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São Paulo “Atacama” – A Crise Hídrica Acabou?

Hoje chove em Cotia. As notícias sobre a crise hídrica de São Paulo são tão escassas quanto as chuvas das últimas semanas. Passa a impressão de que o problema foi superado ou, pelo menos, não é grave. A tabela abaixo compara as reservas atuais de água com a situação no mesmo período do ano passado.

Seca_SP_Tabela_30-06-15

Por incrível que pareça, as reservas atuais estão 21% menores do que em 30/06 de 2014. Deste modo, entramos no inverno, o período mais crítico do ano, com 167 milhões de metros cúbicos a menos do que no ano passado. Se você comparar a redução do volume dos reservatórios no segundo semestre de 2014, verá que três sistemas de reservatórios poderão chegar praticamente vazios ao próximo período de chuvas – Cantareira, Alto Tietê e Rio Claro.

Seca_SP_Grafico_30-06-15

A Sabesp publicou a seguinte frase abaixo da definição de “reserva técnica” na página de seu site onde apresenta a situação dos mananciais:

“É possível ampliar em cerca de 180 milhões de metros cúbicos o volume da reserva técnica, desde que executadas obras que ampliem as instalações de bombeamento.”

Não achei nada sobre a obra acima. O projeto mais importante de 2015 é a transposição das águas do sistema Rio Grande para o Alto Tietê, orçada em R$ 130 milhões. Com esta obra, o Alto Tietê poderia abastecer diariamente mais 1,5 milhões de pessoas a partir de setembro. No final de junho, foi inaugurada a transposição de água do rio Guaió para o Sistema Alto Tietê, um volume de água suficiente para abastecer entre 300 e 400 mil pessoas.

O projeto mais importante é a ligação entre a bacia do rio Paraíba do Sul e a represa Atibainha (Bacia do Sistema Cantareira), orçada em R$ 830 milhões, prevista para entrar em funcionamento em 2016, deverá entrar em operação apenas em 2017. Esta obra poderá transferir um volume de água para o Cantareira suficiente para abastecer uma população entre 2 e 3,4 milhões de pessoas. Todos estes projetos são necessários, mas apenas interligam mananciais que passarão a esvaziar ou encher de forma mais equilibrada. Não se planejam projetos para racionalizar o consumo e reduzir desperdícios.

Todas as obras para mitigar a crise hídrica atrasaram. Ou seja, nem perante uma situação emergencial, o governo paulista conseguiu ser ágil.

Geraldo Alckmin dá início a obra de interligação de sistemas [Fonte: site do El País]

Geraldo Alckmin dá início a obra de interligação de sistemas [Fonte: site do El País]

A população de São Paulo está colaborando para a economia de água. No mês de maio, 83% dos clientes receberam bônus por economizar água e apenas 17% consumiram mais do que sua média do ano anterior. Como “prêmio”, a tarifa de água da Sabesp teve um reajuste de 15,24% em maio. A medida provavelmente foi estimulada pela queda na lucratividade da empresa – no primeiro trimestre de 2015, o lucro que foi de R$ 318,2 milhões contra R$ 477,6 milhões no mesmo período de 2014.

Como a geração de energia elétrica no Brasil é majoritariamente hídrica, a seca também complicou a situação em relação à eletricidade. Termoelétricas a gás natural e a óleo combustível foram ativadas e o custo do kWh subiu. O governo federal inventou a regra das bandeiras na conta de luz e agora estamos sob o regime da bandeira vermelha, a tarifa mais alta. Se isto não bastasse, reajustes tarifários são autorizados com índices muito acima da inflação oficial.

A geração domiciliar de eletricidade, através de painéis solares fotovoltaicos, é pouco incentivada no país. Se uma pessoa produzir mais do que consome, não receberá nada em troca. Este montante será acumulado em uma conta para compensar o total consumido através da rede da concessionária e, se após 3 anos não for utilizado, este crédito é zerado. Deste modo, não existe incentivo para gerar mais do que é consumido e a maioria dos projetos prevê uma geração entre 80 e 90% da necessidade média da residência. A Alemanha trilhou um caminho radicalmente oposto, seu governo incentivou a geração solar distribuída com enorme sucesso.

Painel solar fotovoltaico residencial

Painel solar fotovoltaico residencial

No Brasil, o litoral norte de Santa Catarina é a região com menor irradiação solar global (4,25 kWh/m2) devido à localização geográfica e à nebulosidade. Mesmo assim seu potencial para geração de eletricidade é 3,4 vezes maior do que a melhor região da Alemanha. A geração fotovoltaica em telhados residenciais tem o potencial de gerar o equivalente a mais de 2,3 vezes o consumo de eletricidade residencial brasileiro. Apesar do seu enorme potencial, o Brasil produziu em 2012 apenas 42 GWh de energia elétrica de fonte solar contra 28 mil GWh da líder mundial Alemanha.

No caso da seca no sudeste brasileiro, incentivar a captação e aproveitamento de água da chuva e o reuso de águas com menor potencial poluidor também não faz parte das agendas dos governadores estaduais.

Nos dois casos, os grandes, complexos e caríssimos projetos são sempre os preferidos para a solução dos problemas em detrimento do incentivo a obras muito mais simples em residências e empresas. Parece que os grandes lobbies empresariais conseguem sempre influenciar decisivamente na elaboração dos regulamentos que regem as atividades do próprio setor e nas políticas governamentais.

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São Paulo “Atacama” – Aproveitamento de Água da Chuva e Reuso de Água Já!

Na quarta-feira passada, terminamos a instalação de um sistema de aproveitamento de água da chuva, composto de calha para a coleta de chuva do telhado de nossa casa e tubulações para encaminhá-la até um tanque de 2 mil litros. Antes de entrar neste tanque, a água passa por um filtro e um separador de chuva fraca (mais poluída). Poderemos recuperar, dependendo da quantidade de chuvas, entre 6 e 15 mil litros de água por mês. Veja as fotos abaixo.

Sistema coleta agua chuva

Eu e Claudia estamos à disposição para ajudar a implantar sistemas de coleta de água da chuva como este se sua casa estiver localizada nas proximidades de Cotia. Especificamos o sistema e contamos com uma equipe com experiência neste tipo de instalação.

Nestes últimos meses, escrevi dois artigos sobre a seca em São Paulo e a inércia do governo de São Paulo para combater seus efeitos. No primeiro, em setembro do ano passado, mostrei que a situação rumava para o caos com a redução acelerada das reservas de água do estado, apesar do governador Alckmin negar o óbvio por motivos eleitorais. No segundo artigo, um mês depois, apresentei várias medidas para reduzir o consumo de água, inclusive a coleta de água da chuva.

O governo pede que a população economize água, mas o mais impressionante é que as sugestões não fogem do lugar comum: escovar os dentes ou fazer a barba de torneira fechada, tomar banhos mais curtos, não lavar calçadas e automóveis. Claro que estas medidas ajudam, mas é muito pouco para reverter o atual quadro da estiagem no estado. Precisa-se de ações que disponibilizem mais água em curto espaço de tempo, como a coleta de chuva e o reuso da água cinza (máquinas de lavar roupa, chuveiros e pias). Não podemos esperar, no mínimo dois anos, que um sistema sofisticado e caríssimo seja implementado para tratar as águas poluídas da Represa Billings. As outras obras já anunciadas pelo governo estadual só começarão a entrar em funcionamento no final de 2015. Como conseguiremos superar o período de estiagem que começará em abril?

Se o poder público não toma as decisões necessárias para tentar reverter a situação dramática causada por esta seca, cabe a nós cidadãos achar boas alternativas para reduzir o consumo de água. O diretor da Sabesp para a região metropolitana de São Paulo, Paulo Massato, citou a possibilidade de um “rodízio drástico” de até cinco dias sem água por semana. Você já imaginou ter água na sua torneira apenas dois dias da semana?

Para ter uma ideia mais clara da dimensão da crise hídrica paulista, apresento um raio-X que preparei sobre a queda das reservas de água nos principais sistemas de reservatórios de São Paulo.

Seca_SP_Tabela_31-01-15
Seca_SP_Grafico_31-01-15
Seca_SP_Reservas_31-01-15

Como pode ser visto o segundo volume morto do Cantareira deve acabar em março. Existe a possibilidade de usar uma terceira reserva de 41 bilhões de litros da Represa Atibainha, mas esta medida aumentaria o disponibilidade de água do Cantareira em apenas 4,2 pontos percentuais. Ou seja, daria uma sobrevida somente até abril. O Sistema Alto Tietê deve secar no primeiro semestre de 2015, junto com o Sistema Rio Claro. O Guarapiranga, que está em melhores condições graças às chuvas deste verão, deverá ter a retirada de água aumentada devido ao colapso do Cantareira e Alto Tietê, provavelmente não chegará com água até a próxima estação das chuvas, em dezembro deste ano. O pequeno Alto Cotia segue a mesma tendência do Guarapiranga.

Agora começamos a estudar o reaproveitamento da água da máquina de lavar roupa. Medimos o gasto de água por ciclo completo de lavagem e chegamos a 90 litros por ciclo. No nosso caso, a lavagem de roupas pode ser responsável por quase metade do consumo mensal de água! Se sua máquina tem abertura superior fica fácil aproveitar a água do enxágue final como água da primeira lavagem das roupas. Infelizmente, nossa máquina tem abertura frontal, mas vamos criar um sistema para reduzir seu consumo e apresentaremos a solução aqui no nosso blog.

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