeia de produção de alimentos e aumentando preços ao redor do mundo. A FAO, órgão das Nações Unidas para alimentos e agricultura, anunciou ontem que seu índice para preços de alimentos subiu 6% no mês passado, a maior alta desde novembro de 2009.

Atualmente somos 7 bilhões de habitantes no planeta e, segundo estimativa de ONU, passaremos para 8 bilhões em doze anos. Parece claro que, para alimentar uma população humana crescente, os recursos naturais necessários serão enormes. O poder aquisitivo das populações menos favorecidas também crescerá neste período, o que é muito bom! Desta forma, o consumo de alimentos aumentará de forma mais acelerada do que o simples crescimento vegetativo da população e não podemos esquecer que a agricultura depende do clima, da disponibilidade de água e de terras férteis.

Crescimento da População Mundial

Crescimento da população mundial

Há um tempo assisti a um vídeo do filósofo “pop” Slavoj Žižek no qual apresenta seus conceitos sobre ecologia. Ele afirma que a ecologia pode ser a religião do século XXI ao trazer uma série de dogmas a serem cegamente seguidos. Pode-se comprovar pelo massacre a que são submetidos aqueles que ousam contrapor ao senso comum ecológico. Já comentei o assunto no meu post sobre o aquecimento global. O obscurantismo “fanático-religioso” contra os transgênicos é outro exemplo dos malefícios destes dogmas ecológicos. Muitos transgênicos são, por exemplo, resistentes a pragas, reduzindo a aplicação de agroquímicos.

Transgênicos

Os transgênicos são muito criticados pelos ativistas

Assista ao vídeo de Žižek, onde ele apresenta seus conceitos sobre ecologia.

Proponho que dois caminhos distintos sejam trilhados para produzir os alimentos, as roupas e demais bens de consumo para satisfazer a demanda crescente da população:

– combate implacável aos desperdícios de recursos naturais através do uso das melhores técnicas disponíveis;
– ruptura total do atual modelo produtivo através criação de novas tecnologias que tornem o ser humano independente da natureza do planeta.

A primeira via é a exploração do passado. Ela engloba, na agricultura, o uso das melhores práticas disponíveis durante todas as etapas desde a escolha de cultivares, fertilização e correção dos solos, controle de pragas e doenças até a colheita, transporte e armazenamento da safra. Na indústria, o uso das melhores técnologias para a geração de bens duráveis e de consumo, consumindo a menor quantidade de recursos: matérias primas, insumos, água e energia.

A segunda via é mudar radicalmente a forma de gerar alimentos e insumos para a indústria. Como falou Slavoj Žižek, nada de volta às origens, mas a busca de um caminho totalmente novo, desvinculado da natureza. Por exemplo, a criação de novas tecnologias que produzam alimentos a partir da recombinação química ou bioquímica de átomos de carbono, hidrogênio, nitrogênio, oxigênio, fósforo e assim por diante. Itens fundamentais são o reciclo total de todos os resíduos e o uso de energias intrinsecamente limpas, como a solar, geotérmica e a fusão nuclear.

O consumo de carne evidentemente não é uma prática sustentável! Hoje metade do milho e 75% da soja são usadas para alimentar animais que serão mortos para servir de alimento para nós humanos. Para gerar um quilo de carne bovina são necessários 7 quilos de milho e soja, além do consumo de 15 mil litros de água. E nem comentei a poluição gerada por esta atividade, uma vaca leiteira, por exemplo, solta 700 litros de metano diariamente na atmosfera (gás 21 vezes mais nocivo do que o gás carbônico para a formação do efeito estufa). A carne não é mais um alimento essencial e seu consumo só pode ser justificado pelo prazer gastronômico. Quando inventarem a picanha ou o filet mignon de laboratório, juro que volto a comer carne. Já existem grupos de pesquisadores criando carne em laboratório. Por enquanto, são pequenas tiras de 3 centímetros de comprimento por 1,5 cm de largura e espessura de apenas meio milímetro, mas o rendimento de conversão dos nutrientes em carne já fica em torno de 50% contra menos de 15% da convencional.

Carne Artificial

No futuro, carne igual a esta na foto poderá ser produzida artificialmente.

Só o artificialismo, que distanciará a satisfação das necessidades humanas da natureza, nos reconciliará definitivamente com a própria natureza e os demais animais que nos cercam. Não existe outra opção…

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O Efeito Lúcifer – O Homem é o Homem e sua Circunstância (parte 3)

Nas duas primeiras partes, apresentei os experimentos de Stanley Milgram e Philip Zimbardo sobre a obediência cega. Agora, na parte final deste artigo, comentarei o “Efeito Lúcifer” criado por Zimbardo. Abaixo está apresentada a gravura de Gustave Doré com a representação da história da expulsão do anjo Lúcifer do Paraíso.

Paraíso Perdido de Gustavo Doré

Paraíso Perdido de Gustavo Doré

Vou iniciar este post com um pequeno vídeo para descontrair um pouco antes do assunto sério. O Candid Camera foi pioneiro nas “pegadinhas” na televisão e neste vídeo aparece a pressão do grupo sobre os indivíduos. Veja e dê boas risadas.

https://youtu.be/BgRoiTWkBHU

Em 2003, o secretário de defesa americano, Donald Rumsfeld, declarou que os fatos ocorridos na prisão de Abu Ghraib foram resultado de “umas poucas maçãs podres” no turno da noite. Zimbardo considerou que existem três categorias para explicar os fatos ocorridos na prisão iraquiana:

– disposicional – originadas de dentro de cada indivíduo, de cada soldado, as chamadas “maçãs podres”;
– situacional – originadas no entorno dos indivíduos, a prisão, o “barril de maçãs ruim”;
– sistêmica – são as influências mais amplas, poderes econômicos, políticos e legais, os “fabricantes dos barris de maçãs ruins”.

Uma das fotos da Prisão de Abu Ghraib

Zimbardo considera que a linha entre o bem e o mal é muito tênue e permeável. Eu gostaria de salientar que o mal não é um país, um povo ou uma raça. O mal está nos pensamentos e atitudes de cada indivíduo, independente de nacionalidade ou religião. Ele listou sete processos sociais que facilitam o escorregão para o mal:

– displicentemente dar o primeiro passo;
– desumanização dos outros;
– anonimato;
– responsabilidade individual difusa;
– obediência cega à autoridade;
– conformismo não crítico às regras do grupo;
– tolerância passiva ao mal pela inação ou indiferença.

Não esqueçam que o primeiro choque do experimento de Milgram foi de apenas 15 volts. Quem apertou o botão deve ter pensado que não havia problema, porque o “aluno” não deve ter sentido nada… Como diz Zimbardo, “esta é a chave, todo o mal começa com 15 volts”.

Por incrível que pareça, os experimentos que descrevi nos dois posts anteriores passaram pelos sete processos… A responsabilidade difusa, a obediência cega e o conformismo passivo são pontos de partida para uma série de comportamentos errados, principalmente em situações novas ou não familiares.

Assista à palestra de Zimbardo sobre o Efeito Lúcifer.

Zimbardo conclui que a mesma situação pode inflamar a imaginação para o mal, também pode inspirar heroísmo em outros, mas o pior, em minha opinião, é que a maioria das pessoas é culpada pelo mal da inação. Assim ele recomenda que nossos filhos sejam criados para serem heróis. Quando falamos em heróis pensamos em super-herois com superpoderes ou heróis modernos de carne e osso como Mahatma Gandhi, Martin Luther King ou Nelson Mandela. Apesar destes três últimos homens terem assumido enormes sacrifícios pessoais em nome da sociedade, buscamos herois comuns do dia a dia. Pessoas que não aceitam passivamente as injustiças denunciam e lutam para mudar o mundo que os cerca. Pode ser em casa, no trabalho, na escola ou na sua comunidade.

Para ser um heroi, você deve ser divergente, deve agir quando outras pessoas são passivas. Deve pensar de modo sociocêntrico ao invés de egocêntrico. O mais interessante é que as conclusões e recomendações de Zimbardo vão ao encontro do filósofo espanhol José Ortega y Gasset. Ele é o autor da frase que utilizei como título desta série de posts:

– “O homem é o homem e a sua circunstância”.

Filósofo espanhol José Ortega y Gasset

Para Ortega y Gasset, não é possível considerar o ser humano como sujeito ativo sem levar em conta simultaneamente tudo o que o circunda, incluindo o contexto histórico em que se insere. A Educação se transforma em instrumento para que cada um possa conscientizar-se de sua circunstância, relacionar-se com ela e superá-la. “Se não a salvo, não me salvo”, conclui o filósofo espanhol.

Sempre uso como exemplo o caso das relações entre árabes e judeus. No Brasil, não ouvimos falar de conflitos, porque o contexto não estimula violência entre estas duas etnias no nosso país. Agora se transferirmos algumas pessoas daqui para o Oriente Médio, a situação muda. O meio influencia decisivamente o comportamento dos indivíduos.

Amizade entre meninos árabe e judeu

Voltando para o mundo empresarial, muitas iniciativas são bloqueadas pela cultura interna. Grandes corporações muitas vezes tem responsabilidade individual difusa, obediência cega à autoridade, conformismo não crítico às regras e tolerância passiva ou indiferença aos verdadeiros problemas da empresa. Isto pode ser resumido por frases como:

– Esta não é minha responsabilidade!
– Eu estou fazendo a minha parte…
– Temos que manter o foco naquilo que “realmente” é importante!

Pensando bem, isto não acontece apenas em grandes corporações, pode acontecer em qualquer lugar, até mesmo nos nossos lares…

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O Efeito Lúcifer – O Homem é o Homem e sua Circunstância (parte 1)

Na semana passada, participei de um programa de treinamento na renomada Harvard Business School sobre a construção de novos negócios em organizações consolidadas. Entre os vários estudos de casos e discussões sobre as diversas dimensões que influenciam este assunto, achei muito interessante a aula sobre cultura empresarial.

A ideia geral é que o contexto influencia decisivamente na atitude das pessoas, determinando seus comportamentos. Se a empresa tem uma forte cultura tradicional e anti-inovadora, os comportamentos de seus colaboradores seguirão esta cultura, mesmo que suas personalidades sejam distintas dela. Ou seja, se a empresa quer inovar, tem que primeiro ajustar sua cultura. O instrutor desta aula comentou rapidamente o trabalho de dois pesquisadores, Stanley Milgram e Phil Zimbardo. Suas experiências me causaram um impacto no meu entendimento sobre as pessoas. Usei o tempo de espera nos aeroportos na volta para estudar mais sobre os métodos e conclusões dos experimentos destes dois psicólogos.

Stanley Milgram

Stanley Milgram

O teste de Milgram foi realizado no início dos ano 60, inicialmente na Universidade de Yale. Sob a falsa alegação de que participariam de um teste sobre melhoria de memória, voluntários foram atraídos e selecionados. Na verdade o teste era sobre a obediência das pessoas em relação a ordens e apenas uma pessoa era testada (o “professor”), as outras duas (o “experimentador” e o “aluno”) eram atores. A figura abaixo apresenta o esquema básico do experimento.

Experimento de Milgram

O “professor” (T) lia uma série de pares de palavras, depois dizia uma destas palavras e as opções que completariam o par. O “aluno” (L) escolhia uma das opções. Se estivesse certa, o teste seguiria normalmente. Em caso de erro o “professor” aplicaria um choque elétrico no aluno, antes de prosseguir a leitura. O primeiro choque era de 15 volts, cada choque na sequência era acrescido de 15 volts até chegar a incríveis 450 volts! É importante salientar que ninguém sofria os choques, porque o “professor” não tinha contato visual com “aluno” que era substituído por uma gravação.

Num certo momento, após um choque, o “aluno” gritava de dor e pedia para sair. Os “professores” se viravam para o “experimentador” (E) e pediam para encerrar o teste, mas este ordenava a sua continuação, argumentando que o “aluno” não corria risco e que o teste era importante. Em um dos experimentos,  o “professor” realmente sofria a cada resposta errada do “aluno” e disse para o “experimentador” que não queria ser o responsável pela morte do “aluno”. O “experimentador” repetiu as ordens e completou que era o responsável pela integridade do “aluno”. Como não tinha mais responsabilidade, este “professor” continuou o teste, mesmo quanto o “aluno” parou de responder ou reclamar, ele prosseguiu com os choques até repetir três vezes os 450 volts, quando o teste foi finalmente encerrado.

No final, o teste era explicado para o “professor” e um ambiente mais leve era criado para atenuar o clima pesado durante o experimento. Por incrível que pareça dois terços dos testados foram até o final, conforme o gráfico apresentado abaixo. Ou seja, deram três choques de 450 volts! Nenhum dos testados, mesmos os que pararam antes, insistiu para ver o real estado dos “alunos”.

Resultado do Experimento de Milgram

Fica claro que em uma situação completamente fora do normal e do controle, ao receber as ordens, foi mais cômodo segui-las mesmo não concordando com a ação realizada. Ficou ainda mais fácil, quando a responsabilidade foi completamente removida dos ombros. Como se fosse aceitável puxar o gatilho do revólver e matar alguém, só porque alguém assumiu toda a responsabilidade.

Estas situações podem acontecer de modo mais sútil. O gerente ordena uma ação que você não concorda, mas realiza sem questionar. Esta forma é o popular “manda quem pode e obedece quem tem juízo”. Será que tem mesmo?  Outra, mais sútil ainda, é a do “expert” profundo conhecedor de determinada técnica. Ele fala alguma coisa sobre este assunto e todos concordam sem pensar ou questionar. Como se existisse alguém infalível…

Se você quiser saber mais sobre o experimento de Stanley Milgram, assista ao trecho do documentário abaixo. No próximo post, falarei sobre o Experimento da Prisão de Stanford desenvolvido por Phil Zimbardo.

 

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A Reinvenção – Veja “O Artista”

Ocupar as dez horas que separam New York de São Paulo pode ser um tremendo desafio para alguns ou uma tortura terrível para outros. Sinceramente, não tenho muita dificuldade para preencher o tempo. Gosto de ver filmes, ler e, se tiver alguma inspiração, escrever.

O primeiro filme que assisti nesta última viagem foi surpreendente. Afinal qual é o louco que faz um filme mudo com fotografia em preto & branco no século XXI? O diretor Michael Hazanavicius foi realmente muito ousado! Onde estão os efeitos especiais e o 3D tão propícios para as modernas salas IMAX?

O Artista

O filme apresenta a única verdade absoluta que eu conheço – o mundo não para e temos que nos reinventar a cada dia. Se hoje somos os melhores, amanhã poderemos estar no ostracismo, porque a área que dominamos pode não ter mais a mesma importância ou destaque. Foi o que aconteceu com George Valentin, interpretado magistralmente por Jean Dujardin, ao acreditar que sua posição de ídolo do cinema mudo não se alteraria jamais. Não percebeu que o cinema falado sucederia o cinema mudo e insistiu em oferecer um produto que o público não desejava mais.

O filme se chama “O Artista”, mas poderia ser “O Engenheiro”, “O Médico”, “O Empresário”, “O CEO”, “O Político”, “O Cidadão”, “O Pai”, “O Filho” ou “O Marido”. Todos temos que nos reinventar nos diversos papeis que exercemos.

No final, como no grande cinema de Hollywood e em nossas vidas, apesar de frequentemente duvidarmos, o protagonista consegue dar a volta e se reinventa, fazendo um musical com muita dança e sapateado. Acredito que não foi à toa que as duas únicas palavras audíveis de George Valentin no filme foram “with pleasure”.

O Artista cena final

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Por que não gostamos do Óbvio? Adams gostava…

Outro dia, estava lendo alguns artigos em um grupo de discussão do LinkedIn. Havia um artigo com alguns comentários negativos sobre como fazer avaliação de desempenho. Basicamente colocavam que o autor disse apenas o óbvio e que jamais contratariam a sua consultoria. O responsável pela postagem do vídeo ficou indignado com os comentários e teve uma reação forte. Fiquei curioso e cliquei no link. Era um pequeno vídeo de cinco minutos no qual um consultor de RH falava sobre a importância, os cuidados e a preparação para uma avaliação de desempenho.

Na verdade, não havia nenhuma novidade na fala do consultor, mas se todos se preocupassem com aquelas obviedades comentadas por ele no vídeo, certamente o ambiente nas empresas seria muito melhor. Por que não gostamos do óbvio e vamos atrás do complexo e do sofisticado? Soluções complexas mostram nossa inteligência e a dependência da empresa em relação ao nosso conhecimento. Afinal todos entendem as soluções simples e acham que também poderiam tê-las encontrado.

Um pequeno livro que trata deste assunto é Adams Óbvio de Robert R. Updegraff. O autor escreveu o conto sobre um publicitário em 1916. Você pode pensar que um livro de quase cem anos deve estar completamente ultrapassado, mas a sua mensagem permanece atual.

Não devemos confundir o óbvio com o simplório. O óbvio praticado por Adams era resultado de observação atenta e análise detalhada, não era um simples chute ou o exercício de “achologia”. 

O autor, vários anos após a publicação, reconheceu que existiam barreiras para a implantação de soluções óbvias, porque “o óbvio tende a ser tão simples e comum, que não tem apelo à imaginação”. Ele desenvolveu cinco maneiras para testar ideias e verificar se são realmente óbvias: 

  1. A solução, quando encontrada, será óbvia!
  2. Esta solução é compatível com a natureza humana?
  3. É fácil colocar a ideia no papel?
  4. Ela “explode” na cabeça das pessoas?
  5. Devemos reconhecer o momento certo de implementar a ideia!

Quem não teve estas experiências de “explosões” mentais ao termos uma ideia deste tipo? Realmente é uma sensação ótima! Pensamos “como não tivemos esta ideia antes”? Por outro lado, devemos cuidar para não cairmos na armadilha de nos apaixonarmos pela solução do problema antes de analisá-la com a profundidade necessária.

O livro pode ser encontrado em inglês na Amazon, entretanto existe uma versão traduzida para o português e para baixá-la basta clicar neste link.

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É Mais Fácil Dizer do que Ser Inovador

Hoje muitas empresas adotam slogans empregando a palavra inovação e seus derivados:

· Inovação para a sua empresa em…
· Produtos inovadores para…
· Soluções inovadoras para…

Mas será que a maioria destas empresas são genuinamente inovadoras?

Inovação é definida nos dicionários como sendo uma descoberta, uma criação, uma invenção ou a introdução de alguma novidade. Em termos empresariais, inovação é toda e qualquer nova solução que gere mais valor para o cliente, necessariamente traduzida em ganho econômico.

As inovações ou invenções podem ser divididas em três classes:

1. Invenção de ruptura, onde são criados produtos totalmente novos que ainda não apresentam demanda do mercado. Embora esta classe de invenções seja extremamente desejável, a estratégia dos negócios de uma empresa não pode basear-se apenas nesta forma de desenvolvimento por depender de muitos fatores imprevisíveis. A Sony, por exemplo, desenvolveu nos anos 70 uma invenção de ruptura, o videocassete Betamax, enquanto a JVC criou a tecnologia VHS. Apesar de muitos experts acharem o sistema da Sony melhor, o mercado adotou o formato VHS.

Anúncio de Lançamento do Sony Betamax

Anúncio de Lançamento do Sony Betamax

2. Invenção de aperfeiçoamento do conceito, onde são feitas melhorias e extensões de linhas de produtos existentes, tornando mais adequada sua introdução no mercado. Normalmente é o passo seguinte à invenção de ruptura. Neste caso, o mercado já existe, havendo um nível de previsibilidade muito maior do que na classe de invenção anterior.

3. Invenção de necessidade, onde se busca preencher uma necessidade não satisfeita. Neste caso, a invenção será responsável pela satisfação de uma demanda percebida dos clientes. Assim sendo, a habilidade da empresa de entender as reais necessidades dos clientes aumentará a sua probabilidade de sucesso.

Em muitas empresas, inovação é sinônimo apenas de invenção de ruptura. E aí começam os problemas, porque como vimos acima existem muitos fatores que a empresa não tem controle neste tipo de desenvolvimento.

Para apoiar esta estratégia, a base de tudo é a cultura empresarial, onde é criado um ambiente propício para inovação. A tolerância ao erro e a disposição de correr riscos são fatores indispensáveis. Mas a cultura não é tudo, também é fundamental a capacitação da equipe, em termos de formação acadêmica e treinamento em conhecimentos específicos. O terceiro ponto é o treinamento em técnicas e ferramentas para o gerenciamento de projetos.

Base para a Inovação

Base para a Inovação

Infelizmente muitas das empresas que se dizem, ou melhor, alardeiam para o mercado que são inovadoras não apresentam nenhum destes três itens da base comentados acima. Acreditam em soluções mágicas, não toleram erros, não investem em treinamento, cortam gastos de P&D e esperam resultados fabulosos em curto prazo. Neste caso, sugiro a contratação do funcionário apresentado abaixo.

Professor Pardal

Professor Pardal

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