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Relacionamentos são como Pudins

Você já ouviu essa frase? “Relacionamentos são como pudins; só dá pra saber se são bons provando-os.” É uma daquelas metáforas que parece simples, mas carrega uma enorme profundidade. E, pensando bem, quem inventou isso deve gostar tanto de pudim quanto de refletir sobre a vida. Porque, convenhamos, um bom pudim é praticamente uma declaração de amor em forma de sobremesa.

Um pudim perfeito é aquele que tem a textura cremosa, o equilíbrio no doce, e uma calda de caramelo que não puxa para o amargo, nem fica cristalizada como se alguém tivesse se distraído no meio do processo. Mas quando o pudim dá errado? Ele pode sair com furinhos demais, um gosto de ovo que ninguém merece ou, pior, desandar completamente, virando uma poça de caramelo e leite condensado mal resolvidos. A questão é que, olhando de fora, tudo parece promissor. Até aquele pudim meio torto pode parecer delicioso. Mas você só descobre a verdade na primeira colherada.

Agora, troque o pudim por relacionamento. A frase fez sentido?

Na nossa cabeça, é fácil imaginar aquele “quase relacionamento” como o pudim perfeito da vida amorosa. Por fora, as coisas podem parecer perfeitas. Cremoso, equilibrado, sem defeitos… Aquele que você não provou, mas tem certeza de que seria tudo o que você sempre quis. Só que essa fantasia não leva em conta os “furinhos” que você só percebe quando experimenta de verdade: as diferenças de rotina, de personalidade e de visão de mundo. E eu nem falei dos desentendimentos e imperfeições que todo relacionamento real tem.

E sabe o que mais? Esses “quase relacionamentos” geralmente se tornam terreno fértil para a idealização. Eles são como aquele pudim que você viu na foto do Instagram, com a calda brilhando sob a luz perfeita. Você pensa: “isso deve ser a melhor coisa do mundo!”. Mas, na prática, pode ser só um doce gelado e sem gosto. E enquanto você está pensando no pudim dos sonhos, aquele pudim real que está na sua mesa – feito com carinho, com os ingredientes disponíveis, e até com uns furinhos de personalidade – acaba sendo subestimado.

A verdade é que relacionamentos reais não são sobre perfeição. Eles são sobre testar receitas, ajustar o fogo, tentar de novo quando algo desanda. O que diferencia um pudim bom de um ruim não é só a receita – é o cuidado com que ele é feito e a paciência para acertar o ponto. Isso também vale para os relacionamentos. Eles são sobre colocar a mão na massa, resolver os “furinhos” juntos e aceitar que, mesmo quando as coisas não saem perfeitas, elas ainda podem ser deliciosas.

Então, se você está aí fantasiando sobre um “quase relacionamento”, imaginando que seria tudo o que falta na sua vida, respira… Lembra que o pudim que você ainda não provou pode ser incrível, mas também pode não corresponder às expectativas. Fantasiar sem limites sobre ele só alimenta uma ideia que pode não ter base na realidade. Ao mesmo tempo, o pudim que você já tem na sua frente – com seus pequenos “furinhos” e sua doçura construída no dia a dia – também merece ser apreciado e valorizado, especialmente porque é real, palpável, e já passou pelo teste do tempo.

A questão principal não é sobre qual “pudim” escolher, mas sobre fazer escolhas conscientes, baseadas na realidade, e não em fantasias. Se você decidir provar algo novo, que seja com clareza e responsabilidade, sabendo que nenhuma receita vem pronta e perfeita. E se a escolha for continuar saboreando o “pudim” que você já tem, que seja com gratidão por cada camada de doçura que ele oferece. O importante é lembrar que a vida não é sobre viver na expectativa de um “pudim” idealizado, mas sobre reconhecer e valorizar o que é real, aqui e agora.

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Matrix Resurrections – A Fuga da Obviedade

Na última semana do ano, eu e minha filha, Júlia, fomos ao cinema assistir a Matrix Resurrections. Desde que vi, em setembro, o primeiro trailer oficial com trilha sonora da música White Rabbit da banda Jefferson Airplane, jurei que não perderia oportunidade de “voltar à Matrix”.

Todos os comentários que detonaram o filme causam-me um certo estranhamento. Afinal o filme não era tão ruim para ser atacado de formas tão incisivas. Eu considero um bom filme, nota 7,0 ou 7,5. Por outro lado, não foram atendidas as expectativas destas pessoas. Ou, talvez, as expectativas eram elevadas demais.

Matrix (1999) é uma obra-prima das, hoje, irmãs Wachowski. Este é um filme que transcendeu o cinema e, em muitos aspectos, foi absorvido pela cultura popular. Já escrevi um artigo onde comparo a Matrix com a alegoria da Caverna de Platão. As duas continuações, lançadas em 2003, não chegam perto da qualidade e profundidade filosófica do primeiro filme. Provavelmente, as cenas de ação sejam as maiores lembranças dos dois últimos filmes da trilogia.

Mesmo assim, em Matrix Reloaded, há um espetacular diálogo entre Neo e o Arquiteto (criador da Matrix), quando ele classifica Neo como o resultado de uma anomalia da Matrix. Também informa que aquela era a sexta versão da Matrix. No final, o Arquiteto avisa que Zion, cidade onde vivem os últimos humanos livres, será destruída novamente e Neo teria a missão de selecionar algumas mulheres e alguns poucos homens para reiniciar o processo. Mas, naquele exato momento seu amor, Trinity, estava correndo sério risco de vida. Então Neo opta por salvar Trinity. Logicamente, esta opção não faria sentido, porque, no caso de desaparecimento da humanidade, ele e Trinity também morreriam. O Arquiteto avalia brilhantemente a escolha de Neo:

“Esperança. É a quintessência da auto-ilusão humana, simultaneamente, a fonte de sua maior força e de sua maior fraqueza.”

Quando revi recentemente o terceiro filme, Matrix Revolutions, existe um diálogo entre Neo e o agente Smith em uma das últimas cenas. Agente Smith quer entender o motivo que Neo continuava lutando mesmo sabendo que seria derrotado. A resposta de Neo é simples e marcante e vale por todo o filme:

“Porque eu escolhi (Because I choose to)!”

Esta é uma expressão clara do livre arbítrio. Voltarei a este ponto específico, durante a análise do novo filme.

Decidi que escreveria este artigo somente após rever o filme na HBO Max. Deste modo, pude confirmar algumas impressões e ver outros pontos que passaram despercebidos na primeira vez.

Em primeiro lugar, o filme não foi desrespeitoso com a trilogia. Em minha opinião, foi um grande tributo. A solução para trazer de volta Neo e Trinity foi muito aceitável. As mudanças da nova versão da Matrix e a paz entre humanos e máquinas também são apresentados. Certamente, as informações são insuficientes para aqueles que não se lembram ou não assistiram os filmes anteriores, mas não era este o público da esmagadora maioria dos espectadores.

A rejeição injusta não veio dos neófitos da Matrix, mas daqueles que são fãs desta trilogia. Como já mencionei, neste artigo, Matrix de 1999 é uma obra-prima, incrivelmente original, o que torna praticamente impossível a missão de igualá-la em qualidade. Quem foi ao cinema com esta expectativa só poderia se frustrar.

Aqueles que esperavam cenas de ação inovadoras, como o “bullet-time” do primeiro filme, também se decepcionaram. Muitas cenas de luta do Matrix Resurrections são caóticas. Uma das primeiras até causou-me um desconforto pela quebra da minha expectativa. Por incrível que pareça, achei estas cenas melhores de assistir na tela da TV do que numa sala de cinema IMAX.

Talvez os decepcionados esperavam por grandes revelações como, por exemplo, novas camadas de Matrix. Assim poderia existir uma Matrix dentro de outra Matrix, dentro de outra Matrix, dentro de outra Matrix… Seria quase um “Inception” (a Origem de 2010), onde as camadas da Matrix substituiriam as camadas de sonhos.

Esta Matrix de 2021 foi muito mais psicológica e sociológica do que filosófica, como o filme de 1999.

Thomas Arderson (Neo) está trabalhando em um novo jogo chamado Binary. Várias passagens do filme nos apresentam algumas destas polaridades, muitas vezes difíceis de distinguir, como se tudo fosse binário no mundo:

  • real x imaginário;
  • desejo x medo;
  • livre arbítrio x destino;
  • Thomas Anderson x Agente Smith (em um certo momento do filme até mesmo este antagonismo desaparece temporariamente).

Bugs, jovem e idealista comandante de uma nave da frota, fala para Niobe, que agora é a líder dos humanos livres na nova cidade de IO, que Niobe estava mais preocupada em cultivar vegetais do que libertar mentes. Assim, Niobe estaria mais interessada nas sensações do que no real. Também percebemos este ponto com o céu falso de IO.

Niobe também demonstra claramente medo que a paz com as máquinas termine por causa da liberdade de Neo e do seu interesse em resgatar Trinity. Ou seja, é a paz baseada em uma ética utilitarista, na qual os sofrimentos de Neo e Trinity seriam irrelevantes frente à paz em si.

A nova versão da Matrix foi criada pelo Analista. Ele coloca que os humanos decidem através dos sentimentos ao invés da razão. As versões anteriores, criadas pelo Arquiteto, eram baseadas unicamente em equações matemáticas, na razão. Esta nova versão previa esta característica humana, assim os humanos presos na Matrix ficavam confortáveis. Qualquer semelhança com realidade e distrações, no mundo atual, não é mera coincidência.

Em minha opinião, a principal reflexão deste filme é sobre a motivação das nossas escolhas. Elas seriam resultado do nosso livre arbítrio ou apenas obra do destino? Se for obra do destino, então todo o livro já está escrito e só nos resta a tarefa de encenar o texto, com pequena liberdade para alguns “cacos” menos importantes. Podemos pensar, por outro lado, que devemos fazer o que é certo. Este conceito nos alinha a ética do filósofo Immanuel Kant. Assim, o livre arbítrio seria fazer o que deve ser feito sem distrações e procrastinações. Como o novo Morpheus fala para Neo:

“A escolha é uma ilusão. Você já sabe o que deve fazer”.

Niobe, no filme, decide apoiar o plano para dar a Trinity a oportunidade de decidir sobre sua saída da Matrix. Ela fez o deveria fazer.

Matrix Resurrections também é uma grande história de amor entre Neo e Trinity – um amor “impossível” entre duas pessoas que estão próximas, mas separadas dentro e fora da Matrix.

Como eu e a Júlia achamos que não haveria uma cena pós-créditos, perdemos a piadinha do “The Catrix”, que faz sentido nos dias atuais, e a bela dedicatória de Lana Wachowski para seus pais:

Para papai e mamãe:

“O amor é a gênese de tudo”

O que é a mais pura verdade!

Para finalizar este artigo, o Analista faz a seguinte declaração para Neo e Trinity no final do filme:

“As ovelhas não vão a lugar nenhum. Eles gostam do meu mundo. Eles não querem esse sentimentalismo. Eles não querem liberdade ou empoderamento. Eles querem ser controlados. Eles anseiam pelo conforto da certeza.”

Talvez a esmagadora maioria das pessoas que odiaram o filme buscassem, na verdade, o “conforto da certeza” e Lana Wachowski não lhes deu isso.

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Como Assassinamos Nossos Insights

Vou prosseguir na minha excursão pela mente humana. Nos posts anteriores, comentei um pouco sobre a percepção da realidade e sobre as lembranças. Hoje comentarei sobre uma palavra que em português não tem uma boa equivalência: insight.

O insight é aquela ideia que surge em nossas mentes, aparentemente do nada, e temos a sensação de que alguém a soprou em nossos ouvidos. Parece uma centelha divina. Ou seja, alguns diriam que são enviados por um Ente Supremo, outros diriam que são as vozes de uma consciência universal… Os mais céticos ou egocêntricos afirmariam que sempre estiveram dentro de nossas cabeças, esperando a hora certa para aflorar. Tem outros ainda que acreditam que só acontecem graças aos estímulos externos: ambiente, leituras inspiradoras, companhias, música ou silêncio…

insight

Embora muitos não acreditem, temos estes insights toda a hora, mas nem sempre percebemos, porque nossas cabeças estão ocupadas com outros pensamentos. E o que causa este “congestionamento” mental? Parece que procuramos motivos para sofrer, ressuscitamos fatos do passado, maximizamos problemas do presente e antecipamos tragédias futuras.

Como no artigo anterior, já escrevi sobre as lembranças do passado, desta vez falarei mais sobre o presente e o futuro.

Todo mundo me pergunta como está minha vida neste primeiro ano em São Paulo depois de viver 45 anos no Rio Grande do Sul. Percebo que minha resposta surpreende as pessoas. Respondo com sinceridade que estou gostando de morar na capital paulista e o único aspecto negativo é o trânsito, mas não me estresso com isto. Aproveito aquela hora (às vezes mais do que uma) na solidão do carro na lentidão da Marginal Pinheiros para relaxar, ouvir música ou alguma entrevista interessante no rádio e pensar…  Muitas vezes surgem os mais variados tipos de insights, alguns muito engraçados que me levam às gargalhadas. Se eu ficasse todos os dias tenso e irritado com estes congestionamentos, será que eu ouviria meus insights que me conduzem a boas reflexões e garantem humor, no mínimo, razoável na chegada ao meu lar?

Engarrafamento na Marginal Pinheiros em São Paulo

Engarrafamento na Marginal Pinheiros em São Paulo

Evidentemente podemos interpretar as situações em que estamos inseridos das mais diversas formas. Percebemos a realidade, a criamos e a recriamos do nosso jeito dentro de nossas cabeças. Nesta semana, ouvi uma história sobre um colega de um prestador de serviço que vai ao encontro da minha. Ele gostava do trânsito intenso entre São Paulo e Santos no início dos feriadões, porque tinha a oportunidade de conviver por algumas horas com sua família. Para muita gente isto seria absurdo!

Outra armadilha é viver em um futuro que não existe e, se não nos dedicarmos no presente, jamais existirá. Acho importante construir castelos nas nuvens, porque nos mostram como pode ser nosso futuro, mas não podemos viver neles.

CastleInTheClouds03

Um comportamento comum, quando o tempo passa e nada acontece, é a criação de conspirações ilusórias onde todos estão contra e os outros são beneficiados por razões escusas. Neste momento, a pessoa se passa por vítima e acredita que tudo sempre vai dar errado com ela, apesar de fazer tudo certo (na perspectiva dela, é claro!). Ela deve vencer a batalha no interior da sua cabeça, onde os verdadeiros combates são travados. Só após esta vitória, será possível conquistar o mundo e construir seu castelo.

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