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Júlia – 10 Anos – Como Tudo Começou

Hoje nossa filha Júlia completa 10 anos. Pelo significado da data, gostaria de contar o susto e a primeira grande emoção que tivemos ainda antes do seu nascimento.

Eu e a Claudia já estávamos juntos há quase cinco anos, quando decidimos que teríamos um filho. No início de 2007, “encomendamos” o nenê. Ele ou ela nasceria em outubro.

O ano de 2006 foi um período de muito trabalho para mim. Muita coisa deu errado no ano anterior, mas em 2006 tudo deu certo! A empresa deu um prêmio para os profissionais que mais se destacaram no ano e eu ganhei uns dias com a Claudia em um hotel cinco estrelas em Cancun no México. A primeira ecografia estava marcada para a primeira semana após nossa volta ao Brasil.

hotel fiesta americana grand coral beach cancun

Hotel Fiesta Americana Grand Coral Beach em Cancun

 

Como não havia voos diretos a Cancun, voamos de Porto Alegre a São Paulo, onde pegamos o avião para Miami, de onde saiu o voo até nosso destino final. Tudo correu bem até nossa escala em Miami, nos Estados Unidos. O tempo para a conexão era relativamente curto e as filas na imigração americana eram longas. Chegamos no portão de embarque do voo para Cancun poucos minutos antes do embarque.

Entramos no avião, nos acomodamos, quando a Claudia deu uma notícia terrível:

– Estou sangrando…

Ela foi ao banheiro do avião e retornou em seguida, dizendo que realmente havia sangrado bastante, o que seria sinal de aborto. Decidimos viajar mesmo assim para Cancun, porque lá teríamos apoio da empresa onde trabalhava. Ligamos para o Aurélio, um colega que ganhou o mesmo prêmio e já estava no México, e sua esposa, Cristina, que é obstetra. Ela conversou com a Claudia e preparou o atendimento médico para nossa chegada.

A situação manteve-se estável durante a decolagem e o voo. Após pouco mais de uma hora e meia, pousamos em Cancun. No momento do pouso, a Claudia falou para mim que parecia que havia “descido” tudo. Foi novamente ao banheiro do avião e contou na volta que saiu muito sangue e um grande coágulo. Concluímos que perdemos nosso bebê. Ficamos muito tristes, enfrentamos as longas filas da imigração mexicana, pegamos nossa mala e saímos para a área de desembarque.

Cristina estava nos esperando e fomos para um hospital em Cancun. Na chegada, fizemos todos aqueles procedimentos padrões, preencher formulários, responder perguntas, medições de temperatura e pressão arterial. Um médico jovem chegou falando em inglês que o único profissional disponível para a ecografia só falava espanhol. Este é um ponto curioso da história, porque como os mexicanos não entendem bem português, acham que não entendemos espanhol.

Fomos conduzidos até o consultório da ecografia, prepararam a Claudia para o exame e o médico, responsável pelo exame, entrou na sala. A primeira imagem que surgiu na tela foi a silhueta perfeita de um bebê. Foi uma tremenda surpresa! Achávamos que não veríamos mais nada, mas lá estava um bebê imóvel. Não sabíamos se estava vivo. Claudia pediu em um portunhol perfeito:

El corázon?!?

O médico fez apenas um sinal tranquilo com a mão, pedindo um pouco de paciência. Ele parecia fazer uma ecografia de rotina. De repente nosso bebê começou a se mexer. Júlia se mexeu!!! Choramos de alegria… Foi a primeira grande alegria que a Júlia nos deu!

Juju

Júlia

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Meu Cinquentenário

Não é todo dia que se completa 50 anos. OK, vale o mesmo para 20, 32, 45 ou qualquer outra idade. A questão é o simbolismo dos 50 ou meio século se preferirem…

Passei um ano muito mais complicado do que o normal. Pensei muito no que já fiz e, principalmente, no que tenho que fazer para frente. Isto gerou uma tensão, porque não é fácil vislumbrar o próprio futuro. Só recentemente comecei a digerir a ideia que continuar minha jornada neste caminho incrível da vida é a melhor, talvez a única, alternativa.

Fiz amizades que gostaria que fossem para toda a vida. Não converso com a maioria destas pessoas há anos. É provável que, se eu encontrar alguns destes amigos do passado, o tempo tenha nos afastado de tal forma que nossa conversa será apenas social. Em compensação, conheci novas pessoas por causa dos meus novos interesses. Muitos dos novos amigos não têm a menor semelhança com os antigos. Será que eu continuo pelo menos, parecido com o Vicente de 20, 30 ou 40 anos atrás? Sinto-me como um agricultor que progressivamente foi trocando as plantas da sua fazenda.

De volta para a jornada, hoje tenho certeza que mais importante do que chegar a algum lugar é prestar atenção no caminho. Muitas vezes, estamos tão certos de que precisamos de alguma coisa que colocamos viseiras, como fazem com os cavalos de carroças, e o mundo ao nosso redor desaparece. Quantas oportunidades são perdidas assim? Nos convencemos que estamos apaixonados por alguém, sofremos loucamente com perdas, cobiçamos uma certa posição, desejamos bens materiais cada vez mais caros. E como ficam os amores maduros, o amor pelos filhos, a alegria de aprender coisas novas, os trabalhos que nos levam à autorrealização ou aquele lugar com atmosfera mágica?

Por exemplo, eu tive diversos tipos de chefes, alguns foram maravilhosos; outros, terríveis. Hoje eu compreendo a importância do sofrimento pelo qual passei nos períodos em que tive estes chefes terríveis. Tornei-me menos orgulhoso, entendi que não podia fazer apenas o que eu queria. Com o tempo também passei a ouvir melhor os outros e refletir se não havia outros caminhos para fazer a mesma atividade. Fiquei mais flexível, menos dono da verdade. Afinal o que é a verdade?

Voltando a falar sobre a jornada, às vezes, esbarramos em alguma coisa que passa a ser uma fonte inesgotável de prazer. Pode ser um hobby, uma música, um filme ou um livro. Para matar o tempo em uma conexão de voo, entrei numa livraria e vi, em uma estante, uma coleção de livros no formato pocket da L&PM. Entre estes livros, estava Hamlet de William Shakespeare. Apanhei o livro e li a primeira página da peça e entendi o que estava escrito. A tradução do Millôr Fernandes era simples; e a leitura, fluida. Comprei e devorei o livro. Depois li outros – Otelo, MacBeth, Júlio César, Rei Lear, Henrique V… O bardo inglês virou meu companheiro fiel de viagens!

No Rei Lear, o bobo da corte, que não tinha nada de bobo, disse para o rei que ele não deveria ter ficado velho antes de ter ficado sábio. Nos últimos anos tenho estudado assuntos muito diferentes dos meus velhos estudos de engenharia – genética, agricultura, filosofia, história… Quanto mais estudo, mais eu percebo que sei quase nada. Sócrates tinha razão! Não tenho a arrogância de me comparar a ele. Assim corro o risco de cair em um dilema. Poderia pensar que é melhor não estudar mais, porque à medida que tenho contato com diferentes disciplinas, me dou conta que meu conhecimento é uma fração cada vez menor do todo. Prefiro me esforçar, sem ansiedade, para, até o dia do meu último suspiro, chegar o mais próximo possível do zero. Aprender todos os dias é uma das belezas desta jornada.

No dia em que Steve Jobs morreu, assisti ao vídeo de uma palestra para formandos da Universidade de Stanford. Jobs deu quatro conselhos valiosos. O primeiro estabelece que só é possível unir os pontos da vida quando se olha para o passado. O segundo manda seguir o seu coração. O terceiro conselho é para não desperdiçarmos nossa vida, vivendo a vida de outra pessoa. E finalmente “stay hungry, stay foolish”. Seja humilde e não sacie nunca sua fome de novos conhecimentos e experiências.

De volta para Shakespeare, qual foi a melhor frase do príncipe Hamlet da Dinamarca? Todos pensarão que é o “ser ou não ser” que ele fala sem segurar uma caveira como muitos pensam. A melhor frase da peça não é de Hamlet e sim de Polônio, um bajulador do rei Cláudio. Quando seu filho Laertes está de saída para passar uma temporada no exterior, depois de vários bons conselhos, Polônio arremata de forma inesquecível:

– E, sobretudo, isto: sê fiel a ti mesmo. Jamais serás falso pra ninguém.

Muito antes de ler esta frase, já tentava seguia este conselho…

O grande David Bowie, que voltou para as estrelas neste ano, fez sucesso com a música “Changes” há 45 anos:

Look out you rock ‘n rollers
Pretty soon you’re gonna get a little older
Time may change me
But I can’t trace time

Se substituirmos a palavra tempo por jornada, posso afirmar que minha jornada me transformou. Felizmente não tenho total controle sobre minha jornada. Esta é a beleza da vida… Esta é a maravilha de olhar para trás e ver 50 anos e desejar viver ainda mais. Que jornada!

Talvez esta seja minha cara daqui umas décadas...

Talvez esta seja minha cara daqui umas décadas…

 

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