O Efeito Lúcifer – O Homem é o Homem e sua Circunstância (parte 2)

Na primeira parte, comentei o experimento de Stanley Milgram sobre a obediência, no qual pessoas davam choques de até 450 volts em desconhecidos. Desta vez, o experimento da prisão de Stanford, criado por Philip Zimbardo em 1971, será nosso assunto principal.

Phil Zimbardo em 1971

Zimbardo recrutou 24 jovens voluntários do sexo masculino que foram divididos em dois grupos: doze seriam guardas e os demais presos. Ele transformou algumas salas do subsolo do Departamento de Psicologia da renomada Universidade de Stanford em um presídio, instalando grades no lugar de portas. O experimento deveria durar duas semanas e cada voluntário receberia US$ 15 por dia, o equivalente a US$ 85 em 2012.

Os “guardas” usavam uniformes militares, óculos escuros e cassetetes de madeiras e receberam instruções que deveriam fazer de tudo para manter a ordem com exceção do uso de violência física. Os “presos” usavam camisolões compridos, sem roupa de baixo, tocas de nylon na cabeça para simular a raspagem dos cabelos e tiveram seus nomes trocados por números. O “superintendente” do presídio era o próprio Zimbardo.

Após o primeiro dia calmo, estourou uma rebelião no segundo dia. Os guardas passaram a humilhar os presos das mais diferentes formas, inclusive sexual. Obrigavam os presos a fazerem longos períodos de exercícios forçados. Cortavam refeições e retiravam os colchões dos presos com mau comportamento. Um dos presos teve um colapso nervoso e foi substituído por outro jovem que estava na lista de espera.

Stanford Prison Experiment

Algumas fotos da Prisão de Stanford

Este novo preso, o número 416, se revoltou contra os maus tratos sofridos e iniciou uma greve de fome. Os guardas o trancaram em uma pequena peça no escuro (solitária) por algumas horas e depois tentaram forçá-lo a comer, sem sucesso.

Muitos guardas se ofereciam para fazer horas extras não remuneradas para “ajudar” a manter a ordem na prisão. No turno da noite, alguns deles achavam que as câmeras não filmavam no escuro e protagonizaram várias cenas de humilhação grave contra os prisioneiros.

No sexto dia, Zimbrado pediu que uma colega pesquisadora, Christina Maslach, avaliasse o andamento do experimento. Ela ficou horrorizada com as condições e recomendou o final imediato das atividades. Zimbardo, que estava se sentindo envolvido emocionalmente pela situação, concordou. Assim o que deveria levar duas semanas, durou apenas seis dias.

A própria Drª Maslach avaliou os participantes do experimento e concluiu que um terço dos guardas apresentaram fortes tendências sádicas, enquanto que os demais permaneceram omissos. A grande maioria dos presos aceitou passivamente as humilhações impingidas pelos guardas.

Zimbardo chegou à conclusão de que a situação é mais importante do que a personalidade individual para a determinação do comportamento das pessoas. Os guardas uniformizados ajudaram a construir uma autoridade inquestionável sobre os presos que a legitimaram através da aceitação passiva. Estes resultados são semelhantes aos obtidos por Milgram em seu experimento.

A situação ocorrida neste experimento em Stanford guarda uma incrível semelhança com os lamentáveis fatos praticados por militares americanos na prisão iraquiana Abu Ghraib (foto abaixo). Parece que lá também o ambiente estimulou comportamentos reprováveis.

Foto de tortura na Prisão de Abu Ghraib

Se você quiser saber mais sobre este experimento, veja este documentário preparado pela BBC. No último post desta série, finalmente falarei sobre o Efeito Lúcifer e como evitá-lo.

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2 Comentários

Arquivado em Ética, Gerenciamento de Projetos, Gestão de Pessoas, História, linkedin, Psicologia

2 Respostas para “O Efeito Lúcifer – O Homem é o Homem e sua Circunstância (parte 2)

  1. Erivaldo Santo

    Gostei da tua abordagem feita em: O Efeito Lúcifer, situações constrangedoras são de fato impostas no mundo corporativo, como também no acadêmico por pessoas que aparentemente são tão boas, mas a delegação que lhes é atribuída, tornam-nas cruéis, ou seja, apenas permitem inconscientemente vir à tona o que tentavam esconder, de delegação recebida passam agir como poder conquistado para o exeercício da crueldade. Fui vítima desse tipo de pessoas, Ivan o terrível
    mereceria a canonização frente a estas pessoas.

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    • Erivaldo,

      Grato pelo seu comentário!

      Com certeza o ambiente influencia fortemente o comportamento dos indivíduos, mas cada um tem o poder de aceitar ou não a situação onde está inserido. Como Zimbardo apresentou no Efeito Lúcifer (3ª parte deste artigo), o verdadeiro heroi não fica passivo, reage, denuncia, tenta mudar o ambiente. Evidentemente, isto muitas vezes não é fácil, mas vale a pena tentar.

      Também tive um chefe parecido com o seu, não consegui agir para mudar a situação. Acabei saindo daquela empresa, mas aprendi a lição. Não podemos aceitar passivamente as agrassões e injustiças. Gostaria de citar ou sete processos sociais que facilitam o escorregão para o mal, segundo Zimbardo:

      – displicentemente dar o primeiro passo;
      – desumanização dos outros;
      – anonimato;
      – responsabilidade individual difusa;
      – obediência cega à autoridade;
      – conformismo não crítico às regras do grupo;
      – tolerância passiva ao mal pela inação ou indiferença.

      Abraço.

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