Arquivo do mês: janeiro 2026

O Autoritarismo Cotidiano – Notas a partir de O Agente Secreto

Há filmes que falam de um período histórico específico. Outros se voltam para o mecanismo social e institucional que explica seu funcionamento e permite sua repetição. O Agente Secreto, de Kleber Mendonça Filho, pertence claramente ao segundo grupo. Mais do que retratar um regime autoritário, o filme se dedica a expor como ele funciona por dentro nos pequenos gestos, nas hierarquias intermediárias, nas justificativas morais, nos silêncios convenientes.

É justamente por isso que o filme dialoga de forma tão direta com o Brasil atual. Não porque “repita” a história, mas porque revela padrões recorrentes: econômicos, políticos, institucionais e simbólicos que atravessam diferentes camadas da vida social.

Capitalismo de compadrio – ideologia como acessório

Um dos personagens mais perturbadores do filme é o empresário que orbita o poder. Ele não é movido por convicção ideológica, mas pelo acesso. Seu compromisso não é com projetos de sociedade, mas com contratos, proteção, privilégios e previsibilidade para seus negócios.

Esse tipo de empresário prospera em qualquer governo – esquerda, centro ou direita – desde que o Estado seja capturável. A ideologia entra apenas como verniz retórico. O que importa é a proximidade com o poder decisório.

Não é coincidência que muitos desses agentes prefiram regimes autoritários, especialmente ditaduras de extrema direita. Não por afinidade moral, mas por cálculo econômico. Regimes assim tendem a:

  • restringir greves e organização sindical;
  • reduzir direitos trabalhistas;
  • enfraquecer fiscalização;
  • limitar a liberdade de imprensa;
  • centralizar decisões, facilitando acordos diretos entre elites.

A democracia é custosa para esse tipo de empresário porque trabalhadores têm voz, conflitos são públicos e a regulação é disputada. A ditadura, ao contrário, barateia o conflito distributivo ao suprimir negociação, reprimir demandas sociais e reduzir o custo político de impor perdas a quem tem menos poder.

O poder que escorre – pequenas autoridades e grandes atrocidades

Outro ponto central do filme é o papel das autoridades intermediárias: policiais locais, burocratas, chefes menores. Em regimes autoritários, o poder não se concentra apenas no topo; ele escorre para baixo, criando um ambiente de empoderamento sem responsabilização.

Esses agentes passam a agir com a sensação de autorização permanente. A violência deixa de ser exceção e vira procedimento. Muitas atrocidades não são explicitamente ordenadas, mas incentivadas por clima, por sinais, por recompensas simbólicas.

O filme acerta ao mostrar que o horror não depende apenas de líderes carismáticos ou decisões centrais. Ele se sustenta na banalidade do poder cotidiano, exercido por gente comum investida de autoridade sem freios – aquilo que Hannah Arendt definiu como a “banalidade do mal”.

Preconceito regional como ferramenta política

O preconceito contra nordestinos aparece no filme não como detalhe cultural, mas como dispositivo funcional. Reduzir uma região inteira a estereótipos morais – atraso, dependência, ignorância – é uma forma eficaz de:

  • deslocar conflitos econômicos para o campo identitário;
  • fragmentar solidariedades nacionais;
  • justificar abandono institucional.

Esse discurso não desapareceu. Ele reaparece com força na extrema direita brasileira contemporânea, muitas vezes disfarçado de crítica econômica ou eleitoral. O Nordeste vira “culpado” por escolhas políticas, como se fosse um bloco homogêneo e moralmente inferior.

O filme mostra, com precisão incômoda, que esse tipo de preconceito não é apenas retórico. Ele prepara o terreno para exclusão, para a retirada de direitos e para a naturalização da desigualdade.

Anti-intelectualismo e o ataque às universidades

Outro eixo fundamental é a desvalorização da pesquisa e das universidades públicas. O discurso autoritário costuma atacar essas instituições sob o argumento de ineficiência ou ideologização. Mas o conflito é mais profundo.

Universidades públicas concentram exatamente o que regimes autoritários temem: pensamento crítico, produção autônoma de conhecimento, questionamento do poder.

A defesa da privatização ignora um dado básico da economia da inovação: pesquisa básica quase nunca é financiada pela iniciativa privada, devido ao alto risco, ao retorno incerto e ao longo prazo. Historicamente, as grandes inovações tecnológicas nasceram de universidades e de financiamento estatal.

Nos Estados Unidos, a própria internet surgiu de projetos financiados pelo Departamento de Defesa, por meio da DARPA. O GPS foi desenvolvido para uso militar. Os semicondutores tiveram forte apoio de compras governamentais e pesquisa pública. As vacinas de RNA mensageiro receberam décadas de financiamento dos Institutos Nacionais de Saúde antes de se tornarem viáveis comercialmente. E avanços em computação, satélites e ciência dos materiais foram impulsionados por programas da NASA. O setor privado entrou depois, quando o risco já havia sido socializado.

Enfraquecer essas instituições não é um erro técnico. É uma escolha política que empobrece o debate público, aumenta a dependência tecnológica externa e reduz a capacidade do país de pensar seu próprio futuro.

Violência, silêncio e adaptação

O filme também trata de algo mais desconfortável: a passividade. Não são apenas os agentes violentos que sustentam o sistema, mas também aqueles que se adaptam, se calam ou racionalizam abusos em nome da sobrevivência pessoal.

Autoritarismos modernos não se instalam por ruptura abrupta, mas por erosão gradual. Direitos são relativizados, cortes são normalizados, exceções viram regra. A violência se torna ruído de fundo.

Essa zona cinzenta entre vítimas e algozes é essencial para a manutenção do regime. O filme insiste nesse ponto porque ele é o mais difícil de encarar.

Desprezo pelo futuro

Ao desvalorizar educação, ciência e planejamento de longo prazo, o autoritarismo revela sua lógica mais profunda: a preferência pelo presente imediato. Regimes assim vivem de curto prazo, de manutenção de poder, de controle. O futuro exige instituições fortes, previsibilidade e crítica: tudo o que ameaça estruturas autoritárias.

Nesse sentido, o ataque à pesquisa e à universidade não é colateral. É estrutural.

Um alerta estrutural

Agente Secreto não propõe uma tese fechada, nem oferece respostas simples. Sua força está em mostrar como autoritarismos se constroem no cotidiano, combinando interesses econômicos, preconceitos simbólicos, empoderamento sem freios e anti-intelectualismo.

O anti-intelectualismo que ele expõe – a desconfiança sistemática em relação à ciência, às universidades e ao conhecimento especializado – não é um detalhe periférico, mas parte central da engrenagem autoritária. O movimento anti-VAX é um exemplo emblemático dessa lógica: a substituição de evidência por opinião, de pesquisa por crença, de debate informado por desinformação mobilizada politicamente. Ao corroer a confiança em instituições científicas, abre-se espaço para decisões baseadas em medo, ressentimento ou conveniência ideológica, com custos sociais reais e mensuráveis.

O filme incomoda porque sugere que o horror não depende apenas de grandes líderes, mas de arranjos institucionais, incentivos perversos e acomodações morais. Ele nos lembra que a democracia não se perde apenas em grandes eventos, mas em pequenas concessões sucessivas.

Talvez por isso o filme soe tão atual. Reconhecer esses padrões, no cinema e no mundo ao redor, é apenas o primeiro passo. Interrompê-los exige instituições fortes, ciência valorizada e uma defesa ativa do conhecimento como bem público – condição indispensável para qualquer democracia que pretenda sobreviver.

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Os Números de 2025 de World Observer by Vicente Manera

Até 2015, o WordPress enviava um relatório com as principais estatísticas do meu blog. Como esse serviço foi descontinuado, desde 2017, faço um post anual inspirado na mesma estrutura. Neste início de ano, mantenho a tradição para que os leitores possam acessar os dados de 2025.

Uma das brincadeiras mais amadas pelas crianças, e pelos adultos que “não saíram da 5ª série”, é a do fusca azul. Quem enxerga o fusca primeiro tem direito a dar um tapinha (de preferência, bem de leve…) nos outros que estão por perto. Na minha família, estendemos para outras cores, mas o fusca azul tem seu glamour especial.

Em 2025, este blog foi acessado 10,5 mil vezes. Considerando quatro pessoas por fusca, seriam necessários mais de 2.600 automóveis para acomodar todo esse contingente. Como um fusca tem cerca de 4 metros de comprimento, ao colocarmos todos eles em fila única, teríamos algo em torno de 10 quilômetros, quase a extensão da Quinta Avenida em Nova York.

Publiquei 16 artigos em 2025. Assim, o total de artigos desde 2009 chegou a 313.

Estes foram os 10 posts com mais visualizações no World Observer by Vicente Manera em 2025:

  1. Por que Netflix Errou ao Lançar o Filme Radioactive sobre Marie Curie? (publicado em maio de 2021);
  2. Segredinho no preparo da Proteína Texturizada de Soja (publicado em setembro de 2014);
  3. Rei Lear – A Velhice e a Sabedoria (publicado em novembro de 2011);
  4. Claude Monet e as Ninfeias (publicado em outubro de 2011);
  5. Ser ou Não Ser, Viver ou Morrer, Agir ou Parar – Hamlet Tinha Razão (publicado em novembro de 2011);
  6. Os Múltiplos Papéis da Mulher no Mundo Atual (publicado em novembro de 2013);
  7. A Revolta de Atlas – Francisco D’Anconia e o Dinheiro (publicado em junho de 2023);
  8. Fragmentados – Somos Kevin Crumb (publicado em setembro de 2021);
  9. Já Temos a Tese e a Antítese – Chegou a Hora da Síntese (publicado em outubro de 2009);
  10. Há Dois Mil Anos Atrás – O Genial Heron de Alexandria (publicado em dezembro de 2013).

Sete dos dez posts mais acessados têm mais de cinco anos, sugerindo que alguns textos têm vida longa. Eu até chamaria isso de “evergreen”, mas vou poupar vocês do vocabulário de marketing…

Em 2025, tratei dos mais diferentes assuntos. Escrevi desde amor e relacionamentos até descriminalização da maconha e taxa Selic. O artigo publicado em 2025 com o maior número de acessos diretos (147) foi sobre a guerra comercial envolvendo as tarifas dos EUA sobre produtos do Brasil:

O que muda com a tarifa de 50% dos EUA sobre produtos do Brasil?

Sobre amor e relacionamentos, o post mais acessado foi Eros, Philia e Ágape: Três Formas de Amar em uma Relação a Dois, com mais de 100 acessos.

O blog foi encontrado através de sites de busca (principalmente o Google) por quase 5,5 mil pessoas.

Os sites que mais mencionaram o blog foram Facebook, LinkedIn, WordPress e Instagram. Um artigo foi acessado por alunos do Instituto Federal do Mato Grosso do Sul (IFMS), enquanto outros acessos vieram de ferramentas como ChatGPT e Gemini, que citaram o blog como referência.

Pessoas de 61 países ou territórios acessaram o blog em 2025. Os leitores mais frequentes vieram, pela ordem, do Brasil, Estados Unidos, Portugal, Irlanda, Finlândia, Canadá, Bélgica, Alemanha, Reino Unido, Austrália, Polônia e Holanda.

As figuras do blog receberam 670 cliques e, aproximadamente, 400 downloads de arquivos foram realizados, com destaque para uma apresentação em PowerPoint sobre Poluição Hídrica para crianças.

Mantenho meu compromisso de continuar trazendo material de qualidade sobre os mais variados temas. Além disso, experimentarei outros formatos de mídia. Aguardem…

Agradeço sua participação em 2025 e aguardo suas críticas, comentários e sugestões em 2026.

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