O Gambito da Rainha e a Volta do Meu Encantamento pelo Xadrez

Muitas vezes, repentinamente, deixamos de fazer atividades que, até aquele momento, gostamos e praticamos com frequência. Claro que não estou falando de alguém que está fazendo atividades esportivas ou dietas apenas por razões de saúde ou estéticas. Nesta situação, a tendência natural é abandonar a prática, porque não é realizada por prazer; e sim, por obrigação.

Na semana passada, assisti à série do Netflix “O Gambito da Rainha” (original “The Queens’s Gambit”). Obviamente lembrei dos tempos em que eu jogava xadrez e da minha decisão de afastar-me do tabuleiro.

Aprendi a jogar xadrez e damas cedo. Meu pai era um bom jogador de damas, mas não gostava de jogar xadrez. Segundo ele, o xadrez era muito demorado e ele preferia o dinamismo do jogo de damas. Além disso, ele não aliviava em nenhum jogo: futebol no quintal, futebol de botão ou damas. Deste modo, se eu ganhasse dele em qualquer modalidade, seria porque eu joguei melhor.

No início, perdia quase todas partidas de damas, depois as estatísticas ficaram mais parelhas e, finalmente, no final da minha adolescência, ganhava a maioria das partidas. Assim, minhas habilidades nas damas evoluíram, porque eu tinha um “sparing” muito bom.

No xadrez, tinha um colega no ensino médio, meu amigo inesquecível Eduardo Schaan, que jogava melhor do que eu. Ele era meu estímulo para evoluir. Decidi que precisava estudar mais para evoluir e comprei o “Manual Completo de Aberturas de Xadrez” de Fred Reinfeld. Foi uma ótima compra, o livro me ajudou a ter um jogo mais sólido e não cometer erros elementares que comprometiam minhas partidas. Decorei várias aberturas, além de algumas partidas inteiras.

Passei no vestibular para engenharia química. No centro acadêmico da engenharia, jogava-se, nos intervalos das aulas, ping-pong numa sala; cartas, em outra; e ainda xadrez, numa terceira sala. Eu jogava algumas partidas de xadrez e assistia a outras. Provavelmente este foi meu auge como jogador. Conseguia vislumbrar jogadas que a maioria não enxergava.

Ainda no primeiro ano do curso, vi o cartaz do campeonato aberto de xadrez da engenharia. Claro que fiquei entusiasmado para testar minha força em um campeonato oficial. Quando cheguei no local do torneio, aconteceu uma situação muito parecida com a da protagonista da série, Beth Harmon, em seu primeiro campeonato no Kentucky, perguntaram qual era meu rating. Eu não tinha rating, era meu primeiro torneio, mas cinco competidores já participavam de torneios da Federação Gaúcha de Xadrez. Sentamos em frente aos tabuleiros e o organizador anunciou solenemente:

– Hoje temos a honra da presença do atual campeão gaúcho de xadrez, Iwakura, e também do campeão de Porto Alegre, Palmeira.

Iwakura estava em frente do tabuleiro na minha esquerda e o Palmeira era meu adversário do primeiro jogo…

Perdi com honra após quase uma hora e trinta minutos. Nas duas partidas seguintes, contra amadores do meu nível, empatei uma e ganhei a outra. Fui disputar meu último jogo contra um dos cinco “profissionais”. Certamente sofri o maior massacre em toda a minha incipiente carreira de enxadrista.

Tive a certeza que precisava estudar muito para poder fazer frente contra aqueles cinco enxadristas. Se eu quisesse jogar no nível dos melhores do Brasil, deveria estudar mais ainda e havia a forte probabilidade de que, nem assim, eu seria capaz de derrotá-los.

Como eu era muito competitivo naquela época, aos 17 anos, resolvi encerrar minha carreira. Eu gostava muito de xadrez e poderia continuar jogando de forma amadora contra adversários do meu nível, mas minha decisão foi radical. Provavelmente joguei menos partidas nestes últimos 37 anos do que joguei entre 1982 e 1983.

O Gambito da Rainha me devolveu o prazer de assistir a um jogo xadrez, analisá-lo e sentir prazer ao ver belas jogadas. O cuidado da produção, os jogos, a atmosfera e as belíssimas partidas como a última criada pelo ex-campeão mundial Garry Kasparov (consultor da série) reacenderam a chama.

Hoje entendo melhor minhas limitações e como usufruir das atividades que me proporcionam satisfação pessoal. Por exemplo, gosto de cozinhar, mas não tenho pretensão de participar do MasterChef. Gosto de correr, mas não me frustra ter corredores da minha faixa de idade ou mais velhos com desempenhos muito melhores nas competições em que participo. Faço o melhor que posso e isto me satisfaz. Talvez, se eu tivesse encarado o sétimo lugar daquele campeonato de xadrez da engenharia como o vice-campeonato entre os “amadores”, não teria me afastado do xadrez por longos 37 anos…

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