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O Autoritarismo Cotidiano – Notas a partir de O Agente Secreto

Há filmes que falam de um período histórico específico. Outros se voltam para o mecanismo social e institucional que explica seu funcionamento e permite sua repetição. O Agente Secreto, de Kleber Mendonça Filho, pertence claramente ao segundo grupo. Mais do que retratar um regime autoritário, o filme se dedica a expor como ele funciona por dentro nos pequenos gestos, nas hierarquias intermediárias, nas justificativas morais, nos silêncios convenientes.

É justamente por isso que o filme dialoga de forma tão direta com o Brasil atual. Não porque “repita” a história, mas porque revela padrões recorrentes: econômicos, políticos, institucionais e simbólicos que atravessam diferentes camadas da vida social.

Capitalismo de compadrio – ideologia como acessório

Um dos personagens mais perturbadores do filme é o empresário que orbita o poder. Ele não é movido por convicção ideológica, mas pelo acesso. Seu compromisso não é com projetos de sociedade, mas com contratos, proteção, privilégios e previsibilidade para seus negócios.

Esse tipo de empresário prospera em qualquer governo – esquerda, centro ou direita – desde que o Estado seja capturável. A ideologia entra apenas como verniz retórico. O que importa é a proximidade com o poder decisório.

Não é coincidência que muitos desses agentes prefiram regimes autoritários, especialmente ditaduras de extrema direita. Não por afinidade moral, mas por cálculo econômico. Regimes assim tendem a:

  • restringir greves e organização sindical;
  • reduzir direitos trabalhistas;
  • enfraquecer fiscalização;
  • limitar a liberdade de imprensa;
  • centralizar decisões, facilitando acordos diretos entre elites.

A democracia é custosa para esse tipo de empresário porque trabalhadores têm voz, conflitos são públicos e a regulação é disputada. A ditadura, ao contrário, barateia o conflito distributivo ao suprimir negociação, reprimir demandas sociais e reduzir o custo político de impor perdas a quem tem menos poder.

O poder que escorre – pequenas autoridades e grandes atrocidades

Outro ponto central do filme é o papel das autoridades intermediárias: policiais locais, burocratas, chefes menores. Em regimes autoritários, o poder não se concentra apenas no topo; ele escorre para baixo, criando um ambiente de empoderamento sem responsabilização.

Esses agentes passam a agir com a sensação de autorização permanente. A violência deixa de ser exceção e vira procedimento. Muitas atrocidades não são explicitamente ordenadas, mas incentivadas por clima, por sinais, por recompensas simbólicas.

O filme acerta ao mostrar que o horror não depende apenas de líderes carismáticos ou decisões centrais. Ele se sustenta na banalidade do poder cotidiano, exercido por gente comum investida de autoridade sem freios – aquilo que Hannah Arendt definiu como a “banalidade do mal”.

Preconceito regional como ferramenta política

O preconceito contra nordestinos aparece no filme não como detalhe cultural, mas como dispositivo funcional. Reduzir uma região inteira a estereótipos morais – atraso, dependência, ignorância – é uma forma eficaz de:

  • deslocar conflitos econômicos para o campo identitário;
  • fragmentar solidariedades nacionais;
  • justificar abandono institucional.

Esse discurso não desapareceu. Ele reaparece com força na extrema direita brasileira contemporânea, muitas vezes disfarçado de crítica econômica ou eleitoral. O Nordeste vira “culpado” por escolhas políticas, como se fosse um bloco homogêneo e moralmente inferior.

O filme mostra, com precisão incômoda, que esse tipo de preconceito não é apenas retórico. Ele prepara o terreno para exclusão, para a retirada de direitos e para a naturalização da desigualdade.

Anti-intelectualismo e o ataque às universidades

Outro eixo fundamental é a desvalorização da pesquisa e das universidades públicas. O discurso autoritário costuma atacar essas instituições sob o argumento de ineficiência ou ideologização. Mas o conflito é mais profundo.

Universidades públicas concentram exatamente o que regimes autoritários temem: pensamento crítico, produção autônoma de conhecimento, questionamento do poder.

A defesa da privatização ignora um dado básico da economia da inovação: pesquisa básica quase nunca é financiada pela iniciativa privada, devido ao alto risco, ao retorno incerto e ao longo prazo. Historicamente, as grandes inovações tecnológicas nasceram de universidades e de financiamento estatal.

Nos Estados Unidos, a própria internet surgiu de projetos financiados pelo Departamento de Defesa, por meio da DARPA. O GPS foi desenvolvido para uso militar. Os semicondutores tiveram forte apoio de compras governamentais e pesquisa pública. As vacinas de RNA mensageiro receberam décadas de financiamento dos Institutos Nacionais de Saúde antes de se tornarem viáveis comercialmente. E avanços em computação, satélites e ciência dos materiais foram impulsionados por programas da NASA. O setor privado entrou depois, quando o risco já havia sido socializado.

Enfraquecer essas instituições não é um erro técnico. É uma escolha política que empobrece o debate público, aumenta a dependência tecnológica externa e reduz a capacidade do país de pensar seu próprio futuro.

Violência, silêncio e adaptação

O filme também trata de algo mais desconfortável: a passividade. Não são apenas os agentes violentos que sustentam o sistema, mas também aqueles que se adaptam, se calam ou racionalizam abusos em nome da sobrevivência pessoal.

Autoritarismos modernos não se instalam por ruptura abrupta, mas por erosão gradual. Direitos são relativizados, cortes são normalizados, exceções viram regra. A violência se torna ruído de fundo.

Essa zona cinzenta entre vítimas e algozes é essencial para a manutenção do regime. O filme insiste nesse ponto porque ele é o mais difícil de encarar.

Desprezo pelo futuro

Ao desvalorizar educação, ciência e planejamento de longo prazo, o autoritarismo revela sua lógica mais profunda: a preferência pelo presente imediato. Regimes assim vivem de curto prazo, de manutenção de poder, de controle. O futuro exige instituições fortes, previsibilidade e crítica: tudo o que ameaça estruturas autoritárias.

Nesse sentido, o ataque à pesquisa e à universidade não é colateral. É estrutural.

Um alerta estrutural

Agente Secreto não propõe uma tese fechada, nem oferece respostas simples. Sua força está em mostrar como autoritarismos se constroem no cotidiano, combinando interesses econômicos, preconceitos simbólicos, empoderamento sem freios e anti-intelectualismo.

O anti-intelectualismo que ele expõe – a desconfiança sistemática em relação à ciência, às universidades e ao conhecimento especializado – não é um detalhe periférico, mas parte central da engrenagem autoritária. O movimento anti-VAX é um exemplo emblemático dessa lógica: a substituição de evidência por opinião, de pesquisa por crença, de debate informado por desinformação mobilizada politicamente. Ao corroer a confiança em instituições científicas, abre-se espaço para decisões baseadas em medo, ressentimento ou conveniência ideológica, com custos sociais reais e mensuráveis.

O filme incomoda porque sugere que o horror não depende apenas de grandes líderes, mas de arranjos institucionais, incentivos perversos e acomodações morais. Ele nos lembra que a democracia não se perde apenas em grandes eventos, mas em pequenas concessões sucessivas.

Talvez por isso o filme soe tão atual. Reconhecer esses padrões, no cinema e no mundo ao redor, é apenas o primeiro passo. Interrompê-los exige instituições fortes, ciência valorizada e uma defesa ativa do conhecimento como bem público – condição indispensável para qualquer democracia que pretenda sobreviver.

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I’m Not Dog No – A Servidão Voluntária

O cantor e humorista cearense Falcão ganhou destaque nacional, quando lançou uma música com o mesmo título deste artigo. A versão em inglês do antigo sucesso de Waldick Soriano não é o tema deste artigo, e sim o comportamento canino e sua semelhança com o de inúmeros grupos de humanos.

Falcao

Cantor cearense Falcão

Tenho passado, rotineiramente, os dias da semana em uma pequena cidade do interior de São Paulo, Orindiúva. Como adquiri nos últimos meses o hábito da corrida, pelo menos duas vezes por semana, saio do hotel para treinar antes das 6 horas da manhã. No percurso de quase sete quilômetros, percorro ruas e contorno praças da cidade. Nos últimos dois ou três meses, comecei a notar que o número de cães nas ruas da cidade está crescendo, servindo de base para minha observação sobre a etologia (comportamento) canina. A seguir listo minhas sete principais conclusões.

Orindiuva_GoogleMaps

Foto de satélite da cidade de Orindiúva

1. Cães gostam de estar junto às pessoas

Os trabalhadores das usinas da região costumam esperar nas praças da cidade os ônibus que os conduzem ao trabalho. Frequentemente os cachorros ficam junto com os trabalhadores que interagem e alimentam os animais.

2. Cães seguem uma rotina

Logo após as partidas dos ônibus com os trabalhadores, as praças esvaziam e as matilhas se deslocam para outro local, onde há outras pequenas aglomerações de pessoas. Esta rotina se repete até perto das 7 horas da manhã, quando vários cachorros ficam próximos de uma escola municipal.

3. Cães solitários normalmente são tímidos

Cães solitários não costumam latir para pessoas. Ao cruzar no caminho, pode-se notar uma certa tensão no olhar do animal.

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Cão solitário

4. Cães agem de forma parecida quando estão em grupo

Quando estão em grupo, os cachorros começam a homogeneizar suas ações e reações. Parecem um único indivíduo dividido em várias partes. Todos demonstram alegria, medo ou agressividade ao mesmo tempo.

5. Cães menores são os maiores influenciadores do comportamento da matilha

Invariavelmente são os cachorros menores que influenciam os maiores. Talvez por serem mais inquietos e ativos, os cães menores começam as brincadeiras, latem e atacam algum pedestre.

6. Cães gostam de atacar alvos em movimento

Cães adoram atacar ciclistas, motociclistas e “pessoas que correm pelas ruas às 6 horas da manhã”. Este é meu maior problema, quando corro ao redor de uma praça orindiuvense e uma matilha resolve me acuar.

7. A força do cão está na matilha e a fraqueza está no indivíduo

A prova que a matilha é forte e o cão solitário é fraco aconteceu em um dia que uma pequena matilha ficou me perseguindo e latindo ao meu redor. Após uns 50 metros, todos os cães desistiram de me seguir com exceção de um animal. Neste momento, eu comecei a correr atrás dele por uns 10 metros, antes de retomar minha rota. O cãozinho ficou apavorado e se escondeu atrás de uma estátua de onde ficou me espiando. Ou seja, ele era valente no grupo e ficou covarde sozinho.

Cachorro matilha

Matilha

Felizmente, até agora a cachorrada das ruas de Orindiúva não me mordeu. Só ficam latindo ao meu redor, quando passo perto de uma matilha. Como escreveu sabiamente o cantor Falcão, “dog’s au-au it’s not nhac-nhac” (ou em bom português, cão que late não morde).

Cachorros 2

Meus dois “melhores amigos” em Orindiúva

O ser humano tem a faculdade de pensar criticamente e agir de acordo com seus princípios, mas muitos abdicam da liberdade de discordarem de seu grupo e deixam-se levar pelo pensamento único. Agem como se só haveria força se seguissem sua “matilha”.

Não pensar criticamente é o caminho para servidão voluntária.

Escrevi três artigos sobre obediência baseado nos trabalhos de dois psicólogos americanos, Stanley Milgram e Philip Zimbardo. No trabalho de Milgram, as pessoas davam choques em outras simplesmente, porque alguém (a autoridade) assumia toda a responsabilidade. No experimento de Zimbardo, quem fazia o papel de guarda em uma penitenciária fictícia passou a humilhar quem fazia o papel de preso. E a maioria destes “presos” aceitou os desmandos e humilhações como se não houvesse alternativa.

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Stanley Milgram e Philip Zimbardo

Recentemente li o “Discurso sobre a Servidão Voluntária”, escrito pelo filósofo francês Étienne de La Boétie no século XVI. Fica claro que seguir ordens e não reagir contra elas, mesmo quando veementemente não se concorda com elas, é muito mais confortável. As pessoas podiam se rebelar e simplesmente desobedecer ao tirano, mas seguem atendendo suas ordens. Os submissos são responsáveis pela sustentação da tirania.

Étienne de La Boétie

Étienne de La Boétie

Hannah Arendt, filósofa alemã de origem judaica, acompanhou o julgamento do nazista Adolf Eichmann em Israel. Ela esperava encontrar um monstro, mas viu um homem absolutamente normal, um burocrata responsável pela logística de transporte de judeus até os campos de extermínio. Segundo Eichmann, ele simplesmente estava cumprindo a sua obrigação. Baseada nessa observação, Arendt cunhou o termo “Banalidade do Mal”.

Hannah Arendt

Hannah Arendt

Voltando a Philip Zimbardo, ele listou sete processos sociais que facilitam o escorregão para o mal no seu livro “O Efeito Lúcifer”:

– displicentemente dar o primeiro passo;
– desumanização dos outros;
– anonimato;
– responsabilidade individual difusa;
– obediência cega à autoridade;
– conformismo não crítico às regras do grupo;
– tolerância passiva ao mal pela inação ou indiferença.

O filósofo austríaco Karl Popper foi um grande defensor da tolerância, entretanto explicitou seus limites no livro “Sociedade Aberta e seus Inimigos” de 1945.

“Tolerância ilimitada leva ao desaparecimento da tolerância. Se estendermos tolerância ilimitada até mesmo para aqueles que são intolerantes, se não estivermos preparados para defender a sociedade tolerante contra a investida dos intolerantes, então os tolerantes serão destruídos, e a tolerância junto destes.”

Karl Popper

Karl Popper

Esta tolerância ilimitada poderia ser substituída por passividade – processo que transforma pessoas livres em zumbis ou simples cães de rua que só conseguem agir de acordo com a vontade da matilha que espera a iniciativa de seus mais insignificantes membros para sair da inércia.

P.S.: Aproveito para fazer um apelo ao prefeito da cidade de Orindiúva. A cidade apresenta ótima conservação de ruas, praças e prédios públicos, além de oferecer à população bons serviços nas áreas de educação e saúde. Está na hora de implantar um programa de castração dos cães de rua e oferecer este serviço para que os moradores possam esterilizar seus animais domésticos com baixo custo. Assim evitar-se-á a multiplicação de animais nas ruas e aumento de casos de zoonoses.

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